Ralph "Dutch" Shaunassek, era um sujeito mal-encarado, calvo, de pele grossa e uma anomalia que sempre impressionava seu interlocutor: tinha um olho azul e outro castanho. Nos últimos dias ele tinha seguido os dois csi's, que tinham acabado com seu negócio e feito dele, um fugitivo, e agora ele queria vingança - Uma CSI cega seria fácil de enganar e, eventualmente, matar.

"Creio que esse lenço lhe pertence, senhorita?..."

"Sidle... Sara Sidle" disse ela, estendendo a mão na direção da voz.

Lucky pareceu rosnar para o estranho, mas como Sara não dissera nada, não esboçou nenhuma reação.

"Prazer, pode me chamar de Dutch" disse o homem.

"É holandês, então?"

Ele riu.

"Não. Mas minha mãe era. Carrego esse apelido, desde a infância".

"Entendo".

"Noto que não enxerga, srta. Sidle" Disse consternado.

" Oh, isso!" E Sara fez um gesto, apontando os óculos escuros."É temporário foi um acidente de trabalho. Logo ficarei boa!"

"Foi alguma contusão?"

"Não, na realidade, foi com nitreto de chumbo".

"Então é química, srta. Sidle!"

"Não! Mas também faço trabalhos em laboratório. Trabalho na Perícia: sou uma CSI." falou Sara, com simplicidade, como se falasse que fosse a faxineira do seu prédio.

"Nitreto de chumbo hein...Explosivos?" disse ele.

"Sim. Vejo que entende do assunto, Dutch!"

"Sou químico. Aposentado no momento, mas quando jovem trabalhava numa fabrica de munições".

"Mas que coincidência, talvez possa me dar informações, sobre um caso".

"Se eu puder ser-lhe útil" disse ele, meio apressado. (percebeu Grissom despontando da esquina) "Você vem sempre aqui?"

"Ás vezes".

"Então nos veremos mais vezes. Moro aqui perto, venho sempre tomar um sol, pela manhã".

"Não quer ficar mais um pouco?" disse Sara, pegando no braço de seu sobretudo, ouro-velho.

"Temo que hoje não será possível, não faltarão oportunidades para isso! Tenha um "bom-dia", srta. Sidle" disse ele se desvencilhando dela.

"Bom dia!"

Grissom se aproximou, carregando um saco de compras em cada braço. Tinha visto um sujeito de sobretudo ouro-velho, conversando com ela. Já fazia um tempinho que Sara não se animava desse jeito ao estar com alguém. Grissom não pode refrear sua curiosidade.

"Com quem você estava falando?"

"Com alguém, que conheci hoje: Dutch."

"Dutch? Isso não é nome..."

"Provavelmente. Ele é químico aposentado. Conhece nitreto de chumbo. Já trabalhou com armamentos, não é uma tremenda coincidência?" - disse Sara pondo a mão no ombro dele, como se dançassem conga.

"Sim" respondeu ele. A única coisa em que pensou foi que o sujeito que estava com Sara, não tinha idade, pra se aposentar. Mas não disse nada, porque afinal, o viu de longe.

À noite, no laboratório, Grissom não parou de trabalhar um minuto. Nem mesmo conseguiu ligar para Sara e lembrá-la do remédio. (Coisa que obviamente não precisava, mas o deixaria menos preocupado). Brass apareceu contando como andavam as investigações sobre o sócio – não muito boas. E perguntou como Sara e eles estavam. Grissom sorrindo ao dizer que estavam morando juntos. Para o amigo ele podia contar essas coisas. Brass ficou contente também.

Percebendo que ia se atrasar, e que Sara já deveria estar acordada às oito da manhã, Grissom resolveu telefonar para ela.

"Alô! Você está bem?"

"Sim " ouviu depois um longo suspiro, no outro lado da linha. "Ainda não pus fogo na casa, se é o que você está pensando!"

Grissom sorriu, porque aquela Sara mordaz, era muito parecida com a Sara que ele amava. Depois de falar um pouco de coisas que só interessavam a eles dois, Grissom falou sobre o real motivo, de seu telefonema.

"Está bem! Faça suas coisas com calma, que eu atravesso com o auxílio do Lucky. Você viu como ele faz direitinho".

"Ok! Então me espere para a hora do almoço. Tchau!" Disse ele feliz, por Sara estar aparentando, uma certa independência, que ele sempre admirara nela.

"Tchau!" Respondeu ela.

Sara já estava sentada no banco da pracinha com o cão-guia, sempre ao seu lado, quando Shaunassek chegou. Ele trajava ainda, o sobretudo ouro-velho, que Sara não podia ver, mas era muito marcante. Ele cumprimentou-a.

"Bom dia, srta. Sidle! Sozinha, hoje?"

"Sim, até a hora do almoço, estou abandonada".

"Ora, uma moça tão bonita, não deveria ficar sozinha, nunca" fez ele, tentando ganhar sua simpatia.

Sara sorriu. Ela que nunca fora chegada a uma galanteria; que sempre fora sisuda, austera mesmo, de repente se achara não apenas aceitando esse tipo de coisa, como esperando, por ela. Os dois conversaram sobre química, sobre o laboratório, sobre coisas comezinhas, sobre livros e plantas.

"É casada, srta. Sidle?" Perguntou o rapaz.

"Não. Mas tenho um relacionamento..."

"Existe amor?"

"sim, mas..."

"Não há "mas"... Tendo amor, o resto se ajeita".

"Eu sei. Mas com esta minha situação agora..."

"Não há situação nenhuma, srta. Sidle, uma vez que sua cegueira é temporária. E mesmo que não fosse, isso não mudaria quem você verdadeiramente é. Ele se apaixonou por quem você é, e não será um obstáculo, aliás transitório, que o fará mudar de idéia, nem fará você mudar de personalidade, certo?"

"é, acho que sim. Bom, acho que é melhor eu ir"

"Quer que eu ajude?"

"Não é necessário. Lucky me levará. Obrigada".

"Faço questão de acompanhá-la, no mínimo" insistiu ele.

"esta bem então".

Ela saiu na frente com Lucky e Dutch veio logo atrás com um sorriso um tanto malicioso. Esperava poder entrar no apartamento dela naquele dia, mas assim que chegaram na porta, Sara simplesmente agradeceu a companhia e disse:

"Até amanhã".

"um cavalheiro sempre leva a jovem até a porta da casa, neste caso, do apartamento" falou Dutch.

Sara riu e não se opôs. Ele foi até seu apartamento, com uma certa cautela, por causa de Grissom, que podia surgir, inesperadamente. Marcou mentalmente os números, do andar e do apartamento Voltaria outra hora.

"Obrigada mais uma vez".

"Foi um prazer, senhorita".

Sara fechou a porta e Dutch foi embora. Ganhara confiança da csi e já conhecia o seu apartamento. Ele sorriu contente.

Grissom chegou em casa cansado e Sara logo percebeu. Não precisava enxergar, para sentir o cansaço por trás da voz quando a cumprimentou.

"Porque não toma um banho, antes de comermos?" sugeriu ela.

"Tem certeza?"

"Sim. Você parece acabado"

"Sou assim tão fácil de ser decifrado?" Perguntou Grissom.

"A maioria das vezes".

Grissom a beijou e em seguida foi fazer o que ela sugerira. Enquanto isso, ela arrumou a mesa para o almoço, e colocou o macarrão no microondas.

Quando grissom voltou, ela estava fechando a porta do microondas. Sara levou um baita susto quando ele colocou a mão sobre seu ombro.

"Calma amor, sou eu!" Falou Grissom, segurando-lhe os pulsos, pois suas mãos por reflexo, estapeavam o intruso...

"Desculpe". Disse ela.

"Quem você achou que fosse amor?"

"Ninguém! É que eu estava muito distraída..."

"Hum. E no que estava pensando?"

"Na verdade não sei..." disse ela (a mente de Sara estava longe, mas ela não sabia muito bem onde tinha ido) "Você até que tomou banho rápido".

Grissom levantou a sobrancelha.

O microondas apitou avisando que a comida já estava pronta. Sara pegou o pano de prato, que deixara ao lado, e tirou a travessa. Pela primeira vez Grissom a deixou tirar e levar a comida até a mesa, sem se prontificar antes.

"Como foi o passeio?" Perguntou grissom.

"Bom. Encontrei Dutch".

"Sei..."

"Ele me acompanhou até a porta, por pouco não o convidei a entrar. Ele é muito legal e tem uma conversa bastante interessante".

"Está se apegando muito a ele, não querida?!"

"Você está com ciúmes?" Perguntou ela.

"Dá para ver que você gosta quando o encontra... Você ficaria conversando horas e horas com ele..."

"Gris, não seja bobo. Posso conversar horas com ele, pois é agradável, mas não é com ele que quero passar as minhas noites. Não é ele que me faz perder o fôlego, e por quem eu faria qualquer coisa".

"Sério?!"

"Esse seu ciúmes foi tão bobo!"

Ela se levantou da mesa e levou o prato até a pia. Ela não gostará da nada daquela conversa.

"Eu nunca consegui demonstrar meu ciúmes por você antes, e agora você brava?!" exclamou ele com voz carinhosa. "Não fique".

"Não precisa sentir ciúmes. Eu já fiz a minha escolha" respondeu ela.

"Está certo. Desculpe".

Sara deu uma risadinha e ia andar, quando ele ficou bem na frente, não dando espaço para ela sair de perto da pia.

"O que está..."

Antes que ela perguntasse, ele a beijou. Foi tudo tão rápido, e inesperado, que sara ficou parada, enquanto ele se afastava, para deixá-la passar. Com um sorriso tímido, Sara depois de ter se recomposto, foi tirar as coisas da mesa, e Grissom ficou de lavar tudo e guardar.

Sara resolveu ouvir um pouco a televisão, e sugeriu a Grissom que fosse se deitar - ele trabalhara mais de doze horas no turno anterior – mas ele decidiu ficar junto dela. "Você precisa descansar e a gente vai ficar muito junto, você está morando comigo" disse ela. Mas ele não mudou de idéia. Os dois então sentaram juntinhos no sofá e ficaram vendo a CNN.

Certa hora, grissom apoiou a cabeça sobre o ombro dela e tempos depois, adormeceu. Ela achou muita graça daquela cena – Grissom batido por completo pelo cansaço, como uma criança. Uma criança teimosa! (ela queria muito ter visto isso!).

Nick continuava na busca incessante pelo rosto do principal suspeito do assassinato do homem, encontrado no carro em um beco. Estava inconformado que a busca estava levando a lugar nenhum. Entrou no laboratório com mau humor, que logo foi notado pelos colegas.

"Nossa, que cara!" Comentou Greg.

"Acordou com o pé esquerdo?" Perguntou Warrick.

"pode-se dizer que sim" respondeu Nick.

"nada da foto?" Perguntou Greg.

"Grissom deve estar achando que não estou fazendo meu trabalho bem feito!"

"Não esquenta. A gente diz que você estava tentando" disse Warrick, para ver se Nick ficava menos carrancudo.

"Valeu. Eu vou continuar tentando".

"Boa sorte" disseram os outros dois csi's.

"Impressionante com o Grissom consegue deixar todos nós tensos" comentou Greg.

"Eu não fico" retrucou Warrick.

"Ah tá, claro!"

TBC