XIV. Em que os piratas são capturados e as primeiras impressões do cativeiro

Desmond flutuava pelo ar enquanto Sawyer e seus companheiros andavam em círculos, procurando por algo que lembrasse – nem que remotamente – um esconderijo de tesouro. O capitão lançou um olhar mal humorado à Jack, quando o médico sentou no centro do lugar, anunciando que a procura seria inútil.

Uma discussão estava prestes a se desenvolver quando Henry Gale apareceu na porta, os olhos esbugalhados, analisando a cena com cuidado; o rosto livre de qualquer marca ou machucado.

"Como...?" Locke começou uma sentença.

"Como você se soltou?" inquiriu Sayid, que tinha se certificado de amarrar com firmeza a corda, duas vezes, antes de deixar o prisioneiro para trás.

"Como foi que os seus machucados sumiram tão rápido," Sawyer perguntou e em seguida voltou-se para Jack "e por que diabos você não usou a mesma coisa para o meu ombro, doc?"

"Onde está Jin?" falou Kate, os olhos fixos no homem.

"VOCÊ!" gritou Desmond, a expressão contorcida em fúria. Ele rumou em direção ao homem, o punho preparado para aplicar-lhe um soco, mas a mão do fantasma ultrapassou o rosto de Henry sem causar-lhe dano algum.

"Foi ele quem matou você, Desmond?" perguntou Locke com tranqüilidade. O outro assentiu.

"Eu presumo que já tenha dado tempo para todos vocês tocarem a moeda e serem amaldiçoados também," retrucou Henry, ignorando as perguntas direcionadas a ele.

"Já," mentiu Eko depressa.

"Vê, Desmond? Você não precisa me odiar tanto. Eu te trouxe companhia, no final das contas."

Henry virou-se depressa, surpreendendo Sayid que tentava se aproximar para atacá-lo. Cordas brotaram do chão, prendendo-se com firmeza nos pés e nas mãos do árabe. Ele caiu de joelhos no chão, imobilizando e amaldiçoando o outro.

Kate correu para ajudá-lo, mas os nós estavam atados com tamanha força que ela não conseguiu desprendê-los.

"Agora, que tal se vocês pegassem a moeda de novo, só para ter certeza," e acrescentou com amargura. "ou vocês acham que eu sou estúpido para acreditar na história do, sim, todos pegamos na moeda, fomos amaldiçoados e vamos festejar juntos na caverna no meio do nada?"

Ninguém se mexeu.

Henry caminhou até Sawyer, que o encarava com um evidente olhar de raiva. "Que tal se você me entregar a moeda?" Mas Sawyer se recusou, recuando.

Instantes depois, no entanto, ele notou cordas exatamente iguais as que haviam prendido Sayid se enroscando entre seus pés, como cobras. Tentou afastá-las, mas o esforço foi em vão. Notou suas mãos e seus pés presos; viu o mesmo acontecendo com os outros à sua frente, então um saco velho e surrado veio flutuando em sua direção, enterrando-se em seu rosto. Depois, ele não viu mais nada.


Dançava.

O salão era enorme, estava cheio e arrumado. A madeira do piso fora recém lustrada, Jack poderia dizer, e não havia pó nas cortinas avermelhadas que guardavam as janelas e a vista do lado de fora. Uma pequena banda tocava no centro do salão, entretendo os convidados com uma música suave e melódica. Vários pares dançavam debaixo do enorme e antigo candelabro; todas as velas estavam acesas para a noite.

Os músicos aceleram o ritmo, agitando os convidados.

Não conhecia seu par. A moça usava um vestido azul reluzente e conduzia-o lentamente pelo lugar, realizando com firmeza, e uma perfeição magistral, os passos da dança. Sobre o rosto, na altura dos olhos, uma máscara.

Dançavam.

A máscara o incomodava. Não eram as curvas excessivas que compunham o nariz, deixando-o muito mais longo do que qualquer nariz humano jamais seria. Não era o dourado brilhante e espelhado que recobria todo o objeto, fazendo refletir o salão em que estavam. Jack podia ver-se ali dentro, fitando a si mesmo por de dentro da máscara, contorcido, achatado; a expressão intrigada e desconfiada. O que mais o incomodava era não poder ver o rosto dela.

Era um baile de máscaras. E embora ele não possuísse uma máscara, todos os convidados estavam mascarados.

Dois grandes orbes azuis cintilavam na sombra da máscara. Calado, deixou que ela o conduzisse até o centro do salão, desejando ver o resto do rosto dela. Somente quando a música estava prestes a parar, ele perguntou.

"Quem é você?"

"Meu nome é Juliet," ela disse, tinha uma voz extremamente suave, quase etérea.

"Onde estão meus amigos?" inquiriu ele.

"Seus amigos estão bem, Jack."

"Como você sabe o meu nome?"

Ela não respondeu, os pés deslizando com delicadeza pela pista de dança.

"O que diabos está acontecendo?" perguntou ele. "Onde nós estamos?" Ele parou de dançar apenas para encará-la.

Juliet também parou e o encarou de volta, mas Jack não conseguiu sustentar o olhar. As coisas começaram a sair de foque, ele sentiu-se tonto. O salão rodava e girava, deixando de ser um salão. Ele achou que fosse tombar, mas antes que isso acontecesse tudo voltou ao foque. As pessoas tinham sumido; o candelabro que descia do teto, desaparecido; não havia mais janelas ou cortinas que as cobrissem. Eles estavam numa câmara escura e úmida, extremamente desagradável. Juliet já não usava mais o vestido azul - ele fora substituído por uma veste simples e amarelada. A máscara já não figurava mais em seu rosto, e Jack podia ver com clareza toda a sua face; os olhos não deixavam transparecer coisa alguma, no entanto, Jack podia ver-se refletido ali, como fizera outrora com a máscara.

"Como foi que você fez isso?" perguntou o médico, atônito.

"Mágica," ela respondeu simplesmente.

A resposta não ajudou. Jack continuou perplexo.

"Você e o Henry Gale! Vocês dois são capazes de fazer essas coisas. Eu vi quando as cordas simplesmente se ataram em minhas mãos," ele disse, com raiva. "Onde estão meus amigos?"

"Seus amigos estão bem, Jack," a resposta foi repetida para a pergunta repetida.

"Onde eles estão? O que você fez com eles?" perguntou ele, a face muito próxima da dela.

"Sente-se," pediu ela, com um tom de voz educado. "e tente se acalmar."

"Me diga onde eles estão!" exigiu ele, e os berros ecoaram pela sala. "Kate! Locke!"

Juliet lançou a ele um sorriso bondoso. "Eles não podem te ouvir."

"KATE."

"Jack..." Jack rodeava a sala como um animal furioso, tentando encontrar uma saída, e quando percorreu todo o lugar e deparou-se novamente com Juliet à sua frente, constatou:

"Não tem porta aqui."

"Tente se acalmar..."

"Não tem porta aqui!" ele exclamou ainda mais alto. Jamais encontrara uma sala sem porta.

"Desse jeito eu posso falar com você sem correr o risco de que você escape," ela suspirou. "Por favor, pare de andar."

"O que você quer comigo?"

"Ajudá-lo."

Jack parou para analisar a situação. Ele estava numa câmara sem porta alguma e uma desconhecida dizia que queria ajudá-lo. Isso era estranho. Para não comentar o fato de que a câmara costumava ser um salão, até dois minutos atrás.

"Então crie uma porta!" disse. Juliet sorriu.

"Jack, a situação é um pouco delicada..."

"Onde meus amigos estão? O que Henry está fazendo com eles?"

"Eu vou arrumar algo para você comer, e enquanto isso, nós vamos conversar. Você pode começar me dizendo como foi que chegaram aqui."

"Eu não vou conversar com você," disse, com raiva. "eu não vou te dizer nada. E também não quero a sua comida."

"Você diz isso porque ainda não provou os meus..."

"Eu não quero," interrompeu ele, como uma criança mimada, cerrando os punhos. "Eu quero que você me tire daqui."

"Você vai precisar comer alguma coisa," ponderou ela "do contrário, vai começar a alucinar."

"Eu acabei de ver um salão se transformar numa câmara úmida. O que quer que seja minha alucinação, não vai ser mais surpreendente que isso."

"Você diz isso agora, quero ver quando começar a conversar com um cabide. E ele te responder."

Juliet se concentrou por um instante, e, estalando os dedos, fez surgiu um prato de sanduíches em uma de suas mãos. "Coma," pediu com delicadeza, lançando um olhar demorado para Jack. "Receio não ter rum para oferecer, você terá que se contentar com água."

Uma enorme garrafa de água – Sawyer a teria desprezado – apareceu na mão de Jack, e embora o médico estivesse sedento, ele não a aceitou. Precisou apenas de três passos para alcançar onde Juliet estava e devolver a garrafa para ela.

"Eu não vou te contar coisa alguma."

A moça caminhou em direção a parede e pouco tempo depois, uma entrada, cujo tamanho permitia a passagem dela, surgiu. Antes de sair, porém, ela virou-se para trás e lançou a Jack um novo olhar.

O médico se incomodava com os olhares de Juliet. Talvez fosse o fato de que ele jamais conseguia descobrir o que ela estava pensando.

"Tem certeza de que não vai me contar nada?"

"Tenho," respondeu, esticando o pescoço para enxergar algo atrás dela.

Juliet lançou a ele um sorriso triste. "Eu gostaria que você fosse menos teimoso."


"Olá, Sawyer."

Alguém o chamava. Sawyer virou-se para olhar, pronto para corrigir a pessoa que, tão displicentemente, se esquecera do capitão, e deparou-se com algo realmente estranho. Uma garrafa de rum sorria e acenava para ele.

"Olá... Rum," disse ele, pensando se era essa a maneira correta de cumprimentar garrafas de rum. "O que você está fazendo aqui?"

"A pergunta correta é o que você está fazendo aqui? Esse é um navio de garrafas de rum," Sawyer olhou para os lados. Era verdade. Havia garrafas de rum içando âncoras; havia garrafas de rum limpando o chão do navio e preparando velas; havia até mesmo garrafas de rum escoradas nas paredes do navio se esquivando do trabalho.

Sawyer ficou maravilhado, mas antes que pudesse alegar coisa alguma, a garrafa de rum se curvou a seus pés, oferecendo-lhe um chapéu de capitão.

"E você acaba de ser proclamado o capitão do nosso navio."

Sawyer recolheu o chapéu e colocou-o na própria cabeça, satisfeito.

"Ótimo." O chapéu se encaixou perfeitamente. "Diga-me para onde estamos indo, marujo."

Ele e a garrafa de rum atravessaram o convés, saltitando. Sawyer porque estava feliz; a garrafa porque não tinha pernas.

Um macaco passou voando no céu e Sawyer se sobressaltou.

"Não se preocupe, capitão," disse a garrafa. "Essa é a época dos macacos migrarem. Estão indo para o nordeste – que é justamente a direção que vamos seguir."

Sawyer respirou fundo e admirou o oceano. Estava bonito, calmo e âmbar?

"O que há de errado com a água?" inquiriu.

"Água? Que água?" disse a garrafa de rum, assustada.

"Como que água. A do oceano, oras," disse ele.

A garrafa de rum riu.

"O capitão é realmente engraçado. Ouçam, marujos, ouçam" falou ele, alto, para que todos os tripulantes pudessem escutar. "A nova piada do capitão."

Sawyer sentiu-se desconfortável sendo observado por todas aquelas garrafas de rum, que o olhavam aguardando por uma piada sem graça. Ainda assim, perguntou, receoso:

"Você quer dizer que o oceano não é de água?"

Todos os marujos começaram a gargalhar; uma das garrafas riu tão fervorosamente que estourou; Sawyer exibiu um sorriso amarelo – meio sem graça - porque ele não estava entendendo coisa alguma, mas sentia que devia rir, ao menos, para tentar se enturmar.

Foi então que Sawyer foi atingido na cara por uma banana voadora.

"Sawyer."

Colocou a mão no rosto. Estava doendo. As garrafas de rum continuavam rindo.

"Sawyer!"

Bananas eram mais perigosas do que ele imaginava. Uma das garrafas escapuliu do navio e caiu no mar.

"SAWYER!"

"GARRAFA NO RUM! GARRAFA NO RUM! GARRAFA NO RUM!" exclamou o capitão, assustado, despertando-se com um pulo apenas, para notar Kate do outro lado, observando atônita.

"Sawyer."

Estavam em jaulas. Estavam em jaulas separadas, e a dele, com toda certeza, era menos espaçosa. O sol forte deixava seus cabelos mais claros e o obrigava a estreitar os olhos. Estava tudo muito abafado. Do seu lado, uma banana jazia no chão.

"Você acabou de tacar uma banana na minha cara?" perguntou ele.

"Não encontrei nenhuma pedra."

"Por que você fez isso?"

"Pra te acordar. Você está dormindo há eras. Henry já veio aqui entregar o café da manhã e tudo. Você pode devolver a minha?"

"A banana?"

Kate assentiu.

Sawyer jogou a banana de volta para a jaula de Kate, que a recolheu usando apenas uma das mãos.

"Com o que você estava sonhando, afinal? Garrafas de rum?"

"Nãoestavasonhandocomnada, por que?", respondeu ele depressa.

"Pensei ter ouvido você dizer algo sobre rum."

"Rum? Que rum? Eu nunca falo nada sobre rum," disse ele, sem graça, procurando desviar de assunto o mais rápido possível. "O que estamos fazendo aqui mesmo?"

Kate deu nos ombros.

"Gale não disse. Também não disse onde estão os outros. Disse apenas que quer fazer perguntas."

"Disse é?" Sawyer respondeu, o olhar fixo em uma das barras que o prendiam. "Da última vez que um sujeito alegou querer me fazer perguntas, eu terminei com uma arma apontada pra cabeça, três baús de ouro confiscados, preso numa ilha deserta..."

"Você já está preso numa ilha deserta..."

"E como eu não tenho nenhum ouro..." raciocinou o capitão. "só me resta terminar com uma arma apontada pra cabeça," sorriu sarcástico. "Não está tão mal."

"Duvido que ele vá usar armas. Ele não precisou de muita coisa pra nos amarrar e nos trazer até aqui."

"Só espero que o filho da puta não me faça apontar uma arma para a minha cabeça. É verdade que isso seria bem mais interessante de se ver, mas eu, com toda a certeza, ia me auto-persuadir para não me matar."

"Por que ele ia te querer morto?" ela arqueou uma das sobrancelhas.

"Sejamos realistas, freckles," disse ele, "todo mundo me quer morto."

"Eu não te quero morto." ela disse, tímida, e ele sorriu. "E todo mundo me quer presa também."

"Aparentemente," ele lançou um olhar demorado para as barras e a jaula que prendiam a moça lá dentro. "ele já conseguiu."

"Você me entendeu, Sawyer. Você acha que os outros estão bem?" perguntou ela, apreensiva.

"Fantásticos," Sawyer falou com um quê de displicência, como se estivesse respondendo a uma pergunta muito óbvia. "Provavelmente se reuniram ontem para uma linda e farta ceia e ainda estão descansando depois da noitada. Vamos apenas nos concentrar em escapar daqui, nós dois, e tudo ficará bem."

"Eu não vou deixar os outros para trás!" exclamou Kate, ultrajada.

Sawyer revirou os olhos.

"Mulheres..."

"Podemos aproveitar," ela começou a falar, as mãos apertando as barras de sua jaula, os olhos verdes fixos no homem na frente dela. "quando Henry voltar para suas perguntas, tentar descobrir onde nossos amigos estão, escapar daqui, resgatá-los, voltar para a praia e então arrumar um jeito de sair dessa ilha."

"Você percebe, freckles," retrucou ele, com sarcasmo, "que nem mesmo se você encontrasse enterrada na sua jaula uma lâmpada mágica, nem mesmo assim, nós conseguiríamos fazer isso tudo, porque são CINCO pedidos."

Kate conteve os cabelos por detrás das orelhas.

"O que você sugere que a gente faça?"

"Vamos pular alguns dos seus itens e nos focar apenas em sair dessas jaulas e dessa ilha. Invariavelmente nessa ordem, é claro."

Kate franziu o cenho. A idéia não lhe agradava.

"Eles são piratas, Kate," disse Sawyer, repentinamente sério, "também não virão resgatar nós dois."


N/A: Obrigada, Ari, por ser gentil o suficiente para concordar betar esse novo capítulo para mim.
N/A2: Vamos super ignorar o fato de que eu postei o capítulo não-betado hoje de manhã, okay? E, obrigada, pedru, se tu não tivesse corrigido tudo, eu nem teria notado XD Shame one me.