CAMINHOS CRUZADOS – 3ª PARTE.

Disclaimer: Os nomes dos personagens não me pertencem, embora suas personalidades, nesta história, me pertençam inteiramente.

Resumo: O caminho deles se cruzou em uma noite qualquer. Ele queria descobrir a tragédia dela, enquanto fugia da sua própria. (É UA, gente).

N/a: Eu sei que tinha escrito que era uma One-Shot. Mas essa continuação ficou dançando na minha cabeça.

Ginny/Draco


Nota²: milhões de desculpas pela demora!! Eu ando muito sem tempo para escrever...esse capítulo, por exemplo, eu escrevia durante os minutos viajantes das aulas de Direito Administrativo! Anyway, esse cap. é focado no Draco e aparece muito pouco a Ginny. Acho que no próximo eu coloco mais da ruivinha!! Ah sim, desconsiderem os erros, porque eu num tive tempo para revisar!! Sorry!

Nota³: as cenas aqui se passam nos mesmos intervalos de tempo das cenas do capítulo anterior, mas não tem exatamente ligação com aquelas. São cenas esparsas e diferentes.

Última nota: eu tinha esquecido completamente de agradecer ás reviews do cap anterior. Milhões de desculpas!

Então, obrigada a todos que comentaram...espero que gostem desde aqui também. Beijos a todos vocês!


XxX

Ele olhou fixamente para o resto do cigarro que queimava em seus dedos, contando mentalmente todos os males que a droga poderia causar em seu corpo. Depois, tragou com força, inspirando a fumaça que a nicotina acesa formava, antes de jogar a bituca no chão da calçada e apagar com a ponta do pé.

Soltou lentamente o resto da fumaça que ainda estava presa nos pulmões, apreciando a sensação. Limpou a garganta silenciosamente e se concentrou no pequeno ponto duplo de luz que se aproximava vagarosamente do jardim da casa onde esperava, escondido dos olhos de qualquer pessoa que passasse por ali.

A experiência lhe fez adentrar um pouco mais nos arbustos que cercavam o jardim, tão logo o momento se aproximou; ele aproveitou os barulhos casuais da rua para que sua ação passasse despercebida.

O ponto duplo de luz agora estava bem perto, virando na direção do jardim da casa.

Draco sabia quem estava dentro do Sedan prateado, embora o vidro escurecido escondesse bem o rosto da pessoa que guiava o carro. Era por causa daquele homem que Draco tinha passado as duas últimas duas horas escondido naquele jardim. Levando uma das mãos ao bolso interno do casaco de couro, ele acariciou o metal frio da semi-automática calibre 45. Sua relação com aquela pistola era quase fraternal. Era sua melhor amiga, sua companhia de muitas noites frias e úmidas, tão parecidas com aquela. Não era apenas um instrumento de trabalho. Era sua segurança e sua passagem de ida para o Inferno.

Afundando a mão no mesmo bolso, ele alcançou o estojo que guardava o silenciador. Draco nunca gostava de ouvir o som que a pólvora fazia quando explodia dentro do cano no momento em que o gatilho era apertado. Ele retirou o estojo do bolso e o abriu, no mesmo instante em que o carro era estacionado.

A vítima abriu a porta do carro; Draco atarraxou o silenciador na arma; a vítima saiu do carro e tateou o bolso, procurando o celular que acabara de começar a tocar; Draco guardou o estojo e colocou o par de luvas pretas; a vitima continuou parada ao lado do carro, conversando animadamente com alguém do outro lado da linha; Draco saiu de trás dos arbustos silenciosamente, ficando estrategicamente parado, embora ainda sem ser visto.

A vítima desligou o celular e se endireitou, ativando o alarme do carro. Draco aperfeiçoou a mira da arma e fechou os olhos, pedindo perdão pelo que iria fazer e rezando mentalmente pela alma do homem, como sempre fazia antes de matar alguém, como se isso amenizasse a culpa dele.

Tão absorto que estava em sua oração que não percebeu quando a porta da casa foi aberta abruptamente e uma criança saiu correndo, para se jogar nos braços do pai. O homem, de costas para Draco, recebeu com alegria a menina, pegando-a no colo e abraçando a pequena. Draco, ainda de olhos fechados, apertou o gatilho e então, segundos depois, um barulho chegou a seus ouvidos – um barulho que não deveria ter acontecido. Abriu os olhos no momento em que o homem tombou ao chão, levando com ele a criança, que gritava aterrorizada.

Ele olhou para o homem caído no chão e logo percebeu seu erro: uma criança caída ao lado do homem. Ela gritava, histericamente, chamando pelo pai, que não respondia ao mesmo tempo em que balançava o corpo do homem freneticamente com as mãos.

De onde estava, Draco não conseguia dizer se ela também tinha sido atingida pelo tiro; então ele começou a pedir a Deus que ele não tivesse acertado a menina também, fechando os olhos com força, se recriminando por não ter notado aquele pequeno e frágil detalhe. O chão começou a se pintar de vermelho, o choro da criança era alto e Draco permanecia imóvel, rezando, segurando firmemente a arma junto à lateral do corpo.

A porta foi aberta abruptamente de novo e uma mulher correu até o homem caído e a criança chorando, completamente ignorante da presença de um homem que rezava, escondido pelos arbustos do jardim.

A mulher gritou também quando viu o marido caído e puxou a menina para cima, para longe do corpo morto do pai; foi só então que Draco viu que não tinha ferido a criança. A mãe segurou a criança contra o corpo dela, e se virou para entrar - provavelmente para chamar a polícia ou a emergência. E quando a luz da entrada da casa brilhou sobre a cabeça da menina, Draco viu que, embora o corpo da criança estivesse são, ela jamais seria a mesma. E o que o mais o chocou no momento em que ele realmente viu a menina embaixo da luz, não foi a possibilidade de ter quase matado a criança. Foi o fato de a criança ter os cabelos vermelhos. Vermelhos como os dela.

Ele ainda pôde ouvir o choro sentido e desesperado da criança se distanciando, adentrando cada vez mais na casa. Mas ele não ficou ali para ver o que aconteceria em seguida. A entrada da mulher com a criança era a deixa para ele sair sem ser visto.

Dando uma última olhada no homem caído, ele se correu para o outro lado da rua, tomando o cuidado de não passar por baixo de nenhum poste de luz. Virou a esquina e sumiu, deixando a pequena família destruída para trás, e sua criança de cabelos vermelhos.


XxX

Se você pudesse ser um super-herói, quem seria?

Ele olhou novamente para o tema da redação. Coçou a cabeça e olhou para os colegas, que escreviam em suas folhas, sem prestar atenção no garoto loiro que segurava o lápis numa das mãos, enquanto tamborilava os dedos da outra em cima da folha do caderno em branco.

Releu mais uma vez o tema da redação e cutucou o colega da frente.

"Hey, Blaise, quem você escolheu?"

O colega se virou calmamente, exibindo um sorriso no rosto. "Homem-Aranha."

"Por que?" – Draco alterou o olhar entre o colega e a professora. Ela não ia gostar de saber que ele estava conversando ao invés de escrever.

"Eu gosto dele" – Blaise respondeu, dando de ombros e se virou novamente para terminar a tarefa.

'Certo' Draco pensou – 'Homem-Aranha'. Mas antes que ele pudesse riscar o papel, ele se deu conta de que não gostava do Homem-Aranha. Draco achava que o personagem nada mais era do que um garoto órfão e bobo que fora picado por uma aranha idiota que lhe concedeu poderes esquisitos para salvar o mundo. Mas ele não gostava de aranhas, não era bobo e não era órfão. E não acreditava que fosse legal ter teias de aranha saindo dos pulsos.

Então ele pensou em outro herói. Super-Homem. É, Super-Homem podia ser uma boa opção. Ele era jornalista durante o dia e super-herói nas horas vagas. Ou seria o contrário?

Draco ficou confuso. Bem, mas, de qualquer forma, ele podia voar, era forte e indestrutível e se não fosse a criptonita, ia ser invencível. Mas ele era de outro planeta. É, Draco não conseguia ver muita lógica em ser um herói de outro planeta; afinal, porque você iria se arriscar a salvar as pessoas de um planeta que não era o seu?

Ele pensou no Batman. O Homem-Morcego, imponente em sua roupa e máscara. Rico, jovem, bonito e admirado por todos em Gotan City. É, Draco queria ter um carro irado como o que Batman tinha. Mas toda aquela fantasia tecnológica lhe parecia surreal. E o mordomo? Quem realmente teria conseguido contratar um mordomo como aquele? Não, Batman era outra opção descartada.

E todos os outros também foram descartados. O Homem-Invisível, The Flash, Zorro, He-Man, os X-Mens...todos lhe pareciam tão irreais ou super-alguma coisa que não lhe fazia o gênero.

Seu pai sempre dizia o quanto aquelas histórias eram perda de tempo e de dinheiro, retratando pessoas que nunca existiriam. E naquele momento, Draco começou a concordar. Era difícil demais escolher um super-herói. Talvez pelo fato de que se Draco pudesse ser algum deles, escolheria alguém real, com objetivos e armas reais, para que, de fato, ele pudesse se aproximar um pouco mais da personagem.

E então, ele teve a idéia.

As palavras começaram a aparecer no papel e ele escreveu além das 20 linhas pedidas pela professora. Ele escreveu o nome e as características de sua escolha, discorrendo em seguida sobre os motivos pelos quais ele o tinha escolhido.

Ele finalizou a última frase e releu a redação. O sinal tocou e ele esperou todos os colegas da quarta série se levantarem para entregarem as tarefas, ficando por último na fila.

Ele via a professora sorrindo e comentando animadamente cada escolha dos alunos que entregavam a redação e sentiu o estômago revirar de ansiedade, pensando na opinião dela sobre a escolha dele. Ele podia ouvi-la dizendo Batman, Super-Homem e outros tantos, repetidas vezes. Ninguém tinha pensado no mesmo que ele. Isso era ruim?

"Sua vez, Draco" – a professora sorriu e Draco se aproximou da mesa dela, oferecendo a folha de papel.

Ela pegou a tarefa da mão dele e os olhos dela se abriram em curiosidade e surpresa. Depois, ela levantou a cabeça e encarou o menino que estava parado a sua frente, com os olhos acinzentados brilhando de expectativa, como se fosse o momento mais importante dos últimos 10 anos. Ela deu um sorriso amarelo.

"Robin Hood?"


XxX

"Eu estou fora."

A risada seca que Draco ouviu logo em seguida machucou os ouvidos dele. Mirando os olhos do homem sentado à sua frente, Draco se endireitou na cadeira, tentando manter uma postura intimidadora.

"Esse não é um trabalho que você pode simplesmente pedir demissão, Malfoy" – o homem do outro lado da mesa respondeu, sorrindo maldosamente, enquanto piscava um olho para Draco.

"Eu não estou pedindo nada" – Draco sibilou, o auto-controle afiado, escondendo uma irritação que começava a queimar – "Estou comunicando."

Tom Riddle Jr. piscou e entortou levemente a cabeça para um lado, como se isso o ajudasse a compreender melhor as palavras que o homem loiro sentado a sua frente tinha acabado de dizer. "Acho que eu não fui muito claro no que eu disse" – ele concluiu, por fim. Depois, reinado o silêncio entre eles, Riddle se levantou e foi até a janela. A noite estava estrelada e do oitavo andar do prédio em que estavam, era possível ter uma bela visão do Big Ben. "Eu digo quando você está fora, não o contrário" – ele se escorou na janela da sala, que eles ironicamente apelidavam de 'Quartel General'.

Draco sabia que a conversa ia ser difícil; sabia também que Riddle não era o tipo de homem que gostava de ser contrariado. Em algum lugar de sua mente, Draco ainda podia ver a imagem de um Vincent Crabbe morto. Um dos poucos homens tolos o bastante para desafiar a ira de Riddle.

"Eu não posso mais fazer isso" – Draco declarou com suavidade. Ele não esperava que o homem entendesse. Ele não esperava que Riddle aceitasse facilmente a decisão dele.

"Eu nunca teria imaginado que isso fosse acontecer" – Riddle sorriu antes de acender um cigarro – "Desde quando você ficou assim tão sensível?"

Draco suspirou, sentindo o estômago embrulhar com o cheiro adocicado do cigarro de canela de Riddle. "Eu destruí outra família essa noite."

O homem soltou lentamente a fumaça, a cabeça ainda virada para a vista da janela. Um minuto se passou antes que ele se virasse novamente para Draco. "Ele vendia informações para a polícia. Eu estou garantindo a segurança da nossa família. Então, por que o drama?"

Draco passou a mão nervosamente pelo cabelo. "Ele tinha uma filha. Uma criança que há essa hora está chorando porque ela viu o pai morrer em seus braços" – ele respondeu e ouviu o outro homem dar um longo suspiro entediado.

"Atiraram no seu pai quando você era criança" – Riddle constatou.

Draco sorriu tristemente. "E olha no que eu me tornei."

Riddle deu uma última tragada e jogou a bituca do cigarro pela janela, uma mania que irritava profundamente Draco. Por que o homem não podia simplesmente usar um cinzeiro?

"Tom, eu passei quase quinze anos da minha vida trabalhando para você, fazendo o serviço sujo por você. Para mim acabou. Não torne as coisas difíceis para mim" – Draco falou quando Riddle voltou para sua cadeira.

O homem sorriu e Draco não sabia dizer o que ele expressava. Eles se conheciam há tantos anos e ainda assim, Draco não sabia ler o homem a sua frente.

"Você está cansado. Vá para casa. Você eliminou o problema. A criança está viva e vai superar. Ninguém precisa de um pai dedo-duro de qualquer jeito."

Draco não respondeu. Suspirou, resignado e saiu da sala. Aquele não ia ser um bom momento para discutir aquela aposentadoria precoce. Ele voltou para casa; os pais já estavam dormindo quando ele chegou. Ele foi para o quarto, repensando tudo o que tinha acontecido naquela noite. Outra criança que cresceria sem pai. Outra menina que espalharia fotos de alguém que não existia mais pela casa. Aquela criança, aquela pobre menininha.

Os pensamentos dele voaram para a mulher ruiva que ele conheceu em uma noite qualquer enquanto andava pela Londres gelada. Draco visualizou a mulher que ocupava uma parte da mente dele desde que tinham se encontrado. Pensou nas fotos que ela espalhava pelo pequeno apartamento. E na solidão dela com aqueles fantasmas a rondando, como se as fotos pudessem gritar por ela a dor que ela escondia.

E Draco sentia vontade de se afundar no sofrimento pungente dela, em cada pedaço de Ginny que transmitia fraqueza.

Ele começou a pensar que, talvez, ele mesmo tivesse criado uma nova garota de cabelos vermelhos e vida vazia. Aquela outra menininha, de cabelos vermelhos, que iria enfrentar cedo demais a dor da perda. Ou talvez ele tivesse criado um outro reflexo dele mesmo. Inferno! As duas opções eram ruins!

A raiva e frustração começaram a dominar os pensamentos dele. Draco apoiou as duas mãos na parede e abaixou a cabeça, tentando recuperar alguma sanidade. Mas ela não viria; a sanidade dele estava perdida naquele momento. Irritado, ele socou a parede com a mão direita, machucando e cortando os nós dos dedos.

Ginny.

Ele precisava dela.


XxX

Um garoto sempre sabe a hora de se tornar um homem, Draco lembrou as palavras do pai enquanto consultava o relógio de pulso para conferir quanto tempo já tinha passado desde que tinha chegado ali. Já estava no hospital há 14 horas.

O cheiro de álcool e desinfetante o deixavam enjoado. Já passava da meia-noite e ele ainda não tinha almoçado; não sentia fome de qualquer forma.

Fazia 12 horas que o pai tinha entrado em cirurgia e até agora o médico não tinha dado notícias. Ele estava tão nervoso que tinha destruído a alça da mochila da escola, apertando e torcendo o pedaço de tecido e borracha.

A mãe tinha estado rezando na quase totalidade do tempo, dando a Draco uma sensação de solidão, sentado na sala de espera do hospital público.

Eles não eram os únicos na sala, mas as paredes brancas e o silêncio o faziam sentir-se completamente só.

Ele ainda sentia alguma dificuldade em entender o que tinha acontecido com o pai. Lúcio o tinha levado para a escola; Draco assistiu às primeiras aulas do período da manhã e então, uma hora antes do almoço, recebeu o telefonema de que o pai tinha sido baleado e estava sendo levado para o hospital público da comunidade. Como isso tinha acontecido naquele pequeno espaço de tempo?

A mãe já se encontrava ali quando ele chegou. Ela estava nervosa demais para explicar direito o que tinha acontecido e tudo o que Draco entendeu foi que Lúcio tinha sido ferido durante o expediente de trabalho. Theodore Nott era publicamente conhecido por ser um homem violento, e tinha sido requerido como réu numa Ação Penal movida pela Promotoria, para condená-lo por violência doméstica contra a esposa. Nott tinha ficado nervoso e desferido três tiros contra Lúcio assim que ele entregou o oficio que demandava a presença do homem em audiência de instrução. O filho-da-mãe o pegou desprevenido, atirando nele pelas costas quando ele se virou para ir embora. Covarde. Draco poderia matá-lo com as próprias mãos se o encontrasse naquele momento. Jamais imaginou que a profissão do pai pudesse ser tão perigosa. Jamais imaginou que alguém realmente pudesse se livrar de uma prisão alegando 'legitima-defesa'. Maldito Nott e seu maldito dinheiro.

Theodore Nott. Ele guardaria aquele nome. Ele iria atrás do homem que desgraçou a vida do pai e o faria engolir a arma e a riqueza que o protegia contra a prisão. Maldita justiça!

Draco respirou fundo, controlando a ira que sentia; naquele momento, ele deveria estar preocupado e com medo para pensar em vingança. Ele só queria receber a noticia de que o pai estava vivo e iria se recuperar. Nott seria um problema a ser cuidado depois.

A mãe tinha os olhos fechados e Draco podia ver as lágrimas escorrendo pelas bochechas pálidas dela. Ela ainda rezava e ele não pôde evitar pensar que aquilo era a única coisa que se podia fazer naquele momento. Ele admirou a força da mãe em gastar sua energia pedindo a Deus que salvasse a vida do marido.

Draco nunca fora de rezar. Ele achava esquisito pedir ou agradecer a alguém invisível e se sentia bobo quando fazia. Mas ali, naquele banco de hospital, com a possibilidade de perder o pai por causa de um idiota covarde, sem nada para fazer que pudesse ajudar a salvar sua vida, Draco achou que não existia nada mais sábio a se fazer do que pedir a Deus que os ajudasse.

Fazendo o sinal da cruz, ele juntou as mãos e as apoiou na testa, fechando os olhos e murmurando baixinho a oração que tinha aprendido com a mãe. Depois, ele conversou com Deus, pedindo desculpas por não rezar nunca e por estar fazendo isso naquele momento de necessidade, ele pediu que o pai sobrevivesse a operação e que se recuperasse, porque ele o amava demais e não queria que Lúcio morresse.

Ele ficou repetindo essas palavras por muito tempo, na esperança de que fosse ouvido por alguém lá em cima. Só parou de rezar quando um homem de máscara, cabelos bagunçados e avental azul adentrou na sala de espera, chamando a Sra. Malfoy para conversar.

Draco se levantou no mesmo momento e seguiu a mãe até o médico.

"Terminamos a operação há alguns minutos. Ele foi levado para a UTI para ficar em observação" – o médico relatou e, notando a exaustão e ansiedade de Draco e da mãe, emendou rapidamente – "Ele está fora de perigo agora, podem ficar tranqüilos."

Narcissa respirou fundo, e levou as mãos á boca, agradecendo repetidamente ao médico por ter salvado a vida do marido. Mas Draco estava atento ao fato de que ainda faltava alguma coisa a ser dita.

"Ele vai ficar bem?" – perguntou.

"Conseguimos reverter os piores efeitos das lesões. Mas duas balas perfuraram e danificaram as três últimas vértebras da coluna vertebral. Ainda é cedo para sabermos quais serão os resultados das lesões e da operação. Por enquanto, o importante é mantê-lo estável e acelerar a recuperação."

"E o que pode acontecer, doutor?" – Narcissa colocou as mãos nos ombros de Draco, buscando apoio.

O médico pareceu desconfortável com a pergunta. "A coluna foi lesionada. Tentamos reverter os efeitos disso na cirurgia, mas ainda não sabemos se obtivemos sucesso total. O dano principal foi parcialmente reparado, mas ainda existe a possibilidade de que o Sr. Malfoy perca a sensibilidade da região e membros inferiores."

"E o que isso significa?" – a mulher perguntou assustada demais para conseguir raciocinar por conta própria.

"Se essa perda for permanente, significa que o Sr. Malfoy ficará paralítico."

E então, Draco entendeu que o momento dele tinha chegado. O momento de se tornar um homem era aquele. Era a partir dali que ele precisaria tomar decisões e assumir responsabilidades pelo pai que poderia ficar debilitado para sempre.

Ele sentiu o rosto coçar e cutucou a pele do queixo com as unhas curtas. Ele ainda não tinha barba, mas achava que aquilo era um sinal de que elas iriam começar a crescer agora que ele iria se tornar um homem.

Reunindo toda maturidade adquirida ao longo dos 13 anos, ele abraçou a mãe e sussurrou que iria ficar tudo bem. Ele era um homem e daria um jeito de cuidar da família.


XxX

Ele massageou o pescoço com as mãos, enquanto esperava ela descer para abrir a porta da frente. Draco tinha ido até a casa dela porque precisava estar com ela por algumas horas naquela noite; era como se aquilo garantisse a ele alguns momentos de paz.

O barulho da fechadura sendo destrancada foi seguido pela abertura da porta. Ela estava embrulhada em um roupão de lã cor de rosa, os olhos fundos mostrando cansaço, o cabelo meio solto, meio preso. Draco não teve dúvidas de que ela estivera dormindo antes dele aparecer.

"Desculpa ter acordado você" – ele disse, pisando para dentro do hall de entrada, sem esperar um convite.

Ela não respondeu, dando apenas um pequeno sorriso e tentando em vão prender alguns fios de cabelo que caiam sobre os olhos.

Draco passou as mãos pelos braços dela, aquecendo a mulher. Os olhos deles se encontraram por breves segundos antes dela desviá-los para a caixa de correio. A fuga habitual que Ginny fazia quando precisava demonstrar alguma emoção.

"Esqueci de pegar a correspondência" – ela comentou distraída, enquanto abria a caixa de número 35 e retirava os envelopes. Ele se postou ao lado dela, encostando a cabeça na parede. Estava cansado aquela noite. Cansado daquela vida e daquela mentira que ele tinha criado para viver.

"Posso ficar aqui essa noite?" – ele perguntou de olhos fechados, ainda encostado na parede.

Ginny fechou a caixa de correio e olhou para o homem que tinha os olhos fechados e a cabeça encostada apoiada. A voz dele tinha saído rouca e ela pôde sentir um arrepio subindo pela espinha quando ele falou. Draco parecia exausto.

"Claro" – ela respondeu e encostou delicadamente no braço dele; ele abriu os olhos ao sentir o toque e foi puxado pela mão para acompanhá-la pelas escadas.

Eles subiram em silêncio e entraram no apartamento dela.

Ginny jogou os envelopes na mesa, escolhendo apenas um deles para abrir. Draco pegou os outros quatro, lendo o nome (Virgínia Potter) e o endereço dela e notando que eram apenas contas a serem pagas. Depois, ele viu quando ela descartou o único envelope aberto e jogou sobre a mesa uma pequena carta.

"O que é, Ginny?"

Ela balançou a cabeça e murmurou que não era nada importante, mas Draco pegou o papel para ler, apenas por curiosidade. Era uma pequena e curta carta comercial do Sindicato dos Assistentes Sociais, desejando um feliz aniversário.

"Eu não sabia que era seu aniversário" – Draco deu um sorriso amarelo.

"Não é. Não ainda. Eles mandam essa carta todo ano, com um mês de antecedência" – ela explicou, pegando o papel das mãos dele e amassando.

Draco fez uma nota mental sobre isso. Talvez ele lhe fizesse alguma surpresa.

"Sua mão está melhor" – ela apontou e em seguida, se aproximou de Draco, alcançando a mão dele e acariciando com o polegar os nós dos dedos antes machucados. Já fazia duas semanas desde que ele tinha socado a parede. Duas semanas desde que ele tinha destruído a vida da menina de cabelos vermelhos.

Draco sorriu com a demonstração de carinho; era tão difícil Ginny demonstrar alguma coisa emocional que não fosse tristeza ou raiva, que ele não queria estragar o momento com algum comentário desnecessário.

Ela não largou a mão dele quando levantou a cabeça, os olhos chocolates dela procurando os acinzentados dele. Ele levantou uma mão e acariciou a bochecha de Ginny, sentindo naquele momento como a presença dela o confortava. Draco sentiu o quanto gostava de estar ali com ela naquelas noites em que a procurava e o quanto sentia falta disso nas noites em que estava trabalhando.

Ela fechou os olhos quando o indicador dele começou a traçar o caminho desenhado pelos lábios entreabertos dela.

"Oi" – ela disse baixinho, como se eles tivessem se encontrado apenas naquele momento; ela já sabendo o que viria a seguir, ela sabia e queria. E ele sabia que o sussurro dela era mais do que uma permissão; era um pedido.

Ele abaixou a cabeça e a beijou, sentindo o gosto de pasta de dentes de hortelã que a boca dela tinha. Ginny soltou a mão dele e enlaçou o pescoço do homem, abraçando-o com força, aprofundando o beijo deles, aumentando o ritmo do contato.

Draco desceu as mãos pelo abdômen dela, até parar na cintura. Ele apertou a curva ali com força, puxando o corpo dela para perto do dele, criando um atrito dolorosamente prazeroso entre o baixo ventre dele e a barriga dela. Depois, ele levou as mãos para a abertura do roupão e o abriu sem cerimônia, revelando o corpo dela por baixo do tecido.

Aquele era uma das noites em que eles precisavam um do outro de forma quase irracional. Não era nada além de uma necessidade desesperadamente física de contato humano e liberação. Não existiriam conversas, abraços carinhosos ou choros; não existiriam crianças ruivas com pais mortos, armas e cadeiras de rodas.

Era uma das noites em que Ginny o usava descaradamente, mas Draco não se importava. Ele sabia que ela precisava dele para confortá-la e ele nunca se recusaria a proporcionar a ela esse pequeno alívio. Ela brincava com o corpo dele até se cansar, como se ele fosse um objeto. Mas ele entendia porque ele também a usava. Eram como uma válvula de escape mútua.

Ele jogou o roupão dela no chão e a carregou para o quarto.


XxX

Culpe o sistema.

Era o que Blaise dizia.

Culpe o sistema que escolheu a comida que você come, o programa que você assiste na televisão, as pessoas que serão ricas e aquelas que não terão o que comer. Culpe o sistema que escolhe tudo por você. Culpe o sistema quando a sua vida não dá certo. Culpe sempre o maldito sistema.

Culpe o sistema que criou o cigarro, que lhe foi apresentado porque você precisava de alguma coisa para expurgar sua raiva e frustração. Raiva pela nova vida que levava sem querer e frustração por odiar essa vida.

Depois que Lúcio ficou paralitico, Draco assumiu a responsabilidade de ser o filho perfeito para que os pais não precisassem de outro motivo para perderem o sono á noite. Assumiu a tarefa de construir um futuro sozinho e melhor do que o do pai, porque ele tinha aprendido que as coisas aconteciam rápido e sem previsão, e se ele ficasse em casa esperando as oportunidades surgirem, ele nunca sairia do lugar.

Ouviu Lúcio resmungar uma vez, enquanto Narcissa empurrava a cadeira de rodas dele para onde batia sol no quintal, que não queria que o filho tivesse o mesmo destino que ele.

E Draco não queria o destino do pai. Não queria passar anos e anos se dedicando a um trabalho perigoso, para, no auge da vida, ser condenado a passar o resto dos anos sentado numa velha cadeira de rodas – porque o dinheiro da indenização não fora suficiente para lhe garantir uma cadeira nova – dependendo da caridade alheia até para ir ao banheiro.

Ele queria um futuro diferente; ele queria deixar aquele bairro pobre e ir para a Faculdade, jogar futebol à tarde com os colegas e tocar violão de domingo ao anoitecer. Mas o futuro não viria para ele e Draco sabia. Porque o sistema escolheu o momento em que ele teria que deixar precocemente os sonhos de lado para enfrentar a dura realidade da vida. E isso consumia Draco por dentro; o queimava de raiva e ódio. Ele tinha deixado de lado os sonhos sim, mas também tinha abandonado a doçura que tinha tido em criança e qualquer possibilidade de resignação que um dia pudesse ter.

Por isso o cigarro. Era a forma que os amigos dele usavam para demonstrar rebeldia. Ele aprendeu a fumar apenas para que pudesse se incluir no grupo excluído dos rebeldes. Porque as pessoas sabiam que fumar era socialmente errado, porque matava, porque poluía; mas Draco não dava a mínima para as normas sociais. Ele queria que as pessoas olhassem para ele e declarassem que ele era um caso perdido, porque assim, ele poderia ficar livre para não cumprir as ordens do sistema. Ele queria ser como Robin Hood e queria poder descontar tudo que sentia no sistema, o que quer que isso fosse.

Ele colocava o cigarro entre dois dedos e mostrava a todos o quanto ele era rebelde por estar fumando aos 15 anos. E imaginava, no lugar do cigarro, um saco de ouro – justamente roubado dos ricos para distribuir aos pobres. A sensação que o cigarro lhe transmitia era de poder. E ele gostava de sentir que intimidava as pessoas apenas porque ele não tinha medo de fazer o que era errado. Ele gostava do cigarro porque o sistema tinha escolhido o cigarro para marginalizar os adolescentes que descobriam o prazer do vício cedo demais.

E era por causa do vício recentemente adquirido que ele estava ali, parado duas esquinas atrás da escola, revirando os bolsos da mochila a procura de algum cigarro que tivesse sobrado do último pacote que Blaise e ele haviam comprado.

"E ai, irmão? Achou?" – Blaise se impacientou.

"Não" – Draco suspirou.

"Merda!" – Blaise xingou e chutou o poste de luz – "Você tem algum trocado ai?"

Draco revirou os olhos e negou com a cabeça. "Preciso ir" – anunciou.

"Você tem que sair de lá, irmão. Eles pagam pouco demais. Você não vai chegar a lugar algum atrás daquele balcão" – Blaise sentenciou.

"Isso é só porque você foi demitido" – Draco sorriu provocando o amigo.

"Vai se danar!" – Blaise deu um tapa na cabeça de Draco – "Além do mais, eu tenho planos melhores para mim. E para você, se você sair daquela espelunca."

"Aquela espelunca me dá 30 de desconto nos remédios do meu pai e você sabe disso" – Draco se irritou. Ele desconfiava que os planos de Blaise dariam a eles dois o mesmo destino que Albert Zabini (o irmão mais velho de Blaise) estava tendo.

Draco trabalhava numa loja de departamentos e a Farmácia que tinha dentro da loja permitia que ele comprasse os remédios de Lúcio com desconto apenas porque ele trabalhava lá.

Continuar naquela loja de departamentos era uma questão de necessidade para Draco, porque os remédios do pai eram caros demais e o valor da pensão que a família Malfoy recebia era pequeno.

"É o que eu te falo, cara, isso aqui é tudo uma merda! O teu pai 'tá' ferrado porque atiraram nele e o governo nem mesmo paga uma pensão decente. E o cara que atirou nele continua numa boa porque tinha dinheiro para pagar um bom advogado. É tudo culpa desse sistema maldito!"

Draco não respondeu. Ele sentia muita raiva de toda aquela história para responder. Ele odiava a maldita justiça dos homens que não tinha feito nada pelo pai dele; e odiava o maldito governo que não pagava o suficiente para que Draco pudesse passar as tardes em casa, se preparando para uma possível admissão em alguma boa faculdade – que ele jamais poderia pagar, de qualquer forma -, como faziam quase todos os seus amigos. Ele precisava trabalhar durante 6 horas depois do período da escola, para ajudar a mãe a comprar os remédios que Lúcio precisava para sentir menos dor.

Deus, ele precisava de um cigarro.

"Preciso ir, Blaise. Ficar aqui xingando o sistema com você só vai fazer com que aquele idiota desconte o atraso no meu salário" – ele deu um tapa no ombro do amigo como forma de despedida e começou a caminhar, mas o amigo resolveu que iria acompanhá-lo até a loja de departamentos porque 'não tinha nada melhor para fazer.'

Com a mochila jogada por sobre um dos ombros e as mãos no bolso das calças jeans, Draco andava a passos apressados pelas ruas, enquanto ouvia Blaise reclamando sobre o irmão que havia sido novamente preso no mês anterior. A família de Blaise estava completamente desestruturada; o pai havia morrido há anos e o irmão mais velho tinha sido preso mais vezes do que Draco podia se lembrar. A Sra. Zabini era uma mulher impaciente, reclamava demais sobre o filho mais novo e o tratava como se ele fosse o enteado dela, e não o próprio filho. Blaise era tão rebelde quanto Draco e talvez por isso, eles se tratavam como irmãos.

Eles se consideravam família porque ambos tinham vergonha de voltar para a casa e enfrentar a realidade do lar. Draco não contava para ninguém que o pai era paralitico; Blaise fingia que não tinha irmão e mãe.

"...e então ele me ligou e disse que era para eu tomar conta da mamãe, porque ele deveria ficar mais tempo na prisão dessa vez."

"Sua mãe deve estar contente com isso" – Draco riu.

Blaise deu um sorriso amarelo e desconversou. "Olha ali, vamos filar um cigarro com alguém daquele bar."

Draco suspirou, dividido entre a pressa de chegar ao trabalho rápido e a necessidade de fumar. Seguiu Blaise até o bar.

"Com licença" – Blaise sorriu, educado, e cutucou um homem – que estava sentado de frente para o balcão sujo – "Eu posso filar um?" – apontou para o cigarro nos dedos do homem.

O homem se virou lentamente e encarou os dois amigos. Soltando lentamente a fumaça, ele deu uma olhada para o atendente do bar.

"Thomas, dê um pacote de cigarro para eles."

O atendente se virou rapidamente e, apressado, pegou no balcão um pacote de cigarros e deu para Blaise. Sem olhar para os garotos, Thomas ficou pacientemente esperando uma possível nova ordem do homem sentado no balcão.

"Valeu, cara, mas não temos como pagar" – ele empurrou o pacote de cigarros de volta na mão do atendente.

O homem riu. "Eu estou dando para vocês. Eu já passei por isso, eu sei o que é depender de um estranho para dar uma boa tragada."

O atendente devolveu o pacote para Blaise e ele abriu rapidamente, oferecendo ao amigo. Draco pegou um cigarro do pacote e agradeceu ao atendente e ao homem que havia oferecido o pacote, acendendo prontamente. Ele tragou com intensidade, fechando os olhos na tentativa de se afundar apenas no prazer do cigarro.

"Bem, irmão, valeu!" – Blaise estendeu a mão para cumprimentar o homem.

"Tom Riddle Jr." – o homem se apresentou. Ele tinha os cabelos castanhos e os olhos grandes e espertos. Ele tinha algo que lembrava a Draco do professor de literatura. Ele vestia um casaco de couro pesado demais para aquela época do ano e a sua frente estava um copo meio cheio com um liquido transparente. Draco o olhava com curiosidade contida e desconfiança.

"Eu sou Blaise Zabini e esse aqui é Draco Malfoy" – Blaise se apressou em responder. Zabini era mais expansivo que Draco e mais simpático também. Draco era mais reservado e desconfiado e às vezes, odiava a mania de Blaise de querer fazer amizade com todo mundo.

"Vocês estudam?" – Riddle perguntou, olhando atentamente de Draco para Blaise.

"Estudamos aqui na Escola Municipal" – Blaise deu de ombros. Ao lado dele, Draco se impacientou, preocupado com o atraso, soltando nervosamente a fumaça.

"Vocês estão com pressa?"- Riddle tornou a perguntar quando Draco consultou o relógio sem qualquer discrição.

"Draco precisa chegar logo na loja. Se ele se atrasar mais uma vez, vão descontar do pagamento dele" – Blaise explicou, ignorando a olhada feia de Draco.

"E onde você trabalha?" – Riddle se dirigiu ao loiro.

Draco ficou envergonhado de contar ao rapaz que trabalhava na loja de departamentos do bairro. Mas solicitamente, Blaise respondeu por ele, contando quase tudo da vida do amigo, desde o acidente de Lúcio. Riddle deu uma risadinha desdenhosa e Draco ficou nervoso com aquilo. Ele já estava se preparando para sair do bar quando Riddle se manifestou.

"Não se envergonhe, rapaz. Eu disse que sei como é estar no lugar de vocês. Mas sabem, existem opções na vida. Você pode escolher ser um produto do sistema ou fazer do sistema um produto seu. É apenas uma questão de saber o que o sistema te oferece. No caso de vocês, eu suponho que recebam menos do que merecem" – Riddle mirou Blaise mais atentamente, talvez percebendo que o negro era mais facilmente maleável do que o amigo. Mas Tom conhecia o tipo de Draco. Ele conhecia e sabia exatamente o que fazer para recrutar o adolescente.

"E o que isso quer dizer?" – Draco perguntou despeitado, jogando o cigarro no chão e apagando com a ponta do pé, para depois encarar Riddle com frieza.

"Quer dizer que se vocês quiserem ganhar alguns trocados a mais, vocês podem me procurar" – Riddle sorriu e entregou a Blaise um cartão de cor parda.

"E o que você faz?" – Blaise perguntou, já desconfiando da resposta.

"Digamos que eu sou um tipo de caça talentos" – Riddle deu um sorriso de lado, dando a Draco uma impressão misteriosa – "Eu procuro gente qualificada para trabalhar na minha...agência" – ele deu uma piscada para o atendente do bar e depois, disse adeus aos garotos e sumiu.

Blaise sorriu para Draco e levantou o cartão, batucando nele com os dedos. Draco entendeu na mesma hora que tipo de trocado eles poderiam ganhar e pensou no que Riddle tinha dito.

Aquele era o tipo de momento em que se fazia a escolha entre o que é certo e o que é fácil. Draco se sentia rebelde demais, naquele momento, para pensar no que era certo, embora uma parte consciente dele apontasse o quanto uma escolha errada poderia ser irremediável. Mas que se danasse, ele pensou, a consciência dele não pagava a comida que se punha na mesa, nem os remédio do pai. Riddle estava disposto a mostrar a ele um futuro diferente daquele que o sistema lhe proporcionava. O que o sistema estava dando para ele a não ser um futuro insosso? Por que haveria de desperdiçar a oportunidade de fazer do sistema um produto dele?

Blaise tinha razão.

Culpe o sistema quando você escolher o caminho mais fácil.


XxX

Tom Riddle Jr. Era um homem realmente bonito, mesmo com a idade que tinha. O cabelo castanho era levemente pintado por alguns poucos fios brancos, mas isso apenas acentuava as feições agradáveis que ele tinha, ainda aos 60 anos. Ele deveria ter sido um jovem bonito.

Os anos não tinham conseguido apagar alguns traços da juventude dele; Riddle ainda tinha algum brilho nos olhos e um porte de príncipe, comumente apreciado aos 20 anos.

Olhando para ele, naquele momento, Draco se perguntou se as pessoas que não o conheciam algum dia imaginariam quem ele era de verdade. Se Draco não o conhecesse há quase 15 anos, ele apostaria que Riddle fazia o tipo paternal.

"Eu confesso que estou decepcionado" – Riddle declarou depois de longos minutos de silêncio. Draco estava na sala há quase meia hora e Riddle não tinha se pronunciado ainda. Mas depois que fez, Draco começou a pensar que preferia o silêncio. "Eu nunca perdi um homem da forma como estou perdendo você" – continuou, fitando Draco com característica frieza – "Eu me sinto quase...traído por você!"

Draco suspirou. Entre as qualidades de Riddle, a chantagem sempre fora uma das melhores. "Não consigo enxergar onde está minha suposta traição."

Riddle riu. "Você me preteriu um nome da sua consciência, Malfoy" – o tom ácido usado por Riddle deixou Draco em estado de alerta – "Eu mereço uma boa explicação."

"Não existe um motivo, se é isso que está esperando. Eu só quero...parar."

Riddle levantou as sobrancelhas em sinal de surpresa. Depois, curvou um pouco o corpo sobre a mesa, cruzando as mãos em cima do tampão de madeira. "Você acha que parar agora vai aliviar o que já fez?"

"O mundo seria um paraíso se eu tivesse essa idéia infantil" – Draco sibilou. Ele sabia que Riddle iria insistir naquela conversa até obter as respostas que o satisfizessem. Mas Draco não era tolo a ponto de cair no jogo do chefe.

"Então, você quer sair. E depois? O que vai fazer?"

"Ter uma vida" – Draco retrucou imediatamente.

Riddle dirigiu a Draco um olhar carregado de desprezo. Ele gostava do garoto – tinha gostado dele desde sempre – mas ele não podia deixar de achá-lo ingrato naquele momento.

"Achei que você tivesse uma. Falta alguma coisa para você? Seu salário não é o suficiente?" – Riddle se recostou na cadeira e desviou o olhar para a janela. "Seu pai não tem todos os cuidados que precisa?"

"Não me falta nada além de uma vida, Tom. Eu preciso parar, eu preciso sair dessa vida. Não consigo mais fazer isso" – Draco abaixou o tom de voz, quase rouco que estava. Ele não sabia e nem poderia explicar o que se passava com ele; tampouco saberia dizer quando foi que aquilo havia começado. Ele podia apenas dizer que, há alguns meses atrás, ele ainda sentiria algum prazer em matar certos tipos de sujeito. E então, o trabalho começou a ficar penoso.

Riddle sorriu. "Não consegue?" – perguntou, se levantando da cadeira e indo em direção á janela da sala. Ele cruzou as mãos nas costas, numa espécie de alongamento; depois, largou os braços ao lado do corpo. "Eu admiro sua coragem, rapaz. Realmente admiro. Eu já vi isso acontecer algumas vezes. Mas nunca me falaram dessa forma como você está fazendo. Eu via nos olhos deles essa angustia, mas nunca ouvia da boca de nenhum deles."

Draco permaneceu em silêncio, apenas observando Riddle. Ele continuava de costas, olhando para fora da janela.

"Eu nunca voltei atrás. Tudo o que fiz para chegar até aqui, fiz porque era o certo a se fazer nas minhas circunstâncias. Você também teve essa escolha" – Riddle deu um longo suspiro.

"Eu nunca pensei o contrário, Tom" – Draco retorquiu, sabendo que chamar Riddle pelo primeiro nome era um jeito de apelar para sua causa – "Eu não me arrependo de nada" – mentiu.

Há alguns meses, aquilo não teria mesmo sido uma mentira. Mas depois de conhecer Ginny, Draco começou a sentir o peso do que vinha fazendo. Quantas famílias ele não tinha destruído ao longo desses anos? Quantas Ginnys e Dracos ele não tinha criado? Ele só queria parar de causar desgraças na vida de pessoas – inocentes ou não. Ele só não queria mais ser o responsável por apartamentos vazios e fantasmas em fotografias.

"Mas você sabe que não é assim tão simples, não sabe?" – Riddle virou lentamente o corpo para Draco.

O loiro suspirou. "É, eu sei. Mas não é impossível" – rebateu. Riddle concordou – ambos sabiam da história de Simas Finnigan. Era de conhecimento das famílias que Finnigan tinham largado o mundo do crime, inspirado pela possibilidade de ter uma segunda chance.

"As famílias não estão atrás dele, estão?"

Riddle negou. "Ele jurou silêncio. É uma questão de honra ou algo do tipo. Mas ele só precisa respirar errado para acordar morto no dia seguinte."

"Mas Finnigan sempre foi muito burro. Ele gostava de se mostrar, gostava de mostrar o rosto, não é? Ele gostava de ser conhecido para ser temido" – Draco constatou.

"Diferente de você, Malfoy" – Riddle sorriu – "Você é como uma sombra, não é? Sempre agindo na escuridão, sempre escondendo o rosto. Por isso que você é tão bom. As pessoas que te conhecem não sabem quem você é de verdade. E as que descobrem, bem, não é como se ela vivessem para contar, é? É como se você não existisse" – Riddle batucou no parapeito da janela, dando um sorriso orgulhoso.

Draco assentiu com a cabeça. Ele tinha se tornado ainda mais introspectivo depois que passou a fazer parte do Quartel General de Riddle. Ele se esforçava em ser um rosto desconhecido para todos – policiais e criminosos – porque correr o risco de ser morto ou preso não fazia parte dos planos dele. Pessoas conhecidas morriam cedo demais ou eram presas por períodos bastante longos, para morrerem de forma misteriosa logo em seguida.

"Você não teria grandes problemas para se aposentar, eu acho. Eu escondi você muito bem das outras famílias e seus...irmãos...não te machucariam" – Riddle concluiu e voltou a se sentar na mesa, de frente para Draco.

O loiro o encarou ansiosamente, esperando o próximo passo de Riddle.

"Você é um rosto desconhecido para quase todos, Malfoy. Se você não fizesse parte da nossa família, eu provavelmente duvidaria da sua existência" – ele fez uma pequena pausa para retirar de dentro da gaveta uma pasta de papel de cor azul e empurrá-la para Draco – "A Yard nunca conseguiu chegar perto do seu nome. Eles são uns macacos, é verdade. Mas não se pode negar o seu talento em ser invisível."

Draco olhou para a pasta de papel. Ele já tinha visto tantas iguais aquelas, em momentos tão parecidos. Eram naquelas pastas que Riddle guardava as fichas dos 'trabalhos'; os arquivos dos serviços que o Quartel General prestava. Riddle passava para ele o planejamento dos serviços e, em muitos dele, Draco participava da execução principal.

Draco já tinha visto todos os tipos de perfis em pastas como aquelas. Ele tinha encarado assassinos – como ele próprio –, traficantes de drogas e crianças, políticos corruptos, artistas, agiotas. Ele tinha sido contratado inúmeras vezes por pais de família, irmãos e maridos desesperados, que o procurava para se vingar contra tipos que tinham enganado, abusado ou destruído suas famílias. Eles pagavam caro para que Draco fizesse o que eles desejavam, mas não tinham coragem – ou capacidade – de fazer. Esses eram os serviços que Draco mais gostava; primeiro porque ele via em cada serviço, o rosto de Theodore Nott. Ele matava esses sujeitos como se estivesse matando Nott. Depois, porque além de lhe dar algum prazer, ele ainda sentia como se pudesse dividir a responsabilidade por estar tirando aquelas vidas. Ele dividia sua culpa com cada pessoa desesperada que pedia por seus serviços.

Mas também existiam aqueles serviços que ele fazia apenas por obrigação. Aqueles em que ele eliminava pessoas boas demais para existirem; tão boas que acabavam atrapalhando pessoas não tão boas assim. Esses serviços eram os piores, porque ele as executava sem um motivo real, sem precisar. E então, ele rezava e pedia perdão e fumava um maço inteiro de cigarros para tentar aliviar sua culpa, sempre sem qualquer sucesso, porque não existia uma forma de se dividir a culpa em circunstâncias como aquela.

Tinha sido depois de um desses serviços que ele conheceu Ginny.

E naquele momento, olhando mias uma vez para outra pasta azul, ele se perguntou quem seria o serviço da vez e se teria coragem de apertar o gatilho quando chegasse o momento.

"É sua carta de alforria" – Riddle explicou, lendo o olhar apreensivo de Draco – "Ele não conhece você, tenho certeza. Mas conhece o resto de nós. Elimine o problema e eu te libero. Faço acontecer como se Draco Malfoy nunca tivesse feito parte da minha família."

Draco alcançou a pasta, ignorando a pontada que sentiu no coração. Ele estava ansioso para ganhar a desejada liberdade. Ele não abriu de imediato. Primeiro, encarou o homem a sua frente, lendo nos olhos de Riddle o desafio.

"Vai ser o seu trabalho mais difícil. Você pode recusar, é claro. Mas se aceitar, estará sozinho. Se você acha que sua liberdade custa a sua vida, então, você tem a minha palavra de que vou te enterrar" – Riddle finalizou.

Draco não pensou nem por um segundo. A esperança de se ver livre daquela vida brotou dentro dele com força total. Ele estaria livre – de uma forma ou de outra. Ele nem mesmo hesitou em aceitar aquele último serviço.

Há muito ele tinha notado que o caminho certo e o caminho difícil geralmente seguiam o mesmo destino. Mas ele tinha uma chance novamente; não só de ser livre, mas de fazer alguma coisa certa. Seria o último trabalho dele antes de dar um passo em rumo a uma nova vida. Era a segunda chance dele e Draco sabia o que devia escolher. Difícil ou não, era o caminho que ele queria.

"Quanto tempo?" – Draco perguntou.

"Quanto tempo levar" – Riddle sorriu, um sorriso quase triste que deu a Draco a impressão de que Riddle não estava inteiramente contente em lhe passar o serviço. Mas ele não iria contestar ou perguntar nada ao chefe. Ele iria fazer o que tinha que fazer para se libertar.

Assentindo com a cabeça, Draco se levantou e com a pasta azul na mão, deixou o Quartel General, ansioso por estudar rapidamente o novo serviço. Durante muitas noites, ele tinha rezado, pedindo uma chance; uma oportunidade para poder parar e construir uma vida nova e certa. E ele tinha sido atendido. Por algum motivo, ele tinha recebido aquela graça. Suas orações sinceras tinham lhe dado uma nova chance e, acima de tudo, esperança. Ele nunca pararia de acreditar que havia algo acima dele, algo melhor e mais justo; alguém sempre pronto a atender a quem lhe pede por auxílio.

Ele estava feliz com a novidade e queria chegar em casa o mais rápido possível para começar a traçar o plano do novo serviço. Precisaria de alguns dias de concentração – Riddle tinha escolhido um alvo difícil, ele sabia mesmo sem abrir a pasta – e teria que estar sozinho durante esse tempo. Precisaria parar de ver Ginny por alguns dias.

Draco achou graça da ironia que se formou em sua mente quando pensou nela. O aniversário de Ginny seria dali há três dias e era ele quem estava recebendo o presente. De certa forma, fora por causa dela que aquilo tinha se concretizado. Nada mais justo, portanto, que Draco a ajudasse a achar alguma esperança também. E Draco devolveria a Ginny a esperança de acreditar exatamente na mesma forma que a tinha recebido.

XxX


N/a: Nossa, eu me empolguei megamente nesse capítulo. 16 paginas de word...hahaha, tive que colocar um fim antes de começar o que eu vou colocar no próximo capítulo.

Eu escrevi de forma bem diferente do outro, porque eu acho que não tinha como escrever da mesma forma, por serem situações tão diferentes.

Ah, vocês vão me escrever para falar se gostaram?? Ebaaa!

beijos a todos

Annie.