Disclaimer: Os nomes dos personagens não me pertencem, embora suas personalidades, nesta história, me pertençam inteiramente, hehehe. E só para não esquecer: viva Sirius Black, o primeiro personagem mais injustamente assassinado; bom, talvez terceiro se levar em conta James e Lily.

Resumo: O caminho deles se cruzou em uma noite qualquer. Ele queria descobrir a tragédia dela, enquanto fugia da sua própria. (É UA, gente).

N/a: Eu sei que tinha escrito que era uma One-Shot. Mas essa continuação ficou dançando na minha cabeça.

Ginny/Draco


- § -

O açúcar é o amargo da vida.

Foi a primeira conclusão filosófica que ela teve. Ela descobriu como o açúcar podia ser amargo, exatamente como a vida. Foi então que percebeu, o açúcar era o amargo da vida.

A amarga conclusão surgiu no fatídico dia que ela resolveu roubar um pedaço de bolo que estava esfriando sobre a mesa da cozinha. Sua mãe a tinha proibido de chegar perto do quitute, mas ela ignorou aquilo.

Entrando sorrateiramente na cozinha, ela certificou-se que estava totalmente sozinha, para não correr o risco de ser surpreendida por ninguém, principalmente pela mãe. Cortou um pedaço generoso do bolo ainda morno e passou a língua pela superfície com toda vontade do mundo, apenas prolongando o momento de prazer que sentiria quando o doce estivesse inteiro dentro da boca dela. A cobertura era cristalizada e embranquecida, dando um acabamento de neve ao bolo. Era lindo. E era doce, porque tinha sido feito de açúcar.

A língua dela tocou depressa a cobertura que cobria a massa do bolo. Foi à primeira sensação que a boca dela teve. Açúcar morno.

E antes que conseguisse afundar os dentes no bolo em si, a mãe dela apareceu na porta da cozinha.

Ela tentou esconder a prova do crime, levando as mãos melecadas com o bolo para as costas. Os olhos culpados encontraram o da mãe. Mas a bronca não veio. Ela nunca viria. Dando um passo incerto para dentro da cozinha, a mãe tremeu.

"Sua avó está morta" – foi tudo que Ginny conseguiu ouvir, antes de deixar o pedaço de bolo açucarado cair no chão.

O gosto do açúcar ainda estava forte na boca dela. E nada, nunca, tinha parecido tão amargo naquele momento.

Enquanto a segurança do pequeno mundo dela caía com a compreensão das palavras da mãe, Ginny se perguntava se aquilo era culpa dela. Se ela nunca tivesse entrado na cozinha, desobedecendo às ordens da mãe, apenas para saciar a vontade infantil de comer açúcar, talvez sua avó não tivesse morrido. Era um castigo pela atitude desobediente e mesquinha dela.

Ginny nunca mais colocou açúcar na boca.

Ela tinha sete anos.

- § -

Ela depositou a colher no pires da xícara de café quente. Ela nunca precisava usar aquelas colheres que vinham com as xícaras dos restaurantes, porque nunca adoçava nada que bebia. Ela só gostava das xícaras e dos pires; mas aquele conjunto estava descombinado.

Enquanto olhava as pessoas andando apressadas na rua, pelo vidro da janela do restaurante, Ginny pensou na própria pressa. Ela queria ter pressa. Ela queria andar com passos apertados para algum lugar. As pessoas têm pressa porque tem sempre algo que as espera em algum lugar.

Mas ninguém esperava por ela. Nem ela mesma.

O café amargo desceu pela garganta dela, queimando sua língua e causando incomodo. Mas aquele era o tipo de incomodo bem-vindo. Qualquer coisa que a fizesse sentir o próprio corpo era um incomodo bem-vindo.

Ela continuou sentada, observando as pessoas andando na rua.

Casais de mãos entrelaçadas conversavam e riam; crianças corriam, para desespero dos pais que vinham correndo logo atrás; grupos de adolescentes andavam tão juntos que era como se fossem um só, provavelmente fazendo planos para futuros que – para alguns deles – nunca viria.

E Ginny apenas continuava sentada, olhando para eles pela janela do restaurante. Ela também tinha sido uma criança que corria para desespero dos pais; em algum momento, ela também teve sonhos e planos de um futuro que chegaria; uma vez, ela também teve as mãos entrelaçadas por um homem, enquanto andavam pela rua e riam.

E então, ela parou de correr; foi acordada de seus sonhos e soltaram da mão dela.

E lhe restou apenas o café amargo numa xícara com pires descombinado e uma colher que nunca seria usada.


- § -

Plantas são terapêuticas.

Foi isso que o terapeuta dela tinha dito na 13ª sessão. A voz dele tinha saído embargada e Ginny não sabia se ele tinha ficado irritado com ela ou decepcionado com ele mesmo, pela total inutilidade de todas aquelas tardes em que tinha visitado o consultório dele.

Ela não queria; em primeiro lugar, ela nunca quis ter que visitar um terapeuta. Mas ela foi obrigada. Seu chefe tinha deixado claro que se ela não comparecesse àquelas sessões, não teria mais emprego.

Ginny sabia que tinha sido uma tentativa gentil por parte do homem, mas ela não pôde deixar de sentir vontade de mandá-lo para junto do marido e do irmão.

Então ela compareceu. 13 sessões de 45 minutos, sendo duas visitas por semana. O ritual era o mesmo – o que lhe dava alguma sensação de segurança. Ginny entrava no consultório e se postava sentada no divã. Sempre sentada, nunca deitada.

Ela respirava fundo e passava a decorar cada milímetro de parede do local, ocasionalmente olhando para o terapeuta, que a olhava de volta, entediado, enquanto tamborilava as unhas sobre a prancheta.

Nas primeiras duas vezes, ele tentou conversar com ela. Na terceira vez, ele respeitou seu silêncio.

Eram os 45 minutos mais perturbadores da vida dele, a impotência de não conseguir ajudar aquela menina tão quieta quanto a própria morte.

Eram os 45 minutos mais seguros da vida dela. Porque ali, nada a machucaria, nada aconteceria a não ser o silêncio entre eles dois. Era um silêncio diferente daquele que habitava a casa dela todas as noites. Era algo entre esclarecedor e reconfortante e era por isso que ela tinha voltado em todas as outras sessões.

E então, no fim da 13ª e última sessão, o terapeuta esperou Ginny se levantar e seguir em direção a porta.

"Plantas são terapêuticas" – ela o ouviu dizendo antes de fechar a porta e voltar para o silêncio perturbador do mundo dela.

- § -

Ginny gostava de verde. Tinha sido uma das cores favoritas dela desde a infância. Talvez por isso, tivesse achado o conselho do terapeuta uma boa idéia.

Tão logo ela saiu do consultório, depois da última sessão, passou na primeira floricultura que encontrou pelo caminho e comprou todos os vasos de plantas que ela conseguiu carregar.

Ela aguava as plantinhas todos os dias, tirava as folhas mortas, tomava o cuidado de colocar os vasos perto das janelas, a fim de que pudessem receber a luz do sol.

Era um ritual. Apenas isso. Não havia amor pelos vasos de planta. Era apenas uma tentativa desesperada dela para conseguir alguma alegria.

Com certeza, as plantas sentiram a indiferença. Certamente que sentiram, porque todas haviam morrido. Todas. Não existia – em todos aqueles vasos espalhados pela casa – um pequeno sinal de vida.

O pequeno apartamento dela parecia ainda menor com todos aqueles corpos mortos ocupando espaço.

Olhando com desgosto para as folhas amareladas e enegrecidas dos vasos que decoravam a sala, Ginny suspirou. Ela não era capaz de manter vivo um único vaso de planta.

Da mesma forma que ela não era capaz de manter vivo nada ao redor dela.

Tudo que a cercava era marcado pela dor e pela morte. As plantas e as diversas fotos de família espalhadas pela sala eram a prova viva de que a solidão dela era causada pela morte.

Resignada, ela jogou todos os vasos de planta do lixo. Não mereciam um enterro decente. Mereciam apenas isso. Já estava escuro quando ela terminou. Já era hora dele chegar.

- § -

"Você não foi trabalhar hoje" – ele afirmou. Ela não estranhava isso. Draco quase nunca perguntava. Ele apenas afirmava.

"Férias forçadas. Era isso ou demissão" – ela contou, casualmente.

Ele acenou com a cabeça, voltando a atenção para o copo de vodca. Ginny mirou o próprio copo. Sempre cheio. Ela odiava bebida. Só enchia o próprio copo para acompanhá-lo, mesmo que no fim, a vodca dela fosse desperdiçada no ralo da pia da cozinha.

"Você está cansado" – ela comentou, mais para fugir do silêncio do que por curiosidade.

"Noite difícil" – ele respondeu. Depois eles se olharam.

Era sempre assim. Quase toda noite em que ele aparecia, desde o dia em que ele a seguiu pela rua. Ele chegava no fim da noite. Tocava a campainha e se acomodava numa cadeira qualquer da sala, assim que ela abria a porta para ele entrar. Ela servia a bebida que ele gostava, eles trocavam algumas palavras, reinavam durante muito tempo em silêncio absoluto. Depois, ele ia embora. Algumas vezes ele a abraçava até ela adormecer e a levava para o quarto, para logo depois, fazer o caminho de volta para a casa dele.

Sem perguntas, sem nomes, sem promessas.

Apenas dois estranhos que tiveram seus caminhos cruzados. Era o que eles queriam. Era tudo o que eles precisavam.

"Sua mão está machucada" – ela observou quando ele levantou o copo até a boca. Uma faixa de gaze cobria os nós dos dedos da mão direita.

"Eu cortei" – ele respondeu depois de engolir o resto da bebida e limpar a garganta.

"Como?"

Ele não respondeu. Ela não insistiu. Deixou o silêncio entre eles a levaram a se afundar nas lembranças. Quase sempre as mesmas. Cabelos negros a rondando, cabelos vermelhos falando com ela, cabelos loiros a tocando. Naquele momento, a voz firme do irmão tomou conta da sua mente.

"Allouette, gentile allouette, Allouette, je te plumerais" – Ginny cantou baixinho, como fazia sempre com Ronald.

Draco largou o copo na mesa quando ouviu a voz dela sibilando o trecho daquela canção.

"Depois de todas essas noites, é a primeira vez que te ouço cantar" – Draco sorriu.

A canção cessou na mesma hora.

"Meu irmão cantava essa música para mim."

Draco sorriu em consolo. "É bizarra."

"O que é bizarra?"

"Essa canção."

"Todas elas são."

"São bizarras como músicas de Igreja, sempre prometendo um mundo melhor lá fora" – ele disse antes que o silêncio se instalasse entre eles novamente.

"Não existe um mundo melhor lá fora" – ela cortou, ríspida.

"Você não acredita que há algo melhor para nós? Ou algo acima de nós?"

"Se existisse algo melhor, eu não estaria aqui. Estaria nesse lugar melhor" – os olhos dela ficaram molhados e a voz dela ficou carregada de revolta.

"Você não crê em Deus?"

Ela piscou por um momento, seus olhos encontrando os olhos de Draco. "Não."

- § -


"Coisas ruins às vezes acontecem com pessoas boas" – Ronald lhe falou enquanto passava um braço por seus ombros e andava com ela para fora do cemitério.

Ela não respondeu e deixou o irmão carregá-la para a rua, porque não podia andar com os próprios pés. Era como se pesasse 200 kilos e seu corpo fosse feito de chumbo. Eles andaram em direção a pequena capela, onde o pastor do bairro realizaria a missa pela morte de seus pais.

Mas Ginny não entrou. Ronald parou ao lado dela, confuso, esperando que ela desse o próximo passo e andasse para onde as pessoas os esperavam.

Mas Ginny não andou.

Ela olhou para a porta da Igreja e para todos os presentes e para o pastor. Ela já não chorava mais, porque o corpo dela estava ressecado. Era o aniversário dela e aniversários devem ser comemorados em lugares alegres. Não em cemitérios e missas de igreja.

Ronald lamentou a atitude de irmã e entrou sozinho. Ginny permaneceu parada do lado de fora, se perguntando se aquela era mesmo a casa de Deus. Porque nada a ajudava a entender os desígnios divinos.

Que tipo de Deus levaria embora – de uma só vez – tudo o que ela tinha no mundo?

Então, ela entendeu, naquele momento, que não existia um Deus.

Seus pais estavam mortos, como estava morta a sua fé. Ginny nunca mais quis comemorar o aniversário dela.

Ela tinha 16 anos.


- § -

O cabelo dela estava sujo. Ela podia sentir os fios da nunca grudados uns nos outros e mais lisos do que o costume. Eles estavam sujos e era por isso que ela se encaminhava para o chuveiro.

A água começou a cair sobre os fios avermelhados, enquanto ela corria os dedos por eles, na tentativa de desembaraçá-los.

Era tudo tão mecânico na vida dela que ela nem mesmo sabia a marca do shampoo que usava. Ela pegava qualquer um na estante do supermercado e jogava no carrinho apenas porque precisava de algum shampoo para lavar seus cabelos.

Não existia marca ou perfume na vida dela.

Ginny achava que todos os shampoos eram iguais. Assim como os dias que passavam e as pessoas que ela conhecia. Sempre tudo igual, sempre a mesma face, o mesmo perfume.

A não ser os cabelos deles. Ruivos, pretos e loiros. Só essa diferença de cor que se fazia presente.

Ginny não gostava mais da cor dos cabelos que tinha.

"É natural?" – foi a primeira pergunta que Harry Potter fez para ela quando se conheceram.

"O que?" – ela se virou para o moreno de olhos verdes que tinha falado atrás dela.

"Seu cabelo" – ele apontou, tocando suavemente uma mecha de cabelo vermelho dela.

Ela riu e corou. "É sim" – ela contou – "Herança de família."

Harry a olhou com cuidado e então, abriu a boca em surpresa. "Você é a irmã do Weasley?"

Ginny assentiu. "Conhece o Ron?"

"Harry Potter" – ele estendeu a mão para ela – "Melhor amigo do seu irmão". Ginny aceitou a mão dele, corando ainda mais.

"Meu irmão já me falou de você. Vocês dividem o dormitório da faculdade, certo? Sempre metendo meu irmão em encrencas" – ela apontou depois que soltaram as mãos.

"Eu gosto do seu cabelo. Fica melhor em você do que nele" – ele sussurrou em segredo no ouvido dela quando avistaram Ronald se aproximando.

"Não o deixe te ouvir falando isso. Ser ruivo é o grande orgulho dele, embora eu ainda não consiga compreender o porquê."

Harry sorriu e Ginny descobriu, pela primeira vez, que podia amar alguém.

Ela tinha 21 anos.

- § -

"Você mudou seu cabelo" – Draco notou assim que pisou no apartamento dela.

Ginny automaticamente escondeu uma mecha de cabelo que caia atrás da orelha. "Você gostou?" – ela perguntou com receio. O tom avermelhado tinha desaparecido no mar castanho que o cabelo dela tinha ficado.

Draco olhou cuidadosamente para ela, estudando a garota que o olhava em expectativa.

"Ficou bom" – ele respondeu. Ela sorriu.

Foi a primeira vez que ele a viu sorrindo em todas aquelas noites em que tinham passado juntos.

"Eu vou ficar fora da cidade alguns dias" – ele informou. Ela assentiu com a cabeça e não perguntou o porquê. Nem para onde ele ia. Nem quanto tempo ia ficar fora.

Draco se aproximou dela, vencendo a pequena distância que separava a porta da entrada e o lugar onde ela estava de pé.

"Você vai ficar bem?" – a genuína preocupação dele comoveu Ginny. Ela já tinha se esquecido como era ter alguém pensando no bem estar dela.

"Vou" – ela assegurou, sentindo os braços dele envolveram sua cintura, enquanto o nariz dele descia para o pescoço dela.

Draco tinha os cabelos tão loiros como os de Harry eram pretos. Seus olhos eram azuis acinzentados e frios, e os de Harry eram verdes vivos e quentes. Eles eram tão diferentes, tão opostos. Harry era impulsivo. Draco era reservado.

E Ronald entrava na dança também. Os cabelos vermelhos berrantes e olhos azuis límpidos e tão doces quanto a pessoa que ele tinha sido.

Todos os homens da vida dela. Tão diferentes. O marido, o irmão e o amante.

Ginny abriu a boca quando sentiu os lábios de Draco tocando os dela. Ela precisava urgentemente daquilo e ele sabia, porque ele não esperou a permissão dela para invadir sua boca.

E enquanto se beijavam, Ginny sentiu como era estar viva novamente. Era somente assim que ela se sentia viva.

Quando ele aparecia na casa dela, algumas noites por semana. Ela nunca sabia quando ele viria e nunca esperava por ele. Ginny tinha aprendido a nunca esperar nada.

Mas ela podia sentir o coração batendo no peito novamente quando ele tocava a campainha.

Ela quase podia sentir alguma felicidade nas horas em que passavam juntos, trancados no quarto dela, deitados juntos na cama. Era como se aqueles pequenos momentos a ajudassem a sair do próprio corpo e a fizessem esquecer quem ela era.

E Ginny só queria esquecer de quem era e de toda a dor que ela sentia.

"Eu não posso ficar essa noite" – ele informou novamente quando parou de beijá-la. Ela não respondeu nada e ele não estranhou. Eles não conversavam. Mas ele não a soltou do abraço.

Correu as mãos pelo cabelo castanho que ela exibia e suspirou pesadamente.

Ginny suspirou também, sentindo o coração apertar. Aquela era uma sensação conhecida por ela. Fechou os olhos, impedindo que uma lágrima corresse pelo rosto dela. Ela sempre sentia o coração apertar quando alguém ia embora, porque as pessoas podiam – e ela tinha experiência nisso – não voltar.

Eles ficaram abraçados por algum tempo antes de Draco anunciar que precisava ir embora.

"Eu te comprei um presente" – ele estendeu uma caixinha de veludo. Ela pegou o presente na mão e fez menção de abrir, mas ele a interrompeu. "Não, deixe para abrir daqui a pouco, quando eu for embora."

Ginny largou a caixinha de veludo sobre a mesa.

"Por que você me comprou isso?" – a voz triste dela fez com que Draco levasse uma das mãos para acariciar as bochechas rosadas dela.

"Porque é seu aniversário" – ele sorriu e abriu a porta.

Ela deu dois passos, ficando embaixo do batente da porta. Eles se olharam por um momento. Ele sorriu, o coração dela apertou e ela enfiou as unhas na madeira da porta quando a garganta dela começou a ficar estrangulada com a vontade de chorar.

"Você vai voltar, não vai?" – ela inquiriu baixinho, a emoção transparecendo na voz.

O elevador chegou e Draco desviou os olhos do rosto de Ginny por um minuto. Ele queria voltar. Ele faria isso acontecer.

"Eu vou" – ele disse e entrou no elevador, enquanto Ginny permanecia na porta do apartamento, vendo o elevador fechando e levando Draco para longe dela.

- § -

"Eu queria ir com vocês, mas eu preciso mesmo terminar esses relatórios" – ela fez uma careta quando olhou para as pastas em cima da mesa.

"Eu sei, amor, sentiremos sua falta" – Harry beijou o topo da cabeça da esposa.

"Voltaremos em dois" – Ron se aproximou do casal, puxando Harry pelos ombros – "Eu cuido do garanhão aqui para você, irmãzinha!"

Ginny riu e balançou a cabeça. "Prefiro acreditar que Harry não precisa de ninguém cuidando dele" – ela piscou. O marido riu e deu um tapa no braço do cunhado.

"Vamos, cara" – Ron chamou, andando para fora da casa, em direção a garagem.

O casal o seguiu, Ginny e Harry de mãos dadas, rindo pelo curto percurso até onde o carro estava.

"Eu sei que vamos ficar apertados, amor, mas olha para ele e diz se não valeu a pena?" – Harry apontou com a cabeça para o carro novinho, guardado na garagem.

Ginny concordou. Era uma despesa a mais, mas eles dariam um jeito.

Eles entraram no carro e Ginny fechou a porta do motorista, onde Harry estava sentado. Ele abaixou o vidro e ela enlaçou o pescoço dele, beijando os lábios do marido.

"Ew" – Ron exclamou, sentado no banco do passageiro.

Ginny ignorou.

"Cuide-se, amor" – Harry sorriu e beijou a mão da esposa.

"Você também" – ela passou as mãos pelo cabeço negro dele.

Harry colocou o cinto e baixou o pino da porta, trancando o carro. Ela se afastou e ele deu a partida.

Ginny sorriu enquanto o carro começou a andar e Harry lhe acenou pelo retrovisor. E então o coração dela apertou e algo dentro da cabeça dela começou a gritar para que ela corresse atrás do carro e não os deixasse partir. Mas quando ela conseguiu sair do estado de letargia, eles já tinham virado a esquina e sumido.

Foi a última vez que Ginny sorriu. Ela tinha 25 anos.


- § -

Ginny fechou a porta atrás de si, se convencendo que o aperto no coração era bobagem. Ainda que ele não voltasse, qual o problema? Não é como se ela o esperasse. Não é como se ela não estivesse sozinha de qualquer forma, mesmo quando ele estava com ela. Ela não o amava. Ela nunca mais amaria ninguém.

Mas ela precisava dele desesperadamente, porque ele era a única pessoa que a ajudava a viver. Porque no dia que ele entrou no apartamento dela, o coração de Ginny voltou a bater e ela lembrou-se como era estar viva.

Ele era o único que conseguia absorver a tristeza que ela sentia.

Ginny pegou a pequena caixinha de veludo sobre a mesa. O presente de Draco.

Ela abriu. Uma corrente fina de ouro estava delicadamente arrumada; um pingente de ouro pendurado brilhava. Uma cruz. Ginny sorriu quando sentiu o metal gelado contra as pontas do dedo. Havia anos que ela não pendurava uma cruz de ouro no pescoço.

Um pedacinho de papel caiu quando ela retirou a corrente de dentro da caixinha. Ginny se abaixou e pegou o papelzinho.

Ela não precisou de muito para saber que aquela era a letra dele.

Nunca pare de acreditar.

Era uma única linha escrita. Que carregava um significado maior do que livro algum poderia transmitir.

Ginny voltou a acreditar. Ela tinha 27 anos.

- § -


Continua...