Capítulo XV – A mais estranha das comitivas

All the angels
All the wizards black and white
Are lighting candles in our hands
Can you feel them
Touching hands before our eyes

Sister Janet, Tori Amos

Na parede de sua câmara sem entradas, surgiu uma porta.

Juliet entrou sem fazer ruído algum – os passos suaves como de costume. Ela olhou para Jack e disse:

"Por favor, me acompanhe," e virou-se então, andando para fora do lugar e esperando que Jack fizesse o mesmo antes de fechar a passagem.

"Para onde estamos indo?" inquiriu ele, acelerando o passo para se posicionar ao lado dela.

"Eu preciso te mostrar uma coisa."

De repente estavam na praia. Não a mesma praia que naufragaram, ele podia dizer isso porque a água ali era tão calma que, a um primeiro momento, julgou que fosse um lago. Os sapatos de Jack se encheram de areia quando eles começaram a andar em direção ao oceano; logo pararam, a uma distância considerável da água, e a moça, sem dizer uma única palavra, limitou-se a observar o mar. Era uma noite calma e fresca, o médico podia sentir a brisa marinha deixando seus lábios salgados; os cabelos loiros de Juliet voavam.

Sob a luz perolada daquela lua cheia, Jack e Juliet esperavam.

"O que, exatamente," ele perguntou, calmo, "você queria me mostrar?"

"Não vai demorar muito."

Ele esperou mais um pouco, pois não tinha pressa. A praia era certamente mais agradável e interessante do que o lugar em que estava confinado. Jack imaginou onde os outros estariam. Imaginou se ainda estavam vivos.

Foi então que ele viu, surgindo na curva que a praia fazia, luzes cintilando e velas no escuro. Jack espremeu os olhos para tentar enxergar o que era, mas ainda estava muito distante.

"Não se preocupe. São os espíritos que habitam a ilha," disse Juliet.

"Ah," disse Jack. Continuou a observá-los em silêncio, pensando que espíritos eram algo com o que se preocupar. Viu-os chegando cada vez mais perto. Lembravam-no de Desmond naquele instante, com a luminosidade prateada que a lua conferia àquela formas humanas. Caminhavam enfileirados, lentamente, como se estivessem em alguma espécie de procissão. Os pés fantasmagóricos encostavam-se na água sem deixar marcas na areia; as velas acesas brilhavam em suas mãos translúcidas.

Ele podia ouvir uma canção, distante - a melodia era suave, soturna, e se misturava com o barulho da água do mar, fazendo o médico sentir um arrepio agradável.

"O que eles estão fazendo?" perguntou Jack num sussurro, cuidando para não ser ouvido, embora não soubesse exatamente o porquê.

"Estão se lamentando," ela disse com suavidade, os olhos azuis fixos no horizonte sem encararem Jack. "Fazem isso todas as noites."

"O que houve com eles​?" disse Jack, os lábios finos se crispando.

"Ben os matou."

A comitiva passava exatamente em frente ao lugar em que Jack estava. A melodia estava mais alta e o médico sentiu um arrepio percorrer seu corpo.

"Quem é Ben?"

"O homem que você chama de Henry Gale. Ben é o seu nome verdadeiro, e ele é um bruxo realmente poderoso," ela recomeçou, lançando um olhar sugestivo ao médico, que ouvia atento. "Vamos, você é esperto o suficiente para perceber que ele tem poderes. Que nós temos," disse.

"O que vocês fazem... eu nunca vi nada parecido."

Juliet sorriu com tristeza. "Você conhece muito pouco do mundo, Jack."

"Por que Ben escolheu matá-los?" Pensou num modo mais discreto de abordar o assunto, mas no final achou que a pergunta direta fosse a melhor opção.

"Ele tinha uma missão, sabe. Proteger o tesouro que os seus amigos acharam. Era de fundamental importância que ele fizesse isso, e durante muito tempo Ben e outros homens se dedicaram a encontrar o lugar perfeito para isso."

"A Ilha..." raciocinou Jack, os olhos pequenos espremidos.

"Foi uma idéia realmente genial, eu admito, o feitiço que Ben e os outros lançaram. Ele a tornou o esconderijo perfeito. Invisível, a menos que se naufrague. Ninguém chega acidentalmente numa ilha que não se vê."

"Nós chegamos." disse ele com sinceridade. O capitão, que não era exatamente honesto e se sentia em pleno direito de omitir alguns fatos de suas viagens e buscas, não lhe contara sobre a bússola que Kate trouxera consigo.

"O feitiço não é perfeito."

"O que você quer dizer?"

"Desde que a Ilha foi enfeitiçada, é como se ela atraísse embarcações e as destruísse."

"Foi o que aconteceu com o barco do Desmond, não foi? Por isso ele o amaldiçoou?"

"Eu gostaria que fosse tão simples." Ela sorriu e conteve os cabelos que escapavam de detrás de suas orelhas."

"Além dessa pequena falha, nós tivemos alguns contratempos. Alguém do nosso grupo nos traiu. Contou sobre este lugar e deixou instruções sobre como encontrar a Ilha. Anos depois, descobrimos que algumas pessoas tinham se instalado na ilha e que estavam procurando pelo tesouro." Ela indicou com os olhos os espíritos que caminhavam pela areia. Jack estava com frio.

"Então Ben os matou?"

"Ele foi mandado pra cá para solucionar o problema. Ben descobriu que eles haviam chegado até aqui por meio de uma bússola e um pergaminho. O pergaminho dava instruções de como utilizar a bússola; fora ela quem os conduzira até aqui." Jack tinha os olhos estreitos e a boca entreaberta. Não desgrudou por um instante os olhos de Juliet, temendo que, caso o fizesse, perderia um pouquinho da informação que a moça trazia. E, definitivamente, ele não queria que isso acontecesse. "Quando descobriu que o pergaminho e a bússola não estavam com esse grupo, Ben decidiu que montaria guarda na ilha, e esperaria que alguém aparecesse. Eu fui enviada para cá para ajudá-lo." Os olhos azuis de Juliet estavam vidrados. Ela não piscava.

"Mas você não queria..." a moça não respondeu, escolhendo continuar sua história, sem olhar por um único momento nos olhos de Jack. "A localização do tesouro jamais deveria ter sido descoberta, então ele matou a todos. Ele pretende fazer o mesmo com vocês."

"E por que não nos matou ainda? Se é o que ele quer, poderia ter feito logo no começo."

"Ele decidiu esperar, a princípio. Ben não sabia quem vocês eram. Há outras pessoas realmente poderosas procurando por esse tesouro, pessoas que poderiam, talvez, encontrar esse lugar sem a bússola. Ben temia que esse fosse o caso. Ele escolheu esperar e ver. Quando percebeu que vocês eram..."

"Pessoas não poderosas..." Jack completou.

"...E sabiam do tesouro, Ben concluiu de imediato. Ele está convencido de que vocês a possuem. Você sabe, a bússola. A razão pela qual vocês estão vivos é porque ele ainda não a encontrou."

Jack encarou-a com firmeza.

"Você quer que a tenhamos?"

"O que?" se ela compreendeu a pergunta, fez-se de desentendida. Jack imaginou que também estivesse tentando ganhar tempo para pensar melhor no que falar.

"Se a bússola estivesse conosco, Ben nos mataria e você poderia voltar para casa. É o que quer, não é mesmo?"

Ela não respondeu de imediato e Jack pôs-se de pé. Afastou-se rapidamente, rumando de volta ao lugar em que estava confinado, sabendo que suas chances de escapar eram nulas. Antes, porém, voltou-se para Juliet e falou com calma:

"Hipoteticamente, se nós tivéssemos a bússola e a deixássemos para Ben, ele nos deixaria ir embora? Nós não teríamos como chegar aqui de novo, não é mesmo?"

"Vocês ainda saberiam sobre ela. E sobre a Ilha. É um risco que Ben não pode correr."

"Digamos que ele nos mate e recupere a bússola. Você poderia ir embora?"

Ela negou, balançando a cabeça lentamente. "Há outros que sabem dela lá fora. Ben nunca se permitiria deixar esse lugar. E nem a mim."

"Então nos ajude, nos ajude a escapar e você poderá sair dessa ilha."

Ficaram em silêncio durante um tempo, até Juliet finalmente dizer, quando Jack já se virara novamente e caminhava a passos propositadamente lentos de volta ao seu cativeiro.

"Jamais conseguiríamos escapar."

O médico não se virou de novo, e Juliet observou a silhueta dele sumir em meio às sombras.


N/A: Depois de um hiatus quase tão longo (ou mais longo) quanto o do próprio seriado, aqui estou eu de volto, na maior cara de pau do mundo, relevem. Capítulo exclusivamente Jack/Juliet, ship que eu achava uma coisa linda antes de deserdar, maahahaha. Outros personagens darão as caras no próximo capítulo E, finalmente, só pra constar, acho que esse foi o capítulo mais sério que eu já escrevi, sem brincadeira.

N/A2: Zilhões de obrigadas à Ari, criatura mega-adorável que sempre me acolhe no momento de desespero e beta os capítulos para mim. Sabes que te devo inúmeras cervejas por isso, não é mesmo?