O NOVO MUNDO
O TEMPO E O DESTINO
III Era - 3020 Registro de Gondor
Edoras, Capital de Rohan
Terra da Marca dos Cavaleiros
A taverna na cavalaria estivera cheia por boa parte da noite. Enquanto organizava a desordem entre jarras e chávenas sobre o balcão, Siafi lembrava-se de quando se transferira com a família de Aldburg para Rohan. Os anos voaram célebres e inclementes para alguns deles. Os cavaleiros da Guarda se despediam e Siafi gritava até breve para todos, e parecia se lembrar de quando, um a um, aqueles rostos haviam retornado a taverna com uma nova cicatriz. Com o passar do tempo, eles todos deixaram de ser meninos para serem homens, cavaleiros audazes, lutadores ferozes, treinados pelos seus capitães.
O tempo passava!
Entre uma briga sem importância, mesas quebradas, honras estremecidas pelo temperamento forte daquela terra, casamentos, mortes e estações do ano, Siafi observava sempre ele, o Tempo, deixando marcas inclementes no seu povo.
Siafi dispôs tudo sobre o balcão e logo a esposa veio corrigi-lo. Sacudia o avental alvo de linho e a tábua de frios, coberto por uma toalha bordada. Ele sabia que ela era cuidadosa, tinha pressa em guardar logo o queijo, mas primeiro, precisava implicar um pouco com o marido, caso contrário, não estariam fechando a taverna.
Siafi, como todos os homens de Rohan, adorava discutir com a mulher. Eles estavam sempre com a cabeça quente, enlouquecidos com aquela obra estranha de Erü, que dera pulso de homem em corpos femininos. Mas sem exceção, todos os homens da Marca adoravam mulheres com espírito. E o "espírito" nunca era tão evidente quanto durante uma boa briga.
O taverneiro sorriu para si próprio e observou a mulher ralhar com ele, guardando as peças de cerâmica em uma tábua maior, de um jeito caprichado, cuidadoso. O rosto dela estava vermelho, as bochechas eram dois vulcões e os olhos lançavam chamas quando o fitava. Alguns fios grisalhos salpicavam a cabeça dela, mas Siafi era o único que os conhecia direito, porque ela ainda parecia jovem, a massa de cabelos loiros na bonita trança enrolada na nuca.
Distraído, Siafi retornou ao passado e não respondeu. Ele acompanhara muitos soldados meninos, cavaleiros de pôneis e adolescentes inocentes tentando descobrir como ultrapassar a barreira do beijo. Assistira centenas de histórias e às vezes, só para fazer troça, Siafi espanava os jovens dali usando a vassoura. Contava tudo para Théoden, que ria tanto a ponto de jogar cerveja na barba e na túnica. Por meio de Siafi, Théoden ajudava aqueles do seu povo que não tinham coragem de chegar até os portões de Meduseld.
Siafi registrou que a mulher havia parado de gritar com ele quando sentiu um toque suave em seu ombro. Dentro da íris escura, Siafi relembrou outras cenas, de um passado distante que parecia ter acontecido ontem. Théodred era exatamente como o pai. Com a autorização de Théoden, Siafi expulsava o jovem da taverna, mas acabava encontrando Théodred na cozinha, ajudando Alwene e assim como toda Rohan, Alwene era apaixonada pelo jovem príncipe, mimando-o de todas as formas e, contudo, Théodred jamais abusava da confiança e do amor que despertava.
As portas da taverna se abriram e Siafi piscou, afugentando o passado. Alwene continuava silenciosa, a mão em sem ombro, oferecendo um conforto sem palavras e nem por isso, vazio. Théoden estava morto e Théodred também, Éowyn casara-se, centenas de bons homens haviam morrido, mas não estavam ao abandono. Com a graça de Erü, o único, Éomer sobrevivera à guerra com glória e honra. Siafi, como a maior parte dos eorlingas tinha fé no sobrinho de Théoden.
Ele não sabia porque andava daquele jeito, mas não era o único. Muitos haviam mencionado o passado naquela noite e agora, não podiam mais perder tempo com lembranças. O próprio capitão da guarda viera convocar alguns homens do éored e eles estavam agora se preparando para partir nos primeiros raios da Aurora.
Haverá mais guerra? Pensou Siafi, beijando a fronte da esposa numa linguagem própria do casal. Ela compreendeu e levou os utensílios para a cozinha. Siafi contornou o balcão para avisar o recém-chegado que deveria encontrá-los no pátio da cavalaria.
A luz das tochas se tornou fosca perdendo-se para o brilho da Aurora, que era vista da única janela, na entrada da Taverna. Siafi caminhou para lá, só reconhecendo naquele instante o perfil do homem.
As cores alaranjadas se derramavam nos campos alvos e se espalhavam como línguas de fogo, feixes de luzes amarelas e ambarinas. A manhã corria como uma criança pura nos campos de Rohan.
Siafi estudou o perfil de Éomer enquanto o Rei parecia hipnotizado pelo espetáculo da saudação matutina. Seu punho estava cerrado, o maxilar rígido, os olhos perdidos em pensamentos distantes. Ainda lembrava o rapaz muito sério que acompanhava o primo adulto, atencioso e responsável levando Éomer em suas visitas à Taverna. Siafi parou ao lado de Éomer, ajustou o peso da perna e ficou em silêncio observando o nascimento do novo dia.
Mais uma vez, pensou em Théodred. Muitos anos antes daquele dia, Siafi apanhara Éomer e Théodred na mesma contemplação. Théodred dissera a Éomer que a Aurora tinha uma canção especial para Rohan.
Falara baixinho, os olhos azuis de um céu antes de tempestade, mortificado com a própria idéia.
"As manhãs me contam que vou morrer cedo, mas não será em vão. Eu sentirei falta de muitas coisas nesse mundo, com um sorriso melancólico, Théodred pendera a cabeça para o lado. Como a aurora em Rohan".
--- Manadh. – sibilou Éomer, a voz grave e rouca, voltando o rosto para Siafi.
O taverneiro sustentou aquele olhar duro o quanto pôde. Um brilho metálico transformara os olhos castanhos de Éomer em uma superfície fria, que não refletia luz. Sem compreender a natureza daquele olhar pousado sobre seu rosto, Siafi desligou-se das próprias memórias.
--- O que é isso, meu Rei? – perguntou, abaixando o rosto.
Éomer maneou a cabeça, afastando os pensamentos que vinham sem aviso. A palavra viera a sua memória ao acaso. Estudou a postura humilde de Siafi e se envergonhou por tê-lo assustado. O taverneiro vira meninos se transformando em jovens, homens em guerreiros, mas não sabia como isso acontecera. Não lavara o sangue dos próprios irmãos nas suas roupas, vira expressões de surpresa, choque, terror e ódio em seus rostos.
Siafi não sabia como meninos se transformavam em guerreiros.
Éomer pousou a mão no ombro dele com gentileza por um instante e esboçou um curto sorriso.
--- É destino, na língua dos elfos. – explicou Éomer. – Aprendi com um dos guerreiros da terra de Valfenda. – a voz de Éomer se modulou em timbres densos. Era uma boa lembrança. – Os filhos de Elrond concederão a graça de suas visitas mais uma vez.
Siafi fitou Éomer com um breve sorriso. Círculos escuros adornavam sua face sobre os olhos castanhos-dourados. Ele parecia cansado e decidido. Siafi soube que Éomer pensava no mesmo que ele. Um pouco de alegria seria bem vindo.
--- Não caem à toa, os elfos amigos dos homens. – ponderou Siafi, com uma risadinha. – Nem todo o malte da Marca pode atordoá-los. – o taverneiro sacudiu a cabeça, admirado. – E que belas vozes eles têm! Criaturas estranhas... É o que digo. Podem bramir a espada, nada os derruba e, contudo, cantam para provocar a inveja do maior trovador dos homens.
Éomer arqueou uma das sobrancelhas e riu com a memória. Após o funeral de Théoden, Éowyn decidira que Rohan merecia uma festa para celebrar a vitória sobre Mordor, para celebrar os guerreiros que haviam morrido em glória, honrando a Terra da Marca dos Cavaleiros com sua coragem. Os cantos funerários haviam partido o coração das mulheres e alquebrado os homens, mas eles também tinham motivos para se orgulhar e ter esperanças. Éomer concordara com a idéia, um pouco relutante a principio, mas se tornara uma excelente providência. Os filhos gêmeos de Elrond concordaram em ficar, antes de retornar para Valfenda e atraíam os olhares e a admiração aonde iam.
Drengi, embriagado desafiara os elfos, o que Éomer já sabia, não era uma boa idéia, mas o intuito de Drengi era aproximá-los dos outros, e ele não interferiu. Cantaram e beberam, beberam e cantaram, até toda a Rohan estar embriagada, dançando sozinha e pelos campos, com as vozes cristalinas dos elfos tilintando madrugada adentro. Os únicos que não haviam padecido de fortes dores de cabeça depois.
Até Éowyn parecera pálida e desfeita no dia seguinte. Fato que na privacidade de Meduseld, Éomer não perdoara um único instante, ameaçando descrevê-la para Faramir.
Éomer sorriu. Sentiu saudades de Éowyn. Estivera com a irmã toda a vida.
Corrigindo-se, Éomer cruzou os braços à frente do corpo apreciando a manhã. Ele saía com o éored inúmeras vezes, deixando Éowyn no palácio. Era justo que a irmã obtivesse um quinhão de felicidade duradoura na vida. Algo lhe dizia que Faramir não sairia um instante do lado da irmã.
Ela merecia e, portanto, Éomer expulsou o pensamento egoísta para longe. O que precisava mesmo era ir buscar a futura esposa e deixar a irmã em paz.
O espetáculo vermelho-alaranjado explodiu em fagulhas de ouro e a manhã esticou os braços sobre Rohan.
O barulho no lado externo da taverna se tornou mais potente. Os homens organizavam suas armaduras, as montarias relinchavam impacientes. A conversa era rápida e eficiente.
Éomer voltou o rosto para Siafi, muito sério.
--- Preciso de um favor seu, mestre Siafi. – pediu com esmerada polidez, baixando tanto o tom de voz que Siafi precisou inclinar-se para compreendê-lo. – Cuide da dama Ëoný. Saefúss é seu amigo e você conhece o segredo. Peço que fale com sua esposa também, Alwene sabe como convencer Ëoný a se comportar. Tenho pressa, mas só partirei tranqüilo se você me prometer que fará isso.
Confuso, Siafi aquiesceu.
--- É claro, meu Rei, tem a minha palavra de honra. – hesitou, considerando que Éomer tinha pressa, mas ele pareceu entender suas dúvidas e continuou fitando o rosto do taverneiro. Encorajado, Siafi tornou, preocupado – É necessária sua partida, senhor? Quem ficará em Édoras?
Em resposta, as portas da taverna se abriram. Gamling bateu as botas com força no chão e sacudiu o cabelo comprido e escuro coberto de poeira. Atrás dele, Andsvarr entrou dando-lhe um forte tapa no ombro. Composto e com expressão solene, Haerfaest seguiu os homens, com Ulfhéionn e Saefúss ladeando-o.
--- Não faltará segurança em Édoras, Siafi. – tornou Éomer fitando rapidamente o rosto de cada um deles. Demorou um pouco mais sobre o rosto de Saefúss, achou que o homem pareceu mais velho e cansado, mas mantinha a coluna ereta e tinha o olhar sereno. Saudou-os com simplicidade, voltando-se para o taverneiro. – Sei que os homens passaram boa parte da noite aqui, mas peço que, se possível, demore um pouco mais e sirva o desjejum para nós.
Ao invés de usufruir os pratos de Halldóra em Meduseld, o Rei vinha comer em sua simples taverna. Siafi se surpreendeu e então, abriu um sorriso genuíno.
--- É claro, por favor... – ofereceu a taverna com um gesto largo – Acomodem-se. – os homens seguiram o Rei e Siafi se apressou à cozinha.
XXXXX
Éomer aguardou que todos se acomodassem a mesa. Estudou-os um a um, tentando adivinhar seus pensamentos. Antes de entrar ali, Éomer sentia-se muito cansado. A vigília e as preocupações fazendo com que sentisse os vinte e oito anos da sua vida como muitas dezenas a mais. Porém, como sempre ocorria, após ter tomado decisões sobre o que faria e a idéia de cavalgar junto com o éored nos campos de Rohan, estar em ação e não apenas esperando tiveram um efeito de potente adrenalina em seu corpo.
Gamling empurrou Andsvarr chamando-o de rapazote. Haerfaest bocejou espiando com olhos sonolentos a direção da cozinha.
--- Preciso ter certeza que a comunicação será efetiva. – iniciou Éomer, chamando a atenção deles. – Gautáor receberá o aviso para retornar ao Folde Oriental, assim, quando o conselho souber que apoio todas as suas ações, capitão, não haverá discussão sobre os prisioneiros e a solicitação dos homens pela terra invadida.
Ulfhéoinn aquiesceu, satisfeito. Ao saber que Éomer partiria com um terço do éored havia se preocupado em enfrentar o conselho sozinho. Era um homem de guerra, lutas e defesa, pouco afeito à diplomacia.
--- Salvo pela trombeta – brincou Andsvarr, e isso trouxe um ar contrafeito em Ulfhéoinn. Efeito que só aumentava a implicância amistosa do grupo. – Salvo pelo Rei! – repetiu, com um ar de lamento ao fitar Éomer – E eu, serei salvo?
--- Ficará no Conselho, Andsvarr – disse Éomer baixinho. Seus olhos sorriam, embora os lábios mal se movessem. – Acha que herdou apenas os fantásticos cavalos e o feudo? Herdou do nobre Herubrand também a cadeira no Conselho.
Siafi se aproximou junto com Alwene. Os homens saudaram a esposa do taverneiro com satisfação e demonstraram gratidão diante da caprichada refeição disposta. Pães, queijo, uma jarra de líquido escuro, vinho e água. Alwene desapareceu e retornou com copos e pratos, talheres e guardanapos. Prometeu tortas doces e tornou a sumir de vista.
--- Sorte minha. – sibilou Andsvarr após a saída dos dois.
Haerfaest inclinou o corpo, os olhos sonolentos seguindo a direção da cozinha, a espera dos pães finos e recheados, especialidade de Alwene.
--- Não fique praguejando. – aconselhou Gamling arrancando um naco de pão e servindo-se de vinho. – Eu servi ao Rei Théoden quando aquele maldito do Língua de Cobra vivia nesta terra e senti falta do Conselho. – os lábios de Gamling se apertaram. – Como senti... Pena que não o matei.
--- Digo o mesmo. – tornou Éomer, arqueando uma das sobrancelhas.
---- Oh... Obrigado, meu Rei. – Gamling deu uma risadinha irônica ao ver o tom cereja do vinho.
Éomer retornou a jarra de água à mesa, após diluir o vinho de Gamling. Serviu-se de chá e ignorou a comida no próprio prato.
--- O mensageiro trouxe a confirmação que os eorlingas de Elfhelm cercaram os malditos no oeste do Emnet, fingindo-se de pastores. – informou Éomer, atraindo um olhar irado por parte de Gamling. Sua voz se tornou mais baixa, compartilhando a raiva do conselheiro - Assassinaram Duerdelan e os jovens que deixaram Rohan no inverno. Autorizei Gautáor conduzi-los para o Folde Oriental, de volta onde começaram.
--- Quando esses infelizes vão aprender o lugar deles?
--- Dizem o mesmo sobre nós. – rosnou Éomer, mau-humorado.
Os olhos de Saefúss brilharam.
--- Os homens gostarão disso. – com movimentos seguros e muitos calma, Saefúss serviu-se lentamente, enquanto falava, sem desviar a atenção sobre o rosto de Éomer. – Saber da justiça é diferente quando não podemos saboreá-la. É verdadeiramente justo assistirem a condenação deles. – ergueu o copo e maneou a cabeça. – Eu o saúdo pela sua sabedoria, Rei Éomer.
Gamling franziu o cenho com o tom polido de Saefúss. Haerfaest pareceu despertar rapidamente com o estranho diálogo. Andsvarr largou o alimento sobre o prato e cerrou os dentes.
Éomer fez um sinal discreto com a cabeça e ninguém se atreveu a interrogar as palavras Saefúss.
--- Os elfos lideram a Caravana e mudaram o curso da marcha. Nenhum deles encontrou com Elfhelm. Gautáor e o próprio Elfhelm deixaram homens na rota programada para a segurança deles, mas os homens precisam ser reorganizados. – finalizou Éomer, como se o instante de tensão não houvesse existido. Escolhendo as palavras com cuidado. Recomeçou, consternado – Homens do éored de Elfhelm foram encontrados assassinados. Quero que o responsável por isso pague.
--- Se não fosse por Clarig, sequer saberíamos... – concordou Haerfaest, em tom sombrio.
--- Foi traição, tenho certeza. – repetiu Gamling, causando mal estar nos companheiros. Exceto Éomer que o fitava em silêncio. – Homens que lutaram ao lado de Théodred, Erkenbrand e Grimbold. Homens que resistiram e defenderam o Forte da Trombeta, marcharam por Gondor. – Gamling silenciou, estremecendo de fúria. – Não eram meros cavaleiros ou fazendeiros que portam armas pela necessidade. Eram os melhores homens. – bateu o punho na mesa, encarando Éomer com tenacidade. – Existe algo de tenebroso e venal nisso, meu senhor, por isso, eu insisto que vá com mais homem.
– Somos fortes unidos. – falou Éomer lentamente, recostando-se no espaldar da cadeira. – Irei descobrir Gamling.
--- E Clarig? – quis saber Saefúss, a fronte contraída. – Como está?
--- Hlíff está com ele. – notificou Haerfaest. – Está lutando, perdeu muito sangue. É jovem, há esperança.
--- Hlíff cuida dos cavalos. – replicou Saefúss, inconformado.
--- E cuida de homens também – tornou Andsvarr, incontido. – Há de culpá-lo por ser hábil com homens e cavalos? Acha indigno?
--- Édoras tem uma casa de cura, isso... É inadmissível.
Éomer fechou os olhos rapidamente.
--- Chega. – falou, baixo. Eles se calaram e Éomer inclinou-se, apoiando os braços na mesa. Saefúss devolveu seu olhar, como quem acusa sem palavras. Éomer começava a se cansar da postura agressiva do conselheiro, mas estava determinado a controlar o gênio. E sabia o motivo que levava Saefúss a tanta má vontade com Hlíff. – Não quero discussões.
O capitão de Gautáor, pouco acostumado às ironias do conselheiro, levou algum tempo para engolir o protesto. Respeitando a vontade de Éomer, retomou o assunto de seu interesse.
--- Batedores e mensageiros demoram no percurso e não é bom que saibam do desaparecimento do Marechal. De qualquer modo, sei que não é qualquer armadilha que pode deter Elfhelm. Eu partirei após a reunião do conselho, com sua permissão, meu senhor – disse Ulfhéionn, recebendo um movimento de concordância por parte de Éomer. Continuou – Pretendo estar presente quando o Marechal se reunir em Aldburg. Não quero estar distante dos meus próprios atos.
--- Irei com você, capitão – disse Saefúss. – Com a partida de Éomer, não há motivos para ficar aqui. Meu interesse era justamente, a reunião do Conselho, o que obviamente já está resolvido, no tocante a Aldburg. – os olhos do conselheiro retornaram ao rosto de Éomer. – Outros assuntos particulares podem esperar. Minha filha ficará na corte.
Éomer contraiu o maxilar e, mais uma vez, manteve o silêncio. Denso, pareceu aumentar e repousar no ombro dos homens. Éomer ignorou o olhar de curiosidade de Gamling, enquanto Haerfaest, Andsvarr e Ulfhéoinn fingiram um súbito interesse nos itens dispostos à mesa.
"Obrigado, Théodred. Muito obrigado", pensou Éomer, arrependendo-se logo em seguida. Tinha certeza que Théodred gostaria de estar lidando com aqueles assuntos a que perder a vida na batalha do Isen.
Fitou Saefúss mais uma vez e replicou, com ironia, no silêncio de seus pensamentos. "Talvez não".
O apetite de Éomer desapareceu. Teve a certeza que Saefúss realmente achava que ele, Éomer havia comprometido a filha. Um arrepio de medo percorreu sua espinha, imaginando se Saefúss esperava que ele fizesse algo a respeito e se as implicâncias no conselho, por parte de homens no Folde Oriental eram obra do antigo amigo de seu tio. A tensa discussão com Ëoný e o pai na madrugada ganhou contornos ainda mais graves na sua mente. Éomer estudou o perfil de Saefúss, enquanto este conversava com Gamling.
Depois de tantos anos de amizade, Éomer duvidava que Saefúss seria capaz de algo tão baixo. Era um homem de sentimentos nobres, caráter firme, embora bastante fechado, não compartilhando suas preocupações com ninguém. Espanou as preocupações e retomou a linha de pensamento.
--- Ainda não há notícias de Elfhelm. Seguirei com quarenta homens do meu éored, o restante ficarão em Édoras, sob as ordens de Éothain. – os olhos de Éomer escureceram e percorreu os homens ali com intensidade. – Confio em vocês para decisões e a segurança de Rohan até o meu retorno.
--- Honraremos sua confiança com nossas vidas, senhor. – proferiu Gamling, com as notas de sinceridade que garantiram sua trajetória constante ao lado de Théoden. Ergueu o copo e fez um brinde aos homens da Marca.
Siafi retornou, questionando se desejavam algo mais. Éomer fez um gesto amplo que indicava a saída da taverna. Os homens agradeceram ao desjejum antecipado.
Éomer esperou que todos saíssem e agradeceu mais uma vez a cortesia de Siafi.
--- Não tema. Vocês estarão seguros. Eu preciso ir. – retirou a mão e despediu-se – Até breve.
Tão rápido como fora a sua chegada, Éomer partiu.
Alwene retornou para junto do marido, olhando os homens prontos para a partida. O sol batia de frente para a taverna e enchia o campo com uma névoa dourada, recortando as costas de Éomer como uma moldura. Éothain aproximara-se em rápida marcha do Rei e entregava o elmo, que cintilou na distância.
Siafi e Alwene observaram a ação da manhã. O vento enfunou a bandeira verde e ampla; sedosa e livre. O cavalo branco empinado em desafio dos eorlingas encheu os dois de contentamento.
--- Ele é um bom homem. – disse Alwene, apoiando a mão na curva do braço de Siafi.
--- É o melhor. Concordou Siafi, murmurando - Até breve. Vida longa ao Rei.
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Éomer caminhou rápido para o Pátio da Cavalaria, parou na depressão alongada que se curvava em um declive. O Pátio era um fosso plano e extenso, bem cuidado e marcado pelo uso contínuo das montarias. Possuía um trilha larga suficiente para oito cavaleiros conduzirem suas montarias lado a lado e seguia direto para o portão de Édoras. Atrás do Pátio, ficava a taverna, a residência da Guarda e do seu éored, os estábulos reais e um campo extenso para os treinamentos e para o exercício diário dos cavalos.
Era uma boa terra. Éomer sentia orgulho dela.
Éomer saltou a depressão e Firefoot veio trotando na direção de seu cavaleiro com um relincho baixo e amistoso, a guisa de saudação. Os homens silenciaram e Éomer observou satisfeito que todas as selas de marcha estavam nos cavalos, as armaduras brilhando com os raios da manhã e não havia ninguém faltando no grupo selecionado.
Enquanto montava, Éomer sentiu que uma consciência poderosa tomava conta dele. O mundo parecia mais justo e dinâmico quando os eorlingas partiam em marcha. Pressionou a barriga de Firefoot com os calcanhares de maneira gentil, lembrando ao amigo que tivesse paciência. Era uma manhã ensolarada, com o cheiro pungente de grama, terra úmida revirada pelos animais e o óleo usado para lubrificar a armadura. Tudo que o fazia lembrar do pior e do melhor, e naquela dualidade de emoções, Éomer sentiu-se em paz. Equilibrou-se ereto na sela fitando o horizonte e colocou o elmo.
Partiria com um terço do éored, deixando um contingente dos seus eorlingas em Édoras. Junto com a guarda do palácio e os homens de confiança, Éomer sabia que seria suficiente. Mais do que aquilo, somente um ataque de guerra e seus instintos lhe diziam que não era aquele o caminho do seu inimigo.
Sabia também que os conselheiros teriam trabalho em dobro. Decerto, todos iriam querer saber o motivo da sua partida. Debaixo do elmo, Éomer sorriu. Uma sensação gostosa e juvenil percorreu seu corpo e ele curtiu por alguns instantes o atrevimento daquela criatura generosa chamada liberdade.
Éothain segurava a rédea de Firefoot e ofereceuuma maça que o animal aceitou com voracidade. Parecia tão infeliz em ser deixado para trás que Éomer apiedou-se dele por alguns instantes. Bateu com a ponta de Gúthwinë no ombro de Éothain de leve, antes de embainhá-la.
--- Siga minhas ordens. Aguardo Drengi. – proferiu Éomer lançando um último olhar para Éothain e estreitando as rédeas de Firefoot. Ergueu a voz grave em uma ordem que soou tão forte quanto a trombeta. – Cavalguem para o norte, eorlingas!
Houve um coro em resposta. Uma palavra que não precisava de letras, apenas um grito rouco e primitivo liberto da garganta, finalmente livre da represa no coração. Com os cascos dos cavalos levantando poeira, lama e arrancando a grama do solo, assim partiu os eorlingas, ecoando o som do trovão. E sua armadura cintilava naquela manhã do último dia do antigo mundo. O sol faiscou contra a o corpo deles e os elmos em suas cabeças reluziam, o ritmo cadenciado da marcha vibrando na terra e se espalhando por Rohan como uma canção.
Éothain sentiu-se abandonado e sozinho, mas ergueu os ombros e alinhou a coluna, voltando o corpo para o teto dourado de Meduseld. Uma parte da sua alma quis partir junto com o éored, mas a outra parte estava orgulhosa da confiança de seu rei e ele lançaria a tarefa de defender seu reino.
De qualquer forma, Éothain sorriu. Era mesmo um lindo dia.
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O emaranhado de raízes e folhas esmagadas pelos animais ascendia um cheiro pungente, o sol já estava espiando os acontecimentos sobre as Montanhas Brancas e por isso, aqueciam a terra sobre ele. Atraídos pelo calor e umidade, logo aquele trecho encheu-se de invertebrados, mosquitos de diversos tamanhos e formas, além de outros animais. O barulho constante da água não trouxe alívio algum para o prisioneiro, pois demorara a vencer a inconsciência e despertara para a dor inclemente, a lembrança das mortes e das ameaças.
Deitado de costas, o corpo e o rosto coberto por um tecido áspero e escuro, Elfhelm tentava vencer a onda de náusea que o acometia sempre que tentava despertar. Sua memória buscava fatos, fragmentos de lembrança do instante em que tudo acontecera, quando as portas dos calabouços de Gorgoroth se abriram e o mundo pareceu se desfazer sem o menor sentido. Ele sabia que era dia pelo calor, pelo barulho dos animais, mas estava desorientado. Não conseguia calcular ao certo, mas imaginava que deveria ter se passado um dia e uma noite desde que seu agrupamento fora atacado.
Elfhelm pensou em rolar para o lado e tentar soltar as cordas, mas a náusea foi tão forte que os músculos doloridos do seu abdômen se contraíram e seu ar faltou. O pesado tecido o sufocava, principalmente com a ação do calor, as cordas em seus pulsos foram atadas com maestria e maldade, entrando na pele e sangrando sempre que tentava se soltar. Sua memória conseguiu se erguer das ondas de dor e náuseas, lembrando-o que seus captores aguardavam que ele se movesse, arrastasse e lutasse com as cordas, em absoluto silêncio, antes de enfim explodirem em risos e se lançarem sobre ele. Após agredirem com chutes e socos, mais uma vez, colocavam aquela estranha substância de gosto horrível em sua boca. Em seus pesadelos, Elfhelm lutava contra orcs, mas sabia que eram homens. Logo, perdia os sentidos, para acordar e recomeçar tudo de novo.
Tentava compreender o motivo de ainda estar vivo dado a traição e a ferocidade com que haviam aniquilado seus homens.
Elfhelm conteve outra onda de náuseas e manteve os olhos abertos. Pontos claros ultrapassavam o tecido de má qualidade e acendiam esperança de ver o sol. Precisava controlar as reações automáticas do seu corpo, a fim de escutar e compreender o ambiente a sua volta. O ódio corroia seu sangue ao lembrar da morte dos seus homens, amigos corajosos que lutaram muitas batalhas e agora jaziam mortos, sem respeito ou honra sob aquele sol escaldante, vitimados de traição.
Os punhos de Elfhelm se fecharam com fúria e o movimento dos músculos reduziu os nós que atavam seus pulsos, fazendo-os sangrar, as fibras entrando em sua carne, afiadas como lâminas. Elfhelm abençoou a dor e concentrou-se. Haveria de encontrar uma forma de libertar-se e enviar aviso para Édoras. Mataria-os. Todos eles. Seja quem fosse, não mereciam nada. "Covardes, imundos", pensou o Marechal, rilhando os dentes com tanta força que sentiu o gosto de sangue.
Elfhelm não se importou.
Distinguiu o som de passos céleres e ficou imóvel, determinado a matar um por um.
Sua vingança não falharia.
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Fréolic acompanhou a mudança na postura de Lothíriel conforme a madruga expulsava completamente a manhã. Haviam cavalgado a galope até boa parte da manhã, avançando com rapidez pelo vale e deixando a trilha determinada. Os elfos se alternavam como batedores e eram tão rápidos quanto os ventos.
A principio, os homens haviam se alarmado com o grito de Elladan. A marcha forçada empurrara suas mentes para as batalhas travadas há poucos meses e a disciplina férrea estabeleceu um ritmo incomparável. Ieldran e Gerihtan, silenciosos como todos os Cavaleiros do Cisne caíram em total mutismo, concentrados na tarefa, preocupados com armadilhas. Seu irmão, Háfoc tornara-se a sombra de Lothíriel e os homens de Faramir ladeavam os flancos, com flechas certeiras a postos.
Conforme avançavam, Elladan e Elrohir também se tornaram mais tensos e calados, conversando entre si. A ausência de Legolas consternava os gêmeos e o grupo de homens se preocupava o que teria acontecido com o arqueiro silvestre.
Finalmente, haviam separado o grupo e Elladan, junto com ele, Damrod e Ieldran alcançaram uma clareira enegrecida, aberta a fogo e espada uma milha após o acampamento junto ao Entágua. Fréolic quedara-se aturdido.
Abaixou e apanhou uma borda enegrecida. Reconheceu as insígnias e jogou-se na direção das carcaças.
--- Não. - proferiu Ieldran, contendo Fréolic a custo. – Não faça isso!
--- São homens do éored de Elfhelm! – protestou Fréolic, a face contraída de dor e fúria.
Elladan se aproximou do local, sua bela face cheia de pesar e receio. Fez um sinal para Fréolic.
--- Largue-me. – proferiu Fréolic com rispidez. Atenuou o tom de voz, garantindo – Não vou mexer em nada.
Encarou Damrod e Ieldran.
--- Uma armadilha.
--- Não ouvimos barulho de luta. – ponderou Damrod, com tristeza para Fréolic. – Teríamos vindo em socorro. – gesticulou para a grande área destruída e desviou o rosto dos corpos enegrecidos. – Como não vimos o clarão do fogo?
--- Não foi uma luta. – protestou Fréolic girando o corpo para ambos os lados do local. – Teríamos ouvido algo. E onde estão os animais? – maneou a cabeça em negativa. – Os cavalos de Rohan não abandonam seus cavaleiros.
Ieldran apanhou fragmentos no chão. Achou que se tratavam de uma mistura de rédeas, montaria e cinto de túnicas. Parte do metal de uma armadura queimou sua mão e ele a soltou, sentindo raiva.
--- Queimaram tudo, inclusive as celas. Roubaram os cavalos. Como?
Elladan fez um gesto e se abaixou, apoiando o joelho na terra maltratada. Sibilava palavras baixas na língua dos elfos e nenhum deles entendeu seu significado. A face do elfo estava concentrada, apertando os olhos brilhantes como quem enxerga algo além da superfície.
--- Foi uma armadilha. – repetiu, lentamente. Ergueu o rosto para o sol e voltou a contemplar a disposição dos corpos. Examinou a postura dos mortos e um fio enegrecido se sobressaltava abaixo do queixo. Maneou a cabeça para o lado, suspirando com profundidade. - As gargantas foram cortadas. Eles deveriam estar dormindo. – fechou os olhos por alguns instantes, tentando compreender aquele cenário. – Só isso explica porque não ouvimos nada.
--- Não tiveram chance de lutar. - definiu Ieldran, revoltado. – Não admira que estejam dessa forma, pegos durante o sono, assassinados e queimados.
Damrod balançou a cabeça, inconformado.
--- Nada ouvimos. – fitou Fréolic, pálido e furioso, andando em torno do local com expressão terrível nos olhos.
Elladan ergueu-se e caminhou com passos leves, estudando as marcas no chão. O fogo consumira quase tudo, deixando pouca coisa para ser avaliada. Ainda assim, o acampamento era de um numero grande de homens, era impossível que nenhum deles tivesse despertado durante o ataque. Além dos animais que sentiam a aproximação e o perigo. Continuo estudando os corpos, notando que na maior parte deles, as chamas haviam apagado a evidência dos cortes na garganta. Não havia sinal das armas que os homens de Rohan carregavam, nem elmo, escudo. Seja quem fosse, os inimigos haviam se empenhado em destruir aqueles homens completamente, despojando-os de qualquer sinal que recordasse sua origem.
--- Por que os trataram como se fossem orcs? – questionou Damrod, perturbado com tudo aquilo. Estavam acostumados com a guerra, com a violência das batalhas, mas cada indício naquele local indicava traição, maldade pura e desmedida. Enojava-o e comprimia seu coração.
Os olhos de Elladan arderam pela proximidade com o calor que ainda ocultava-se sobre os corpos. Buscou o rosto de Fréolic.
--- Vamos ajudá-lo. – ofereceu, com o semblante contraído. Adivinhava a expressão do outro.
Antes que Elladan terminasse de falar, Ieldran deu um passo à frente, erguendo as mãos em sinal de paz.
--- Eu sinto muito pelo seu povo, Fréolic. Lutamos juntos. – ajuntou Ieldran com sinceridade e determinação – Mas aqui não é lugar para lady Lothíriel e isso é um sinal grave de perigo.
Um arrepio percorreu a espinha de Elladan. A extensão de suas preocupações não tinha limites.
--- Peço permissão para ficar aqui. – falou Fréolic. – Eu alcançarei a caravana. – fez um gesto vago. – Não posso deixá-los assim.
Elladan se aproximou fitando-o com suas órbitas escuras.
--- Eu entendo. Em seu lugar, faria o mesmo. – indicou Ieldran, falando mansamente. – Porém, ele também tem razão. Há alguma maldade que não compreendo e está mais próxima.
--- Falhei com meus irmãos, mas não falharei com a princesa. – garantiu Fréolic, cerrando os punhos. – Mas não me peça para abandoná-los, como se fosse imundice de orcs... – a voz de Fréolic falhou, estrangulada pela fúria.
Ieldran fitou mais uma vez a pilha triste que recordava com sombras e traição a clareira.
--- Juntos, trabalharemos mais depressa. – disse, por fim.
Damrod ponderou a cena e em silêncio, montou.
--- Vou avisar seu irmão.
XXXXXX
Lothíriel notou com apreensão a face marcada de Damrod. Ele sequer apeou, falando com Elrohir ainda sobre o cavalo. Haviam feito uma ligeira pausa e Lothíriel começava a considerar quando esboçaria um sorriso ao ser chamada para um passeio a cavalo. Seu corpo começava a exibir hematomas dos solavancos e saltos. Por insistência de Ieldran, a princesa acabara dormindo sobre a sela de Elrothiel e acordava transtornada com visões de uma lua escura e disforme cobrindo o sol durante a manhã. Despertava atônita, confusa com a marcha contínua, seu coração se apertando dentro do peito ao lembrar da estranha sensação ao conversar com Legolas. O desaparecimento do elfo silvestre parecia um prenúncio agourento.
Háfoc estava em pé ao seu lado, examinando suas armas e montando guarda. A sombra do rohirrim se projetava no solo e oferecia alguma proteção dos raios inclementes, enquanto Lothíriel comia o pedaço de pão oferecido pelo guerreiro. Nas últimas horas, Lothíriel sentia como se Háfoc fosse um dos seus irmãos mais velhos, zelando pela sua saúde. Engoliu o pedaço quase sem mastigar ao notar a reação de Elrohir.
Levantou-se e ofereceu o odre de água para Háfoc. O rohirrim fez um sinal rápido, recusando a oferta e não permitindo que ela saísse do lugar.
--- Espere, svana Lothíriel. – falou, em tom de ordem. Amenizou o timbre, explicando, os olhos atentos na cena. – O elfo vai explicar. Termine sua refeição... – sorriu para ela. – Por favor.
Lothíriel sentiu o coração explodir de angustia, forçando-se a aceitar o líquido gelado contra a garganta. Não podia ouvi-los, mas fitar Elrohir naquele instante era devastador. Terminou de comer as pressas, engasgando no segundo gole de água.
--- Pronto... – embrulhou os restos de qualquer forma, enfiando-os na sacola. Limpou a mão nas saias e indicou a direção deles. – Vamos, Háfoc, por favor. Sinto que aconteceu algo muito grave.
O rohirrim pensou um pouco.
--- Seja o que for, eles querem preservá-la. Sou da mesma opinião. – Háfoc maneou a cabeça em aviso. – Espere aqui.
Lothíriel abriu a boca, mas engoliu o protesto. A íris cinzenta se apagou e ela torceu as mãos junto ao corpo. Háfoc agradeceu com um gesto simples e se afastou.
Elrohir e Gerihtan conversavam em tom baixo. Damrod manejou a rédea do cavalo e partiu a galope. A experiência de Háfoc deu-lhe um aviso negativo.
Lothíriel respirou profundamente e caminhou na direção deles devagar. Diminuiu mais o compasso conforme sua mente decifrava os sinais impressos nos olhos de Elrohir. Eles deram as costas para a princesa.
Após alguns instantes, Háfoc deu um grito rouco de fúria e Lothíriel estremeceu. Ficou parada, sentindo frio apesar do sol. Mablung e Gerihtan ficaram próximos ao rohirrim em silêncio. Háfoc assoviou e não somente seu cavalo, como os outros trotaram na sua direção.
Ecebryne escoiceou a grama, mas não se moveu.
--- O que aconteceu? – perguntou Lothíriel, o coração aos saltos, quando Elrohir chegou perto suficiente para ouvi-la.
Elrohir não respondeu de imediato.
--- Posso ouvir, Elrohir, pela minha honra que posso. – garantiu Lothíriel, aflita.
O elfo esboçou um sorriso pálido. Seu rosto estava transtornado de preocupação. Imóvel como uma estátua perfeita, ele irradiava energia, os olhos escuros transbordando de controle, a espera de um ataque.
Lothíriel sentiu que afundava e submergia em vácuos negros de emoção. Fitar Elrohir, contido na superfície, naquela disciplina inexplicável dos elfos de sua estirpe era atordoante, principalmente, porque a essência dele vibrava através de seus olhos, como a força da natureza que era, prenunciando luta.
Talvez, morte.
Lothíriel estremeceu e piscou aturdida quando Elrohir segurou seus ombros com firmeza.
--- Lothíriel! – chamou Elrohir, enumerando palavras em sindarin, tão rápidas que ela não compreendeu seu contexto. – Entendeu o que eu disse? – o elfo resfolegou, com um toque rápido na face dela, afastou-se um pouco. – Ilúvatar, você precisa se controlar, Lothíriel. Não pode divagar assim...
--- Oh...eu. – Lothíriel afastou uma mecha de cabelo do rosto, envergonhada. – Perdoe-me, Elrohir. Eu... – ela abaixou a cabeça.
Os homens já montavam. Não havia muito para arrumar, eram rápidos e experientes.
--- Você vai conseguir? – perguntou Elrohir, analisando-a, os olhos negros correndo rapidamente pela sua face. – Não será bonito. O cheiro, as impressões...
--- Conseguirei.
XXXXXX
Os homens haviam aconselhado Lothíriel a proteger o nariz e a boca. Quando finalmente chegaram à clareira enegrecida, Lothíriel arrancou o tecido comprimindo firmemente contra os lábios para sufocar os soluços.
Elrohir permanecia altivo, uma expressão inescrutável na face. Sobre Ecebryne, o elfo observava a distância, alerta para as imediações, fazendo a guarda de Lothíriel e pronto para avisar os outros de qualquer ataque. O ideal seria utilizar o fogo, pois o número de corpos, o perigo e a situação não eram propícios a um enterro adequado. Porém, Elrohir sabia que não era costume dos rohirrim e que aquele ritual era necessário para resgatar a honra daqueles que haviam morrido de maneira tão abominável.
Lothíriel sentiu que seu coração se partia em mim pedaços. Grossas lágrimas transformaram a figura dos homens da caravana em borrões disformes contra o sol. Lothíriel lembrou dos homens que retornaram para Dol Amroth, feridos, mutilados, o número de mortos e a luta de Amrothos para manter os corsários longe da Baía. Apertou o tecido com mais força, quase sufocando nas próprias lágrimas.
Era a guerra, mas aquilo era muito pior. O significado da traição finalmente entrou na sua mente entorpecida. Lothíriel pensou no pai, nos complicados meandros da corte que envolvia comentários, insinuações e medo. Na responsabilidade de Imrahil para com seu povo e seus aliados, um juramento de honra e laços antigos. Focalizou aquela sensação para Éomer e mesmo sem conhecer o futuro marido, Lothíriel sabia que aquele era um golpe duro, planejado para feri-lo.
Não era a morte. Era como haviam feito aquilo.
Lothíriel sentiu o estômago se revirar e lutou para conter a parca refeição alojada ali.
--- Como os apanharam tão distraídos? – sibilou, afastando o tecido e procurando Elrohir. – Todos sabemos como os rohirrim são destemidos, guerreiros experientes...
Elrohir vasculhou o prado mais uma vez, antes de voltar à face para Lothíriel. Ele havia suprimido o máximo de informações. Agora que a mente da princesa assimilara a cena, resolveu que deveria ceder algo.
--- Foi rápido e feroz, bem planejado. – falou, em tom baixo. As palavras levadas pelo vento forte.
--- Dormindo? – inquiriu Lothíriel. Estrelas luminosas brilharam a frente de seus olhos e ela cobriu o reflexo do sol com a mão espalmada a frente do rosto. – Usaram alguma substância, provavelmente.
Elrohir fitou-a rapidamente e desviou o olhar. O trabalho estava terminado, os homens retornavam as montarias. Somente Elladan estava no solo, fitando as imediações.
--- É o que acho. – o elfo se contraiu. Ele conteve o ar por um instante.
Seguiu-se rápida seqüência de movimentos. Lothíriel achou que cairia de Elrothiel tamanha a surpresa. Elrohir emitiu um grito alto e longo, executou um giro completo em Ecebryne, fincando os calcanhares na barriga do corcel negro. Ecebryne deu um salto para frente, simultaneamente, Elrohir apanhou uma espada longa e afiada.
Elladan repetiu o grito como um eco da voz do irmão. Os cavaleiros formaram uma linha rápida empunhando as armas. Lothíriel ainda sentia a cabeça zunir com a súbita tensão que explodira na clareira. Segurou a grana de Elrothiel que resfolegou zangada e assustada, erguendo-se um pouco nas patas traseiras.
--- Lothíriel! – gritou Elrohir chamando sua atenção. O elfo apontou para o norte.
Lothíriel inclinou o corpo para frente, colando-se ao dorso da égua. Com um grito de comando, Elrothiel saltou adiante e disparou descendo a colina. Ela olhou para trás, o coração congelado de medo ao ver uma formação descendo a encosta como uma onda cinzenta. Contou mais de duas dezenas de homens sobre os cavalos, mas o sol, o medo e a corrida a impediam de decifrar a origem. Agia impulsionada pela atitude dos guerreiros da Caravana e procurou fazer exatamente o que havia sido combinado.
Afastar-se da luta. Haveria sempre alguém destinado a protegê-la, mas ela precisava estar longe para que tivessem segurança de lutar e atrair qualquer inimigo.
O solo verde se transformou num risco único sob o galope veloz da égua. Lothíriel podia sentir cada osso do corpo se chocando contra Elrothiel, o zumbido do vento e então, uma explosão de brados de guerra.
Desesperada, Lothíriel pressionou um pouco as pernas contra a barriga de Elrothiel e puxou a crina devagar, voltando o dorso para trás. Ao contrário do que clamava sua esperança, viu a caravana lutando em pares à maneira dos rohirrim, cercados por meia dúzia dos recém-chegados, embainhando as espadas com habilidade e atirando flechas. Elladan recuara entre o irmão e os guerreiros, oferecendo uma linha heróica de defesa.
Elrohir cavalgava na sua direção, mas seu corpo estava voltado para trás, bem como seu rosto. Lothíriel ouviu um zunido oco e olhou para frente, a garganta estava fechada e mal conseguia respirar. Seus olhos cinzentos se arregalaram de pânico ao ver uma horda semelhante de homens, com armaduras tão brilhantes como os que estavam atrás, com espadas erguidas e flechas prontas para serem disparadas. Aproximava-se tão rápido que Elrothiel reduziu o galope, tão confusa quanto a amazona se deveria ultrapassar aquela muralha humana.
--- Elrohir – gritou, num aviso, mas o vento levou embora sua voz.
Os guerreiros a sua frente não atiraram algumas flechas e Lothíriel se comprimiu contra a égua, notando que não era o alvo. Gritou mais uma vez, atordoada, olhando para trás e gritou mais ainda ao ver que uma das flechas atingira o ombro de Elrohir.
Lothíriel manejou as rédeas para a direita, desesperada. O fluxo do Entágua adiante era mais cheio, com bordas densas de vegetação e Lothíriel só conseguia pensar em um lugar para se esconder. Sua mente bombardeava informações de defesa e luta, deveria apanhar a espada na bainha, proteger-se? Os túmulos dos guerreiros e a imaginação preenchiam sua cabeça de terríveis visões, mas tudo que conseguiu fazer foi lutar para permanecer sob o controle de Elrothiel.
Por instinto, Elrothiel obedeceu ao rumo indicado por Lothíriel. Os picos brancos das Montanhas espelhavam o sol da manhã irradiando flâmulas de ouro branco, prejudicando sua visão. Ela cortou o plano à direita, como quem pega um atalho para fugir da linha de confronto entre duas forças contrárias.
Para seu desespero, três cavaleiros saíram da formação e vieram ao seu encalço. Lothíriel virou-se mais uma vez e lágrimas de alívio banharam seu rosto, esfriando sua pele e dissipando-se com o vento e a velocidade da corrida.
Elrohir executara o mesmo corte diagonal e colocara-se entre ela e os inimigos. Girou a espada e o choque entre o elfo e o homem estalou com um som de lâminas se partindo. Lothíriel sentiu que reduzia a velocidade, o corpo estremecendo de admiração pela coragem do elfo e um medo profundo, quase primitivo.
--- Lothíriel! Fuja!
"Ele é um grande guerreiro, vai conseguir. Tenho que dar vantagem a eles", o pensamento se elevou do caos absoluto em sua mente. O grito de Elrohir despertou Lothíriel do devaneio e ela agradeceu a persistência dos elfos e dos homens em repetir incessantemente aquela informação. Se não fosse pelo árduo condicionamento, ela já estaria correndo na direção deles.
Pontos caídos no chão, cavalos que corriam livres pelo canto. O brilho de espadas se chocando e imitando estrelas no firmamento. Podia ouvir o eco da luta, dos gritos, tentando adivinhar quem teria caído, sem conseguir reconhecer nenhum dos amigos na distância.
Sua distração foi imperdoável.
Lothíriel virou-se no exato instante que um dos homens surgira na sua linha. O inimigo, como todos, usava um elmo e não pode ver sua face estendera o braço na sua direção, cavalgando com velocidade em sentido contrário. Os cabelos na nuca de Lothíriel se arrepiaram e ela jogou o corpo para a esquerda, tentando retirar o pé do estribo de Elrothiel. Não poderia equiparar sua habilidade de amazona aqueles homens acostumados à guerra, mas o pânico tomava conta da sua mente em uma corrida vertiginosa.
Mais uma vez, Elrohir equiparou Ecebryne a linha de Elrothiel e vociferou o comando que a égua obedeceu, imediatamente. Empinou as patas dianteiras, relinchando. Ecebryne uniu-se a ela, erguendo-se como uma sombra negra, enquanto Elrohir, em movimento fluido, saltava para o chão.
O cavalo do inimigo respondeu a muralha a sua frente com igual gesto. O guerreiro em seu dorso jogou a perna para o lado, demonstrando habilidade e conhecimento de semelhantes técnicas, lançou o corpo para fora da montaria. Caiu no chão e rolou rápido para não ser esmagado pelas montarias.
Elrohir ergueu a espada e para completa surpresa de Lothíriel, Ecebryne atacou a montaria do inimigo empinando mais uma vez.
O cavalo, assustado e confuso, gingou para a sua direção e o choque com Elrothiel lançou Lothíriel para o lado da montaria. Ela agarrou a crina da égua com força tentando se manter sobre a sela. Lothíriel podia sentir a tensão nos músculos do animal, o suor que tornava seu pêlo mais brilhante e escorregadio.
--- Vamos Elrothiel... - ofegou, lançando-se com dificuldade mais uma vez sobre o animal. Lutou, sem conseguir recuperar as rédeas, enfiando os dedos no pescoço de Elrothiel. Olhou para trás.
Elrohir lutava contra o inimigo. A onda de cavaleiros passaram por eles e mais três saíram da formação na sua direção. Eles gritavam ordens e Lothíriel não conseguia distinguir as palavras, sem encaixá-las no rohirric, westron ou qualquer outra linguagem conhecida por ela. Continuou rumando para o entágua, afastando-se o quanto podia da batalha.
Os homens atrás de si ganharam vantagem. Lothíriel já podia discernir suas vozes e ver figuras em suas armaduras. A trança desfeita lançava os cabelos longos em seu rosto atrapalhando a sua visão.
A pleno galope, Lothíriel viu outro cavaleiro na sua direção.
Em pânico, Lothíriel notou que um dos três estendia a mão e sentiu o toque em sua cintura, contraindo-se toda e com um grito, incitou Elrothiel com mais fúria. Não conseguia mais pensar, agindo por puro instinto, levou a mão à adaga que ganhara de Legolas e na tentativa seguinte, surpreendeu o cavaleiro com uma estocada em sua mão. A força do impacto retirou a arma da sua mão, mas o cavaleiro executou uma linha estranha para esquerda, impulsionando-se à frente logo depois.
Eles gritavam para que ela parasse.
Lothíriel não controlava mais Elrothiel. Perdera a adaga e mais uma vez, jogou-se da sela para escapar a nova tentativa de ser arrancada por um deles da égua. Naquele instante, Elrothiel alcançava o terreno macio junto ao Entágua, o som da água corrente anunciando um prenúncio de paz para a montaria, mas Lothíriel, ainda pendurada na lateral da cela, sentiu os galhos e juncos sobre si, emaranhando-se nas suas vestes.
Perdendo o equilíbrio, Lothíriel gritou e caiu pesadamente, rolando várias vezes no chão lodoso. Ouviu seu nome reconhecendo a voz de Elrohir, mas seu corpo foi se chocar contra uma rocha úmida, estatelando uma dor aguda em suas costas.
O som da batalha parecia mais próximo.
Lothíriel ofegava de dor e confusão. Tentou erguer a cabeça, mas o céu azul rodopiava trocando de lugar com o verde da grama. Ouviu o som próximo de cavalos, o impacto cadenciado de trovões e estilhaços de lâminas como os ribombares da tempestade.
A voz de Elrohir se desdobrou em um eco perfeito, com leve modulação grave. Elladan. Elrohir.
Eles a salvariam.
O coração de Lothíriel ardia em seu peito, batendo tão loucamente que ela julgou que acabaria por desistir da função. Sentiu a umidade sobre o corpo e com dificuldade, ergueu o tronco. Sua queda levara um minuto até finalmente conseguir se sentar, mas pareceu escoar com a lentidão de horas.
O sangue de Lothíriel congelou nas veias.
Não estava sozinha.
--- Vamos levá-la?
Lothíriel ouviu os próprios dentes rangendo. Ergueu os olhos cinzentos cheios de terror para os dois homens que a fitavam com tranqüilidade. Sentiu-se paralisada, incapaz de qualquer ato. Eles haviam retirado os elmos e a fitaram com um brilho estranho no olhar.
O coração de Lothíriel latejou dolorosamente. Só então percebeu o quanto Elrothiel a levara para longe, à borda da floresta. A égua relinchava à distância.
--- Não entraram num acordo sobre isso. – sibilou o outro em resposta, aparentemente insatisfeito com a indecisão dos superiores – Ela é mesmo uma princesa?
"Outro prisioneiro?". Inconscientemente, Lothíriel comprimiu-se contra a rocha, os olhos imensos no rosto pálido, procurando uma saída. Emitiu um gemido involuntário quando uma dor tal qual ferro em brasa cortou-a ao meio. A adrenalina a impedira de sentir os ferimentos com a queda e a pausa, finalmente, lhe trazia os frutos indesejados.
--- É claro. Filha do traiçoeiro Imrahil. Que concedeu a liberdade... – explicou um deles com ironia – Vamos, os elfos estão próximos. Não temos tempo.
Era baixo e atarracado, o elmo continha uma espécie de crina amarela, que a princípio, Lothíriel julgara que fossem cabelos. O brilho estranho aumentou e Lothíriel se encolheu quando o companheiro dele se aproximou e ajoelhou a sua frente.
--- É uma pena. – seus olhos caíram sobre os cabelos soltos, a túnica que modelava as curvas do corpo da princesa. Sorriu de leve, batendo a lâmina da espada contra o estômago de Lothíriel.
Lothíriel estremeceu de maneira violenta e o homem começou a rir. A raiva explodiu dentro da princesa, cegando-a completamente. Sua mão arrancou uma porção de lama e ela atirou com fúria na face dele.
--- Eu avisei! – gritou o companheiro.
Ele emitiu um palavrão alto e com a surpresa afastou a lâmina, Lothíriel aproveitou escorregando para o lado, colocando-se em pé, as pernas mal suportando o peso do seu corpo, tremendo tanto que ela julgou que fosse cair.
Lothíriel correu alguns metros e conseguiu alcançar a margem, seus pés afundaram no lodo da terra molhada pelo rio. Então, ela sentiu um tranco violento no corpo e gritou, quando algo a agarrou pelos cabelos, arrancando os fios do couro em uma dor que explodiu pela sua cabeça. Sentiu-se girando na direção do captor.
--- Sinto muito – resfolegou o homem, afastando o punho fechado. - Ordens são ordens.
Lothíriel viu o céu muito azul sobre sua cabeça, dolorosamente pendida para trás. Seu corpo gingou sem equilíbrio quando o homem emitiu um grito de angústia e espirrou um borrifo vermelho pela boca.
Ela sentiu o corpo solto no ar por alguns instantes, suas mãos se lançaram para os lados em busca de equilíbrio, antes de um puxão firme trazê-la para frente. Lothíriel sentiu a superfície dura da armadura contra seu corpo e um braço musculoso ao redor da sua cintura, evitando a queda no rio.
Seus dedos estremeceram sobre o metal frio e as ligas de couro. O som desagradável dos próprios dentes batendo de medo aumentava sua angústia. Tremendo dos pés a cabeça, Lothíriel então compreendeu a diferença da situação. A mensagem penetrou na sua mente e ela relaxou os ombros.
O seu salvador executou um giro para frente e soltou por alguns instantes a sua cintura, apenas para segurá-la, mesmo de costas para Lothíriel e amparar a lâmina do segundo homem que avançou contra eles. Ensaiou se afastar para ceder espaço para a luta, mas o rohirrim não permitiu, lançando-a contra as próprias costas com um golpe firme.
Por instinto, Lothíriel agarrou-se as bordas da armadura, afundando os dedos por baixo do metal, encontrando o tecido da túnica. Imitou os movimentos do guerreiro, mal alcançando seus ombros. Era uma iniciativa que não fazia qualquer sentido a sua mente, mas soube que o rohirrim não a deixaria se afastar, expondo-se a outros perigos.
Aparentemente, sua técnica surtiu efeito, visto que o braço colado a sua cintura soltou-se e ele jogou a espada para a mão livre.
--- Você! Maldito seja!
Lothíriel não pode ver o rosto do agressor, mas notou o tremor em sua voz. Ele estava com medo. Um sorriso despontou em seu rosto. Estava certa. Sabia quem era. Não houve resposta do rohirrim aquela afirmação ou a provocação que se seguiu depois. Em amplos movimentos, Lothíriel sentiu-se tragada a força que o movia, sentindo os músculos que se contraiam sobre a armadura e intuindo o passo seguinte. O barulho do metal vibrou poucas vezes e então, o corpo que servia de escudo colou-se ao dela, Lothíriel sentiu-se caindo para frente até chocar-se mais uma vez e ouvir o barulho gorgolejando de sangue.
O som do baque de um corpo caindo no chão. Seus dedos imediatamente soltaram a lateral da armadura e ficou solta no vazio. O zunido de flechas cortou o ar e uma onda escura ameaçou tomar conta da sua mente. O cheiro enjoativo de sangue inundou suas narinas e penetrou sua mente, ela sacudiu a cabeça, tentando sair do devaneio e do choque.
Então, o guerreiro voltou-se na direção dela e mais uma vez, o toque em sua cintura a puxou para seu encontro.
Ele ergueu o seu rosto e Lothíriel pode então ver pela primeira vez a sua face. Deparou-se com olhos castanhos, quentes e cálidos.
--- Está tudo bem agora. – soou a voz rouca.
Lothíriel fitou aquela face desconhecida sentindo imediatamente um calor se espalhando pelo seu corpo, junto com a sensação de segurança. A armadura, a postura do guerreiro e seu ar feroz eram iguais ao outros, porém, seus olhos emanavam um brilho diferente. Transmitiam conforto, preocupação e algo indistinto que naquele instante, ela não soube identificar, sem atenuar a clara impressão de esmagadora de autoridade.
Gritos ecoaram próximos a ele. Houve uma mudança clara na postura, a maneira como ele se moveu ligeiramente para frente e esquerda, cobrindo seu corpo do campo de visão. Lothíriel percebeu que o reflexo da luz vinha da espada empunhada em alerta, a mancha de sangue espalhada na lâmina provocou um novo estremecimento e ela arregalou os olhos, desviando o rosto.
Por breves instantes, Lothíriel teve um vislumbre do rosto em perfil, atento e contraído, antes que seu salvador voltasse a encará-la. Em poucos segundos, o brilho duro do aço e a ferocidade que existiam ali se dissolveram em calor e preocupação.
--- Está ferida? – a voz soou mais uma vez. Baixa, quente, com nuances de tensão controlada. – Pode caminhar?
Lothíriel piscou algumas vezes e maneou a cabeça em uma afirmativa segura. Os músculos da sua garganta finalmente relaxaram e a princesa encontrou o ar que precisava. Ele se moveu mais uma vez, o braço que a sustentava abandonando-a e Lothíriel ressentiu a perda súbita de calor e segurança, esforçando-se para retornar ao presente, ciente que divagara por muito tempo.
--- Posso caminhar, senhor Éomer. – sussurrou, satisfeita em conseguir iniciar a caminhada.
Ele parou fitando-a com intensidade.
--- Como você sabe? – questionou, com gravidade, em um tom que resvalava a rispidez. Seus olhos vasculharam a aproximação de novos homens e ele apanhou a princesa pelo braço, conduzindo-a pela trilha. – Todos estão vestindo trajes de Rohan. – o maxilar dele endureceu, rilhando os dentes. Aquilo o enfurecia mais do que o combate. – Não há como saber quem é real.
Lothíriel sentiu a pressão no braço reduzir a um suporte firme e seguro. Adiante um grupo se reunia e ele contraiu o corpo estancando os passos.
--- Eu sei. – garantiu, em tom baixo.
Ele a fitou mais uma vez, inclinando a cabeça de leve para o lado. A expressão em seus olhos perdeu o brilho instintivo e moveram-se em uma análise admirada de seu rosto. O fogo de rebeldia que animava as órbitas castanhas em um lastro dourado cintilou em apreciação.
--- Como?
Lothíriel franziu o cenho e maneou a cabeça devagar, sem contudo, deixar de sustentar o olhar a que era alvo. Não havia explicação, ele não entenderia. Era como os primeiros raios da manhã acariciando a pele, a voz do trovão antes da tempestade e a ordem de todas as coisas boas na terra. A exata contraparte da sua própria essência.
Só poderia ser ele. Ninguém mais.
O Destino sabia o que estava fazendo.
--- Eu apenas sei. – respondeu com simplicidade.
Seguiu-se um curto silêncio em que Lothíriel não pôde interpretar a expressão do rohirrim.
--- Eu acredito. – falou, por fim, fitando-a com tenacidade --- Você é sábia, além de muito corajosa – elogiou, sincero. Tornou a colocar-se a frente dela, sua mão procurando a de Lothíriel – Espero que tenha restado ambos, sabedoria e coragem em você, Lady Lothíriel, porque não acabou.
Lothíriel se deixou conduzir, atenta aos ruídos e gritos, consciente do calor do sol sobre eles, do barulho da água e dos gritos adiante. A mão que segurava a sua era áspera, pelo trabalho, guerras e emanava também calor e segurança.
Apesar da preocupação com os amigos, o cansaço e os ferimentos, ela não sentia mais medo.
XXXXXXX
A primeira sensação que ele experimentou ao recobrar a consciência foi algo inusitado. Uma aragem vazia soprando círculos angustiantes que o fizeram dobrar o corpo, procurando compreender o sentido daquilo.
Sabia que estava próximo do local e enviou a mensagem para o próprio organismo, como um capitão que incentiva o soldado inexperiente na sua primeira batalha. A confusão daquela sensação ampla e dominante retardou seus reflexos, lançando-o de volta as memórias, em uma busca frenética por associação.
Algo que o livrasse daquela sensação atroz e desconhecida.
"Concentre-se. A chave da resolução está no próprio problema".
Uma voz dura e metálica. Ensinava-o pressionando os limites da excelência.
"É apenas frio. Todos sentimos, mellon-nin".
Ele se apegou àquela lembrança e fechou os olhos com força, capturando-a com gentileza.
A manhã cálida caía suavemente sobre o ombro dos dois. As folhas emergiam em entre luxuriantes tons de lilás e amarelo, profusões de pétalas coloridas, com a camada cintilante do orvalho da noite.
O adolescente escolheu a pequena pétala branca e arredondada. O caule era grosso, com folhas estranhas e retorcidas. Não havia perfume pungente, nem beleza singular que atraísse o observador, mas para o elfo sabia que era a favorita do jovem humano.
Estavam sentados lado a lado, em um silêncio demorado, que o elfo respeitava com naturalidade. Podia quase tocar e ouvir os questionamentos que o jovem guardava para si, mas aguardava o momento propício.
Não queria pressioná-lo. Era seu amigo.
--- Acha que os filhos seguem irremediavelmente a trilha de seus pais? – a voz dele se fez ouvir então. Lenta e pensativa, os timbres juvenis ganhando corpo rumo a maturidade.
A resposta veio rápida a mente de Legolas. Não a que o jovem proferira, mas a que realmente incomodava seu jovem amigo humano.
--- Somos a continuidade da trilha de nossos pais e também o recomeço dela.
Estel maneou a cabeça, franzindo o cenho com aquela resposta enigmática e dúbia. As palavras saíram espontâneas, em sua face estava estampada a séria contrariedade.
--- Você é estranho.
Legolas fitou-o com espanto genuíno e então riu baixinho. O jovem humano estudou o riso do amigo elfo com atenção e distendeu a face.
--- Perdoe-me, mellon-nin. – os olhos cinzentos brilharam com apreço. Ajuntou, envergonhado – Não quis ser desrespeitoso, só quer ajudar-me...
Legolas manteve o sorriso no rosto e falou, tranqüilamente.
--- Não me ofendeu, jovem Estel. – pausou, voltando a face para a natureza. – Apenas, não fui compreendido. – arqueou uma das sobrancelhas, com um ar divertido na face. – Lembro que já pronunciei algo semelhante, justamente, porque os mais velhos nos aconselham de maneira enigmática para nossa juventude.
Os olhos de EStel se apertaram reduzindo as órbitas cinzentas.
--- Chamou Elrond de algo parecido com... "estranho"? – maneou a cabeça, girando a pétala entre os dedos – Eu pensei que eu fosse desajeitado... – suspirou, fitando o amigo mais uma vez quando Legolas recomeçou a rir. Fechou os olhos e falou, rindo com o elfo. – Acho que vou me calar. Tirei o dia para ofendê-lo!
--- Eu não me ofendo fácil. – devolveu Legolas, acomodando o corpo no tronco da árvore. – Você seguirá o seu próprio caminho usando a experiência do passado, a sua maneira. Fui mais claro agora?
Estel fitou-o aturdido e depois riu, sacudindo os ombros.
--- Tanto quanto um elfo poderia ser!
--- Ah, sim. Isso foi muito impolido.
--- Eu sei. – Estel exalou o ar dos pulmões e fitou o céu. – Espero algum dia ser um pouco melhor, Legolas. Menos desajeitado, questionador...
--- Impolido. – lembrou Legolas, fingindo seriedade.
--- Impolido. – repetiu Estel.
--- Menos humano, talvez? – provocou Legolas, atraindo a face séria de Estel na sua direção. Estudou as próprias palavras antes de proferi-las. Elrond dizia que apesar da seriedade e empenho de Estel, não deveriam apressar o curso do tempo, por isso, sintetizou o que gostaria de dizer em palavras mansas.– Não somente os homens têm dúvidas quanto ao próprio destino, Estel.
O jovem humano dedicou ao amigo elfo toda a atenção.
--- Você tem dúvidas?
--- Claro. – respondeu, tranqüilo. – Só enfrento de maneira mais digna.
--- Eu sou digno.
--- Claro que é, principalmente, quando não está reclamando das suas características humanas. – lembrou Legolas, inabalável. – Elas provocam falhas, mas são suas e também lhe concedem força.
Estel procurou não se irritar. Todos faziam aquilo. Conversas em círculos que não chegavam a lugar algum, mas não queria brigar com Legolas.
Era seu amigo.
--- Tipo o quê? Os elfos são corajosos, inteligentes, não morrem fácil. – nesse ponto, Legolas riu muito e Estel gesticulou, enfático. – Não sentem o frio. Não atolam na neve! Odeio sentir frio e cansaço. E sono? – Estel fez uma careta – Odeio dormir!
Legolas notou que o amigo se irritava. A educação em Valfenda, a convivência com os elfos, o conhecimento... Tudo salientara as melhores qualidades em Estel, que eram próprias da sua natureza humana, apenas aprimorada. Ele apenas ainda não compreendia isso.
Legolas sorriu. Às vezes esquecia-se como ele era jovem, até para um humano.
--- É apenas frio. Todos sentem, mellon-nin.
--- Você quer me consolar. – replicou Estel. – Não sabe o que é frio. É como vazio, só que do lado de fora, faz você se comprimir para dentro, querendo fugir. – expeliu o ar mais uma vez, atrapalhado com o próprio desabafo. – Desculpe, fui uma péssima companhia hoje.
--- Você está odiando muitas coisas hoje. – observou Legolas, sério. Decidido, ergueu-se. – Venha, vamos andar um pouco. Ajuda a esvaziar a cabeça.
Estel aquiesceu e imitou o elfo.
--- Desse jeito, nós vamos andar até o reino de Thranduil. Minha cabeça parece que vai explodir.
Legolas riu.
--- Jamais imaginei que fosse tão dramático, jovem Estel.
--- É o que Elrohir me diz o tempo inteiro.
--- Elrohir é sábio. – Legolas fitou Estel com ar cúmplice. – Mas não deixe que ele saiba que eu disse isso.
O jovem humano distendeu a face e sorriu, esquecendo das dúvidas quando passaram a falar sobre os gêmeos e a planejar o que fariam quando eles voltassem a Valfenda.
--- Frio. – sibilou Legolas, erguendo o corpo. A memória acudindo-o com informações emocionais preciosas. Sorriu, aliviado. – É apenas frio.
O trajeto a seguir e o que faria no caminho se desenhou como um mapa geográfico em sua mente, e o elfo tentou discernir em que etapa ele se encontrava. Porém, aquela sensação retornou e ele lutou contra ela. Estava sendo seguido, podia sentir, mas não tinha tempo para lutar abertamente contra aquilo, ele precisava continuar.
"Somos a continuidade da trilha de nossos pais e também o recomeço dela".
Nunca uma frase de lorde Elrond parecera tão clara diante da realidade. Legolas sorriu reconfortado com a memória. Aragorn havia entendido, finalmente, o que ele lhe dissera.
Agora, era a vez de Legolas.
Recorrer às memórias, fechadas como lacres mágicos que ele tinha dificuldade para partir estava se tornando uma façanha admirável. O frio assolava sua alma e seu corpo, após cada visão compartilhada do tempo. Demorava-se na inconsciência, despertando atordoado e confuso, perdendo preciosos instantes para modificar o curso do destino.
E como era difícil!
Como era difícil empenhar uma luta física contra algo tão inexorável contra o tempo e o destino. Ele havia prometido ao pai que conseguiria. Deixaria a realeza do principado para a verdadeira majestade, aquela que era alcançada através dos feitos, da herança conquistada para um povo, através do autodomínio e o manejo hábil dos dons de Ilúvatar. Não somente ter e ser, mas tornar-se, muito mais que um simples ato de abraçar aquilo que era seu de direito.
Era preciso muito mais do que o nascimento para se forjar um Rei.
Fechou os olhos, ciente que resvalaria mais uma vez para aquela sensação que já era uma companheira de viagem. Memórias que se perdiam.
Suspendeu os cílios e quase pode sentir o ar abafado da prisão, o gosto do chá que não suportava, as contínuas visitas e a ansiedade por notícias, pela necessidade de um sinal que havia obtido êxito. Então, o cheiro da floresta e do dia, do ar aberto e a própria sensação pungente de vazio colidiram-se em sua mente em franca confusão.
Legolas conseguiu situar-se onde estava. O mapa geográfico voltou a fazer sentido.
Ainda estava dentro do Tempo. Ainda havia chance para o Destino.
Ajeitou a alijava nas costas e esfregou os braços para se aquecer enquanto caminhava, silencioso e rápido, sem deixar marcas no chão. Sua audição garantia que estava no caminho certo. Um pouco mais e encontraria o covil dos inimigos.
Esperava que Elfhelm estivesse vivo.
Era a última coisa que podia fazer antes que fosse tarde demais.
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Nota da autora: Demorou, mas eles se encontraram. Eu escrevi a cena várias vezes, por diferentes pontos de vista, do Háfoc, de Elladan e Elrohir, dos inimigos e da própria Lothíriel. Acabei escolhendo a narração pela ótica da Lothíriel para transmitir a sensação caótica de alguém envolvido em uma batalha sem ser um guerreiro, além do que, mostrava de maneira mais ampla a sensação de segurança ao encontrá-lo.
Retomarei as outras narrativas no próximo capítulo. A verdade se baseia em diversos pontos de vista e assim, vai se construindo o quebra-cabeça da cena. É a forma que gosto de ler e escrever, por isso, espero que vocês não considerem enfadonho.
Sei que ficou bastante atribulado, ligeiramente tendencioso para o romance e sinto que faltaram detalhes, mas não consigo mais encaixá-los nesse capítulo, mas enfim, é uma fanfic de romance... entre outras coisas.
Como disse o rohirrim, ainda não acabou. Há mais pela frente. Espero que tenham gostado.
Aguardo reviews!!!! Pleaaaaaaase!
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