Capítulo XII – Em que o tesouro fica mais próximo
Amarrar um recém-conhecido em seu primeiro contato com ele não é exatamente a coisa mais educada do mundo. Sawyer não era educado; ele era um pirata, oras, e amarrava quem quisesse, quando quisesse.
E a razão pela qual ele havia escolhido amarrar o tal de Henry Gale, o homem de olhos esbugalhados que alegava ser um traficante de rum, era porque Sawyer acreditava que ele mentia. E que seria capaz de levá-lo até o tesouro. Seu tesouro. O precioso tesouro que jazia em algum lugar daquela maldita ilha.
É claro que a idéia – a de amarrá-lo, caso o leitor esteja em dúvida – não era a mais brilhante de todas. Não se o Henry Gale fosse, de fato, um traficante de rum e todos os seus companheiros estivessem embrenhados na mata, aguardando o discorrer da cena. Não se esses companheiros, vendo o colega sendo abordado por Sawyer, resolvessem sacar as suas armas e terminar o trabalho que a bala de Henry Gale não conseguira cumprir.
Para a sorte do capitão, e de todos os seus companheiros, Henry Gale estava sozinho.
E Sawyer, tendo a certeza de que aquele homem seria capaz de dizer onde o tesouro estava escondido, anunciou:
"Você quer torturá-lo na praia ou aqui, Sayid?"
"O que vocês acham que estão fazendo?" protestou ele, forçando os braços para escapar, mas falhando miseravelmente na tarefa. "Eu sou apenas um traficante de rum."
"Besteira," retrucou Sawyer com selvageria, ignorando a cara assustada de Kate ao notar o que o capitão fazia. "Se você fosse um traficante de rum, não haveria água naquela garrafa."
Particularmente, Sawyer esperava que Henry demorasse um pouco para contar onde o tesouro estava, porque a lembrança da bala cravando em seu ombro ainda estava fresca em sua memória, e ele não poderia deixar de pensar que, caso Henry tardasse em ceder, o árabe teria a evidente oportunidade de torturá-lo.
"Vamos amarrá-lo naquela árvore," - anunciou o capitão - e durante todo o processo, foi obrigado a ouvir Jack argumentando que eles não tinham o direito de torturar o homem, que aquilo era um ato de terrível crueldade, e que eles não eram selvagens de modo algum, e, por isso, deviam manter dignidade. O médico costumava dizer isso num só fôlego, de modo que não houvesse tempo para que o capitão o interrompesse.
De qualquer modo, toda a falação de Jack foi em vão, não porque Sawyer era um capitão particularmente teimoso, ou porque ele queria realmente encontrar o tesouro. A razão principal pela qual ele decidiu não dar atenção ao que o médico falava, era porque não havia nada mais prazeroso do que irritá-lo.
Sayid começou a preparar seus instrumentos de tortura – que, considerando o lugar em que estavam, uma ilha deserta – consistiam, basicamente, em pedaços de bambu bem afiados. O processo não levou muito tempo.
"Apertem a corda," pediu o árabe.
"Eu faço isso," retrucou John, lançando a Henry Gale um olhar demorado e atento.
"Vocês estão loucos? O que diabos pensam que estão fazendo?" o homem se desesperou quando viu o que o esperava nas mãos de Sayid. "Eu sou apenas um traficante de rum!"
"Se você é um traficante de rum," disse Sayid com calma. "Porque havia água naquela garrafa? E onde estão os seus companheiros?"
"Eles não estavam comigo," ele disse temeroso, as mãos tremiam. "Eu fui enviado para lá sozinho, para afastá-los."
"Afastar a gente do tesouro," comentou Sawyer, os olhos estreitos brilhando de maldade.
"Tesouro? Que tesouro? Eu não sei do que você está falando. Estamos apenas tentando proteger o nosso negócio."
"E por que seríamos uma ameaça para o seu negócio?" Sayid se aproximou do homem, agachando-se para que pudesse encará-lo de frente.
"Nós..." a respiração estava desregulada e ele arfava nervoso, a medida que Sayid chegava mais perto. "Nós nunca vimos ninguém nessa ilha, se vocês descobrissem a localização dos nossos esconderijos, poderiam dizer para qualquer um. Contariam à Marina e nosso negócio estaria arruinado".
"Quantos homens estão nessa ilha com você?" Sayid perguntou, segurando com uma firmeza excessiva um dos braços do homem.
"Somos vinte, no total. Estávamos descarregando o rum."
"Vinte?"
"Por que você está me perguntando isso?"
"Você disse vinte homens?" insistiu ele.
"Sayid, eu acho que já está bastante claro que são vinte homens..." Sawyer comentou, sarcástico.
"Então me diga uma coisa, Henry Gale," Sayid o encarou nos olhos. "Se você estivesse com vinte homens e se deparasse com cinco pessoas que não conhecem nada sobre a ilha que você alega conhecer tão bem..." Henry engoliu seco. "Você simplesmente não os atacaria e se livraria da ameaça, ao invés de mandar um aviso para que nos afastássemos?"
"Eu..."
"Responda a pergunta," Sayid disse com rispidez.
"Se nós estivéssemos escondendo um tesouro, não poderíamos também fazer o mesmo?" respondeu ele, apreensivo.
"Ele tem um bom ponto, Sayid," disse Locke.
"Essa não é a questão," disse o árabe. "A questão é, você está sozinho. E se você está sozinho, Henry Gale, isso quer dizer que não há negócio de rum algum, e isso quer dizer que você só pode estar escondendo o tesouro que viemos procurar."
Henry o encarou com raiva.
"Agora me diga onde ele está, antes que eu tenha de machucá-lo."
Mas o homem ficou em silêncio. Sawyer, Locke e Jack observavam a cena de perto. Nesse instante, as coisas chegaram num ponto em que Jack achou que devesse intervir.
"Sayid, pare com isso", retrucou ele, nervoso.
"Diga-me onde está o tesouro," exigiu Sayid.
"Eu já disse que não sei de tesouro algum," Henry respondeu, contorcendo-se, as pernas tentando recuar um corpo que, amarrado, não conseguia sair do lugar.
Sayid dobrou o braço do homem, deixando-o numa posição claramente dolorosa. Jack avançou para tentar impedir que o árabe continuasse, mas Locke o deteve. Henry gritou alto.
"Sayid, pára com isso!" gritou Jack mais alto ainda. Sayid não parou.
"Onde está o tesouro?" Sayid inquiriu de novo, forçando o braço de sua vítima ainda mais. As pernas debatendo-se lembravam um peixe recém retirado da água, e Sawyer, tentando disfarçar o incomodo que sentia, desviou o olhar para baixo.
"Sayid, já chega," Jack se esgoelou.
"Doc!, pára de gritar desse jeito. Parece até que Sayid está torturando você," Sawyer retrucou, ácido. "E não o Henry."
"O tesouro," falou Sayid mais uma vez, continuando sua tortura. As mãos começavam a ficar vermelhas, sujas pelo sangue de Henry. Por fim, ele cedeu, depois de minutos muito mais demorados do que realmente foram. Gritou, então, finalmente cedendo, desesperado.
"Na caverna," e Sayid imediatamente o soltou. Henry respirou fundo, mas o próprio ato de respirar parecia causar-lhe dor.
"Vamos," Sawyer falou, sentindo um nó na garganta, sem ousar olhar para o homem.
Jack andou em direção a Henry, procurando cuidar de seus ferimentos. O rosto dele estava machucado e inchado nas partes que Sayid o acertara.
"O que faremos com ele, Sawyer?" Jack temeu que Sawyer ordenasse que matassem Henry.
"Resolveremos isso quando encontrarmos o tesouro. Talvez ele tenha a resposta sobre como conseguiremos sair dessa ilha."
Henry riu baixinho, fazendo todos se virarem pra olhá-lo. Em sua expressão havia a arrogância de alguém que sabia mais do que dizia.
"Há algo que queira partilhar conosco?" retrucou Sawyer, impaciente.
"Vocês falam em sair da ilha", ele ficou sério de repente. "Vocês jamais conseguirão sair dessa ilha. Ficarão aqui para sempre".
Pararam em frente à caverna, prontos para entrar, exceto Jin. Jin ficaria com a missão de vigiar o prisioneiro Henry Gale, que continuava amarrado na árvore. O pescoço pendendo para o lado direito, como se ele estivesse cansado e machucado demais para mantê-lo firme.
Antes disso, porém, o médico tratara dos ferimentos do homem. E durante o tempo de espera, ninguém falou sobre o que acontecera. Selaram uma espécie de acordo mútuo, em que ninguém falaria a respeito disso.
Entrar na caverna, no entanto, pareceu fazê-los mergulhar num mundo novo e desconhecido, e puderam deixar aquilo tudo para trás.
Depararam-se com uma espécie de túnel, vazio, úmido, claustrofóbico. Suas passadas – os pés chocando-se contra as rochas e a terra quase enlameada pela umidade – ecoavam por todo o lugar, e, distorcidas, se assemelhavam a sons de outro mundo.
Sawyer teve a nítida sensação de que não havia vida de espécie alguma crescendo ali, nem mesmo a mais primária das estruturas. E o odor penetrante que invadia suas narinas era algo que jamais sentira antes. Achou que todas as coisas realmente vazias cheiravam daquele modo.
Sequer pensaram em voltar, no entanto. A fila que formavam, a comitiva comportada que avançava lentamente, desbravava a escuridão aterrorizadora daquele túnel. O capitão chegou a imaginar que o caminho não levava a lugar algum; que andariam e andariam, sem jamais chegar a qualquer parte; e que morreriam sem ar, sufocados pelo silêncio e pela escuridão.
"Agradável aqui, não?" retrucou ele, sarcástico, quando o silêncio estava prestes a se tornar insuportável. "Podíamos abrir uma hospedaria. Seria um verdadeiro sucesso."
"Vocês acham que falta muito?" disse Kate.
"Não deve faltar," respondeu Locke que, na verdade, não fazia a menor idéia e só dissera aquilo para tranqüilizar seus intranqüilizáveis companheiros.
"Podemos especular o tamanho do tesouro, enquanto isso," sugeriu o capitão.
"Quão grande ele será?" Sayid falou.
"Enorme."
"Nem mesmo sabemos se há um tesouro..."
"Você já comentou isso, doc," retrucou Sawyer.
"Só estou reforçando, para quando vocês encontrarem um grande nada, não ficarem tão desapontados assim."
"Você é sempre tão pessimista, ou apenas quando está debaixo da terra andando por um túnel que pode desabar a qualquer momento?"
"Só quando estou caminhando com capitães engraçadinhos."
"Acho que estou vendo alguma coisa ali," Sayid disse, a voz ecoando pelo túnel.
"Ali aonde?"
"Ali."
"Onde?"
"Ali."
"Onde?"
"Inferno, como onde? Só tem uma direção. Pra frente".
"Eu não vejo nada."
"Eu ainda não estou vendo nada."
"É claro que vocês não estão vendo nada, está tudo escuro."
"Justamente. Vocês não estão vendo uma luz?"
"Quê?"
"Que luz?"
"Deve ser um vaga-lume."
"Um vaga-lume invisível, porque eu continuo não enxergando nada."
"E o que diabos um vaga-lume estaria fazendo aqui?"
"Vai ver ele veio dar falsas esperanças a piratas desesperados."
"Ou vai ver ele veio assombrar médicos babacas..."
"Ai."
"Que foi?"
"Eu bati em alguém."
"Foi em mim."
"Por que você parou, freckles?"
"Sei lá."
"Você por acaso tem medo de vaga-lumes?"
"Não tem nada aí na frente não, oras."
"Ei, tem sim. Eu estou vendo algo agora."
"Talvez seja um trem."
"Um trem?"
"É, ué, um trem."
"Mas não tem nem trilho aqui."
"Ah. É verdade."
"Eu deveria lembrar que isso é uma ilha deserta e trens não tem a menor utilidade em ilhas desertas?"
"Nem vaga-lumes."
"Vaga-lumes não contam. Eles não têm utilidade em lugar nenhum."
"E um trem seria útil para transportar o tesouro, caso ele fosse muito grande."
"Quem? O trem ou o tesouro?"
"Os dois."
"Eu gosto disso. Espero que seja um trem."
"Mas... se for um trem, ele não ia atropelar a gente?"
"Nem está se movimentando!"
"É claro, não tem trilho."
"Então também não pode ser um vaga-lume."
"Por que não tem um trilho?"
"Porque não está se mexendo."
"Ainda com a história do vaga-lume?!"
"Pode ser um vaga-lume morto."
"Vaga-lumes mortos brilham?"
"Já pensaram que pode ser o nosso tesouro brilhando?" retrucou Locke, por fim.
E então todos eles ficaram em profundo silêncio e aceleraram o passo, como se estivessem apostando corrida uns contra os outros. Mas como estava realmente escuro e não podiam enxergar coisa alguma, a verdade é que todos achavam que estavam ganhando.
N/A: Capitulo novo, squees por aqui. Muitíssimo obrigada à Ari, que teve bondade de betar esse capítulo pra mim. Espero que gostem, mon dears
