Três anos se passaram desde a volta de Isack.

Illie recém-completou os seus estudos e já havia passado pela cerimônia das flores. Pela lei, ela já era uma mulher.
Illie agora estava com 16 anos. Agora ela parecia-se mais com uma adulta. O seu corpo adquiriu delicadas curvas femininas. Ela crescera mais um pouco, havia passado da altura de sua mãe. Os seus cabelos ondulados estavam na altura dos seios. E a pele que antes fora levemente bronzeada, agora estava em um tom branco rosado.

Isack continuava o mesmo. Apenas os seus cabelos foram cortados e os seus músculos recuperaram o vigor de outrora. Isack atualmente ajudava o senhor Hugo no treinamento dos meninos e participava do conselho de segurança da província.

Marie, a sua mãe, agora possuía mais cabelos grisalhos do que loiros e continuava usando o mesmo coque apertado. As suas feições, apesar de ter ganhado mais algumas marcas da idade, ainda transmitiam a mesma serenidade e tranqüilidade de sua voz. Os seus intensos olhos azuis, agora estavam começando a ficarem mais leitosos, mas Marie continuava bastante ativa e forte, com o mesmo espírito de luta que lhe deu forças para continuar cuidando das crianças, desde a morte de seu marido Leo, quando Illie ainda era uma recém-nascida.

Entretanto, foi a notícia da seleção obrigatória de alistamento que fez a fortaleza interna de Marie desmoronar.

Uma caravana da tropa do exército de Litus, a província-capital da região de Utara, se instalou no centro da província de Suigen. Outras duas caravanas vigiavam a fronteira de Suigen com Zestos e Sonne. A população toda foi intimada a aparecer na praça central da província para ouvir o decreto.

Um dos soldados retirou um pergaminho com o selo real de Utara e leu em voz alta:

"Devido à declaração de guerra entre Utara e Ost, todos os homens, de 15 a 40 anos, independente de não estarem completos os desafios da maioridade, devem se apresentar para a seleção de alistamento do exército de Utara.
Mulheres que já passaram pela cerimônia das flores, e que tem idade abaixo dos 50 anos, também devem se apresentar para a seleção de alistamento.
A seleção ocorrerá no centro de sua província, na caravana do exército de Litus.
Aqueles que tentarem cruzar a fronteira da província sem permissão oficial ou se recusarem a entrar no exército, caso sejam selecionados, serão acusados de traição e condenados a morte."

- A seleção começará amanhã, a partir do amanhecer. – Falou o soldado, depois que guardou o pergaminho em um cilindro de madeira. – Aos que tentarem fugir da província... Irão ao encontro das miesnys. – Finalizou o soldado com um sorriso sádico em seu rosto.

O motivo de não haver vigia da fronteira ao sul de Suigen é que Suigen faz fronteira ao sul com a Floresta de Robus. Ninguém se atreve a entrar em Robus devido à floresta ser constituída em sua grande maioria pelas Miesnys. A miesny, ou come-come, como são chamadas em estórias em que os pais contam aos seus filhos, não se sabe ao certo se realmente é uma planta ou um animal. Mas miesnys são descritas pelos erdeanos como: "Grandes árvores com bocas de pétalas cheias de dentes afiados em suas raízes subterrâneas". Nas estórias, miesnys são descritas com a aparência de árvores comuns, mas no momento em que alguma criatura está andando na terra acima de suas raízes, subitamente, as raízes da árvore se levantam da terra e "engolem" a criatura. As raízes das miesnys têm a aparência de uma gigante vitória-régia rosada, e na sua superfície, espinhos que mais se assemelham com enormes dentes afiados.

Depois do anunciamento na praça, Marie, Illie e Isack seguiram para a sua casa. Os olhos leitosos de Marie estavam marejados. Foi a primeira vez que Illie viu a sua mãe nesse estado. Foi a segunda vez que Marie não conseguiu esconder a sua tristeza.

A família seguiu-se para a cozinha, para discutirem o pronunciamento realizado nessa manhã. Marie estava inconsolável.

- Esses malditos! Eles vão destruir toda a minha família! Primeiro o meu marido, agora estão querendo tirar os meus filhos! E eu nem poderei ser selecionada para essa maldita guerra sem sentido! Minhas mãos andam trêmulas e estou ficando cega, não posso mais manusear as ervas e nem cuidar dos feridos! – A mãe esbravejava de ódio, as lágrimas rolando por todo o seu rosto.

Illie foi pegar uma caneca com água para a sua mãe. Isack tentava consolá-la, mas era em vão.

- Ainda nem fomos selecionados, mãe. É provável que somente chamem a mim e descartem Lili por ser nova demais.

- Deixe de ser ingênuo, Isack. Não Illie, eu não quero essa maldita água suja, bote de volta no jarro. – Illie estava assustada, ela nunca vira a serenidade de sua mãe ser abalada. Muito menos Isack a havia presenciado. Marie parecia outra pessoa. – Na guerra, não importa o quão novo és, se você tem força e energia para lutar, eles irão chamar de qualquer jeito. A única maneira de eles rejeitarem qualquer um de vocês é caso estejam velhos demais ou deficientes. Mesmo mulheres grávidas serão chamadas, eles encontram um jeito de interromper a gravidez ou mandam os recém nascidos para Robus, e falam para a família que a criança não resistiu à viagem!

Após as palavras de Marie, um silêncio devastador pairou sobre a cozinha. Os dois irmãos não tinham nenhuma solução e tampouco um consolo para tranqüilizar a mãe. E foi Marie que resolveu quebrar o silêncio.

- Irei subir para o meu quarto. Não me perturbem. Illie, eu não quero o almoço, vocês podem comer tudo. – E antes que Illie ou Isack pudessem abrir a boca para contestar a mãe, Marie fez um sinal para que não falassem nada. Ela se levantou e saiu da cozinha em direção as escadas.

- O que nós vamos fazer Isack? – Illie olhava para o seu irmão, ela sentia o gosto salgado de suas lágrimas.

Isack se aproximou da cadeira de onde estava Illie, e se abaixou para que ficasse na altura de seu rosto. Com suas mãos calejadas, enxugou as lágrimas da irmãzinha e disse em um tom confiante e tranqüilizador:

– Vamos torcer para que a nossa mãe esteja errada, e que não lhe selecionem para o exército. – com essas palavras, o irmão deu um abraço apertado em Illie e afagou os seus cabelos. – Nossa mãe não ficará sozinha.

Depois da conversa com o seu irmão, Illie foi preparar o almoço. Enquanto isso, o irmão foi comprar um pouco de pão na casa de dona Mirna. Illie resolveu fazer uma rápida sopa de legumes, pois achara melhor poupar o irmão da caça, devido os acontecimentos do dia.
Logo após o retorno de Isack, a sopa já estava pronta.

Os dois almoçaram sem trocar nenhuma palavra ou olhar. Respeitaram o desejo da mãe e não levaram almoço até o aposento dela e tão pouco a chamaram. Mas Illie achou melhor não comerem tudo, e deixou uma quantidade de sopa na panela e a lenha levemente acesa, para que a sopa demorasse a esfriar. Isack deu um pequeno pedaço do pão para Illie e depois embalou o resto do pão em um pano, para que as formigas não o atacassem, e deixou-o em cima da mesa.

- Illie, eu estou indo para a casa do senhor Hugo. – quando Isack chamava Lili de Illie, era por que estava bastante preocupado. – E não tenho previsão para voltar.

Illie não respondeu nada, apenas assentiu com a cabeça. Um tempo depois que o seu irmão saiu de casa, ela dirigiu-se para o seu quarto, pegou a gaiola de seu pássaro e saiu de casa. Andando em rumo para a sua árvore.
Ao chegar lá, ela sentou-se debaixo da árvore, relaxando as suas costas no tronco, e pondo a gaiola do pássaro em seu colo.

- Uma pena que você não pode voar pequenino. E tão pouco eu. – Ela abriu a portinha da gaiola e estendeu a mão que continha pequenos farelos de pão em sua palma.

O pássaro comeu um pouquinho do pão. E logo depois o pássaro começou a cantar.

Illie deixou a gaiola do seu lado, e ficou ouvindo a triste melodia de seu passarinho sem nome. Em pouco tempo, os seus olhos fecharam-se para abrirem-se em uma Erde sem guerras.