Os trechos de memórias dos personagens estão sinalizados com a letra M repetida em seqüência na linha (mmmmm) para o início da lembrança e F (ffffffff) para o seu término. Pensamentos são indicados entre aspas, ou seguidos por vírgula e indicação do personagem.
Optei por não utilizar o itálico muitas vezes, pois acho a forma no ffnet esteticamente difícil para leitura.
Neste capítulo, eu vou mostrar um pouco mais do relacionamento Éomer e Théodred, pois é claro, será utilizado no futuro. A partir de agora, a Caravana e os acontecimentos em Rohan acontecerão no mesmo capítulo, para facilitar o entendimento. Inicio também o início da explicação sobre o que aflige Legolas. Espero que gostem.
XXXXXXXX
"O que é a pradaria de Rohan?
O seu lar.
O que leva o seu escudo?
A sua honra.
Qual a força da sua espada?
A sua alma.
O que é a sua montaria?
O seu futuro e o seu retorno.
Qual é o seu senhor?
A sua palavra.
E o que é a sua vida?
Rohan.
E sem isso, o que vale viver?
Nada"
Juramento da Cavalaria
As Memórias de Elfwine.
Registro da Terra dos Cavaleiros, IV 3083
O Incomensurável Laço da Promessa -Parte I
III 3020
Cermië, 11
Edoras, capital de Rohan e domínios do Rei
Terra da Marca dos Cavaleiros.
A madrugada avançava e consumia os sonhos que vivificavam a esperança de tempo de paz para Rohan, no sono benéfico de seus habitantes.
Um deles, contudo, não encontrava a tranqüilidade e remexia-se no leito, jogando de maneira impaciente os arranjos cuidadosos de Halldóra e livrando-se das amarras que pareciam aumentar o desconforto da noite insone.
O pesado cobertor de pele enrolado nos pés da cama jazia tombado no chão. Todo o aposento do Rei aspirava um aroma saudável, uma mistura de madeira polida, ar puro e grama fresca. Ainda assim, Éomer transpirava e girava o corpo, sem encontrar sossego para a mente. Ele ergueu o tronco e com um grunhido irritado, colocou-se para fora do leito, amando e odiando aquele aposento, com todas as fibras do seu coração.
Éomer caminhou trôpego, sentindo que o ar era insuficiente dentro daquele cômodo, que as paredes se comprimiam para esmagar seus pulmões e restava a ele pouco tempo para encontrar o espaço certo para conseguir se salvar. Era uma sensação alucinante, seus ouvidos zumbiam com gritos do passado, ecos de espadas quebradas, ritmos de respirações agonizantes e últimos suspiros.
Por quê? Aquela palavra simples parecia abraçar um mundo de dúvidas para as quais, Éomer não encontrava resposta. Alcançou a camisa de dormir e jogou-a sobre o tórax desnudo afastando os cabelos soltos em desalinho do rosto. Nunca ele sentira antes as chagas dos guerreiros se abrindo em seu coração. Talvez, porque em vinte e nove anos de lutas e batalhas, Éomer não tivera tempo para considerar o verdadeiro valor das perdas. Porque sempre tivera a certeza que contaria essas perdas nos dedos de uma única mão e não as contaria sozinho.
Éomer alcançou a porta e entreabriu um pequeno espaço, liberando aquela trava no cérebro que garantia que havia salvação. Não morreria sufocado nas próprias lembranças. O quarto jazia na penumbra da noite, um único archote que morria espalhando luzes fugazes e mesmo assim, a claridade era-lhe pouco bem vinda. Ele queria se misturar nas sombras e na escuridão, esquecer seu próprio nome e ser ignorado por todos, ao invés de ouvir seu nome sendo repetido, em uma eterna saudação.
Um barulho arrastado e baixo se fez ouvir ao longo do corredor. Éomer tornou a fechar o espaço salvador, o coração ainda louco dentro do peito sem encontrar rumo certo. Por todas as Estrelas de Varda, será que Rohan ganhara um Rei a beira da insanidade?
Esse pensamento contorceu o estômago de Éomer e ele repousou a fronte na textura da madeira, agradecendo o frio que percorria o Palácio na madrugada, ainda que fosse um mês de celebração do calor. Os amplos campos de Rohan traziam um vento frio e perene, que somente as lareiras acesas poderiam afastar, um verdadeiro transtorno no inverno, mas que para o sobrinho de Théoden era um bálsamo naquele instante.
Tenho fome, pensou Éomer, retomando a linha lógica dos pensamentos. É só isso, fome, uma necessidade física.
Com o pensamento alentador que garantia sua humanidade e não pura loucura, Éomer tornou a abrir a porta e ganhou a liberdade do amplo corredor. Os aposentos silenciosos, a madrugada fria fazendo cócegas nos pés descalços transmitindo mensagens seguras para sua fuga incoerente.
"Não seja tolo. É claro que ela sabe"
Éomer cerrou as pálpebras com força, quase pedindo clemência para a voz amiga, aquele timbre jovial e metálico que ecoava do passado. Uma nuance de vida que lembrava uma enxurrada no Entágua, uma força própria que arrancava barreiras e roubava o sol. Aquela voz que poderia se exibir como um pássaro cantando canções grosseiras para os guerreiros do éored ou simplesmente, arrancando frases de contos de Théoden para traçar finos sorrisos de prazer no rosto das mulheres.
Éomer tornou a abrir as pálpebras e seus olhos castanhos esverdeados adquiriram a coloração dourada das tochas. Bendita Halldóra, que deixava alguns archotes para iluminar as fugas secretas de seu Rei.
"Eorlingas, avante! Marchem!" retumbou a voz do passado, repleta da autoridade, para então romper num riso cristalino "Marchem para frente! Pela glória de Eorl se esses brotos de grama não distinguem o norte do sul! Salve-me, primo!".
--- Agora não, Théodred... – sussurrou Éomer, avançando agora em passos firmes através do corredor. Imagens que continuavam se interpondo a sua frente, enquanto o Rei insone colhia a imagem de Meduseld na madrugada. Um plano de sombras na madeira fria e nas colunas altivas que se tornara um amigo familiar durante suas crises noturnas.
Com o plano traçado de assaltar a cozinha e calar o estômago, Éomer continuou a marcha silenciosa, apreciando o ar frio que reduzia o calor confinado no salão dourado pelo uso da lareira. Ele passara tarde adentro discutindo as previsões para a Terra dos Cavaleiros com Gamling e esticara para o início da noite, decidindo juntamente com Andsvarr qual era a companhia que levaria os cavalos até o porto do Anduin, rumo a Baía de Belfalas. Andsvarr assumira o feudo de Herubrand, após o nobre guerreiro tombar na Batalha do Pelennor e vinha exercendo um trabalho árduo para manter a reputação de sua Casa no comércio justo, na proficiência excelente da raça, cujo Hererinc era o pai dos cavalos. Uma raça pura caracterizada por músculos fortes, definidos para corridas, mas hábeis em curtas distâncias e espaços estreitos, altivos e simultaneamente pacientes. Éomer tinha certeza que os filhos de Hererinc dariam boas companhias aos homens do oeste, excelentes e corajosas montarias, mas afáveis suficientes para as cidades.
O fato de Úlfheoin comparecer com notícias sombrias sobre o Folde Oriental não ajudava conciliar o sono do Rei. O capitão da Tropa no leste do Emnet trouxera um relato de ataques de orcs, homens e cinco prisioneiros que insistiam em falar somente com Éomer. O Folde Oriental era um terreno hostil em Rohan desde que seu pai fora assassinado e Éomer não fora negligente com os antigos planos dele e Théodred, bem vistos por Théoden, em recuperar o leste. Gautaór fizera um trabalho incrível e foi um período árduo para Éomer para tentar conter o gênio, procurando apaziguar e reconciliar os povos que lembravam a todo instante serem tão descendentes de Eorl, visto que ali fora seu lar, quanto os cavaleiros de Édoras. O conselho desgastou Éomer mais uma vez, relembrando de fatos históricos que ele vivera na pele e da indisposição do povo com os homens daquele horizonte de Rohan.
É lógico muitos murmuravam contra aquela investida do Rei. A final, as perdas ainda eram sentidas em toda a Terra-Média e Éomer concentrava-se em algo que já julgavam perdido. Talvez, no futuro. Mas eram poucas vozes, maliciosas e covardes e Éomer fizera questão de ouvir aqueles que quisessem se pronunciar através do Conselho.
Ele fizera de tudo para reconciliar e identificar aqueles que queriam viver em paz, sob a bandeira de Rohan e Gondor. Vencendo o receio, o medo e os antigos ódios, Éomer sentiu orgulho de Rohan, quando recebeu mais apoio do que imaginava e numerosas famílias se prontificaram a retornar ao Leste, reencontrando parentes afastados e prontos para edificar as bases de uma nova Era.
Porém, mais uma vez, Éomer assistia as tentativas de destruir aquilo que mal tivera tempo de germinar. Úlfheoin sabia disso e tomara a iniciativa de cortar o mal pela raiz, mostrando que não haveria misericórdia para traidores e assassinos. Naturalmente, os rohirrim não eram condescendentes com prisioneiros que destroem vilas, matam e tentam escravizar seu povo, desfechando série de acusações e exigências quando deveriam se calar, pedir clemência. Éomer ouviu Úlfheoin em silêncio e não falou nada contra ele. Na reunião do dia seguinte, ele teria que se pronunciar a favor do capitão e renovar medidas oficiais, ou, julgá-lo pela violência e destituí-lo provisoriamente. Isso seria mais justo se Gautaór, o Marechal, estivesse presente para opinar sobre a ação de seu homem, mas Éomer acabara de enviá-lo em uma missão.
Éomer considerou que Gautaór ficaria insatisfeito ao saber da morte dos prisioneiros e possivelmente violento ao descobrir que sua sobrinha agora era viúva. Seja como fosse, Éomer planejou destacar um mensageiro para o Westemnet na manhã seguinte, autorizando Gautaór retornar a seu posto no Folde Oriental. Elfhelm poderia cuidar da Caravana.
Tudo aquilo parecia estranhamente interligado. Éomer não conseguia tirar aquela intuição do corpo, que parecia uma alma própria se debatendo dentro da sua. Mas como? Eram situações diversas, haveria alguém articulando tudo aquilo, especialmente contra ele? Que inimigo ele teria feito, capaz de tal proeza?
Um rápido sorriso frio cruzou o rosto de Éomer. Não, melhor seria que ele próprio fosse até a caravana e deixaria Edoras sob os cuidados de Elfhelm. Se alguém pretendesse utilizar sua futura esposa como mercadoria de troca, ele teria o prazer de explicar como funcionavam as negociações em Rohan.
Como, por exemplo, que não havia negociações na Marca dos Cavaleiros.
Sua mente voou célere de volta para Andsvarr e os corcéis negros que deveriam ser conduzidos ao Anduin, a construção da nova cidade em Édoras e o transito da família de guerreiros para o Folde Oriental. Éomer gostaria de se dividir em três partes, mas sabia que simplesmente tinha que deixar que os Marechais Gautaór, Elfhelm e Erkenbrand impusessem terreno seguro em Rohan. Por mais que Aragorn dissesse que não havia necessidade, Éomer comprometera-se a ajudar Gondor em Lossanarch e sabia que a grave situação não ficaria esperando seu casamento.
Por isso mesmo, Éomer voltou a refletir o motivo que fizera Imrahil antecipar a viagem de Lothíriel, sendo que ele próprio iria para Gondor e poderia, perfeitamente, conduzi-la até Rohan. Pena que Éowyn não dissera nada em suas cartas. Até aquilo parecera articulado para atar suas mãos, mas Éomer sabia que quanto a Lothíriel, ele não tinha o que se preocupar. Confiava plenamente em Imrahil e o nobre príncipe de Dol Amroth era cinco vezes mais paranóico do que Gandalf quando se tratava da filha.
Talvez, ele seguisse com a comitiva até o Anduin, garantindo a travessia dos corcéis negros e levaria parte do seu éored até Gondor, resolvendo duas situações em uma única viagem.
Éomer sentiu uma pitada de desânimo ao imaginar o que o Conselho diria das suas idéias e resolveu dar um basta nos problemas do dia. Sua linha de pensamento não condizia mais com a lógica, emendando os assuntos uns sobre os outros, desordenadamente.
Andsvarr teria que cuidar dos animais para Gondor. Bastava saber se os homens conseguiriam suportar a aversão que montarias negras despertavam na maior parte dos cavaleiros, após os inomináveis espectros.
Afora o fato de Ecebryne ter feito uma reputação própria entre os homens, Éomer confiava que eles saberiam separar a cor de um cavalo a natureza de sua alma.
"Homens são homens... em guerra ou no silêncio da noite, meu Sobrinho. Nos gritos da batalha ou nas decisões íntimas, os homens escolhem sempre aquilo que se afinam com seu caráter. Diante de testemunhas ou na solidão. Só o tempo dirá do que é feita a essência de seus pensamentos, e conheceremos sua luz e suas trevas, pela conseqüência de seus atos."
Éomer sentiu que os pensamentos práticos da lembrança das atribuições do dia se esvaiam nos sons da memória antiga. Nas palavras sábias de um tio benévolo, um pai austero e um Rei gentil. A natureza de Théoden era um doce enigma, em que se misturavam os personagens de suas obrigações com aqueles que agraciavam seu espírito de felicidade.
"Perdi uma irmã e ganhei dois filhos. Como um homem pode reclamar da sorte, se Erü concede duas benções ou retirar-lhe uma?"
E essa resposta sempre arrancava lágrimas escondidas de Éowyn e um sentimento febril de lealdade em Éomer. No final das contas, eles haviam misturado lágrimas e lealdade nos Campos de Pelennor.
O peito de Éomer voltou a se comprimir e o ar fugiu dos seus pulmões. E sem planejar, sem saber como e sem resistir ao impulso, o Rei voltou a sentir a grama picando-lhe a sola dos pés, caminhando feito um sonâmbulo pela trilha aparada na lateral do Palácio. O vento da noite empurrando os cabelos dourados, escurecidos pela noite, com o som dos grilos e da fonte que borbulha atrás de si suprimindo os gritos de guerra, os gritos de vitória. Os gritos de dor e os gritos de morte.
A lua erguia-se como um círculo pálido de prata reluzindo no firmamento. E sua cor de pérola esmaecida jorrava luzes fantasmagóricas pelas pequenas estrelas sedosas nos montes conhecidos. Estrelas caídas em forma de pétalas, guardando como sentinelas o repouso de seus antepassados.
Éomer não lutou mais contra o seu destino. Aquele conhecido e percorrido inúmeras vezes, a qual parecia fadado a percorrer até o final de seus dias. Para eles, um Rei sempre deveria se voltar, guardião que era das almas que viviam na Terra dos Cavaleiros, sejam elas dentro de seus corpos que respiravam ou daqueles que repousavam, serenamente, abaixo do solo.
As sentinelas observaram o Rei descer a colina em silêncio e também se lembraram dos dias antigos, cheios de melancolia e receio. Aquela figura alta, mais alta que a maioria deles, com a luz da lua em seu rosto nobre e decidido, os passos firmes, embora vestido para uma noite de sono reparador. E ainda que a tristeza teimasse em se alojar no coração daqueles fieis homens da guarda, eles sabiam que veriam Éomer mais uma vez nos Portões de Meduseld no dia seguinte, nos primeiros raios da manhã, inflexível e sólido, uma rocha segura para os novos dias. Ouviriam sua voz grave e profunda em decisões certeiras, e esqueceriam das suas noites silenciosas, esgueirando-se pelo Palácio até os túmulos da Casa de Eorl. Como numa orquestra bem afinada, eles giraram o corpo e o rosto para direção dos Portões e deixaram o Rei em paz na sua trajetória.
Contando, sem saber, com a conspiração silenciosa da sua guarda fiel, Éomer sentiu o peso se afrouxando ao redor do coração e conseguiu respirar mansamente, sentindo a força da terra sob seus pés. Ganhou os declives suaves e perdeu a pressa, o anseio pelo anonimato, a urgência na luta. O zumbido em seus ouvidos cessou, os gritos horrendos e as saudosas vozes amigas desapareceram. Sua alma ganhava centímetros de paz, junto com as jardas verdejantes que ganhavam seus pés. Os pêlos de seus braços musculosos se eriçaram com o açoite do vento frio, mas Éomer não recuou o passo ou exprimiu qualquer som.
Sua marcha tinha um quê indefinível de paz. E alcançou a plenitude da libertadora sensação ao afundar os pés nus na terra fofa, abaixar-se lentamente e tocar, com a ponta dos dedos, as pétalas brancas que pontilhavam tudo ao seu redor. E a sua textura sedosa o fez pensar na fita de Lothíriel.
Arrancou uma pequena flor e dela, não vinha nenhum perfume. Apenas um espelho branco entrecortado pela natureza em redondas pétalas perfeitas, iluminadas pelo brilho da lua acima de si.
Symbelminë.
Éomer se levantou e ficou brincando com a pétala entre dos dedos. A mente brincando com as memórias, como uma criança que empresta criatividade a um pedaço de madeira, tornando-o uma poderosa espada e assim, combatendo os inimigos.
Largou a flor com um gesto simples de rendição e conforme a symbelminë rodopiava até o chão, também giravam as memórias do Rei.
mmmmmmmmmm
Théodred espiou o ambiente de alegria ruidosa e a cantoria embriagada com aquele ar cuidadoso, levemente intrigado e juvenil, adornado com sua confiança absoluta na própria imortalidade. Nada parecia afetá-lo enquanto estudava um local de possível confronto, como se a sua habilidade inata e a beleza desmedida que eram características fatídicas no herdeiro de Théoden fossem simplesmente o necessário para empreender qualquer tarefa.
Ele, como sempre, estava a um passo da certeza, porque era Théodred, o filho mais amado de Rohan em muitas gerações e nenhum mal poderia quebrar o círculo de benções que acompanhavam seu nome.
--- Eu posso ceder-lhe garantias que seu herdeiro não irá se machucar. – ponderou Théodred, após um amplo silêncio, cercando a figura com seu olhar de lince. E tão singular atenção era dirigida a um homem trajado com sóbria túnica e um ar nobre, no outro lado do aposento, conversando no balcão. Ergueu a caneca cheia, mas não bebeu. Tornou a repousá-la, enfastiando o primo com seu discurso. – A vontade de um jovem corajoso não pode ser reprimida pelo cuidado paterno... Devo fazer algo, Éomer.
Éomer não respondeu e francamente, ele não esperava que Théodred desse falta da resposta. Aquela expressão franca nos traços decididos do rosto do primo era apenas um sinal inequívoco de um monólogo estratégico. Era uma questão de tempo para que o próprio Théodred encontrasse a resposta que desejava, agradeceria Éomer pela brilhante idéia e colocaria alguma idéia magnificamente arriscada; corajosa, honesta ou, soberbamente tola em ação.
Bastaria a Éomer, apenas, correr em seu auxílio. E poderia fazer aquilo, tranqüilamente, em silêncio e beber em paz enquanto isso. Não era primo um título polido que significava em fato a tarefa de um irmão?
Éomer apreciou o gosto forte da cerveja escura, depositou de novo na mesa e passeou o olhar, um pouco desfocados de cansaço pelo ambiente. Eles acabavam de chegar de uma campanha longa e ele estava querendo um banho quente, como só tinha em Meduseld, esticar-se na cama e roncar até o dia seguinte. Porém, aquilo era um plano enfadonho para Théodred, que parecia transbordar de energia e ser um doador vivo de Anor sobre a Terra dos Cavaleiros.
Éomer gostaria que Anor se escondesse um pouco, ao menos, quando a noite chegasse. E assim, ele também teria algum sossego.
Porém, Théodred havia prometido para Rúnk, um rapaz franzino que trabalhava na estalagem que o aceitaria no treinamento da cavalaria quando retornasse de Helm. Nada era mais sagrado para Théodred do que a palavra. Éomer soube no ato que era confusão tão logo o primo lhe contara. O pai de Rúnk era um fazendeiro próspero, amigo do Rei Théoden desde a infância e sofrera muito com a morte da esposa ao dar a luz a gêmeos. Um dos bebês morrera nos primeiros dias e o outro era muito doente. Tudo que Éomer sabia era que o rapaz crescera cheio de cuidados, sofrendo com a passagem das estações e precisando dos cuidados freqüentes dos curadores.
Como que adivinhando os rumos do pensamento do primo, Théodred arregalou os olhos azuis sombreados com uma luz difusa exigindo a atenção total de Éomer.
--- Rúnk tem direito a viver sua escolha. E vou ajudá-lo no que puder, pense comigo, meu primo, uma existência fadada a escuridão e tarefas "moderadas" pode matar qualquer espírito e Rúnk quer ser um cavaleiro. – Théodred aspirou o ar pelas narinas afiladas e cerrou o punho, decidido. – Eu não sou nenhum inválido e estou aqui para provar que as adversidades são limas do destino. E prometi que cuidaria dele, Éomer.
Éomer girou as órbitas e encarou Théodred, pronto para colocar algum juízo na cabeça do herdeiro de Théoden. O fato de ter perdido a mãe colocava Théodred em pronta defesa a qualquer órfão materno num raio de cinqüenta quilômetros em qualquer direção. Era seu terrível ponto franco.
--- Você não nasceu doente, não sofre com as estações e não é alérgico a pólen, pó, grama e vento... – replicou, entre dentes, querendo não chamar a atenção do burburinho ao seu redor. – Entenda o sofrimento que irá causar no pai de Rúnk e não só a alegria de um menino.
Théodred silenciou por alguns instantes, ponderando a questão e enfim, sorriu com o canto dos lábios.
--- Meu pai diria isso. – ingeriu um gole da bebida e capitulou, em tom de mofa. – Acaso, ele não está escondido na sua túnica, soprando conselhos?
--- Se estivesse, estaria embriagado com seu hálito... – cortou Éomer, o mal-humor mastigando-lhe as palavras antes que a boca as contivesse. – Théodred, você não precisa aceitar todos os jovens de Rohan para a cavalaria...
--- Não. – Théodred maneou a cabeça loura, em um gesto solene. Ergueu a caneca. – Só os que têm vontade. Um coração leal é um coração virtuoso, disso que é feito um éored.
--- Engraçado... – Éomer pausou e ingeriu outro gole. Sua voz recuou no timbre rouco do cansaço. – As palavras de Théoden vêm rapidamente a sua boca, quando é para adornar seus objetivos.
Théodred pareceu estudar o perfil do primo pela primeira vez naquela noite. Considerou, mais uma vez, os detalhes do assunto, esqueceu a caneca sobre a mesa e se levantou devagar.
--- Vamos. Deixemos essa conversa para outra hora. – anunciou e se afastou, depressa junto ao balcão.
--- Fases de lua... – replicou Éomer, levantando-se também. Apanhou duas maças do adorno da mesa e enfiou na túnica.
Ouviu o riso de Théodred conversando com Siafi, adulou a esposa do taberneiro e ganhou dois beijos ruidosos nas faces. Seu olhar percorrendo o balcão e lamentando ter que se afastar do seu projeto ambicioso, o pai de Rúnk.
Os dois saíram do local para a noite fria. Éomer refletiu na mudança súbita do primo e se aproximou de Firefoot com a maça na palma da mão. O cavalo relinchou e focinhou as vestes do cavaleiro, sentindo o cheiro da prenda merecida.
--- Por que mudou de idéia, Théodred?. – perguntou Éomer, afinal, recuando um pouco para que Firefoot não lhe roubasse o tecido da túnica. Corrigiu o animal com palavras brandas, antes de apanhar a segunda maça.
Théodred alisou o pêlo do seu garanhão branco e castanho, bagunçou a crina espessa e só então, encarou Éomer.
Seu rosto era uma mascara súbita de compreensão. Os olhos azuis pálidos cintilaram com a luz serena da maturidade. Nesses instantes, Théodred surpreendia Éomer com sua acurada capacidade de reconhecer os próprios atos, corrigi-los e superar-se a cada etapa.
--- Você está cansado, eu fui cruel e egoísta. – resumiu, sem qualquer entonação na voz límpida que não fosse honestidade. – Aproveitarei a noite para refletir nas suas palavras e pensar em uma saída correta para a minha promessa, de forma que pai e filho não se ressintam do próprio cuidado e vontade. – tocou no ombro de Éomer oferecendo-lhe um brando sorriso. – Obrigado, meu amigo. Como sempre, eu usufruo a tua sabedoria.
--- Nada fiz. – devolveu Éomer, um pouco envergonhado com a crise de mau humor. A atitude do primo era nobre, ele só não sabia como Théodred manejaria a situação. – Estou cansado como um boi de lavoura.
--- E cheirando como um. – completou Théodred, assumindo um ar enojado, tão falso como sua expressão favorita de esnobe de corte. Com um movimento ágil, alçou o estribo e alcançou a rédea, subindo na montaria. – Vamos, voltemos ao Palácio. Seu cheiro ofende meu nariz nobre.
Éomer reprimiu a gargalhada e imitou o primo. Théodred era mais velho do que ele, já um Marechal responsável e capaz, que orgulhava seu pai e seu povo, mas conseguia se comportar como um rapazote quando queria.
--- Ofenderei mais que o seu nariz nobre se continuar me insultando.
--- Como o quê, meu vassalo? – continuou Théodred incitando Ealfelo ao trote. Alçou a sobrancelha para cima, seguindo a imitação grotesca. – Sua voz ofende meu ouvido nobre com sua insubordinação...
Firefoot relinchou e apressou o trote como se já conhecesse os sinais da escaramuça juvenil entre os dois, pronto para seu papel na trama.
--- Pois ofenderei seu traseiro nobre se continuar com essa reclamação de velha e não chegar a Meduseld para o jantar!
--- Vou a falência com seu apetite de selvagem, vassalo, mas farei o que deseja. – Théodred comprimiu os lábios para não rir alto e tocou a barriga de Ealfelo com os calcanhares. – A fim de salvar meu traseiro nobre da sua ira! AH! – gritou, rindo abertamente e agarrou as rédeas, inclinando-se rápido.
Ealfelo respondeu a cavaleiro e Firefoot guinou para frente num salto, com o grito de Éomer, os dois dispararam em um galope selvagem pela pradaria, deixando um rastro de poeira para trás.
fffffffffffffff
Durante algum ponto das memórias, Éomer encontrou equilíbrio para sentar-se junto ao túmulo do primo. A fadiga e a fome vieram lembrar suas existências freqüentes ao cavaleiro, mas Éomer voltou a expulsá-las para longe, finalmente, gozando da tranqüilidade que havia ido buscar.
Tornou a encher os olhos com as estrelas brancas sobre a colina em relevo refletindo se existia uma explicação certa para aqueles que partiam, mesmo quando os que eram deixados para trás necessitavam tanto da sua presença.
Não era o fato de governar Rohan ou assumir as imensas responsabilidades que vinham se alojando em seus ombros. Era simplesmente a torturante saudade, aquela garra fria que arrancava seu coração a cada instante do dia e vinha assaltar sua mente a noite. O nunca mais ecoando e se desdobrando como uma maldição.
Nunca mais ouvir uma voz amiga, nunca mais ouvir um conselho, nunca mais percorrer a Terra dos Cavaleiros ouvindo gracejos estúpidos que aqueciam o dia e afastavam o cansaço. Nunca mais ver Théoden em seu trono ou ralhando com Halldóra sobre o excesso de especiarias na bebida ao invés de encontrar o sabor na carne. Nunca mais encontrar Háma nos Portões de Helm e ouvir seu discurso sobre como estava velho demais e ainda assim, empunhava a espada rapidamente ao ser provocado. Nunca mais para inúmeros amigos, irmãos e companheiros. Nunca, nunca mais.
Éomer aspirou o ar frio julgando-o puro, cheio de oxigênio e perfumado com o aroma da noite, a relva escondia-se em uma queda livre para o sul, ondulando mansamente e as sombras da madrugada permeavam entre as ramagens, ocultando as diferenças entre grama, ramos e folhas e tornando a paisagem um só horizonte verdejante cheio de brumas secretas, um grande oceano.
E pareceu que entre as colinas calmas da capital, três sombras pequenas surgiram correndo, uma delas protestando por ser deixada para trás. Outra figura alta pontilhou a imaginação da saudade e buscou a memória para se tornar visível. O alto senhor de cabelos loiros que o tempo começava a salpicar de branco sorriu de leve, tentando ocultar a brandura da sua alma com uma expressão fechada.
"Eu posso alcançá-los" protestou a voz da infanta oriunda do passado "Só tenho que tirar essa saia estúpida e inútil, usar calças como vocês e botas! Não é titio?"
"Tenho certeza que os deixaria para trás, Éowyn, mas uma dama não veste calças ou humilha os seus súditos mostrando sua supremacia" O rosto de Théoden ganhou ar de riso ao ver o rostinho infantil de Éowyn retorcer-se em dúvida com a dura tarefa de dar significado a uma palavra nova e tão difícil.
"Não entendo, meu senhor"
"Ser o melhor, o mais distinto e hábil. O mais capaz e notório, você sabe o que é notório, não, minha querida?" Théoden aguardou a veemente concordância da menina de cachos loiros antes de prosseguir "Não significa que deverá humilhar aqueles que parecem estar abaixo, melhor erguê-los, para que façam companhia a você na grandeza. Além do que", Théoden piscou e baixou a voz, mas os dois rapazes estavam próximos e ouviram as palavras do Rei "as mulheres sempre são melhores, só fingem que não são, para não humilhar o nosso ego. Não se preocupe, nós sabemos disso, mas tenha a piedade de não nos mostrar".
A garota refletiu, compreendendo apenas parte da preciosa lição. Mas ainda era menina e estava seriamente zangada por ser deixada para trás.
"Ainda preferia usar calças, meu senhor"
Théoden riu baixinho, algo lento, como era o riso dos homens na maturidade que degustavam sem pressa os prazeres da vida.
"Será minha escuderia, Éowyn. Aí, usará calças. Combinado?"
"V-E-R-D-A-D-E? Sim, sim!"
"Mulheres não usam calças, sua tonta"
"Não sou tonta, as mulheres de Rohan sempre aprenderam a lutar e defender seu país. Nosso Rei irá renovar essas tradições, não é?"
"Théodred, não chame minha irmã de tonta"
"Está bem, Éomer, seu tonto"
"Não chame meu irmão de tonto, pois eu não preciso de calças. É melhor correr, porque eu vou bater na sua cara de supremo idiota de Rohan".
"Tudo bem, o tonto sou eu, mas você ainda terá que me alcançar com essas saias!"
Os instintos apurados de Éomer despertaram dos risos infantis para uma presença viva que se aproximava e interromperam o fluxo de memórias que havia distraído a sua guarda. Ele se levantou num salto ágil e agarrou a sombra que tentou correr pelo pulso.
--- Éomer, você está me machucando! – protestou a voz retorcendo o braço para se soltar.
Éomer franziu o cenho, totalmente desperto e alerta. Soltou o aperto de ferro, mas puxou o capuz daquele invasor de território para trás. Sua incredulidade ressoou com um grunhido rouco de protesto.
--- Você não tem juízo?! – seus olhos se apertaram para a figura envolvida em roupas masculinas e um manto marrom. - Um dos homens da guarda poderia transpassá-la com uma flecha! O que está fazendo aqui? – irradiando autoridade, Éomer tornou a apanhar o braço da jovem com firmeza e empurrou seu perfil para a lateral, espiando os arredores. Certo de que a presença dela estaria devidamente encoberta pelo seu corpo, baixou o tom de voz, zangado. – Não é nada sábio, menina, agir desta forma, quando irá ganhar um pouco de juízo nessa cabecinha desmiolada?
O alvo de tantas palavras rudes reprimiu uma resposta rápida e pouco bem vinda, sustentando o olhar temível do Rei. Forçou-se a baixar o rosto, engolindo o desabafo e o protesto. Ao invés disso, ela ergueu o rosto para Éomer.
--- Faço o mesmo que meu Rei. – falou, num sopro de voz. – Venho prestar minhas homenagens àqueles que amo e partiram.
Éomer conteve o suspiro sentindo que a raiva se esvaia para a preocupação.
--- Eöný, você sabe que não é prudente esgueirar-se desta forma, na madrugada... – consternado, Éomer indicou para que a jovem ocultasse a massa de cabelos que reluzia sob a lua. Ela obedeceu puxando o capuz mais uma vez. – O que diriam os homens? Pior, o que diria seu pai? – nesse ponto, Éomer estremeceu e fechou a expressão. Afastou-se de Eöný e deu por encerrada o precioso tempo de reflexão. Ele não queria nem pensar na hipótese de Seafúss ficasse sabendo daquilo, ele próprio não precisava de um problema daquele tamanho, ainda mais, nas vésperas do seu casamento – Venha, vamos voltar, ainda assim, temo que serei indagado a esse respeito... Ah, Eöný, quer me arruinar?
Eöný conteve a língua afiada ao ver o ar preocupado e a tensão nos músculos de Éomer ao retornar um passo acelerado na direção do palácio. Eles teriam que passar na linha de visão do alojamento da cavalaria e contornar os estábulos reais, por isso, Eöný compreendeu quando Éomer apanhou mais uma vez o seu pulso e praticamente arrastou-a pelas colinas, sem dar tempo de nada dizer.
As sobrancelhas douradas da moça se uniram sobre o nariz ao notar que Éomer estava descalço. Estudou melhor a figura do Rei e levou o punho aos lábios cheios para não rir alto.
--- Não é hora para enfezar-me, mulher... – rosnou Éomer, tentando manter Eöný a sua direita, fora do campo de visão da guarda. Seu coração agora palpitava dentro do peito, acusando-se inegavelmente daquela cena. Ao menos, se ele tivesse tido tempo para conversar com a filha de Seafúss antes!
--- Por que anda descalço, escondido...e bem... – Eöný apressou os passos com relativa facilidade graças aos trajes de montaria e fitou o ar sisudo de Éomer. – Um tanto quanto descabelado, eu diria? Meu senhor, acaso estava se esgueirando também?
--- Não, Eöný, antes de você chegar eu pretendia convocar o arauto para avisar a cidade inteira que estava acordado de madrugada. – retrucou Éomer, sem conter a ironia.
--- Tudo bem, meu senhor, não precisa ser rude. – replicou a moça, perfeitamente a vontade.
--- Pare de me chamar de "meu senhor". – Éomer subiu a colina em grandes passadas e puxou Eöný no embalo. Embora estivesse calmo, Éomer controlava sua própria ira a fim de não cometer o crime de matá-la com as próprias mãos.
Aquilo o fez lembrar-se de Éowyn, das suas cartas enviadas para Lothíriel e o estômago de Éomer tornou a se afundar com o desgosto. Pelos Valar, as mulheres daquela Terra levavam um homem a loucura!
Finalmente, os dois alcançaram o pátio externo de Meduseld e até o ouro puro parecia sonolento na quietude da madrugada. Éomer optou pela entrada que os levaria a cozinha e empurrou Eöny para dentro da dispensa.
--- Esta escuro aqui. – resmungou a moça, tateando a parede até encontrar o suporte arqueado do archote. Com habilidade de quem tem familiaridade com a tarefa, Eöný levou pouco tempo para trazer uma chama fraca, mas constante e lançou o objeto entre eles, pairando suavemente como uma testemunha. – Você realmente acha que aqui é um lugar melhor do que a pradaria? Hum...
Os olhos de Éomer escureceram rapidamente lançando fagulhas de indignação.
--- Ouça-me bem, senhorita Eöný, é a última vez, eu repito, a última vez que teremos essa conversa. – o tom baixo de Éomer vibrava de austeridade e sua presença comprimiu o espaço entre eles até ecoar em palavras de ordem nos ouvidos da moça. – Seu pai me procurou para resolver sua situação de uma vez por todas, eu estou ciente das suas escolhas, mas um acidente... como este pode colocar tudo a perder e nem eu, nem o próprio Elessar poderá salvá-la de um casamento com o mais velho, feio e sujo mercador da Terra Parda se o seu pai nos encontrasse em atitude suspeita, entendeu? – Éomer ergueu a mão e impediu que Eöný protestasse. Uma veia pulsava na têmpora do rohirrim e sua expressão se condensava a cada instante em um aviso claro de fúria. – Retorne aos seus aposentos e espere uma hora decente para falar comigo, a não ser que tenha mudado de idéia sobre o casamento e esteja pensando em unir-se em matrimônio comigo, lançando-me junto com você na lama e criando uma inimizade sem precedentes entre Rohan e Dol Amroth... – o discurso de Éomer terminou em um quase sussurro, mas agora, as duas veias saltavam visivelmente e seus olhos eram duas poças frias de inverno. – Fui claro?
Éomer aguardou a resposta de Eöný rezando intimamente que não fosse tarde demais e que todo o palácio não acabasse despertando naquele instante. Por Erü se aquela beldade não era a coisinha mais irritante de toda Arda e contudo, Éomer sabia que faria de tudo para mantê-la longe de confusões. Não que Eöný ajudasse. Pobre Seafúss tivera desgostos desde o instante que ela nascera e ao que parecia, continuaria tendo até morrer.
Eöný apertou os lábios cheios até comprimi-los em uma linha fina, o sinal de nascença sobre o lábio superior desaparecendo, como se a moça pretendesse engolir o protesto juntamente com o próprio rosto. Sua face de nenúfares tornou-se quase pétrea devido a palidez e os imensos olhos esmeraldas cintilaram com as lágrimas que surgiram ali.
Éomer sabia que ela ficaria duas vezes mais irritada consigo mesmo por demonstrar aquela fraqueza diante dele, muito mais do que Éomer ficaria, se as gotas peroladas caíssem em seu rosto.
Sinal que suas lágrimas incontroláveis eram movidas pelo seu coração partido.
--- É claro, meu senhor... – Eöný curvou a cabeça numa saudação polida e no movimento, os fios perolados escorreram pelo seu rosto. Num fio de voz, tornou, enquanto recolocava o archote no suporte. – Sinto muito, eu deveria lembrar-me de quem sou e quem é você agora, e o quanto seria desastroso se juntasse seu nome ao meu... na lama.
Pelos Valar, lá ia ela.
Do que era feita aquela Terra que não deixava uma única mulher passar incólume ao seu tempero, repleto de astúcia, voluntariosas e indomáveis, sempre prontas a arrancar o discernimento de um homem, seja ele quem fosse sob o bom sol de Rohan? Pensou Éomer, estremecendo com lembranças pouco desejadas. Era o correto, ele reforçou quantas vezes podia na mente, observando Eöný passar por ele e alcançar a porta da dispensa.
Quando Eöný passou por Éomer, ele viu sob as luzes das tochas um risco branco em seu pescoço e a antiga cicatriz trouxe o passado.
E o passado veio atormentá-lo e com ele, os laços de promessas que atavam os passos dos homens honrados.
E Pelos Valar, lá ia ele.
--- Eöný... – chamou, suavemente. Ela não se voltou e Éomer não venceu a distância entre eles, tocando-a, unicamente, com sua voz. – Sabe que faço isso pelo seu bem. E perdoe-me pelo que disse. Eu receberia sua mão com alegria, se isso a fizesse feliz, pois tenho certeza que seria uma rainha formidável, como... – Éomer hesitou por alguns instantes e isso fez com que Eöný voltasse os olhos esperançosos na sua direção. Ele respirou fundo e finalizou a frase. Ela merecia, afinal, havia suportado sua ira e as palavras desastrosas e era quem era. Finalizou, serio. – Como Théodred acreditava que você seria.
A máscara controlada que Eöný conseguira colocar no rosto se desfez e o lábio inferior estremeceu. Ela conteve a avalanche de lágrimas que parecia se formar sempre que o nome dele vinha aos seus ouvidos e desta feita, com uma graça majestosa, Eöný maneou a cabeça em uma saudação.
E a memória de Éomer começou a galopar furiosamente para longe da dispensa, do cenário ao redor e do presente.
mmmmmmmmmmm
Théodred cruzara os braços a frente do corpo, o rosto tornara-se uma máscara inflexível, impossível de adivinhar seus pensamentos. Seja como fosse, Éomer arriscava que não era nada agradável, pois ele sentia vontade de afundar a cabeça na grama ou os punhos nos estômagos dos rapazes. O aspecto de Éothain era de alguém com prisão de ventre, esverdeando e empalidecendo, sempre que os jovens rapazes escolhidos por ele colidiam com os mais velhos, na tentativa de formar o simples exercício de linha em arco.
Éomer arqueou a sobrancelha e sua cabeça pendeu ligeiramente para a direita, acompanhado de forma engraçada por Éothain a fim de registrarem o complicado movimento de Rúnk. Por pouco, Gelfolon não jogou o próprio cavalo sobre o outro rapaz, com um gesto curto que dominou na última hora a montaria. A parca linha se desfez e Théodred afundou os ombros, desanimado. Contudo, o rapaz muito magro executou um salto sobre as furnas realmente brilhante e com um grito atrevido, os outros jovens o seguiram expelindo farpas das línguas e dos olhares sanguinários. Não era novidade para Éomer que Rúnk andasse apanhando, mas nunca dizia quem o agredia e sua atitude desafiadora não ajudava.
Aquilo era péssimo e até Théodred começava a dar sinais de cansaço, pois o rapaz não discutia com o herdeiro de Théoden, mas também não lhe dava ouvidos. Simplesmente não entendia que um éored era uma união, um movimento único e fluído, sem espaço para brigas como aquelas.
Théodred começava a se preocupar quando o rapaz retornasse para casa. Ele teria muito que responder ao pai dele se continuasse se estropiado a cada temporada de treinamento.
--- Conversou com ele? – rosnou Éomer, um passo ao lado, colando o ombro ao do primo. Esperou o gesto de Théodred e opinou, sério. – Não adiantou.
--- Ele tem chances. – devolveu Théodred comprimindo o maxilar com tanta força que Éomer ouviu o ranger de seus dentes. Os cavalariças ocultaram os olhos no campo atrás dos Marechais antes mesmo que Théodred identificasse a cena. – Menino idiota.
--- Ele vai cair... – sibilou Éomer, dando um passo a frente. Ergueu o braço e gritou – Parem!
Em seu éored, um gesto curto ou som da sua voz seria suficiente. Porém, os jovens estavam aprendendo a manejar a força dos cavalos e treinando mudanças de linhas, demonstrando pouca aptidão para executar isso e manter a atenção no Marechal. Em poucos segundos, Théodred ouviu os relinchos de protesto dos animais, que tentaram, graças a própria experiência, evitar o desastre, mas a briga iniciada foi mais feroz.
Mais uma vez, o franzino Rúnk não se conteve e insultou Gelfolon, os dois se atracaram e com o soco do rapaz mais velho e musculoso, o corpo de Rúnk alçou uma distância considerável.
O estômago de Éomer despencou após revirar-se dentro do abdômen. Pode ouvir o barulho de algo se quebrando a distância.
Théodred emitiu algo semelhante a um rugido seguido de um assovio sibilante, Ealfelo respondeu de imediato e o príncipe agarrou a rédea, pulando ágil para o lombo do animal.
Em um rápido galope, Théodred chegou a cena, desmontou com um estrépito furioso que funcionou como um golpe nos rapazes. Parecia expelir chamas como um dragão a qualquer instante, já que nunca vira nada tão comprometedor na sua vida em matéria de honra dentro de Rohan.
É claro, Gríma ainda não se mostrar um conselheiro infiel.
--- Dispersem– falou, curvando-se sobre o corpo de Rúnk, desdobrado em uma posição estranha no chão. – Gelfolon, espere.
Éomer desmontou de Firefoot e o cavalo escoiceou a grama como se tivesse particularmente zangado com toda aquela confusão. Éomer deu um tapa carinhoso no pescoço do animal e ergueu a voz para os rapazes.
--- Levem os animais para o estábulo da Cavalaria. Chame Hlíf. – reduziu o tom de voz ao ver que Théodred empalidecia ao examinar Rúnk e tornara a trincar o maxilar, controlando sua fúria. – Acho que não poderemos removê-lo.
Gelfolon continuou parado, olhando a cena com pouco interesse e Éomer achou que ele parecia satisfeito, embora, tivesse o cuidado de não sorrir. Se havia alguma preocupação no aprendiz, era com a ira de Théodred.
Rúnk não se mexia, pálido como um cadáver, com inúmeros cortes no rosto. Théodred parecia tão enjoado como se fosse vomitar. Éomer sabia que não era o estado do rapaz que o nauseava, Théodred conhecia a morte, já vira membros arrancados e ferimentos cruéis que infeccionavam com a mão de Morgoth sobre as criaturas.
O que o enojava era algo mais profundo. Era a culpa.
--- Por quê? – perguntou o Marechal, baixinho, os olhos de um azul pálido cintilando na manhã, suportando o calor do sol sobre a íris clara sem pestanejar.
Éomer voltou a fitar Gelfolon e mais uma vez, teve a certeza que ele não se arrependia.
--- Ele traiu sua confiança. – sibilou o rapaz, manchas vermelhas de raiva coloriram sua face.
--- Ele traiu? – repetiu Théodred.
Gelfolon praticamente cuspiu as palavras, lançando-as sobre o rapaz ferido e sobre Théodred como se fossem lanças.
--- Rúnk é uma mulher... – os olhos de Gelfolon esgazearam de fúria e vitória. – Ela o enganou!
As sobrancelhas de Éomer e Théodred arquearam-se para cima em um movimento idêntico. Os dois dividiram um instante de silêncio fitando-se e então, seus olhares descrentes recaíram sobre o corpo imóvel de Rúnk.
--- Descobri essa manhã e a confrontei. – o peito de Gelfolon subia e descia rápido, como se finalmente, não pudesse mais se conter. – Ela disse que queria ser tratada como um de nós... – o rapaz deu de ombros, com um jeito tão debochado que Éomer apertou os punhos. – Eu tratei.
Éomer continuou fitando o corpo desfalecido em um desenho geométrico no chão pensando se Gelfolon enlouquecera de vez, o que não seria estranho, já que Éomer não quisera o mesmo no treinamento, pelos seus hábitos pouco saudáveis fora da cavalaria. Théodred quem lhe concedera uma chance.
Porque Gelfolon era órfão.
Éomer suspirou e viu Hlíf correndo acompanhado de dois ajudantes. Provavelmente, os outros rapazes falaram sobre a queda.
Théodred se ergueu quando Hlíf se debruçou sobre o rapaz machucado e com um único olhar, Éomer entendeu que Théodred não acreditara em uma única palavra de Gelfolon, mas considerava, finalmente, as palavras que ele havia proferido quando se colocou contra a oportunidade para o mesmo.
--- É uma boa perspectiva. – falou Théodred, lentamente. – Ser tratado como desejamos, como iguais, não é, Gelfolon?
Os olhos do rapaz giraram rápidos na órbita. Era óbvio que não entendia onde Théodred queria chegar.
A própria raiva de Éomer se condensou e zuniu dispersa quando entendeu. Aqueles rapazes estavam acostumados com o Théodred afável, gentil e risonho. Não conheciam o Marechal.
--- Théodred... – e o gesto do primo o calou, Éomer sabia que ele chegara aquele ponto em que não ouviria uma única palavra de sua boca.
--- Você acha que Rúnk mentiu para mim? – questionou Théodred, muito sério. O rapaz assentiu e ele proferiu – Acha que é uma mulher e desonrou o voto dos aprendizados dos cavaleiros ao macular a própria palavra de honra?
Gelfolon hesitou, mas então, aquiesceu. Éomer ficou em silêncio. Théodred era o responsável pela cavalaria e seu futuro Rei. Aquela responsabilidade estalava na mente de Théodred desde a infância e Éomer jamais almejaria o peso que se condensava sobre seus ombros naquele instante.
Os dentes de Théodred rilharam enquanto ele falava, mal movendo os lábios.
--- Você também mentiu. Ambos serão punidos.
--- O quê? – o rapaz gritou, confuso e amedrontado. – Ela mentiu! Não eu! Não eu!
Théodred caminhou para frente, contornando cuidadosamente Rúnk que era atendido por Hlíf.
--- Você não mentiu ao proferir seu juramento, quando é certo que um homem de honra não ataca um ser indefeso, que deve ser protegido, ou quando deve colocar a vida daquele que luta ao seu lado, antes da sua? – praticamente disparando as palavras, Théodred foi se aproximando até postar-se frente a Gelfolon. Tão perto até que o outro abaixasse a cabeça, amedrontado. – Não era Rúnk seu companheiro de luta, o seu escudo de defesa, sua arma no ataque, que você atacou no momento que deveria ajudar a organizar a linha, acalmar os cavalos, retomar a estratégia proposta de batalha? – a voz de Théodred continuava reduzindo-se e soando cada vez mais metálica e assombrosamente calma. – Eu vi, Gelfolon, eu vi que o provocava durante todo o treinamento... E agora, você me diz que Rúnk é uma mulher e por isso agiu assim? – Théodred se afastou um passo e o rapaz pôde respirar, apenas para se deparar com um par de olhos azuis cheios de decepção, nojo e fúria gelada. – Então, Que os deuses não permitam nenhuma mulher de Rohan sobre sua proteção.
--- Senhor... – suplicou, finalmente, entendendo o príncipe.
Théodred desviou o olhar e voltou-se para Hlíf, que fez um sinal negativo, com um ar piedoso em seu semblante.
--- Não sob a minha hoste, não na minha casa... – proferiu Théodred, sobre o ombro. – Não na minha Terra.
Éomer fechou os olhos, quase sentindo pena de Gelfolon, mas sabendo que faria exatamente o mesmo que Théodred, se estivesse em seu lugar. Com um sinal de Théodred, Éothain e Drengi ladearam o rapaz lívido, que seria conduzido para a prisão de Édoras.
--- Rúnk... o que fez comigo? – sussurrou Théodred penalizado ao ver Hlíf enfaixando cuidadosamente os membros do rapaz, enquanto seus ajudantes preparavam a padiola para levá-lo a Casa de Cura. – Que direi ao seu pai... – voltou-se para Éomer, que parava ao seu lado, com um ar tenso no rosto. – É minha culpa. – murmurou e somente o primo o ouviu.
Éomer silenciou, incapaz de aumentar o fardo da culpa sobre os ombros de Théodred. Contudo, observou o cuidado de Hlíf com uma galopante desconfiança nascendo em seu peito.
--- Hlíf... Por que está trançando as ataduras desta forma? – questionou em tom grave e de imediato, o curador parou o que fazia, sem levantar o olhar.
Théodred pestanejou e fitou Éomer, Hlíf e o rapaz praticamente enfaixado até a cabeça. Notou os arcos atados em caprichosos nos das ataduras do pescoço até a cintura, mas não conhecia nada sobre curativos e ungüentos, e não entendeu a expressão do primo.
--- Responda Hlíf. – ordenou Théodred, sem entender.
Hlíf fez um sinal para os ajudantes. Eles se ergueram e sem questionar seu mestre, se afastaram até estarem distantes o suficiente. O curador voltou a sinalizar, as rugas de preocupação vincando sua fronte já idosa de novas teias invisíveis.
--- Sinto muito, meu senhor. – Hlíf ergueu o olhar e largou a atadura. O rolo de tecido se soltou em dobras brancas sobre a relva. O rosto do homem era decidido, mas seu olhar era um mar de compreensão. – Poderá me punir como quiser, até banir-me, mas primeiro, irei cuidar da menina...
--- Menina?!
Hlíf aquiesceu e retornou a apanhar o rolo caído, apenas para ter algo para ocupar as mãos. Só então, recaiu o olhar sobre Éomer.
--- Vejo que sua irmã o ensinou como se faz os laços de vida em alguém a beira da morte. – os olhos de Hlíf ficaram opacos pelo sofrimento e ele maneou a cabeça, como quem pede desculpas, ao fitar o rosto pálido que parecia desaparecer entre cortes e ataduras.
Théodred procurou a compreensão daquele fato no rosto de Éomer. Ele hesitou, completamente aturdido. Aquilo não era possível. Ele próprio conversar inúmeras vezes com Rúnk, ensinara como dominar as rédeas dos cavalos negros de Herubrand, aconselhara o rapaz a ter mais paciência e não se deixar levar pelas provocações.
"Como você, mestre Éomer?" respondera Rúnk, com ironia e Éomer o mandara lavar os estábulos pela sua falta de respeito. E nunca os estábulos da Cavalaria e os aposentos da Guarda ficaram tão limpos, embora Rúnk continuasse com sua língua afiada e suas contínuas visitas a Casa de Cura.
Éomer sentiu vontade de bater a cabeça no chão.
--- Éomer? – insistiu Théodred, e o rosto do belo Marechal empalideceu um pouco ao ver a confirmação na face transtornada do primo.
Foi Hlíf quem respondeu.
--- São laçadas especiais... – iniciou terminando seu trabalho com delicadeza. - ... para segurar o espírito dentro do corpo alquebrado. – com evidente pesar e duas lágrimas, milagrosamente, equilibradas nos cílios, Hlíf proferiu. – São feitos em jovens mães e esposas... nunca aprendi os feitos as donzelas, porque antes... – engoliu em seco. – nunca precisamos.
Théodred arregalou os olhos muito azuis de espanto e pela primeira vez, Éomer pensou ter visto um traço de pânico no primo.
--- Pelos deuses... Seafúss...
--- Está é sua filha, a senhorita Eöný. – desvendou Hlíf e fez um sinal para os ajudantes se aproximarem. Sua voz não passava de um sussurro – Seafúss não sabia que Eöný andava por aí como um rapaz, para aproveitar a vida, já que sempre foi muito doente quando criança, pobrezinha... e nunca pôde sair de casa. – Hlíf abaixou a cabeça, como se fosse culpado e Éomer apostou que Hlíf havia ajudado muito as tramóias da donzela. De fato, Éomer sabia que Rúnk vivia nas Casas de Cura. - E depois, quis viver a vida do irmão gêmeo que morreu bebê. Quando o senhor Seafúss descobriu, era tarde e toda a vila achou que tivera dois meninos. Garanto que ele se julgará tão culpado quanto o senhor por não poder contê-la. Agora, se os Deuses tiverem misericórdia dela, aposto que o pai não terá. – as lágrimas finalmente caíram e ele soprou sobre o corpo imóvel. – Uma queda dessas...
"Éomer?"
ffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffff
--- Éomer? – insistiu Eöný puxando a manga da túnica de dormir de Éomer. – Onde está com a mente, senhor?
Éomer empurrou o passado enquanto os traços de Eöný retornavam ao foco luminoso das tochas. Seu rosto belo e cheio de dúvidas desdenhando das lembranças de Éomer e ele sentiu algum conforto ao pensar que não haviam sido tão tolos.
Eöný possuía algumas cicatrizes, ocultas pela massa de cabelos dourados e em partes que Éomer achava indecente sequer pensar, mas sendo um homem da guerra, sabia que existiria sob as roupas da jovem. Contudo, seu rosto jamais contaria a vida que estava oculta atrás de seus olhos.
"Eu jamais pensaria... Quer dizer... Olha para ela, Éomer!" a voz assombrada de Théodred rodopiou na mente do Rei. "Rúnk... um rapaz tão frágil e destemido, mas eu .. nunca imaginaria... nunca!... oh, pelos Deuses. Estou enfeitiçado"
"Nem pense nisso, Théodred. Nem pense nisso"
A voz de Eöný arrancou o Rei mais uma vez das memórias.
--- Obrigada, Éomer. – respondeu com simplicidade. E com um sorriso tímido, estranho a suas atitudes explosivas, Eöný tornou, preocupada. – Acha que poderá convencer meu pai a desistir da idéia de casamento? Sabe bem o quanto isso é absurdo e... – ela abaixou a cabeça, murmurando. – Desonrado.
Éomer arqueou as sobrancelhas e desejou, desesperadamente que Éowyn se materializasse ao seu lado para ajudá-lo naquele assunto. Não que Éowyn houvesse concordado com o rumo absurdo que tomara o destino de Théodred e Eöný, porém, era extremamente difícil para ele, um homem, tocar naquele assunto com a moça. Ao menos, com a delicadeza que era necessário.
--- Perdoe-me, Eöný, mas me falta a finura correta para não embaraçá-la com a minha resposta, portanto, você terá que aceitá-la desta forma direta, porque é a única que conheço...
Eöný aquiesceu, sem se importar. No final, sempre fora Éomer quem correra em auxílio dos dois, já que o destino sempre se interpunha e colocava o primo de Théodred na mira, antes que Éowyn pudesse interferir.
--- Fale sem receio. Confio no teu julgamento, mesmo que suas palavras possam me causar constrangimento.
Éomer quase sorriu lembrando-se de Théodred. Assim como o primo, Eöný manejava as palavras como o pai, quando o assunto era de seu interesse, apagando as frases diretas, a ousadia e os gracejos ditos anteriormente.
--- Seafúss, como qualquer pai, sabe que não viverá eternamente e deseja garantir seu futuro. – Éomer pausou, tentando escolher as palavras certas, sabendo que falharia de qualquer forma. – Independente da sua condição... eu tenho certeza que podemos encontrar um homem honrado que a abrigue e sinta-se feliz com sua presença... – Éomer torceu o nariz ao ver o rosto da moça, sempre tão alvo se ruborizar violentamente. Suspirou – Você é uma mulher fantástica, embora um pouquinho voluntariosa, teimosa e com idéias estúpidas. E tenho certeza que metade do reino ficaria feliz em tê-la como esposa. Eu posso assegurar isso.
Eöný reprimiu a raiva.
--- Eu não sou um cavalo para ser negociado. Não vou me casar e pronto. – ela estremeceu de fúria, alteando a voz para um tom um pouco mais elevado. – Jogo-me no Anduin antes de trair minha promessa e...
--- Théodred está morto. – cortou Éomer com uma secura tão eficiente que ele próprio se chocou. – Os mortos não cobram as promessas e você precisa pensar no futuro. Nenhum de nós é eterno.
Eöný digeriu as palavras antes de devolver, de maneira tão ríspida quanto Éomer.
--- Os mortos não cobram promessas, você diz... Talvez por isso ande descalço e escondido no próprio palácio para ter com eles e assegure um futuro para essa criatura voluntariosa, teimosa e estúpida! – Eöný rilhou os dentes e deu um passo a frente. – Não podemos enganar o passado, Éomer, muito menos o nosso coração. Nem eu, nem você, nem ninguém.
--- Vou me casar. – retorquiu Éomer, sisudo. – E o que faço de madrugada, é da minha conta.
--- Vai casar com uma moça estrangeira que sequer conhece. – replicou Eöný, antecipando-se ao olhar furioso de Éomer. – Não julgue minhas palavras, eu não a conheço e não falo com maldade, mas e quanto a você? Está mesmo pensando no futuro ou está rolando colina abaixo, só porque esperam que você o faça? – Eöný sentiu que finalmente, conseguira chegar onde queria e tocou no braço de Éomer. – Por que está aqui e não na caravana? Eu ouvi o que diziam os conselheiros e meu pai acha que sua noiva está em perigo. O Éomer que eu conheci já estaria a galope nesta hora, com Gúthwinë pronta para decepar algumas cabeças...
--- Você faz com que isso pareça bastante heróico, mas seria tolice... – ponderou Éomer. – Lady Lothíriel tem uma escolta formidável, eu creio, os melhores homens do Oeste e elfos poderosos para trazê-la para Rohan. Seria bastante estúpido agir desta forma e
--- E o que pensaria o conselho, o povo, os membros da escolta se você fizesse isso, não? – cortou Eöný impiedosamente e sacudiu a cabeça em negativa. Seus olhos claros se apertaram em aviso. – Cuidado com esse caminho, Éomer... Não existe felicidade nele e nem sempre o que chega aos seus ouvidos é o melhor para você, ou para Rohan.
Éomer fitou-a desconfiado.
--- O que quer dizer com isso?
Eöný desconversou e largou o braço do soberano.
--- Não me dê ouvidos, eu perdi muito tempo ouvindo rumores e tirando idéias próprias. – ela cruzou os braços a frente do corpo e jogou a cabeça para o lado. – Acho realmente que você deveria ir apanhar a sua mulher de uma vez e não ficar aqui, enfiado na dispensa com uma estúpida desonrada. – um sorrisinho irônico contorceu os lábios de Eöný com o desprazer evidente no rosto de Éomer com o seu linguajar. – É apenas minha opinião.
--- Eu ouvi um monte delas hoje. – retrucou Éomer passando a mão nos cabelos. – E você não me engana, hábitos antigos são preciosos e voltaremos a conversar sobre suas palavras. Não agora. – Éomer abriu a porta da dispensa e os dois saíram para o corredor. Ele baixou o tom de voz, sussurrando. – E tente moderar a sua linguagem na frente da minha futura esposa, sim? Já basta ter um noivo rude, não precisa ouvir absurdos da dama de honra também...
Os olhos de Eöný cintilaram e ela parou abruptamente, colidindo com Éomer. Ele reprimiu um grunhido.
--- Você não faria isso! Eu? Oh, Éomer! – ela piscou confusa, olhando para a própria roupa. Toda sua ousadia, fúria e sentimentos se transformaram na alegria pura e juvenil que nasceram com as palavras de Éomer. Seria algo tremendo para ela, não só assistir ao casamento do Rei, como ocupar uma posição tão honrada, que deixava clara a estima de Éomer a sua família e a ela própria. Sibilou, encantada e tocando no tecido grosseiro da túnica – Éowyn sabe disso? Por Erü, o que eu vou vestir???
A felicidade infantil de Eöný era algo doloroso para se ver e Éomer diminuiu a importância daquilo com um gesto vago, preocupadíssimo com a conversa e o lugar, ambos inapropriados.
--- Sim, Éowyn sabe e minha noiva escolheu Éowyn e o senhor Faramir como padrinhos de palavra de nós dois, eu ainda precisava escolher uma dama de honra. – Éomer girou os olhos, agastado. – E seu vestido, pouco me importa...
--- Ora, é bom que eu use um, certo? – ela piscou ao ver o suspiro impaciente e os olhos de Éomer se fechando com a insolência da insinuação. – Não posso comparecer ao seu casamento assim, vestido como um rapazola, não obstante, os melhores momentos de minha vida sempre foram assim... – ela sorriu mais uma vez.
E seu sorriso congelou e morreu. E mesmo antes de se voltar, apenas pelo terror evidente no rosto de Eöný, o desespero em seus olhos de espelhos d, Éomer soube que o pior acontecera.
--- Eu sabia que a moça estava aprontando algo, mas por Erü, senhor Éomer! – a voz de Halldóra soou esganiçada. – Oh, salve meu senhor deste destino...
Éomer se voltou lentamente e deparou com o rosto pálido de Seafúss. Em seu semblante diversas emoções se sucediam sem controle, entre a surpresa, a mágoa, a fúria e o desapontamento. Apreendendo as imagens como um homem que vê as esperanças morrerem, desde os trajes de Éomer aos da filha, até as palavras que ouvira de Eöný.
--- Espero que possa me explicar isso, senhor Éomer, porque eu digo que seja Rei ou não, eu quero que a lei seja cumprida ou eu o desafio para um duelo!
--- Papai, deixe-me explicar.
--- Cale-se. – cortou Seafúss, tornando-se rubro de vergonha e raiva. – VocÊ não é mais minha filha, retire esses trajes ridículos, até onde eu me lembro, eu a proibi há muitos anos de usar as roupas de Rúnk.
Os punhos do homem se fecharam e por instantes, quando ele avançou, Éomer temeu que Seafúss fosse investir contra a própria filha. Deslocou-se no caminho entre os dois e sustentou o olhar ferido do homem.
--- Eu deveria saber, desde o princípio que era a pior idéia da minha vida deixar que você acompanhasse os filhos da Casa de Eorl. – sibilou Seafúss, tomado pela ira. – Você me prometeu que tomaria cuidado, que não revelaria seu segredo e o fez, prometeu que não alimentaria as esperanças de Théodred e o fez... – o homem empalideceu e desviou os olhos do rosto da filha para Éomer. – Prometeu que não procuraria Éomer sozinha e o fez. Não sei qual dos dois me causa maior desgosto e apesar disso, eu não posso recusá-lo como Rei ou... posso?
Halldóra cobriu a boca com a mão arregalando os olhos de surpresa e terror. E talvez, tenha sido a primeira vez que a idosa cozinheira e governanta se arrependera da língua afiada e comprida. Ela que não aprovava os modos de Eöný, mas se preocupava com o destino da moça e havia alertado o pai apenas para que evitasse que a jovem beldade de Rohan se comprometesse ainda mais.
Porém, Halldóra via seu ato enrolando ainda mais a vida de Éomer em complicações e por pouco não ajoelhou diante dele, pedindo perdão pelo seu desatino. A idade avançada, as articulações desgastadas que não ajudavam naquele mister e o próprio olhar de aviso de Éomer evitaram que Dóra caísse de joelhos na cozinha.
Éomer rilhou os dentes e mesmo na situação em que se encontrava, sua autoridade se impôs.
--- Basta, Seafúss. – cortou impassível. – Eu respeitei seu sentimento paterno, mas está cruzando os limites da minha paciência. Exijo que controle sua língua e se puder, seus pensamentos. A situação é grave, mas não como você a vê, embora as nossas figuras e o momento levem um homem a tomar conclusões precipitadas. – o timbre metálico de Éomer envolveu Seafúss e foi como um balde de água na sua ira. – Há tempos que a verdade se faz necessária para chegar nos seus ouvidos, mas não houve momento para falarmos a sós. Eu irei corrigir esse erro, porém, não na cozinha do Palácio, onde outros olhos e ouvidos possam testemunhar algo particular. Sua ira é tão grande que não possa considerar o pedido de seu Rei?
--- E o que me pede, majestade? – devolveu Seafúss, controlado, mas ainda, entorpecido pela mágoa e cheio de raiva.
--- Espere até amanhã a noite. – pediu Éomer, sem afrouxar as cordas inflexíveis que tornavam sua voz em um laço apertado de ordem. – Você ouvirá a verdadeira história e poderá decidir se é necessária uma reparação. Caso contrário, eu decidirei se preciso de uma reparação justa a ofensa que proferiu não só a mim, como a todos os antepassados deste Palácio.
Seafúss sabia que havia exagerado, mas a verdade era que seu coração de pai estava sangrando e com um único olhar, soube que o destino da filha estava perdido. Ou melhor, sempre estivera, mas ninguém fora capaz de contar a ele. Dardejou um olhar indefinível para Éomer e obrigou seu coração a se calar diante do Rei.
--- Assim seja. Todavia, mantenho a autoridade sobre Eöný e quero uma escolta para seu retorno imediato para casa. Quando eu chegar, ela saberá da minha decisão.
O estupor com a cena escapou rapidamente da alma de Eöný ao adivinhar as intenções do pai.
--- Não irei. – proferiu, séria e enfrentou o olhar temível do pai. – Eu sabia que esse dia chegaria, mas não que seria desta forma. Quero estar aqui, é o meu segredo, o meu destino que está em jogo.
--- Não a quero perto de mim. – retrucou Seafúss, suspirou e olhou para Halldóra – E nem perto das outras pessoas. Peço que se cale para não aumentar minha vergonha.
--- Pouco me importa as outras pessoas ou a sua vergonha! – explodiu Eöný e tão vigorosa era sua fúria que ela maneou a cabeça e o capuz deslizou de sua cabeça, tombando o longo cabelo em cachos dourados pelas costas. Ela avançou e teria se postado em frente ao pai, enfrentando-o, se Éomer não interferisse.
--- Paz, eu peço! Não existe um grama de prudência em vocês neste instante? – sua voz ribombou acima deles e Éomer encerrou a questão com autoridade que detinha – Eu repito que esperem, ambos, pela noite de amanhã! Tudo será resolvido e até lá, espero que medidas desesperadas não os façam se arrepender depois. Eu estou muito arrependido de ter saído do meu aposento nesta noite, mas não posso consertar o que já passou. Contudo, no caso da senhorita Eöný, muita coisa pode ser dita e reparada, Seafúss, desde que o senhor ainda tenha consideração pela minha Casa e pela minha pessoa, e possa me ceder o crédito da dúvida, em nome dos longos anos em que sua vida esteve atrelada a minha família. – o timbre de Éomer se atenuou e foi com humildade que ele tornou, baixinho. – É possível, haver paz entre antigos amigos diante de um obstáculo mascarado pelo infortúnio e que garanto, existe explicação honrada e uma reparação justa a caminho? É possível que a temperança seja a conselheira desta hora e não a raiva?
Seafúss engoliu todas as palavras que clamavam por serem ouvidas e encolheu os ombros diante da capacidade de Éomer em conduzir a situação para um futuro possível de ser vivido. A hipótese que o Rei tentava diminuir a importância daquilo devido sua posição na cidade e se adivinha que as agitações oriundas da reorganização militar de Rohan vinham justamente do seu feudo acometeram a mente de Seafúss. Ele viera de boa fé, não só para pedir pelo destino da filha, mas também para alertar ao Rei sobre o que acontecia na nova parte da cidade e sobre os homens que instilavam palavras cruéis sobre o Rei, sem jamais esperar por aquela cena que era de virar qualquer cabeça de qualquer pai. E até mesmo aquele pensamento desonrado, em que Éomer agia por interesse cobriu Seafúss de confusão e vergonha. E por instantes, o bom homem se calou, esmagado pelo peso daquele sentimento, não só pela maneira da filha, mas pelas rudes palavras que proferira, ciente que Éomer sempre lutara por Rohan, defendera Eöný e jamais agira de maneira insensata. Ciente que falhara ao não só acusá-lo, como desonrar a memória do amigo Théoden e todos os antepassados.
--- É possível, meu Rei. – proferiu, por fim, extenuado. – E se o destino caminhar para o que diz, eu mesmo farei a reparação necessária pelo meu desatino...
Éomer não gostou do rumo daquelas palavras. Tudo que ele não queria era que Seafúss se banisse de Rohan, vagando pelos campos e deixando uma parte importante da cidade em mãos menos experientes. Além do quê, conhecia Seafúss toda sua vida e gostava do homem.
Suas palavras estavam destinadas a encontrar rumos confusos, e por isso, pouco confiante na sua habilidade diplomática, Éomer se viu forçado a garantir a paz usando a autoridade.
--- Não tome decisões que cabe a mim, ou irá aumentar minha ira.
O homem aquiesceu e soltou os ombros com um jeito derrotado que condoeu o coração do Rei, mas Éomer nada disse, não querendo aumentar sua vergonha. Apenas um dia e tudo estaria resolvido.
Ao menos era o que Éomer pensava, sem saber que em poucos dias adiante, toda a sua vida mudaria radicalmente, confundindo o que ele julgava ser correto e verdadeiro, real e imutável para um novo mundo que ninguém jamais sonharia existir.
XXXXXXXXXXXXXXXXXX
Glossário.
Hererinc – Guerreiro, inglês arcaico.
Ealfelo – Ousado, no inglês arcaico.
Rúnk – nobre abreviado para formas masculinas com o sufixo Rún – significa oculto, secreto. Normando antigo.
Siafi – Gentil. Normando antigo.
Symbelminë – pequena flor branca dos campos de Rohan que floresce seguramente por todo o ano, crescendo, em particular, nos túmulos dos Reis. Existem outros tipos de flores em Contos Inacabados que lembram a symbelminë: Uilos, descrita por Tuor, vista em Gondolin, a outra é alfirin. Ambas significam sempre em mente, assim como a flor branca de Rohan, devido seu propósito de lembrar aqueles que partiram. No inglês arcaico, (symbel ou symel) significa sempre ou eternamente, (mynë) memória ou lembrança.
Uilos "branca neve eterna" em sindarin ou "florescendo eternamente" . Do Quenya, "oi" significa sempre ou "olossë" para brancura eterna ou "losse" florescer.
Incomensurável. – o que não pode ser mensurado, pesado e definido.
