Avisos: Corrigi um erro lamentável. Troquei Aldburg por Aglarond no capítulo Vida Longa ao Rei Éomer. Já está corrigido, notas no glossário do capítulo.

Vamos a segunda parte?

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O Incomensurável Laço da Promessa – Parte II

Rio Snowbourn

Cermië, 15

A caravana deixou as colinas e as trilhas corcovadas para trás, abandonando os ruídos e estalidos do Rio Entágua, que se perdera entre os tufos verdejantes para cair alegremente na densa trilha rumo a Floresta. Com Mablung e Damrod liderando a comitiva, os elfos e homens serpentearam a trilha sinuosa até alcançar uma milha no grande descampado verde da planície. A noite caiu de mansinho, se desdobrando como tecido escuro sobre os ombros da comitiva.

Lothíriel apoiou a sugestão de Háfoc para prosseguirem durante a noite. O rohirrim a fitou contendo o espanto, mas seus olhos escuros se apertaram de um jeito diferente e pequenas rugas surgiram ao redor da sua boca, em um sorriso contido.

Os animais demonstraram nervosismo, as figuras altivas cortando as brumas da noite, com o lampejar prateado da lua nas insígnias reluzentes de Dol Amroth, Ithilien e Rohan dava um aspecto surreal a comitiva. Em determinado ponto, Ieldran sentiu o corpo tombar para frente de sono e muito envergonhado, se deteve a desfraldar o tecido azul celeste e o som das hostes sedosas que enfunavam contra o vento acalentaram o ouvido de Lothíriel.

Os elfos se alternavam na função de batedores e Lothíriel se via perseguindo o rastro deles com a imaginação, ora desenhando figuras esguias que as estrelas perseguiam no céu para os gêmeos, ora raios de sol que apontavam com fachos pálidos mascarados de luar quando Legolas ia a frente. Seja como fosse, Lothíriel passara a apreciar esses momentos, pois a planície silenciava e palpitava ao redor da caravana de uma forma cúmplice, como se houvesse um segredo a espreita.

Desta forma, avançaram mais uma milha até o Entágua voltar seu curso para noroeste e reencontrá-los, quatro dias depois, exaustos e cobertos de poeira. Lothíriel procurava conter o ar de desagrado, imaginando que seus companheiros de viagem estariam em piores condições, pois se alternavam para vasculhar os campos a frente, rápidos e atentos batedores, percorrendo o mesmo caminho duas vezes. Além do que, os cavalos alcançaram um ritmo muito lento e só se moviam pelas palavras sussurradas dos elfos, que pareciam tão inquietos como suas montarias.

Legolas puxou a crina de Arod em uma mistura de suavidade e firmeza, o belo cavalo compreendeu a vontade do elfo e foi reduzindo a marcha em um trote elegante. Os olhos do elfo cintilavam como gemas perdidas no escuro, fixos no galope impressionante de Ecebryne. Elrohir estivera a frente da comitiva, estudando o que os esperavam a frente. Tarefa que cabia, unicamente, aos elfos nas noites.

Por instantes, Lothíriel estremeceu sobre o manto, com a sensação de estar vendo algo de outro mundo, sem conseguir identificar a negrura da penugem sedosa de Ecebryne contra a escuridão. Viam apenas os cabelos escuros de Elrohir se movendo ao seu redor e o rosto do elfo entrou no foco da comitiva. A noite clara e limpa reluziu nos músculos tensos do elfo.

Legolas se adiantou, soprando num rugido mortífero.

--- Não estamos sós. – de imediato, o elfo puxou uma das flechas da alijava e num movimento particularmente ágil, quase indetectável, o arco esticou-se com um sibilo entre seus dedos.

Imediatamente, os cavaleiros formaram um círculo em torno de Lothíriel e o zunido das espadas desembainhadas pareceu um coro perfeito para o alinhamento. Eles eram tão rápidos que quando Lothíriel deu por si, já estava cercada, vendo as costas eretas dos homens. Esticou o pescoço para focalizar o rosto de Elrohir, sobre o ombro de Legolas.

--- Não. – Elrohir não se deu o trabalho de adotar o sindarin. Naturalmente, durante o percurso, eles tentaram não alarmar Lothíriel, mas a situação exigia que a jovem estivesse preparada. Focalizou as órbitas escuras no rosto da moça. – O grupo de pastores que acampavam junto ao Snowbourn, que você viu ontem foi dizimado. – proferiu, encarando o irmão gêmeo que rosnou uma praga indefinível para os humanos. O pesar foi oculto das palavras de Elrohir, porém, era visível na flexão rígida do seu maxilar - Encontrei doze homens do Éored de Elfhelm acampados lá, com dois prisioneiros, Heorot disse-me que há destacamentos semelhantes até Edoras. Gautaór está a leste do Entágua.

Háfoc e Fréolic haviam aproximado os próprios cavalos do alinhamento junto a Legolas. Háfoc hesitou um pouco, antes de perguntar.

--- Nenhum sobrevivente? – proferiu baixinho, seus lábios se tornando uma linha fina. – Sei que Duerdelan leva os jovens para aprender o ofício, como no passado. – voltou-se para o espelho gêmeo de Elrohir. – Ninguém para que o mestre curador possa me alentar com a esperança de cura?

Lothíriel se curvou sobre Elrothiel, dobrada sobre a montaria na tentativa de ouvir o que dissera o homem de Rohan. Desde que Háfoc se machucara na noite anterior e recebera os cuidados de Elladan, não conseguia chamar o elfo pelo nome, embora Elladan parecesse muito constrangido em ser chamado de mestre. Algo que como explicara Legolas, era um título associado ao pai, que o humilde Elladan achava insuperável.

Lothíriel piscou e forçou a mente a conversa atual, quase se xingando por divagar naquele instante.

Elladan maneou a cabeça e seus olhos espelharam o pesar da má notícia. Trocou um rápido entendimento silencioso com o irmão gêmeo, antes que Elrohir continuasse.

--- Heorot ficou satisfeito que estamos adiantados, mas demonstrou preocupação quando eu disse que não encontrei seu Marechal. Pediu para aguardar junto ao Snowbourn.

--- Quer dizer que o marechal Elfhelm passou por nós? – concluiu Fréolic, também preocupado.

--- Se passou... – murmurou Legolas, procurando o brilho pálido da lua encoberto naquele instante por um grupo de nuvens escuras.

--- Elfhelm não deixaria de nos ver. Acho que a situação é mais séria do que nos conta. – observou Háfoc, com um tom de voz temerário, entoando a raiva e a preocupação em cada palavra, como cordas de um instrumento musical. – Entendo o motivo.

--- Melhor acamparmos conforme disse Heorot. – sugeriu Elladan, muito silencioso até aquele instante.

Ecebryne farejou o ar a leste e sua crina arrepiou-se nas mãos do elfo.

Lothíriel sentiu que perdia algo importante da conversa. Antes que pudesse verbalizar suas próprias conclusões com falhas assombrosas, Mablung se distanciou da linha e atravessou a clareira em direção ao rio, desceu a curvatura da margem e Damrod o seguiu depois, virando o tronco para frente e voltando-se para trás com a espada em punho, com uma flexibilidade tão rápida que Lothíriel sentiu o corpo doer só de acompanhá-lo. Ieldran desfez a guarda a sua direita, passou pela jovem e agarrou a rédea de Elrothiel, a égua obedeceu docemente o cavaleiro e Gerihtan colou-se atrás dos dois. Fréolic e Háfoc altearam os flancos e moveram-se como uma barreira humana para o ponto em que Mablung agora desmontava.

Legolas fitou o céu arqueando as sobrancelhas com desconfiança. Elladan notou o desconforto do amigo e alongou o pescoço, na tentativa de encontrar o ponto de reflexão do arqueiro.

--- O que foi, Las? – perguntou, num fio de voz.

Elrohir detectou de imediato a mudança no rosto do arqueiro. Seus punhos se apertaram e Ecebryne rufou escoiceando o chão com o nervosismo do cavaleiro.

--- Lute, Legolas. – sibilou Elrohir, reduzindo sua esperança em cinzas quando o elfo voltou o perfil pálido para a direção do entágua.

Com muito cuidado, Legolas deslizou para baixo e seu corpo pousou com um baque fofo no solo, o rosto se fechando como mil caixinhas, uma dentro da outra, com cliques e claques de lacres sigilosos até toda e qualquer tipo de emoção ser varrida da face bonita do arqueiro.

Elladan notou a inutilidade de qualquer gesto, palavra ou reação, consolando-se com o fato de que o inatingível Legolas era ainda mais feroz naquele estado e provavelmente, mesmo que eles fossem atacados, nenhum inimigo teria chances contra LEgolas. Com um esforço tremendo, Elladan empurrou a preocupação para o lado e manteve-se alerta aos arredores. Precisava, desesperadamente falar com o irmão e as atuais reações de Legolas o fazia crer que não haveria ajuda.

Legolas andou com extremo cuidado no terreno de capim rasteiro e turfas. Seus olhos estavam muito abertos, os lábios contraídos, a coluna ereta. Devolvera a flecha a alijava e o arco transpassado ao tronco.

Se ao menos, os outros pudessem ver o que ele via!

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Lothíriel sentia os músculos duros com a prolongada viagem e aguardou em silêncio até que sua guarda estivesse satisfeita com a segurança do local, antes de desmontar. Ela quase não teria conseguido sem a ajuda prestimosa de Elladan, que pareceu adivinhar que seu corpo estava petrificado com o exercício e provavelmente cairia no chão. Estava acostumada a cavalgar desde pequena, bem como aprendera a nadar e sabia recitar todas as funções de uma tripulação dos navios de Belfalas, mas jamais participara de uma jornada tão longa e extenuante.

Háfoc e Fréolic não se afastavam dela um só instante, conversando baixinho na língua de Rohan sobre os acontecimentos. O pouco que conseguira aprender com Éowyn garantiu a Lothíriel a certeza de parte do assunto. Apesar das preocupações e do pesar com as mortes, Lothíriel notou que a maior consternação dos homens era sobre Elfheim e como o Marechal não encontrara a Caravana.

Lothíriel ajeitou-se na pedra coberta pela manta e reviu os pergaminhos preciosos na sua bolsa de viagem. Tocou com reverência nas cartas de Éomer e como sempre fazia, perguntou-se se teria coragem de ao menos abri-las. Sabia que poderia encontrar inúmeras respostas ali, mas seu coração hesitava, mesmo que sua mente gritasse a permissão de Éowyn. A senhora branca de Ithilien nada dissera sobre a concordância de Éomer e Lothíriel se colocava no lugar do futuro esposo, imaginando como se sentiria se suas cartas fossem lidas sem sua permissão.

Sua atenção se deslocou para o elfo louro que havia se afastado mais uma vez da Caravana. O silêncio era opressivo e os homens já começavam a dividir os turnos de vigília. A fogueira que mantinha o calor e a iluminação seria apagada, fazendo com que dormissem a luz da Lua cheia.

Lothíriel fitou o círculo cheio e pálido. Pensou ter visto vultos escuros na face prateada, mas ao piscar, tudo voltou a claridade luminosa de antes. Em um impulso, largou seus pertences e caminhou na direção de Legolas.

Háfoc surgiu em sua trilha e Lothíriel levou um tremendo susto com a rapidez do rohirrim.

--- Peço que não se afaste, minha senhora. – falou Háfoc, com ar tenso e o velho timbre antagônico em sua voz.

--- Vou falar com Legolas, senhor Háfoc. – avisou Lothíriel, sem desviar o olhar do rosto do cavaleiro de Rohan. Nada que jamais tivera ouvido de Amrothos – embora o irmão mais novo estivesse mais propenso a acompanhá-la em aventuras ou de Elphir, muito mais severo e sério, como seu pai. Com tranqüilidade na voz, avisou, educada. – Sabe meu destino e intenção, basta ficar próximo. É suficiente?

Háfoc ponderou as palavras da jovem princesa e novamente, as linhas irregulares de um sorriso contido permeou os lábios e o canto dos olhos do rohirrim.

Pela primeira vez, Háfoc curvou o tronco com uma saudação respeitosa, sem nenhum sinal de impaciência.

--- Basta dizer meu nome, minha senhora. – falou e afastou-se com uma rapidez surpreendente.

Lothíriel respirou fundo e retomou a caminhada. Como era de se esperar, Legolas ouvira a conversa e sabia seu destino, por isso, voltou-se devagar, o rosto crispado e concentrado, mas com um brilho convidativo em seus olhos claros.

--- Quer falar comigo, Lothíriel? – perguntou o elfo.

Lothíriel agradeceu a gentileza de Legolas, formalizando em palavras algo que ambos sabiam que ocorreria, a maneira que os homens usavam para se comunicar. Refletiu se a convivência com a Sociedade incutira aquele hábito em Legolas ou se o príncipe sempre fora daquela forma, atento as necessidades de cada cultura para se expressar.

Será um Rei magnífico, pensou a jovem, ladeando o arqueiro.

A atenção de Elrohir e Elladan aos dois era tão discreta que Lothíriel não teria notado, exceto pela maneira como Legolas pareceu se distanciar em pensamento, mais uma vez.

--- Estamos em perigo? – falou, num tom pouco mais alto que um sussurro.

Legolas continuou olhando para a escuridão dos amplos prados e orientou o corpo para a direção da floresta.

--- Você pode me dizer. – garantiu Lothíriel, adivinhando a hesitação do elfo. Fora um impulso falar com Legolas, porque de alguma forma, ela achava que somente ele diria a verdade.

Estava próxima da realidade, muito mais próxima que poderia supor, ou que qualquer um ali, incluindo os gêmeos, poderia supor.

Legolas desviou o olhar e aquilo pareceu custar-lhe um grande esforço, como se algo na floresta exercesse algum efeito magnético que aprisionava sua atenção, seu coração e sua alma.

Ele deu um suspiro baixo e levou a mão ao peito.

Lothíriel aguardou os minutos com a ansiedade crescendo dentro da alma e sentiu vontade de voltar para a guarda de Háfoc, abrir os pergaminhos secretos e tornar o seu casamento e a chegada a Rohan mais real.

Legolas fitou-a com uma expressão torturada, não obstante, sua voz soou doce e melódica, quase irreal. Ele ainda parecia conectado com alguma coisa na floresta, como um prisioneiro que deixa o cativeiro por alguns instantes, apenas para ser tragado de volta.

--- Estamos em perigo. – proferiu, por fim.

Lothíriel contemplou a superfície daqueles olhos muito azuis e vestígios de sombras preto e branco pareciam rodopiar dentro das pupilas negras. Ela sentiu como se fosse desmaiar de pavor e suas pernas pareceram fracas para sustentar seu peso.

O elfo disse algo baixinho e se apressou a segurar a jovem pela cintura.

--- Você está bem? Lothíriel? – murmurou Legolas, preocupado com as sombras ocultas na floresta, ciente que a jovem as vira refletida em seus olhos.

Lothíriel se equilibrou nos braços do elfo e tentou se afastar devagar, procurando o terror que havia vislumbrado em seu rosto, mas Legolas foi mais rápido e desviou a face pálida para a floresta.

Gerihtan jogou água na fogueira e o chiado do líquido frio sobre as cinzas ecoou pela clareira. A iluminação dourada se apagou deixando apenas a luz da lua. No instante seguinte, Lothíriel sentiu os músculos do elfo se contraindo e no impulso, olhou para cima, para o circulo cheio que tornava a noite clara.

Mais uma vez, fios negros e sombras cortaram a lua, mas não foi somente que Lothíriel que viu o fenômeno. Os cavalos se agitaram e o grito de Elladan ecoou em seus ouvidos.

--- É um ataque!

Lothíriel estremeceu quando o barulho de uma cavalaria subitamente rompeu o silêncio da noite, arrancando Gerihtan e Ieldran de suas posições. Eles correram e desembainharam as espadas, enquanto Mablung e Damrod sacavam os arcos, disparando flechas na direção da floresta. Uma sombra negra cortou seu campo de visão e Lothíriel reconheceu a fúria de Ecebryne que correra em auxilio de seu cavaleiro, atendendo seu chamado.

--- Nós vamos morrer. – falou Lothíriel, lembrando-se febrilmente que deixara sua única arma na bolsa de viagem, bem como os preciosos pergaminhos de Éomer e deu um salto para frente, sabendo que precisava recuperá-los antes que os inimigos do futuro marido ou os apanhassem.

Porém, Legolas agarrou o braço da jovem e forçou Lothíriel a encará-lo, com palavras cheia de autoridade, um raio direto de luz em sua mente, temerária e precisa, como ela jamais ouvira um elfo falar.

--- Vai acabar, confie em mim. Fique parada! – sibilou o elfo, cada vez mais pálido, aparentemente indiferente a cena que se desenrolava ao seu redor.

O acampamento estava sendo atacado. Lothíriel teve a sensação de ver Mablung caindo por uma flecha e Fréolic sucumbindo embaixo das patas mortíferas do cavalo invasor. O homem sobre ele deu um grande grito de guerra e mais e mais homens afluíam da floresta, alguns em pé, outros a cavalo.

Legolas afundou ainda mais os dedos sobre os braços de Lothíriel até que ela gritasse de dor e voltasse a encará-lo.

A palidez se tornava rapidamente cinzenta e halos de névoas prateadas saiam da boca e das narinas do elfo, como se ele estivesse mergulhado em um lago gelado.

--- Espere... Vai acabar... – repetiu.

Lothíriel ficou parada, imóvel e aterrorizada, os olhos grandes e cinzentos petrificados de terror enquanto os homens da guarda caíam um a um, em poças de sangue e desespero. Somente Elrohir continuava lutando sobre Ecebryne e gritava por Elladan, que havia desaparecido.

E os dois continuavam, misteriosamente intocados por toda aquela fúria, parados sobre o luar de prata que se condensava em véus negros no céu marinho.

Legolas continuou parado, com uma brancura fantasmagórica e logo pequenos pontos de água brotaram da sua pele e se cristalizavam, como se ele fosse uma estátua de gelo.

Um som agudo, um longo grito de dor rompeu a clareira e Lothíriel quase sucumbiu aquele protesto, sentindo que sua alma se revirava ao reconhecer a voz de Elrohir. Ele lamentava e chorava, urrando como se tivesse sido atingido, mas tudo que repetia era o nome do irmão.

Lágrimas cheias caíram dos olhos de Legolas, mas se congelaram em gotas peroladas no rosto do elfo antes de chegarem ao chão.

--- Está acabando... – sussurrou o arqueiro, mal movendo os lábios, cobertos por uma camada de água cristalizada.

Lothíriel sentiu que o frio que escapava da alma do elfo envolvia seu corpo e sua mente e ela se lembrou quando era muito pequena, junto com Amrothos, haviam decidido brincar com a neve e caíram em uma fenda no gelo. A dor insuportável da água gelada e o desespero que saía do irmão ao tentar lançá-la para a superfície, até que o pai surgira e arrancara ambos, meio desacordados daquele pesadelo.

E assim como naquela lembrança, Lothíriel sentiu que enfim, podia respirar, quando Legolas soltou seus braços e pareceu cambalear para trás, esgotado e parcialmente morto por uma luta feroz.

--- Acabou. – ele falou, controlando o tremor na própria voz. – Olhe, Lothíriel.. Acabou.

Lothíriel continuou quieta, imóvel e arquejando, as lágrimas copiosas que não paravam de cair, incapaz de olhar mais uma vez para a clareira. E Legolas repetiu mais uma vez as palavras em sindarin e depois em westron, achando que ela não havia entendido.

--- Sinto muito... – o elfo louro engoliu em seco e apanhou a mão dela, e ela sentiu o próprio calor como algo estranho, em comparação a temperatura gélida da pele do elfo. – Isso não vai acontecer... Esqueça o que viu...

Lothíriel finalmente conseguiu arrancar coragem para olhar para o lado. Elladan e Elrohir estavam a poucos metros, com uma expressão semelhante de desconfiança e preocupação. Lothíriel sentiu vontade de correr até eles e um soluço alto escapou de seus lábios, ao ver Mablung conferindo as flechas da alijava e Fréolic apagando os restos do fogo jogando terra sobre as cinzas.

--- O que aconteceu? – Lothíriel encarou o elfo, uma mistura de medo e reverência se misturando em seus olhos.

Legolas pareceu arrasado por alguns instantes e como num passe de mágica, seus olhos cintilaram com um brilho inteligente e resignado, modificando sua expressão para uma máscara impassível.

A mão dele aqueceu sobre a pele de Lothíriel, mas sua alma parecia estar se esfriando.

--- Nada. – respondeu o elfo, em tom neutro. Murmurou para si próprio. – Não vai acontecer nada...

--- O que está acontecendo aqui? – a voz de Elrohir sibilou com preocupação e raiva, relembrando o terreno delicado em que caminhava o filho mais novo de Elrond e o príncipe de Eryn Lasgalen.

--- Legolas, vocês estão bem? – afluiu o tom sério e consternado de Elladan. – Eu tive uma.. sensação ruim.

Legolas calou Lothíriel com um olhar de aviso e apesar da aparente dureza impressa nas órbitas claras, nunca a donzela sentiu tanta compaixão de alguém como naquele instante.

--- Não aconteceu nada. – falou, sua voz fraquejando e então, ela repetiu as palavras de Legolas, enlaçando-se secretamente numa promessa. – Nada vai acontecer.

As pálpebras de Legolas desceram por alguns instantes, como se ele sentisse um profundo alívio e então, suas órbitas de safira cintilaram em um doce agradecimento.

--- Voltem a suas tarefas. – disse Legolas, no seu tom neutro, resvalando a frieza.

--- O que? – disse Elrohir indignado.

--- Vem, Ro. – intercedeu Elladan segurando o braço do irmão gêmeo.

--- Você ouviu o que ele disse? – repetiu Elrohir ainda incrédulo e ofendido com a pouca confiança que achava merecedor nas palavras de um antigo amigo.

--- Vem, Ro... por favor. – repetiu Elladan, seus olhos escuros saltando da jovem Lothíriel para Legolas com uma rapidez penetrante. – Vem.

Os dois se afastaram. Elladan puxando o irmão, Elrohir andando de costas, incapaz de despregar os olhos da figura do elfo.

Lothíriel esperou até que se afastassem, imaginando o quanto Elladan sabia sobre aquele instante vivido, ou sobre os segredos que envolviam Legolas. Ou se, simplesmente, a sensibilidade do curador era tão grande que adivinha até mesmo o que não era dito.

--- Você vê o futuro, Thranduilion? – proferiu Lothíriel, bem baixinho, com medo que os gêmeos a ouvissem e o arqueiro se afastasse dela.

Um pálido sorriso se curvou nos lábios do elfo e Lothíriel ficou sem saber se foi por ter usado aquele nome ou pelo que havia dito.

--- Sim e não. – respondeu Legolas, enigmaticamente e voltou a esticar o pescoço, fitando a lua mais uma vez alva no céu, com desconfiança e pesar. – E você não deveria ter visto... Talvez, haja uma chance, eu não sei...

--- Chance? Chance do quê? – Lothíriel se apressou a segurá-lo pelo braço. Ouviu o barulho feito no acampamento, ciente que agora todas as atenções se voltavam para os dois, mas não se importou. Aquilo era muito importante. – Nós vamos morrer, Legolas?

Legolas exalou um longo suspiro e retirou, delicadamente, a mão de Lothíriel de seu braço. Ele estava verdadeiramente transtornado porque a jovem havia vislumbrado uma parte de suas visões porque ela era inocente e pura, mas estava satisfeito que ela não vira tudo, porque não era uma eldar. Não havia visto o que realmente acontecia, o que ele, Legolas tinha que fazer.

Para honrar o presente de seu Pai. O dom de um Rei.

A missão de um príncipe. A luta de um amigo.

Legolas recorreu ao conselho de Aragorn. A única pessoa na face de Arda que sabia o que estava acontecendo consigo. Não porque ele contara, Legolas jamais quebraria uma promessa, mas porque Aragorn conhecia seu pai e sendo perspicaz como nenhum outro homem seria, porque fora criado em Valfenda junto aos elfos, e porque era inegavelmente, o homem que conhecia o peso de uma profecia, Aragorn Elessar suspeitava do que acontecia com o arqueiro.

Legolas suspirou e sorriu para Lothíriel, acalentando-a com doces verdades sopradas atrás de seus dentes brancos, e assegurando um futuro alegre para o seu futuro.

--- Ninguém irá morrer. Você irá se casar e será muito feliz. – a voz de Legolas lembrou o sol e o verão, as folhas e o outono e Lothíriel fechou os olhos, envolvida por aquelas visões destacadas da mente do elfo. – E será uma Rainha justa, dedicada e amada pelo seu povo. Seu filho será amigo de homens, elfos e anões, e honrará o nome de seus pais até o últimos dias.

Lothíriel suspendeu os cílios e por breves instantes, viu a si própria ao lado de uma figura imponente contra portas de madeira e detalhes dourados, ouvindo a saudação dos citadinos que começavam o dia clamando a saúde de seu Rei.

--- Vá descansar, Lothíriel. – aconselhou Legolas, satisfeito ao notar que a cor retornara ao rosto da jovem e a lembrança dos momentos de agonia ser varrido da mente dela. – Amanhã teremos um dia cheio.

--- É claro. – sibilou a jovem, com uma mesura graciosa. – Desculpe ter tomado o seu tempo – ela franziu o cenho, incerta e proferiu, risonha. – Acho que esqueci o que ia dizer, mas se você diz que nada vai acontecer...

--- Nada vai acontecer. – tornou Legolas, suavemente. – Eu prometo.

Lothíriel se afastou e conforme ela se aproximou do acampamento, Háfoc se apressou a retirar sua capa e estender na rocha. Legolas notara a diferença do rohirrim, tratando-a como "minha senhora", como se Lothíriel já fosse Rainha e identificou aquela pequena diferença como um sinal que havia esperanças para o futuro.

Justamente o que Aragorn o aconselhara a fazer. Dar esperanças ao invés de medos, coragem ao invés de desespero.

Legolas arriscou olhar para os gêmeos e notou que Elladan ainda tentava convencer Elrohir a não confrontá-lo. Seu coração ficou pesado feito uma rocha caindo para o estômago, mas ele não se moveu. Não ouviu a voz da sua alma pedindo para confiar nos amigos, dividir com eles o peso da sua jornada.

Não enquanto a morte deles pairava como um anúncio sombrio em sua cabeça, e Legolas voltou a fitar a lua com desconfiança e apertar os olhos, procurando inimigos na floresta, ciente que a realidade de morte e sangue ainda estava perto demais.

Perto demais para comemorar vitória.

Legolas orientou o corpo para o acampamento, mas simplesmente se sentou no chão, cantando baixinho para si próprio. A noite seria longa e as armadilhas na floresta ficariam mais forte com a madrugada, e lá dentro, muitos inimigos se preparavam para atacar.

"Ninguém vai morrer", prometeu Legolas, erguendo a vigília contra o sono, o medo e a escuridão. E seus olhos repousaram sobre dois vultos idênticos a distancia.

Ele precisava garantir que os inimigos se atrasassem, mesmo que cada batalha contra as trevas de suas visões lhe arrancasse um pedaço da alma, destituindo-o de emoções. Mas se era para garantir o futuro e a esperança de muitas vidas, incluindo de seu povo, Legolas havia decidido que era um preço pequeno a pagar.

E ao contrário de Éomer, Legolas sabia que da sua luta restaria um novo mundo, inimaginável para todos, mas que pairava sobre o fio do destino.

Ele havia prometido. Ele cumpriria.

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Reviews muito esperadas!

Nota: O Dom de Thranduil para Legolas é baseado em uma idéia minha como uma tarefa que torna um príncipe em um Rei e inspirado na fanfic O Destino de Muitos, da fantástica Sadie, onde ela trabalha com a sensibilidade do elfo sobre acontecimentos futuros. Amplas informações e garantia de emoções arrebatadoras na fanfic da talentosa Sadie, que escreve um Legolas como ninguém jamais sonhou. Espero que goste da homenagem, mestra. Bjs.