Gondor, Minas Tirith

Olá, amigos.

O trabalho e problemas pessoais atrasam a publicação dos capítulos, porque optei um gênero diferenciado para esta fanfic. Para aqueles que se perderam na minha maneira complicada e perversa de escrever tão detalhadamente, ouso dizer que sempre gostei de obras de ficção e do sobrenatural, e acabei por colocar um pouco destas ferramentas nesta fanfic. Por isso, a danada da Fic me saí ainda mais trabalhosa que a encomenda!

Neste capítulo, eu vou para o outro lado de Arda. Embora Éomer e Lothíriel sejam os personagens centrais, eu não resisto aos demais maravilhosos personagens de Tolkien e sempre tenho que roubar um pouco do tempo deles para adornar a trama. Mais que um adorno, eles são fundamentais!

Espero que gostem e me perdoem por deixar o casal de Rohan abandonado nas paragens da Terra da Marca dos Cavaleiros. Voltaremos a eles muito em breve, com aquele gosto de romance que tanto aprecio ler e resolvi me jogar nesse gênero.

Meus sinceros agradecimentos a todos os reviews. Obrigada de coração pelo incentivo, graças a esses empurrõezinhos, eu vou achando espaço para o que mais gosto de fazer.

Beijos e amor, como sempre, ao Grupo Tolkien.


"Ao término do jogo, o Rei e o peão retornam a mesma caixa"

Provérbio popular


O NOVO MUNDO


JOGO DE REIS


III Era - 3020 Registro de Gondor

Cidadela, Sétimo Nível.

Gondor, Minas Tirith – Torre da Guarda.

Depois de uma manhã cansativa, aquele era o lugar ideal para repousar os pensamentos. Qualquer pessoa que houvesse prestado atenção ao Rei saberia das suas preferências, porém, ele conhecia seu país, conselheiros e a nobreza de Gondor. Nem sempre percebiam o que era óbvio para o coração, presos as tramas da engenhosa combinação de palavras.

Muitos enganos, sofrimentos e perdas coroavam a cabeça de quem se deixava levar por elas: As doces palavras. Frases que podiam trazer o amor e também a traição.

Rumou em direção a Arvore Branca, o pátio translúcido de pedras brancas reluzia ao sol da manhã e as sentinelas exibiam os uniformes impecáveis, renovados com a glória do novo mundo na Terra-média. O som da fonte se espalhava no ambiente com o sopro constante do vento e não havia sentimento algum naquele local, exceto a paz.

Foi necessário contornar a placidez do espelho cristalino em torno da Árvore para encontrá-lo e ele sorriu ao contemplar a folha prateada deslizando na superfície líquida de seu repouso.

Semi-oculto pelo local encontrado para refletir, o Rei não esboçou reação com a sua chegada. Parecia concentrado em um pequeno objeto, aninhado na palma de sua mão. Contudo, com aquela característica única que já espalhava uma fama mística em torno da sua figura, o Rei não pareceu se surpreender com a sua presença. De fato, Aragorn voltou-se para Faramir e esboçou um ar satisfeito, onde o contentamento silencioso dizia ao Senhor de Ithilien que estava feliz por seu súbito aparecimento. Não era surpresa alguma. Ao contrário, Faramir teve a clara impressão que era ele esperado pelo Rei.

Faramir esqueceu o motivo que o instigara a buscar a companhia de Aragorn.

Os dois se fitaram por um longo instante.

O semblante de Faramir estava distendido, com a tranqüilidade de um novo dia promissor atenuando o fardo das responsabilidades. Aragorn podia ver o espírito de um homem em paz repousando atrás do espelho cristalino dos olhos de Faramir. Desde o primeiro instante em que o capitão entrara na trajetória da sua vida, Faramir só ofertara lealdade sem nenhum questionamento. Era o melhor conselheiro que poderia ter e apreciava sua amizade.

Era a última pessoa que Aragorn gostaria de enviar para uma missão tão complexa e arriscada e, justamente, por isso, era Faramir quem deveria ir.

Havia uma intensidade marcante nos olhos cinzentos de Aragorn, algo tão poderoso que arrancava a verdade oculta atrás das palavras floreadas dos experientes conselheiros de Gondor. Ninguém permanecia impassível diante de tão inflexível concentração, ninguém poderia manejar aquele silêncio, aquele timbre seguro de um homem único. Um verdadeiro guerreiro com coração de Rei.

Faramir sempre encontrara sinceridade, coragem e amizade nos olhos de seu Rei, mas naquele instante, viu-se diante de um quadro inusitado. Estava sendo analisado. Uma análise franca, à maneira de Aragorn, simples e direta, sem subterfúgios ou armadilhas. A conversa animada com Éowyn na noite anterior dissipou-se da mente de Faramir. Juntos, os dois haviam lido uma carta de Éomer e planejado uma surpresa, conspirando e trocando beijos na madrugada, enquanto teciam os fios que amarrariam o que seria um presente de casamento inigualável.

Contudo, aquele plano havia desaparecido. Era possível ver nos olhos do Rei que algo importante e fundamental estava em perigo.

As palavras brotaram com naturalidade da sua boca. Faramir não soube de onde elas surgiram, qual foi o pensamento que o levara a chegar àquela conclusão, mas bastou um único olhar para que a necessidade delas se levantasse de dentro da sua alma. Era o tipo de impulso que seria completamente desconhecido nos dias futuros, impossível até mesmo de explicar como era possível.

Mas que naquele precioso instante, no silêncio cúmplice entre um Rei e seu conselheiro era o símbolo do verdadeiro sentido da honra. Do vínculo imortal entre um Senhor dos homens e seu súdito.

Faramir alinhou a coluna e exibiu uma máscara compenetrada de decisão ao proferir as palavras.

-- Como posso servi-lo, majestade?

Aragorn fitou mais uma vez a palma da mão e voltou-se completamente para Faramir. O sol ofuscou a coroa alada em sua cabeça e foi esconder um raio flamejante na íris cinzenta. E ele não soube se deveria sorrir ou lamentar. Estivera certo. Afinal, Faramir era o homem certo para aquela missão. Somente ele poderia responder um chamado que não fora realizado em palavras, ou oferecer-se para uma missão que ainda não havia sido explicada.

Éowyn teria que perdoá-lo, refletiu Aragorn, mas embora merecesse a confiança de muitos, Aragorn Elessar estendia aquele sentimento poderoso para poucos.

A respiração compassada de Elessar sofreu um alteio solene, algo como um suspiro, e ele estendeu a mão na direção de Faramir.

Um entre poucos que mereciam sua confiança.

O Guardião de Ithilien contraiu a fronte sem compreender, mas respondeu ao gesto e notou que Aragorn deixava cair em sua mão aquilo que detinha em sua palma.

Faramir observou aquilo que não era um objeto no final das impressões. Algo sem peso, tão leve que apenas roçou em sua palma. Seu coração se comprimiu ao observar as gotas de orvalho cristalizadas em gelo. Seu rosto exibiu a completa surpresa e buscou uma resposta na face de Aragorn.

A pétala em sua palma estalou um barulho estranho. Alto demais para algo tão frágil e pequeno. Os cristais de gelo sibilaram e a pétala branca se consumiu como se houvesse sido carbonizada.

Faramir sentiu o maxilar abrindo-se de espanto. O vento espalhou as cinzas da pétala no ar.

Elessar voltou seus olhos para a Árvore Branca e a atenção de Faramir seguiu a dele. A Frondosa Árvore pareceu desvanecer em sombras brancas, consumidas em cristais orvalhados e sucumbindo em cinzas. A altas torres de Minas Tirith estavam cobertas por gelo.

--Já começou. – proferiu Aragorn, em um tom baixo.

Faramir maneou a cabeça e piscou, aturdido. Seus olhos arregalados de espanto receberam o alento da normalidade das torres e a placidez da Árvore Branca. Porém, aquela visão ainda estava atrás de suas órbitas, marcada a fogo em sua mente.

Aragorn aguardou paciente e em silêncio. Eram atributos naturais do guardião que fora um dia e da essência dos elfos com os quais havia crescido. Sabia que não havia necessidade de perguntar se Faramir compartilhara a Visão. Estava escrito na face do Senhor de Ithilien.

Faramir não compreendia o significado daquela Visão, mas elas jamais falharam com ele. De olhos abertos ou fechados.

-- Como posso servi-lo, meu Rei e amigo? – repetiu Faramir com seriedade.

Aragorn sorriu e ali estava a confiança e sua eterna aliada, a esperança.

-- Ajude-me a consertar o futuro, Faramir.

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O jantar transcorria com alegria e tranqüilidade embora os convivas fossem os donos de personalidades notoriamente controversas. Diziam que era a presença nobre do Rei Elessar que mantinha todos unidos e pouco discutiam em sua presença para não desagravá-lo, exceto quando em reuniões específicas para assuntos complexos. Outros diziam que era a presença da sua Rainha Élfica, que era tão astuta quanto hábil em manejar as desavenças de antigos inimigos em possibilidades de compreensão. Assim sendo, não era surpresa para Éowyn que o ambiente fosse acolhedor.

Porém, ela observava a expressão distante de Faramir atrás da fachada inteligente e respeitosa do marido. Algo o perturbava e para ela, era tão fácil perceber aquilo como o motivo daquele jantar.

Éowyn dispensou o excelente vinho bebericando em pequenos goles a água na sua taça vasculhando os rostos alegres a sua volta. Seriam todos tão tacanhos a ponto de não perceber o óbvio?A Dama de Rohan arqueou a sobrancelha loira e tornou a buscar resposta no rosto de Faramir, mas ele a ignorou, cedendo atenção para uma das jovens estúpidas do quinto círculo.

"Deixe estar", pensou Éowyn fitando agora Arwen, parecendo muito atenta e interessada no nobre de Lossarnach. O homem continha-se, mas Éowyn jurava que acabaria salivando no vestido da Rainha.

Seus olhos recaíram sobre Elessar e o Rei devolveu seu olhar indagador com um sorriso simples, como a pedir paciência.

Éowyn respondeu aquele pedido mudo com um gesto implicante, erguendo o queixo e semicerrando os olhos claros.

-- É verdade que meu irmão vem à corte para trazer os cavalos para o Reino de Gondor, majestade?

A voz grave de Éowyn percorreu a mesa como a lâmina de uma espada. Não era o que pretendia, mas estava perto e ela não se importou. Conseguira a atenção de quem interessava e o rosto do marido estava na direção certa agora.

-- Sim, é verdade, lady Éowyn. – respondeu Elessar, em um timbre franco e agradável. Alto para ser ouvido e baixo suficiente para ser distraído por novas ondas de conversas ao longo da mesa. A face calma de Aragorn lembrou dias instáveis no Ermo e o Rei ponderou por alguns instantes, antes de tornar com elegância. – Será bem vindo e todos poderemos saber notícias da sua terra, Éowyn, onde temos tantos amigos.

Éowyn estudou o semblante de Aragorn por alguns instantes, o copo equilibrado na mão delgada, com maestria semelhante a qual Éowyn controlava as palavras na ponta da língua. A outra mão na saia enroscou-se no tecido, dando a Éowyn alguma margem de fuga para a raiva.

Algo quente e macio tocou a mão que contorcia o tecido do vestido embaixo da mesa. Éowyn manteve os dedos contraídos apesar do toque reconfortante de Faramir.

Aragorn sustentou o olhar da dama de Rohan por alguns instantes e esboçou um sorriso confiante. Éowyn leu mais uma vez o pedido de paciência e algo mais que fez seu corpo estremecer.

"Coragem", pensou Éowyn, volvendo o corpo para encarar o marido. "O Rei lhe pedia coragem".

Uma música agradável ressoou pelo salão e a rainha se ergueu marcando o final do jantar. Para Éowyn o banquete havia sequer começado e mal prestara atenção às iguarias servidas. Registrou o movimento de corpos e roçar de tecidos no gesto de todos os convivas que respeitavam o desejo da Soberana, mas apenas se concentrou em devolver o copo a mesa, ao invés de espatifar o vidro entre os dedos.

-- Éowyn. – sibilou Faramir junto ao seu ombro e o hálito de vinho roçou na pele exposta.

Éowyn obedeceu aquele chamado e satisfez a vontade do marido. O criado suspirou de alivio após segurar o espaldar da cadeira por tempo suficiente até que todos olhassem para ela, algo que qualquer pessoa em Gondor preferia evitar. Para não ser alvo da atenção por mais tempo, Éowyn forçou o corpo para cima com a mão presa entre o toque apertado dos dedos de Faramir.

Sabia que obedeceria ao pedido mudo do amigo, mas ninguém em terra alguma conseguiria aquela boa vontade sem uma explicação que a satisfizesse.

E era melhor para todos que fosse uma explicação muito boa. Pelas terras de Rohan se não fosse!

O grupo se dissolveu entre interesses comuns e inimigos semelhantes. Faramir estava atento a desconfiança de Éowyn, por isso, conduziu a esposa gentilmente até o pórtico limítrofe com o salão. Éowyn odiava as danças da corte de Gondor e desdenhava dos comentários insípidos das jovens. Até entendia o motivo daquilo, afinal, não eram mulheres criadas no espírito de Rohan e precisavam encontrar um jeito de casar. Faramir ria internamente com a forma em que Éowyn reduzia os jogos de interesses e seduções em projetos de enlace matrimonial, pois sabia que alianças mais perenes estavam em jogo, mas compreendia a visão de Éowyn, lógica e prática demais para os meandros sutis da corte.

Lentamente, Faramir tentava mostrar a Éowyn as diferenças entre as duas terras e como havia elegância, sabedoria e beleza na maneira de viver de Gondor, mas Éowyn sabia ser uma péssima aluna quando estava de mau-humor. Somente Arwen podia com seu estado de espírito daquela forma.

Ele sabia que havia exagerado na atenção a jovem, mas conhecia os pais dela das suas fugas a Biblioteca e eram pessoas sábias. Faramir era o tipo de pessoa que concedia toda sua atenção a qualquer ser humano que se colocasse em seu caminho.

Éowyn deixou-se conduzir imaginando que tipo de distração Faramir havia preparado para suas dúvidas. O marido era mestre naquele jogo, decerto aprendera nos salões daquele palácio, mas havia algumas coisas que uma mulher podia aprender sobre um homem depois de algumas noites dividindo o mesmo leito.

-- Sei que não aprecia esse tipo de diversão, Éowyn. – iniciou Faramir, fixando seus olhos no rosto alvo da esposa. Ela parecia contrariada, limitando-se a resmungar em resposta e ele tentou não sorrir, pensando que se perderia no rumo da conversa se fosse levado pelos encantos dela. Ofereceu o braço mais uma vez, apreciando a pronta resposta de Éowyn. Continuou, aquiescendo a cabeça em uma saudação aos convidados que passavam por eles – Amanhã iremos até Ithilien... – Éowyn resmungou mais uma vez e Faramir contraiu o cenho. Ela sabia muito bem o que significava o convite e sempre fugiam para Ithilien para conferir os trabalhos no local. – Você não quer ir, Éowyn?

Éowyn maneou a cabeça, assim como Faramir, sorriu de leve e lançou algumas flechas assassinas na direção do marido ao erguer o rosto para fitá-lo.

-- Tem certeza que está fazendo um convite válido, meu marido? – devolveu, com doçura na voz.

-- É claro que sim. – Faramir manteve-se alerta e mudou o braço de posição apoiando as costas de Éowyn. Levou-a com firmeza e tranqüilidade até o balcão. – Acaso já fiz um convite a você que não fosse possível cumprir?

O musico iniciou uma canção com acordes fortes e algumas pessoas iniciaram palmas ritmadas. Éowyn reconheceu Amrothos ao lado do músico e parte da sua tripulação unindo suas vozes fortes ao coro. O filho de Imrahil era bastante popular em Gondor e sua chegada sempre festejada, pois trazia suprimentos, notícias e alegria. Era de uma alegria natural, sério quando necessário e com fama de conquistador, embora, Éowyn reconhecia que ele era apenas atencioso com todos.

Por algum motivo inexplicável, Éowyn sentiu falta do irmão.

-- Sinto saudades de casa. – falou, sem pensar. – Espero que Éomer nos visite logo.

A face de Faramir se enterneceu e ele levou a mão da esposa discretamente até os lábios.

-- Ele virá, Éowyn. Em breve Ithilien estará pronta e fará o que desejar de suas tardes.

Os olhos de Éowyn brilharam e tocou de leve no anagrama bordado no punho do marido. Ela achou que não seria justo conduzi-lo aquela linha de pensamento e corrigiu o rumo das preocupações de Faramir.

-- Não desgosto de estar aqui, meu marido. – avisou, sustentando o olhar intenso que recebia. Hesitou e tornou, lentamente – Apenas temi que ele não viesse, Faramir. – sibilou Éowyn com um passo curto se achegando mais próxima do marido.

Um burburinho baixo se formou próximo a eles e então se dissolveu com a nova estrofe contagiante da música.

Faramir sentiu o momento em que a armadilha preparada pela esposa se fechou ao seu redor, mas naquele instante, um beijo roubado era um preço pequeno a pagar. Inclinou-se de leve, virando as costas para a visão do salão. Apertou a mão de Éowyn contra o peito e sussurrou próximo ao rosto dela.

-- Seu irmão e meu amigo é um homem de palavra. Ele virá. – a música alcançava seu ápice e mesmo aqueles que estavam próximos, sussurrando comentários não podia vê-los completamente.

Ele não estava se importando muito de começar um escândalo de qualquer forma.

Éowyn contou as linhas do bordado na túnica controlando o coração em algumas batidas antes de erguer o rosto. Conhecia o ritmo da respiração sobre sua cabeça, o calor que apertava seus dedos e se espalhava de mansinho para o braço e ao longo do corpo. Era uma armadilha preparada e Éowyn queria uma resposta para suas próprias dúvidas, mas se fosse perder tudo por um beijo roubado, era um pequeno preço a pagar.

Encontrou duas órbitas escurecendo e a promessa de um pequeno delito em público que valia a pena. O calor em seus dedos se deslocou para seu rosto e Éowyn entreabriu os lábios, esperando que suas palavras não afastassem a promessa que estava escondida e se aproximava em um ritmo hipnótico através da boca do marido.

-- Então, por que não contou a Aragorn sobre a surpresa? – a pergunta saiu num suspiro e Éowyn sentiu que os olhos se fechavam por conta própria. Algumas lembranças se descolaram das paredes da memória espontaneamente e ela não ouviu mais a música no salão. Soprou, em final de resistência – Ele não sabia de nada... Falaram sobre outra coisa pela manhã.

Seus lábios se roçaram e o calor que se deslocou para dentro da alcova úmida encheu os dois de sussurros e lembranças.

Faramir quebrou o contato quando o teor das palavras de Éowyn finalmente ganhou algum sentido ao se unirem dentro da sua mente entorpecida.

Ela abriu os olhos e Faramir identificou minúsculos pontos negros na íris azul clara. Sua face pálida estava corada nas maças do rosto e ele levou mais alguns segundos para se lembrar que estavam no balcão, no meio da festa e que a pergunta de Éowyn era mais importante e perigosa do que um escândalo.

-- Éowyn... – foi tudo que conseguiu dizer.

Éowyn abaixou os calcanhares, mantendo o olhar fixo no rosto do marido. Em algum momento que não registrara, o braço dele havia se enroscado em sua cintura e estavam mais próximos que as normas de etiqueta permitiam. Seria suficiente para que Éowyn esquecesse dos próprios planos anteriores. Porém, lá estava ela, a infame verdade, dançando corpo a corpo com seu marido. A honesta transparência que impedia Faramir de sair ileso de qualquer tentativa de mentira.

-- Você não disse. – Éowyn proferiu, afinal, aquilo que adivinhara desde o instante em que havia inquirido o Rei durante o jantar. Sua respiração prejudicada pelo beijo tornou-se ainda mais rápida com a raiva pela mentira. – Mentiu para mim. – a acusação resvalou de seus lábios soprando baixinho. Os olhos de Éowyn se abriram com a expressão séria e solene do marido que bem conhecia. – Elessar pediu algo a você, não foi?

Faramir suspirou e soltou os dedos da esposa. Os aplausos haviam diminuído e ele começava a sentir um comichão na nuca, típico de quando a atenção de todos se voltavam para sua direção.

-- Conversaremos sobre isso. – garantiu, sério. – Prometo.

Para surpresa dele – e de Éowyn também – ela agarrou o pulso do marido e não o deixou se afastar.

-- Seja o que for, saberemos esta noite, não é? – com o silêncio, Éowyn insistiu empurrando o corpo contra ele. – Não é?

O burburinho se elevou com uma voz feminina. Faramir fechou os olhos e mudou rapidamente de posição, cobrindo a esposa.

-- Ora, é algo que não era visto na época do senhor Denethor, não é mesmo, senhor Faramir?

-- Deve ser o vinho. – observou o regente de Lossarnach com um divertimento e curiosidade.

Faramir sentiu algo quente apertando seu pescoço e reconheceu como raiva, engoliu a saliva e controlou a vontade de ser indelicado fisicamente com o regente.

-- Meu pai não aprovava festas, senhora. – tornou em tom seco, porém, polido.

-- E nem demonstrações de apreço em público.

Éowyn saiu da proteção oferecida pelo marido, a raiva pela mentira associada ao comportamento daquelas pessoas.

-- Culpe minha inabilidade para esse tipo de dança. – tornou Éowyn, a voz sibilando com frieza, em um eco perfeitamente polido do timbre do marido. - Sou, como todos sabem, uma mulher do interior.

A sobrancelha do regente levantou-se até a raiz dos cabelos.

-- Ah, sim. Estavam... dançando?

Faramir observou com desgosto a pequena audiência que se formava rapidamente. Com um rápido olhar notou a fúria que estremecia o corpo de Éowyn embora ela se mantivesse ereta e com o queixo erguido.

Ele sentiu uma vontade pecaminosa de beijá-la de novo na frente de todo mundo. Teve que controlar o sorriso, principalmente, porque o olhar no rosto do sujeito não estava ajudando. Talvez a mulher estivesse certa e ele não estivesse bem da cabeça, desejando atacar a esposa na frente de todo mundo.

-- Assim que dançam os camponeses? – alfinetou a mulher e o murmúrio de desaprovação com as palavras rudes aquietaram o entusiasmo do que ela tinha a dizer. Ela se corrigiu, rapidamente. – Decerto, uma jovem nobre como você aprenderá logo a forma de Gondor.

-- Eu prefiro como está neste momento. – proferiu Faramir com secura. – Associado aos hábitos respeitosos desta corte, como lembrar seus devidos lugares, torna o festejo desta noite algo inesquecível.

Houve um silêncio incomodo, mas era óbvio que a audiência, até então intrigada e divertida com a indiscrição do jovem casal se comprimia desgostosa com o rumo aviltante das palavras daquela senhora.

-- É claro, senhor Faramir. – disse o Regente, oferecendo o braço para a senhora e uma retirada estratégica que foi aprovada e iniciada pela audiência.

Amrothos surgiu no sentido contrário das pessoas que se dispersavam e se aproximou do casal, com um olhar divertido.

-- Também dançamos assim em Dol Amroth. – piscou para Éowyn de maneira engraçada. – Espero que minha irmã ensine ao Rei de Rohan como dançar sem ficar pulando.

-- Amrothos...- sibilou Faramir, consternado, mas relaxou ao ver que Éowyn sorria. – Que música foi essa, afinal?

-- Uma que ninguém entendeu. – ponderou o rapaz erguendo o próprio copo para algumas jovens. – Somente vocês.

-- Oh, pare, sim? – reclamou Éowyn acertando as madeixas atrás da orelha. – Duvido que lady Lothíriel aprovasse seus modos e sua língua, senhor Amrothos.

-- Verdade. – ele tornou a sorrir mostrando os dentes brancos em uma risada contagiante. – Meu pai tampouco aprecia, mas escutem um amigo: Da próxima vez, dancem no salão e tentem ensinar aos amigos de Gondor como se divertirem numa festa.

-- Um excelente conselho. – retorquiu Faramir, sério. – Agora, se me permite, tenho um assunto a tratar com minha esposa.

-- Não estou mais aqui. – Amrothos aquiesceu com um gesto elegante e se afastou.

Éowyn aceitou o convite oferecido por Faramir apoiando a mão no braço dobrado do marido. Puxou a barra da saia fitando-o de esguelha.

-- Não havia necessidade de ser rude com ele. – mais uma vez, o silêncio veio como resposta e Éowyn sorriu de leve. Era algo engraçado quando acontecia, porque era um evento raro e Éowyn sentiu a má disposição com Faramir se dissipar um pouco ao notá-lo com ciúmes do filho de Imrahil – Ele só quis ajudar.

Faramir limitou-se a resmungar algo incompreensível e conduzi-la para o salão aproximando-se do casal real.

-- Está tudo bem? – perguntou Arwen fitando a expressão fechada de Faramir.

-- Tudo. – antecipou-se Éowyn acomodando-se ao lado da rainha. Aceitou o vinho oferecido e tornou a encarar o semblante tenso do marido. – Exceto pelo fato que Faramir esqueceu de dizer algo ao Rei Elessar hoje e mentiu. Claro que o episódio desagradável no balcão aumentou nossa indisposição, mas conforme o próprio Faramir disse, tudo será resolvido. Esta noite.

Faramir mexeu a taça e estudou o vinho por alguns instantes antes de devolver o olhar da esposa.

-- Nem tudo foi desagradável. – falou, mansamente.

Arwen permaneceu impassível, mas seus olhos cintilaram e ela procurou o marido com discrição.

-- Tudo será resolvido. – repetiu a Rainha e sua voz acalmou o coração de Éowyn como uma promessa.

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Após os festejos, o casal se despediu de todos os visitantes retribuindo com cortesia os convites e agradecimentos. Arwen notou que Aragorn estava cansado, mas manteve-se em um silêncio cúmplice, ciente que havia um peso invisível em seus ombros agora e ele ainda não parecia pronto a dividir com ela.

Quando o último convidado atravessou a porta, Aragorn dispensou os servos e a sentinela, fechando as portas duplas com movimentos precisos. Arwen escolheu um divã e sentou-se tranqüilamente cruzando as mãos sobre o colo.

-- Seria mais fácil se você simplesmente contasse para mim, Estel. – proferiu, sua voz macia rolando o espaço entre eles.

Aragorn voltou-se e encostou o corpo contra a madeira. A ordem deveria ser cumprida. Um de cada vez para minimizar os danos, aumentar as chances de sucesso de uma missão perigosa, que já se mostrava arriscada demais.

Ele fechou os olhos quando tornou a ver as pétalas das flores e as folhas de Valfenda rodopiando ao redor de Arwen, lindas e perfeitas, até congelaram-se em cristais de gelo. Quebraram-se ao contato com o perfil dela e se desfizeram em cinzas sobre a Rainha.

Atrás dela, mais uma vez, o seu lar esmaecendo em gelo e cinzas, sombras de um futuro incerto, destinado a morrer porque um encantamento abrira brechas para o Tempo, brincara com o Destino.

Aragorn abriu os olhos e Arwen estava mais uma vez a sua frente. Nítida, bela e segura, assim como o aposento em Gondor e o presente.

"Por enquanto", pensou, estudando cuidadosamente as próprias palavras.

-- Legolas está em perigo.

A frase curta percorreu o espaço de volta sem a suavidade dos tons da Rainha. Arwen digeriu a informação em silêncio e estendeu uma das mãos na direção dele.

Aragorn refez o trajeto até ela, com passos lentos, os olhos estudando as reações invisíveis naquele rosto perfeito, sem máculas ou emoções desmedidas.

-- O que posso fazer? – sussurrou Arwen quando ele finalmente sentou-se ao seu lado, suas mãos apanhando a que era ofertada em convite.

Aragorn inclinou o rosto e tocou sua fronte na dela. O contato com a pele macia dela, quente e real vibrou através da sua própria essência e ele sorriu.

-- Pode apenas me amar...

Arwen apreendeu aquele instante de decisão de Aragorn vendo seu rosto tão próximo, os cílios que cerravam seus olhos como cortinas e a firme decisão dele em protegê-la de algo que ela sabia, estava correndo na sua direção.

Poderia descobrir. Sim, ela podia.

Ou poderia fazer o que ele estava pedindo. Era uma decisão fácil.

-- Eu amo.

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Torre de Ecthelion

Horas mais tarde.

Aragorn observou a noite cálida e o sentimento de paz que brotava dos corações adormecidos em Gondor parecia acalentar suas preocupações. O trabalho dos anões transformava Minas Tirith em uma jóia e a cada dia, o povo que prosperava aumentava seu orgulho na vitória da Hoste do Oeste, na felicidade em estarem vivos, na lembrança das antigas alianças que pareciam perenes com a cidade cheia de estrangeiros, elfos habilidosos e misteriosos aos olhos dos antigos, anões laboriosos e inestimáveis artífices. Tudo era motivo de festa, comentários e planos. Os rohirrim eram vistos com amizade e simpatia e o vento trazia presságios de um futuro ainda melhor.

Aragorn pousou o braço sobre a pedra e direcionou o olhar para o estandarte da Torre Branca e as Estrelas.

Foi assim que Faramir, filho de Denethor o encontrou.

Os dois homens se olharam em silêncio e sem que Aragorn nada dissesse, Faramir o seguiu.

Adentraram no hall da Torre e caminharam lado a lado até Câmara. Outrora, a palantír estivera na Torre e Faramir não pôde deixar de pensar no pai, fechado naquele majestoso aposento, a conversar com os próprios pensamentos e as visões malignas cedidas por Sauron.

Um arrepio de presságio percorreu seu corpo, mas Faramir manteve-se em silêncio respeitando os pensamentos de Aragorn. O ambiente se tornou mais leve quando Aragorn sentou-se na poltrona de alto espaldar e contemplou a visão da montanha, das torres entrecortadas pelas estrelas da madrugada.

A Câmara havia sido purificada pela presença do Rei Elessar e dali jamais saíra maus conselhos.

-- Sente-se, Faramir. – pediu Aragorn e no timbre da sua voz havia um toque de Elessar, mas nos seus olhos adivinhava-se o brilho do guardião que cruzara a Terra-Média lutando pelo futuro.

Faramir encaminhou-se para seu lugar de costume, mas Aragorn fez um gesto e pediu para que ele se sentasse ao seu lado.

-- Neste mesmo local, Legolas me pediu permissão para partir na Caravana rumo a Rohan. – iniciou Aragorn, sem circundar o assunto com meias palavras. – Apesar de seu trabalho e do seu povo aqui em Gondor, Legolas sabia que não precisava me pedir nada. – Aragorn silenciou por alguns instantes, os olhos perdidos em lembranças e em determinado ponto, o Rei sorriu com o canto dos lábios, ao deparar-se com alguma memória simples, porém, agradável. – Somos amigos e eu confio nele.

Faramir apoiou a mão no joelho, inclinando-se para observar o perfil de Aragorn. Ele conhecia parte daquela história, pois também havia destacado homens para a Caravana.

Aragorn reiniciou e seu semblante demonstrou preocupação.

-- Até hoje eu não compreendo ao certo porque o nobre Rei Thranduil me colocou a par de suas tradições, talvez, e é insignificância da minha parte não aceitar isso, mas talvez, Thranduil soubesse do Tempo e do Destino e da missão que retornaria para sua Casa através de Legolas... – a voz de Aragorn se reduziu num sopro e ele arqueou a sobrancelha ao ver o olhar intrigado de Faramir. – Sei que você não está entendendo. Desculpe... – Aragorn maneou as mãos em um gesto de impotência e arqueou as costas, acomodando-se melhor a poltrona. – Não sei ao certo se é o correto ou como explicar.

Faramir aquiesceu em compreensão buscando, na verdade, a tentativa de entendimento. Aquelas frases eram enigmas.

Aragorn sabia do fato e esfregou a fronte com o punho fechado, reorganizando os pensamentos antes de recomeçar.

-- Legolas partiu com a Caravana para acompanhá-los, mas seu Destino é algo maior. Uma missão delicada em que repousa o equilíbrio do mundo em que vivemos. – iniciou em tom baixo e pausado, medindo as palavras antes de proferi-las. – Isso sempre aconteceu. Em todas as Eras. Sempre. – Aragorn pausou, a fim de certificar-se que Faramir compreendia e aceitava aquelas palavras. – Agora, é a nossa vez. Nós lutamos para que a paz prevalecesse e ainda estamos aprendendo com ela, como tê-la e estendê-la até a época dos nossos filhos. Que seja tão palpável e definitiva que dure além. Sempre que esse momento surge, quando a Paz se apresenta, é o tempo de um teste, maior do que batalhas e lutas, mais feroz que a lâmina da espada e do descontentamento do inimigo. – Aragorn hesitou, seus olhos cintilando com o reflexo da noite estrelada e suas próprias emoções. – Você está entendo, Faramir?

Faramir quedou-se pensativo e respondeu com simplicidade.

-- Sim, eu entendo, mas temo, majestade, que meu alcance seja puramente filosófico e suas palavras vão além de conceitos. – Faramir levou a mão ao peito e maneou a cabeça com vagar. – Eu temo que não compreendo como isso se aplica a algo presente e tangível, como a viagem da Caravana e seu amigo elfo.

Aragorn sorriu com aquela resposta tão honesta e acurada.

-- Foi o que eu pensei também.

-- Não sei se fico aliviado ou consternado em saber, majestade. – ponderou Faramir, respeitosamente.

Desta feita, Aragorn riu e levantou-se da poltrona caminhando até a janela. Faramir aguardou um pouco e ao vê-lo em uma postura descontraída, levantou-se e o seguiu. Sabia que o ato do amigo detinha-se na necessidade de afastá-lo dos títulos e do respeito hierárquico de um Rei.

-- Todos temos dúvidas, Faramir. E são essas dúvidas que abrem espaço para as escolhas, para a ação do destino.

Faramir observou o perfil de Aragorn por algum tempo, antes de cruzar os braços e colocar em voz alta os próprios pensamentos.

-- Eu acho, meu amigo, que se pretende me pedir algo deve dizer o que está acontecendo, mesmo que eu demore a compreender. – Faramir sorriu. – Está falando como seus familiares.

Aragorn voltou-se e arqueou as sobrancelhas por um instante.

-- Acho que sim. O que tenho a pedir é muito...

O silêncio do Rei incomodou a Faramir. Sua curiosidade não era muita, visto que não havia espaço na sua personalidade para algo tão venal quanto o que movia intrigas. Porém, a hesitação de um homem como Aragorn trazia os mais estranhos presságios.

-- Perigoso?

-- Estranho. – ponderou Aragorn, surpreendendo-o. Seu semblante fixou-se em decisão austera. – Preciso que vá a Rohan. – desfechou, finalmente. - Sozinho.

Faramir achou o pedido inusitado. Todos iriam a Rohan em breve para o casamento de Éomer e Lothíriel, porém, silenciou e incentivou Aragorn a continuar.

-- Não fale com ninguém, não se abrigue em locais conhecidos. – Aragorn prosseguiu em tom baixo e rascante, com uma seriedade que não admitia questionamento. – Você deverá chegar a Rohan como meu emissário, representando o Oeste e uma vez lá, não importa o que encontrar, em qual situação estiver Rohan... – Aragorn deu um passo a frente e colocou as mãos nos ombros de Faramir com extrema urgência. – Você deve defender Legolas no julgamento.

-- Julgamento? – estranhou Faramir, aturdido com a missão confusa a sua mente.

-- Sim, julgamento. – Aragorn deixou as mãos caírem e se afastou um passo. Sua face era uma máscara misteriosa em que não havia brechas para encontrar respostas, além do que as que ele propunha. – Você deve defendê-lo do julgamento do Rei de Rohan e ajudá-lo a terminar o que começou. Nisso reside toda a esperança.

Faramir observou a expressão de Aragorn reconhecendo a fibra de Elessar em colocar em seus ombros uma missão que não fazia o menor sentido.

Ele lutou por algum tempo contra os próprios contra-argumentos até encontrar perguntas que podiam ser respondidas.

-- Você não pode me dar mais detalhes?

-- Não. – a resposta curta veio adornada com um pedido sincero de perdão. A intensidade da preocupação de Aragorn o comoveu e Faramir ficou muito quieto e pensativo. – Tudo que eu disser poderá confundir sua mente no instante em que precisarei mais do que tudo da suas habilidades, Faramir. Você é um homem justo e sempre soube escolher quando os problemas se apresentaram em seu caminho. – Aragorn pausou e cravou os olhos cinzentos no amigo. – Eu confio que será a peça chave para decidir o destino ao nosso favor.

Faramir passou a mão pelos cabelos e se afastou de Aragorn. Havia inúmeros detalhes práticos que se tornariam impossíveis. Era claro que a missão era secreta. Ninguém saberia da sua partida ou chegada. A chave do sucesso esperado por Aragorn era o segredo.

-- O que eu peço é difícil, mas eu espero resultados impossíveis de uma pequena mudança. – disse Aragorn, sua voz estava baixa e cansada.

-- Sei que só algo infinitamente importante o levaria a isso, Aragorn. – ponderou Faramir, estudando o amigo com perspicácia. – Por que não pode ir pessoalmente? Sua vida está em risco?

Aragorn fechou os olhos por alguns instantes afastando a Visão que se mostrava nas brechas do Tempo.

E mais uma vez, sua resposta confundiu ainda mais o Senhor de Ithilien.

As palavras de Aragorn saíram de sua boca com um suspiro baixo.

-- Faramir, eu estarei lá.

-- O quê? – Faramir estancou, intrigado. – Você estará lá?

-- Sim, para o casamento de Éomer e Lothíriel. – soprou Aragorn e ao reabrir os olhos, a antiga energia que emanava do Rei voltou a imperar na Câmara. – Será uma hora depois do julgamento de Legolas... se... – Aragorn estudou o rosto de Faramir e retesou os ombros, como se decidisse poupá-lo de uma confusão ainda maior de pensamentos. Tornou, em bom brando. - u confio que você fará o que eu não puder por diversos motivos que eu não posso dividir com você. Justamente, porque posso colocar o seu discernimento em perigo.

Faramir finalmente desabafou.

-- Isso é ilógico e não faz o menor sentido! Você jamais deixaria Éomer condenar Legolas e porque ele condenaria o próprio amigo no dia do seu casamento? – Faramir respirou profundamente, buscando ordenar as emoções. – Eu não entendo.

-- Eu sei. Mas você irá, Faramir?

Faramir pensou em todos os motivos lógicos para recusar, nos argumentos para compreender e descobrir o real problema daquela situação, porém, a lembrança daquela visão retornou a ele. Da Árvore morta e de Minas Tirith congelada aplacou sua decisão. Ele trocou um longo olhar com Aragorn e viu mais uma vez o Rei do Oeste, o peso que ele deveria carregar por saber muito mais do que dizia e por tentar, dentro do impossível ceder alguma chance para a paz.

Um teste.

Para um verdadeiro rei.

Faramir contraiu o maxilar e aquiesceu em silêncio. Apesar de ser completamente estranho, inusitado e ilógico, ele confiava em Aragorn.

-- Irei.

A Câmara ficou em silêncio e Faramir teve a impressão de ouvir o destino suspirando as suas costas.

-- Pode apenas me responder porque Legolas será julgado? – perguntou sem fitar Aragorn nos olhos.

-- Não... Sinto muito, eu não posso. – repetiu Aragorn, lastimando a posição em que colocava Faramir.

-- Já sei, para não atrapalhar meu discernimento. – citou Faramir, cada vez mais preocupado com as futuras decisões. Esfregou o maxilar e sorriu, tentando brincar com aquela artimanha do destino. Seja como fosse, Aragorn aprendera rapidamente a maneira de Gondor em como enredar seus filhos. – Ao menos pode me dizer porque Éomer condenaria Legolas? É preciso saber o que pensa um Rei quando pretendemos divergir de suas ordens, em sua própria terra!

Aragorn estudou aquela pergunta com um cuidado maior do que Faramir esperava. De fato, Faramir esperava a mesma resposta que obtivera até então.

A resposta negativa talvez tivesse sido melhor do que a ofertada pelo Rei de Gondor. E com certeza, não teria maior impacto em Faramir do que as palavras que foram ditas.

-- Porque não será Éomer que você irá encontrar como Rei de Rohan, Faramir.

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