O NOVO MUNDO
Oi!
Ando com um intervalo imenso entre um capítulo e outro, mas estou com três fics em aberto, mais o trabalho louco e estudo. Claro, claro, isso não é desculpa...hehehehe
Obrigada a todos os recadinhos e apoio, beijos especiais para:
Asuen – Suas palavras foram de vital importância para eu criar coragem e voltar ao trabalho, saindo do meu trabalho do dia-a-dia. Obrigada pela força, as vezes, um empurrãozinho é só o que um autor precisa.
Nim – Sim, querida, você tem, definitivamente, um fetiche por Reis. Mas e aí, quem pode culpá-la? Sinto que estarei liquidando uma divida imensa que adquiri contigo após lançar o Faramir nos mais terríveis pecados do Beco, mas devo confessar que também estou enamorada pelo regente e começo a ficar viciada.
Sadie – Ainda é um mistério como você escreve fanfics tão fantásticas e ainda vem me elogiar. Só pode ser a dádiva de ser uma mestra e eu agradeço sempre pelo seu apoio. É uma honra saber que você me acompanha.
Esse é um capítulo muito especial, provavelmente, retornarei aos acontecimentos dele mais tarde. Eu tive que dividir os acontecimentos, porque são fatos importantes que refletem no restante da fanfic. Espero que gostem.
O tabuleiro está pronto,
As peças estão se movendo.
Gandalf, O Retorno do Rei.
O NOVO MUNDO
UM DESERTO DE ESCOLHAS
I - LEGOLAS
III Era, 3020 Registro De Gondor
Cermië
Os passos de Legolas ecoavam em réplicas dissonantes ao seu redor. Ele sentia que o momento de colisão se aproximava, o instante que todo ser vivente tem o vislumbre da verdade, quando suas decisões do presente ecoariam no futuro e, passado muitos anos, retornariam aquele ponto preciso, perguntando-se o por que daquela decisão, como seria se houvesse agido de outra forma.
Como seria o mundo se houvesse escolhido uma outra trilha, uma outra frase, um outro caminho?
Legolas reduziu a velocidade e imprimiu maior força de resistência nos músculos para saltar na árvore. Calculou a própria energia e exalou o ar pesadamente. O barulho de gelo se partindo ecoou na sua mente quando o elfo guardou o arco e passou a subir lentamente, usando pequenas reentrâncias no tronco para manejar sua posição de ataque.
Ninguém o ouvia, Legolas tinha certeza, era somente aquele eco a persegui-lo, sua própria voz quase emudecida pelo cárcere e ausência de sol. Mais que qualquer outro, Legolas ansiava pelo desfecho da própria missão, quando deixaria de ser uma alma solitária na tempestade de neve, um espírito rasgado e dividido de passado e futuro, retornando a ser único no presente.
O elfo acomodou-se entre o galho e o tronco, a curvatura sólida da árvore fornecendo tempo de repouso para os músculos que vibravam em contrações dolorosas pelo esforço. Ignorando aquela reação, Legolas estudou a localização do prisioneiro. Ele continuava atado e cego, privado de notícias de amigos – e de inimigos; sem norte ou sul para guiá-lo.
Os olhos azuis de Legolas se tornaram opacos e ele fitou o céu. Ele percorrera um caminho tão longo para chegar àquele instante! Pousado na árvore tal qual pássaro sem ninho, com o fio do destino sobre seus pés e a lâmina do futuro sobre sua cabeça. O espaço entre a decisão e as suas conseqüências eram um vácuo de solidão e intenso frio, um deserto infinito que ele não podia fugir. Não havia pontes para reduzir a sensação de infinito. Não havia como driblar a lei de ação e reação. Um pequeno segundo e tudo seria modificado. Vidas inteiras que correriam entre seus dedos.
A audição dos elfos orientou Legolas que o instante chegava. Os captores de Elfhelm também traziam ecos em seus passos e Legolas só podia esperar que tomassem a decisão certa.
Um pequeno sorriso brotou dos lábios do elfo e ele cerrou os cílios por alguns segundos, refletindo enfim, que encontrara resposta para a distância entre o príncipe da Floresta e seu Rei.
Com palavras duras, Thranduil o colocara a caminho, incitando-o a seguir com seus fieis amigos e aqueles que amavam ao Príncipe a fazer seu trabalho em Gondor. Legolas sentiu que uma distância intransponível erguia-se sólida entre eles, mas o brilho misterioso nos olhos de águia do Rei garantia que ele sabia. Legolas voltaria. Ele próprio já trilhara aquele caminho, o coadjuvante do Destino.
Os homens se reuniram ao redor do prisioneiro. Legolas sentia as emanações de raiva e frustração que estremecia o corpo do Marechal de Rohan, sentia o ódio daqueles homens formando sentenças de morte.
Legolas sentiu os pensamentos correram de volta para o pai. E mesmo naquele instante, em que faria a opção derradeira para consertar a ponte entre o passado e o futuro, Legolas se permitiu também pensar no porquê e nas possibilidades. Se ele soubesse, quando era apenas um infante que era aquele deserto infinito e vazio, árido e frio que o separava de Thranduil, talvez tivesse sido mais complacente com a forma em que o Rei o tratava. Ele próprio não agira assim durante a Caravana, afastando Elladan e Elrohir do seu coração, por estar preso naquele vácuo escuro de possibilidades? Ele também não havia afastado os mais caros sentimentos do seu coração para não vê-los se partir congelados pelas escolhas que tinha que fazer? Ele, Legolas, não preferira guardar os sentimentos em um local sagrado e inacessível da própria mente, para que o amor e a lealdade aos amigos não se partissem com o gelo infinito daquela missão?
Na última hora de existência, Legolas sentiu o gelo derretendo-se do seu coração e sua mente libertou as mais belas experiências da sua vida. Reviveu com saudade e um sorriso singelo a própria infância, os dias eternos em Valfenda, a amizade com os filhos de Elrond e o tempo precioso ao lado do amigo humano. O riso rouco e as palavras sussurradas das árvores nas florestas. As lembranças desfilaram em toques singelos pela sua mente aquecendo sua alma, as lutas e disputas pela vida, os amigos inesperados da Sociedade, o passeio tenebroso ao lado de Gimli. O anão jamais soubera que ele, temível caçador e assassino de orcs, amigo leal e companheiro de tantas aventuras estremecera de medo naquela jornada. O amigo riria dele até enrolar os fios de sua barba.
Tantas memórias, aquecendo docemente seu coração!
Legolas sentiu que o sorriso desaparecia de seus lábios e com o punho fechado, passou o braço pelo rosto com um movimento distraído a fim de apagar as lágrimas que caíram sem que ele percebesse. O ato mecânico, infinitamente repetido na vida de guerreiro levou o arco e a flecha entre os dedos e ele calculou as forças necessárias para iniciar a luta.
Os ecos de sua voz flutuavam junto com as memórias e o presente. Ele sentia o destino tocando suas cordas, os fios de harpa dedilhando novas histórias e as lembranças agora se alternavam entre as que ele não mais reconhecia.
Ignorando aquelas memórias inesperadas, Legolas saltou com leveza e pousou com absoluta perfeição no espaço entre o círculo de homens. O corpo do Marechal se retesou ao sentir aquela adição inesperada e ouvir os grunhidos de seus captores.
O líder, no entanto, demonstrou presença de espírito, além de reconhecimento. Carregava umas lanças multifacetadas, usadas pelos eorlingas na cavalaria. Apontou a arma na direção de Legolas, mas deteve o grupo, com um gesto que foi atendido prontamente.
-- Eu o conheço, elfo. – ressoou a voz do homem, o tom demonstrando desagrado e autoridade. – Só não compreendo sua presença aqui.
Legolas sentiu o tempo se rasgando ao meio e a névoa esbranquiçada espiralou escorrendo das árvores e entre os homens. Aquele fenômeno surpreendente não causou qualquer alteração nos rohirrim. Eles nada viam.
Com passos cuidadosos, olhos fixos nos homens ao seu redor, Legolas deslocou o corpo até próximo do Marechal. O barulho de metal feriu o silêncio imposto pelo líder, as espadas desembainhadas propondo o choque violento entre a vontade dos homens contra a do elfo.
Legolas sequer ergueu a voz.
-- Vocês devem libertá-lo ou sofrer as conseqüências – proferiu com autoridade, os timbres ressoando na sua mente em ecos, confundindo-se com outra cena, que não pertencia aquele instante. O elfo respirou profundamente, separando a atenção do passado. Repetiu. – Libertem-no.
Aquele instante se esticou até a mente de Legolas. Ele deveria fazer sua escolha. Era o momento de lutar pela vida do Marechal. A habilidade do elfo era suficiente para sair do alvo daqueles homens.
Legolas sentiu um movimento em seus calcanhares. O prisioneiro também reagia, como se sentisse o instante de perigo sobre aquele que se declamava seu salvador. A frustração do Marechal era clara a sua mente, o brilho de fúria nos olhos dos inimigos se transfiguravam refletidos nas lâminas de suas espadas.
O momento futuro, que era também o passado sobreveio atrapalhando o elfo, enrolando-se em seus pés.
"O reino acusa Legolas Greenleaf como autor de tamanho ato inominável, mas eu peço que seja consentida a oportunidade ao prisioneiro de se pronunciar".
Legolas fechou os olhos com força sentindo-se fraco com o poder dilacerante do Tempo. Luzes multicoloridas se refletiram atrás das pálpebras fechadas e o réu do passado repetiu seu ato, estranhando a luz que banhava Meduseld após tento tempo na escuridão da cela.
-- Quem é você para impor ordens a nós? – acusou o líder, impaciente com aquela intromissão no que considerava justiça. – Os homens do éored do Marechal estão mortos porque os eorlingas depositaram sua confiança em um Rei fraco, que pretende trair nossas tradições! Saia da minha frente, elfo, ou ignorarei a ajuda que os seus prestaram e o trucidarei, tal como a esse traidor.
Os homens rugiram com ódio fazendo vibrar o perímetro de fúria, desdobrando ações imediatas que pediam morte e sangue. As espadas se aproximaram e tantas lâminas queriam tocar a garganta do elfo que culminaram em uma malha de aço à frente de seu rosto.
Legolas permaneceu imóvel. Não havia espadas, mas a cena era-lhe dolorosamente familiar. A lembrança veio tão intensa que ele mais uma vez se confundiu no Tempo. O dejá vu característico que sinalizava a hora do Destino estava colocando suas mãos sobre os ombros do elfo.
A hora da escolha se aproximava célere.
Como sofriam seus amigos diante da sua irredutível decisão de silêncio. Legolas sentia o pedido súplice de cada um deles em seus olhares firmes, na presença sólida de todos eles ao seu redor, mil vezes ali presentes para sua defesa contra o povo certo de sua culpa.
"Eu nada tenho a dizer em minha defesa".
As vozes do passado se chocaram com os homens se aproximando em promessas de morte.
O líder se aproximou cauteloso. Embora a superioridade numérica fosse categórica, aquele homem sentia que algo de sobrenatural se operava e buscou a resposta na face do elfo, sem nada encontrar. Era inadmissível que aquele elfo permanecesse intocado pelo medo diante da morte. O prisioneiro permanecia estático, o líder sabia que Elfhelm também buscava respostas para o mesmo enigma, com a desastrosa desvantagem em estar cego e atado, ferido e sem seus homens.
Seu coração negro se contorceu em dúvidas e Legolas percebeu. Ao seu redor, os homens sentiam a mão do destino e alguns deles seguiam ordens que não conseguia compreender. Ele só precisava de um argumento forte e libertaria Elfhelm.
-- Por que julga seu Marechal culpado de mortes que você mesmo ajudou a perpetuar, calando no silêncio? Por que não confiou em seu Rei e contou suas desconfianças, as artimanhas que foram tecidas ao seu redor e tudo ouviu? – perguntou Legolas, com os olhos azuis cintilando de acusação. – Que tradição é essa que o seu Rei pretende renovar que justifica sua traição, maior que a dele? - a face do elfo se moveu lentamente, fazendo pesar à acusação em seus olhos para cada um dos homens que mantinham a lâmina na sua direção. - Que lealdade é a sua, eorlingas, que se unem a seus antigos inimigos para conspirar contra um homem nobre que haverá de trazer a gloria de Eorl para Rohan? – com um suspiro cheio de lamento, Legolas manteve os olhos fixos sem pestanejar no rosto do líder – Que sabem vocês, homens mortais sobre o futuro?
-- Que sabe você, arqueiro da floresta sobre o futuro? – devolveu o líder abrindo caminho até aproximar-se do elfo. – Que magia usou para fugir da sua sentença e chegar até aqui, mais uma vez, perturbando o destino de Rohan? – baixou o tom de voz, que não passou de um murmúrio. – Pensa que não lembro de ti? – o homem se inclinou de leve e fixou os olhos escuros na face do elfo. – Talvez você não se lembre de mim, arqueiro...O passado muda os homens, apesar do que dizem sobre nós... Ao menos eu aprendo com meus erros – os homens se afastaram, intrigados quando o líder aproximou-se sem medo do elfo, tocou em seu ombro e quase murmurou em seu ouvido. – Você teve misericórdia comigo e por esse erro, eu ainda estou aqui. Será que teria a mesma compaixão se soubesse que nos reencontraríamos, Legolas? – o homem afastou-se um pouco e cravou os olhos brilhantes de vingança na face do elfo. – Não sei como escapou. Eu o persegui na Caravana, embora sua morte, aqui e agora, não me interessa. – ele deu um passo atrás, com um sorriso enviesado no rosto – Mas com certeza, será muito útil.
Legolas afastou-se do homem. O que ele dizia não fazia sentido, não se recordava dele até aquele momento. As névoas se aproximavam e seus olhos enxergaram mais além, dois cenários se interpunham mostrando novos integrantes num passado distante.
Legolas arqueou a sobrancelha e maneou a cabeça, confuso e aturdido com as novas memórias. Ao seu redor, os renegados eorlingas discutiam entre si e inquiriam seu líder.
Mas outras vozes se elevavam, ecos do passado mais uma vez alterado que se mostrava ao arqueiro.
"Eorlingas, acaso não têm um Rei justo para presidir seu julgamento? Terei eu que me dirigir a um carcereiro imundo que não honra a memória de seus antepassados?"
-- Eu deixo para meus homens decidir o seu futuro, elfo – bradou o líder, degustando a expectativa da morte que julgava certa. – Que eles escolham! – o homem riu sonoramente, ajuntando com ironia. Esta, não compreendida pelos homens que cercavam o líder e o elfo. - É certo que você aprecia sua condição de réu, não é mesmo?
Os ânimos exaltados foram suprimidos com a chegada do Rei. Legolas sentiu mais uma vez a força da sua presença, que calou os gritos e os pedidos de represália. Mesmo nas condições que se encontrava, Legolas admirou os meandros do destino, que garantiria a Rohan um líder digno, hábil e bondoso, não importasse as escolhas que eram feitas no passado.
Ele o fitou cheio de compaixão e ainda que sua voz soasse com autoridade, retornando a ordem ao recinto, Legolas adivinhava o pedido silencioso nos olhos do Rei de Rohan. Antes, ele já havia dito que bastava uma palavra sua para conceder-lhe a liberdade e agora, o Rei e seus amigos esperavam mais do que nunca seu anúncio de inocência.
"Eu nada tenho a dizer em minha defesa, majestade".
-- Então, você não dirá nada para os meus homens, Legolas? – escarneceu o líder, a própria espada em punho. Ironizou, alteando as sobrancelhas. – Uma palavra sua, elfo e o destino será selado. Ninguém falará em sua defesa ou do Marechal, novamente...
"Em nome do Rei do Oeste, eu falarei a favor do réu".
-- Suas memórias estão atordoadas pela sua maldade. – devolveu Legolas, envolto pelas cenas que se colidiam a cada segundo. – Ou talvez, a sua natureza humana não consiga interpretar os fatos. – elevando a voz, Legolas imprimiu maior veemência em sua voz – Quem é o mais culpado, traidor? Aquele que traí ou aqueles que o seguem sem questionar?
O homem demonstrou raiva, notando pela primeira vez, o anúncio de hesitação entre seus homens. Porém, não conteve a curiosidade. O medo ainda estava afastado do elfo.
-- O que diz?
-- Nem tudo muda, traidor. – replicou, calmamente.
Legolas teve tanta certeza daquele fato que qualquer dúvida acerca do seu destino se dissipou. Seus olhos viam agora além das névoas, dois cenários sobrepostos, em que sua voz ecoava e se repetia no passado e também no presente.
-- Eu sou o único responsável pelos eventos ocorridos em Rohan...
Diante do Rei, Legolas depôs um dos joelhos no chão e fitou-o com a maior clareza de espírito que pôde encontrar. E seu movimento foi um ato de amor, por tudo aquilo que era sagrado e caro ao seu coração. E foi um ato de fé, naqueles que teriam que continuar sua missão.
Pela primeira vez em sua vida, Legolas proferiu a mais tenebrosa e sagrada mentira, com tamanha veemência e certeza que as fundações de Meduseld estremeceram.As árvores antigas se agitaram e seu lamento ecoou nos prados de Rohan.
E sua mentira se desdobrou do passado e ecoou no presente, fechando a ponte do vazio sobre seus pés.
-- Eu sou o único responsável pelos eventos ocorridos em Rohan.
-- Não! – a interrupção ecoou no passado e em gritos idênticos no presente. – Afastem-se!
Legolas maneou a cabeça para os lados com um profundo suspiro de exasperação, as têmporas latejando com o trabalho febril da sua mente para acomodar as mudanças no passado, as novas lembranças. Ele deveria saber que Estel não ficaria quieto entre as estrelas do céu de Gondor.
Os homens se agitaram com aquela estranha manifestação de culpa do elfo.
Legolas tentou ignorar a alteração que se descolava da sua memória, recém-chegada e atordoante. A sensação de brando calor daquele ato de amizade ecoou do passado até o presente, roubando um breve sorriso dos lábios do elfo.
Ele reorganizou as idéias e prosseguiu, implacável.
-- É isso que você deveria dizer, traidor. Por que não mostra sua verdadeira face e identidade a todos?
-- Cale-se, elfo!
As mudanças se desenrolaram e se re-alocaram no presente, mostrando a linha de conseqüências que a atitude extremosa do amigo causaria no futuro.
A dor da constatação, da cruel percepção atingiu Legolas qual um raio, ele procurou a presença que se aproximava em sua defesa com desespero. Ergueu os braços impondo as mãos num pedido extremo para os homens que o cercavam. Os olhos azuis estavam arregalados, cheios de terror e lágrimas.
A mudança no espírito daquele elfo, antes tão confiante e intocado pelo medo provocou espanto nos homens, que por instantes, não souberam o que fazer, procurando o líder com os olhos.
-- Afastem-se dele! – gritou uma voz próxima ao grupo. E outra idêntica a seguiu, bem como dezenas de flechas certeiras que derrubaram os homens estáticos diante de Legolas.
Legolas sentiu o coração se congelar esmigalhando em mil pedaços. O grito de guerra dos gêmeos já se fazia ouvir na floresta. O arqueiro sentiu vontade de gritar para que eles fossem embora, mas sabia que não ouviriam. O precioso futuro que ele tanta lutara para preservar agora lhe escapava do controle, a própria imagem de réu confesso se desintegrou à frente de seus olhos, porque Legolas não podia mais se concentrar naquele futuro, não enquanto as conseqüências daquele instante privariam tantas pessoas daqueles seres que eram tão caros a sua existência. Ele que lutara tanto para evitar o desastroso desfecho acabara se tornando o pivô de tanto sofrimento.
A esperança quis nascer em seu coração e Legolas lutou contra a inércia que abatia seu corpo. A chegada de Elladan e Elrohir impusera um verdadeiro caos entre os renegados, que recebiam uma saraivada de flechas, gritos potentes de um enfurecido Elrohir e até mesmo Ecebryne partia para cima dos inimigos. Legolas apanhou a faca libertando Elfhelm das cordas e da mordaça, procurando defendê-lo dos homens mais próximos.
Seus olhos procuravam o líder avidamente. Aquele espírito negro e maligno que se interpunha em todas as suas tentativas de afastar a tragédia estava escapando e ele não podia permitir!
-- Eles mataram seus próprios irmãos e ousam acusar o Rei Éomer –rugiu Elfhelm, enrouquecido pelo ódio. Legolas ajudou-o a abrigar-se contra o tronco sentindo que a dificuldade do Marechal era rapidamente subjugada pela sua fúria. – A traição é ainda pior do que eu imaginava.
Legolas avaliou a amplitude dos ferimentos de Elfhelm e julgou que o brilho da batalha, ardendo em seus olhos seria suficiente para mantê-lo até que chegasse ajuda. Com a faca longa e afiada nas mãos, Legolas afastou-se um pouco, a fim de estabelecer terreno seguro para o Marechal, enquanto lutava com os Renegados. A penosa situação da sua alma devido a Visão o deixava mais fraco, ainda assim, o arqueiro era mais veloz que os homens e usou daquela condição do seu povo para manter a defesa.
Sua energia se esgotava e a confusão de cenários possíveis o enchia de terror, Legolas sabia que o fio do destino, cuidadosamente tecido por todos os seus guardiões estava oscilando, como um pêndulo que balançava ora para uma direção, ora para outra, impassível aos desejos daquele que o contemplavam, ansiando por uma trilha segura.
O movimento de Elladan foi tão rápido que Legolas só percebeu quando o elfo riu amargamente em seu ouvido. Saltando preciso entre dois renegados, Elladan atingiu um deles com a flecha nas próprias mãos, puxando Legolas para trás de si.
-- Você é difícil de encontrar, mellon-nin – proferiu Elladan, sacando a própria espada com agilidade. – Mas sempre o encontramos metido em confusão! – Elladan amparou o golpe do renegado com facilidade e empurrou Legolas com as costas, girando para atingir a face de outro homem que se aproximava. Agarrou o arqueiro pelo braço, sacudindo-o de leve. Estranhava aquela atitude defensiva do amigo, analisando-o com a expressão inegável de curador - Legolas! Você está ferido?
Legolas tornou a identificar a direção que tomava o líder traidor e maneou a cabeça em negativa. Seu corpo estremeceu de maneira involuntária com uma contração que exigia proteção contra o frio. Ele apertou o cabo da faca com mais força e virou de costas para Elladan, de forma que ambos pudessem se defender.
-- Apenas na alma. – sibilou, reajustando a frase quando a súbita ausência de Elladan as suas costas foi substituída pela imediata aparição do elfo a sua frente. Legolas bateu de leve no ombro de Elladan, indicando os inimigos. Os olhos negros de Elladan estavam nebulosos de preocupação e não seguiu sua indicação, fixados, teimosamente no rosto do arqueiro. Legolas tornou a salientar, em tom quase indiferente. – Explicarei depois, estou bem, Dan.
-- Não minta para mim. – ordenou Elladan, irredutível. – O que significa aquela conversa entre você e o líder?
-- Não posso dizer nada agora, Elladan. – a frase de Legolas foi coroada com total frieza ao ver que Elladan apertava os olhos, avisando que insistiria no interrogatório. – Elfhelm precisa de ajuda.
Elladan não pretendia desistir de conseguir respostas, vendo-se no mesmo papel que Elrohir poucos dias antes na Caravana, mas viu que Legolas tinha razão e mesmo à distância, os ferimentos de Elfhelm eram evidentes, embora o Marechal lutasse com bravura e coragem. Praguejando, tal como faria o irmão gêmeo, Elladan correu na direção de Elfhelm, que lutava sozinho com dificuldade.
Legolas ignorou a mistura incessante das cenas desfiguradas do futuro e do passado, que congelavam sua alma num apelo solene para serem vistas. Tudo que o interessava no momento era o presente, a última chance para salvar os amigos.
Por Elbereth! Lamentou Legolas, silenciosamente, ele tinha certeza que sua missão acabava ali, ao salvar Elfhelm e lá vinham os gêmeos, complicando e atordoando sua existência com mais responsabilidades.
"Será que aquele deserto não teria fim?"
Elladan se lançou na mesma luta, calando a voz que o lembrava para um estranho fato. A ausência do protesto de Legolas a garantir que jamais mentia. O curador ignorou o fato, sobreposto na dura realidade da batalha, uma parte de si buscando o irmão gêmeo e a outra tentando ignorar a veemente intuição de que começava ali, o fim de algo maior do que eles.
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II - LOTHÍRIEL
A chuva desabou sem aviso transformando a terra fértil em um charco lamacento, impossível de ser percorrido por homens e cavalos. O Entágua dobrou seu volume transformando as quedas elegantes em trombos de água, em um ritmo cadenciado com os uivos do vento.
Era um cenário desanimador para aqueles que tinham pressa. E aterrorizante para quem estava sempre em terra firme, na segurança de um palácio.
A comitiva liderada por Haerfaest foi a primeira a retornar ao acampamento e Lothíriel notou que os homens apeavam devagar, os animais estavam cansados resfolegando ruidosamente e incomodados com a chuva turbulenta. Os valentes guerreiros oscilavam ao pisar no solo incerto, com o peso extra do cansaço e das vestes encharcadas.
Lothíriel inquietava-se a espera de notícias, sem compreender porque os membros da Caravana não despontavam no acampamento e as horas corriam céleres sem que ninguém comentasse a respeito. Éomer desaparecera após conduzi-la em segurança para o círculo protetor de seus homens, e ela compreendera com os fragmentos de conversas que o Rei saíra para reagrupar os eorlingas espalhados pelo oeste e leste do Emnet. Os feridos não paravam de chegar e por várias vezes, Éomer retornara com alguns deles atravessados na sela de Firefoot, com o semblante inescrutável por trás do elmo que usava. Ela gostaria muito de poder fazer as perguntas que a corroíam de preocupação, mas única mulher numa casa de homens ensinara Lothíriel sobre a hora certa de abordar um líder durante momentos como aquele.
Por longo tempo, Lothíriel se ocupou de adivinhar informações, destinos, escutou nomes e conversas, caminhou idas e vindas imaginárias no espaço restrito do seu alojamento. Seus pensamentos voavam na direção dos elfos, lembranças de Háfoc, Fréolic, Ieldran, Gerihtan, Mablung e Damrod vinham atormentar suas teorias formadas na caminhada sem destino dentro da tenda. Depois de tanto tempo na companhia daqueles homens e dos elfos, Lothíriel sentia-se abandonada sem a presença daqueles que aprendera a admirar e apreciar. Certa que teria tempo para as despedidas, Lothíriel agora caminhava na difícil trilha da incerteza, isolada e sozinha em uma fortaleza de homens desconhecidos.
A única segurança vinha de Éomer, mas até mesmo sua presença era-lhe negada, porque ele era um Rei e naquele instante, a vida de muitos dependia das suas escolhas.
Um profundo cansaço se abateu sobre Lothíriel e depois de horas de incerteza infrutífera, a princesa se encolheu num canto, enrolando-se na manta. Algo sólido veio se alojar nas suas costelas quando Lothíriel sentiu as pálpebras pesadas de sono e largou-se contra o baú. Remexeu-se com uma careta afastando a manta, encontrando o invólucro que Háfoc dera-lhe de presente para guardar as cartas.
Pensativa, Lothíriel se ajeitou mais uma vez e abriu a tampa do objeto. O cheiro de chuva, lama e sangue entravam ali junto com a fala ríspida de um tenente. O idioma dos rohirrim resvalava para um cantante rouco, com tons singelos de piedade escondida atrás de frases curtas que soavam como ordens apressadas.
Lothíriel retirou o rolo de pergaminhos, sentindo cada vez mais a liberdade de ação por finalmente, ter encontrado o dono daquelas cartas. Os sons da chuva e do rohirric pronunciado sem tréguas a embalavam enquanto Lothíriel desenrolava os pergaminhos, pensando que não fazia sentido o rumo dos seus pensamentos. Ora angustiava-se com a falta de notícias, com o destino dos amigos da caravana, estremecia com as memórias do conflito e dos ferimentos... Ora imaginava como seria aquele início em um campo de batalha.
O som do tropel de inúmeros cavalos arrancou Lothíriel de seus pensamentos e ela saltou, tropeçando na manta que utilizara para se aquecer. Caiu de joelhos e os pergaminhos rolaram para o chão.
-- Sua estúpida... – praguejou Lothíriel, levantando-se para apanhar as preciosas cartas.
Mal erguera a coluna, a abertura da tenda fez visível um agrupamento vultuoso, recém-chegados cobertos de lama, ferimento e sangue dançaram a frente de sua visão. Os cavalos relinchavam e um rohirrim lutava contra as rédeas de dois espetaculares corcéis. A linguagem era feroz e decidida, todo o acampamento se voltara para os recém-chegados e organizava rapidamente o breve tumulto.
Então, tudo desapareceu da frente de seus olhos, encoberto pela entrada de um cavaleiro com o símbolo do cisne em sua túnica.
O alívio foi tão absurdo e completo que só então, Lothíriel percebeu o quanto temia que todos estivessem mortos.
Sem que pudesse conter o próprio impulso, Lothíriel saltou e lançou-se nos braços de Ieldran.
-- Meu bom Ieldran, você está vivo! – ela riu, escorregando de volta para o chão.
Ieldran estava congelado de surpresa e vergonha, contudo, seus olhos brilharam de contentamento com a felicidade da princesa.
-- Gerihtan? Onde está? – Lothíriel apertou a mão de Ieldran, franzindo as sobrancelhas. Resfolegou, congelada quando notou a mancha vermelha impressa na manga da sua túnica. Encarou Ieldran, empalidecendo – Por Erü, você está ferido? Oh, pelas marés de Dol Amroth, você deveria estar sendo tratado!
-- É o que ele diria, se houvesse chances de falar - tornou Háfoc, entrando em seguida com um grande sorriso torto e satisfeito.
Lothíriel um choque e emitiu um gritinho rouco de alivio.
-- Háfoc! – Lothíriel estancou no meio do caminho e levou a mão a boca diante da imensa cicatriz que cruzava a face esquerda de Háfoc.
-- Eu bem que gostaria de uma recepção semelhante, svana Lothíriel – reiniciou Háfoc, limpando a garganta e tocando de maneira inconsciente o ferimento. O sangramento havia sido estancado, mas as bordas vermelhas se retorciam para fora em um aspecto feio e macilento– Mas creio que o meu Rei não ficaria satisfeito comigo. – completou, olhando feio para Ieldran.
O cavaleiro do Cisne ignorou. Voltou seus olhos com uma ponta de tristeza para Lothíriel.
-- Gerihtan caiu, princesa. – fitou o chão, proferindo com seriedade. – Esse sangue não me pertence... – completou, num fio de voz – É do meu irmão.
Lothíriel levou a mão ao coração e fitou Háfoc com medo antecipando as notícias.
-- Perdemos Fréolic também. – citou Háfoc, solene. O tom ríspido do rohirric resvalou para uma nuance de orgulho. – Ele defendeu a linha da chegada do éored sozinho, lutou com cinco homens na clareira antes de tombar. – com um passo na direção de Ieldran, completou, alteando o tom de voz com maior ímpeto. – O mesmo fez Ieldran e Gerihtan, lutamos como lobos, se me permite a comparação, princesa. Gerihtan será lembrado.
Ieldran ergueu o rosto e aquiesceu silenciosamente.
Lothíriel emudeceu. Os olhos de Háfoc estavam opacos com a dureza da guerra, mas transbordavam de dor e havia um desejo latente, que Lothíriel já vira em alguns guerreiros, que clamava por justiça.
-- Sim... – Lothíriel maneou a cabeça, sentindo um vazio arrancando da alma. Fréolic sempre fora perspicaz e atencioso. -- Mablung e Damrod?
-- Não sabemos onde os outros estão. – afirmou Ieldran, tom uniforme de sua voz indicava o absoluto controle emocional. – Os homens de Ithilien também se dividiram, buscando atrair um grupo para longe de você. Embrenharam-se até a floresta e não foram mais vistos.
-- O Rei foi atrás deles, vasculharam a floresta, mas não encontraram nenhum deles entre os mortos. – reportou Háfoc. Ao ver Lothíriel empalidecer, silenciou.
Lothíriel respirou profundamente e apertou as mãos.
-- E os elfos? – sua pergunta saiu num murmúrio.
Um breve sorriso cruzou o rosto de Háfoc.
-- Ah, aqueles elfos são como demônios, princesa.
-- Háfoc, não pragueje! – cortou Lothíriel, enrubescendo. – Tenho certeza que os gêmeos e o príncipe são tudo, exceto demônios.
-- Desculpe. – nem de longe embaraçado, Háfoc ajuntou, sério. – Mas eles realmente pareciam... a princesa sabe. Depois que a senhorita desapareceu, os dois, e eu não sei quem era quem, alternavam o ataque cruzando espadas entre os inimigos. – Háfoc maneou a cabeça, visivelmente admirado. Seu olhar ficou desfocado por alguns instantes, como se revivesse cenas agradáveis. – Arrancavam cabeças com um simples movimento e nós não conseguíamos ver de onde eles surgiam, tornavam a desaparecer de tão rápidos que eram... O senhor Elrohir, e imagino que era ele pelo cavalo negro que ninguém consegue domar, saltava de Ecebryne e pulava na sela do inimigo, abatia e caia no chão com uma facilidade que parecia ter decidido simplesmente passear! Retornava a Ecebryne quando queria e as vezes, se jogava contra os cavalos inimigos – Háfoc silenciou, deixando os dois com aquela cena vívida na mente. – Juro que não vi um arranhão naquele elfo... talvez, só uma flecha atravessada no ombro e foi só... Espantoso.
-- Espantoso de fato. – repetiu uma voz rouca.
Lothíriel se assustou com a chegada silenciosa de Éomer. Envolvida pelos relatos dos amigos, ela sequer notara que Éomer havia entrado e observava os três.
A postura de Háfoc sofreu uma mudança imediata, tornando-se muito ereto e com os olhos alertas. Ieldran ficou em silêncio e voltou-se para Éomer, com uma breve inclinação respeitosa.
-- Você está ferida? – inquiriu Éomer, rilhando o maxilar e deslocando-se rápido para Lothíriel, colocando-se em evidente linha de ataque.
Lothíriel compreendeu o movimento e se apressou a apertar o braço de Éomer.
-- Não, esse sangue não é meu! – resfolegou, atordoada com a facilidade em que Éomer deduzira que qualquer um deles teria ferido sua pessoa. – É de Ieldran... Digo, de seu irmão...
-- Ieldran – repetiu Éomer, cravando os olhos na face de Ieldran e Háfoc. Seus ombros relaxaram um pouco, mas ele não deixou a postura defensiva. Em tom rouco, ordenou – Posso receber uma explicação para o que aconteceu aqui?
Háfoc sustentou a expressão intensa de seu Rei por alguns instantes e então, para confusão de Lothíriel, abaixou a cabeça. Ieldran murmurou desculpas.
-- Saiam. – ordenou Éomer com secura.
-- Não, não saiam! – protestou Lothíriel com um passo a frente. Seu rosto, que havia perdido toda a cor com a notória explicação de Háfoc tornou-se escarlate. – Senhor Éomer, eles são meus amigos e vêem trazer notícias dos membros da caravana. – Lothíriel sentiu nova onda de sangue subir para seu rosto e ela se voltou para ele. Éomer cruzara os braços e limitara-se a erguer uma das sobrancelhas. Lothíriel apertou os punhos com força. – Eu estava presa aqui enquanto eles se machucavam para me defender. Como verdadeiros amigos e guardiões, ambos vieram me dar notícias, e são as piores possíveis... Poderiam ter morrido! E você não pode expulsá-los, desconsiderando minha presença como se não fosse nada – Lothíriel reuniu fôlego e parou frente a Éomer, esticando o pescoço para fitá-lo no rosto. Nem ela tinha notado o quanto estava nervosa, uma parte de sua mente pedia o autocontrole, mas de uma maneira inexplicável, Lothíriel não conseguiu se controlar. Ao invés de divagar como era seu costume, ela estava literalmente despejando suas frustrações sobre os pés do Rei. Rilhou os dentes. – Eu não admito que eles saíam.
Éomer limitou-se a fitar longamente o rosto afogueado por um tempo que pareceu eterno para os três. Sua atenção concentrou-se no rohirrim e por fim, no cavaleiro do Cisne.
-- Os que morreram e os que aqui estão zelaram pelo compromisso de honra que fizeram. – a voz de Éomer soou plana, baixa e controlada. – Espero que os laços de amizade não o façam perder o senso do dever.
Lothíriel sentiu a boca abrir contra sua vontade. O semblante de Éomer estava adornado pela luz das tochas, seus olhos claros escurecidos sem sinal algum de emoção.
-- Peço licença para me retirar, princesa. – proferiu Háfoc, respeitoso.
-- Estarei sob seus serviços, Rei Éomer. – ajuntou Ieldran, no mesmo tom servil e digno.
-- É o que esperava de vocês. – sibilou Éomer, sério. – Nos reuniremos dentro de um quarto de hora.
-- Princesa... – Ieldran fitou Lothíriel rapidamente e baixou os olhos, seguido por Háfoc.
Os dois deixaram a tenda e Lothíriel permaneceu, estática e horrorizada encarando Éomer.
Éomer levou alguns segundos para voltar a atenção para a face erguida na sua direção. Seu semblante se modificou ligeiramente com a expressão da princesa. Seus olhos castanhos clarearam em lastros dourados de tristeza, mas foi um instante súbito.
Éomer suspirou e se afastou de Lothíriel, falando de costas para ela.
-- Acho que assustei você, princesa. Peço perdão por entrar sem ser convidado. – recomposto, Éomer volveu o corpo e pousou a atenção sobre a figura a sua frente. – Devemos partir novamente em uma hora. Eu gostaria de deixá-la em um lugar mais seguro, porém, eu não posso me dar um luxo de destacar ninguém para essa tarefa.
Lothíriel sentiu a raiva murchar, mas permaneceu estática, fitando-o. A alteração emocional de Éomer fora tão rápida que ela sequer tivera tempo para detectar as nuances em seu tom de voz ou em seu rosto, porém, sua intuição lhe dizia que havia algo errado.
Considerou que ele parecia ausente, como se sua mente estivesse longe dali. Também estava pálido e demonstrava cansaço. Sequer retirar a armadura, que contava mais embates que ela gostaria de adivinhar e algo a dizia que Éomer não repousaria em um tempo próximo.
-- Você não precisava ter expulsado os dois... – protestou com a voz fraca.
A fronte de Éomer se enrugou por alguns instantes. Ele se distraiu estudando os pertences de Lothíriel no acampamento improvisado e por fim, tornou, suavemente.
-- Eu pedi para que você não fosse molestada com as notícias.
-- Fréolic era um de seus homens. Ieldran do meu pai. – protestou Lothíriel, mantendo o tom de voz controlado. – Eram meus amigos. Eu precisava saber.
O semblante de Éomer se distendeu. Ele pareceu procurar as palavras seguintes, porém, desistiu.
-- Eu sei. – concordou com simplicidade.
-- Só isso? – insistiu Lothíriel, tensa.
A confusão toldou os olhos castanhos de Éomer.
-- O que você espera de mim, princesa? – devolveu Éomer, fitando-a agora com seriedade. Suas palavras soaram objetivas – Nós não estamos em Meduseld e você não está segura ainda, dezenas de homens do éored morreram, não somente meu, mas do Marechal Elfhelm, que ainda está desaparecido ou morto. – A raiva sibilou na voz de Éomer e ele pausou, respirando profundamente. – Não encontro solução ou o inimigo que causou isso e meus amigos... – Éomer fechou os olhos por alguns instantes e então, maneou a cabeça, arrependido. – Sinto muito, estou fazendo justamente o que foi proibido. Isso não é preocupação para você.
-- O que? – Lothíriel sentiu a mente rodar e caminhou vacilante na direção de Éomer. – Não pare agora.
O murmúrio e as ordens no lado externo se altearam para brados de aviso. Um dos tenentes gritou pedindo licença de maneira peculiar e entrou, quase atropelando Lothíriel no caminho e se inclinou para falar algo no ouvido de Éomer.
Éomer rilhou os dentes, com um ar tão feroz que Lothíriel deu um passo atrás, assustada com a mudança súbita.
-- Vamos partir imediatamente. Avise o éored. – ordenou Éomer, fitando Lothíriel com olhos cegos. O tenente deixou a tenda com uma rapidez impressionante e o rei de Rohan fez o mesmo caminho com largas passadas. Só então, estancou, como se lembrasse de Lothíriel. Voltou para ela, tenso e tentou amenizar o tom duro que utilizara – Tenho que partir. Deixarei Háfoc e Ieldran na sua guarda, eu sei que isso a deixará mais tranqüila.
-- Obrigada. – balbuciou Lothíriel, ainda zonza com o rumo dos acontecimentos. Pediu, baixinho – Espere.
Ouviu os ruídos externos e a deslocamento do ar com a movimentação da saída da tenda.
Lothíriel fechou os olhos, ciente que Éomer já estaria distribuindo ordens, agitando um novo ataque, uma linha de defesa. Era inacreditável que fosse o mesmo homem que escrevera aquelas cartas. Éomer era o Rei de um povo guerreiro e valoroso, no meio de uma batalha cheia de traição, sem tempo para meias palavras. Sua cabeça girava entorpecida com aqueles que haviam morrido, lembrava-se de Elladan e Elrohir, da misteriosa conversa com Legolas e o desaparecimento do arqueiro. Ela precisava se colocar na realidade do presente, a fim de não se decepcionar ou permanecer aterrorizada o tempo inteiro. Teria que ser forte, aprender a se forjar no mesmo material que os rohirrim ou se despedaçaria entre eles.
Aquele pensamento e o cheiro do sangue grudado em suas roupas a derrubaram. Ela sentiu tonturas, esperando que o chão a recebesse.
O impacto com o solo não aconteceu. Lothíriel mal chegou a cair quando mais uma vez, um braço forte e o som familiar de uma voz cálida ampararam sua queda.
-- Você vai ficar bem... – sibilou Éomer, erguendo-a com facilidade e levando-a para o leito. – Respire profundamente, Lothíriel, já vai passar...
Com dificuldade, Lothíriel conseguiu abrir os olhos, surpreendendo-se com a presença de Éomer ao seu lado. Ele puxou os cobertores com um esgar de desagrado ao ver a túnica suja de sangue, sua atenção vagueando para a própria armadura, mas embrulhou a princesa com cuidado.
-- Eu pensei que você tivesse ido embora. – murmurou Lothíriel, odiando a si própria pela fraqueza e ainda mais pela felicidade que sentiu ao ver que Éomer havia retornado.
Seu egoísmo era imperdoável, pensou, mordendo o lábio.
-- Pensou outras coisas absurdas também. – ajuntou Éomer, observando a palidez da face dela e evitou seu movimento brusco para se afastar. – Shh... Não se atormente, eu dei motivos. – ela abriu a boca para protestar, indicando a saída. Éomer deu de ombros - Ninguém vai partir daqui sem mim. – acalentou em um tom rouco e risonho – Eu sou o Rei, você sabe...
Lothíriel deu um sorriso fraco, fitando-o com imensos olhos cinzentos, agradavelmente surpreendida. A capacidade de Éomer para alternar as emoções era no mínimo, perturbadora.
-- Eu estou bem. – garantiu, enrubescendo com a proximidade do rosto dele. A memória da urgência no tenente voltou a sua mente quebrando o agradável torpor – Você pode ir. Verdade.
Éomer considerou as palavras dela e pareceu se conscientizar do próprio estado ao vê-la estremecer. Hesitou um pouco e por fim, se afastou.
-- Você ficará segura, Lothíriel. – garantiu, emanando segurança nos olhos castanhos claros. Sua face voltou a seriedade.
-- Eu sei, estou preocupada com os outros... – ela emudeceu, imaginando que seria desagradável dizer que se preocupava com ele também. Éomer fazia questão de enfatizar a segurança, não gostaria de mostrar dúvidas sobre sua capacidade.
Ela não era tola. Compreendera muito do que Háfoc e Fréolic discutiram durante a trajetória da Caravana.
Éomer reassumiu o tom prático afastando-se de Lothíriel.
-- Não tenho ninguém para servir como sua dama. – desculpou-se, sério. – Ieldran e Háfoc ficarão de guarda, tão logo forem atendidos. – Éomer silenciou, ouvindo o movimento externo e suspirou, fitando-a. – Preciso partir.
Lothíriel esforçou-se para engolir as perguntas que surgiram na sua boca. Era importante para Éomer a sua segurança, e aquilo acalentou seu coração. Era algo que podia fazer por ele. Indicou a saída e aquiesceu levemente, tentando sorrir.
O maxilar de Éomer se endureceu e seus ombros caíram levemente. Por fim, o rohirrim maneou a cabeça, com um breve aceno.
-- Até breve.
Apesar de todas as suas expectativas e planos para se levantar, descobrir onde Ieldran e Háfoc estavam sendo tratados, com a conclusão distante de que ambos estavam feridos, Lothíriel se viu incapaz de deixar o invólucro quente dos cobertores. Sentia-se frustrada por não encontrar palavras diante de Éomer e ter encontrado justamente aquelas que pareciam aborrecê-lo.
A chuva aumentou o barulho hipnótico dentro de seu refúgio e Lothíriel suspirou, choramingando. O Destino pregava-lhe peças, que maneira atrapalhada de conhecer o futuro marido. Esperava ter mais tempo para demonstrar seu apreço, consertar as impressões de covardia e ignorância da sua parte.
O tempo futuro acalentou as idéias controversas e sem saber que estava tão exausta, Lothíriel adormeceu imediatamente.
XXXXXX
III – Éomer
O tempo parecia tão miserável como antes e Éomer atravessou o acampamento com passos vigorosos, se perguntando porque ele esperava que poucos minutos fizesse diferença alguma na má sorte que o perseguia.
Ele observou os trinta cavaleiros que terminavam os preparativos para a imediata partida julgando se o numero seria suficiente. Conhecia-os cada um deles por sua bravura em batalha e ferocidade, mas estava deixando um contingente largo de feridos e mutilados para trás, alguns capazes de erguer uma defesa singular contra um possível ataque e outros incapazes de sair do próprio leito.
Éomer estancou junto a Haerfaest estudando as condições do tenente. Ele tentou domar a zanga do animal e Éomer considerou que tanto cavalo quanto cavaleiro parecia ansiosos por lutar.
-- Tudo bem com a princesa? – perguntou Haerfaest quando finalmente conseguiu uma trégua com o genioso baio.
Éomer fez uma careta e desembainhou a espada. Insatisfeito, sinalizou para o armador e apanhou a pedra correta para atiçar o fio. Não dava tempo para limpar direito e ele odiava recomeçar uma luta com os coágulos de sangue na lâmina.
Resmungou baixinho, sentindo o mau-humor retornando, por isso, se concentrou açoitando a lâmina vigorosamente. Naquele instante, Éomer teve plena consciência que estava coberto de lama, ensopado até o último fio de cabelo e com vestígios de sangue na armadura. Não era a toa que Lothíriel queria vê-lo logo longe da tenda.
Tornou a praguejar, açoitando impiedosamente a lâmina.
Haerfaest aguardou tranqüilamente, conhecia Éomer e sabia que a resposta viria no tempo do Rei. Apertou os músculos da perna dianteira do animal, quando o cavalo relaxou a musculatura, Haerfaest ergueu a pata e conferiu a ferradura.
-- Ela me odeia. – sibilou Éomer, concentrado no que fazia.
Haerfaest ergueu as sobrancelhas e se deslocou para averiguar a pata seguinte do seu cavalo.
-- Ela está com medo. – ponderou Haerfaest com um olhar de esguelha para o Rei. Ponderou, com meio sorriso. – Você é de dar medo, sabe disso, não sabe? – maneou a cabeça, conferiu a ferradura e observou, satisfeito. – Bom para guerra, ruim para mulheres.
Éomer parou o que fazia e fitou Haerfaest com raiva.
-- Você ajudou muito.
Haerfaest deu de ombros, sem prestar atenção no rosto de Éomer. Ao seu ver, a princesa tinha sorte. Não passava pela cabeça de nenhum deles que Lothíriel pudesse não gostar de seu Rei.
-- Ela deve estar acostumada, senhor. – consertou Haerfaest, cheio de boa vontade. – O senhor Imrahil, os irmãos, todos são excelentes guerreiros. – tranqüilo, ajuntou, risonho - Duvido que voltem cheirando bem.
Éomer apertou os olhos e estocou a espada na terra úmida, retirando-a após com um movimento fluído.
-- Obrigada, estou me sentindo bem melhor agora, Haerfaest. – rosnou Éomer, erguendo-se, sério. – Chega de conversa. Avise aos outros.
A postura de Haerfaest sofreu ligeira mudança. Encharcado, o tenente montou no cavalo que empinou rapidamente, satisfeito. Haerfaest fez um sinal e galopou para o norte do acampamento.
Sentindo-se pior do que antes, Éomer cruzou a direção contrária do acampamento e abaixou-se para entrar na tenda improvisada para os feridos. Hlíff estava gesticulando e gritando, vagueando entre um leito e outro. Éomer podia sentir cada músculo do homem vibrando de frustração.
Adiantou-se e parou, surpreso ao ver como o homem mancava violentamente.
-- Hlíff. – sua voz retumbou para dentro da tenda.
Hlíff virou-se aturdido e então, grunhiu um impropério arrastando-se para perto de Éomer, fitando de alto a baixo.
-- Miserável, assustou-me, pensei que estava ferido! – resmungando, Hlíff tornou a misturar a caminhada apressada a pequenos pulos para deslocar-se junto a um rapaz muito jovem, com atadura no rosto. – Diga logo, Éomer, estou ocupado...
-- Você está ferido.
-- Sei. – Hlíff gritou ordens e segurou o braço do jovem, que ameaçava se levantar. Sua voz ressoou baixa, acolhedora, o mesmo tom que usava com os animais. – Calma, em breve, quando estiver bom, servirá seu Rei... Agora, vamos beber isso, sim?
Éomer trincou o maxilar, aproximou-se do curador em silêncio. O jovem se agitou, fitando-o com olhos arregalados.
-- Você está sangrando... – proferiu Éomer, baixinho. – Não poderá cuidar de ninguém desse jeito.
-- Está boa, é só trocar a bandagem. Depois, eu não tenho tempo para mimos, meu senhor. – rebateu Híff, atento a entornar a beberagem para o jovem.
-- É uma ordem, Hlíff.
Hlíff incentivou o jovem, certificando-se que ele poderia beber sozinho. Voltou-se devagar, seus olhos sérios e perspicazes.
-- Eu machuquei o tendão, a bandagem vai segurar o sangramento e nenhuma linha vai recuperar o que perdi, Éomer. – o rosto do curador se contraiu e ele maneou a cabeça em negativa. – Deixe-me cuidar dos homens e dos cavalos, porque não poderei montar por muito tempo. – Hlíff torceu o nariz e resfolegou – Sou um péssimo guerreiro mesmo. Aqui, eu sou útil...
Éomer contraiu a fronte e apertou o ombro de Hlíff rapidamente. Sabia que Hlíff não pedia comiseração, ao contrário, oportunidade para se refazer.
-- Ieldran e Háfoc? – perguntou.
-- Ieldran está bem, foi só uma contusão, não quebrou nada. Nenhuma costela perfurou o pulmão, está só dolorido. – anunciou Hlíff, escorregando para o abdômen do rapaz cheio de escoriações e um corte profundo no flanco direito. Ele sacudiu a cabeça e tornou a cobrir. – Vou precisar de ajuda aqui, ele tem algum conhecimento, pode ficar?
Éomer não respondeu de imediato.
-- E Háfoc?
Hlíff soltou uma risada curta, cheia de deboche.
-- Nem um machado parte aquela cabeça dura.
-- Ieldran pode ficar. – ponderou Éomer, examinando os catres improvisados. – Se ele quiser.
-- Ele fica. – garantiu Hlíff, olhando sobre o ombro. – Posso me concentrar agora ou tem algo importante a dizer?
Éomer emitiu um sorriso curto, erguendo-se. Deslizou o elmo para o rosto, satisfeito com o breve arranjo.
-- Volte inteiro – ordenou Hlíff, concentrado no que fazia.
Éomer finalizou o sorriso e aquiesceu para o curador encurvado sobre o jovem. Espiou por algum tempo os gemidos controlados e os corpos que jaziam ali. Em silêncio, saiu da tenda.
A chuva açoitou seus ombros e Éomer andou rapidamente, enfileirando os eorlingas atrás dele, que o seguiam, todos caminhando rápida e cuidadosamente na lama. A primeira dezena pronta galopou paralelo a eles gritando com incentivo e algumas gracinhas que fizeram Éomer sorrir de leve. Gesticulou para os homens e eles aumentaram a velocidade na direção de Haerfaest.
O mundo era algo cinzento, úmido e pesado nos ombros dos eorlingas, ainda assim, havia uma impaciência gritante em cada um deles, um rugido primitivo que os empurrava para a batalha, por justiça e vitória.
Éomer montou em Firefoot e girou o cavalo branco e castanho para a direita, com um último olhar na direção onde Lothíriel dormia. Seu pensamento se focalizou por certo tempo na figura esguia e feminina, corajosamente fixada a sua frente, reclamando seu direito de espaço, de notícias, defendendo o que achava correto. Iniciou o trote, rindo de si próprio, ao imaginar que ela estava ferida e que os próprios amigos a atacavam, refletindo que Lothíriel julgava fantástico o fato de qualquer um deles executar o próprio dever. Seus olhos cinzentos reluzindo de emoções diversas, o sorriso incerto e o perfume que Éomer julgava impossível de manter dentro de um ambiente tão terrível como daquela batalha.
Era uma pena que ela o odiasse, pensou Éomer, insatisfeito, batendo com o calcanhar nas ancas de Firefoot. Cada ato seu parecia deixá-la horrorizada ou com medo, contudo, ela soubera controlar as próprias fraquezas e o deixara partir, pelo bem dos amigos.
A calma reconfortante do instante antes da batalha envolveu Éomer, a certeza de dar corpo e alma por um motivo maior que ele explodiu de dentro para fora, tornando-o sólido e presente de cada instante.
Seus olhos castanhos escureceram de maneira perigosa enquanto ele se decidia a lutar, afastando os pensamentos para longe da princesa de Dol Amroth.
Ele lutaria pelo amor da Terra dos Cavaleiros, para preservar o reinado que começava a construir. Seu coração silencioso estabeleceu um ritmo freqüente e acelerado, enquanto batia por Rohan.
E também por ela.
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Glossário
Svana – ligado ao svanni, uma palavra poética para designar dama.
