Metade da noite já se passara quando um homem encapuzado entrara pela porta.
- Desculpem-me pelo atraso. – O estranho havia abaixado o capuz revelando o seu rosto. Já era um homem maduro, por volta dos seus 35 anos. O formato de seu rosto era quadrado, queixo largo, o nariz era reto, grande e comprido. Os cabelos negros já possuíam algumas mechas grisalhas, as madeixas estavam presas em um rabo de cavalo. – A segurança na fronteira de Zestos está bastante forte, os soldados também estão vigiando casas ao redor. Só consegui sair quando um dos guardas que fazia a vigia parou em um arbusto para fazer as necessidades.
- Você fez bem Iuri. – respondeu um senhor que estava sentado em volta de uma mesa redonda de madeira, junto com outros homens. Ele já estava bem velho, a sua voz que no passado era um forte tom de baixo, já estava um pouco fraca e tremida. Ele já possuía intensas marcas de idade, todos os seus fios de cabelo já haviam caído, apenas usava um cavanhaque grisalho. O homem possuía o olho esquerdo cego. – Nós também mandamos a mensagem tarde demais, mas pelo menos agora todos os membros do conselho já estão aqui.
Iuri sentou-se em um banco que estava vazio, ao lado do ancião. No total, eram cinco membros. O homem do olho cego era Hugo, o mestre dos meninos de Suigen, assim como um dos mais respeitados homens da província. Isack estava sentado ao lado direito de Hugo. Ao lado de Isack, havia um homem que possuía os cabelos escuros e cacheados, tinha por volta dos 40 anos; era conhecido como "Águia". Por último, ao lado de Águia, havia uma pequena mulher que também já possuía muitas flores (N/A: É uma expressão utarana para dizer que a pessoa já possuía muitos anos. É como se dissessem que "a mulher possuía muitas primaveras"). O nome dela era Mel, ela era a mestra das meninas da província e mãe de Mirna.
- Creio que muito já se discutiu antes da minha chegada. – disse Iuri.
- Sim meu caro. – Águia respondeu, apesar de ser inconveniente, era ele que possuía as melhores e mais arriscadas estratégias, Águia possuía uma impressionante capacidade de analisar os seus adversários. - Entretanto, as nossas cacholas não conseguiram pensar em uma solução segura e eficiente para o nosso problema. Tens alguma sugestão?
- Entendo. Creio que eles possuem os nossos registros, certo?
- Naturalmente. Imagino que eles possuem apenas os nomes dos mais novos, para poupar-lhes tempo e peso.
- No entanto... – Isack começou a falar, estava receoso de pronunciar as palavras, pois sabia que era certo de que isto iria acontecer. - acredito que os mais novos serão chamados na próxima primavera, quando completarem a idade.
- Eu ainda proponho que seria bom tentarmos esconder os jovens mais fracos. – Águia começou a falar, mas logo Mel o interrompeu.
- É arriscado demais, não sabemos qual o registro que eles possuem, se é apenas dos inválidos ou daqueles que estão aptos a entrarem no alistamento. Se descobrirem o plano, as crianças serão jogadas em Robus e a culpa será nossa!
O motivo de tanta preocupação do conselho era que:
Suigen possuía um território muito limitado, sem muitos recursos e uma pequena população.
Pela previsão do conselho, apenas as crianças, os deficientes e os idosos poderão ser dispensados da guerra. A agricultura, principal fonte de alimento da população, era familiar. Os maiores medos dos membros do conselho eram que a província entrasse em crise devida:
1 – A falta de alimento.
2 – A alta mortalidade das crianças menores.
Os quatro andaram a discutir os prós e contras dessas e outras idéias que lhes surgiam. Hugo apenas absorvia tudo que os outros membros estavam a falar. Depois de algum tempo ter passado e sentirem que a manhã estava próxima, Hugo disse:
- Esconde-los, lutar, mudar os seus nomes, dizer que eles são de outra província, mudar a suas idades... – ele falava devagar para que a tremedeira de sua voz não o atrapalhasse. – Tudo isso é extremamente arriscado. Não vamos por a vida dos nossos jovens em risco. A única alternativa é tentarmos fazer um acordo com o chefe dessa campanha.
E o ancião explicou-lhes que o acordo pedia que fossem dispensados os alunos que não completaram nenhum desafio da maioridade pudessem ficar na vila, explicou-lhes também, que o oficial escolheria dois homens entre 20 e 35 anos que também ficariam para que pudessem coordenar os grupos de caça e fiscalizar as hortas das casas. Em troca, daqui a um ano, todos os meninos que haviam completado 13 anos, seriam disponibilizados para o exército.
- E se eles não aceitarem, mestre Hugo? – perguntou Isack.
O velho suspirou levemente olhando para o teto de sua casa, em seguida, voltou o seu rosto para Isack e, com um triste pesar, disse com a sua voz trêmula:
- Que os deuses nos protejam.
Os pássaros estavam soltando as suas primeiras notas antes do amanhecer. O canto acordou Illie, ela havia sonhado que encontrara o seu passarinho.
Ela se arrumou, hoje era o dia da seleção. Ela queria ser avaliada o quanto antes, para que tivesse mais tempo para decidir com o seu irmão o melhor rumo a ser tomado. Na noite passada rezara para os deuses, pedindo que fosse poupada da guerra.
Como ainda tinha tempo até o amanhecer, resolveu fazer uma pasta analgésica para Cael. Ela fez uma mistura pastosa com camomila, alecrim, canela, azedinha e hera. Enquanto deixava a mistura esfriando, ela aqueceu água para que pudesse esterilizar os instrumentos de aplicação da pasta. Em menos de meio pino, (N/A: ou 30 minutos, no nosso caso) a esterilização estava completa.
Silenciosamente, ela entrou no quarto onde estava Cael. O moreno continuava dormindo, não utilizara os cobertores, por isso dormiu com a janela completamente fechada.
- Até o suave toque do linho deve lhe trazer dor... – Ela falou baixinho para si mesma. Illie puxou um banquinho de madeira e colocou-o próximo da cama e sentou-se. Ela começou a olhar o rosto do jovem, mesmo enquanto estava dormindo ele não parecia que estava em paz. Perto dos cabelos do jovem, havia uma pequena pena negra.
A garota assustou-se. Será que estava ficando louca? Como aquela pena poderia ter surgido naquela cama? Quando Illie saiu do quarto pela última vez naquela noite, não havia nenhuma pena. Será que o estranho havia seqüestrado o seu amigo? Hipóteses e mais hipóteses surgiam na mente de Illie. Cael falara sem abrir olhos.
- O som dos pássaros lhe acordou? – a sua voz não parecia de alguém que acabou de despertar.
- Ahn?... – Ela se assustou com a voz repentina de Cael.
- Eu perguntei se o som dos pássaros lhe acordou.
- Ah, sim. – ela tentava fingir que estava sonolenta.
- Sinto um cheiro de canela...
- É uma mistura de ervas... É para diminuir a dor e o inchaço, não irá curá-lo.
- É impressionante que mesmo estando sonolenta, fizeras esse trabalho. Darei um voto de confiança, pode passar o seu remédio em mim.
Ela pegou uma espécie de colher e botou uma grande quantidade da pasta no braço e no antebraço de Cael. Em seguida com o auxílio de um pincel com fibras de rabo de cavalo, espalhou a pasta por todo o membro dele. Enquanto executava a tarefa, um único pensamento corria por sua mente:
"Não consigo decifrar se ele realmente acreditou que eu estou sonolenta. Tenho que tomar cuidado."
"Tenho que tomar cuidado."
- Irei trazer um chá.
Illie pegou o caule da planta da erva dos gatos e misturou com pó de erva-cidreira. Em seguida, adicionou água quente. Esperou alguns minutos, até que o chá estivesse morno, e retirou o caule. Ela havia preparado um sonífero. Ela entregou o chá sem falar mais nenhuma palavra, Cael retribuiu com um "Obrigado".
Ela foi limpar a cozinha. Assim que terminou, foi dar uma olhada no quarto de Cael.
Ele já estava dormindo. Ela entrou e abriu uma fresta na janela. Ela pode perceber a aurora.
Ao sair do quarto, ela trancou-o com uma chave. Ela já estava de partida para a caravana de Litus e tinha certeza que não iria demorar. Não se preocupou em chamar a sua mãe e tinha a impressão que Isack não havia voltado, mas que iria encontrá-lo na praça central.
Quando chegou lá, havia duas filas. Uma para a avaliação das mulheres e a outra para os homens. Em sua fila, havia duas mulheres na sua frente. A primeira era Bianca, ela tinha por volta dos seus 22 anos de idade e estava no terceiro mês da gestação. Bianca já estava sendo avaliada pelo soldado. A segunda, que estava na frente de Illie, se chamava Uga. Ela recém havia passado pela cerimônia das Flores, assim como Illie. Entretanto, percebia-se que a garota estava extremamente inquieta e tensa.
O soldado gritou:
- APROVADA. PRÓXIMA!
Bianca havia saído da fila completamente arrasada. Seu rosto estava completamente inchado e vermelho, não se conseguia nem ver os olhos da mulher.
Foi a vez de Uga.
Illie conseguiu ouvir o que o soldado perguntava.
- Nome?
- U...Uga, filha de Orloni.
- Mostre o pulso direito Uga de Orloni.
A menina mostrou. Não havia nada em seu pulso. O soldado pegou uma garrafa que continha um cheiro muito forte de álcool. Ele derramou um pouco do misterioso líquido em um pano velho, e em seguida, esfregou com bastante força o pulso da menina. Uma mancha que tinha o formato de uma rosa apareceu em seu pulso. Uga começara a soluçar e a falar, Illie apenas conseguira distinguir as palavras: "piedade" "misericórdia" "papai" e "cuidar".
O soldado olhou para trás, em direção a caravana, e gritou.
- Wol, Otto!
Dois homens extremamente altos e corpulentos rodearam a caravana e ficaram parados ao lado do soldado.
- Levem Uga de Orloni para Robus. As miesnys devem estar famintas.
