VIII. A primeira ida à floresta
A noite estava prestes a cair quando Jack e Kate chegaram à orla da floresta a passos receosos. Ouviam os últimos piares do pássaros que, embrenhados na mata, alternavam entre o vôo e o pouso nas copas das árvores.
"Você sabe se guiar por estrelas?" arriscou Jack a primeira pergunta, virando a cabeça para trás para encarar Kate.
"O quê?"
"Estrelas," ele indicou o céu com um dos dedos. "É melhor nos guiarmos por elas para não nos perdermos."
"Quase não dá para vê-las agora."
"Daqui a pouco as veremos com nitidez, eu suponho, quando ficar mais escuro."
"Mas por que diabos você quer se guiar por estrelas? Os outros estão..." ela correu os olhos até ver a praia e a fogueira que se erguera com uma silhueta torta, "bem ali."
"Acho que devíamos entrar um pouco na mata..."
"O quê?"
"Eu só preciso checar uma coisa."
E entrou, assim, sem mais nem menos, como um lunático.
"Jack," chamou Kate uma vez, mas não obteve resposta. Ouviu apenas o som de galhos se partindo e o farfalhar sutil das folhas quando os pés do médico se arrastaram sobre elas. "Jack," chamou pela segunda vez, a voz um pouco mais alta, mas ainda assim impotente perto daquele labirinto de árvores.
E então, amaldiçoando o médico mentalmente por sua total falta de juízo, e lutando contra o temor que se instalara nela ao ver aquela floresta, entrou.
"Jack," chamou pela terceira e talvez última vez, os olhos azuis arregalados, procurando qualquer sinal do homem.
"Aqui," a voz fê-la sobressaltar.
"Você está louco?"
"Eu já disse," deu nos ombros. "Só quero checar uma coisa."
"Quer checar qual é o tempo limite de sobrevivência das pessoas no meio de uma mata desconhecida?"
Ele riu baixinho. "Então..." disse Jack, e não se virou para fitá-la. "Vai me dizer por que é que setenta por cento da Marinha persegue você?"
Kate riu uma risada visivelmente desconfortável. "Eu não acreditaria em tudo o que Sawyer diz."
"Mas isso é verdade," ele fez uma pausa e completou, porque achou que fosse uma boa idéia. "Não é?"
"Acho que não deveríamos entrar tão tarde aqui," desconversou ela.
"Que tipo de animais você acha que existem em ilhas como essa?"
Ela deu nos ombros. "Não quero nem pensar nisso."
"Eu espero que algum que seja fácil de caçar. Não sei quanto tempo vamos ficar aqui," ele se abaixou para desviar de um galho que estava em seu caminho, então o inclinou para o lado para que Kate pudesse passar.
"Você caça?"
"Não," ele falou sério, soltando o galho. "Você disse que caçava."
"Eu era pequena."
"Deve se lembrar de algo."
"Caçávamos pássaros."
"Nós podemos experimentar comer pássaros, então," ele comentou. "Seria uma dieta interessante. Ouvi dizer que são particularmente saborosos."
Kate o encarou fixamente, como se quisesse perceber algum traço no médico que indicasse uma brincadeira. Ele se entregou quando um pequeno sorriso nasceu no canto de seus lábios.
Continuaram a andar até que a mão de Jack se estendeu no ar, fazendo sinal para que Kate parasse de andar.
"O que foi?" perguntou, curiosa.
"Você ouviu isso?"
"O quê?"
"Por aqui," falou ele, fazendo um gesto para que ela o seguisse.
"O que diabos...?" Kate tinha os olhos arregalados, mas Jack não respondeu e continuou andando a passos rápidos, como se o som fosse cessar a qualquer instante e, se ele não fosse suficientemente rápido, o perderia.
"Aqui." disse enfim, e afastou uns galhos que se contorciam à sua frente. Quando Jack afastou os ramos, Kate se deu conta do que se encontrava ali atrás.
Ela ouviu o som da água primeiro, e somente depois viu o pequeno rio de um azul intenso que corria pelo terreno. Jack foi até a borda e observou seu reflexo na água. A sua própria cara pensativa o encarou de volta.
"Era isso que você queria encontrar?"
Ele assentiu.
"Como você sabia que...?"
"Eu não sabia, eu só achei que..." mas sequer soube explicar direito. "A água doce será mais do que bem vinda."
"Podemos nos mover para cá," disse Kate.
"Nos mover para cá?"
"É."
"Mas e se algum barco de resgate passar enquanto estivermos aqui?" ponderou o médico, os dedos roçando a água de leve.
Secretamente, Kate não pensava que algum barco fosse chegar para resgatá-los. Se eles não haviam visto a ilha, por que qualquer outro barco a veria? Mas não teve coragem de dizer isso.
"Vamos levar água até eles, então."
"Não temos como. Não temos pote algum. Viemos pela madeira, não pela água. Mas podemos avisá-los. Creio que ficarão contentes em saber que encontramos água doce."
"Eu não pensaria assim. Creio que ficariam muito mais contentes se tivéssemos encontrado um rio de rum, não de água."
"Precisamos da madeira também."
Quando finalmente terminaram de pegar a madeira (juntaram o máximo que seus braços podiam levar), as árvores pareciam muito maiores e assustadoras. A noite já havia chegado e as sombras conferiam aos galhos contorcidos das árvores formas esquisitas e desconhecidas, e a lua dava um brilho prateado com um quê de sobrenatural às folhas que brotavam dos ramos.
"Por ali," indicou Jack, cambaleando ligeiramente devido ao peso que carregava.
Depois que saíram da mata, andaram até a praia e depositaram a madeira próximo à fogueira, Sayid caminhou até eles e perguntou:
"Por que demoraram tanto?"
"Encontramos algo."
"O quê?" inquiriu o árabe, empilhando a madeira sobre a fogueira.
"Tem certeza de que isso não vai cair?"
"Claro que não. O que foi que vocês descobriram?"
"Aparentemente," Kate disse, os orbes azuis vagando pela praia até encontrarem Sawyer conversando com Locke, ambos sentados sobre a areia, "alguém tem uma audição super-desenvolvida. E quer caçar aves."
"Encontramos água," o médico disse, ajudando o pirata com a fogueira, "água doce," completou, porque dizer 'encontramos água' quando há, bem em frente, um oceano imenso simplesmente não soava bem.
"Ótimo. Está muito longe?"
Jack balançou a cabeça negativamente. "Não trouxemos nada porque não tínhamos pote algum."
"Teremos que pensar nisso. Eu verei se algo do que pegamos pode servir para a tarefa." Em seguida virou-se para o outro lado e gritou: "Capitão, você vai querer acender a fogueira ou eu mesmo devo fazer isso?"
Sawyer, distante uns bons metros, deu de ombros.
"Vamos." disse o árabe ao perceber a total indiferença do capitão. "Eu vou acendê-la logo."
E assim o fez. A fogueira acesa por Sayid brilhou a noite toda, iluminando a praia onde os náufragos se deitaram para dormir, utilizando folhas como uma espécie de esteira primitiva. Incansável, a madeira queimava e estalava, as chamas bruxuleando ao ritmo da brisa marinha. E o fogo ainda permanecia vivo quando o dia seguinte nasceu e ninguém havia aparecido para resgatá-los.
N/A: foge
N/A: Esse nem demorou, não foi mesmo? E o próximo é um dos meus preferidos até agora.
N/A: Parabéns pro Chemistry e pra comunidade Sawyer/Kate do Orkut
