Enquanto as férias de Vincent estavam sendo gloriosas em uma mansão do tamanho de toda a cidade onde a família Cooper morava, ou melhor, se escondia. Leander Cooper, o Cooper esquecido, voltava de trem sozinho, em um vagão entulhado de pessoas da sonserina, seus colegas do primeiro ano, os mesmos conversavam animadamente, enquanto Leander ficava emburrado acostado em uma das janelas, com uma carta em suas mãos, a caligrafia estava impecável, indicando quem seria o dono da letra seu irmão mais velho: Vincent Selwyn Cooper. Ele obviamente não usava mais o sobrenome Cooper, mas Leander continuava a chamá-lo assim, para ver se conseguia ter algum laço de proximidade com o irmão, que a muito não conversava.

– Ei, Lee, porque está tão quieto? – Uma menina qualquer do primeiro ano, colega de classe do mesmo, perguntou, parecendo estar um tanto quanto preocupada com ela.

– Não é nada, estou apenas ansioso para chegar a estação – Leander respondeu calmamente, segurando com delicadeza a carta que Vince havia escrito para explicar para Cooper porque não iria passar as férias com ele, e porque não passaria nenhuma mais. Isso dava uma certa aflição no loiro, Vincent era o único que conseguia defendê-lo das loucuras de Cooper, o único a bater de frente com o mesmo. De loucuras em loucuras memórias começavam a passar pela mente do menino, focando em uma criança que ele conhecia muito bem: Astória Greengrass, a mais nova melhor amiga do irmão, e seu nêmesis. Lembrava-se perfeitamente da primeira vez que havia se encontrado com ela.

Era sua primeira aula de feitiços, havia se perdido porque alguma coisa o impedia de ler o mapa que Vince havia dado a ele para que pudesse encontrar o local, as letras pareciam embaralhar-se toda vez que ele as tentava ler... Enfim, havia conseguido encontrar a sala de feitiços com a ajuda de um garoto do sexto ano, que era amigo de Vince, e de bom grado havia o deixado na porta.

– Desculpe o atraso, professor... – Leander falou bastante constrangido ao entrar no âmbito de aula, um local que parecia ser bastante agradável, propicio para estudos. Mas a repreensão veio tão rápido como a sensação de estar em um lugar seguro, um demônio preso no corpo de um belo anjo fez um comentário que havia ferido gravemente o ego do pobre loiro.

– Como se já não bastasse ser um Cooper, um sem nome, ainda é um retardatário... – Ela estava junto de um menino e uma menina, que riram discretamente ao ouvir o comentário.

– O senhor é o senhor... – O professor Flitwick perguntou, surpreendendo Leander, pelo tamanho pouco avantajado do docente.

– Cooper, professor. Leander Cooper. – O professor olhou Leander de cima a baixo, provavelmente já tinha ouvido falar muito naquele nome, Nathan Cooper, o pai do loiro provavelmente fora estudante do professor, mas para o desagrado de Leander, ele lembrou do nome de seu irmão.

– Ah sim... Vincent, Vincent, mas é claro! Seu irmão é um dos mais prodigiosos alunos da época dele... Mas bem, sente-se, vamos começar a aula. – O professor disse calmamente, lembrando-se de que ele deveria dizer ao garoto que ele precisava se juntar a um grupo. – Leander, meu caro. Vamos fazer algumas atividades, e você precisa se juntar a algum grupo, todos os grupos estão cheios, menos o daquela senhorita... – O professor apontou para uma menina, e então Leander desejou com todas as forças que não fosse a menina que havia falado aquela barbárie, mas o destino não era favorável ao jovem Cooper, era exatamente ela, a Loirinha de coração sujo.

– Tudo bem... – Leander respondeu cabisbaixo, indo sentar-se próximo a menina, que logo ele ficou sabendo se tratar de Astória Greengrass.

Ele foi tirado de seus pensamentos por um de seus colegas, afinal haviam chegado à estação e então precisavam descer, ele não havia levado muita bagagem de ida, portanto não tinha muita bagagem na volta, apenas um malão que ele podia carregar facilmente, despediu-se dos colegas, e então encontrou Cooper e sua esposa o esperando.

– Onde está Vince? – Foi a primeira coisa que Cooper perguntou ao ver que Leander estava sozinho.

– Ele... Ele não quis vir de férias com a gente... Ele quis ir com uma amiga... Ele deixou uma carta... – Leander desviou o olhar de fúria devastadora que Cooper estava lançando contra ele, ao desviar o olhar, viu a jovem demônio, Astória Greengrass, com a família loura e perfeita, uma das mãos de Vince estavam caídas sobre o ombro dela, parecendo que era o seu irmão mais velho.

– Onde está a carta, criatura oxigenada? – Cooper falou friamente, enquanto encarava o mancebo. – É isso na sua mão? É isso na sua mão? – Cooper tomou com força a carta que estava nas mãos de Leander, deixando uma pequena mancha vermelha, em seguida guardou a carta no bolso das vestes, não sem antes ler o remetente: "Sr. Cooper". – Nem de pai o ingrato me chama mais... – Falou entredentes, enquanto puxava a esposa por uma das mãos, e então mais uma vez agrediu Leander, batendo em sua cabeça para fazê-lo andar.

A família seguiu em silêncio em direção ao estacionamento, onde o carro do Cooper estava, Leander havia seguido o caminho todo cabisbaixo e silencioso, a nova Sra. Cooper havia até tentado puxar algum assunto com ele, mas fora sumariamente ignorada. Leander estava lembrando-se da cena com Vincent e Astória, e isso lhe trazia outra lembrança.

Estavam ainda na primeira aula de feitiços... Astória havia realizado perfeitamente o primeiro feitiço que o professor havia passado, era um feitiço bastante simples, chamado Flipendo, bastava agitar a varinha para o lado direito... Mas qual era mesmo o lado direito? Leander se perguntava em pensamento. E por causa disso havia falhado miseravelmente... havia feito uma espécie de fumaça, que havia se transformado em uma gosma gelatinosa que havia grudado firmemente em uma das mesas.

– Acidentes acontecem, Leander... Mas eu definitivamente não sei o que aconteceu aqui... – O professor comentou um tanto quanto surpreso, olhando àquela gosma que havia sido formada na mesa.

– Eu sei o que aconteceu, professor. – Astória se pronunciou calmamente, enquanto olhava para a gosma, que agora aparentava corroer a mesa. – Ele não sabe a diferença de esquerda e direita, ele virou a varinha para a esquerda e então deu essa coisa. – Astória disse com desdém, enquanto olhava para o garoto louro a sua frente.

– É um erro comum, senhorita, um erro comum... Não vamos julgá-lo, agora, vocês estão dispensados, eu darei um jeito nessa mesa. – Os alunos estão saíram calmamente da sala, Leander ao sair do local saiu correndo sem rumo, enquanto ouvia comentários maldosos de Astória e seus dois amigos, ele procuraria Vince para conversar... Mas sabia que Vince não estava disponível para ele.

O tranco de uma das curvas que faziam parte do caminho para a casa dos Cooper despertou Leander de seus devaneios, ainda estavam um pouco do longe do local, por ele nunca mais retornariam ali... Mas se fazia necessário, nós não escolhemos nossa família... Cooper fez outra curva bastante violenta, fazendo com que Leander batesse a cabeça na janela do carro, a partir daquele momento, ele se deitou no carro, voltando para mais uma de suas lembranças com a menina Greengrass, que neste exato momento poderia estar se divertindo com Vince, contando inúmeras histórias e se divertindo.

Leander agora estava sentado em um dos caminhos do Lago Negro, quando Astória passou ao seu lado, por algum milagre estava sozinha daquela vez, e então a sua frente.

– Leander, Leander Cooper, irmão de Vincent Selwyn. – Astória falou as ultimas duas palavras com uma certa ponta de adoração. – Leander, o que aconteceu? Por que você não puxou ao sangue? – As palavras de Astória cortavam como navalhas a pele de Leander, que não reagia às palavras. – Enfim, vamos conversar... – Astória comentou, sentando-se ao lado de Leander, ele podia sentir com todas as forças que Astória não prestava.

– O que você quer de mim, Astória? – Leander comentou, cabisbaixo, enquanto fingia olhar para um pedaço de papel que estava no chão. – Eu não falo muito com o Vince, se é isso que você quer saber.

– Eu quero que você fique mais próximo a mim, ora, você é do meu grupo na sala de feitiços, precisamos ser coleguinhas. – A jovem loura disse com um sorriso bastante animado em seu rosto. – Mas vocês são irmãos, ou meio irmãos, não é? Como não se falam? – Neste momento Leander conseguiu perceber que ela estava interessada em algo mais oculto do que simplesmente em entender os conflitos emocionais do jovem louro.

– Tudo bem... Acho que podemos ser amigos a final de contas... – Leander respondeu, enquanto ouvia os questionamentos da garota, aquilo o fragilizava não eram palavras maldosas, selecionadas para machucá-lo, eram questionamentos comuns, que não deveriam acontecer para dois irmãos. – Ele não tem muito tempo para mim, sabe? Não que fôssemos muito próximos, mas ele agora que está em Hogwarts não tem mais tempo para mim, é isso...

– Podemos sim... – Astória sorriu ao ouvir aquilo. Leander não era como Vince, não conseguia ter o coração pesado que ele tinha, não conseguia guardar mágoas profundas de alguém, achava que todos os seres viventes mereciam ter uma outra chance. – Eu entendo... Não deve ser muito fácil, mas Dafne, minha irmã mais velha, eu e ela temos uma relação bastante saudável, entende? Ela me ajuda bastante, se ela falar com Vince, vou pedir para que ela dê umas dicas de como ser um bom irmão... – Astória disse com seu típico sorriso infantil e bastante desenhado em seu rosto.

Neste momento o carro deu outra virada violenta, fazendo com que Leander fosse despertado de suas recordações, a voz fria de Cooper também colaborou para isso.

– Acorde, já chegamos. – Leander levantou do banco, indo em direção ao porta-malas, e pegando o seu único malão, lhe dava uma tristeza grandiosa olhar para aquela casa, lhe trazia uma enorme sensação de tristeza, principalmente porque estava sem seu guardião.

– Muito bem... Algumas coisas vão mudar nesta casa, Leander... – Cooper disse fuzilando o garoto com os olhos. – Como o seu irmão resolveu nos abandonar por sabe-se lá quem... Sua madrasta está grávida, e eu contava com a presença dele para ajudar nas coisas... – Cooper caminhou algumas vezes pensativo. – Você irá cuidar de tudo, da sua madrasta e tudo mais o que há de ser feito, entendido? Claro que sim. – Cooper falou rapidamente, enquanto caminhava com a carta de Vince nas mãos. – Acho que podemos ler a carta do ingrato.

– Não o chame assim. – Leander protestou, ganhando uma espécie de beliscão de Cooper em seu braço esquerdo, calando-se imediatamente.

– Ah, você é um tonto mesmo, não sei por que o defende tanto assim... – Cooper começou seu ataque depressivo. – Ele o abandona sempre que pode, não tem um pingo de consideração por você, é um arrogante, um estúpido, uma pessoa que tem o queixo tão alto que quando cair irá quebrar-se todo, e não haverá um só para consolá-lo. – Neste instante Leander não aguentou, deu um grito estrondoso, mandando Cooper parar de falar mal de seu irmão mais velho. – Tsc, você não é muito melhor do que ele, a diferença é que ele sabe o que quer da vida, já você vai passar a vida toda na sola do sapato de pessoas mais inteligentes... Agora vamos ler o que este engraçadinho escreveu.

Embora na parte de fora da carta ela estivesse endereçada ao Sr. Cooper, o conteúdo da mesma começava de forma diferente, com a perfeita caligrafia de Vincent.

Leander e Família,

Embora não tenha certeza de que todos estão dispostos a ouvir minhas histórias do ano letivo, mas vou contá-las mesmo assim... Neste ano como sempre tirei boas notas, as melhores da sala, todos os professores estão bastante satisfeitos comigo. Conheci várias pessoas novas, fiz uma grande nova amizade, da família Greengrass, Astória, é da mesma turma que Leander. Agora chegamos ao ponto essencial de minha correspondência... Astória e sua família me convidaram para passar as férias com eles, e como eu achei que a experiência poderia ser muito produtiva, eu acetei o convite. Espero que não se sintam incomodados com isso, faço meus melhores desejos a vocês, atenciosamente:

Vincent Selwyn.

Ps.: Os professores me contaram que Leander anda com certa dificuldade em basicamente todas as matérias, peço encarecidamente, que o Sr. Cooper o ajude nessas férias, fazendo uma espécie de reforço, eu mesmo o faria, mas como não estou disponível, não será possível.

– Quer dizer então, que ele nos trocou por uma outra família mais rica? E ainda tem a cara de pau de escrever: "Faço meus melhores desejos a vocês", seu irmão é um verdadeiro louco, talvez se eu tivesse sido mais pulso firme com ele, ele não estaria assim. – Cooper comentou entredentes, a sua esposa já havia saído do recinto, sabia que ele estava prestes a explodir. – E que história é essa de você estar mal em todas as matérias? – Cooper aproximou-se de Leander, colocando a mão em seu ombro. – E por que eu tenho que saber disso pelo seu irmão? Por que você não me escreveu? Mas você é tão sem noção, que você busca o seu irmão, que nunca prestou atenção em você, em vez de procurar sua verdadeira família.

– Cala a boca, cala a boca. Vou para o meu quarto, e você que cuide dessa sua esposa buchuda. – No instante em que Leander proferiu essas palavras, Cooper aproximou-se do mesmo, e lhe deu um forte tapa em seu rosto, fazendo com que o garoto perdesse as forças e caísse no chão.

– Insolente insignificante, você é um lixo Leander Cooper, não serve para nada, nunca serviu e nem nunca vai servir, acha que pode falar assim com alguém? Pff, você provoca pena na menor das criaturas, é um ser minúsculo, que nunca vai sair desse estado de existência inferior, vai passar o resto da vida correndo e sendo esnobado por seu irmão. Agora pode subir... Amanhã acordará as 6h, para cuidar de minha esposa. – O rosto de Leander estava salpicado de lágrimas, e um grande contorno vermelho era visto onde Cooper havia dado o tapa, Leander levantou do chão e correu em direção ao quarto, deitando-se na cama que pertencia a Vince. As palavras de Cooper doíam na mente do menino, que chorava compulsoriamente na cama, como dizia o ditado: "desgraça pouca é bobagem", uma das ultimas conversas que havia tido com Astória estavam surgindo em sua mente.

Ele estava em uma das ultimas aulas de feitiço do ano, os grupos estavam separados para realizarem alguns feitiços, todos do grupo de Astória haviam conseguido realizar perfeitamente o feitiço... Exceto Leander, que ainda patinava para usar com precisão o mais simples feitiço. Então em um rápido movimento bastante errado, Leander conjurou um feitiço que atingiu Astória em cheio, jogando-a alguns metros para trás, e fazendo com que o uniforme dela adquirisse uma coloração completamente estranha.

– Ast, me desculpe... – Leander tentava falar em vão, a fúria era evidente no rosto da menina, que se aproximava com dificuldade para perto do mesmo.

– Você é um lixo... – Ela havia começado sua seção de xingamentos, estava furiosa. – Você não tem jeito, é imprestável, é um animal, não possui gracejo, não consegue nem virar a varinha para o lado certo... – Astória fez uma pequena pausa para respirar. – Você deve ter algum problema mental, oriundo daquela sua família podre, uma família sem nome, com outra sem nome, não poderia dar outra coisa a não ser isso! – Astória novamente parou para respirar, os outros que estavam em volta ficavam estupefatos ao ouvir as coisas bárbaras que aquela doce menina estava pronunciando. – Você fica no pé do seu irmão mais velho, achando que poderia ficar como ele, pessoas daquele tipo nascem assim, não se formam... – E então aproximou-se dele, puxando-o pelo colarinho. – Eu sei o que você quer dele... E não vai ter. – Ao terminar de falar, Astória soltou o colarinho do garoto, saindo correndo da sala, embora Leander tivesse ouvido claramente o que Astória havia dito, não conseguira compreender.

Logo depois disso, Leander saiu novamente dos pensamentos, e por fim dormiu, deixando a cama toda ensopada de suas lágrimas de tristeza.