Apenas Águia, Iuri e Isack foram até a caravana que se encontrava na praça central, para que conversassem com o chefe de campanha.
Os pássaros já estavam cantando, mas o céu apresentava aquela amplitude de cores da transição da noite para o dia. Em meio pino, o sol iria nascer.
Quando chegaram lá, outro carro havia chegado (N/A: Não é um automóvel gente.), provavelmente devia ter chegado à província durante a noite. Um pouco mais a frente de cada um, havia uma mesa e uma cadeira de madeira.
Dois homens estavam guardando a porta de cada caravana. Os dois vigias eram extremamente altos e corpulentos, possuíam mais de dois metros de altura, provavelmente cerca de 2,10m. Eles não vestiam nenhuma armadura do exército, e sim uma roupa feita de couro, no estilo das vestimentas dos habitantes de Syd, mas as suas roupas estavam mais apropriadas para o clima quente de Utara do que para o eterno inverno de Syd.
De longe, poderia-se dizer que aqueles homens eram irmãos gêmeos. Os dois possuíam os cabelos raspados, estavam com a barba feita e as sobrancelhas raspadas e muitas manchas de sol pelos seus corpos. Apenas as suas feições os diferenciavam. O da direita possuía olhos pequenos e acinzentados, o seu nariz era grande com o formato de uma curva fechada apontando para baixo, como o bico de um falcão. Os lábios eram pequenos e extremamente finos, era como se tivesse apenas um risco em seu rosto.
O outro possuía olhos grandes e amendoados, um castanho acinzentado e claro. O nariz era pequeno e reto, mas com a ponta bastante arredondada. Os lábios eram pálidos e um pouco mais carnudos do que o do outro vigia.
Os vigias continuaram disciplinadamente em sua posição e em silêncio quando o grupo chegara à frente deles. Logo, Águia disse com o seu melhor tom de arrogância:
- Queremos falar com o seu líder!
Os dois homens ignoraram Águia. Mas ele tentou mais uma vez.
- Oh! Perdoe-me pelos meus modos, cavalheiros. Quão rude eu sou! – Iuri e Isack o olharam com repreensão para o colega, como ele poderia brincar numa hora tão importante dessas? - Nós somos membros do conselho de segurança da província. Queremos fazer um acordo com o chefe dessa campanha.
Os dois vigias tiveram uma rápida troca de olhares. O da direita se virou para a caravana, puxou de seu bolso algo que parecia um pequeno bastão de aço, e bateu levemente em uma superfície metálica que tinha na porta.
Em pouco tempo, ouviu-se a voz do soldado que havia manifestado o decreto no dia anterior.
- O que houve Wol?
- Membros do conselho de segurança, mestre Milo. – a voz alta e grave de Wol lhe disse.
O soldado saiu para o encontro do grupo. Ele estava trajado com a mesma armadura do dia anterior, mas estava sem o seu elmo. Milo possuía os cabelos castanhos acinzentados, as madeixas eram curtas e onduladas, olhos redondos e cor de mel. O nariz protuberante já fora várias vezes quebrado, e possuía algumas cicatrizes pelo rosto.
- Bom, digam o porquê que vieram. – falou o oficial.
Águia dera um passo à frente, mas Isack o convenceu que seria melhor que Iuri falasse.
- Vamos, não tenho muito tempo, em breve o sol irá nascer. – Milo já estava impaciente.
Então Iuri proferiu exatamente as palavras de Hugo.
- E então, o que achas de nossa proposta? – Iuri finalizou.
- Sinto muito, sabemos que Suigen é uma das províncias mais pobres da região, mas não podemos tratá-los de uma forma especial apenas por que vocês correm o mesmo risco que as outras sete províncias.
- Mas as outras províncias possuem condições o suficiente para se sustentarem mesmo que todos os seus homens fossem chamados para a guerra! Mesmo Garmi, que é tão limitada quanto nós em território, possui recursos devido à corrup... devido aos investimentos de Litus e Ambustio na região! – Isack protestou.
- Fingirei que não ouvi que quase chamaste a corte real de corrupta. Não posso fechar nenhum acordo que interfira em nossas decisões militares.
Todos ficaram em silêncio. Até Águia perdera a sua postura arrogante, ele estava observando as intensas cores da aurora.
- Quando que irás partir com os nossos homens e mulheres? – Águia perguntou.
- Em uma semana.
- Não há como nos dar um pouco mais de tempo para que possamos preparar os mais jovens para cuidar da província?
- Não. Temos que chegar a Litus no prazo máximo de 20 dias, a menos que você queira que o seu povo ande sem descanso até a capital.
Águia se aproximou ainda mais do soldado, olhando fixamente para os seus olhos e apontando o seu dedo indicador para o rosto de Milo, ele começou vociferar.
- Vocês são extremamente desorganizados, aposto que o bêbado do Bartolomeu que planejou essas campanhas absurdas, que no fim apenas irão foder o povo da nossa nação! – Wol começou a se aproximar dos dois, mas Milo fez um sinal para que o careca não fizesse nada.
- Então é aqui que você está Erich, filho da casa dos Kriga. Mais conhecido como "Águia", não é mesmo? – o oficial falou com malícia, parecia que os dois já se conheciam. Um sorriso maquiavélico brotou em seus lábios. – Apesar de já ter passado da idade, não fará mal para o nosso exército que o senhor seja convocado, não concordas?
- E o que farás se eu não abdicar do meu direito?
- Creio que terei que cumprir a minha obrigação, não posso aceitar tamanho desacato à autoridade e muito menos calúnia, não é mesmo? - Milo abusava de seu tom irônico e de gestos com as suas mãos. - Sabe que Bartolomeu não aceitará tamanha desmoralização, você sabe como é o refinado senso de justiça dele. Ele com certeza poupará todos os seus inocentes parentes!
O sol já estava surgindo no horizonte, Águia ficou em silêncio, fitando furiosamente os olhos de Milo.
- Já está na hora da seleção meus nobres cavalheiros. Gostariam de se adiantar? Creio que seu amigo Erich está bastante ansioso pelo front. Esperem um pouco que um de meus homens virá para começar o processo. – então Milo entrou na caravana, em poucos minutos saíra da caravana da esquerda dois soldados com alguns papéis, que se sentaram nas cadeiras mais a frente.
O soldado da direita disse:
- Wol e Otto, fiquem atrás dos aposentos, se necessário o chamaremos. – então os dois homens foram para trás das caravanas. – Eu seleciono os homens, o meu colega da esquerda irá avaliar as mulheres. Diga-me, quais os seus nomes.
Iuri e Isack deram os seus nomes e como previram, foram selecionados. O grupo decidiu que iria voltar para a casa de Hugo e lhe contar as más notícias.
Uga não reagiu. Sabia que se corresse, poderia trazer alguma conseqüência para a sua família. Apenas Otto se aproximou da menina e a deitou em seu ombro, segurando-a fortemente para que ela não fugisse. Enquanto ele caminhava para o sul da cidade, Uga ainda soltava gritos, suplicando para o seu soldado cárcere:
- Por favor, me leve para a guerra! Eu não POSSO morrer!
O soldado não a respondera. Mandou Illie se aproximar apenas quando não se podia mais ouvir os gritos de Uga.
- Nome?
- Illie, filha da casa de Ignis.
O soldado começou a procurar alguma coisa nos papéis que estavam em sua mesa. Em seguida, escreveu alguma coisa com a sua pena.
- Mostre o seu pulso direito, Illie de Ignis.
A menina mostrou. A marca da rosa estava lá.
- APROVADA! PRÓXIMA.
Illie se retirou da fila, os seus olhos estavam marejados. Ela estava em estado de choque por Uga, e estava desesperada pela sua mãe, Marie, que terá que esperar sozinha esse período de guerra passar.
Ela resolveu esperar Isack na praça, achava que o irmão ainda não tinha passado pelo processo de seleção. Decidiu-se que iria esperar um pino, era o tempo mínimo que ela tinha certeza que teria até que Cael acordasse.
Ela observou tantos outros amigos e conhecidos passarem pelas filas. Fora como a sua mãe lhe disse, apenas os velhos, os deficientes e as crianças foram dispensados. Nem as grávidas foram dispensadas, Bianca era uma prova disso. Ela viu a sua mestra, Mel, sendo dispensada pelo soldado. A anciã vinha em sua direção, e se sentou ao seu lado, naquele banco de pedra.
- Pelo o seu rosto, você foi chamada, não é meu bem? – disse vagarosamente Mel.
- Sim mestra... – Illie olhou para o rosto da anciã, os seus olhos, de tanto chorar, apresentavam uma coloração intensa de verde. – Eles levaram Uga para Robus.
A velha entrou em estado de choque. Uga fora uma de suas melhores alunas, assim como Illie.
- O pai dela não irá suportar, - Os negros olhos de Mel estavam úmidos, algumas lágrimas começaram a rolar pelo seu rosto. – Ele está muito doente, está perdendo a memória. Ele esquecera que Uga era sua filha, pensava que ela era a sua amada e já falecida esposa... Uga era a última pessoa que ele tinha.
- Por isso que ela tentou esconder a marca...
- Então foi esse o motivo que a levaram para as miesnys. – a velha fez uma pausa, fixou o olhar nos relógios de sol, mas retornou a sua visão para Illie. – Estou indo para a casa do velho Ert, irei dar as más notícias e providenciar os seus cuidados.
- Boa sorte, mestra.
- Adeus minha querida.
Faltava pouco para que a sombra chegasse ao próximo pino quando Isack apareceu.
- E então Illie? – O irmão perguntou, mesmo sabendo da resposta.
- Fui convocada. – essa foi uma das poucas vezes que Isack ouvira a voz da irmã repleta de tristeza. – É melhor você ir logo para a fila, ela está aumentando cada vez mais.
- Eu já fiz, e fui chamado. Vamos para casa agora, temos que decidir o que vamos fazer.
- Sobre isso, eu tenho que lhe contar uma coisa Isack.
Enquanto andavam a caminho de casa, a irmã contou toda a história do dia anterior, como ela perdeu o pássaro, sobre Cael e como o trancara em seu quarto.
- Não deverias ter trazido aquele homem para a nossa casa, mesmo que ele esteja ferido, você não sabe do que ele é capaz! Deveria ter levado para a casa da dona Mel, ela poderia ter feito muito mais por ele e sem por a sua vida e a vida da nossa mãe em risco! – O irmão estava zangado com a imprudência e a ingenuidade da irmã. – Mas pelo menos você fez certo em trancá-lo antes de sair de casa.
A menina pediu desculpas, disse que não conseguia pensar direito naquela situação. Isack ficou quieto, andando sem olhar para a irmã. Quando os dois chegaram a casa, os dois partiram imediatamente para o seu quarto do térreo, para checar se o hóspede ainda estava dormindo.
Ela destrancou a porta, e lentamente, tomando o cuidado para que a velha porta não transmitisse nenhum ruído, ela a abriu. A janela estava do mesmo jeito que Illie deixou quando entrou no quarto pela manhã, mas logo abaixo da janela, as roupas que a menina emprestara para o desconhecido estavam jogadas no chão. A cama estava vazia.
Cael não estava mais lá.
O irmão subiu as escadas desesperado, foi até o quarto da mãe, o quarto estava trancado, ele batia freneticamente e com muita força na porta.
- Mãe abra a porta, por favor, mãe! Abra a porta!
Nenhum barulho de passos, nenhum sinal da voz de Marie. Isack, em seu desespero, começou a chutar a porta de madeira, tentando arrombá-la. Illie que seguira o seu irmão, começara a rezar, pedindo aos deuses que o pior não tivesse acontecido, que a sua mãe estivesse bem, que apenas estivesse dormindo em um sono profundo.
A porta caiu.
Os dois correram até a cama da mãe. Marie estava na posição que fazia enquanto dormia. De barriga para cima, com o lençol cobrindo-a até o tórax, e as mãos cruzadas sobre o peito. Mas Illie notou que a mãe não apresentava mais o tom de pele dos saudáveis. Ela foi checar o pulso da mãe, mas quando tocou a sua pele, ela estava tão fria quanto o gelo. Ela tentou de várias maneiras, não conseguia acreditar na verdade, procurou por algum sinal da pulsação na parte posterior da perna, na altura do joelho, e também tentou no pescoço de Marie.
Mas ela não sentiu nenhum sinal das artérias da mãe.
Os dois irmãos agora estavam órfãos de pai e de mãe.
