Capítulo X - Em que o capitão declara o seu amor por uma garrafa de rum

Antes que o capítulo se inicie, é importante que o leitor tenha completa e total clareza do ambiente e das pessoas situadas no mesmo, bem como do papel que essas desempenharam ao longo do evento.

O ambiente em questão, e aqui tem início o nosso singelo relato, era a praia de areia clara e água cristalina que assistira pesarosa ao naufrágio do Black Rock.

Sob o rigoroso calor dos trópicos e debaixo do sol escaldante daquela particular tarde de verão, discorria a seguinte cena: de um lado, havia Jack, evidentemente exercendo o seu papel de médico do grupo; do outro, deitado sobre um fino, antigo e surrado manto, havia Sawyer, cujo papel de paciente com uma bala de pistola instalada no ombro é definido com perfeição com uma única palavra, doloroso.

O médico conseguira, com uma notável desenvoltura perante o tenso momento por que havia passado, recolher o paciente, transportá-lo até a praia, cuidar dele, tratá-lo, remover a bala – tudo isso sem perder a pose - e, passado o susto, medicava-o com o único tipo de remédio que fora capaz de encontrar ali: plantas.

E, em um dado momento, enquanto limpava o sangue do ferimento de seu já-fora-de-perigo paciente, justamente nesse momento, o capitão proferiu sua primeira sentença – ainda febril, quiçá alucinando. A sentença, por sua vez, resultou baixa e quase inaudível, não fosse a quase sobrenatural audição do médico, já previamente empregada na descoberta do lago.

Eis a frase ouvida pelo médico: "Eu a amo."

Jack parou e fitou Sawyer com curiosidade. Em seguida voltou a fazer o que fazia, terminar o curativo e guardar as folhas e as ervas que usara. Mas ainda levou um tempo até que o paciente finalmente despertasse.

"Maldita ilha," falou então, os olhos espremidos porque a intensa iluminação o incomodava estupidamente.

"Locke estava certo," comentou o médico num tom casual, o que fez com que o capitão notasse sua presença ali, "quando disse que a ilha nos mandaria sinais."

"E como. Foi um tremendo sinal: eu te odeio, Sawyer."

"Imagino como ela foi pensar uma coisa dessas..." e o comentário irônico irritou Sawyer, porque a ironia era algo que ele sempre costumava empregar e não gostava quando o artifício estava presente na fala de outros.

Então houve um silêncio.

"Como está a Kate?" perguntou o capitão, receoso.

"Está bem. Presumo que a ilha deteste apenas você, porque ela escapou de todas as outras três balas." E fez uma pausa antes de continuar. "O resto de nós também está bem e ninguém foi atingido, caso você esteja interessado,"

"Três outras balas?"

"A ilha devia estar furiosa... E você não precisa agradecer por eu ter salvado a sua vida."

"Chame a Freckles," um capitão não perde seu tom mandão nem mesmo depois de quase morrer com uma bala perdida.

Jack ergueu uma das sobrancelhas.

"Eu preciso..." Sawyer começou a falar, mas foi interrompido pelo médico.

"Eu sei, eu sei. Você a ama."

Jack nunca vira o capitão ficar envergonhado, mas naquele instante pensou perceber um rubor excessivo em cada uma das bochechas dele. Só um pouquinho, era verdade.

"Eu o quê?"

"A ama. Foi você mesmo quem disse..."

"Eu estava..." hesitou ele.

"Com febre?"

"Eu estava..."

"Alucinando?"

"Eu estava me referindo à garrafa de rum."

"Ah, sei, certo," disse o médico. "É claro que estava."

"Vocês a recolheram?"

"Locke a pegou."

"Encontraram que atirou na gente?"

"Ainda não. Locke disse que o tiro provavelmente veio de cima de umas das árvores."

"Então tem mais alguém aqui," considerou o capitão.

"É o que Locke pensa. Eu particularmente fiquei surpreso por ele não ter achado que as árvores daqui atiram," retrucou o médico tentando ser engraçadinho.

Alguém se aproximou do lugar onde estavam. Era Kate, ambos perceberam.

"Posso me juntar a vocês?" perguntou a moça.

"É claro que pode, garrafa de rum."

Kate olhou para o médico e perguntou com o sorriso amarelo que as pessoas costumam empregar quando não entendem alguma coisa:

"O que é que você disse?"

"Eu disse," retrucou Jack, "que é claro que você pode entrar, desde que traga uma garrafa de rum," então indicou Sawyer com os olhos. "O capitão já acordou e essa é a sua primeira ordem."

Kate sorriu ao notar Sawyer acordado. "Mas nós temos apenas uma garrafa de rum, a que encontramos ontem... na mata." O na mata soou com um tom um pouco divertido e em parte perplexo, porque não é todo dia que se encontra uma garrafa de rum no meio da mata. "Além disso, você acabou de acordar. Não seria mais saudável beber um pouco de água?" sugeriu ela.

"Água," ele fez um movimento de desprezo com a mão. "Por favor."

"Kate," Jack falou, e ainda que falasse com ela, jamais chegou a retirar os olhos do capitão. "Não seja boba. Sawyer é um pirata, ele gosta apenas de garrafas de rum."

"E tesouros," ela riu.

"E tesouros, é claro," confirmou ele num tom excessivamente educado. "Nos resta saber agora o que ele escolheria, não é mesmo? O que você escolheria, capitão? O tesouro," e seus olhos desviaram de Sawyer até pousarem sobre Kate, "ou a garrafa de rum."

Sawyer trincou os dentes e o olhar que dirigiu a Jack era furioso.

"O que é que você acha que ele preferiria, Kate?" perguntou o médico, os olhos pregados nela. "Tesouro ou rum?"

"Eu acho..." considerou a moça, displicente, "que ele escolheria o tesouro." E sorriu.

"Ela está certa, capitão? O que você escolheria?"

Sawyer pareceu encurralado. Kate jamais o vira assim e aquilo não fazia sentido algum. De repente, ela teve a nítida impressão de que a conversa envolvia muito, muito além do que sabia. Havia algo ali que ela não conseguia compreender. Seus olhos buscaram os de Sawyer e, quando ela o encarou, Sawyer desviou os olhos para baixo. Depois, com a voz baixa que possuía um quê de resignação, ele respondeu, por fim, a pergunta.

"A garrafa de rum," a seriedade parecia não pertencer a ele.

"Mas," argumentou ela, "Sawyer, com o tesouro você pode comprar dezenas de garrafas de rum."

"Ela tem razão, Sawyer." concordou Jack, a voz suave e arrastada.

"Não," falou o capitão. "Eu não posso."


N/A: E então finalmente chegamos ao décimo capítulo, o mais skate de todo. O que já não era tão inédito assim, mas, anyway , um 'brigadon especial pra Ani, que betou ele, e pra Cris e pra Ana, que andaram dizendo num certo tópico por aí que são fans desse capítulo XD 'Brigada mesmo, meninas.