Garrett.

A manhã de natal foi tão empolgante quando a noite que antecedeu, não houve grandes acontecimentos, pareceu que pelo menos por um dia, toda a família soube se comportar como uma entidade civilizada, Antares e Frederik não se envolveram em brigas, como era de costume, apenas uma ausência não explicada do Sr. Cooper que levantou algumas suspeitas, mas foi abafada pela Sra. Cooper atual, que não queria deixar transparecer nenhuma falha no seu casamento de contos de fada. A família ruía aos poucos, e todos percebiam isso, mas ninguém queria admitir em voz alta. Quando o segundo lusco-fusco se anunciou, todos os que não pertenciam a casa retiraram-se, ficando apenas meu meio-irmão abobado, que estava completamente cansado de tanto ter brincado com os outros primos, a Sra. Cooper que andava de um lado para o outro, preocupada com Sr. Cooper, que desde a hora do almoço não havia retornado. Poucos minutos depois, pode-se ouvir a discussão intensa dos dois.

– Eu nunca fui tão humilhada! – Berrava a Sra. Cooper pelos corredores, em uma voz histérica.

– Ora, não seja tão dramática. Eu precisei me ausentar por algumas horas, é perfeitamente comum! – O Sr. Cooper retrucava no mesmo tom de voz.

– Comum se fosse um dia de trabalho, mas é Natal, toda a sua família reunida aqui, eu nunca fui tão humilhada, nunca fui tão humilhada! – Ela berrava a plenos pulmões, provavelmente Leander já estava ouvindo tudo.

– Cale-se, vai acordar os garotos! – Cooper berrou, e em seguida, provavelmente segurou com força o braço da nova Sra. Cooper, pois Vincent, que a essa altura se aproximava mais da escada, pode ouvir um pequeno gemido de dor, vindo da sala de visita, onde eles agora encerravam a discussão.

– Vá morar com a sua outra família, Nathaniel, aquela vadia que você mantém, vá viver com os seus bastardos, porque eu estou indo embora. – Ela falava baixo, quase como sibilo.

O som de um tapa facial foi ouvido, agora apenas murmúrios de choro eram ouvidos, nenhuma palavra era dita, apenas a regia ordem do Sr. Cooper.

– Isso nunca aconteceu, suba para o seu quarto, deite-se e durma. Amanhã com as ideias em ordem, perceberá como foi estúpida, e pedirá desculpas, estamos de acordo? Mas é claro que sim. – Ele havia perguntado e ele mesmo se respondeu. Vince jamais havia presenciado uma cena tão horrorosa não gostava da Sra. Cooper, mas nenhuma pessoa deveria passar por tamanha humilhação.

A Sra. Cooper subiu correndo as escadas sem dizer uma palavra, e então entrou em seu quarto, pode-se ver por alguns segundos seus olhos marejados, antes de ela se trancar no quarto.

– Vince... O que aconteceu? – Leander havia acordado, como previsto por Vince.

– Nada, Leander, volte a dormir, teremos o dia cheio amanhã. – Vincent argumentou, caminhando em direção a sua cama.

O outro dia demorou a chegar, Vincent não conseguia dormir pensando no que o Sr. Cooper havia feito, sua vontade era de fato asfixiar o Sr. Cooper enquanto ele dormia, mas pensou que seria uma perda muito grande para o irmão mais novo, que ainda estava montando suas noções de caráter, acabaria criando um trauma muito grande no garoto, não valeria a pena. Mas uma coisa havia deixado Vincent curioso, os tais bastardos que a Sra. Cooper havia mencionado. Ele levantou-se de sua cama, silencioso, e então se encaminhou para o escritório, o Sr. Cooper pensava que tinha uma segurança máxima para a entrada naquele escritório, mas Vincent a muito sabia como entrar ali. Ele então caminhou em direção ao cofre onde o Sr. Cooper guardava os documentos mais importantes. Não demorou então a encontrar uma carta, que contava em partes o que ele gostaria de saber.

Nathaniel,

Eu já não sei mais como conciliar você com a vida dupla que anda levando. Chloe não para de perguntar de você, Heather anda dizendo por aí que não tem pai, e pelo amor de Deus, as duas só têm 4 anos! E ainda mais essa criança que esta vindo agora, não sei o que farei da minha vida! Só sei que não posso mais viver essa mentira. Se não aparecer no dia 25 nesta casa, Nathaniel pode ter certeza que quando vier, não encontrará nada, nem a mim, nem nenhuma de suas filhas, está avisado.

Aquela carta havia deixado uma certeza ainda mais profunda no âmago do ser de Vince, de que o Sr. Cooper não valia um nuque que fosse. A ausência não explicada de Cooper nas primeiras horas da festa de natal agora estavam perfeitamente explicadas, Vincent guardou a carta ao seu lugar original, e então trancou o escritório, não deixando qualquer vestígio que poderia indicar que alguém entrara ali anteriormente. Em seguida caminhou em direção seu quarto, onde, desde a revelação que tivera, não demorou a dormir, mas em seus sonhos, aquela informação ficou borbulhando em seu cérebro, mas ainda teria muito tempo para pôr em dia aquela história, poderia não ser amanhã, nem depois, mas um dia ainda tiraria a limpo tudo que o Sr. Cooper escondia. Quando a manhã chegou, Leander foi o primeiro a acordar, e por consequência acordou Vince.

– Vince, Vince, acorda, acorda. – Leander havia subido sorrateiramente para a cama do adormecido Vincent, e estava sacudindo-o.

– Mas que diabos, Leander. Ainda são... – Ele olhou no relógio de parede. – Dez horas da manhã, eu quero dormir mais. – Vincent resmungou, tentando voltar a dormir.

– Não, você tem que acordar, o dia está lindo lá fora, temos que brincar... Brincar. – Ele já havia se dado conta do óbvio não teria como dormir naquela condição.

– Ok, Leander, eu levanto, mas sai da minha cama, se você sabe o que é bom a sua vida. – O mau humor de Vince era algo praticamente único. Ao ouvir a ameaça do irmão, Leander se levantou de onde estava e caminhou em direção a sua cama, sentando-se em seguida.

– Vou me trocar, e veja como a Sra. Cooper está. – Nunca chamaria aquela mulher de madrasta, ou até mesmo pelo nome. No mesmo instante Leander saiu do âmbito e caminhou em direção ao quatro de casal. Bateu algumas vezes, e então um murmúrio pôde ser ouvido, a distância não era possível ouvir o que conversavam, mas logo Leander retornou com notícias.

– Ela está bem, apenas disse que não vai descer para o café. – Ele não pareceu nem um pouco preocupado com o fato, talvez não estivesse entendendo o que se tratava.

– O Sr. Cooper já saiu? – Vincent perguntou, enquanto terminava de tirar o pijama e colocava uma roupa qualquer, estava guardando sua melhor roupa para o dia seguinte, seu aniversário.

– Não sei, eu ainda não desci, tive um sonho ruim, e fiquei com medo de descer antes de você acordar. – Leander era uma criança cheia de medos, Vincent era inteligente de mais para se incomodar com esse tipo de coisa.

– Que coisa mais... – alguns poderiam achar que ele diria: "bonita, fofa", mas Vincent não pensava assim. – ridícula. É dia, Leander, monstros não andam a luz do dia, isso os mata. – Ao terminar de se trocar, Vincent desceu as escadas em direção à cozinha, começando a preparar o café da manhã para ele, Sra. Cooper e Leander.

Em poucos minutos o café estava pronto, Leander o levou para a Sra. Cooper, que não saiu do quarto pelo resto da manhã, e pelo resto do dia também. Dia aquele que seguiu de uma forma extraordinariamente rápida. O Sr. Cooper havia passado todo o dia fora, e quando retornara não dirigiu a palavra a ninguém, jantou, e foi para o seu quarto, estava com um ar descontente em seu rosto, Vincent acreditava conhecer o motivo, mas preferia não dizer nada, não queria estragar a véspera de seu aniversário, a data mais importante do ano.

A noite dessa vez passou como um piscar de olhos. Assim que a primeira brecha de luz solar atravessou o assoalho, Vincent acordou, alguns poderiam imaginar que estava extremamente cedo, mas somente quando o sol estava à beira de estar a pino, que seus raios penetravam o quarto dos dois.

– Acorde Leander. – Vincent que já havia tomado banho e se trocado, e agora estava próximo a cama do irmão mais novo, sacudindo-o para que se levantasse.

– Calma, Vince, só mais cinco minutinhos. – Leander insistia em tentar dormir, mal ele sabia que Vince de forma alguma deixaria.

– Cinco minutos nada, levanta, é meu aniversário, quero todo mundo de pé. – Ele anunciou imperativo, e então, como se Leander estivesse enfeitiçado, o jovem lourinho se levantou da cama, e abraçou Vince, apertando-o, em seguida, Vincent olhou para ele com uma expressão de nojo.

– Pelo amor de Deus! Um simples "feliz aniversário" bastaria. Agora eu vou ter que tomar outro banho. E eu já tinha vestido minha roupa nova. – Ele resmungou por alguns instantes, enquanto percebia que Leander começava a fazer uma cara de choro, percebível por aquele bico que ele tentava fazer.

– Feliz aniversário, Vince. – Ele disse um tanto chateado, sentando-se na cama, fazendo certa menção que iria dormir.

– Muito obrigado, e nem pense em se deitar de novo, você vai descer, e ver se a Sra. Cooper resolveu sair do clausuro ou vai continuar mais tempo trancada no quarto, o Cooper já saiu, eu ouvi hoje cedo. Anda, anda. – Vincent naturalmente era uma pessoa mandona, mas em seu aniversário, principalmente em seu aniversário de 11 anos, ele ficava mais mandão ainda, chegava a ficar insuportável, como Leander podia perceber.

Leander saiu do quarto com um sorriso no rosto, o que era bastante estranho, mas Vince não se importava, pois na hora que abriu a janela, uma coruja das torres branquíssima pousou em sua janela, ele simplesmente soltou a carta que a coruja carregava e ela então levantou voo novamente.

A carta dizia tudo o que Vincent esperava que dissesse, em seguida, uma coruja desconhecida pousou no parapeito de sua janela, com uma carta que dizia: "Para Vincent". A caligrafia Vince conhecia muito bem, não era a de sua mãe, e sim de seu tio por parte de mãe.

Caro Vincent,

Desejo-lhe felicitações pela comemoração do seu décimo primeiro aniversário, perceba que este pode parecer um intermédio em sua vida, mas você perceberá que esse é apenas o inicio de sua gloriosa jornada perante o mundo bruxo, adianto-lhe que a pedido de sua mãe, faremos suas compras no dia primeiro de maio, nem um dia antes, nem um dia depois. Antes que eu me esqueça, essa coruja é meu presente de aniversário, ainda não lhe dei o nome, portanto ele (É um macho) acatará o nome que melhor convir a você.

Atenciosamente,

Seu tio preferido.

Abaixo havia o símbolo dos Selwyn, um escudo de prata com uma serpente se aninhando em volta dele.

Vincent leu e releu a carta algumas vezes, e a coruja olhava fixamente para ele, como se estivesse esperando algum comando.

– Hm, espere um pouco, ainda não decidi seu nome, depois você pode ir caçar. – A coruja, um tanto arrogante e pomposa, ficou olhando alguns segundos para Vincent, antes de voltar a limpar suas penas.

Passaram-se alguns minutos, e então Vince lembrou de um personagem que havia lido em um livro chamado Garrett.

– Está decidido, seu nome a partir de hoje será Garrett. Agora está livre para ir caçar. – A coruja olhou um tanto de lado para ele, e levantou voo, provavelmente iria caçar no bosque que ficava ali perto.

– Vince não vai vir tomar café? – Leander havia surgido como um fantasma no quarto.

– Já vou, já vou. Guarde essa carta para mim. – Leander pegou a carta e a colocou na escrivaninha de Vince.

O café da manhã se seguiu mais silencioso do que de costume, a Sra. Cooper apenas desejou feliz aniversário a Vincent, e comeu em silêncio, algo que era completamente fora de costume, pois ela falava mais do que a própria boca. Durante o dia, Vincent recebeu algumas cartas de seus parentes por parte de pai, alguns presentes, mas nada tão admirável quanto o presente que havia ganhado de seu tio.

Durante o jantar, a situação foi mais caótica ainda do que o almoço, o Sr. Cooper havia chegado do trabalho, e mal havia falado com Vincent, e também não falava com a Sra. Cooper. Era evidente que em breve aquela teria uma nova Sra. Cooper, era apenas uma questão de tempo. Depois do jantar, todos se recolheram para os seus quartos, parecia que a convivência estava se deteriorando cada vez mais. O presente da mãe de Vincent havia chegado, era uma vassoura Nimbus 2000. A coruja havia chegado algumas horas mais tarde, aparentemente com a barriga cheia e com ar ainda mais pomposo do que antes.