Capítulo II

Abri os olhos com a leve impressão de que eu havia cochilado durante toda a viagem. A música do meu iPod continuava tocando, e dessa vez parecia mais alta, fazendo a minha cabeça dar algumas leves pontadas de dor. Senti um pouco de dificuldade em olhar para fora da janela do carro, a minha visão se acostumando aos poucos com a luz forte que refletia bem no meu rosto.

Assim que consegui olhar com mais nitidez, percebi que já havíamos chegado. Ao fundo, eu ouvia o barulho relaxante das ondas do mar e pela janela do carro eu podia ver uma casa grande e muito bonita por sinal, cercada por uma cerca grande bem pintada e com um portão de ferro na frente, dando acesso ao lindo jardim da casa. Por um momento, quase me esqueci do porque eu não queria viajar, já que iríamos ficar num lugar tão bonito. Foi quando ouvi um barulho alto vindo de trás, como uma batida, me fazendo acordar dos meus pensamentos.

Carrie estava tirando as malas do porta malas, e bateu a porta com toda a força que teve de propósito, pelo menos foi o que percebi pelo sorriso maldoso que deu para mim assim que me virei para olhar o que estava acontecendo.

- Finalmente, olha só quem acordou! – Carrie disse, soltando uma risada baixa enquanto pegava as malas do chão. – É melhor você entrar, a mamãe não tá nada feliz com você, não fique enrolando aqui fora.

Revirei os olhos com a tentativa de bronca de Carrie e abri a porta do carro, rapidamente dando um pulo pra fora do mesmo. Assim que desci, percebi que um grande peso parecia ter sido retirado do meu colo. Quando olhei confuso pra frente, vi uma bola de pêlos grande e dourada correndo na calçada, em direção à casa vizinha.

- Merda.

Saí correndo atrás de Marvin, mas eu já sabia que ele seria rápido demais para eu conseguir alcançá-lo. Logo ele pulou a cerca do vizinho e continuou correndo em direção a uma casa que era quase tão grande quanto a nossa. Eu olhava Marvin se distanciando mais e mais de mim à medida que eu tentava "pular" a cerca, passando uma perna de cada vez por cima da mesma.

- Marvin! MARVIN! – Gritei ao mesmo tempo em que voltava a correr na direção dele, que dessa vez ia pros fundos da casa, onde de longe eu conseguia perceber uma piscina. Cada vez mais eu ia perdendo o fôlego, e não conseguia gritar com a mesma intensidade. – Marvin, para!

- O que isso tá fazendo aqui? – Ouvi uma voz rouca, com um sotaque de Boston facilmente reconhecível, assim que alcançava os fundos da casa, e por um momento dei graças a Deus que alguém devia ter parado ele. – Mãe, desde quando a gente tem um gato?

Enquanto parava de correr, vi não muito longe de mim um garoto ruivo, de cabelo curto encaracolado e levemente penteado pra cima, com sardinhas espalhadas no seu rosto, e desde seus ombros até as mãos. Seus braços pareciam razoavelmente fortes, ainda mais à mostra devido à regata branca que usava, revelando algumas tatuagens pelos seus braços.

Parei um momento de correr e me curvei, apoiando as minhas mãos nos joelhos enquanto eu tentava recuperar o fôlego. Ele me olhava com certa desconfiança, segurando Marvin em seus braços sardentos, provavelmente tentando imaginar como e porque eu havia invadido a sua casa.

- Valeu por pegar o meu gato, ele fugiu de mim enquanto eu saía do carro. – Me recompus e me ergui novamente, estendendo as mãos na direção dele enquanto me aproximava. – Eu tive que pular a sua cerca e vir atrás dele, mas ainda bem que você o segurou.

- Aham. – Ele deu de ombros, rapidamente passando Marvin pros meus braços e limpando as suas mãos na regata, como se tivesse tocado lixo tóxico ou coisa parecida. – Só não deixe isso acontecer de novo. Você sabe por onde é a saída.

Olhei meio confuso enquanto ele se afastava de mim e abria a porta de vidro da casa, entrando no que parecia ser a cozinha. Eu quase não acreditava que alguém que eu havia acabado de conhecer havia sido tão grosso comigo. O que me restava era apenas pegar Marvin e ir embora, já que claramente eu não faria muitos amigos por aqui.

Abri o portão de metal da casa e saí em direção a rua, me deparando com a minha mãe tirando mais algumas malas do carro. Dessa vez segurei Marvin mais forte em meus braços e me aproximei da minha mãe, ainda tentando achar uma explicação que me ajudasse a entender porque eu havia sido tratado tão mal.

- Mãe, quem é a família aí do lado?

- Os Jones? Ah, sim. – Minha mãe pareceu dar um longo sorriso de satisfação, largando as malas no chão. – Kathy é uma pessoa maravilhosa, uma pena que teve problemas com o seu marido e a deixou sozinha com o seu filho. Você não se lembra deles? Você e Daniel sempre costumavam brincar quando nós viajávamos pra cá, mas parecia que vocês não se davam muito bem.

- Daniel? Quem é Daniel?

- Daniel Jones, o filho de Kathy. Ou Danny, como nós sempre chamávamos ele. Ele era uma graça, cabelos encaracolados, ruivo, cheio de sardinhas! Mas você sempre saía chorando quando brincava com ele.

Assenti lentamente enquanto tentava juntar as ideias. Será que ele nunca gostou de mim, e foi por isso que havia me tratado mal? Ou será que eu havia sido apenas um intruso na casa dele e ele se assustou, e a essa altura a polícia já estava a caminho para me prender?

- Vamos entrar Thomas, você deve estar morrendo de fome. Vou fazer comida para você e para a Carrie.

Concordei com a minha mãe, logo atravessando o portão já aberto da casa e soltando Marvin na porta da casa. Eu estava mesmo com fome, e esse tal de Daniel poderia esperar mais um pouco para ouvir umas poucas e boas de mim.