Capítulo IX – Em que a busca ao tesouro tem início e a ilha começa a mandar seus primeiros sinais
"We're rascals, scoundrels villains, and knaves,
drink up me hearties yo ho"
Sayid não havia adormecido nem por mesmo por um breve instante quando Sawyer chamou a todos numa empolgação notável surpreendentemente cedo naquela manhã. O árabe permanecera toda a noite alerta, espreitando o oceano com uma esperança comovente.
"Passe-me aquela caixa de armas, Aladim," disse Sawyer, se aproximando com uma vivacidade exagerada.
"O quê?" perguntou intrigado, sem se mover.
"Vamos! Ânimo, ânimo. Temos um tesouro para encontrar," e, cantarolando "yo ho, yo ho, a pirate's life for me", o capitão caminhou para a outra direção, dando pequenas palmas e falando alto, cutucando os outros piratas para que eles despertassem. "Exercício matinal, homens," e voltou-se para Kate, que bocejava, "e mulheres. Vamos, vamos. Há um tesouro esperando por nós em algum lugar dessa ilha."
"Do que você está falando?" perguntou Sayid enquanto Jin espreguiçava-se, intrigado ao distinguir a palavra tesouro no meio daquela pequena confusão.
"Onde estão as armas?" inquiriu numa tremenda alegria, que fez o árabe pensar que seu capitão havia encontrado um pouco de rum e o bebera.
"Na caixa," indicou o objeto com os olhos. "O que diabos você quer dizer com vamos procurar o tesouro? Que tesouro? Desde quando você pensa que há um tesouro aqui?"
"Calma, calma, meu caro," pediu Locke, metendo-se na conversa ao surgir nas costas de Sawyer. "Uma pergunta de cada vez."
Sayid cruzou os braços, impaciente.
"Eu sei, eu sei," continuou Sawyer numa agitação quase infantil. "Eu sei que vocês estão surpresos, imaginando como é que eu sei que tem um tesouro aqui, sendo que acabamos de naufragar e não deveríamos estar aqui de modo algum," sorriu, as covinhas aparecendo em suas bochechas. "Não é mesmo? Acontece que o Capitão Sawyer," apontou para si mesmo num gesto espalhafatoso, "não naufraga jamais. E o que julgaram ser acidente de percurso, foi, na verdade, parte de um plano muito maior e arquitetado cuidadosamente por mim."
O Capitão tinha a evidente capacidade de distorcer as coisas quando queria. Sua pequena audiência o encarou achando tudo o que o homem falava irreal e quase engraçado. Kate pigarreou e conteve o riso para si.
"Agora vamos," disse por fim, pegando para si uma das pistolas e fazendo menção de andar.
"Vamos para onde?" perguntou Eko que antes estava tão silencioso que passara despercebido.
"Para onde, você me pergunta, padre," Sawyer gesticulava cada vez mais a medida que formulava suas sentenças. "E eu te respondo que... para onde vamos mesmo, John?"
"A ilha nos dirá," respondeu Locke.
"Há!" vibrou. "A ilha nos dirá, meu caro," em seguida sentiu-se incrivelmente patético por falar uma coisa dessas. Jack revirou os olhos, impaciente.
"Algum problema, doc?"
"Nada, é só que as ilhas costumam ser muito quietas de onde eu venho."
"Claramente você nunca esteve nas Antilhas. As ilhas de lá são uma simpatia. Excelentes conversadoras, agradabilíssimas, extrovertidas como jamais vi uma ilha ser... E ainda por cima dão um espetáculo de dança sincronizada."
"Sawyer..." retrucou Kate. "Nem tente."
"Padre!" virou-se para Eko. "Padre, você que é uma personalidade muito religiosa e tal, alguma ilha já foi falar com você?"
"Não," respondeu, seco.
"Ah."
"Capitão, acho que devemos esperar aqui na praia até que um navio chegue," disse Sayid. Kate mordeu os lábios, tensa.
"É o que vocês querem?" perguntou Sawyer.
Os olhos azuis do homem passaram de Sayid para Jin, então para Jack, até finalmente pousarem em Eko. Locke e Kate, que sabiam que a espera na praia seria inútil, pois nenhum navio seria capaz de ver a ilha, observavam o transcorrer da cena com apreensão.
Os quatro responderam a pergunta com um sim, como uma classe comportada.
"Acontece..." começou Sawyer com um enorme sorriso malicioso no rosto, "que eu sou o capitão e vocês fazem o que eu digo."
"Ahn," Jack ergueu uma das mãos para chamar atenção para si. "Na verdade, eu não sou da sua tripulação."
"E nem eu," aproveitou Eko para dizer.
"Não me interessa. Entraram no meu barco, me obedecem."
"Mas não há nem mesmo um barco!" exasperou-se Sayid.
"Detalhes, detalhes..."
"Com todo o respeito, capitão, mas eu acho que você já perdeu o seu posto de capitão," os olhos de Sawyer se estreitaram e observaram o médico com uma fúria ardente.
Ele estava prestes a partir para cima de Jack quando Sawyer subitamente se acalmou e disse, com uma tranqüilidade que soou assustadora.
"Está bem, está bem. Se quiserem, fiquem aqui esperando enquanto vamos procurar sozinhos o tesouro," e girou nos calcanhares, caminhando com a caixa de armas presa em uma das mãos. "John, Kate, Jin," chamou, mas nenhum deles se moveu.
John e Kate encaram aos outros quatro com um desespero crescente enquanto Sawyer se distanciava. Jin não soube o que fazer e titubeou, dividido entre seus companheiros e o capitão. Por fim, ficou junto aos primeiros.
"Vamos todos procurar o tesouro," disse Locke, a voz rouca e cansada.
"Por quê, John?" perguntou Sayid, o olhar fixo sobre o outro.
"Porque não virá barco algum."
E quando John e Kate por fim explicaram toda a história sobre a bússola, o naufrágio e o misterioso aparecimento da ilha, todos ficaram boquiabertos. Exceto Jin, que não entendeu muita coisa.
"Então..." foi Jack quem arriscou dizer a primeira coisa, "existe realmente um tesouro."
"Receio que não temos outra coisa a fazer se não procurar por ele. E depois..." Somente depois, porque eles eram piratas, e tesouros (e o rum, é claro) encabeçavam suas listas de prioridades, naturalmente. "Depois arrumamos uma maneira de sair daqui."
"Não me diga que a ilha nos dirá isso também?" retrucou Sayid. Em sua voz havia um pouco de descrença e amargura.
"Sim."
"Ah. Claro. Por que não? Se ela vai nos indicar onde está o tesouro, não terá trabalho algum em informar onde é a saída," disse o árabe, então, revirando os olhos.
"We're devils and black sheep, really bad eggs
drink up me hearties yo ho"
É bastante engraçado, na verdade, procurar por um tesouro que você não faz a menor idéia de onde está. O leitor pode imaginar a frustração do capitão, porque, a princípio, ele pensou: estamos numa ilha, há um tesouro. Vamos procurar por um tempo, mas no final o encontraremos, porque não deve haver tantos esconderijos para um tesouro assim. Mas, ao chegar na orla da floresta, ao olhar para aquela imensidão de terra, Sawyer simplesmente não soube por onde começar.
"A ilha já disse alguma coisa, John?" retrucou ele – os outros, todos eles, haviam decidido, por fim, se juntar ao capitão em sua busca e vinham em sua direção.
Locke sorriu, o que não foi bem uma resposta.
"Devemos estar atentos a algo? Árvores se mexendo, cartazes com informação, mensagens escritas nas nuvens, duendes...?" riu-se o capitão.
"Agora vamos ver..." Locke falou, pensativo. "Jack, se você fosse esconder um tesouro aqui, onde o esconderia?"
Jack não respondeu de imediato, analisando a pergunta enquanto seus olhos investigavam o lugar. "Acho que na mata, provavelmente, porque seria mais difícil chegar até ele."
"Ah, por favor," Sawyer soltou um muxoxo alto. "Ele é um médico, o que é que sabe de esconder tesouros?"
"Ou no alto dessas montanhas," disse Sayid, ainda que a pergunta não tivesse sido direcionada a ele. "A escalada daria um bom trabalho."
"Ainda assim," discutiu Jack, "na mata ele estaria mais protegido."
"Podemos nos dividir em dois grupos. Um entra na floresta, o outro sobe as montanhas," propôs o árabe.
"Para que isso? É só perguntar para ilha. Ela deve estar ocupada, só por isso ainda não respondeu para a gente," falou Sawyer sarcasticamente. "Não podemos deixar um recado?"
"Acho," interviu Eko com o tom de voz firme característico, "que devemos entrar na mata."
"Eu estou emocionado que você tenha resolvido nos presentear com sua opinião, mas ainda não foi o suficiente para me convencer," o capitão comentou, ácido.
"Podemos arriscar entrar, dar uma olhada e voltar," falou Kate.
"Dar uma olhada e voltar? Dar uma olhada e voltar?! Nós estamos procurando um tesouro escondido, Freckles. Ninguém procura um tesouro escondido dando uma olhada e voltando."
Mas o fato foi que entraram e, mesmo assim, com o intuito de dar uma olhada e voltar, porque procurar com cuidado seria uma tarefa impossível considerando as dimensões da mata.
E lá, na mata, eles começaram a andar. Desviaram de galhos e de raízes grossas que cresciam na terra traçando um caminho tortuoso, e Sawyer julgou-se completamente perdido lá dentro. Não perdido como eu vou morrer aqui devorado por um animal selvagem, como o leitor pode pensar, mas um perdido como eu jamais encontraria a saída aqui. Mas Locke revelara um senso de direção sensacional e guiava o estranho grupo com uma firmeza notável.
Enquanto andavam, os náufragos procuravam algum sinal qualquer de que um tesouro pudesse estar escondido ali. Não sabiam exatamente o que procuravam, mas os olhos de cada um deles passeavam atentos pela mata buscando algo esquisito ou fora do lugar.
Já estavam muito distantes da orla da floresta quando algo chamou a atenção de Locke. Este algo não tinha relação alguma com um tesouro, lamentavelmente.
O algo era um enorme urso de estranha pelagem branca que corria velozmente em direção a eles.
Locke só teve tempo de bradar um "corram!" e o grupo se dispersou pela mata, como formigas sendo pisoteadas, as perninhas se deslocando rápida e desesperadamente.
Correram, correram e correram mais um pouco. O mais rápido que podiam. Sawyer via Kate na sua frente, mas não notou qualquer sinal dos outros - provavelmente tinham escolhido outras direções. Virou a cabeça para trás por um rápido instante apenas para notar a aterrorizadora face do urso branco no seu rastro.
"Adivinha quem o urso escolheu para perseguir, Freckles?" gritou para Kate, e até riria do incidente se a situação não fosse tão desesperadora.
O urso já estava quase os alcançando quando Sawyer se lembrou do que carregava no bolso, subitamente se sentindo um completo idiota. Ele pegou a pistola com uma das suas mãos e com uma agilidade estupenda virou todo o corpo para encarar o animal, a arma presa com firmeza em seus dedos.
Atirou uma vez, e então a segunda, e finalmente a terceira, essa última só para garantir. O som da bala dispersou-se rapidamente pelas árvores. O urso, por sua vez, caiu com um baque no chão, levantando uma série de folhas.
Kate parou de correr, mas não porque o urso caíra ou porque Sawyer acabara de realizar um tremendo ato de bravura e coragem que merecia ser visto, filmado, fotografado, retratado num quadro e exposto. Ela sequer se virou para olhar a cena, porque a sua frente havia algo que a deixou paralisada.
Sawyer segurava a pistola na mesma posição em que atirara; os braços tremendo levemente, os dentes estavam trincados, a adrenalina corria por todo o seu corpo.
O capitão não retirou os olhos do urso que jazia morto no solo, mas ouviu os passos de seus companheiros vindo ao seu encontro, curiosos e preocupados. Locke foi o primeiro a aparecer no meio dos galhos.
Sawyer jogou a pistola para cima, fazendo-a rodopiar no ar para então recolhê-la e enfiá-la de volta ao bolso. "Ah, eu definitivamente vou levar a cabeça dele como troféu para casa."
"Fico feliz que tenha encontrado o jantar," Locke se agachou para observar a criatura de perto. "Eu jamais havia visto um urso branco."
"Vai ver esse é albino," retrucou Sayid, os olhos fixos sobre o animal.
"Ou talvez essa ilha tenha animais desconhecidos. Será que a gente pode dar um nome para a espécie?" disse Sawyer.
"E como você o chamaria?" perguntou o pirata árabe. "Sawyer?"
"Capitão Sawyer."
"Ahn," Kate falou, ainda sem se virar. "Talvez vocês queiram dar uma olhada nisso aqui."
Eles foram olhar, naturalmente, porque eram curiosos, e depararam-se mais ou menos com um buraco. Uma espécie de caverna subterrânea. Uma escada tosca de pedras – uns sete ou oito degraus – levava a uma entrada escura.
Sawyer sentiu um arrepio de excitação percorrendo o seu corpo.
"Acho," disse Locke, os olhos cintilando de júbilo ao observar aquilo, "que a ilha acaba de nos dizer onde o tesouro está."
"Ah, que amigável da parte dela, mandando um urso nos matar." É importante lembrar ao leitor que o sarcasmo do capitão não desaparecia em momentos de extremo contentamento.
"Bem, o urso, na verdade, nos trouxe até ela," comentou Kate.
"Vamos descer logo," falou Locke, entusiasmado.
"Não!" Interveio Jack, enérgico. "Pelo amor de Deus, a ilha nos trouxe até aqui, a ilha nos mostrou isso, a ilha isso, aquilo e aquilo outro. Vocês estão loucos?" Mas, ainda que falasse no plural, seus olhos fitavam unicamente a Locke. "Entrar aí? Nem mesmo sabemos se é seguro. E se essa caverna desaba com todos nós aí dentro? Ou se há mais animais selvagens? Há um mundo de possibilidades de coisas ruins que podem acontecer, mas vocês somente pensar que há um tesouro aí dentro?! Um tesouro que vocês próprios não tem certeza de que existe."
"Acalme-se aí, doutor," Sawyer revirou os olhos. "Se algo vai fazer isso desabar serão os seus gritos com essa voz estridente. Além disso, quanto pessimismo da sua parte."
"Talvez ele esteja certo," disse Eko, com a voz macabra que combinava bem com a situação, "mas nós somente saberemos com toda a certeza quando entrarmos."
"Isso não é seguro," exasperou-se, olhando a todos os outros com um olhar desesperado, como se esperasse por um apoio que não veio.
"Se formos com cautela..." ponderou Sayid. "Não deve haver tanto problema assim."
E assim decidiram-se por ir. Locke liderou a estranha comitiva. Ele foi o primeiro a descer os degraus de pedra, Sawyer o seguindo logo atrás, porque se houvesse algum outro animal selvagem, ou qualquer coisa do tipo, ele atacaria Locke primeiro e Sawyer estaria preparado para sair correndo como um louco. Eko seguia o capitão e Jin vinha a seu encalce, os passos apreensivos. Quando Sayid se juntou a eles, Locke já havia vencido toda a escada e estava prestes a entrar.
"Jack..." Kate disse quando restaram apenas os dois para se encaminharem até lá. O médico não disse nada e, contrariado, caminhou em direção à caverna a passos lentos. A moça o seguiu.
E eles teriam entrado na caverna, rumo ao tesouro, se um objeto não tivesse sido lançado em direção a eles, caindo no chão a poucos metros de distância do lugar onde estavam e atraindo atenção pelo barulho. Uma garrafa de rum, eles notaram. Logo em seguida, uma coisa pequenininha e perigosa conhecida popularmente como bala de pistola cortou o ar com um zumbido fino e agudo.
Façamos aqui um breve parêntese: Antes que a gravidade tivesse sido descoberta, o capitão Sawyer chegara a algumas conclusões bastante intrigantes, baseadas inteiramente em experiências pessoais.
Ele constatou que tinha um enorme e fenomenal poder de atração sobre tudo ao seu redor. E ele acabara de receber uma – dolorosa, é verdade – prova disso, porque, dentre todos os lugares possíveis, a bala de pistola escolheu cravar justamente nos ombros no capitão.
O fato era tão certo que a única razão pela qual ele não lançou uma acusação de plágio, quando, anos mais tarde, um tal de Newton viesse com suas ideiazinhas repetitivas sobre atração entre massas, foi porque não sobreviveu até esse acontecimento. Se estivesse vivo, certamente cobraria seus direitos por toda essa palhaçada e, de quebra, exigiria uma singela (e modesta) taxa para cada mísero objeto que fosse atraído por qualquer outro.
De qualquer modo, é importante dizer que o restante do corpo do pirata não fora, nem de longe, tão acolhedor quanto seus ombros. Sawyer sentiu um enorme espasmo de dor e foi ao chão, as pernas encolhidas e se contorcendo.
Do solo, ele pensou na garrafa de rum, escutou o apitar de duas outras balas, pensou na garrafa novamente, ouviu Kate gritar o seu nome, pensou na garrafa de rum de novo, e viu Jack correr em sua direção. Somente depois perdeu a consciência. Pensando na garrafa de rum.
"Yo ho, yo ho, a pirate's life for me"
N/A: Então, capítulo nove com direito a um urso polar e musiquinha pirata. Como de costume, Ani betou e super me salvou. Muito obrigada, mon dear.
