Ela não precisou dizer palavra alguma para que o irmão entendesse que a sua mãe tinha falecido. Ele se retirou do quarto em silêncio, alguns momentos depois ela ouviu uma forte batida de porta, Isack saiu de casa, provavelmente em busca da velha Mel e alguns homens para que pudessem levar a sua mãe para a casa da anciã.

Illie observava o quarto, procurava algum sinal de que Cael estivesse passado por lá. Nada. Absolutamente tudo em seu devido lugar. Mas ao mesmo tempo, a menina não conseguia acreditar que a sua mãe foi levada de uma hora para outra, tinha que haver uma explicação, Marie não aparentava possuir nenhuma doença de risco, apenas os sinais da velhice, como a perda gradual da visão. Em meio de suas lágrimas e soluços, ela tentou racionalizar, olhava para o rosto pálido e sereno da mãe.

- A porta estava trancada, a janela estava aberta apenas o suficiente para que pequenos animais atravessassem, não havia como aquele moço, ferido do jeito que estava, ter entrado nesse quarto. – Illie falava alto, como se estivesse conversando com a mãe. – Mesmo para um homem saudável, seria difícil escalar a parede da casa até o segundo andar. Exceto se ele tivesse usado uma escada...

Ela abriu a janela, e olhou para baixo. As flores do canteiro estavam intocáveis. Illie voltou ao pé da cama da mãe, não estava mais conseguindo se controlar, as lágrimas rolavam sem parar pelo seu rosto e um turbilhão de teorias passava por sua cabeça.

- Mamãe, será que foi você mesma que se levou? Foi você que quis ir ao encontro do papai? – A fatídica idéia de que Marie tivesse planejado a própria morte surgiu na mente da menina.

Não era uma hipótese completamente absurda, a mãe tinha um grande conhecimento de botânica, poderia muito bem ter preparado um veneno letal enquanto Illie e Isack estivessem ausentes.

- Illie? – era a voz da Mel.

- Mestra? – Illie foi interrompida pela anciã. A menina olhou em volta do quarto, Isack e Pedro estavam segurando uma espécie de maca que era feita de madeira e pano, eles puseram o equipamento em cima da cama de Marie. Com um extremo cuidado, os dois colocaram a mulher encima da maca, e a cobriram com um lençol branco. Eles desceram vagarosamente as largas escadas.

- Você irá descobrir do que minha mãe morreu, não vai?

- Minha pequena... – Mel estava abalada com a perda da amiga, o dia era de muita tristeza para a mestra. – Eu não posso lhe prometer nada quanto a isso, é algo que pode estar além da minha capacidade... Mas amanhã pela tarde, terei uma resposta.

- Entendo... – Illie respirou fundo, tentava pronunciar palavras difíceis para o momento. – Eu e o meu irmão podemos dar adeus para ela, antes do processo começar?

- Sim minha querida. Eles já estão levando-a para a minha casa. Venha comigo, agora é a última vez que você verá a sua mãe como ela era.

As duas saíram da casa e foram seguindo o trajeto de Pedro e Isack.
A moradia da velha era muito parecida com a de Illie, mas ao lado, havia uma casinha de um andar, que era aonde a mestra fazia a autópsia e preparava os mortos para a cremação.
Os dois esperaram a chegada de Mel, para que ela abrisse a porta da casinha. Isack desviou o olhar de Illie, para ele não era necessário que o corpo da mãe passasse por esse violento processo. A culpa era de Illie.

A mestra agradeceu a ajuda de Pedro e pediu para que ele esperasse do lado de fora enquanto conversava com os dois irmãos. Ela retirou o lençol de cima de Marie e disse:

- Illie me pediu para que lhe permitissem uma despedida.

- Obrigado, Mel. – Isack falou. Ele apenas ficou fitando para a face da mãe. O rosto estava tão calmo, tão sereno, ele podia jurar que ela apenas estava em um delicioso sono profundo.

Ele saiu do quarto, agora era Illie que ia se despedir de Marie.

Do mesmo jeito que o seu irmão, ela ficou observando para o rosto da mãe, tirando as mesmas conclusões que Isack.

- Adeus mamãe. –depois da despedida, Illie saiu da casa de Mel. O irmão havia desaparecido de vista, apenas Pedro estava próximo a entrada.

- Você viu para onde o meu irmão foi Pedro? – a menina perguntou para o homem moreno que estava ao seu lado.

- Não. Mas creio que ele foi falar com o senhor Hugo. – ele fez uma pequena pausa. – Eu sinto muito pela sua perda...

- Entendo... – ela decidiu que não iria procurar pelo irmão. Estava muito claro que Isack não queria conversar com ela nesse momento. - Obrigada Pedro.

Ela começou a seguir em rumo à praça central, não queria ir para a sua árvore, foi lá que todos os seus problemas começaram. Mas logo se lembrou que Cael estava a caminho da floresta no dia anterior, ele poderia ter sido visto pelas pessoas ou mesmo apanhado pelo monstruoso guarda que levara Uga. Resolveu que iria primeiro verificar se o homem não tinha sido apanhado pelos oficiais.

Havia duas filas enormes quando ela chegou à praça. Ela contornou a fila e foi para trás das caravanas, um dos carecas, que ela não reconheceu qual deles era, estava lá.

- Você é o Otto? – Ela perguntou.

- Para o seu bem garotinha, é melhor que você retorne a sua casa. – O grandalhão respondeu.

- Eu estou à procura de um homem, ele está com o braço direito extremamente ferido, ele tem o péssimo costume de andar pela província nu. Pouquíssimos o conhecem pela região, eu e a minha família o escondíamos, tínhamos vergonha de tê-lo como filho de nossa casa devido a sua demência e inutilidade para as tarefas, o nome dele é Cael. – ela falou com o melhor tom de preocupação. As lágrimas pela morte da mãe de certa forma a auxiliaram a passar a imagem de parente preocupada.

Uma coisa que Illie sabia fazer muito bem era mentir e dissimular. Apenas a sua mãe sabia dizer quando a menina estava mentindo, e não era raro que a mesma caísse nas palavras da filha. Entretanto, ao contrário da maioria daqueles que possuem tal habilidade, Illie só a utilizava em pequenas travessuras ou quando a vida de alguém muito importante corria risco. No caso, ela estava em busca de respostas.

- Eu o vi quando eu estava retornando da floresta. – o careca respondeu, ele possuía um sotaque estranho aos ouvidos de Illie. – Não acreditei que ele estava se dirigindo para a floresta, e sim que estava tentando uma rota alternativa para fugir da província. Realmente, ele deve ter problemas de demência para achar que alguém iria querer um guerreiro com aquele braço.

- Então o senhor sabe onde ele está?

- Eu o levei a força para uma das casas que foram tomadas como prisões provisórias. Fica próxima a fronteira de Sonne, saberá qual é a casa, pois há vários guardas ao redor.

- Obrigada. – ela agradeceu e virou-se de costas rumo a Sonne.

Era estranho que o guarda não tenha levado Cael a Robus, provavelmente Otto tivera compaixão do moribundo. Mas o mais estranho ainda era que o exército de Litus tivesse se apropriado de algumas casas da província e tornado-as prisões. Illie achava que todos aqueles que fossem contrários as decisões dos soldados teriam como pena uma morte dolorosa em Robus. Não quis mais pensar no assunto, se preocupou apenas na estratégia que iria executar quando chegasse à prisão de Cael.

Ela demorou mais de um pino até que encontrasse a casa que o gigante estava falando. Ela se aproximou do guarda que estava próximo a porta, e perguntou exatamente como perguntara para Otto sobre Cael.

- Ele é de sua família garotinha?

- Sim, é meu irmão mais velho. Ele é um estorvo para nós, mas ao mesmo tempo não podemos ignorá-lo, infelizmente ele ainda é um membro da família.

-Entendo, mas antes terei que revistá-la. – Disse o guarda. Illie assentiu com a cabeça. O guarda começou a tatear todo o corpo dela e revirar todos os bolsos de seu vestido.

- Pode entrar. Ele está no quarto guardado pelo terceiro soldado à direita.

Ele deu três batidas na porta. Illie ouvira o barulho de várias chaves e o deslocamento de uma trava de madeira. Um guarda havia aberto a porta por dentro. Ela entrou e contou até o terceiro soldado a direita. Ela falou que havia permissão para buscar um homem nu e ferido no braço direito que se encontrava na cela improvisada. O guarda concordou e destrancou a porta. Ela entrou, o guarda fechou a porta, pois não queria ver aquele braço asqueroso do homem e nem mesmo o corpo nu. Quando Illie olhou em volta do quarto, percebeu que o seu passarinho estava dentro da sala, mas não havia nenhum sinal de Cael. Passou pela cabeça dela a absurda hipótese de que Cael e o seu pássaro fossem o mesmo ser. Ela pegou o pássaro e o levou à altura de seus olhos.

- Se você é o Cael, eu lhe imploro que se transforme. Eu irei lhe tirar daqui, mas se você não for, eu e esse soldado estaremos correndo um sério perigo. Irão achar que nós ajudamos o homem que estava aqui anteriormente a fugir, mesmo que ele não seja considerado uma ameaça, haverá suspeita sobre nós. – logo após, ela colocou o passarinho no chão.

Nada aconteceu. Ela resolveu virar de costas, talvez o pássaro estivesse tímido.
A menina ouviu umas batidas na porta, e a voz abafada do soldado chegou aos seus ouvidos.

- Que demora é essa garotinha? Isso tudo apenas para tirar um demente da cela? – Ela ouviu o barulho das chaves, o soldado estava abrindo a porta, Illie percebeu o gosto salgado das lágrimas, estava com medo de que a racionalidade prevalecesse e que o pássaro fosse apenas um pássaro, custando-lhe a vida e morrendo sem respostas.

- Meus deuses, será que não há um trapo para doar a esse diabo? – Disse o guarda quando abriu a porta da cela improvisada

A racionalidade não prevaleceu.