O Novo Mundo
"É estranho pensar que o Rei poderia sequer ter nascido,
Ou ter sido carregado por outros braços
Ouvido a melodia de ninar por outros lábios
E apreendido a ser gentil com as criaturas mais frágeis
Destemido sem ser feroz
Ser tanto guerreiro audaz quanto gentil marido
Que não fosse pelas mãos da bela svana Lothíriel
Aprendido a montar e lutar
A guiar os mais fracos e liderar os guerreiros
Embainhar a espada e defender o país
Que não fosse pelos códigos de honra do senhor Éomer
É estranho pensar que o novo mundo começou com o risco do final
Ao menos para a casa de Eorl.
Cresci ouvindo essa estranha história pelas palavras de svana Lothíriel,
Tanto Rainha quanto fera, curadora e menestrel,
Mãos que empunhavam a harpa e mais tarde, pelo ensino cuidadoso,
Também empunhavam a adaga.
Ouvi essa história aos poucos, interrompida inúmeras vezes,
Até que finalmente, a voz de timbre grave e quente
Permitiu que fosse contada e ajudou a narrativa.
E então, o som do trovão acompanhou a delicada harpa
E que dueto eles faziam aos meus ouvidos!
O admirável Rei de Rohan e sua Rainha
Contando uma história estranha
Aos ouvidos de um menino.
Que estranho e terrível pensamento,
Imaginar que o descendente de Éomer poderia ter tido outro ventre
Ou então, ter nascido de Lothíriel,
Para as mãos de outro homem,
Um possível súdito ou escravo,
Ou herdeiro roubado para terras insólitas.
Ainda tremo só de pensar nas tramas do destino.
Não é injusto ou covardia meu tremor,
Eu bem o sei disso, porque o Rei não nascido,
E tal ouvinte menino, sou eu."
Primeira Parte do Diário de Elfwine, As Memórias do que não Vivi.
Registro da Terra dos Cavaleiros, IV 3083
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A Caravana
III – 3020 R.G
10 Cermië
Terceira-Era. Ano 3020, segundo o Registro de Gondor
Dia 10 de Julho
A caravana seguia em ritmo moderado, o grupo conduzia os cavalos pelas trilhas seguras na encosta, olhos fixos nos três renomados guerreiros que cavalgavam a frente. A vontade única era a de viajar a galope, mas a comitiva seguia em passo lento aos olhos dos homens devido à carga que carregavam, além da presença da mulher, pouco acostumada a uma viagem tão longa, exceto por travessias em navios em alto mar.
Apesar da distância percorrida e dos longos dias que ainda os esperavam a frente, o ânimo entre os viajantes era de atenta vigilância e agradável sintonia.
As vozes fluídas dos elfos eram uma música bem vinda aos ouvidos dos membros da caravana. E, freqüentemente, os viajantes sorriam ao sabor da doce musicalidade do riso de seus líderes. Sentiam enorme prazer em ouvir aquela linguagem bela dos eldar, embora poucos pudessem entender o que diziam. A harmonia que havia entre os irmãos e o príncipe silvestre logo se espalhou entre os sérios filhos de Gondor, relaxou as feições preocupadas dos ferozes cavaleiros de Rohan e trouxe vida às bocas dos silenciosos oficiais de Dol Amroth.
A verdade era que as diferenças não importavam. Uma nova Era estava preste a nascer e os estandartes que anunciaram a saída da Caravana da Baía de Belfalas eram a prova evidente do novo tempo. Os arautos carregaram orgulhosamente as flâmulas do Cisne de Prata, da Arvore Prateada e do Cavalo Branco. Seguiam com a benção do Rei Elessar e a Rainha Undómiel, e as flores jogadas a passagem deles parecia ainda presente ao longo do caminho.
Além dos viajantes e os pertences do motivo da escolta, a comitiva levava também inúmeros presentes para as bodas, que um mau-humorado Elrohir, freqüentemente reclamava que eram inapropriados, pois o excesso de peso tornava a viagem longa ainda mais lenta aos seus olhos. Os elfos chegaram ao consenso que seria mais seguro guardar as belíssimas bandeiras das cidades livres, embora a visão dos viajantes e suas flâmulas altivas trouxessem conforto, alegria e convites para um repouso confortável em todas as vilas. Porém, os eldar confabulavam para a completa segurança na viagem e era prioridade em suas mentes alcançarem a planície de Rohan com o menor número de incidentes. A decisão contou com a anuência imediata dos capitães de Gondor e Dol Amroth e alívio evidente dos Rohirrim.
A encosta longa e nua agigantou-se em frente aos olhos da caravana, com colinas baixas coroadas pelo sol do início da tarde. Seguiam para noroeste em linha reta, com as muralhas de Emyn Muil as suas costas, as Montanhas Brancas à frente mais ao norte como punhos de fogo vermelho e laranja. Pareciam arranhar o infinito rodeado por nuvens escovadas em trilhas fofas no céu azul. O cume estava encoberto por uma camada branca perolada e observando os lideres élficos da caravana, a única jovem mulher do grupo comparou a cadeia de Montanhas a um grupo poderoso de eldar, com mantos élficos e capuzes de neve.
A extensão da planície era avassaladora, os campos verdes principiavam a escassear além das colinas em tufos amarelados. Para os primeiros viajantes, a sensação de pequenez era esmagadora e quedavam-se em um silêncio reflexivo.
Fréolic fitou o semblante fechado de Háfoc, ele mantinha a tensão nos braços e nas mãos, embora sua tarefa naquele instante (e nas últimas três léguas) consistia na simples tarefa de segurar as rédeas de Elrothiel, a égua de pêlo cinzento e crina branca. A Princesa de Dol Amroth mantinha os olhos fixos em pergaminhos que carregava, cuidadosamente, nas mãos. De vez em quando, Lothíriel erguia o rosto com ar pensativo, arriscando um rápido olhar para Háfoc, porém, nada dizia. Por duas vezes, a donzela tentara passar a tarefa para sua guarda pessoal, mas Háfoc repelira o capitão de Dol Amroth com um olhar duro. Lothíriel desistira, talvez adivinhando que sua tentativa de aliviar o cavaleiro da tarefa enfadonha acabara por ofendê-lo, mas evitou as perguntas sobre a Terra dos Cavaleiros, algo que a jovem tentara ocupar Háfoc tão logo haviam alcançado a Muralha de Emyn Muil.
Por cada légua do caminho.
Por todas as noites estreladas ou nevoentas, dias ensolarados ou cinzentos.
Na verdade, pensou Fréolic com um brando sorriso, a prometida do Rei ocupava todos os membros da caravana com inúmeras perguntas. A princípio, concentrara seus esforços na tentativa de se aproximar dos dois, mas alternava sua atenção entre os rohirrim e os elfos, que já haviam lutado ao lado de Éomer. Conseguia respostas sinceras e bem-humoradas dos filhos de Elrond e de Legolas, no entanto, eles eram os líderes e guardiões da missão. Cabia a eles cavalgar a frente, abater os inimigos e males que se mostravam à frente, liderar os caminhos mais fáceis, e embora tivessem vontade de dar toda a atenção para Lothíriel, sua tarefa era enorme e não dispunham de tempo.
Quanto aos Cavaleiros de Rohan... A Princesa arrancava poucas palavras.
A partir da metade do caminho, Lothíriel desistira de interrogar os integrantes da caravana e embrenhara-se na tarefa de ler todos os registros escritos que obtivera em Minas Tirith sobre Rohan. Era possível que a Princesa carregasse mais pergaminhos do que roupas, pois além do relato detalhado da Princesa de Ithilien, Lothíriel recebera um precioso compendio das mãos do primo Faramir. Segundo a corte da Cidadela, até mesmo lady Arwen cedera um tempo precioso para aconselhar a futura esposa de Éomer. Fréolic surpreendera Lothíriel com um rolo grosso como o braço de um homem, atado por fitas azuis, que apreendia sua atenção e cuidado por toda a jornada.
Háfoc maneara a cabeça e confidenciara a Fréolic que todo o conhecimento dos pergaminhos se reduziria a pó diante do Rei. Havia uma diferença do tamanho do Forte da Trombeta entre um homem de Gondor e um homem de Rohan no tocante a suas mulheres. Não havia desrespeito em sua observação, apenas aquela continua preocupação que parecia uma nova doença se espalhando entre os homens do norte.
Fréolic, sabiamente, pedira ao irmão para guardar suas definições para si. Tudo que a jovem prometida não precisava era de tal afirmação que poderia assustá-la indefinidamente. Ele pretendia levá-la como havia retirado das mãos de Imrahil, confiante e cheia de determinação até o seu Rei.
Homem casado e experimentado pela vida, Fréolic logo compreendera a ansiedade e preocupação da jovem donzela. Estava cruzando a Terra-Média, rumo aos braços de um homem que conhecia apenas pela fama e pela palavra dos amigos. Além daquele fato importante para a natureza de uma donzela, Lothíriel deveria assumir a tarefa de Rainha de Rohan e suas inúmeras responsabilidades. Para finalizar, a donzela era natural da costa, filha do mar, versada em poesias, músicas e tradições élficas. Nada da tradição dos cavalos, a vida no campo ou o toque indômito que as mulheres de Rohan continham, naturalmente, dentro de si, graças ao tempero daquela terra.
Fréolic lançou outro olhar analítico para o perfil concentrado de Lothíriel e suprimiu a vontade de rir, ela parecia uma menina aos seus olhos, agora curvada sobre a cela do cavalo, na incrível postura de mãos dobradas sobre o queixo. O trote moderado da égua balançava o corpo da jovem e os pergaminhos, mas Lothíriel seguia com os olhos as linhas bem escritas e limitava-se, apenas, a evitar que caíssem no chão. Ele pode o ouvir o suspiro contido de Háfoc ao apanhar com um movimento ágil um rolo que tendia ir ao chão e entregá-lo a princesa, respondendo com um mero aceno ao sorriso deslumbrante que ganhara como resposta.
Ele sacudiu a cabeça e lançou um olhar de aviso para o irmão. Não havia cruzado a sua mente que Háfoc pertencia ao pequeno grupo contrário à decisão de Éomer pela Princesa de Dol Amroth. Aliás, esse pequeno grupo constantemente aborrecia o Rei com suas opiniões contrárias. Pareciam ter tomado como missão atormentar a vida de Éomer o máximo que podiam, o que o Rei suportava com estoicismo e uma paciência pouco usual a sua personalidade flamejante. Seria engraçado assistir ao controle de Éomer a situações que ele naturalmente responderia com sua voz de trovoada e lições de "honra", também conhecida na Terra dos Cavaleiros como Gúthwinë, se não fosse uma indisposição tola para perturbar a paz do Rei, já tão ocupado com assuntos que demandavam real importância.
Aquela conclusão arrancou Fréolic da atenção para a princesa e ele estugou o passo do seu corcel para atender a decida da colina.
Os dois rohirrim cavalgavam e lutavam juntos no éored de Elfhelm, o Segundo Marechal da Terra dos Cavaleiros, que ocupara a posição deixada por Théodred ao cair na Primeira Batalha do Foz de Isen. Após a morte do Rei Théoden, Elfhelm tornar-se-ia o único Marechal, em uma revisão do Rei para a tradição da Terra dos Cavaleiros. Para Fréolic e para todos os guerreiros dos Três Marechais era uma mudança nas tradições que parecia justa, afinal, após a morte de Théodred, o Rei Théoden não substituíra o filho, Éomer estivera aprisionado como um bandido na sela da guarda e parecia que os dias dos eorlingas estavam no fim.
Então, Gandalf Capa-Cinzenta chegara com o Rei Elessar e seus amigos, o Rei Théoden reerguera-se em grandeza, lutando bravamente e honrando a Terra dos Cavaleiros e seus Antepassados. Elfhelm lutara lado a lado com Erkenbrank e depois retornara a Edoras para defender a capital. Assistira Éomer nos dias difíceis que seguiram. Não havia nada de mal aos olhos dos eorlingas, apesar do rompimento de uma tradição desde os tempos de Eorl, o Jovem.
Porém, alguns lordes e comandantes ainda tinham suas dúvidas. Na ocasião do anúncio da revisão e a provável nomeação oficial de Elfhelm, Éomer tivera longas discussões e se detalhara em inúmeras explicações, sem compreender aquela reticência. Os próprios Marechais, o conselheiro Gamling, bem como o capitão da guarda de Édoras, Éothain havia apoiado a idéia do Rei com unanimidade. Dentre tantas providências e árduo trabalho que recebera Éomer ao assumir o trono, o tumulto causado pelo seu ato, na concepção dos eorlingas - irrepreensível e bem vindo - causara um enorme cansaço e tristeza no Rei.
Fréolic tinha certeza que os pensamentos de Háfoc seguiam aqueles rumos, mas considerou que o irmão parecia severo e agastado ao conduzir a dama de Dol Amroth. Porém, eles estavam a caminho de casa e Fréolic guardava a certeza que Lothíriel teria uma recepção adequada ao seu interesse e desvelo, e saberia que os eorlingas, bem como os helmingas do Vale, sob a liderança de Erkenbrand no Folde Ocidental mereciam seu esforço e coragem ao empreender aquela jornada.
Sem dúvida, após tantas guerras e dissabores, perdas e sombras, o Rei Éomer merecia encontrar a felicidade com uma princesa tão bela.
Fréolic instigou o cavalo para frente com um brilho de esperança nos olhos. Sim, seriam dias melhores. A princesa veria. Seu Rei veria.
Rohan veria.
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Damrod observou o trote rápido de Elrothiel levando sua preciosa carga nos declives sinuosos conduzida pelas mãos firmes de Háfoc. Guerreiros se compreendiam e Damrod entendia o silêncio dos filhos de Rohan diante das perguntas de Lothíriel. Cabia-lhes apenas a segurança e o mais absoluto respeito à futura Rainha, respostas, por mais simples que fossem podiam desenhar um quadro fantasioso ou assustador a alguém que não conhecia a Terra dos Cavaleiros. Damrod equiparou o corcel castanho ao companheiro Mablung e trocou com o amigo um longo olhar de entendimento. Faramir fizera questão de orientá-los da importância daquela jornada e a confiança que detinha nos cuidados de seus melhores guardiões. Eram capitães sob as ordens de Faramir. Agora o Senhor de Ithilien, Lorde de Emyn Arnen. Juntos haviam envergado arcos e flechas, espadas e coragem para defender Ogisliath. Ostentaram as vestes verdes e cinzas, se embrenharam nas florestas e dormiram ao relento por inúmeras campanhas para seguir o filho do Regente. Confiavam em seu julgamento, bom senso e capacidade de liderança. A missão, aparentemente simples ainda era perigosa, pois a nova Era ainda era como um bebê recém-nascido e qualquer ato descuidado, poderia colocar em risco sua fragilidade. Embora, as mãos firmes e curadoras, a lealdade e grandeza do Rei Elessar estivesse espalhando a paz como sementes ansiosas por se espalhar em campos férteis, o próprio Rei de Arnor e Gondor caminhava com cautela, impondo o exemplo da sua justiça e cuidado a todos que o serviam.
Damrod e Mablung dividiam a honra que tal missão lhes despertavam. Haviam cruzado espadas com o Rei Éomer e eram amigos dos rohirrim de longa data. Nem mesmo as palavras obscuras que fora lançada com maledicência sobre negócios escusos de Rohan e Mordor tiveram o poder de toldar o julgamento deles. Um amigo fiel é sempre fiel, era o que se dizia em Gondor e a Sombra de Mordor nem afetara seus corações e tampouco, suas mentes. Era uma grande honra de fato e um marco importante fazerem parte da comitiva que conduziriam a donzela de Dol Amroth de Gondor para as mãos do Rei Éomer de Rohan.
Após um sorriso cúmplice, os filhos de Gondor reorganizaram a sua posição, Damrod retornou ao flanco direito da caravana ao lado de Fréolic e Gerihtan, equiparando seus cavalos com a naturalidade de antigos companheiros de armas. Mablung saudou Háfoc com um aceno rápido e tomou a lateral do flanco esquerdo, junto com Ieldran. Não havia nada naqueles homens que não fosse lealdade e amor por seus Reis, capitães e líderes. Tudo que queriam era percorrer o Desfiladeiro de Rohan até Edoras e retornar para suas casa com a missão cumprida.
O retorno para Minas Tirith e Dol Amroth haveria de ser tão doce e glorioso como a chegada a Rohan.
O retorno e chegada de amigos e eternos aliados.
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Ieldran relembrou dos mapas que estudara com afinco ao lado de Gerihtan para a viagem, considerando que se apressassem à marcha, talvez, a caravana alcançaria o Estemnete e poderiam assentar acampamento próximo ao Entágua. Gerihtan dissera que não era necessário, afinal, já haviam marcado previamente aquele curso e seguido por eles junto com seu príncipe, Imrahil. Ele não podia adivinhar os pensamentos de Gerihtan, mas tinha uma boa noção que o irmão também ansiava por ouvir alguma coisa de água naquele descampado assombroso. Era uma planície esmagadora sob um céu infinito, com toda aquela vibrante luz escarlate refulgindo no dorso das Montanhas. Eram como crianças nas pontas dos pés, espiando o Mundo das janelas de Erü, o Único. Haviam feito aquele caminho por duas vezes, em uma ocasião mais solene e melancólica, conduzindo o corpo do admirável Rei Théoden e retornando para Dol Amroth. Ieldran sentira-se curado de muitas tristezas ao ser escolhido pelo Príncipe Imrahil para semelhante tarefa, e era como se estivesse espalhando uma erva mágica em suas feridas ao percorrer o mesmo caminho para motivos mais alegres. De fato, com um rápido olhar para Gerihtan e para a princesa Lothíriel, Ieldran sentia-se plenamente recompensado ao saber pelo próprio Príncipe, que sua filha havia sugerido o nome dos dois, não somente pela lógica escolha devido a conhecerem o caminho, como também pela confiança que Lothíriel detinha nos dois. Além de tudo, os senhores Elphir e Amrothos foram favoráveis à presença deles e ambos iam representando os nobres irmãos de Lothíriel. Eles teriam ido num piscar de olhos, visto que eram de uma proteção sufocante para a única irmã, se os haradrim não continuassem oferecendo problemas a Gondor e os bandos dispersos de orcs não necessitassem da atenção contínua do Rei Elessar e seus aliados. Lossanarch permanecia sem líder, após a queda de Forlong na Batalha dos Campos de Pelennor e o Rei Elessar havia confiado ao Príncipe Imrahil a defesa dos vales floridos das Montanhas brancas e para tanto, Elphir e Amrothos tiveram que deixar a Baía.
Afinal, o herdeiro de Forlong ainda era um menino. Ainda não havia poção mágica no mundo para fazer um menino se tornar um homem, refletiu Ieldran batendo com os calcanhares no flanco do animal para apressar o trote.
Em suma, uma honra elevada, visto que tanto Elphir e Amrothos eram cuidadosos ao máximo zelo com a irmã e não entregariam a segurança de Lothíriel a mãos indignas de semelhante tarefa.
Pertencer aos Cavaleiros do Cisne não era para qualquer homem e eles orgulhavam a posição conferida pelo Príncipe. Os amigos e companheiros haviam distribuído bebidas e votos de congratulação, pois era preferível escoltar uma donzela tão bela e amada como Lothíriel do que ter com os homens morenos. Ainda assim, os Cavaleiros do Cisne estavam satisfeitos pela forte aliança com a Cidade Branca e Ithilien, a união futura com Rohan como lanços de sangue. Estavam tão satisfeitos que bater armas e cortar pescoço de orcs, após muita bebida e cantoria soou tão prazeroso como escoltar uma dama.
Ieldran recebeu o comprimento de Mablung e notou o mesmo ar orgulhoso no irmão de armas. Eles amavam o Príncipe Imrahill e Faramir, estavam jubilosos com o Retorno do Rei e tinham o Rei Éomer em mais alta conta, admiração e amizade. Tanto Ieldran quanto Gerihtan conheciam a princesa Lothíriel e sabia, ela mostraria aos rohirrim que também detinha força e coragem, emoldurados pela sua beleza quase élfica e possivelmente, eles teriam que ver além da maneira discreta e suave das filhas de Gondor. Mas confiavam na Princesa Lothíriel e conheciam suficiente sua fama que o Príncipe Imrahil cuidava para manter o mais secreta possível – a esse pensamento Ieldran comprimiu o sorriso lembrando que Éomer não teria como saber – E, portanto, ele antecipava boas surpresas em Meduseld com as bodas. Tinham orgulho de sua princesa e esperavam que a falta do Mar não fosse tão inclemente com Lothíriel, como havia sido com a esposa do Regente.
De qualquer forma, Rohan oferecia o mar do infinito em suas planícies e a coragem leal inigualável de seu povo.
Seria uma nova Era em alianças perenes que nem o tempo poderia destruir.
Tinha tanta certeza disso quanto de seu destino.
I&I&I&I&I&I&I&I&I
Nem tudo era sinônimo de paz e harmonia na caravana. As diferenças existiam temperando o caminho dos homens e elfos, oferecendo obstáculos para sua jornada e assim, testando sua capacidade de aparar delicadas arestas de convivência.
Ao menos, assim era diante dos olhos de Legolas.
As lembranças se misturavam em tons azuis e escarlates da imensidão na mente de Legolas. O trote firme de Arod era um tom musical que fazia eco com o seu coração e Legolas se lembrou de outras situações em que havia percorrido o mesmo caminho. Ali ele havia feito sua vigília para o repouso de Aragorn e Gimli, incertos do destino de Merry e Pippin, correndo incansavelmente por dias seguidos nas pistas dos horrendos orcs de Mordor e Isengard. Nem tanto tempo havia passado, mas parecia que a leveza que pairava na mente dos viajantes empurrava tais acontecimentos para o passado e ainda assim, o elfo silvestre de Erin Lasgalen relembrava.
A mudança de posições dos destacados guerreiros das Cidades Livres soou nítida em seus ouvidos e, contudo, Legolas não se voltou. Em pouco tempo, os irmãos de Gondor retornavam a seus postos, os filhos de Rohan mantinham seu curso e os capitães de Dol Amroth renovavam suas impressões do futuro.
As costas eretas de Elladan e Elrohir ocupavam sua visão. Uma linha perfeita de guerreiros élficos unidos por muito mais do que uma missão. Legolas puxou a crina de Arod com gentileza ignorando as rédeas soltas em seu colo. A cela era-lhe desagradável, mas não pode ser dispensada pois todos levavam armas e suprimentos extras. Haviam preparado aquela viagem com o máximo cuidado e arquitetaram todo o tipo de surpresa possível, antecipando a atuação defensiva e até mesmo o ataque.
Arod relinchou e Elladan olhou para trás, com um pequeno sorriso para Legolas. O elfo louro retribuiu o sorriso e contou os segundos que demoraria a Elrohir implicar com um dos dois.
Elrohir vinha implicando com tudo por toda a viagem, mas Legolas sabia o motivo. Naturalmente, era sua culpa, porém, não podia fazer nada a respeito.
Estel fizera questão de enviar duplas para a missão, um protegendo o outro e ampliando as possibilidades de defesa e luta. Mais do que isso, Estel havia concebido a caravana de irmãos. Assim o era com os filhos de Elrond, com os rohirrim, os cavaleiros de Dol Amroth e até mesmo com os guerreiros de Gondor. Damrod e Mablung não tinham irmãos, mas detinham tanto sentimento filial um pelo outro como se dividisse o mesmo sangue.
Somente ele, Legolas, era uma unidade solitária naquela caravana.
Legolas ainda tentava adivinhar aquela iniciativa que deveria ser originada em algo além da confiança que o amigo detinha nele, não devidamente esclarecida quando perguntara de maneira objetiva a Estel.
--- Você está divagando novamente, Las. – soou a voz de Elladan, fitando o amigo louro por sobre o ombro. – Não faça isso.
--- É, não faça isso. – repetiu Elrohir, em um eco semelhante ao do irmão gêmeo, exceto pelo timbre irônico. – É irritante.
Arod alcançou o compasso dos belos corcéis e Legolas bateu com os dedos no pescoço do animal para a direita. O corcel relinchou em afirmativa e Legolas entrou no pequeno espaço entre Elladan e Elrohir.
--- Estou próximo o suficiente, Elrohir? – gracejou Legolas ao arrancar uma pena da flecha as costas do elfo moreno. – Sua alijava está tão repleta que se tombar para um lado, acho que cairá junto com o pobre Ecebryne.
O corcel relinchou, como se estivesse caçoando do elfo louro e Elrohir acariciou a crina negra brilhante do animal.
Ecebryne era um corcel negro, bastante impaciente e indócil, que se machucara ao fugir dos homens de Sauron. Ao contrário de todas as expectativas, Ecebryne conseguira retornar para Edoras, mas a principio, Hlíf achou que teria que sacrificá-lo, pois o gênio terrível do corcel só piorara após os maus-tratos, e com muita dificuldade conseguia atendê-lo. Tinha marcas de chicotes e uma ferida profunda no dorso. Ao escolher um dos magníficos animais, como presente de gratidão de Éomer por participar da escolta do corpo de Théoden, Elrohir logo escolhera Ecebryne e permaneceu a maior parte do tempo no estábulo da cavalaria, cuidando pessoalmente do animal. Ecebryne ainda não era o mesmo, porém, Elrohir ganhara o respeito do corcel negro, bem como de todos os homens e mulheres de Rohan.
--- Perto em corpo não significa perto em mente. – replicou Elrohir arrancando a pena das mãos o amigo. Dardejou um rápido olhar penetrante no perfil de Legolas e voltou a conduzir Ecebryne, quando a colina iniciou sua descida para o vale. – Está pensando no Rei?
--- Claro que estou. – admitiu Legolas, o cenho franzido em um reflexo para proteger a claridade excessiva. – Espero chegar a tempo das bodas, ou não sei que efeito terá para Éomer se a Princesa Lothíriel chegar lá um mês depois. – ele sorriu em um arco travesso curvando os lábios. – Com toda Rohan aos pés de Meduseld, creio que os Marechais fariam o pobre Éomer casar de qualquer jeito... mesmo sem a noiva.
Elladan riu incitando o cavalo para frente e curvou-se um pouco observando a estradinha batida que tomava uma insinuação para o norte. Era algo refrescante para o gêmeo mais velho ouvir o gracejo de Legolas, mas a disposição de Elrohir começava a preocupá-lo. Sabia que era uma questão de tempo para o irmão pressionar o amigo e para Legolas retomar aquela nova condição. Com um suspiro, Elladan permaneceu atento à dinâmica dos dois.
--- Muito engraçado, Las. – tornou Elrohir sem nenhum tom de diversão na voz. - O fato é que eu me refiro ao seu pai. – abaixou a voz – Sei que ele não está satisfeito com a sua escolha.
Elladan fechou os olhos com força. Acaso Ilúvatar caçoava dele? Por que Elrohir não compreendia que aquela atitude apenas empurrava o elfo silvestre novamente para aquele canto escuro?
--- Não quero falar sobre isso. – cortou Legolas, um relance de tristeza perpassou a íris safira, mas as palavras do elfo continuaram fluindo em harmonia de seus lábios, sem sinal da emoção vista em seus olhos. – Está supondo fatos que fogem ao seu conhecimento e não posso elucidá-lo, mesmo se eu quisesse, o que não é o caso. Tudo que precisa saber é que fiz minha escolha e não desejo olhar para trás.
Elrohir fincou as órbitas escuras no perfil de Legolas com tamanha intensidade que o elfo silvestre foi obrigado a obedecer ao chamado silencioso.
Elladan estugou o passo do animal com palavras mansas e se obrigou a manter calado, apenas analisando aquela imensa mudança no rosto de Legolas. Ai estava, pensou, Elrohir tinha conseguido mais uma vez. Era melhor agir o mais rápido possível, ou o estrago não teria volta.
--- Você nunca quer olhar ou falar. - prosseguiu Elrohir, tendo a atenção que necessitava de Legolas e ignorando o irmão completamente. Sentiu um aperto de angústia e sabia a origem daquele sentimento. Porém, não conseguiu evitar a avalanche que apertava seu peito ou conter as palavras, afiadas e diretas, como flechas. Elladan teria que perdoá-lo. – Thranduil saiu vitorioso e as perdas são as mesmas para todos nós. Eu posso estar errado em minhas suposições, mas estou na direção certa. – o amigo fez menção de finalizar a conversa, mas Elrohir, aproveitando a proximidade, agarrou as rédeas soltas de Arod, frustrando a intenção de Legolas. – Não foi sua culpa, outros assuntos exigiram sua atenção. Eu também estava lá, diante dos portões malditos.
--- Seu povo foi para o Oeste. – replicou Legolas, ligeiramente agastado com a insistência no assunto, e ainda mais desconfortável, pois não conseguia afastar-se de Elrohir, agarrado as rédeas de Arod. – Você não deixou suas tarefas para defender outros. Essa conversa circular é desagradável, porque me força a afirmar situações que nada tem a ver com as minhas decisões. – reassumindo o tom neutro, Legolas tentou apanhar as rédeas, mas foi mal sucedido. – Seja razoável, Elrohir, não me faça mentir para agradá-lo.
--- Seu povo? – repetiu Elrohir, baixinho. – Defender outros? – o moreno enrolou a rédea no pulso com firmeza e Arod relinchou quando o flanco de Ecebryne colidiu com o seu. Elrohir acalmou o corcel, ciente que ele poderia morder Arod, mas não soltou a rédea. – Desde quando existe tal separação, Legolas? – os cavalos logo retomaram o passo apertado, como se compreendesse a necessidade de manterem algum equilíbrio na conversa tensa. A voz controlada de Elrohir não ocultava as centelhas iradas em seus olhos e era nítida a raiva controlada. – Cinco luas e estrelas, quatro dias ensolarados você ficou sob o teto fechado de arvores sombrias e foi o suficiente para virar a sua mente em um emaranhado de idéias tolas!
Elrohir inclinou-se e por pouco, os que assistiam de longe, imaginaram que o elfo acabaria por pegar na túnica do elfo loiro com a mesma rispidez que tomava a rédea do cavalo.
Os membros da caravana ficaram tensos e Lothíriel comprimiu os pergaminhos entre os dedos, erguendo o rosto com uma ruga de preocupação na fronte alva.
--- Por favor, agora não... – intrometeu-se Elladan, fitando o irmão com firmeza. Arqueou a sobrancelha em uma indicação sutil a face crispada de Legolas e a atenção patente nos rostos pálidos dos homens. – Você disse que esperaria a hora certa, Ro. Essa não é tal hora.
A indisposição de Elrohir desvaneceu com a reprimenda justa do irmão e a teimosia implacável de Legolas, que mantinha os olhos na estrada, os músculos congelados sem reação.
--- Nunca entenderei essa infinita capacidade que você tem, meu amigo. – sibilou Elrohir liberando a rédea a contra gosto. – Fere a si mesmo com a mesma tenacidade que impõe chagas em seus inimigos.
Um véu de angustia cobriu o rosto de Elladan.
--- Elrohir, por favor.
--- Pela compaixão de Elladan, eu responderei que estou bem. – proferiu Legolas por fim. Apanhou as rédeas, muito mais para evitar que o outro elfo arrebatasse o controle de Arod do que pelo seu gosto. – E não pretendo impor chaga alguma. Aos outros ou a mim mesmo. – voltou o rosto para Elrohir, que continuava agastado. - Estou cansado de repetir a mesma resposta e vou pedir que acredite, pela última vez. – suspirou e não havia cansaço no rosto do elfo, apenas uma pausa reflexiva na frase. Uma ausência de espírito clara em seus olhos, tão firmemente cerrada em determinação, que sua voz soou fria como uma manhã de inverno. - Não direi mais.
O sangue subia e descia pelas veias de Elrohir. Somente o irmão o continha da sua vontade: derrubar aquele elfo estúpido do cavalo, esmurrá-lo se fosse preciso para arrancar aquela impassibilidade mascarada e talvez assim, livrá-lo daquele segredo que o consumia, tirava-lhe a naturalidade e preocupava a todos que o amavam. O final da Guerra havia concedido uma nova característica em Legolas, uma instabilidade na sua personalidade que era de enlouquecer. A implacável súbita frieza em suas palavras, um rigor harmônico de atos perfeitos e um distanciamento emocional das situações. E então, tudo parecia efeito da imaginação. No instante seguinte, Legolas voltava a sorrir, caçoar, importar-se com tudo e todos, demonstrando o que sentia com um simples olhar.
Elladan levou algum tempo observando as expressões dos dois amigos. A instabilidade de Legolas foi detectada tarde demais. Já parecia arraigado ao elfo louro como as raízes das árvores centenárias. Quando, finalmente, ele e Elrohir foram capazes de notar aquelas alterações de personalidade, Legolas se esquivara com elegância de explicações e mesmo o auxilio de Estel havia sido renegado. Quando estava em estado de graça, como havia nomeado Elrohir, era quase impossível de conversar com Legolas, visto que tudo que não despertava seu interesse se tornava de uma hora para outra, urgente e imprescindível.
Ele fitou Elrohir e apenas moveu os lábios em palavras silenciosas, que alcançaram seu destino. Elrond aconselhara prudência e tempo a fim de investigar a natureza de tal divisão emocional. O mais correto a fazer era conduzir Legolas até o sábio lorde de Imladris, mas até isso era impossível agora. Legolas assumira inúmeras tarefas simultaneamente e esquivara-se da presença de Elrond. Circunstância dentre outras que evitava a partida definitiva do mestre para os Portos Cinzentos.
Somente Estel havia conseguido convencer Legolas a juntar-se a Caravana, mas nem mesmo sob ameaça ele contara aos irmãos como obtivera êxito. O importante para Elladan era que Estel conseguira manejar algo e não duvidava que Elrohir acabaria esmurrando o amigo de tanta frustração. Cabia a ele manter o equilíbrio, o que diante das alterações emocionais de Legolas, entre sua abrupta mudança do entusiasmo e da frieza e o gênio tempestuoso do irmão parecia ser uma missão gigantesca.
--- Vamos descer a colina e encontrar um lugar para uma refeição. – sugeriu Elladan, modelando sua voz agradável para o grupo. – Os animais e os homens precisam descansar. Estamos nessa marcha muito antes que o sol nasceu. – os olhos negros de Elladan encontraram o rosto tenso de Lothíriel e ele sorriu de maneira doce para a jovem. – E a princesa também. Não a esqueci, Lothíriel.
Como resposta, Lothíriel ensaiou um sorriso para depois recair os olhos prateados na figura do arqueiro, a espera da anuência do elfo.
Legolas desviou o rosto de Elrohir ao sentir os olhos da caravana inteira sobre si. Ele sentia em algum lugar da sua alma as emanações de ira frustrada de Elrohir, a preocupação de Elladan, o descontentamento refreado dos homens e a aflição de Lothíriel. Mas aquele lugar estava mais uma vez fora do seu alcance e mesmo tentando imprimir suavidade a sua voz, Legolas não encontrou um tom satisfatório para se dirigir a jovem donzela.
Desistindo da tarefa, Legolas limitou-se a aquiescer com um gesto curto e respeitoso, afastando-se dos gêmeos com a ajuda de Arod.
Ao menos, seu fiel amigo sabia quando o elfo precisava de espaço.
I&I&I&I&I&I&II&
O Príncipe Imrahil havia atormentado a filha sobre a necessidade de uma dama de companhia na jornada, sem poupá-la de detalhes embaraçosos para convencê-la que estava correto. Lothíriel tinha a intenção de levar Anayara, mas a pobre mulher que praticamente acompanhara sua vida inteira perdera um pouco da saúde com a morte do próprio filho durante o cerco a Minas Tirith. Não tinha mais saúde para longas jornadas, por mais que Anayara insistisse que estaria bem. A opinião foi compartilhada por todos, inclusive por lady Arwen e Anayara deixara a corte de Dol Amroth justamente para viver com a viúva e o neto, sob as graças da Rainha Élfica.
No final, Lothíriel recusou todas as ofertas que seguira certa de que uma mulher desconhecida lhe causaria mais transtorno do que auxilio. Porém, em alguns momentos, ela se arrependia da decisão. Lothíriel organizou os pergaminhos com zelo e um sorriso. Lembrou-se de Éowyn, como haviam se tornado amigas e o fantástico exemplo que a Dama do Braço de Escudo se mostrava aos seus olhos. Não falharia com ela.
Não, não voltaria atrás, não demonstraria cansaço ou necessidade de cuidados frívolos aos olhos dos homens leais que a acompanhavam. Lothíriel atou os pergaminhos em rolo e atou a fita com um nó complicado. Ela crescera entre homens, sem mãe, sabia como se comportar e entendê-los.
Éowyn garantira a Imrahil que a sua própria dama serviria perfeitamente para Lothíriel, a pedido da própria princesa. Já bastava a curiosidade a que era submetida em Dol Amroth e em Minas Tirith sobre seu enlace com um homem do norte tão diferente, ou os comentários do que porquê Éomer teria escolhido Lothíriel para esposa. Os inóspitos comentários variavam de insultos aos seus ouvidos sobre como ela manejaria sua elegância entre homens quase bárbaros ou então, tanto pior, sobre como uma infanta estaria à altura de um Rei como ele, para satisfazê-lo a contento, como esposa e Rainha.
Lothíriel sorriu naquele ponto e foi Elladan quem a surpreendeu com um brilho quase perverso. Haviam descido a colina enquanto ela vagava em suas memórias e os homens desmontavam com agilidade formando um circulo protetor ao seu redor.
--- Sinto que não é seguro chegar mais perto agora, Lothíriel. – gracejou o elfo moreno, com as mãos paradas no ar em uma imitação pouco convincente de receio. – Que idéia obscura está em seus pensamentos agora?
O sorriso de Lothíriel se ampliou e ela retirou o pé do estribo, girando o corpo com leveza sobre a cela. Estendeu os braços para Elladan ajudá-la a desmontar.
--- Não tema, senhor Elladan, está perfeitamente a salvo. – ele sorriu em resposta e Lothíriel apoiou as mãos em seus ombros fortes, deslizando graciosamente para o chão. Ela o fitou sobre os cílios, sussurrando de maneira cúmplice. – Apenas lembrava da Princesa Éowyn...
Elladan ofereceu o braço para Lothíriel sufocando uma risada marota. Ao redor deles, os homens trabalhavam em unidade para organizar um local adequado para a refeição. Estava muito quente, mas o vento era constante e agradável. Elladan conduziu Lothíriel até a sombra parcialmente oferecida pela própria colina.
--- Sem dúvida, a corte de Gondor não será a mesma com a presença espirituosa de Éowyn. – observou Elladan com um olhar bastante conspiratório. – E sem dúvida, sei que pensamento cruzou sua mente. O jantar da despedida.
Lothíriel ajeitou as dobras do vestido e tentou parecer inocente, mas não conseguiu efeito algum diante dos olhos brilhantes do elfo. Ela aprendera rapidamente que era quase impossível mentir para o irmão mais velho de Arwen ou ficar brava com Elladan.
Ela desfez a máscara inocente e cerrou os lábios com força, fazendo com que Elladan risse ainda mais, porém, um som rouco e discreto, como folhas arrastadas pelo vento. Mais uma vez, Lothíriel desfez os músculos tensos de raiva e relaxou os ombros. Também era impossível não vagar em pensamentos sem nexo perto do elfo, pois que ele era tão belo e gentil, que Lothíriel acabava engolfada por sonhos primaveris perdendo o fio da meada constantemente.
--- É realmente irritante a maneira como as mulheres da corte tratam sobre o casamento de vocês. – ponderou Elladan, a mão firme segurando o braço de Lothíriel até que ela pode descansar sobre uma rocha baixa. – Eu particularmente não teria nem ao menos a diplomacia de Éowyn.
Alguém limpou a garganta perto deles e Lothíriel adivinhou que Gerihtan tentava engolir o riso. O cavaleiro se distanciou dos dois, ocupando-se em ajudar Ieldran a cuidar dos cavalos.
--- Diplomacia? – Lothíriel sacudiu a cabeça sentindo o peso da trança batendo em suas costas. – Eu pensei que ela sacaria uma espada no meio do jantar. – ela cobriu a boca com a mão para sufocar o riso.
--- Uma mulher como Éowyn não tem paciência para futilidades desta natureza. – Elladan observou, tranqüilamente, mas parte da sua atenção estava no irmão e no outro elfo. – Especialmente, quando se trata de Éomer, eles são muito unidos. Além do que, eu tenho que confessar. – Elladan pausou, estudando as palavras e olhou para baixo, no ponto que encontrava a face de Lothíriel – É aterrador ouvir palavras sobre os atributos físicos e morais de um ente querido, e ter que usar contra-argumentos brandos em resposta.
--- Ilúvatar sabe que eu não consigo. – ajuntou Elrohir unindo-se aos dois com o cenho fechado. Ouvira conversa do irmão e da princesa e achegara-se a eles, pouco disposta a conversar com os homens da caravana. Resfolegou, sisudo. – Por isso, passo o menos tempo possível em Minas Tirith. Seria capaz de reduzir a população da Cidadela a velhos e crianças sempre que escuto o nome da minha irmã.
Lothíriel ponderou sobra às palavras de Elrohir e enfatizou sua concordância com um aceno vigoroso. Não pode deixar de sorrir, de uma certa forma, os gêmeos a faziam lembrar dos irmãos.
--- Sempre ouvi palavras generosas e respeitosas a respeito de lady Arwen. – falou, suavemente.
Elrohir distendeu a face semelhante ao irmão gêmeo, mas contudo, suas palavras pareciam gotas generosas de uma tempestade caindo sobre as cabeças dos homens. Algo nele era simplesmente forte demais como um poderoso imã. Lothíriel observara como as pessoas eram atraídas a sua presença e repelidas simultaneamente à vontade do elfo. Seu pensamento de desprazer ou alegria parecia comandar o mundo a sua volta e para Lothíriel, Elrohir era uma verdadeira força da natureza.
Como Ecebryne, pensou a princesa.
Acostumada com o mar, Lothíriel nunca duvidara que embaixo daquele magnetismo avassalador existia um silêncio sagrado, como as profundezas do oceano. Na verdade, Arwen resumira os dois daquela forma e alegara que se Lothíriel conseguisse perceber aquela diferença, a semelhança física não a enganaria como aos outros. E era justamente a maneira apropriada de defini-los. Elladan mostrava aquela serenidade das profundezas, mas poderia se converter rapidamente em uma tempestade. Eram simultaneamente opostos e semelhantes.
--- ... e é claro que você não está ouvindo uma única palavra. – finalizou Elrohir, os lábios curvados em um sorriso provocante.
Lothíriel piscou e retornou ao presente.
--- Sinto muito. – ela sorriu e fez um gesto vago com a mão. – Vocês costumam me deixar um pouco dissociada do mundo. Com um de vocês, eu até consigo não parecer completamente tola, mas temo que diante da plenitude do oceano, eu vague a esmo. – ela silenciou, pensativa.
--- Do que ela está falando? – replicou Elrohir para o irmão.
Elladan deu de ombros, a princípio tão confuso quanto Elrohir. Por fim, sorriu, entendendo a alusão.
--- Você é muito gentil, Lothíriel. – agradeceu e quase riu da maneira como Elrohir arregalou os olhos, ainda duvidando da sanidade mental da jovem, e possivelmente, também do irmão. – E sensível, não tola. Apenas enxerga mais que os outros – completou, estudando os arredores. Os preparativos estavam prontos e as duplas se separaram para vigiar a refeição com a eficiência esperada de guerreiros acostumados ao ritual. Procurou a figura esguia de Legolas sem sucesso, o que não era uma boa notícia, já que o elfo louro era impossível de ser confundido. A ruptura inevitável ocorrera então. Legolas ficaria afastado até retornar ao estado de humor anterior. Conhecendo-o bem, Elladan imaginou que o amigo estaria vasculhando os arredores e esperando que a frieza despertada pelo confronto com Elrohir se degelasse completamente. Era um esforço considerável para o bem de Lothíriel, ele imaginava. Aquele pensamento o fez murmurar, para si próprio. – Talvez, seja esse o objetivo de Estel afinal.
--- Não entendo. – Lothíriel alinhou a coluna, atenta ao rosto grave de Elladan. O nome do Rei Elessar sempre ressoava aos seus ouvidos como um sino cristalino. Ela compreendia porque todos sentiam urgência em atendê-lo de imediato. Era um apelo irresistível. – O que devo fazer para o Rei de Gondor? Ele não me informou de tarefa alguma... – Lothíriel mordeu o lábio inferior lembrando-se rapidamente de como o Rei Elessar se dispusera a responder suas perguntas, tão logo fora apresentada a ele.
Elrohir pareceu lembrar da mesma coisa e riu baixinho. Ele também notara a ausência de Legolas e acabara zangado consigo mesmo por não controlar o mau temperamento. Porém, a lembrança daquele momento em particular aliviou a tensão e ele não conseguiu deixar de rir, espanando a preocupação.
Ondas quebrando contra as rochas. Pensou Lothíriel, satisfeita com o som.
--- Você não deu oportunidade para meu irmão falar muito... – Elrohir ignorou o aviso silencioso de Elladan. – Acho que Estel nunca ouviu tantas perguntas formuladas sem pausa para respirar ao longo de todos os seus anos.
--- Francamente, Elrohir...
Para surpresa de Elladan, Lothíriel começou a rir junto com o irmão, embora sua face estivesse escarlate de vergonha.
--- Acho que se lady Arwen não tivesse chegado eu teria morrido sufocada com minhas próprias perguntas! – observou a jovem princesa, transformando o riso de Elrohir em uma súbita gargalhada e colocou um sorriso no rosto de Elladan.
--- Você estava azul de tanto tempo sem oxigênio, querida princesa. – relembrou Elrohir com implacável sinceridade.
Lothíriel comprimiu os dedos na face, mas ainda ria suavemente. O Rei Elessar tinha sido tão gentil que ela esquecera todo o decoro das regras apropriadas para se dirigir a um Rei. O Pai provavelmente teria morrido com um ataque fulminante se estivesse perto deles naquele instante. Porém, era difícil não conversar com o Rei Elessar de maneira franca após conhecê-lo. Ela sentiu como se fossem velhos amigos. Primeiro, ele dispensava o título, depois sugeria chamá-lo por Aragorn e finalmente, pousava os olhos cinzentos com compaixão e ouvia atentamente tudo que era dito, pensando e ponderando ao menor fato explicado. De fato, Lothíriel lembrou de ter visto o Rei Elessar ouvindo calmamente o seu sobrinho por uma hora falando sobre o pônei que havia ganhado de Elphir. Era a mesma concentração que adornara sua face austera e bela ao ouvir sobre um saque em Lossanarch e dispensar as providências. Com a morte de Forlong e seu herdeiro ainda infante, o povo do vale florido necessitava de uma liderança forte, especialmente, porque Forlong reunira duzentos homens em auxilio a Minas Tirith e não só tombara na Batalha dos Campos de Pelennor, como Lossanarch perdera seus melhores guerreiros e defensores.
Um assunto de extrema seriedade para o Rei e seus Conselheiros, tratado com igual atenção ao falatório feliz de um menino.
Como Arwen dissera, Aragorn tinha um sangue mágico correndo em suas veias. Ora era mel, ora era fogo.
Lothíriel aceitou o braço de Elladan e ocupou a outra mão retirando uma folha da túnica de Elrohir. Era de fato, uma família incrível. Lendas fantásticas que haviam saltado dos pergaminhos e das rimas antigas para a Terra-Média. Ela quase não podia acreditar na própria sorte.
--- ... agora é fato. Você precisa se concentrar. – a frase cortada e a leve sacudida no ombro despertaram Lothíriel do devaneio.
--- Desculpe. – ela acenou com um floreio no ar. – Eu vaguei mais uma vez.
--- Isso começa a me preocupar, Lothíriel. – falou Elladan com o timbre amável. –Sempre foi assim?
Eles escolheram lugar apropriado e Lothíriel sentou-se na rocha lisa, recoberta por um grosso casaco de pele. Achou uma pena que alguém houvesse sujado seu casaco apenas para oferecer-lhe conforto, mas já havia aprendido que não adiantaria nada negar. Estava cercada por irmãos mais velhos convertidos em mães zelosas.
--- Lothíriel? – chamou Elrohir, mais uma vez, segurando um odre de água nas mãos.
--- Acho que vou parar de pedir desculpas. – a moça sorriu, tão doce e natural foi surgindo que ela viu a disposição de Elrohir desaparecer, desistindo de implicar com ela. Aceitou o copo de água oferecido por Elladan e tornou, tranqüila. – Sim, eu sempre tive esses... hum... vácuos de diplomacia.
--- Vácuos de diplomacia? – Elrohir maneou a cabeça e terminou de amenizar a sede com um último grande gole. Limpou o lábio superior onde tremeluzia uma gota e tentou não rir da jovem. – É um nome bastante generoso.
--- Eu sei! Amrothos é o dono da teoria. – Lothíriel piscou maneando a cabeça para o lado, um ar pensativo. – Talvez porque sempre vago por aí nas reuniões com os senhores de Dol Amroth e suas esposas enfadonhas.
Elrohir esforçou-se ao máximo para manter o semblante sério, imitando a concentração do irmão.
--- O que seu pai diz sobre isso? – Elladan teve o cuidado de não parecer alarmado embora ele já houvesse levado algum tempo pensando em como Lothíriel conduziria sua forma de diálogo com Éomer.
Os homens da terra dos Cavaleiros falavam pouco e prezavam o tempo, ignoravam bajulações e frases floreadas. A honestidade de Lothíriel seria bem vinda, porém, era algo inquietante a maneira como ela se desligava de todos no meio dos diálogos e ele começava a duvidar que Éomer consideraria aquele traço como encantador na futura esposa.
--- Eu apenas fico dispersa quando a conversa toma novos rumos, gosto de observar as pessoas e adivinhar suas intenções. – completou Lothíriel completamente à vontade com o assunto. – Mas não se enganem. Eu sinto tudo o que dizem. – ela encarou Elladan e pendeu a cabeça para o lado. – Como você acaba de fazer, mestre elfo. Acaso não estava refletindo nas minhas possíveis dificuldades enquanto ouvia minhas palavras?
--- Eu diria escutar, ouvir ou prestar atenção. – replicou Elrohir antecipando-se ao irmão gêmeo. Escolheu uma fruta a seu gosto e jogou a amora na boca. – Sentir é demasiado abstrato para um homem ou mulher. – o elfo moreno franziu o cenho e então sorriu para ela. – Porém, você é de fato especial, minha querida.
Elladan não se deu o trabalho de ficar surpreso ou esperar uma explicação. Era esse o alivio em seus pensamentos, pois ele notara que se Lothíriel estivesse interessada no assunto, ela recuperava rapidamente os fatos e apontava suas conclusões com um adorno único, provavelmente, obtido através daquelas incursões que ela definia como estar vagando.
Ele só esperava que Éomer tivesse a paciência necessária para deixá-la chegar até aquele ponto.
E então, Elladan notou o desconforto de Háfoc e como Ieldran parecia desconcertado ao encarar o rohirrim. Até mesmo Damrod evitava erguer os olhos, concentrado em partir o pão em pedaços. O inicio tranqüilo da refeição havia caído em silêncio. Os irmãos e Mablung mantinham-se a pequena distância, vigiando o amplo horizonte e as colinas, esperando o rodízio entre eles para alimentarem-se. Era dispensável o estado de vigília, mas era o ritual entre os homens e ele não estava ali para comandar, apenas para guiá-los. Deveriam saber que com elfos presentes na caravana, eles teriam o aviso devido para defenderem a vida de Lothíriel.
--- Acho que vou me juntar a Mablung. – falou Elladan, por fim, levantando-se. – Temos um pouco de tempo para comer e você pode descansar um pouco Lothíriel... – ele pigarreou e corrigiu-se – Princesa.
Os olhos de Lothíriel se arredondaram em surpresa e enfim, os ombros da princesa se soltaram lentamente com um suspiro.
--- Senhor Elladan. – tornou, aquiescendo com um brando sorriso. Fitou Elrohir de esguelha. Falou bem baixinho, de modo que somente o elfo a escutasse – Também irá me abandonar, Senhor Elrohir, a fim de não comprometer minha honra?
Elrohir provou os morangos mastigando vagarosamente. Ele estudou o silêncio entre os homens e deu de ombros, mas teve o cuidado para proferir as palavras em tom moderado.
--- Sua honra não deveria ficar comprometida com demonstrações de amizade – ponderou Elrohir, com seriedade. - E mesmo sendo um homem típico de Rohan, com seu temperamento próprio e cultura do povo que nasceu, Éomer é nobre e sincero. Inteligente o suficiente para compreender a diferença entre afeição e envolvimentos de outra natureza. Nenhum de nós desonraria uma dama e você decerto desceria a tal nível, prometida a outro. E, é claro, felizmente, não estamos nas cortes enfadonhas dos reinos humanos. – Elrohir notou como a jovem engoliu em seco, mas se recuperou rápido das suas palavras. Um breve sorriso cruzou os lábios do elfo. – Desculpe, acho que acabo de esquecer as boas maneiras, mas eu acabei tomando você com os cuidados de irmão e a intimidade de um velho amigo. - Elrohir se levantou também e ergueu a mão impedindo que Lothíriel dissesse algo. – Terei que me retirar para emendar meu deslize, mas mantenho o que disse, princesa. E pode ter certeza que não participaria dessa caravana se não soubesse que o Rei de Rohan merece sua afeição. – Elrohir imitou a saudação da corte e Lothíriel maneou a cabeça em resposta. – Farei minha saída a fim de checar Ecebryne e deixo minha querida amiga a vontade... para vagar por aí.
Lothíriel acabou sorrindo e fitou o céu muito azul. Mablung recebeu com entusiasmo a chegada de Elrohir, e ela se lembrou mais uma vez que todos eles, exceto ela, estiveram nos Portões de Mordor. Ela experimentou o pão fino recheado com a pasta apimentada e especiarias que Éowyn colocara nos suprimentos da viagem. "Para você conhecer e se acostumando com a culinária de Rohan". Lothíriel experimentara um de cada vez nos últimos dias e estava aprovando os novos sabores. Porem, diante daquele pão aparentemente tão inofensivo, ela levou a pior e correu para o copo de água, com a garganta em fogo. Tossiu um pouco e passou a língua pelos lábios.
Apesar de ter água nos olhos com a surpresa da mistura, Lothíriel considerou o sabor exótico e atordoante. A segunda mordida cuidadosa foi infinitamente melhor e Lothíriel suprimiu um grunhido de satisfação. As especiarias se tornavam claras ao paladar apenas no final da degustação, amenizando o efeito apimentado com um sabor mentolado em uma estranha e revigorante combinação. Só precisava ficar atenta a porção que levava à boca.
Os homens continuaram comendo próximos a ela, conversando baixinho sobre as memórias da Guerra e planos para o futuro. E pareceu a Lothíriel que sua reação ao pão típico de Edoras não passou desapercebido a Háfoc, e mais uma vez, uma espécie de descontentamento nublava a fronte do rohirrim.
O pão perdeu um pouco seu gosto e Lothíriel não pôde deixar de pensar se também não acabaria se sucedendo o mesmo com o Rei. Talvez estivesse se apressando em tomar conta de algo exótico, e ao invés de experimentar o sabor refrescante acabasse se queimando com fogo.
Aquela comparação amenizou a decepção com a frieza de Háfoc e ela acabou sorrindo antes de contemplar o pão. Deu outra pequena mordida cuidadosa e lembrou a si mesmo de controlar a língua, a fim de não tecer tal comparação com o Rei de Rohan e o futuro marido em voz alta.
Éowyn alertara-a que era bastante sugestivos aquela mania de Lothíriel de comparar as pessoas à natureza, aromas, sabores ou canções. E que os homens de Rohan eram muito sensíveis quando provocados.
"Seria desastroso provocar Éomer antes da união", finalizara Éowyn rindo muito ante a face escarlate da futura cunhada.
Mas afinal, a oferta de amizade de Éowyn se tornara uma preciosidade para Lothíriel, criada praticamente por homens toda sua curta vida. Além de espirituosa, inteligente e sábia, Éowyn era generosa e não poupara esforços para aconselhar a futura esposa do irmão. Lothíriel tinha tanta informação na cabeça que freqüentemente, as têmporas latejavam ao tentar reuni-las em um único argumento sólido.
E no fundo, ela sabia que acabaria vagando alheia a tudo, confiando unicamente nos instintos e reagindo aos acontecimentos a sua forma. Esqueceu-se de tudo ao seu redor e mais uma vez, rendeu-se a vagar, refletindo e imaginando sobre o homem que a esperava não tão longe dali, em Edoras, Capital da Terra dos Cavaleiros.
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Glossário
Ithilien. Gondor
Mablung e Damrod. – personagens de Tolkien, soldados da patrulha de Faramir, guardas de sua confiança, aparecem no livro As Duas Torres e conforme registros, lutaram no cerco a Minas Tirith. Mablung encontra Frodo e Sam na jornada para Cirith Ungol.
Cavaleiros do Cisne. Dol Amroth.
Gerihtan – do inglês arcaico, significa direto, objetivo.
Ieldran – mesmo acima, utilizado para designar anciões, antigos, e comumente sábios.
Éored de Éomer, na Caravana.
Háfoc – do inglês arcaico, significa. Falcão.
Ecebryne – Chama eterna, do inglês arcaico –ece eterno, eternamente, perene + -bryne fogo, chama.
Forlong, lorde de Lossanarch. – Caiu durante o cerco de Minas Tirith, já idoso, na Batalha dos Campos de Pelennor, ao correr em auxilio da Cidade Branca com duzentos homens. Nomeado como Tolkien por Forlongo, the Fat, não se sabe se deixou herdeiros para assumir seu lugar em Lossanarch. Lossanarch: vales floridos das Montanhas Brancas, a leste e oeste de Gondor.
Cemië. – mês de julho no westron, utilizado no calendário do Registro de Gondor. Equivalente ao Cerveth, em sindarin, utilizado apenas pelos dúnedain. (Apêndice D Calendário do Condado, pagina 399. RR).
Elfwine, o Belo. – Segundo Rei de Rohan da Terceira Linhagem da Casa de Eorl. Assumiu o trono de Rohan após a morte de seu pai, Éomer Éadig. Há registros que Elfwine tenha adquirido as qualidades do pai na justiça, lealdade e paz ao conduzir a Terra dos Cavaleiros e a beleza da mãe, Lothíriel. Não encontrei registros de aliança de Elfwine ou herdeiros. Na Enciclopédia de Arda, Elfwine aparece como o último Rei de Rohan da Casa de Eorl. Seu nome é traduzido como Amigo dos Elfos.
As memórias de Elfwine serão usadas como narrativa da história, porém, são fictícias, criadas por mim, sem base na obra de Tolkien.
