III 3020
Cermië, 10
Edoras, capital de Rohan e domínios do Rei
Terra dos Cavaleiros.
O sol se mostrava a pino, deitando seus raios dourados sobre a relva verdejante. O vento inclemente da noite amenizara sua fúria e soprava com uivos musicais sobre as paragens. Seu efeito provocava um movimento ondulatório nos campos, como se a terra respirasse viva e dançasse para celebrar o novo dia.
Éomer acreditava que a Terra dos Cavaleiros falava com ele, como o fizera com todos os Reis de Rohan. Sua mensagem soprando sobre os campos extensos e enviando conselhos brandos através de sua força. Contudo, ele ainda se achava incapaz de compreendê-la completamente. Quando detinha as honras e responsabilidades de Terceiro Marechal, a voz da Terra dos Cavaleiros era fácil de ser compreendida, sua Casa era uma extensão de suas crenças e justiça, havia alegria e coragem, trabalho e música. Porém, a força de um país inteiro era uma música estrondosa em seus ouvidos e ele ainda se perdia em entender as delicadas nuances da melodia, principalmente, quando era misturada ao falatório de comandantes e conselheiros.
Ainda não sentia tal unidade enquanto Rei e demorava-se a tomar conta de Meduseld, embora, o Palácio parecia conspirar para tomar conta dele.
Naquele instante, Éomer encontrava-se aos portões de Meduseld, parado em alerta, o perfil alto e a face contraída em concentração, as mãos para trás, como um soldado à espera de ordens. A guarda de Edoras mantinha sua posição nos degraus do Palácio, a água fluída que borbulhava na fonte parecia comandar uma hipnose coletiva e Éomer não era o único a apreciar a escultura do Cavalo Branco aos pés do Palácio, da qual jorrava aquela fonte.
A principio, aquela rotina de contemplar Edoras e as manhãs surpreendera os moradores do domínio do Rei. Muitos pediam licença para falar com Éomer, subindo os degraus com ansiedade ou simplesmente, fitando-o incansavelmente das suas moradias. Com o tempo, os moradores se acostumaram à rotina de seu novo Rei e se limitavam a saudá-lo à distância, felizes com sua presença costumeira as portas de Meduseld e finalmente, agendando as audiências como era devido.
Éothain aguardou um certo tempo antes de interpelar o Rei. Postou-se ao seu lado, tendo a mesma sensação de plenitude com a visão da terra que consumia Éomer. O capitão da guarda fazia de tudo possível para manter ordem na vida de Éomer e ceder-lhe um pouco de privacidade e tempo para pensar. Tarefa que parecia quase impossível desde a subida de Éomer ao trono. Ele entendia a necessidade de solidão de seu Rei, pois fazia parte do éored de Éomer enquanto Terceiro Marechal e o seguira voluntariamente após ser convidado pelo mesmo, cheio de honra pela função e, contudo, às vezes, sentia falta dos simples deveres e dos prazeres do dia-a-dia de outrora.
--- Uma linda manhã. – sussurrou Éothain, ao notar que Éomer, finalmente, movera-se da posição alerta.
--- Vejo que seus modos estão refinados neste dia, Éothain. – soou a voz profunda de Éomer, com uma pitada de diversão no timbre grave. Voltou a face para o capitão a tempo de ver um certo constrangimento em seus olhos. Sorriu com moderação. – Acaso está treinando para a festa do meu casamento?
Direto como um raio, pensou Éothain recuperando-se da observação.
--- Existe um verdadeiro manual no trato com as damas de Gondor, meu Rei. – explicou-se, sério. – Apenas não quero envergonhá-lo, embaraçando com meus modos na frente da corte.
Éomer contraiu o rosto mais uma vez e maneou a cabeça para o mercador que passava próximo.
--- Lindo dia, meu senhor! – cantarolou o homem, muito satisfeito com a atenção de Éomer. – Vida longa ao Rei!
--- Vinda longa ao Rei! – repetiram os guardas, em um brado uníssono.
Éomer conteve um suspiro e fitou o perfil de Éothain.
--- Nesse caso, eu devo praticar essa tática. – falou, séria e pausadamente. – A fim de não embaraçar a mim mesmo.
Éothain manteve os músculos da face o mais imóvel possível. Em outra época, ele acabaria rindo abertamente, pois que Éomer tinha a mania de proferir suas conclusões com intensa seriedade, não obstante, houvesse um certo humor irônico oculto em suas palavras.
Ele era um Rei agora, lembrou-se Éothain, cuidadosamente. Ainda assim, não pode evitar o sorriso na voz.
--- Isso é impossível, meu senhor. – ponderou, em tom alegre e convicto. – Sua fama o desobriga de certas...
--- Delicadezas? – cortou Éomer, o sorriso desaparecendo do rosto. – Cortesias? Conhecimento da cultura própria dos nossos aliados? – o Rei maneou a cabeça em negativa e fitou mais uma vez, o campo verdejante que dançava pela manhã. Sua voz não passava de um sussurro. – Não, Éothain, talvez no passado, mas não é isso que se espera de um Rei.
--- Não precisa ser tão exigente consigo mesmo, meu senhor. – proferiu Éothain, sua famosa honestidade lhe prestando um serviço contrário a sutileza. – E um pouco de sorriso, também não lhe faria nada mal... – ante o olhar sisudo de Éomer, o capitão da guarda hesitou, mas lembrou-se que era seu amigo, antes de Rei. – O senhor não parece um homem que irá se casar em breve. Sua cara fechada irá assustar muito mais a dama de Gondor do que sua falta de modos.
Éomer contraiu o cenho um pouco surpreso com as palavras do capitão. Talvez por isso, Éothain se deu conta que falara além da conta, com uma intimidade típica de guerreiros ao redor do fogo e não de um capitão se dirigindo ao seu Rei.
--- Peço perdão, meu senhor. – replicou rápido, com sinceridade visível. – Estou a sua disposição para a punição que achar conveniente.
Para sua surpresa, o sorriso brotou naturalmente nos lábios de Éomer e o jovem Rei riu gostosamente.
--- Ah... meus modos! – Éomer apoiou a mão no estômago controlando as gargalhadas e voltou-se para um Éothain atônito. – Venha, meu amigo. – convidou, com o riso adornando um brilho novo aos seus olhos. – Vamos colocar algo em nossos estômagos antes da reunião com o Conselho e quem sabe, eu peça ao menestrel para tocar uma boa canção em nome dos velhos tempos. – Éomer bateu a mão no ombro de Éothain, este, muito aliviado e completou, em tom conspiratório. – Quem sabe, você não divide comigo um pouco do seu novo conhecimento sobre as damas de Gondor?
--- Meu conhecimento é todo seu, meu senhor. – ajuntou Éothain, parando ao lado de Éomer, enquanto a guarda abria as portas de Meduseld. – Eles não enchem meia página, mas...
--- É muito mais do que eu sei no presente momento.
As suas costas, o novo brado se repetiu, com o coro uníssono da guarda.
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A mesa estava posta a espera de Éomer. O aroma da refeição caprichada aumentou a boa disposição de Éomer e ele aceitou a bacia de prata oferecida por Dýrfinna, lavando as mãos com entusiasmo. Éothain repetiu a higiene das mãos piscando com charme para a jovem, que corou, mas sustentou o olhar do capitão da guarda.
Éomer sentou-se à cabeceira da mesa, refletindo se deveria ignorar aquela cena ou repreender os dois. Gostaria que Éothain ficasse longe da jovem sobrinha do curador. Dýrfinna tivera alguns problemas em Aglarond e Éowyn trouxera a moça para Edoras a fim de trabalhar na casa de cura, mas Dýrfinna recusara terminantemente e acabara trabalhando na organização de Meduseld.
Éomer notou que Éothain acompanhou a saída de Dýrfinna com um olhar que julgou meloso e lânguido. Suspirou e decidiu-se por manter silêncio, achando que talvez já tivesse obrigações demais para se ocupar com a vida sentimental dos seus homens. Erü sabia que ele tinha a própria para pensar.
De qualquer forma, pensou Éomer com um sorrisinho irônico, Éothain sabia que ele o mataria se desonrasse alguma das jovens. Mais animado com a decisão tão fácil antes do almoço, o sobrinho de Théoden, começou a se servir, antes de ouvir a reprimenda da governanta.
--- Senhor Éomer! – vociferou Halldóra estapeando a mão do Rei sem a menor cerimônia. Ignorou-lhe o olhar ofendido e meteu-lhe o indicador no rosto. – Eu devo servi-lo, diga-me o que deseja, sim? Eu não vou mais repetir!
Éothain arqueou a sobrancelha e pediu, com humildade.
--- Batatas para mim?
--- Você pode se servir – ribombou a senhora e logo um sorriso gentil dissipou a expressão aviltada da mulher ao voltar à atenção para Éomer. – O que vai querer, meu senhor? Precisa se alimentar, não é mesmo?
Éomer abriu a boca para responder que era justamente o que tentava fazer quando um dos guardas pediu licença e adentrou no salão. Éomer indicou para se aproximar com um gesto. O homem se aproximou, reticente ao ver a mesa posta.
--- Fale.
--- Ceorl acaba de cruzar os portões, meu senhor. O Conselheiro Gamling e o Marechal Gautáor também acabam de chegar, juntamente com o Lorde Andsvarr e Úlfheoin. O senhor Saéfuss e sua filha Eöny acabam de pedir uma audiência em caráter de urgência e o batedor enviado ao Westmnete o aguarda. – o guarda fitou o olhar duro de Halldóra, mas prosseguiu com sua função. – Drengi o acompanha. O mensageiro de Ithilien foi conduzido até o estábulo da cavalaria, parece que o animal se feriu na jornada.
--- Pelos belos cabelos de Eorl, quem não veio? – sussurrou Halldóra, de modo que somente o Rei a ouviu.
Éomer maneou a cabeça de maneira afirmativa e franziu o cenho, com um gesto discreto para que Éothain continuasse comendo, ao ver que o capitão tencionava largar a refeição, tendo empurrado o prato. Aquela situação se tornara uma rotina e ele não via motivos para os dois ficarem com fome.
--- Na verdade, meu senhor, eu acredito que muitos vieram antes do esperado, com extrema urgência. – ajuntou o guarda, por fim.
Éomer aceitou a bebida escura e encorpada oferecida por Halldóra, tomou um pequeno gole e fitou-a, agradecido. Ignorou a taça de vinho, visto que ao que parecia, não conseguiria empurrar nada para o estômago vazio.
--- Dóra, poderia providenciar refeição para todos a mesa?
--- Meu senhor, é claro que posso. – a mulher fez um sinal para Dýrfinna, que saiu apressada. Contudo, Halldóra tornou a fitar a expressão de Éomer, severa e modificada pela chegada de problemas. – Porém, se me permite a sugestão, não seria melhor que eles almoçassem no salão de visitas para que o meu senhor se alimente?
A mente de Éomer registrou a oferta generosa de Halldóra, ciente que o inesperado numero de convidados acumularia a senhora de trabalho e lhe garantiria um pouco de paz ao menos na refeição. Apesar da proposta tentadora, Éomer estava preocupado com as contínuas tentativas dos homens da Terra Parda em assentar acampamentos no Westmnete, com a vã desculpa de utilizar o Snowbourn para saciar os animais. Além do que, a presença de Ceorl lhe inspirava urgência, dificilmente, Erkenbrand enviava tenentes do Folde Ocidental para a tarefa simples de um mensageiro.
Decidindo-se Éomer, recusou a oferta com um olhar de gratidão a mulher.
--- Não há porque duplicar o trabalho, Dóra. – ele tornou a ficar sério e ignorou a expressão de pesar da senhora. Voltou a atenção para o guarda, que esperava suas ordens. – Peça para Hlíf cuidar pessoalmente do cavalo e conduza o mensageiro até o aposento redondo. Ceorl também. – fitando Éothain, tornou, com ar grave – Receba os marechais, Drengi, o senhor Seafúss e sua filha. Avise-os que são convidados à nossa mesa e que venho em seguida. – levantando-se Éomer fez um gesto de rendição para Halldóra. – Agradeço seus cuidados, minha querida senhora. Quem sabe na ceia? Por favor, peça para Dýrfinna acompanhar a senhorita Ëoný até o quarto de hospedes, ela deve estar cansada da viagem. Aglarond é distante.
Halldóra fez uma curta mesura de obediência, mas saiu resmungando. Fato amplamente tolerado pela sua dedicação a família de Éomer e Éowyn, tendo alimentando-os desde a infância; à sua mão maravilhosa na cozinha e a idade que já lhe pesava as costas, visível em seus cabelos brancos de neve. Théoden ignorava-lhe as pragas e o mau gênio, encantado com os dotes culinários de Halldóra e satisfeito com os cuidados que a mulher tiver não só com os sobrinhos, como com o próprio Théodred.
Éomer fazia o mesmo.
--- Abusam dele, é o que digo. – replicou Halldóra, aplicando um tapa na nuca de Éothain ao passar. – Moleque, em nada ajuda. Batatas? Quer batatas, vou aquecer algumas e colocar em sua túnica, por certo. Urubus, o pobre Rei não pode sequer comer direito. - com um último olhar dardejando zanga para as costas do guarda que saía, finalizou com um grunhido. – Já está emagracendo, parasitas, isso sim. Chegam no almoço, como se o menino não fosse alimentá-los. Ora.
Éothain comprimiu os lábios e sorriu para Éomer, também se erguendo da mesa, com um suspiro de adeus ao prato que exalava o aroma apetitoso.
--- Ela está certa.
--- Certa para o Terceiro Marechal. – replicou Éomer, afastando-se.
Éothain fitou a taça de chá ingerida pela metade e o excelente vinho intocado. Ajeitou as dobras da túnica e foi receber os convidados que entravam, refletindo que o Rei poderia ter vida longa, desde que o deixassem comer.
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Ceorl foi conduzido até o aposento redondo e ali aguardava, juntamente com o mensageiro de Ithilien e o batedor do Westmnete. Conversaram poucas palavras e logo se os três se quedaram em silêncio cada um imerso em suas próprias preocupações e tarefas a serem cumpridas. As ricas tapeçarias estendiam-se das vigas entrecortadas no teto alto, dividindo o ambiente, iluminado pelas tochas acesas fixas nas colunas. Havia um espaço maior, onde conforme diziam, o hábil tecelão Maere elaborava um novo trabalho, representando a Batalha nos Campos de Pelennor, e ali, próxima à mesa redonda, cheia de escritos e rascunhos, seria seu lugar de honra.
Envolvidos com seus pensamentos e as peças decorativas da sala, eles demoraram a perceber que o Rei já havia entrado nos aposentos.
--- Saudações, eu peço desculpas pela demora. – falou Éomer, cruzando a sala e avaliando rapidamente as expressões tensas e preocupadas. Aceitou a saudação respeitosa dos homens com um olhar brando.
O nervosismo aumentou com o Rei pedindo desculpas e eles se constrangeram ao notar que haviam interrompido algo importante. Porém, eram soldados e logo recuperaram a compostura. Éomer se deslocou para a mesa dez estandartes de tapeçaria após o ponto de entrada, que totalizavam dez metros de comprimento.
Cada estandarte perfazia um metro quadrado e era utilizado para dividir compartimentos. Nos tempos de Théoden, quando Gríma era um mero conselheiro sem peçonha, Théoden trabalhava naquela sala, dividindo as tarefas e separando-os por estandartes, até enfim, concentram-se juntos na mesa redonda. O salão do Trono era usado unicamente em ocasiões especiais, receber visitantes e reuniões do Conselho.
Éomer adotara a mesma estratégia. Não só porque julgava correto seguir a tradição do último Rei, como também confessara a si próprio nas noites insones que ainda não se sentia confortável em subir ao tablado e sentar-se no trono dourado de Meduseld. E embora o tivesse feito quando era necessário e esperado, Éomer evitava o quanto podia, sem entender porque todos tinham a necessidade de vê-lo ali, quando aquilo o machucava tão profundamente.
--- Clarig. – chamou Éomer. O homem parecia cansado e o seguiu obediente, deixando os outros para trás. Éomer ofereceu para que se sentasse. Clarig recusou. – Que notícias traz do vale?
--- O Marechal teve que expulsar os terra-pardenses mais uma vez e agora, o Westmnete está livre, meu senhor. – resumiu Clarig, ciente que Elfhelm daria os detalhes na hora apropriada, estendeu a mensagem para o Rei. – Ele pede resposta à missiva, meu senhor.
Éomer aceitou a correspondência e aproximou-se da tocha bruxuleante. Sua face austera foi se fechando até uma expressão feroz, com a luz dourada sobre seu rosto.
"Caro Rei Éomer
Sei que aprecia a objetividade, portanto, perdoe-me à crueza da narrativa em números. Tivemos duas baixas e cinco homens feridos. O numero de terra-pardenses mostrou-se maior do que informado pelo batedor. – um dos mortos – Ao que parece, eles tem um novo líder, que está distorcendo as providencias misericordiosas do Príncipe Imrahil na Guerra do Anel. Apesar de tudo, eu calculo que este número é pequeno e testam nosso território. Creio ser prudente enviar homens para encontrar a caravana. De alguma forma, eles sabem que a Princesa está a caminho. Com sua autorização, permanecerei no posto formado por meus homens até segunda ordem.
A seus serviços.
Elfhelm
Segundo Marechal da Terra dos Cavaleiros"
Éomer dobrou a mensagem pensando nas palavras não ditas pelo Segundo Marechal. Não só testavam o território, como o próprio Rei. Clarig aguardava suas ordens e Éomer sabia que Elfhelm se deslocaria em pouco tempo até a posição da Caravana, fortalecendo a comitiva para uma chegada segura. Contudo, Éomer refletiu nas artimanhas e maldades de um povo que odiava os eorlingas, capazes de ouvir as palavras torpes de Saruman, matando tantos homens bons e incendiando vilas no Folde Ocidental, incluindo mulheres e crianças.
Ele não havia esquecido do túmulo ao lado do Isen com as espadas fincadas em uma lapide anônima. Uma benção pela bondade de Gandalf, que encontrara tempo de assegurar um fim honrado para os homens que caíram em batalha. Não esquecera dos corpos pequenos de crianças carbonizadas, das cabeças dos pacíficos fazendeiros espetadas em estacas com suas faces de horror ou da Colina dos Mortos, visível do Forte da Trombeta.
Era uma nova Era, mas Éomer não havia esquecido.
--- Aqui estou, meu senhor. – apresentou-se Éothain, muito sério. Sem sinal da descontração anterior. Ante o olhar de Éomer, adiantou-se – Imaginei que precisaria dos meus serviços. Os recém-chegados estão no salão.
Éomer aquiesceu, o bom humor reduzido a rugas de preocupação em sua fronte. Mostrou a mensagem a Éothain e o capitão contraiu os punhos, sentindo a mesma raiva abrasadora do seu líder. Éomer Inclinou-se sobre a mesa rascunhando uma rápida mensagem. Gravou o selo da Casa de Eorl e entregou ao mensageiro.
--- Alimente-se e deixe seu cavalo receber cuidados, você deve partir depressa, mas irá aguardar os homens do éored de Gautáor se organizarem. – Éomer fitou Éothain.
O capitão não tardou a responder.
--- Eles estão em cem homens. Elfhelm deixou parte do éored com Erkenbrand, eles ainda se recuperam da batalha na Colina. – lamentou Éothain, corrigindo-se. – Bem, Noventa e oito.
--- Elfhelm poderá dividir as ordens com Gautáor e manejar os homens. – ponderou Éomer, tranqüilizando Clarig com essas palavras. Era certo que o mensageiro estava ansioso por providências, tendo visto mais do que havia escrito na mensagem de seu Marechal. Suas palavras causaram o efeito desejado e Clarig maneou a cabeça, agradecido. – Mas saiba que permanecerão acampados.
--- Certamente, meu senhor. – a disposição de Clarig melhorara com a cor retornando as suas faces.
Éomer deu-lhe um toque firme no ombro, dispensando-o com segurança.
--- Prepare-se, você tem um caminho longo de volta. – sério, tornou – Obrigado, Clarig.
O homem se curvou e Éothain, tendo saído da sala silencioso, retornou com Gautáor. O Marechal trazia a taça de vinho na mão e entrou mastigando algo que cheirava a carne assada. Éothain havia se tornado um admirador dos elfos e Éomer sabia que andava praticando o andar silencioso, o que havia divertido-o muito a principio e provocava inúmeras piadas entre os homens da guarda. Até que Éomer desse um basta, após terem desaparecido com a cela do cavalo do capitão, obrigando-o a montar a maneira dos elfos.
Éomer sequer sentiu o estômago reclamar de fome. Suas têmporas começaram a latejar pela rotina puxada da manhã, quando havia cavalgado até os campos de treinamento para falar com os novos homens e visitar os potros de Shivased, já vendidos, como sempre acontecida com Névoa Prateada. Porém, os potros adoeceram e nem mesmo Hlíf conseguia diagnosticar o problema.
Éomer cortou a linha de pensamentos quando Gautáor repousou a taça de vinho sobre a mesa, atento a expressão fechada do Rei.
--- Elfhelm está com problemas? – Gautáor cruzou a mão ao peito. – Meu éored está pronto para partida imediata, meu senhor. As suas ordens.
--- Aí é que está. Acho que é um erro. – ponderou Éomer, pensativamente. – É justamente o que faríamos.
--- Eles não seriam estúpidos. – ponderou Gautáor, descrente. – Aqueles porcos não têm homens suficientes para desafiar Édoras. Nem mesmo só com o seu éored aqui, meu senhor. – a ironia cresceu, visto que os cento e vinte homens do éored de Éomer eram ferozes e implacáveis.
Gautáor sabia disso, os homens da Terra Parda também. Não era um numero insignificante.
Éomer maneou a cabeça em negativa, esfregando a barba curta com movimentos lentos. Ele não estava gostando do rumo que as coisas tomavam. Era inconcebível que após a Guerra do Anel ainda houvesse espiões e armadilhas, mas nem todos almejavam manter a paz instaurada pelo Rei Elessar.
--- Quantos homens, Gautáor? –sua voz soou baixa, concentrada. – Nós não sabemos. Eles têm mais informações do que nós. Ainda assim, eu concordo com você. – Éomer cruzou os braços, fitando o espaço vazio de onde haveria uma tapeçaria em breve na comemoração do festival da Cavalaria. Um pensamento cruzou sua mente e o senhor dos rohirrim franziu o cenho. – A não ser que, eles tenham algo mais sutil em mente. Uma pequena vingança.
--- Que vingança seria pequena o suficiente para satisfazê-los? – questionou Gautáor. – Pelo que diz Éothain, o líder deve estar entre os homens que o Príncipe de Dol Amroth libertou após a batalha no Abismo. – rugiu e teria cuspido se estivesse ao ar livre e não em Meduseld. – Bastardos ingratos.
--- Devemos mandar uma escolta para a caravana, meu senhor. – propôs Éothain consternado. – Afinal, a sua escolhida é filha do Príncipe.
--- Tratarei disso, Éothain. – tranqüilizou Éomer, uma sombra escura descendo em seu rosto. – Não pretendo permitir que os terra-pardenses tomem mais ninguém do nosso povo de escravo. E com certeza, muito menos, arriscarei a vida da minha futura esposa. – Éomer respirou fundo, conjurando a paciência, uma habilidade recém-adquirida na qual ainda tropeçava ao seu uso. Cerrou os punhos, prosseguindo. – O Rei Elessar já anunciou que será reafirmado o Juramento de Eorl. É possível que eles queiram impedir que o Rei de Gondor volte a reafirmar a soberania de Rohan como aliada independente de Minas Tirith e as cidades livres.
--- Plano ambicioso. – murmurou Gautáor, ainda incerto.
--- Para quem não tem nada a perder, tudo é valido. – resmungou Éomer, contrafeito. – Eles não podem impedir o Rei de Gondor, mas tentarão atrapalhar o nosso caminho.
--- O Juramento será uma cerimônia bela, uma honra e uma reafirmação dos nossos direitos. – enumerou Gautáor, entre satisfeito com a medida do Rei que conhecera lutando lado a lado e irritado com a tamanha audácia que a teoria de Éomer sugeria. – Contudo, há de concordar comigo, Éomer, mesmo sem o Juramento, nós não perdemos o direito.
--- Eu sei. – Éomer cruzou os braços. – Todos sabemos, mas será um dia importante de qualquer maneira. Um símbolo de comprometimento e união. Se eu estivesse ao lado deles, me parece uma estratégia apropriada para desmerecer a força da nossa Soberania. – Éomer apertou os olhos, enxergando quadros distintos, vistos unicamente pela sua imaginação. – Eles não têm um numero a altura dos eorlingas, mas podem causar problemas em seqüência. Além do que, o ataque na Colina dos Mortos, a tentativa de saque aos grãos e suprimentos para Minas Tirith ocorreram num prazo curto, sempre com o emblema deles.
--- Eles querem que saibamos a autoria, Éomer. Não será uma outra armadilha? – contrapôs Éothain. – Pode ser uma distração para a verdadeira intenção. Eu ficarei bem mais tranqüilo quando a Princesa estiver aqui.
--- Éothain tem razão, eu também ficarei mais tranqüilo, mas estou a sua disposição. – proferiu Gautáor atento ao rosto de éomer. – Não deseja convocar o Conselho?
Éomer dardejou um olhar flamejante para o rosto do Marechal, que suportou sua fúria por algum tempo, antes de desviar a face para a tapeçaria.
--- Teremos uma reunião prévia do Conselho a tarde e outra amanhã cedo, já foi agendada por Éothain e confirmado com os presentes. Isso não pode esperar. – lembrou Éomer, em tom seco. – Seu éored deve seguir para o Westmnete e tomar a posição de Elfhelm, eu o quero de volta em Edoras, fazendo o caminho proposto pelo príncipe Imrahil. Dessa feita, ele irá encontrar a caravana. – reduzindo a austeridade na voz, completou. – A Princesa Lothíriel não vem escoltada por crianças e sim por guerreiros que lutaram ao nosso lado. Dentre eles, três elfos e os melhores homens que eles puderam dispor. – com um rápido olhar, Éomer chamou Ceorl. – Gautáor retornará para o Folde Ocidental com você. Digo-lhe o mesmo, coma e cuide do seu cavalo, não haverá tempo para descanso.
Ceorl arqueou as sobrancelhas e recuperou a surpresa no semblante.
--- Como sabia, meu senhor?
--- Sua expressão me pareceu clara durante a conversa. – Éomer apontou para as mãos vazias de Ceorl, uma delas, agarrada a bainha da espada com o tom das notícias. – E não traz nenhuma mensagem para mim, exceto, a necessidade.
--- Assim o é, meu senhor. – Ceorl fez uma pequena mesura e seus olhos brilharam. – Fico feliz em servi-lo.
O sorriso merecido não alcançou seus lábios, mas Éomer devolveu a confiança que ali existia com um simples toque no ombro do tenente.
--- Vou partir imediatamente. – avisou Gautáor apanhando a taça de vinho sem entusiasmo. Em sua mente prática, dividia-se inúmeras tarefas necessárias.
--- Gautáor. – trovejou Éomer e o Marechal se voltou. – Confie em mim.
O homem sorriu brevemente e algumas rugas se desfizeram da sua fronte.
--- Eu confio a minha vida, meu senhor. – garantiu Gautáor, convicto. – Peço desculpas se pareceu ao contrário.
--- Vá e faça uma jornada segura. – desejou Éomer, segurando a vontade de segui-lo. Todo o seu intimo clamava por partir imediatamente e contudo, ele precisava ficar. Aquela era a parte mais difícil em ser o soberano de Edoras. Dar ordens e não poder cumpri-las com suas próprias mãos.
--- Devo segui-lo? – perguntou Éothain. – Posso receber as instruções para a reunião do Conselho amanhã e pedir para alguns homens da guarda percorrerem os campos.
--- Pode segui-lo, porém, eu prefiro que Haerfaest cuide da tarefa. A guarda precisa trocar os turnos e meus homens estão aborrecidos de ficarem parados por tanto tempo. – Éomer suspirou e passou a mão pelos cabelos. – Erü sabe que terão vontade de acompanhar Gautáor, a menos que recebam alguma tarefa.
--- Eles acabam de retornar de Aglarond, depois de meses em Aldburg, Éomer. – lembrou Éothain, com um brando sorriso. – Do Folde Ocidental ao Oriental... Mal tiveram tempo de cumprimentar as esposas, namoradas... amigas.
Um sorriso pálido se desenhou na face de Éomer com a provocação de Éothain. Ele o fazia se lembrar constantemente de Théodred. O filho de Théoden era tão eficaz com as armas como o era com as damas, juntos, eles haviam arranjado muitas confusões. Até Éowyn ter aprendido os caminhos que eles faziam, as tabernas que gostavam ou as mulheres que os agradavam para transformar a vida dos dois em um inferno de perseguições e chantagens. Era tão temerária que chegara a vestir roupas masculinas e entrara na taverna, surpreendendo Théodred com uma mulher em seu colo. Sua fúria só aumentou ao ver o estado do irmão.
Éomer fechou os olhos, com vontade de rir, mas logo a face alegre de Théodred se transformou em surpresa com a presença de Éowyn e aquela lembrança transfigurou-se na memória do rosto pálido, enxangüe, definhando dolorosamente, mas com inegável altivez corajosa.
"Eu defendi até você chegar, meu primo, agora, eu posso partir..."
Aquela lembrança provocou um sentimento de perda tão forte que o sorriso foi varrido do rosto dele. Quantas vezes ele sofreria pela morte do sobrinho, considerado seu irmão, Éomer não sabia. Um sofrimento o levava a outro e bastava recordar de Théodred para se lembrar de Théoden caído nos Campos de Pelennor, Háma morto com os olhos cheios de sangue no Portão do Forte da Trombeta e outros amigos corajosos que haviam morrido em lenta agonia, atormentando seus sonhos em pesadelos.
Ele tinha menos tempo enquanto Rei do que já tivera como Marechal, contudo, a voracidade da Guerra havia acabado e as atividades enquanto soberano de Edoras não afastava sua mente das lembranças. Insistentes e sombrias. Torturavam e reabriam feridas. Talvez por isso, Éomer entregava-se impiedosamente as tarefas de administração, defesa, julgamentos, reuniões e conselhos, treinamentos, vistorias e trabalho com os cavalos. O cansaço mental e físico era bem vindo e ele não se lembrava mais de ter tido uma refeição decente nos últimos meses, mas a verdade era que não se importava.
Fazia de tudo para empurrar as lembranças para longe. Com o casamento de Éowyn, ele havia perdido uma amiga, companheira e confidente, mais do que isso, a irmã conhecia as perdas que o atingiam, porque também fora atingida. Não o julgaria, porque era forte, a mulher mais corajosa e destemida que conhecera, e contudo, sabia que mesmo os mais fortes podiam ser atormentados pelas perdas. Não desmerecia o Rei, lembrando-o que também era um homem e tinha o direito de se ressentir do passado. Ele sentia falta dela.
Éomer sacudiu a cabeça penitenciando-se pelo egoísmo. Exatamente por tudo aquilo que Éowyn merecia a felicidade e a paz que alcançara com Faramir. Ele jamais esqueceria como Éowyn parecia radiante no casamento. A irmã merecia.
Naquele instante, sentiu-se profundamente sozinho.
Éomer dispensou Éothain sem dizer mais nada e o capitão seguiu em silêncio, como se tivesse compartilhado memórias sombrias, assim como o Rei.
--- Senhor?
Éomer piscou. Por um segundo, havia esquecido do mensageiro de Ithilien. Era como se a própria Éowyn estivesse lembrando-o de não cair em pensamentos tristes. Ele acenou para o rapaz de aproximar e por pouco não praguejou ao notar o qual jovem ele era, com as frases de Elfhelm ainda latentes na sua cabeça. Não era seguro ainda, pensou, analisando a postura rígida do rapaz. Relaxou os ombros, ele podia ser jovem, mas Éowyn não mandaria alguém incapaz de se defender. Lançou um olhar curioso para o pacote que o mensageiro trazia.
--- Trago uma mensagem de lady Éowyn, não necessita de resposta. – o rapazote parou e engoliu em seco, incerto de como continuar. Recebeu uma leve inclinação de cabeça como incentivo e tropeçou nas palavras, repetindo as palavras da Dama do Braço de Escudo. – A não ser, e cito, as palavras de sua irmã, senhor Éomer... "A não ser que o senhor Éomer conheça algum mago que encante um laço e envie tal objeto mágico para enforcar-me com ele pela insolência".
As sobrancelhas de Éomer ergueram-se lentamente até a fronte e ele apanhou a mensagem. Pela primeira vez, o mensageiro notou a face do Rei de Rohan se anuviar e seus olhos castanhos se iluminaram tornando-se dourados com a luz das tochas.
--- Está dispensado. Eu agradeço o seu trabalho. – avisou Éomer, fitando o perfil do rapaz rapidamente. – Junte-se aos membros da guarda que saem do turno à frente do Palácio e repouse o que achar necessário.
--- Obrigado pela sua gentileza, meu senhor. – o rapaz fez uma reverência respeitosa, à moda de Gondor e se retirou silenciosamente.
Éomer contornou a mesa e sentou-se sobre a luz da tocha. Ela provocava a sombra de um homem em seu cavalo na superfície da madeira polida e Éomer abriu a mensagem vagarosamente, aspirando o aroma delicado e cítrico de laranjas. Seus olhos se aqueceram em reflexo da alma e Éomer imaginou se Ithilien captara o coração da irmã, ao ponto que trocara antiga fragrância favorita pela fruta daquele local.
Degustou a escrita fina de Éowyn por alguns segundos antes de se entregar à leitura.
"Querido irmão,
Espero que estas cartas o encontrem bem de saúde em corpo e coração.
Ficará satisfeito em saber que sinto saudades e que és de fato, inesquecível, como me preveniu no nosso último encontro. Porém, não se apresse em gabar-se sorrindo, pois Ithilien necessita de muito trabalho e a presença do meu esposo afasta as sombras do meu coração, trazendo luz em todos os seus cantos e corredores.
Seu nome continua sendo alvo de exclamações de admiração, especulações e adivinhações de toda a sorte. Desde o tecido que sua noiva usará nos trajes de casamento – Erü me perdoe à impaciência com a ignorância, ela será a noiva de um homem nobre de Rohan, um Rei, o que esperam que ela use? – até a renovação do Juramento de Eorl e Cirion.- a qual, se realmente ocorrer em Minas Tirith, o que não acredito, será mais tranqüilo para você, já que estará devidamente casado e não será alvo de todas as damas de Gondor. Mais tranqüilo para mim também, visto que minha paciência chegou ao fim com essa questão.
Pessoalmente, eu acredito que Aragorn planeja algo secreto, pois o Rei de Gondor aprecia tanto as fanfarras da corte quanto você aprecia discursos longos. Faramir é da mesma opinião e creio que ele sabe de algo, que não confessa a mim. Acredita nesse absurdo? Escreva a ele, irmão, creio que meu marido não sabe que descobrirei mais cedo do que imagina.
Lossanarch continua sendo um problema e você deve estar ciente que todos as regiões carecem de árduo trabalho ainda. As perdas com a Guerra deixaram marcas profundas que nem somente a nossa vontade pode recuperar. Os Picos de Gondor estão sendo renovados e Aragorn já começou a estruturar a renovação da guarda, métodos de existência para as famílias que abraçam a honra de tal missão visando um aviso rápido entre Gondor e Rohan.
Enfim, estendo-me além do necessário, mas culpe a saudade que sinto de ti.
Como presente de casamento, estou enviando as cartas que troquei com Lothíriel a seu respeito. Não me queira mal, meu querido irmão, eu apenas quero que a conheça antes do casamento e saiba o porque eu aconselhei firmemente que a desposasse. Tenho certeza que ela será perfeita para você e também é a opinião de meu marido. Assim, terá uma tarefa mais branda para as suas noites e espero que isso o afaste da rotina secreta de visitar o tumulo de Théodred e do nosso amado tio. Continuo preocupada contigo e em uma palavra sua, estarei ao seu lado.
É claro, que acredito na justiça entre homens e mulheres, portanto, Lothíriel também recebeu sua parte no presente e está com suas cartas.
Felizmente, nós veremos no seu casamento e poderá decidir se torcerá meu pescoço ou me perdoará pela iniciativa.
Todo o meu amor,
Éowyn.
p.s: O aroma vem da fita na mensagem e pertence a Lothíriel. Espero que goste perfume."
Éomer deixou a mensagem cair de suas mãos, ainda incerto com a gama de emoções despertada com a atitude ultrajante da irmã. Éowyn queria seu bem, ele tinha total certeza disso, porém, quebrar o sigilo de palavras pessoais era algo que estava completamente fora de questão. Afastou a mensagem, ainda incrédulo com a ousadia da irmã e lançou um olhar oblíquo para o pacote caprichosamente amarrado sobre a mesa.
Ficou um longo tempo pensando e cismando. Ora o coração ardia de indignação, ora de curiosidade. Por fim, decidiu-se pelo que julgava ser mais honrado e afastou o pacote de si, como se fosse um monstro prestes a pular em seu pescoço com uma faca afiada. Aquilo poderia ser um teste, embora ele não quisesse tal tarefa daquelas a essas alturas.
Se Lothíriel lesse suas cartas tão pessoais, decerto o conheceria melhor do que qualquer pessoa, mas também, ele ficaria decepcionado com sua conduta. Certas coisas apenas o tempo poderia trazer.
Como o amor.
Éomer fechou os olhos e comprimiu os lábios num ricto de irritação. Houve uma época em que ele e Théodred falavam sobre amor e família. Théodred já havia escolhido sua futura esposa quando caíra nos Vaus do Isen. Éomer jamais chegara naquele ponto, mas sempre acreditara que encontraria uma bela mulher, corajosa e altiva para casar com ele e formar uma família. Isso antes da Guerra. Tudo havia desmoronado e agora ele precisava reconstruir o futuro, sem espaço para sonhos.
A filha de Imrahil pareceu-lhe adequada enquanto Rei de Rohan e contava com inúmeras palavras a seu favor, além da própria admiração que Éomer nutria pelo seu pai e seus irmãos, bravos em batalha, justos e amáveis com o povo. Diziam que a beleza da Princesa de Dol Amroth só perdia para a rainha élfica de Elessar, o que não era pouco, já que lady Arwen deixava qualquer homem sem fala. Inclusive o Rei.
Éomer riu um pouco, mas logo suspirou desanimado. Mas Aragorn amava Arwen e era respondido. Ele sequer conhecia sua futura esposa. Lothíriel estava em Dol Amroth durante o cerco de Minas Tirith.
Compreendia a boa intenção de Éowyn, mas as cartas! Parecia uma desonra abrir aquele pacote e ler as palavras da Princesa. Será que ela sabia daquele fato, estava de acordo?
--- Éowyn... – bateu com o punho na mesa. – Por que fez isso, minha irmã? Pena que não conheço nenhum mago ou laço enfeitiçado! – Éomer se levantou, ciente que já gastara tempo demais e que os convidados ainda o esperava. Fitou a carta da irmã com um olhar de ira. – Eu mesmo terei que esganá-la e deixarei Faramir viúvo.
A silhueta de Halldóra surgiu às portas do aposento.
Éomer acenou reprimindo o súbito mau-humor que viera se alojar junto com o cansaço, a dor de cabeça e a fome.
--- Estou indo, Dóra. – avisou, com outro olhar dardejante para a pilha. – Coloque isso nos meus aposentos, por favor.
Com uma rápida análise, Halldóra notou a mudança drástica no semblante de Éomer e absteve-se de resmungar. Estava torcendo pela tal princesa chegar logo, definitivamente, o seu Rei precisava de uma esposa com autoridade para cuidar dele. Apanhou o pacote e a carta, reprimindo mais uma vez a vontade de reclamar. Isso é, pensou, se a flor de Gondor fosse capaz de enfrentar o gênio de Éomer, tarefa fácil para as mulheres de Rohan. Toda mulher sabia que quanto mais necessitado de atenção, pior se tornava o gênio dos homens orgulhosos daquela Terra, que fariam de tudo, exceto pedir. Halldóra deu de ombros e se afastou para cumprir suas ordens. Ninguém mandou escolher uma moça estrangeira, pensou rabugenta, ela nada faria para ajudá-la,isso era certo. Já bastava o trabalho que tinha com todos aqueles aduladores, conselheiros, marechais, fazendeiros e sei mais quem, que vinham amolar seu pobre Rei na hora das refeições.
A não ser que Éomer pedisse, decidiu-se.
A luz dourada cintilou sobre uma faixa de cor e Éomer estugou o passo para apanhar o objeto esquecido. Seus dedos se fecharam em torno de algo sedoso e ele se ergueu devagar, deixando que a luz do aposento iluminasse completamente a fita cinzenta. Era um tira fina, cintilante e macia, como os cabelos de uma donzela.
O aroma cítrico e delicado atingiu seu rosto e num ato automático, Éomer levou a fita até o rosto, aspirando o perfume. As palavras na carta da irmã voltaram a sua mente e Éomer logo associou o aroma ao nome da mulher que viajava na sua direção.
Talvez, Éowyn tivesse conhecido algum outro mago em Minas Tirith e tivesse encantado a fita e assim, seus pensamentos.
O aroma continuava envolvendo seus sentidos, mas o zumbido da conversa no salão era audível agora com as portas abertas e ele não tinha mais tempo para pensar nas suas emoções e desejos.
De qualquer forma, Éomer sorriu e guardou a fita na túnica.
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Glossário
Em Édoras e Meduseld. Rohan.
Éomer. – O elemento éo do nome Éomer é provavelmente relacionado aos cavalos, mas –mer existe indefinição. Provavelmente, do inglês arcaico Maer, que significa famoso, glorioso, heróico. Éomer tornou-se Terceiro Marechal da Terra dos Cavaleiros ainda jovem, aos vinte e cinco anos de idade. Na época da Guerra do Anel, Éomer tinha apenas vinte e oito anos de idade e reinou os rohirrim por mais sessenta e cinco anos, tendo vivido por 93 anos. Uma vida bastante longa para os homens de Rohan, sendo que apenas Aldor, o velho atingiu idade avançada, morrendo aos 73 anos.
Drengi – originário do antigo sueco como nome pessoal, originário do nórdico drengr "jovem homem, guerreiro e bravo".
Saefúss – do originário sawair – oceano em junção com björn, bear (neste acaso, dar suporte, tomar a responsabilidade de outro em juramento).
Ëoný – da saga legendária c.1300 Egilis, filha do rei Hákon e na saga do século XIV,Hálfdanar, filha do Rei Hárek.
Hlíf (e Líf) – Aquele que dá proteção. Usado como nome apenas no sentido mitológico no Landnámabók.
Svana – ligado ao svanni, uma palavra poética para designar dama.
Dóra. – apelido para Halldóra. (da origem hall – pedra, forte, ousadia. / dor – origem em dórr e pórr – deus do trovão). Aparece no capitulo 21, 12, 39 entre outros no Landnámabók para diferentes personagens.
Úlfheoinn – no antigo germânico termo úlfheoinn aparece como um nome próprio utilizado para significar pele de lobo ou guerreiro berserker.
Dýrfinna – do dýrr querido, precioso, junção com –finna, do –finnr que significa Saami, mágico. Saami ou Laplander é utilizado para definir aquele que vem da Finlândia ou Mágico. O Saami são conhecidos como mágicos poderosos.
Gautáor. – transformado do normando Gautr. Guatr nome poético para Odin, sugera o significado pai, no dicionário notas Cleasby-vigfusson. O sufixo - rikiar entende-se como poderoso, aquele que se destaca, regente.
Gautáor AU Rohan.
Filho de Grimbold, Gautáor participou da Guerra do Anel no éored de Elfhelm. Retornou a Édoras para a defesa da capital e muito lastimou a morte de seu pai na Batalha dos Campos de Pelennor. Na fanfic, ele é um dos Marechais de Éomer, no Folde Oriental e apesar de ser mais jovem quanto o Rei, é sempre leal, embora as vezes, parece estar sendo duvidando das decisões de Éomer. Assim o faz, agindo como fazia Grimbold com o filho, pressionando para a auto-reflexão e ser mais do que um feroz cavaleiro de Rohan, mas também um sábio. Em sua concepção, Gautáor deve lutar ao lado de Éomer e honrar a memória do pai, que lutou até o último instante para salvar Théodred e o trouxe seu corpo de volta para Meduseld, embora estivessem cercados por orcs. Grimbold, Erkenbrand e Théodred foram os grandes defensores de Rohan, e muito contribuíram para atrasar os planos de Sarumam.
Éored – cavalaria de guerra contando sempre com 120 homens e cavalos. Éoherë é o termo para designar toda a força da cavalaria, agregando todos os éoreds dos Éothéod. Ocorreu duas vezes na história de Rohan. A primeira vez com Eorl, quando cavalgou em auxilio a Gondor levando sete mil cavaleiros, como centenas de arqueiros em cavalos. Na segunda vez, cinco séculos após a cavalgada de Eorl, o Rei Théoden levou todo o éoherë para a Batalha nos Campos de Pelennor. Éothéod é palavra do inglês arcaico, significa horse-host. Traduzido para o élfico tornou-se Rohirrim (informações na introdução), termo amplamente conhecido para os homens de Rohan.
Aldburg - Folde Oriental. Antiga Casa de Éomer e Éowyn. Região de Rohan que seu pai Éomund conduziu com prosperidade até ser assassinado em uma emboscada por orcs. Éomer e Éowyn deixaram Aldburg após a morte da mãe, logo depois do falecimento de Éomund e foram para Édoras, sendo criados pelo Rei Théoden.
Aglarond – Seu nome vem da caverna ao sul do Abismo de Helm, as Cavernas Cintilantes das Montanhas Brancas. Quanta a esta, foi fundada uma colônia pelos anões, após a Guerra do Anel, onde Gimli se tornou Lorde das Cavernas Cintilantes, prestando grandes serviços aos rohirrim, bem como a Minas Tirith. Gimli fala sobre elas com grande detalhe para Legolas, no livro As Duas Torres.
Ceorl – Enviado por Erkenbrand para alertar Éomer quanto o ataque ao Folde Ocidental e o preparo para a Batalha de Hornburg, mas acaba encontrando o próprio Rei Théoden e une-se a eles. Graças a mensagem, Théoden reconsidera sua estratégia e leva os eorlingas em auxilio a Erkenbrank. A origem de seu nome é anglo-saxão, dado a um nível social bastante baixo, o último livre. Talvez por isso, considera-se que Ceorl fosse um dos fazendeiros no Folde, que se viram encurralados e obrigados a lutar para defender os portões do Forte da Trombeta, e não fosse um dos guerreiros de Erkenbrank propriamente dito. O mais provável é que Ceorl fosse um dos batedores.
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