Depois dos vultos e contornos, Sara passou a ver em preto e branco - primeiro embaçado e depois normal. O doutor Navarro avisou, numa das consultas, sobre esse processo lento, até que Sara pudesse voltar a enxergar normal, e a cores. E exatamente por isso, Sara passou a pensar duas vezes, sobre contar ou não ao grissom, somente quando recuperasse a visão completamente. Estava sendo justa com ele, escondendo sobre a sua recuperação?
Por mais que Grissom ficasse contente da sua recuperação, como todo mundo ficaria, havia uma chance grande, de que ele ficasse magoado. Como ela reagiria, se ele fizesse o mesmo? Os dois estavam tão bem juntos, que talvez não valesse a pena arriscar tudo.
Grissom havia saído para trabalhar no horário de sempre. Mas, diferentemente das noites anteriores, a jovem não conseguiu pregar o olho. Sua cabeça parecia estar a mil, e sentia uma sensação estranha, não sabia explicar, apenas dizer que não era nada agradável. Ao invés de ficar se revirando na cama, Sara levantou, tomou um copo de água e caminhou um pouco pela casa. Foi então que ela teve uma idéia:
"Sei que não é muito bom para você andar a noite, mas preciso que faça isso por mim" falou Sara enquanto colocava a correia em Lucky. Engraçado como toda vez que ela se aproximava, Lucky balançava o rabo freneticamente.
Pediu ao porteiro que chamasse um táxi para ela - um que aceitasse cachorro - e ao entrar no carro, disse ao motorista que queria ser levada até o laboratório da perícia de Las Vegas.
Ela desceu do elevador, no andar onde trabalhavam e caminhou até a recepção.
"Olá Sara, como está?" Disse a recepcionista.
"Bem. Você sabe me dizer se o Grissom está?"
"Está sim. Na sala de evidências".
"Poderia, por favor, pedir para chamá-lo e dizer que uma pessoa o espera na sala dele".
"Posso sim".
"Ah, e não diga quem é, sim"
"Como quiser. É bom vê-la de novo".
Sara sorriu e virando a noventa graus para a esquerda, foi até a sala de Grissom. Fechou a porta, e esperou sentada na cadeira.
O chefe estava conversando com Catherine sobre um dos casos, quando a recepcionista apareceu, com o recado. Os dois se entreolharam estranhando.
"Você está esperando visitas?" Perguntou Catherine;
" Não".
"Você disse que é uma mulher?"
"Sim, senhorita. Está esperando o senhor na sua sala".
"Cuidado que a Sara pode ficar com ciúmes " disse Catherine.
Grissom levantou a sobrancelha e a encarou. Catherine tentava se segurar para não rir da cara dele. Ele deixou a sala, sem dizer nada e foi ver quem era.
Qual não foi a surpresa, ao ver a própria sentada na cadeira, de frente para a porta. De todas as pessoas, ela, era a que ele menos esperava ver. Assim que ele fechou a porta, Sara o cumprimentou:
"Oi Gris".
"Sara, mas o que..."
"- O que eu estou fazendo aqui?" Falou Sara antes de ele finalizar a frase. Como grissom não a corrigiu, ela continuou: "Eu não podia esperar até amanhã... Eu precisava te ver".
"O que não podia esperar?!" Questionou Grissom.
Grissom olhava fixo para ela, com a sobrancelha levantada. Todas as frases que ela tinha preparado, antes dele chegar à sala, foram completamente esquecidas – ela estava ansiosa. Se levantou da cadeira, soltou a correia de Lucky, parou bem na frente dele e depois de admirá-lo, por alguns segundo, disse:
"Você não sabe, mas eu adoro quando você levanta a sobrancelha!"
Grissom arregalou os olhos.
"Não fique tão surpreso. Você que sempre disse que isso iria acontecer" continuou ela.
"Desde quando?" questionou ele estupefado.
"Faz alguns dias já. Finalmente vou poder apreciá-lo, depois de tanto tempo".
Os olhos de sara se encheram de lágrimas, e uma delas escorreu pelo seu rosto. Grissom a enxugou, e ficou acariciando seu rosto, enquanto pensava: "Minha flor... nada poderia me fazer mais feliz do que ouvir isso".
Ele não conseguiria dizer aquilo, afinal estaria se despindo de todas as barreiras que os separavam, ao menos no laboratório..
"Ainda vejo em preto e branco... " disse ela, se afastando, com receio de que alguém entrasse. "Segundo doutor Navarro vai demorar mais um pouco, até eu enxergar com cores".
"Sei " falou Grissom.
"Agora que eu já falei, o que desesperadamente precisava, acho que é melhor você abrir a porta, antes que alguém desconfie" falou Sara, sem graça.
Ele admirou-a por mais alguns segundos, e abriu a porta.
"Bom, acho melhor eu ir."
"Está bem. Eu te vejo em casa".
Greg, que passava pelo corredor, ficou muito contente em ver Sara e Lucky. Ele gostara do cachorro.
"Oi Sara" disse ele.
"Hei greg, tudo bem?"
"Sim, O que faz aqui? Perguntou ele enquanto acaricia Lucky.
"Resolvi fazer uma visita".
"E já está indo embora?"
" sim".
"Porque não fica? Eu estava, ou melhor, nós estávamos sentindo falta da sua companhia".
"E então, me diz, o que está fazendo hoje?" Perguntou ela depois de olhar Grissom e dar uma piscada de olho.
Greg a levou até a sala de evidências, onde ele estava processando algumas fibras. Nem precisa dizer que Greg conversou muito com a jovem, ele gostava de falar e ela estava disponível para ouvir. Sara sentia falta de ouvir as histórias dos rapazes.
De vez em quando, Grissom passava pelo corredor, apenas para vê-la. O laboratório não era o mesmo sem ela. Bem lá no fundo, era desanimador ir trabalhar e não encontrá-la concentrada em algo, sempre dando o melhor de si. Sem contar que, mesmo fingindo que não, era ela que fazia Grissom sorrir naquele lugar.
Conforme a visão de Sara ia melhorando, se aproximava o dia em que ela teria que devolver Lucky a "Eyes dog Foundation". Ela não conseguia fingir a tristeza. Apegara-se tanto a ele, que se despedir ia ser muito doloroso.
No dia que eles haviam supostamente combinado de devolver o cachorro, Grissom preparou um super café da manhã, e fez questão de levar a ela na cama. Sara apreciou o mimo, mas mesmo assim não conseguiu segurar o sorriso por muito tempo.
"Não fique assim" falou Grissom.
"Mas como não ficar?" Perguntou ela. "Até você se apegou a ele!"
"Verdade".
"Olha para ele!" Lucky estava deitado ao pé da cama, com a cabeça levantada na direção deles.
-"É... Vai ser difícil devolvê-lo" – falou grissom. "Ainda bem que não será necessário".
"O que?!" Exclamou Sara. "Deixa ver se eu entendi direito... Você disse que não será necessário?"
"Você continua com a audição perfeita!"
"mas, como?"
"Eu liguei para a fundação, disse que não tinha intenção alguma de devolver o cão. Eles disseram que de vez em quando isso acontece, e que não seria um problema ficarmos com ele, por um preço é claro, mas já resolvi isso".
"Está falando sério?! Você fez isso?!"
"Sim, eu fiz".
Os olhos de Sara brilharam como de uma criança.
"Não acredito!"
"Então é bom começar a acreditar" falou grissom pegando um pedaço de bolacha, e deixando Sara comer sossegada. "Ah, mais uma coisa: eu não saio daqui, a menos que queira comprar um apartamento maior.
Sem dúvida já fora um passo muito grande para Grissom cuidar dela de verdade, e morar com ela, agora só faltava ele criar coragem para pedi-la em casamento. Se aquilo tudo aconteceu, sem previsão, afinal Sara jamais pensou que fosse ficar cega, Quem sabia ele não cria coragem?!
FIM
