XIII. Em que o capitão se encontra pela primeira vez com um fantasma
O túnel desembocava numa espécie de salão gigantesco.
Em seus sonhos, enquanto ainda andava pelo túnel, Sawyer imaginava como os metais preciosos se empilhariam, como se fossem cadeias de montanhas, dentro da caverna de teto alto. Haveria incontáveis pilhas de moedas de ouro, tão altas que quase alcançariam o teto arredondado do lugar. Os baús, abarrotados, transbordariam moedas, que cairiam pelo chão como líquido derramado, reluzindo luz dourada.
Haveria pedras preciosas dos mais variados tipos. Enormes e cintilantes, às vezes cruas, às vezes fixadas em colares, em pingentes, em brincos ou em pulseiras. Esmeraldas, diamantes enormes, rubis, safiras, e muitas outras variedades que nem mesmo o capitão saberia nomear.
E ele contemplaria, numa perplexidade muda, o maior tesouro que já havia encontrado em toda sua vida. E todos os outros também observariam, admirados e surpresos, pois nem em seus sonhos mais otimistas teriam imaginado algo assim, tão grandioso.
Seria tanto, tanto tesouro, que os espaços livres terminariam por formar tortuosas trilhas pelas quais eles caminhariam, maravilhados, e com os olhos cintilando, avaliando o ouro de perto.
Ah! Mas, não. A dura realidade dera um soco no estômago de Sawyer e o deixara sem ar, pois não havia ali nenhum enorme tesouro o esperando. Não havia sequer um pequeno tesouro. Na verdade, o mais próximo do tesouro que eles encontraram foi uma solitária moeda, cintilando intensamente em cima de uma espécie de mesa rústica. E no centro da mesa, bem onde a moeda estava, havia uma cavidade arredondada.
"Esse é o tesouro?" perguntou Sayid, olhando com uma cara meio abobalhada e perplexa.
Sawyer caminhou até lá, estupefato. Olhou para a moeda e então olhou para os seus companheiros; olhou para a moeda de novo, como se estivesse fazendo contas, e então, disse. "Não tem nem como dividir. Terei de ficar com ela só para mim." Sentia-se tremendamente decepcionado. Ainda assim, esticou o braço para recolher a moeda; mas, no exato instante em que a tocou, algo inesperado aconteceu. Foi uma das coisas mais bizarras que o capitão já havia presenciado em toda a sua vida, e olha que ele já estivera em Tortuga muitíssimas vezes.
Primeiro houve um tremor de terra suave; e agora eu devo pedir que o leitor não se precipite. Esse não foi o mais bizarro de todos os acontecimentos da vida do Capitão, é claro que não. Isso seria extremamente sem graça. O que veio depois do tremor é o acontecimento em questão.
Uma fina fumaça esbranquiçada surgiu do chão, rodeando o lugar em que o capitão se encontrava. A nevoa dançou no ar, de modo semelhante à fumaça do cachimbo de Sawyer, quando ele a soltava vagarosamente.
A diferença, nesse caso, foi que a fumaça não dissipou no ar em um curto espaço de tempo. Ao contrário, materializou um homem. Ok, talvez materializar não seja a palavra ideal, porque o que surgiu emitia um brilho branco perolado, e quando o capitão experimentou tocá-lo, viu sua mão ultrapassando-o, e seu corpo foi invadido por uma sensação inexplicável de frio.
Segue aqui uma curta descrição da assombração.
Era um homem que aparentava possuir a mesma idade que o capitão. Os cabelos eram razoavelmente compridos (e um pouquinho despenteados) e caiam até a altura dos ombros. Os olhos se estreitaram quando ele sorriu. Encarou os piratas e começou a andar, de um lado para o outro, dando grandes passos, como se o lugar em que ele estivera antes fosse muito pequeno e suas pernas estivessem muito espremidas, de modo que ele agora queria alongá-las. Havia algo de excêntrico em seus movimentos, ele sempre parecia meio desajeitado ao mover seus braços ou ao andar.
As vestes – de pirata, que o capitão reconheceu de imediato - estavam descuidadas e algumas partes apresentavam rasgões que jamais chegariam a ser remendados. Um relógio de bolso estava fixo no bolso de seu casaco, e ele segurava em uma das mãos uma garrafa de rum cheia até a metade.
"Rum?" ofereceu ao dar um grande gole, e Sawyer, esquecendo seus medos ao ver a bebida, estendeu a mão para aceitá-lo, mas a garrafa o atravessou do mesmo modo que o homem fizera anteriormente. "Um dos melhores que já tomei em toda a minha vida," suspirou "Céus, eu preciso parar de falar frases como essa. Elas deixam de fazer sentido quando se está morto."
O fantasma possuía sotaque escocês e Sawyer fez uma nota mental. Jamais havia conhecido um fantasma escocês.
"O que...?" Jack espremeu os olhos e fitou o fantasma com cuidado.
"Quem é você?" Locke perguntou, e embora aquilo fosse um fantasma e ele devesse estar, naturalmente, apreensivo, ele tinha a mesma expressão empolgada de quando caíra na ilha e se dera conta de que aquilo não fora um mero acidente.
"Desmond David Humes, brother," ele anunciou, fazendo uma saudação excêntrica e claramente exagerada. "E sou o guardião desse tesouro," e então voltou a se movimentar em círculos. "Ah!" exclamou satisfeito. "Há quanto tempo não posso esticar as pernas."
"Você é o Desmond!" exclamou Kate, num tom de voz que possuía algo de euforia.
"Sou, sister."
"O Desmond."
Ele sorriu sem entender o que acontecia, olhou para os piratas que estavam junto a Kate, esperando que eles lhe fornecessem algum tipo de informação, que não veio.
"O Desmond. O pirata."
"Oras, por favor," disse Sawyer, e a voz tinha uma pontinha de ciúmes, por causa da atenção que o fantasma recebia da moça.
"Você deixou toda a marinha louca, procurando por vocês. Eles colocaram uma recompensa enorme por qualquer notícia sua."
"Ah, eu me sinto..." e não soube exatamente o que dizer. "honrado?"
"Você é algo como o pirata mais procurado do mundo," ela continuou.
"Era, freckles. Era," retrucou Sawyer. "Eu disse que ele estava morto. Devíamos ter apostado algo."
"Você só surge..." interrompeu Locke, que não gostava do rumo que a conversa estava tomando e queria coletar informações mais relevantes.
"Quando alguém toca na moeda, naturalmente," ele completou a frase e em seguida ergueu a garrafa para uma generosa golada. "E vocês podem imaginar que não há muito movimento por aqui."
"Acho que o fato da ilha ser escondida pode ajudar um pouco," falou Sayid, que tinha estampada na face uma perfeita expressão de espanto.
"E com razão, brother. Um tesouro desse tamanho precisa ser muito bem escondido," disse o fantasma, mas ninguém realmente entendeu o que ele queria dizer com isso. Aquele devia ser o menor tesouro de todo o mundo.
"Há quanto tempo você está aqui?" perguntou Eko.
Os olhos do fantasma brilharam. Era quase como se ele, por muito tempo, estivesse ansiando por esse momento; pela hora em que tivesse de contar a sua história, sem jamais encontrar alguém para ouvi-la. E ali estava aquele grupo, todos atentos e apreensivos, pedindo que ele falasse.
"Elizabeth e eu estávamos navegando há mais de uma semana, quando uma fortíssima tempestade nos atingiu, no fim da tarde. Eu fiz tudo o que pude, mas a fúria do vento e a violência das ondas foram mais do que minha pobre Elizabeth pudesse suportar," disse, cabisbaixo.
"Eu sinto muito," lamentou Kate. "Vocês eram casados?"
"Perdão?" ele ergueu uma das sobrancelhas, intrigado.
"Você e a Elizabeth..."
"Elizabeth era o meu navio" ele exibiu um sorriso breve e continuou. "Formidável navio, para falar a verdade. Estivemos juntos por mais de uma década. Nunca me deu um único problema. E naufragou, assim, de repente."
"E o que aconteceu depois?" perguntou Locke, fitando Desmond com cuidado.
"Eu acordei na ilha. Minhas roupas estavam ensopadas e havia areia cobrindo todo o meu rosto, mas eu não estava sozinho. Havia um homem do meu lado, sentado, me observando. Na verdade, no momento em que coloquei os olhos nele, pensei que ele estivera me observando há muito tempo. O que mais tarde eu descobri ser verdade. Fora ele quem me salvara de um afogamento, trazendo-me até a praia."
"Quem era ele?"
"Kelvin, foi o que ele respondeu quando perguntei seu nome. A julgar por sua aparência, estava na ilha há muito tempo e jamais penteara seus cabelos. A barba era longa e nela começavam a aparecer os primeiros fios grisalhos. Estava tão magro que eu me questionei se haveria um pouco de carne e não apenas ossos em seus braços; as pernas, tão finas que surpreendiam por sustentarem o homem de pé. Mais tarde eu descobri que ele também havia naufragado ali, e vagava pela praia, solitário, esperando por um resgate."
Desmond parou para observar sua audiência, provavelmente esperando que alguém fizesse algum comentário ou interjeição, o que não aconteceu. "Kelvin me forneceu comida e bebida, e já havia passado alguns dias desde o meu naufrágio, quando ele me acordou, tão cedo pela manhã, que o sol nem mesmo nascera por completo, e disse que queria me mostrar algo. Eu o segui, estranhando seu comportamento. Ele me trouxe a essa caverna e me conduziu até o exato lugar em que estamos." O fantasma fez uma nova pausa, mas dessa vez não olhou para nenhum dos nossos piratas, os olhos vazios fixos em algum ponto do chão da caverna que só ele parecia ver.
"Kelvin me disse que eu não havia chegado nessa ilha por coincidência. Que ninguém chega nessa ilha por coincidência. Ele falou que havia um tesouro escondido nessa ilha, e que a razão pela qual eu chegara, era porque estava destinado a encontrá-lo. Eu logo fiquei encantado com a idéia de ter um tesouro esperando por mim. Perguntei se ele sabia onde o tesouro estava e ele assentiu. Me leve até ele, eu pedi. Ele sorriu para mim e fiquei chocado quando me disse que já o tinha feito. Estamos no lugar do tesouro, me disse com a voz lânguida. Eu não entendia o que ele queria dizer com isso. Havia apenas essa moeda – essa mesma moeda que você está segurando agora, brother. Vá em frente, pegue-a, foi o que ele disse."
"E o que você fez?" inquiriu o capitão, curioso, porque o fantasma fizera uma pausa dramática, dando a entender que a memória era dolorosa demais para que prosseguisse – mas ninguém realmente precisou insistir para que ele continuasse.
"Eu fiz exatamente o que ele disse. Maldito seja, Kelvin." disse Desmond, balançando a cabeça. "Eu coloquei a moeda no bolso. Olhei de volta para Kelvin e ele parecia apreensivo. Ficava me olhando, como se esperasse que algo extraordinário fosse acontecer. Passados alguns segundos, nada aconteceu, mas as feições dele se descontraíram sem que eu entendesse o porquê."
"Enquanto eu me ocupava tentando descobrir o que diabos estava acontecendo, o desgraçado tomou minha espada e cravou em meu peito," o fantasma ergueu a garrafa de rum, como se quisesse fazer um brinde, e deu um generoso gole. Então encarou sua platéia que, atenta, sem querer perder um instante do espetáculo, o encarou de volta.
"E então?", arriscou Locke.
Desmond fez a exata cara de quem acaba de ouvir uma pergunta realmente idiota. O que de fato acontecera.
"Então eu morri," respondeu seco.
"Ah."
"E o que o Kelvin fez?"
"Ah, aquele vagabundo," o fantasma pareceu se perder em seus próprios pensamentos. "ele fez a gentileza de me informar que dentro de alguns instantes eu estaria morto. Depois falou que o inferno estava repleto de piratas como eu, mas que não deveria me preocupar com isso, por enquanto, porque quando coloquei a moeda no bolso, fui atingido por uma maldição e passaria 108 anos guardando esse tesouro. No caso de, vocês sabem, alguém aparecer e pegar a moeda", suspirou.
"E o que você faz quando alguém aparece?" Sawyer achou que fosse uma boa idéia perguntar.
"Bem, eu, apareço."
"E então?"
"E então eu informo que você acaba de ser amaldiçoado também," disse, com o mesmo tom de voz com que se perguntam as horas.
Sawyer arqueou as sobrancelhas. "Mas eu não me transformei num fantasma."
"É claro que não," Desmond retrucou revirando os olhos, como se a resposta fosse óbvia. "Você precisa morrer primeiro."
"Por que colocariam uma maldição numa única moeda?" Locke perguntou, desconfiado.
Desmond sorriu malicioso, mostrando os dentes alinhados.
"Há um tesouro escondido, Desmond?" Locke continuou.
"Aye," O fantasma assentiu.
"Onde?" Sawyer inquiriu, imediatamente.
"Achei que o termo escondido significasse alguma coisa para você..." ele disse.
"Mas você tem de saber onde está. Quer dizer, você guarda esse tesouro."
"Deixe-me lembrar, é que faz tanto tempo..." e sentou-se no chão, dobrando as pernas, como se fosse usar aquele tempo para pensar. Por fim, ergueu-se, de supetão. "Nessa sala. É tudo que eu posso dizer."
Sawyer passeou os olhos pela sala. Não havia ali um único lugar em que o tesouro pudesse estar escondido.
"Há algum jeito de quebrar a maldição?" perguntou Kate, com os olhos pesarosos.
Desmond deu de ombros. Certamente se existisse, ele não teria sido informado.
"E o que o Kelvin fez depois?" questionou Locke.
"Você diz," Desmond limpou a garganta. "depois de terminar com a minha vida e destruir a minha pós-vida?"
"É."
"Depois ele mudou completamente sua aparência, como se fosse um feiticeiro. Em seguida me desejou ótimos 108 anos e desapareceu, como se fosse fumaça. Jamais havia visto uma coisa dessas em toda a minha vida. Conto trágico, eu sei." E assim, o fantasma deu a sua história por encerrada. Dando um salto, flutuou de costas no ar, como se estivesse boiando em uma enorme piscina.
N/A: Háááááá. Finalmente. Ninguém realmente imaginou que uma fic minha deixaria de ter o Dezzi, né? Na verdade, o Dezzi aparecendo como fantasma foi uma das minhas primeiras idéias para a trama, e eu estava esperando ansiosamente para postar esse capítulo desde que comecei a escrevê-la. Espero que gostem, mon dears. E obrigada, de novo, à Ari, por betar o capítulo para mim.
