Numa casa como outra qualquer, na Rua dos Alfeneiro nº 4, uma única luz se encontra acesa no andar superior, no quarto de um jovem garoto que no auge de seus dezesseis anos, quase dezessete, observava uma velha foto que lhe fora dada a alguns anos pelo ultimo membro de sua 'familia' que veio a conhecer. Nesta foto estavam todos os membros da antiga Ordem da Fênix. E Harry observava aquilo com pesar, passando os olhos em cada um daqueles rostos. James Potter, Lilian Potter, Sirius Black, Alvo Dumbledore, Frank e Alice Longbottom. Todos tiveram seus destinos marcados e levados ao limbo por Voldemort, e por algum motivo Harry se sentia culpado por tudo aquilo. Afinal ele era o 'escolhido', era apenas trabalho dele cuidar de tudo aquilo.

Em um canto do quarto era possível se ver alguns exemplares do Profeta Diario, que indagavam o fato de diversos notáveis desaparecendo diariamente, incluindo nomes bem conhecidos pelo jovem Potter. E cabia a ele, apenas a ele e a ninguém mais dar um fim naquela guerra, queria o fazer sozinho, sem envolver ninguém. Mas era tarde demais, o mundo já estava envolvido demais naquela historia para que ele agora tivesse mais uma crise de egoísmo e fugisse sem dar explicações. Tinha de esperar a Ordem mandar que o viessem salvar para depois disso definirem os planos de contra-ataque.

E ainda, jogado sobre uma mesa, próximo a janela e à gaiola, vazia, de Edwiges. Estava um medalhão falso, aberto e com o bilhete já conhecido por todos assinado por "R.A.B". Esta era outra preocupação que não saía da cabeça do garoto, quem seria este R.A.B, como ele tinha feito algo, aonde estava a verdadeira Horcrux e aonde estariam todas as outras cinco que ainda deveria buscar uma a uma para enfim poder desafiar de uma vez por todas aquele homem que o transformara numa lenda que ele jamais desejou ser.

Alguns golpes foram ouvidos contra a janela fechada, Harry olhou assustado para a escuridão da noite, passava os dias com o temor de a casa ser atacada por Comensais e a espera de a Ordem vir resgata-lo... Mas o temor ainda superava a ansiedade. Seus tios nunca foram bons para ele, nunca o trataram como uma pessoa ou o respeitaram, porém mesmo assim Harry tinha medo de que fossem mortos por comensais. Afinal, por piores que fossem não mereciam um destino tão cruel... Dessa vez o barulho era apenas Edwiges voltando de uma breve caça noturna para a qual o garoto sempre a liberava... Talvez isso fosse imprudente, mas era uma coruja, e como tal não deveria ficar presa todo o tempo.

Abriu a janela para que o pássaro retornasse, mas não foi apenas esta que entrou. Foi seguida por um envelope numa velocidade exorbitante. Harry se questionou por um breve instante o que aconteceria se não abrisse a janela, provavelmente ela seria quebrada. Mas não importava isso agora. O envelope trazia escrito os nomes "Gui Weasley & Fleur Delacour" e diversos corações e outras firulas comuns a convites de casamento. Aqui o garoto se lembrou do casamento que fora marcado para o dia seguinte de seu aniversário, apenas por sua presença ser considerada essencial por todos. Um breve sorriso surgiu em seu rosto ao perceber que todos estariam bem e o casamento realmente aconteceria.

O abrir da correspondência trouxe novos fatos para Harry, o convite tinha escrito data, local e tudo mais que um convite normal de casamento poderia apresentar. Mas uma sensação estranha abraçou Harry. Seus olhos começaram a ficar foscos por um breve momento e uma mensagem começou a ser ouvida em sua mente. Não era clara, mas parecia lhe dizer que ele sabia o que deveria realmente ler, e aonde deveria estar e quando. No momento seguinte tudo voltou ao normal e Harry olhou novamente para o cartão, agora sacando sua varinha e o tocando brevemente.

"Harry,

Ao certo não sabemos se esta é a forma mais segura de informarmos algo, de forma que nada informaremos ainda. Apenas acredito que é importante que saiba que todos estão bem, e que tão logo seja possível você será resgatado, se mantenha preparado.

Remo Lupin."

Sem dizer nada aquela mensagem ainda dizia muitas coisas. O malão de Harry nunca fora desmontado naquelas férias, sabia que a paz nela duraria pouco ou não duraria nada, então era melhor não desfazer nada e deixar sua ida embora pronta para qualquer momento que necessário. Passou as ultimas duas semanas tentando convencer seus tios e primo a saírem da cidade... Mas por algum motivo estranho estes acharam que ele queria tomar a casa ou algo assim e decidiram que não sairiam.

O sono começou aos poucos a vencer a força de vontade de Harry, mas algo o mandava passar aquela noite acordado... Ele podia sentir que algo importante estava para acontecer, mas não fazia ideia exatamente do que era. A noite era estranhamente fria para aquela época do ano, e ao olhar pela janela, agora aberta Harry pôde avistar uma imagem no horizonte, trajando uma veste negra um homem caminhava desde a esquina, com calma.

Do lado oposto da rua, outra figura também caminhava, esta em roupas prateadas, cabelos grisalhos e um sorriso sinistro. Harry ficou observando aquela movimentação, era estranha, visto que a rua normalmente estava vazia a esta hora da noite, e nunca havia visto aquelas duas figuras anteriormente. Passo a passo as imagens se cruzaram exatamente em frente a janela de Harry. E como se uma não tomasse conhecimento da outra seguiram seus caminhos. Após alcançarem os muros laterais da casa ambos pararam. Algo que se parecia com varinhas foram sacados ali.

As varinhas foram apontadas para a casa, e algo foi murmurado. Harry pôde ver uma luz branca percorrer os muros da casa, e sentiu no momento seguinte seu coração disparar, estava sob ataque, tinha de ser um ataque. Não fazia sentido algum tudo aquilo assim do nada logo após a carta de Lupin. O homem nas vestes prateadas apontou a varinha para Harry, que sentiu uma voz em sua mente lhe dizer algo.

- Potter. Meu nome é James Desh – a voz inspirava confiança e poder – sou um Auror a mando do Ministério. O ministro foi sequestrado e esta desaparecido, e deixou ordens de que você fosse prioridade em caso de problemas. Nenhum ser mágico, bruxo ou qualquer outro poderá atravessar a barreira que aqui criamos sem que o ministério seja avisado. Tente você não se meter em problemas, nos manteremos por perto.

E dizendo isso ambos desapareceram da vista de Harry que fechando a janela sentou-se na sua cama pensando sobre o que acabara de ouvir... O ministro havia desaparecido? O que isso poderia querer dizer? E como assim ele deveria ser tratado como prioridade? Deitou na cama pensando em tudo isso e acabou por adormecer. Seus sonhos como sempre já não faziam muito sentido a algum tempo, não havia muito a ser analisado por aqui até este momento.

O amanhecer porém, foi novamente estranho, um exemplar do Profeta Diario foi deixado sobre sua mesa, não sabia exatamente como. E na capa a manchete principal deixou o garoto em choque. Os corpos de seis bruxos que ele já conhecia a bastante tempo, inclusive daqueles que foram seus professores até o ano anterior, estampavam a capa do Profeta. E em letras garrafais estava escrito "Aonde esta seu Potter agora?". Uma lágrima escapou pelo canto do olho do garoto, mas se perdeu ao observar a noticia abaixo, que era mais amedrontadora ainda.

"Lucius Malfoy é condecorado Ministro Interino"

Agora era mais do que oficial, o ministério da magia estava nas mãos de Voldemort, e Harry não estava mais seguro em lugar nenhum. A guerra agora seria travada no território deles, contra as armas deles. O mundo bruxo se dividiria de uma vez por todas. E era hora de Harry sair da casa dos seus tios e se entregar para a batalha, visto que agora não mais poderia sair dali sem ser visto facilmente. Desceu as escadas apressadamente e notou a casa estranhamente bagunçada, seus tios já não estavam mais por lá. Muitas coisas pareciam ter sido levadas com pressa.

Entrou na cozinha, já com a varinha em mãos e olhou a sua volta. Apenas um vulto pôde ser avistado se movendo, não tivera tempo para tentar reconhecer do que se tratava antes de lançar um feitiço para petrificar seja lá o que estivesse lá. Ouviu um baque caindo no chão e ao olhar reconheceu do que se tratava... Um Elfo Doméstico, mas não era qualquer elfo, era Dobby. Harry se desculpando e liberando o Elfo do feitiço o observou por alguns momentos.

- O que esta fazendo aqui Dobby?

- Dobby veio resgatar Harry Potter antes que eles cheguem.

- Alguém sabe que esta aqui?

- Não, mas Dobby sabe para onde deve levar Harry Potter.

Por algum motivo que o garoto desconhecia, ele tinha a certeza que aquela era a criatura mais confiável que poderia ter aparecido na sua sala naquele presente momento. Harry em um movimento de varinha trouxe seu malão para próximo de si. Ainda não tinha idade para usar magias fora da escola. Mas do que isso importava agora? A guerra com o ministério já era necessária de qualquer forma.

- Vamos aparatar Dobby?

E tocando o braço do Elfo com o malão em mãos Harry se sentiu sendo tragado para dentro de um estranho vortex, e seu corpo ser carregado para algum novo local até agora desconhecido. Era agora a hora de se preparar para o primeiro dia do resto de sua vida... Até tinha esquecido já que era o dia de seu aniversario... Por um ultimo instante fechou seus olhos, e em seu pensamento disse adeus a velha casa onde morou tanto tempo e que esperava não voltar a pisar.