VII. Peças de dominó e conversas na beira da praia
A verdade é que Sawyer não teve muito tempo para gastar com sua angústia e frustração pela perda do Black Rock. Os instantes após um naufrágio requerem muito, muito trabalho, e eles eram poucos.
Tiveram de entrar no oceano incontáveis vezes no intuito de recuperar algumas das coisas que levavam a bordo, como roupas, mantimentos, copos, talheres. Jack procurou com obstinação sua caixa de instrumentos médicos, mas jamais chegou a encontrá-la.
Constataram que os mantimentos de que dispunham haviam se perdido no naufrágio; os sacos com a comida haviam afundado e mesmo que alguém os recolhesse no fundo do mar, estariam estragados. Com pesar nos olhos, Sawyer se deu conta de que os gigantescos e pesados barris de rum (e de água também, mas isso era o de menos) haviam ou submergido, ou quebrado.
Sentiu um arrepio desagradável ao pensar nos litros da bebida que haviam sido diluídos na água salgada.
Colheram madeira também. Não do bosque, mas do navio. Colheram os pedaços de madeira que flutuavam no oceano, resquícios da embarcação perdida. Queriam fazer uma fogueira para chamar a atenção de algum navio que porventura estivesse passando.
Ao final de algumas horas, esgotados e famintos, os pobres náufragos sentaram-se na praia, as pernas e os braços doloridos. Todos menos um.
Era certo que o naufrágio afetara a todos, mas nenhum deles chegou perto da transformação que sofrera John Locke.
Durante todo o tempo em que os outros trabalharam em colher madeira para fazer a fogueira, John ficou sentado, as pernas encolhidas e a mão coçando o queixo lentamente, o que sempre indicava que o pirata estava entretido com suas próprias idéias.
Não disse uma só palavra, nem mesmo quando Jin lhe ofereceu um atrasado almoço (um peixe que ele mesmo havia pescado), quando as últimas luzes do dia deixavam o céu avermelhado. Os olhos atentos, a face estampando uma expressão indecifrável, ele não se cansou por um só instante de observar o oceano, que, naquele momento, lembrava um grande lençol verde-azulado.
"Precisamos de mais madeira," anunciou Sayid. "Se você ajudasse, John, poderíamos terminar a fogueira mais rápido."
Se ele o ouviu, não demonstrou, pois nenhuma parte de seu rosto foi modificada. Ele continuou, tão silencioso como antes, fitando o horizonte vazio.
"Deixa ele um pouco," falou Kate, as mãos liberando madeira na pilha.
A fogueira, tão esquisita e pouco uniforme que surpreendia por se sustentar de pé, foi erguida aos poucos, na medida em que o dia passava e Sayid, Sawyer, Jack, Kate, Eko e Jin empilhavam madeira.
"Ainda não está suficientemente alta," informou o árabe.
"Nós já recolhemos toda a madeira que estava razoavelmente próxima do oceano," comentou Jack. "Será bem difícil pegar o que está mais no fundo."
"Então devemos ir pegar na floresta," e ao notar o olhar tenso que todos lhe lançaram, adicionou. "Somente na orla."
Houve um silencio desagradável em que todos desviaram os olhos para a mata que se situava atrás deles.
"Esplendido!" retrucou o capitão com sarcasmo. "Você vai na frente, se assegura de que não tem nenhum bicho selvagem por lá e depois chama a gente. Caso não volte em, hm, digamos, meia hora, saberemos que alguma onça sanguinária achou que você daria um delicioso jantar."
"Não podemos esperar até amanhã? Só falta uma hora para o sol se pôr, e ir até a mata de noite certamente será mais perigoso do que de dia, com claridade," raciocinou o médico.
"A fogueira só servirá de sinal de noite. Quanto mais cedo a acendermos, melhor," disse Sayid, arrematando a fala com um "Venham," mas não foi em direção à mata. Ele os conduziu até a caixa que fizera tanto esforço para salvar e que agora repousava sobre a areia.
O cadeado impedia que a caixa fosse aberta.
"Use isso," falou Eko, mostrando a Sayid uma pedra próxima a eles.
Sayid quebrou a fechadura num só violento golpe e a caixa se abriu com um clique suave. Seu conteúdo agradou o capitão.
"Temos duas pistolas aqui," o árabe mostrou. "Acho que se vamos em direção à floresta, devemos levar as armas," fez uma pausa e notou os outros o observando com atenção. "Por isso eu penso que somente dois de nós devam ir."
Houve um silêncio em que todos esperaram alguém se candidatar.
"Você espera o que? Que a gente jogue nos dados, Aladim?" riu-se Sawyer.
"Dominó," disse ele. "Os dois que tirarem a maior peça, somando-se os dois lados, vão."
"Dominó? Dominó!" exasperou-se o capitão. "Você salva armas, você salva o dominó, mas você não salva o rum. Honestamente, que tipo de pirata você é?"
E enquanto Sawyer se lamentava pelo não-salvamento do rum, Sayid tirou as peças do bolso ("Eu e Jin estávamos jogando na hora do naufrágio!", justificou-se) apoiou seis peças nas duas mãos e esperou que cada um escolhesse a sua. O momento foi um pouco tenso, naturalmente, porque momentos tensos precedem esse tipo de situação.
"Eu vou," disse Jack, assim que seus olhos pousaram sobre a peça, pois eram dois seis. Apanhou uma das armas da caixa.
Ah!" retorquiu Sawyer em um movimento que parecia teatral e divertido. "Adoro a empolgação dos novos recrutas. Sempre tão prestativos e azarados."
Os outros cincos mostraram suas peças e, após uma atenta comparação, perceberam que Kate deveria ir com o médico. Sayid, no entanto, foi cavalheiro o suficiente para intervir.
"Eu vou," anunciou ele com a voz firme, recolhendo a arma que sobrara e largando a peça do jogo em seu lugar.
"Não," disse Kate. "Sou eu quem tem que ir."
"Kate..." ponderou ele.
"Tudo bem. Eu costumava caçar quando era pequena e..."
"Ah, mas que recrutas formidáveis eu arrumei dessa vez, não é mesmo? Tão heróicos, tão prestativos. Como vocês já dividiram as tarefas," o capitão comentou com um sorriso irônico, "eu noto que cabe a mim acender a fogueira quando ela estiver pronta. Me dêem licença que eu vou ali praticar com dois gravetos."
E saiu.
"Tomem cuidado, vocês dois," pediu Sayid quando Jack e Kate fizeram menção de dar meia volta e andar em direção à floresta.
"Você também." A intuição de Jack o fazia pensar que a praia não era menos perigosa do que aquele bosque.
Quando Sawyer disse "eu vou ali praticar com dois gravetos" ele, obviamente não falava sério, porque coisas como gerar um pouco de fogo para acender uma fogueira não requerem qualquer tipo de prática.
Ele decidiu-se por fazer algo um pouco mais interessante.
Vagueou pela praia de um lado ao outro, os pés afundando na areia fofa e produzindo pegadas, até que se cansou e foi conversar com John Locke.
Sentou-se ao lado do pirata pensando que gostaria de um pouco de rum. A bebida certamente faria a conversa fluir melhor.
Os dois olhavam o oceano, sentados na areia, quando Sawyer começou. "Como você não compareceu à eletrizante partida de dominó que acabou de ocorrer, receio que caberá a você arrumar um lugar para dormirmos."
"Conseguiram salvar algum barril do navio?"
"De rum? Não. Que fatalidade!, que fatalidade!, eu sei," lamentou-se o capitão.
"De água."
"Ah, disso daí também não."
"Eu estaria mais preocupado com a água do que com um lugar para dormir. Ou com o rum." Sawyer o fitou com um olhar de fúria ao ouvir o seu oh-tão-sagrado rum sendo tão menosprezado, e por seu próprio marujo! "Podemos nos deitar em qualquer lugar para descansar, mas não sobreviveremos muito tempo sem água."
"Bem, eu não vi você se levantando daqui para tentar salvar os barris, sabe?"
"Eu estava..."
"Sendo um perfeito preguiçoso?"
"Pensando."
"Pensando que você deveria estar ajudando ao invés de ficar sentando sem fazer nada? Salvando rum, quem sabe."
"Pensando..." ele não se importou com a hostilidade de Sawyer. Na verdade, sequer reparou nela, porque a euforia que tomou seu rosto bloqueou qualquer percepção sua, "que você estava certo."
"Naturalmente que estava certo. Eu sempre estou certo," disse com um sorriso orgulhoso e suntuoso. "Esclareça-me apenas uma coisinha de nada. Eu estava certo em relação a que, exatamente?"
"Quando você disse que a bússola nos levaria a um tesouro."
"Ah, isso," fez um movimento com a mão de desprezo, como se quisesse espantar uma mosca que não existia. "Ela nos trouxe um tremendo azar, isso sim."
"Ela nos trouxe até essa ilha."
"John..." Sawyer fixou seu olhar sobre ele, adquirindo uma seriedade súbita. "Você por algum acaso notou que não havia nada aqui antes do navio decidir brincar de se espatifar em mil pedaços?"
Ele havia notado. Sawyer soube pela expressão que tomou conta da face do pirata ao ouvir a pergunta.
"Eu olhei os mapas que você tinha sobre a mesa," John disse, os olhos brilhando em deslumbramento.
"Invadindo a sala do capitão. Se estivéssemos no navio, seu castigo seria caminhar sobre a prancha, você sabe disso."
"Sorte a minha que não temos mais um navio e nem uma prancha em que eu possa caminhar," sorriu. "Quando você e Kate foram para a proa, eu olhei o mapa atentamente. Eu comparei com um outro mapa semelhante de mesma escala. E algo me intrigou profundamente.
"A minha perfeita capacidade de desenhar cartas geográficas, naturalmente..."
"Não havia ilha alguma ali. Mas, então por que a bússola se comportava como se a ilha estivesse chamando por ela?"
"Bússola se comportando, ilha chamando. John, você precisa seriamente trabalhar nessa sua obsessão de tratar coisas como seres humanos."
"Eu não me dei por satisfeito e fui eu mesmo olhar do lado de fora, como vocês estavam fazendo."
"E o navio reclamou porque você pisou nele com força..." brincou o outro. "Você viu a ilha?" Sawyer inclinou as costas e aproximou seu rosto para não perder um único aspecto da expressão de John.
"Não," disse. Algo em sua voz tinha um quê de profético.
"Vamos concordar logo de uma vez que nós não estamos loucos, que essa ilha simplesmente não apareceu do nada e que fomos, simplesmente desatentos, sim?"
"É o que você acha? Que nós não vimos uns cinco quilômetros de ilha?"
"Ou nós não vimos cinco quilômetros de ilha ou cinco quilômetros de ilha surgiram de repente do meio do oceano," disse enfiando as mãos nos bolsos para pegar o cachimbo que somente se salvara por sempre estar sempre enfiado em algum lugar de sua jaqueta. "Eu não sei quanto a você, mas, para a minha sanidade, eu fico com a primeira opção."
"Mas você sabe que não é a verdadeira."
"Você acha o que, então? Que o navio fez a ilhar brotar?"
"Não, não. Isso seria ridículo," ele respirou profundamente e Sawyer achou que ele parecia sorrir. "O navio foi um sacrifício que a ilha exigiu. A oferenda para que ela se mostrasse."
Sawyer riu alta e longamente. "Mas isso não é ridículo."
"Mas por que uma ilha exige tanto para ser vista, você deve estar se perguntando."
"Eu estou me perguntando um monte de coisas, John. Nenhuma delas chegou perto disso," acendeu o cachimbo e o tragou com veemência.
"Porque," John observou a ponta acesa do cachimbo brilhando avermelhada. "ela esconde algo valioso."
A palavra valioso fez Sawyer se remexer no local em que se sentava. Areia entrou pelas frestas mínimas de seus sapatos.
"Valioso?"
"Como um tesouro," John finalmente falou, a voz ecoando muito mais alta do que realmente estava e morrendo lentamente. "O tesouro que você havia dito que a bússola mostraria."
Sawyer soltou a fumaça que flutuou pelo ar por um tempo antes de se esvair. Em seguida disse:
"Eu sempre ouvi falar de tesouros escondidos em ilhas, mas, isso?"
"Você consegue imaginar a quantidade de ouro que deve ter aqui?"
E então os dois riram ruidosamente. Eles podiam ter naufragado, podiam ter perdido todo o rum, podiam estar perdidos em uma ilha deserta e escondida do mundo, mas com a perspectiva de um tesouro a ser descoberto, eles riram. Riram e se lamentaram em seguida, porque não havia ali rum algum para comemorar. Então riram de novo. Com o novo tesouro comprariam milhares de garrafas de rum. E comemorariam em dobro.
Então Sawyer ouviu Sayid lhe gritar.
"Capitão, você vai acender a fogueira ou eu mesmo devo fazer isso?"
Levando-se em conta os rumos da conversa, Sawyer deu nos ombros. Pouco se importava com a maldita fogueira, agora que havia um tesouro.
"A fogueira será completamente inútil," declarou John.
"Eu sei." Então algo ocorreu ao capitão.
"Como sairemos daqui depois de encontrarmos o tesouro, John?"
Locke pareceu pensar por um instante antes de responder. "A ilha nos dirá o caminho."
"Ah, sei. Alguma chance da ilha, além de nos dizer o caminho, querer trazer o Black Rock de volta?" Riu-se, e John não o levou a sério. Como de costume.
N/A: Não, eu não me canso. Ani, obrigada de novo.
N/A2: Há. Finalmente, um novo capítulo. Interação Sawyer-Locke é algo que me agrada muito e eu sinto profundamente que não hajam tantas cenas dos dois na série. Eles são tão divertidos e adoráveis. E falando em interação, céus, eu sinto que vão me matar por ter colocado o Jack pra ir com a Kate na mata, e agora eu vou tentar pra explicar, somente para não ter uma morte tão dolorosa: ainda que a história se passe num universo alternativo, eu estou tentando me manter, dentro do possível, fiel aos acontecimentos do programa. E o Jack e a Kate de fato partilham várias cenas juntos De qualquer modo, espero que tenham gostado desse capítulo.
