Olá, queridos amigos.

As férias não me cederam o tempo que eu queria para escrever ambas as fanfics com a urgência em que chegam as idéias. Ai de mim! Sou péssima organizadora.

Esse capítulo levou mais tempo para escrever, pois, finalmente, eu cheguei ao ponto em que a história ganha corpo do seu verdadeiro motivo. Devo alertá-los para atentar para os cabeçalhos antes dos textos, em principal, sobre o marcador deste meu aliado inimigo que é o Tempo.

Saberão o motivo. Espero que não tenham dificuldades para acompanhar. Imagino que a partir de agora, comecem a entender porque essa fanfic chama-se O Novo Mundo.

Espero que gostem. E como sempre em minhas fanfics, peço, paciência com minhas complicadas tramas.

Beijinhos.

Maya.


O NOVO MUNDO


Três cartas foram encontradas, contou o Rei ao herdeiro menino.

Uma carta de amor,

Uma nota de aviso,

Uma frase de despedida.

E juntas, essas cartas transformaram o futuro.

O meu futuro.

Diário de Elfwine,

Registro da Terra dos Cavaleiros, IV 3083.


O RÉU E SUAS CARTAS

IV Era – 3021 Registro de Gondor

Cermië 15

Edoras

Capital de Rohan, Domínios do Rei.

Terra da Marca dos Cavaleiros

Havia de algo infinitamente suspeito nos alojamentos confortáveis daquele prisioneiro.

A princípio, a prisão era muito simples, como era a alma dos rohirrim. O julgamento nunca demorava, o Rei ouvia aquele que cometera a falta, ouvia os envolvidos e promulgava sua sentença. A guarda do palácio executava, os citadinos vigiavam. Ai daquele que não respeitasse a decisão do Rei. Porém, a prisão, tão simples, como um aposento em rústica taverna ou – como diziam alguns, uma baía para cavalos – ganhara certos requintes únicos na história de Edoras.

Em algum ponto inespecífico para a maioria, o prisioneiro, que aguardava um julgamento que o Rei parecia indisposto a promulgar, passou a receber "regalias" que os citadinos não conseguiam compreender, mas em sua maioria, respeitavam.

De fato, para a maior parte dos citadinos, guerreiros e hóspedes, o fato do prisioneiro estar ali, vivo e intocado era uma dádiva da benevolência do Rei.

A construção arredondada, próxima aos alojamentos da guarda recebia pouca luz. Em algumas noites, o prisioneiro ouvia a cantoria dos cavaleiros, a voz fina das moças e as risadas que advinham de lá e por isso, adivinhava que o tempo era bom, com um céu sedoso e claro, pontilhado por muitas estrelas. O silêncio na taverna era também um sinal de conflito e da ausência dos homens da Marca, então, o prisioneiro acabava ouvindo súplicas das mulheres, alguns insultos mais corajosos ou visitas escondidas na calada da noite, sempre a lhe repetirem a mesma pergunta, que não poderia responder.

Ele ainda não se decidira qual era o pior momento. Os dias ou as noites. Porque era isso que vivia, um momento profundo e torturantemente longo, dividido por instantes de adivinhação, onde na sua imaginação, afinada com a rotina de Edoras conseguia deduzir, em que instante reinava o sol, em que instante se demorava a lua.

A grande maioria em Édoras possuía coragem. Astúcia suficiente para entrar no seu covil e dizer-lhe algumas verdades. E ele, as ouvia, sem responder. Alguns, mais exaltados, buscavam sua cela alegando que ali estava protegido e refugiado, mas poderia receber um ultimato segundo as leis e aceitar uma luta direta. E ele, os ouvia, sem responder. Os hóspedes também o procuravam, cheios de dúvida, raiva, tristeza, revolta, açoitavam com perguntas, hipóteses e súplicas para que aceitasse ajuda, confessasse seu crime, pedisse misericórdia, clemência, morte, mas saísse daquele estado inquietante de espera, daquele voto perpétuo de silêncio. E ele, os ouvia, sem responder.

Os súditos diretos do Rei, seus conselheiros e marechais também o procuravam. Suas esposas, sua Rainha e sua princesa. Inalterado, ele guardava silêncio. O Rei o procurava, conversava, questionava, esbravejava e se lamentava. E ele, o ouvia, sem responder.

Em tudo, o prisioneiro guardava serenidade e silêncio. Aceitava as emoções como dádivas preciosas, mesmo aquelas que o feriam, mas eram-lhe bem vindas. Em contrapartida, o tempo, aquele conselheiro impiedoso que ninguém poderia deixar de ouvir, trouxera igualmente ao prisioneiro a amizade desinteressada daqueles que conseguiam ler além do alcance dos fatos vividos. Ganhava confissões, flores, frutas, refeições e compaixão. Os presentes – todos eles – traziam com eles vidas contadas e por essa ligação rápida, o prisioneiro conseguia contar o tempo e ouvir de seu precioso conselheiro o que precisava saber.

O prisioneiro adivinhou o dia nascido. Além de todos os detalhes que vinham da claridade, do relinchar animado dos cavalos, da azáfama das crianças e suas mães e dos insultos de praxe das antigas matronas ao passarem pela prisão, era um fato inquestionável que o olfato trazia notícias de uma manhã gloriosa, com o cheiro da relva molhada pelo orvalho da noite pisoteada pelas patas dos poderosos animais, o aroma das infusões fortíssimas do chá tão apreciado pelos rohirrim ou ainda, o compasso em ritmo falho de Hlíf.

Levantou-se do catre simples, mas aquecido. Sua cabeça latejava com a pressão dos sonhos vívidos que assolaram sua noite, os olhos ardiam pelas lágrimas derramadas, os músculos do rosto doíam pelos risos de vitória.

Acordara suado e exaurido emocionalmente entre tantas possibilidades, sem saber, qual era a correta.

O prisioneiro buscou a banqueta de madeira longe da entrada da cela e aguardou que o homem manco e bondoso se aproximasse. Aproveitou para contar o relincho de Repe, e assim, adivinhou quantos tentavam domar o cavalo naquela manhã.

Hlíf grunhiu algo, irritado a caminho da prisão. Ele estava acostumado, mas ainda sim, o prisioneiro sentia que ele perdia a paciência. Somente a ordem do Rei fazia que o curador viesse vê-lo, e por isso, foi delegado que o cuidador dos cavalos cuidasse da sua saúde. Parecia apropriado a todos, e muito mais a ele, prisioneiro. Hlíf possuía um coração bondoso e mãos gentis. Sabia cuidar da alma dos animais e tentava escutar a sua.

A ele, também oferecia um pouco do silêncio.

Fechou os olhos. Os passos de Hlíf perderam a importância e o prisioneiro concentrou-se unicamente nos sons do animal. Foi como se estivesse lá fora, sentindo o hálito morno da manhã, com a brisa dos campos sacudindo seus cabelos. Viu a si próprio, nas tramas da imaginação se aproximando de Repe, e estendendo a mão de seus lábios, despreendia-se palavras de compreensão. Repe relinchou e o som rascante de suas patas, os gritos daqueles que assistiam trouxeram a sua imaginação uma nova pista e o prisioneiro sorriu. Sim, agora Repe estava altivo, erguendo-se nas patas traseiras, o tórax imenso e poderoso oferecendo uma armadura entre ele e aqueles que tentavam domá-lo. Sua crina esvoaçava e seus olhos brilhantes transmitiam a mensagem clara. Não se renderia.

O prisioneiro esboçou um singelo sorriso. Sim, como ele.

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Hlíf gingou o corpo para dentro da prisão, carregando com extrema habilidade o pão, a jarra de chá, os ungüentos e a fruta. Era incrível como os homens se acostumavam com as próprias deficiências e logo, superavam as dificuldades.

Transformando em vantagens, pensou Hlíf demorando um pouco mais sob o batente da porta aberta. Isso permitiu que o vento, o ar e os sons entrassem a vontade dentro daquele triste recinto e embora olhassem para ele com ar sisudo, os homens e os citadinos nada falaram. Afinal, Hlíf estava velho e manco, se quisessem que fosse mais rápido, ora, que o ajudassem a fechar a droga da porta.

Hlíf riu, um som resmungado, e com piedade, fechou a porta. Sabia que o prisioneiro já teria adicionado novas informações e um pouco de ar puro, mancou rápido e satisfeito, ansiando ver uma sombra de sorriso no rosto dele.

E foi assim que o encontrou.

Em silêncio, Hlíf depositou os utensílios sobre a mesa e sentou-se na cadeira que foram deixadas do lado de fora da cela. A água já estava ali. Muitos utilizavam. Hlíf sabia muito bem que iam importunar o menino, com perguntas, acusações e com o tempo, de tanto irem importuná-lo, acabaram se acostumando a visitá-lo, fofocando como matronas desocupadas, desabafando como se o prisioneiro fosse um enviado de Erü, destinado a ouvi-los. Hlíf maneou a cabeça para os lados. Aquilo era uma pena severa, se alguém lhe perguntasse, preso ali e ouvindo a conversa diária.

Os olhos cansados de Hlíf se voltaram para o menino e um sorriso genuíno brotou em seus lábios. Estava velho e o Rei sabia como preferia os animais aos homens, embora, amasse seu Rei de todo coração, porém, sentia prazer em cuidar do prisioneiro. Não associava os fatos, que ele tinha visto e presenciado, sentido na própria pele com aquele rapaz, um menino aos seus olhos. Hlíf tinha uma boa cabeça e um bom coração, sentia que ele era inocente.

O rapaz havia se erguido, preso de algum devaneio, supôs Hlíf. Imaginou que era uma reação aos sons de Repe e suas demonstrações de resistência. O danado do cavalo era uma fera e uma fúria assassina em um único ser, mas o rapaz enchia os olhos com a visão de Repe e degustava com prazer os seus sons, como se fossem aliados e amigos. Ambos presos e rodeados por pessoas que tentavam domar suas vontades, completamente alheios à necessidade dos dois em serem livres. Eles pareciam brutos, cruéis, mas tanto Repe quanto o menino, concluíra Hlíf, tinham as almas mais puras daquele lugar.

Não, concluiu Hlíf, ele não fizera por mal.

Fizera tudo errado, concluiu o velho para ser honesto, mas não fizera com má-intenção.

Como se Hlíf tivesse pensado alto demais, o prisioneiro saiu do transe e o sorriso desapareceu lentamente. Seus braços caíram ao longo do corpo e com sua maneira majestosa de caminhar, o prisioneiro voltou a sentar-se na banqueta.

--- Bom dia, menino. – falou Hlíf, apontando o pão e a maça. – Desjejum primeiro; curativo depois.

O prisioneiro maneou a cabeça de leve. Seus olhos claros, sempre frios e distantes sorriram para o homem.

--- Sabe muito bem que sou mais velho que você. – e completou, num fio de voz. – Muito mais velho. Não me chame de menino.

Hlíf deu de ombros, apanhou o pão e a jarra com o chá. Os olhos do prisioneiro se apagaram quando ele encaixou a chave e o clique abriu o portão.

--- Sei bem que você poderia me derrubar e fugir. – disse Hlíf, com seu andar manco, os olhos baços pregados no prisioneiro. – Seria fácil, menino. – em tom piedoso, tornou – Eu não gritaria, você sabe...

O prisioneiro aquiesceu e levantou-se. Pareceu muito alto e terrível por alguns instantes, com um brilho de fúria sanguinária nos olhos muito azuis, tão feroz e indomável como Repe, caminhou pausadamente até o homem manco, curvado pela idade.

--- Eu sei... – sibilou, aproximando-se.

Hlíf sustentou aquele olhar enquanto pôde e baixou a cabeça, piedosamente. Lia sempre nele algo que vira inúmeras vezes nos olhos de Théoden e depois, nos olhos de seu filho. Aquela sombra de Destino pairando agourenta na íris escura, ocultando-se no brilho implacável da cor sedosa da íris.

Mas a sombra naquele menino era tão densa e perpétua. Vê-la já era tão insuportável, imaginava como seria senti-la na própria pele.

--- Mas não vai fazer... – sussurrou, compadecido. Ergueu o rosto e estendeu a jarra. – Não é mesmo, menino elfo?

O prisioneiro parou frente ao homem e apanhou a jarra. Não gostava daquele chá, mas Hlíf fazia todas as manhãs para ele, e mesmo a contragosto, acabaria tomando.

Com gentileza, o elfo apanhou a jarra e o pão, retornou ao seu lugar na cadeira e sentou-se. Houvera uma época em que haviam usado cordas para prendê-lo, mas o Rei logo havia mandado deixá-lo livre, sabendo que estar confiando ali, já era punição extrema para um elfo.

O elfo cheirou o chá ocultando o desprazer e fitou o homem.

--- Não, não vou.

--- Até quando, menino? – perguntou Hlíf, como sempre fazia. Um dia, pensava esperançoso, o elfo fugiria dali e ele ficaria feliz, não contaria a ninguém.

O elfo sabia. Escutou os protestos finais de Repe, as injurias dos homens e as saudações distantes ao Rei, que estaria as portas de Meduseld naquele instante.

O conselheiro tempo mandava-o esperar.

--- Em breve, Hlíf. – falou Legolas, muito sério. – Em breve.

Para ambos, soou como uma promessa.

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O dia de um prisioneiro era muito tedioso, se ele tinha a marca da culpa e o desejo de partir, estar livre. Para Legolas, não era uma coisa, nem outra. Era como os dias antigos, em patrulhas na Floresta, a espreita do momento certo, ouvindo os sons significativos dos seres menores, das folhas e dos outros elfos, como sinais indicativos para resistir, atacar ou dormir.

Hlíf cuidava de seu machucado, mas ele não participou daquele ato. Para Hlíf era pequena cicatriz circular, rasgada por uma meia lua na espátula direita. Estava sempre sangrando. O homem se aborrecia, colocava ungüentos, tentava entender porque não cicatrizava. Quando os elfos amigos do Rei apareciam, Hlíf os rodeava, perguntava, inquiria. Devagarzinho, descobriu que o sono era reparador e os elfos se curavam, mas tinham mais dificuldade se estavam tristes. Aquela informação mudou tudo para Hlíf. Em sua sabedoria rústica, comparou aos cavalos que ficavam com o coração partido se os guerreiros morriam e demoravam a aceitar a cura, não queriam pastar, correr, não queriam outro companheiro no lugar. Zangava-se com a própria inabilidade, porque sabia que elfos não eram como cavalos, mas não tinha ninguém para ajudá-lo a curar aquele elfo e Legolas não tinha interesse em ensiná-lo.

Enquanto ministrava os cuidados, Hlíf passou a tagarelar as costas de Legolas, que o ouvia atentamente, sem nada dizer. Em um determinado momento, os músculos do elfo se retesaram e Hlíf murmurou desculpas. Ele era um homem rude, acostumado a lidar com os cavalos. O elfo nunca reclamara, ao contrário, preferia que fosse ele quem o tratasse.

Hlíf imaginou que a reação dera-se a notícia, não ao tratamento. Tratar do elfo era exercitar a imaginação. Legolas nunca cedia qualquer pista ao interlocutor.

Arriscou e repetiu a noticia.

--- A comitiva do Rei do Oeste chega hoje. – esperou, mas o elfo relaxou e manteve o silêncio teimoso. Hlíf cobriu com um tecido alvo e apanhou outro mais largo para enfaixar. – Nossa Rainha está exultante, contará sobre a chegada do bebê... Finalmente, não é mesmo?

Legolas limitou-se a voltar o tronco e fitar Hlíf. O homem abriu m largo sorriso desdentado e deu um tapinha amigável no ombro do elfo.

Legolas conteve uma expressão de dor e voltou o rosto para a parede da cela.

--- Oh, desculpe... – pediu, Hlíf, com sinceridade. – Bem, nosso Rei terá seu herdeiro. É claro que ama nossa rainha e esperou...bem.. – velho pigarreou e corrigiu-se, sorrindo – Hoje, como sempre, pousou o queixo na cabeça dela, para receber as saudações e ambos estavam radiantes. Há muita preparação para receber o Rei Elessar e sua rainha, junto com a comitiva. Sei que ele é seu amigo, quem sabe...

Legolas ouviu impassível. Não tinha interesse em curar aquela ferida. Porque não tinha cura, era uma escolha e não o incomodava. Ficou quieto e indiferente, tentando não sentir e lembrar de mãos amigas que já haviam cuidado dele em um tempo que se apagava da memória. Agradeceu os cuidados e não respondeu as tentativas de prosa do homem.

A notícia, como sempre, era mensageira do tempo. Seu conselheiro vinha mais uma vez, avisá-lo. Sua mente calculou o tempo com agilidade, traçando paralelos com acontecimentos ligados à chegada do Rei do Oeste.

Seus olhos azuis brilharam enigmaticamente e Hlíf alinhou a coluna, muito atento à expressão do elfo.

Legolas se viu com pressa. Seu confinamento era precioso para o que tinha que fazer e não podia ser interrompido.

--- Está bom? – perguntou Hlíf estudando a disposição do elfo.

Legolas aquiesceu em silêncio, esticando o braço direito e alongando os músculos. Às vezes, Hlíf apertava muito as ataduras e o deixava imobilizado. Achou que estava bom o suficiente e curvou a cabeça de leve, em agradecimento. Hlíf entendeu que sua presença não era mais bem vinda.

--- Venho amanhã, Legolas. – anunciou o homem.

Legolas nada disse, apenas fixou os olhos muito azuis com seriedade no rosto vincado do homem. Lembrou-se de Hlíf quando o conhecera e nas modificações que ocorrera até então. A dúvida veio brincar quando suas memórias se misturaram e Legolas deu as costas para Hlíf.

Longe dos olhos, longe do coração, dizia o provérbio. Quanto menos assistia, menos confundia as memórias. E elas continuavam nascendo na sua mente, alteradas e imprecisas, com o passado se desbotando a cada manhã.

Após a partida do homem, Legolas apanhou os pergaminhos, sentou-se no chão, organizou a pena e o tinteiro, calculando se seria o suficiente. Tinha algumas horas do sol e afazeres em Meduseld, antes de receber a próxima visita.

Seria o suficiente.

Legolas mergulhou a pena no tinteiro e ficou olhando para a superfície rústica a sua frente. Na mente do elfo, as linhas, curvas e acentos ganharam vida e se moveram, pulando de sua seqüência retilínea, redonda e traçada para formar palavras. Palavras formaram frases, uma série de frases urgentes que se desdobrava sobre um fundo em movimento.

A tinta pingou manchando o papel. Legolas olhou para baixo e moveu a cabeça para a lateral. Parecia uma lágrima.

As frases recém-nascidas na sua mente vieram se alojar em torno da lágrima de tinta. Palavras formavam frases. Frases salvavam vidas. Ele sabia, estivera lá.

Às vezes, o elfo hesitava em escrever, mas era preciso. As memórias já se confundiam, Legolas despertava com uma nova lembrança apagando a força das antigas. Ressentia-se com as perdas, chorava com os mortos, alegrava-se com as uniões e as vitórias. Junto com todas essas emoções vinha o vazio da dúvida. Deveria silenciar para sempre e deixar o novo mundo seguir seu curso ou tentar, mais uma vez, interferir?

"Devo eu decidir?".

A dúvida o tornava frio e esquivo. Mas a noite caía e com ela, outra visão, outra lembrança. Outra perda irreparável.

O tempo presente era próspero, cheio de felicidades, união e beleza. Ainda havia guerras, porque assim era a natureza do homem, mas eram conflitos isolados, que a força e a honra dos Reis acabavam por reduzir a cinzas.

Legolas parou, a tinta caiu outra vez formando outra lágrima. Os ecos dos passos mancos de Hlíf ressoando na sua cabeça.

Pousou a pena sobre a superfície e o som rascante empurrou as memórias misturadas.

"Só uma vez", pensou Legolas.

O rosto bonito do elfo se contraiu numa expressão pesarosa. As lembranças desapareceriam e em breve, ele poderia partir. Com muita sorte, chegaria até os Portos Cinzentos e os Valar concederiam a graça de memória e ele poderia contemplar o novo mundo cheio de felicidade.

A felicidade que não lhe cabia sentir naquele instante, enquanto ele era construído.

Rápido, Legolas, pensou, seja rápido.

Antes que o sol se ponha e as memórias se ocultem com ele. Escrevê-las era vivê-las e gravá-las em algum lugar a salvo, para que outros pudessem ler e compreender. Um dia, eles compreenderiam porque ele havia se tornado o que era. Poderiam, então, entender o preço a pagar pela paz.

E perdoá-lo.

Um singelo sorriso brotou no rosto do elfo. Como sempre, era um pensamento acalentador e logo, as linhas, curvas e pontos ganharam forma viva no pergaminho.

Frases salvavam vidas, pensou mais uma vez, antes de se entregar de corpo e alma, totalmente concentrado a tarefa.


III Era, 3020 Registro Gondor

Cermië, 15

Rio Snowbourn

O acampamento estava silencioso. Mablung e Damrod iniciaram a vigília, conversando baixinho por um bom tempo e então, ambos se quedaram pensativos, fitando a noite e os contornos da floresta.

Lothíriel despertou com a própria respiração descompassada e sentou-se alerta, o peito arfando e os cabelos soltos tombando desamparados em suas costas. Ela ergueu a mão e tocou na testa, úmida de suor. A noite parecia um grande borrão a sua volta, mas era uma madrugada calma com um ventinho frio e constante que a fez trazer a manta até o pescoço.

Só então, Lothíriel notou que não eram somente os homens de Faramir que estavam despertos. Háfoc estava sentado sobre uma saca escura, sua bagagem de viagem e executava movimentos ritmos com uma faca curta, parecendo estar apunhalando um pedaço de madeira com precisão. Fréolic estava deitado contra uma pedra, piscando e erguendo a cabeça a cada minuto, lutando contra o sono.

Lothíriel suspirou profundamente e Háfoc girou a cabeça na sua direção. Ela repetiu a saudação curta do rohirrim e surpreendeu-se ao notar que entendia seu gesto. Ele estava ali por ela, estava segura.

--- Não consegue dormir? – chilreou uma voz macia à direita de Lothíriel.

Ela quase saltou da própria pele de susto. Mablung e Damrod olharam pelos ombros, depois se voltaram tranqüilamente. Háfoc continuou marcando a madeira. A cabeça de Fréolic pendeu para frente, no instante seguinte ele roncou alto e tornou a erguer o tronco, provavelmente, assustado com o próprio barulho. Enroscou palavras sem nexo e a cabeça do homem voltou a cair para frente.

--- Meu Erü! – sibilou a princesa, atordoada com a súbita aparição do rosto de traços harmônicos e duas órbitas escuras que brilhavam como jóias negras. Lothíriel ajeitou a manta e estendeu a mão, beliscando o braço do elfo. – Você me assustou, Elrohir!

--- Assustei mesmo. – gracejou o elfo, mansamente. – Afinal, sou o Elladan.

Lothíriel empurrou uma mecha de cabelos atrás da orelha e riu. O elfo seguiu aquele som e a plenitude do mar na madrugada, escuro e denso, com seu perfume inesgotável e esmagadora sensação de poder caiu sobre os ombros da princesa.

Elladan. Claro.

--- Sim, Elladan. – ela esfregou os olhos e tornou a sorrir, alteando as sobrancelhas em um ritmo pensativo – Eu tive um sonho estranho...

--- Os humanos sonham bastante. – observou Elladan com simplicidade. O elfo sentou-se e esticou as pernas longas, apoiando o peso do tronco nos braços. Ao notar o silêncio pensativo da jovem, incentivou-a com um brando sorriso. – Você teve um pesadelo, não foi?

Lothíriel aquiesceu. Abriu a boca para dizer algo e então, tornou a fechá-la. De Repente, ela lembrou-se do que concordara em não revelar. Uma estranha visão que a realidade poderia tornar palpável e ela não queria sequer conceber a idéia.

Elladan estudou a face da princesa e maneou a cabeça para o lado, como se tivesse compreendido o que seria dito e não fora.

--- Está tudo bem, senhorita. – murmurou o elfo, por fim. – Não acontecerá nada de mal. Estamos aqui. – pausou, estudando as palavras - Entendo que tenha se assustado ontem com as palavras de Legolas...

--- Não. – Lothíriel resmungou, incisiva e sustentou os círculos escuros, onde refletia um espelho de compreensão além das palavras. Repetiu, séria. – Não, Legolas não me assustou.

Elladan manteve o silêncio cúmplice e aquiesceu brandamente.

Lothíriel prosseguiu, espiando Háfoc e os outros, antes de inclinar-se, aos sussurros.

--- Senti um medo desesperado, sabe... – Lothíriel empurrou os cabelos para trás, torcendo o nariz ao imaginar a própria visão desgrenhada. – Não deve ser nada...

Elladan fitou-a com interesse e simpatia.

--- O que foi? Pode me contar, se quiser...

Lothíriel engoliu em seco, ensaiando as palavras, mas o rosto do elfo era tão acolhedor que ela sentiu a tensão desaparecer. Elladan a fitava como se pudesse trazer o oceano singelo e quente de volta, a sensação que tinha em seu lar.

Onde era seu lar? Perguntou, uma voz dentro de si e Lothíriel fitou o acampamento com o medo voltando a nascer em sua alma.

"Resista".

--- O quê? – Elladan estranhou a mudança nítida na jovem e alinhou a coluna, estendendo sua mão para ela. – Sei que a jornada está sendo dura para você, mas tudo vai ficar bem quando chegarmos em Edoras...

Lothíriel maneou a cabeça em um vigoroso não e sentiu-se grata pela mão de Elladan apertando a sua. Esperou alguns segundos, até poder falar.

--- É que... – ela procurou a compreensão nos olhos escuros do elfo, antes de falar. Era tão difícil porque era uma parte dela, mas que não pertencia totalmente a Lothíriel para ser revelada. Mas ela precisava desesperadamente contar a alguém, por isso, desviou o rosto momentaneamente e falou, com uma fraqueza que não julgava existir em si. – É que ele... Ele me pediu para resistir. Disse que... – abaixou a cabeça, ensaiando as palavras - ... Ama-me...

Os olhos escuros do elfo cintilaram em dúvida, confusão e por fim, assombro.

--- Legolas? – exclamou, reticente.

Lothíriel arregalou os espelhos cinzentos e a confusão do elfo roubou o sangue das suas faces.

--- Não! – a mente e o estômago de Lothíriel reviraram em conjunto. Em um ato automático, conteve a mão de Elladan entre as suas e repetiu, veemente. – Oh, não, não! O riso veio como um catalisador de emoções. – Não Legolas! – ela abafou o riso, e explicou, docemente - Éomer!

Elladan piscou algumas vezes tentando compreender a locução complexa da jovem princesa.

--- Éomer?

--- Sim! – libertando tais palavras complexas, Lothíriel angariou coragem para buscar auxilio no elfo. – Sei que sou sonhadora e posso ter traçado contornos irregulares na imagem do Rei Éomer, mas... – as sobrancelhas escuras da jovem se uniram na fonte com assombro - Como ele pode me amar? Sequer me conhece! – Lothíriel fez um gesto largo com as mãos, libertando um perplexo Elladan. – Não estou reclamando, lógico...

Elladan, que levara um susto e tanto, caíra do alívio para o atordoamento. "Por Elbereth, o que essa criança está dizendo?".

Lothíriel parecia realmente atordoada e ansiosa por uma resposta, uma que não podia lhe dar. Afinal, Éomer não a conhecia, o que o jovem rohirrim teria escrito nas cartas para retirar o sossego da princesa daquela forma?

Ansiosa, Lothíriel, tendo retirado do peito a questão que atordoava seus pensamentos e julgando que tendo confessado o delito da curiosidade estava irremediavelmente lançada aquele erro, resolveu-se por fim a confiar no companheiro de viagem. Voltou-se para o travesseiro improvisado.

--- Não acho que eu deva... – antecipou-se Elladan, adivinhando a intenção da jovem.

--- Por favor, Elladan! – suplicou Lothíriel e quase achou graça da própria situação. A principio, recusara ler as cartas. Leu-as. Não queria mostrar a ninguém e contou a Elladan. Agora, não poderia mais conciliar o sono sem que Elladan dividisse com ela aquele fardo da dúvida. Naquele ritmo, em breve, a comitiva inteira saberia das cartas.

Elladan emitiu um curto suspiro. Era penoso ver a face de uma donzela em um conflito doloroso.

--- Está bem...

Lothíriel estendeu o dedo para a frase, escrita no tecido, as palavras amontoadas sobre sua cabeça. Balbuciou, numa mistura de medo, deslumbre e confissão.

--- Está escrito na carta. Para mim. – aliviada por contar com tal conselheiro, um que Lothíriel jamais poderia sonhar que haveria, a princesa arrebatou a carta de dentro do rolo perfeito, sob o travesseiro improvisado e estendeu ao elfo.

Elladan ficou sem jeito, mas certas desconfianças começaram a saltar no perímetro seguro da mente do elfo. E ele apanhou o tecido oferecido, tão longo desdobrou o objeto. Não era propriamente uma carta.

Parecia algo escrito às pressas, um aviso e uma promessa.

"Querida Lothíriel.

Resista.

Eu estou chegando.

Todo o meu amor.

Fielmente seu,

Éomer"

Para Elladan, aquilo pareceu um terrível suplício e uma ameaça. E apesar de reconhecer a letra de Éomer e a insígnia da Marca dos Cavaleiros, Elladan teve certeza absoluta que Éomer jamais escreveria tais palavras, tão íntimas e pessoais, alarmantes e definitivas para uma princesa prometida, que jamais conhecera.

Aquilo só poderia ser o sinal inequívoco de um único fato. Éomer conhecia Lothíriel e lhe suplicava para que tivesse forças para esperá-lo. Como isso poderia ser possível, Elladan não sabia, mas seu coração lhe dizia que estava certo.

Num impulso, Elladan buscou todos os integrantes da caravana e a lua cintilou no firmamento trazendo com seu brilho prateado a conclusão que estava certo.

Sem precisar como sabia, Elladan teve certeza.

Estavam indo para uma armadilha.

--- Temos que sair daqui! – reagiu Elladan, saltando ágil. A carta caiu de suas mãos e Lothíriel apanhou o pergaminho, alarmada com a reação do elfo. Sua voz rugiu em impressionante tom de comando – Levantar acampamento. Agora!

Elrohir, imediatamente, surgiu ao lado dos dois. Mablung e Damrod saltaram com igual rapidez, reunindo movimentos coordenados para desarmar o acampamento. Com uma troca de assovios baixos, Ieldran e Gerihtan fecharam a guarda de Lothíriel. Háfoc soltou os cavalos e levou Elrothiel para a princesa.

--- Dan, o que foi?

--- A caravana está em perigo. – Elladan proferiu, os músculos tensos, fitando o vau com desconfiança.

Lothíriel se apressou a dobrar e ocultar a carta na pequena bolsa que carregava atada a cintura. Aceitou as rédeas de Elrothiel estendida por Damrod. Buscou o rosto de Elladan, ainda confusa com a reação do elfo.

"Será que fiz mal? Oh, céus, por Erü, eu sou uma desmiolada mesmo". Ao perceber que divagava, Lothíriel forçou a atenção nos elfos.

--- Eu nada senti. – rebateu Elrohir, imitando o irmão gêmeo, estudando as margens do vau. Como sempre, a opinião do irmão era suficiente para suas ações. Sempre fora assim. – Vamos para o acampamento do marechal? Não acho prudente.

--- Vamos e não vamos... – Elladan afastou-se de Lothíriel, com Elrohir em seu encalço. – Não sei de onde vêm essa armadilha, Ro. – Elladan esfregou a fronte, estudando as possibilidades. – A arma mais eficaz contra uma armadilha é outra.

Elrohir acompanhou os passos do irmão. Seus olhos negros cintilaram, compreendendo a idéia de Elladan.

Ecebryne relinchou buscando chamar a atenção de Elrohir.

--- Onde for essa armadilha... não esperam que uma caravana como a nossa viaje a noite.– opinou Elrohir. – Vamos mudar nossa posição e então, partiremos com Lothíriel até encontrarmos o Marechal, mas...deixaremos um acampamento e um grupo para ataque – ante o olhar do irmão, o filho mais novo de Elrond devolveu uma expressão cética. – Não podemos esperar de braços cruzados.

--- É, você está certo. Vamos falar com os homens.– concordou Elladan. Preocupado, tornou – Ro, você viu Legolas?

--- Não, ele foi fazer o reconhecimento. Quando você gritou, eu imaginei que ele tivesse retornado ferido, ou com más notícias. – explicou Elrohir, intrigado com a expressão de Elladan. – O que aconteceu exatamente?

Elladan estudou o rosto do irmão por alguns instantes e explicou a carta. Os músculos da face de Elrohir sofreram ligeira mudança e por fim, relaxaram.

--- Bom... – Elrohir pareceu conter o sorriso em respeito ao irmão. – É um fato intrigante, mas creio que não devemos dividir com os homens. – Serio, pousou a mão no ombro de Elladan. – Confio na sua intuição. Vamos nos apressar.

Elladan fez um sinal para Mablung. Háfoc e Fréolic já haviam recolhido os próprios pertences. Expôs aos homens a necessidade de partirem, ocultando o detalhe sobre a carta, mas explicando os planos traçados. Os homens de Dol Amroth, Rohan e Ithilien aceitaram com naturalidade. Sabiam da audição apurada dos elfos, por isso, não houve perguntas diretas a Elladan, embora Ieldran, Gerihtan, bem como Mablung e Damrod não pareciam satisfeitos em deixar a princesa Lothíriel em qualquer outro lugar que não fosse Meduseld.

Háfoc e Fréolic apoiaram de imediato, eram guerreiros do éored de Éomer e isso implicava na disciplina ao receberem ordens. Além do que, eles estavam com as notícias sobre as mortes naquela região entaladas na garganta e só não saiam à caça devido à missão junto a caravana.

Elladan explicou que era justamente pela segurança de Lothíriel o ardil da armadilha. Traçaram planos. Com incrível precisão de tempo, o acampamento foi desmontado.

Após organizarem a partida, Elladan foi procurar Legolas e Elrohir vistoriou mais uma vez os arredores do acampamento.

Háfoc aproximou-se de Lothíriel, apoiada em Elrothiel. Ela havia acondicionado dois trajes em uma sacola simples, um deles de montaria na sela da égua branca e acabava de atar a túnica de inverno ao redor do corpo. Era longa ultrapassando seus joelhos, forrada com couro e justa até a cintura. Um presente de Elphir quando ensinara a navegar, alegando que o frio na Baía era intenso e piorava com a correnteza. Lothíriel sabia que seria útil na viagem.

--- Svana Lothíriel? – chamou Háfoc, virando-se de costas ao vê-la ocupada com o vestuário.

--- Hã? – Lothíriel assustou-se mais uma vez com o silêncio do rohirrim e voltou-se, com as tiras na mão, apertando a cintura. Sorriu de leve para as costas de Háfoc, terminando o laço com força. – Pronto.

Háfoc voltou-se devagar, cedendo tempo a ela. Parou de perfil e estendeu um objeto de madeira na direção da jovem, sem fitá-la.

--- Eu fiz isso... – o rohirrim pigarreou, e sacudiu o objeto de leve. – Para a senhorita... É um presente.

Os olhos de Lothíriel se apertaram de curiosidade, ela apanhou o objeto cuidadosamente e abriu um largo sorriso ao notar como era leve, embora parecesse maciço. De fato, ela bateu o indicador na madeira e imaginou que poderia deixar um homem desacordado com um bom golpe na cabeça.

--- Eu agradeço, Háfoc. – disse, com sinceridade. Estudou o objeto mais uma vez, notando que possuía uma corda de couro presa nas duas extremidades. – Saiba que me sinto muito mais segura com isso.

Háfoc voltou-se para Lothíriel estranhando o comentário. Encontrou um par de olhos cinzentos brilhando de felicidade. Com um gesto de gracejo, Lothíriel empunhou o objeto com um giro de pulso, como se fosse desfechar um golpe de espada no rohirrim.

--- Pela Marca! – suspirou o rohirrim, aturdido e indeciso, contendo o riso a custo. – Senhorita, isso não é uma arma...

Lothíriel parou o golpe imaginário no ar e trouxe o tubo para perto do corpo, fitando mais uma vez a madeira com curiosidade. Parecia uma alijava, mas ela não carregava arcos, sequer sabia disparar um.

--- É para seus manuscritos. – explicou Háfoc de mansinho. Fez um gesto que pedia licença e girou uma pequena tampa de abertura no tubo. A tampa caiu para o lado, presa pela tira de couro.

--- Oh.. puxa. – Lothíriel praticamente enfiou o rosto na abertura e ergueu os olhos arregalados na direção de Háfoc. – É fantástico! Como fez isso? – incrédula, Lothíriel deu as costas ao rohirrim e apanhou o rolo de pergaminhos fixado com uma fita na cela. Acondicionou ao tubo, lacrou a tampa e maneou a cabeça, aturdida. Assoviou impressionada. – Eu agradeço...mas... – repetiu, rindo baixinho – como fez isso?

Háfoc procurou o irmão como quem pede socorro. A reação franca e os modos de Lothíriel o deixavam desconcertado. Porém, diante da sinceridade admirada da moça, Háfoc relaxou os ombros e explicou em poucas palavras.

--- Nas últimas quatro noites. – parecendo embaraçado, ajuntou, sério. – Senhor Éomer pediu-me para fazê-lo, como presente a senhorita, mas não tive tempo de terminar antes de iniciar a jornada. Faltam detalhes... Eu tenho que terminar a inscrição, os símbolos de Rohan. Achei que seria útil entregar agora...

Lothíriel estava tão surpresa que demorou a notar que Háfoc esperava uma reação sua. O trabalho era primoroso, especialmente, pelo curto tempo de elaboração. Ela não conseguia imaginar o que estaria faltando, ou, o motivo que levara Éomer a dar-lhe aquele presente tão sugestivo.

--- Éomer Pediu? – piscou Lothíriel, feliz com a notícia. Corrigiu-se, depressa, ainda surpresa. Até onde sabia, Éomer não tinha ciência das cartas. – O senhor Éomer, quando?

Fréolic se aproximou dos dois, preocupado com o que o irmão estaria dizendo a jovem. Ao ver o objeto e a alegria visível de Lothíriel, compreendeu.

--- Meu irmão é muito hábil com madeira. – elogiou, orgulhoso. – Faz dispositivos úteis durante a guerra e cadeiras muito boas, quando não há guerra. – piscou, matreiro. – Na minha casa, tenho três cadeiras. – gargalhou alto, chamando a atenção de todos. – Muitas guerras, nunca consegue terminar a mesa!

Lothíriel riu junto com eles. Damrod e Mablung equipararam as montarias em torno dos três, observando a cena com semblante divertido. Ieldran e Gerihtan ladearam o grupo.

--- Temos que ir, princesa. – lembrou Ieldran, desmontando. – Os elfos partiram a frente, estão aguardando por nós...

--- Que belo portador de mensagens! – exclamou Gerihtan, elogiando o trabalho. Indicou o que carregava, junto com a alijava. Era menor do que o feito pelo rohirrim, o símbolo de Minas Ithil estava gravado no exterior, com delicadas lascas de marfim– Sem dúvidas, será muito útil para nossa princesa.

--- Sim, claro... – exultou Lothíriel fechando a tampa e puxou o lacre de couro. Fitou o objeto que Gerihtan carregava e acondicionou a tira passando pelo tórax, imitando a forma de carregá-lo – É assim, não? Diga-me, o que tem no seu, caro soldado?

Ieldran ajudou Lothíriel a montar em Elrothiel. Ela sempre reclamara daquela gentileza, mas estava tão entretida na conversa que se abstivera de admoestá-lo.

--- Mensagens para o Rei Éomer, é claro. – respondeu Gerihtan, com gentileza. – Iremos à retaguarda, princesa.

Lothíriel maneou a cabeça em agradecimento. Sabia que não era hora de perguntas e já se demoravam demais.

A luz da lua ainda reinava acima da caravana.


III Era, 3020 – segundo Registro de Gondor

Cermië, 15

Edoras

Capital de Rohan, Domínios do Rei

Marca da Terra dos Cavaleiros

Aquela lua estranha estava mexendo com seus nervos. Éomer tentava não pensar nas sombras escuras que corriam de encontro ao brilho prateado e serpenteavam a volta da estrela, ameaçavam apagá-la e engolir sua luz. Em breve, estaria amanhecendo e Éomer ficou feliz em sentir os aromas do final de madrugada.

Ele estava, mais uma vez, no aposento de conferências estratégicas, onde Ceorl entregara a mensagem de Erkenbrand e Clarig reportara as notícias do vale. Aquelas alturas, Drengi poderia estar dormindo na estrebaria com o seu cavalo, pois o pobre animal machucara-se seriamente ao perder a ferradura. Hlíf era o melhor na Marca, mas nada tinha um poder tão grande sobre os cavalos como a lealdade de seus cavaleiros nos tempos difíceis.

"Afinal, Ealfelo..."

Éomer cortou aquela linha de pensamento incômoda e torceu a fita sedosa entre os dedos, as pestanas flamejando em reflexo das luzes das tochas. Com um grande bocejo, Éomer recostou no espaldar de madeira e considerou suas hipóteses.

Dormir estava fora de questão e não queria mais se arriscar a sair na noite tépida. Finalmente, Eöný se recolhera, bem como Seafúss.

Dormir? Não. Não com aquela lua mascarada de sombras e os presságios que dela adivinhava. Como se uma nova noite fosse ser sobreposta a noite comum, uma armadura maligna que não podia ser recusada.

Distraído com os pensamentos, estudando seu íntimo, Éomer largou a fita e quase sem pensar, tateou o rolo sobre a mesa, soltando suas amarras e estendendo o material delicado com um cuidado inconsciente. A página superior estava dobrada, ocultando parte do inicio da carta.

"

...eu Querido Éomer"

"

--- Mulher encrenqueira – sibilou Éomer largando de súbito o pergaminho. Eis que as letras se enroscavam em palavras que faziam sentido e ele subitamente compreendeu que se tratavam das cartas de Lothíriel. Praguejou uma segunda vez contra Dóra, que não executara suas ordens e largara aquela parte da princesa Lothíriel ali. Não havia dado ordens claras para levar aquele rolo de confissões ao seu quarto? – Isso não vai ficar assim. – resmungou, insatisfeito. Era a segunda proeza atrapalhada da noite e na manhã seguinte, ele teria uma séria conversa com a governanta. Recolheu os pergaminhos, impaciente e irritado.

Os olhos ardendo de cansaço, arregalando-se em dois círculos dourados de um sol líquido e quente, quando compreendeu o teor total da simples frase.

Éomer hesitou e sem saber o motivo, suas mãos estremeceram sem firmeza, voltando a abrir aquela folha inocente.

Endereçado a ele.

"Como?"

As sobrancelhas do rohirrim se encontraram na fronte e ele relegou os pudores iniciais da confidência para segundo plano. Por que Lothíriel enviaria uma carta a ele através de Éowyn?

--- A não ser... que ela soubesse que Éowyn me enviaria... – deduziu Éomer, surpreso, intrigado e então, desdenhando da própria conclusão. Ainda assim, os riscos de "eles" e pernas de "efes" floreados, seguidos por uma curva acentuada para a direita, firme e elegante da caligrafia de Lothíriel o atraíram e soube que havia perdido a batalha da curiosidade bem ali.

Éomer arrebatou a carta, desdobrou a marca que ocultava as primeiras palavras e seus olhos se estreitaram.

"Meu mais caro e Querido amigo,

Meu único amor e prometido,

Meu Querido Éomer,

Quando esta chegar em suas mãos, é possível que meu destino esteja alterado e meu coração não encontre o seu. Lembra quando disseste que havia explicado a Éowyn que a guerra é a província dos homens? Devo estar, então, na capital desta traiçoeira província, trancafiada no baluarte do governo de homens, mas eles estarão estendidos no chão e apesar disso, tudo que consigo pensar é no seu nome..."

O coração de Éomer errou uma batida. Sua mente correu vertiginosa para o passado e então, embrenhou-se nos dias sanguinolentos, cheios de confusão e guerras. No acampamento, sim, ele teria dito isso a Éowyn, o instinto previdente alertando-o do rumo dos pensamentos da irmã.

--- Como, quando? – Éomer balbuciou, perplexo e seus olhos correram pela carta, sua mente, correndo do passado para o presente. Repetiu, atordoado, em voz alta buscando uma explicação. – Quando, eu terei dito isso a princesa? – o rohirrim riu, contrafeito. Decerto, a jovem princesa se equivocara e acrescentara algumas palavras de maneira errada.

Ou talvez, pensou o Rei, sua habilidade o pegou desprevenido. Afinal, a cultura de Rohan adivinha da tradição de cantar, contar histórias, anos a fio, de pai para filho. Théodred recebera educação esmerada, hábil com palavras e afeito a estudos. Naturalmente, Théoden estendera a educação de um sucessor para seus sobrinhos, entendendo-o como filhos do coração. Porém, Éomer não se considerava hábil com as palavras e freqüentemente, o maior acervo que consultava para seus atos era a própria consciência.

Com esse pensamento, em uma avaliação calma e fria das próprias limitações, Éomer releu o trecho, buscando um erro de interpretação. Sem encontrá-lo, retomou a leitura, julgando se tratar de um jogo de palavras de Lothíriel.

"Querendo que você se apresse, rezando para que nunca chegue.

Ao menos, se tivéssemos mais tempo. Mais tempo para ver os campos de mãos dadas, com o seu riso fácil sobre o topo da minha cabeça. Muito mais estrelas iluminando a antiga discussão ou um simples beijo de boa noite...

Quero que você se apresse.

Rezo para que nunca chegue".

Éomer sentiu que não poderia mais ficar ali parado. Ergueu-se, a carta em suas mãos, as palavras sobressaindo como cunhadas em fogo do frágil material entre seus dedos. A carga emocional que o atingia parecia um ser vivente e dono de vontade. Seria sua futura esposa alguém tão cheio de um estado de espírito arrebatador, a ponto de imaginar o dia-a-dia do casal e transformando-o em uma carta? Uma gota de suor cobriu a fronte dele e Éomer a retirou com impaciência.

--- Eu? Riso Fácil? – repetiu Éomer, incrédulo.

Ele era um homem simples. Da guerra. Transformado a Rei por uma sucessão de infortúnios, fazendo o melhor que podia dado a situação. Enfrentaria com orgulho, sentia-se honrado. Aquela carta, não parecia direcionada a um homem como ele.

Éomer arqueou a sobrancelha e continuou a leitura.

--- Chega de absurdos, Éomer. – retrucou, aborrecido consigo mesmo. Era o que era. Ponto final. Baixou os olhos, contrariado com a carta que se apresentava como uma nova estratégia, um novo enigma para decifrar. Outro obstáculo em sua série de problemas, mal visto e indesejado.

"Poderei não ser forte o suficiente, meu amado. Pode me perdoar?

Não será pela minha vontade. Saiba que lutei com fúria, arrebatamento e lágrimas fugindo das adversidades do caminho para reencontrá-lo...

Oh, eu quero que você se apresse!

Como rezo para que nunca..."

--- Pela glória da Marca! – Éomer expeliu o ar dos pulmões e fechou os olhos. Sentiu-se picado, atordoado, confuso com aquele desabafo romântico, dramático e enigmático. Pousou os olhos claros sobre o pergaminho e suspirou. – O que está acontecendo com esse mundo?

--- Senhor Éomer?

Éomer não ouviu a voz que o chamava, um estranho arrepio percorreu sua coluna, com aquelas linhas simples e elegantes, que pareciam conter um infinito de emoções e uma desconcertante intimidade.

Passou pela sua mente a insana conclusão que alguém teria ludibriado a sua prometida e teria a intenção de cobrar o prêmio. Éomer preocupou-se. As movimentações na região cresceram na sua mente. Alguém estaria iludindo Lothíriel e se apresentaria como ele?

Éomer maneou a cabeça em negativa. Era impossível. Os filhos de Elrond conheciam sua terra, viajaram ao seu lado. Legolas o conhecia.

"Mas e se as armadilhas da marcha tivessem os elfos como alvo?"

Nesse ponto, um sorriso frio veio brincar nos lábios do Rohirrim. O plano seria fraco, decerto, alguém que não conhecia um elfo. Quem diria, os filhos de Elrond e o arqueiro da floresta, membro da Sociedade.

Reconfortado com a lembrança, retomou a leitura. Charadas e enigmas atiçavam sua curiosidade, astúcia e senso de desafio.

"Como rezo para que nunca chegue. A tempo de ver o que os homens fizeram de sua província. A tempo de ver..."

--- Meu senhor Éomer? – insistiu a voz, persistente e urgente. Sua urgência era tanta que atraiu finalmente, a atenção do seu Rei, completamente atônito e confuso com aquele fragmento roubado.

"Seria uma fraude, uma brincadeira, um pesadelo?"

Éomer desgrudou os olhos do pergaminho com uma lentidão dolorosa, pois que o som ribombava urgente, afluindo seu sangue mais depressa e os ouvidos em sobremaneira capacidade de detectar o perigo.

Leu as últimas frases, atônito e envolvido na mais perplexa das emoções.

Seria um sonho? Como ela poderia expressar tais sentimentos...a alguém que jamais conhecera?

Éomer recuperou-se do choque ao ver o estado daquele que o interrompia. Clarig, mais uma vez, na mesma sala caiu de joelhos e desapareceu de seu campo de visão. As portas se abriram e Éothain entrou apressado, parte da roupa de dormir coberta pelo manto da Casa e uma espada em suas mãos.

O Rei deixou sua posição estática e gritou ordens. Elas mal saíram da sua boca e passos apressados correram para torná-las tarefas em andamento. Com a lentidão de sonhos, Éomer alcançou Clarig e amparou o homem pelos ombros, ajoelhando-se no chão.

--- Todos morreram... – sibilou o homem, nos estertores da morte. – Todos, meu Rei... Todos!

Sua túnica manchou-se de sangue e as palavras floreadas de Lothíriel rodopiaram em sua mente, os últimos trechos daquela misteriosa e enigmática carta.

"Meu único amor...

Um simples beijo de boa noite...

A tempo de ver que nada restou..."


Repe – cruel, inglês arcaico.

Nota da autora – Para não confundir muito a cabeça do leitor, quando houver menção ao "novo mundo", será no início do capítulo, marcado pelo cabeçalho no ano de 3021.

Há muitas surpresas no ano de 3021. O arqueiro não ficará preso muito tempo e ele não é, nem de longe, a maior das surpresas.

Eu sempre gostei de histórias em que o passado e o presente se interligavam, elaborei esta fanfic com muito prazer e cuidado. Espero que gostem.

O próximo capítulo será postado em breve.

Aguardo reviews.