20 de Julho de 1999
Hermione tremia e chorava. Era como se o chão tivesse escapado debaixo dos seus pés, como se o seu mundo tivesse desabado. Num segundo, toda a sua vida como conhecia, tinha sido quebrada em pequenos pedaços, e nunca mais voltaria a ser a mesma. Não sabia mais quem era, ou qual o sentido da sua vida. Tudo o que ela fora ao longo da sua vida não batia mais certo, não fazia agora o menor sentido. Foram enganada toda a sua vida, fora tudo uma farsa.
As lágrimas misturavam se com a chuva que caia, e ela continuava ali, sem reacção, sentada no passeio em frente à sua casa, sem conseguir fazer mais nada do que chorar silenciosamente. Pela primeira vez na sua vida, não sabia o que fazer em seguida. Só se recordava de se ter sentido tão perdida quando Ron os abandonara na caça aos horcuxes, e mesmo ai não tinha sido tão difícil.
- Hermione! Há tanto tempo! Como tens andado? Sai da chuva rapariga! – Um rapaz alto e loiro, dirigiu-se a ela animadamente, com um guarda-chuva na mão. – Hermione! O que se passa contigo? – continuou, agora preocupado, quando chegou mais perto e viu o estado em que ela estava.
- Olá Steve – respondeu ela, entre lágrimas – Não, não está tudo bem. Aliás, não podia estar pior.- e rompeu a chorar desesperadamente.
- Aconteceu alguma coisa? Foram os teus pais? Eu realmente não os vejo há mais de um ano, o Sr. Jones do café disse-me que vocês se tinham mudado…..Hermione, não chores…anda, anda comigo, vem para minha casa, vais ficar doente se continuares aqui.
Sem reacção ou vontade de reagir, Hermione deixou-se levar pelo vizinho.
Uma hora mais tarde, com roupa seca e uma chávena de chá bem quente nas mãos, Hermione continuava a tremer, mas estava mais calma. Steve entrou na sala e aproximou-se dela.
- Olha, não sei o que se passou – disse – mas fiquei tão preocupado que fui tentar saber. E trouxe comigo alguém que quer falar contigo. Qualquer coisa que precises, eu estou no meu quarto.
Dito isto, saiu da sala, e ao mesmo tempo uma mulher de cabelos castanhos entrou, com lágrimas nos olhos, e apressou-se a abraçar Hermione.
- Minha querida – disse, a chorar – Queria tanto que as coisas não tivessem acontecido assim. Queria tanto que não tivesses sabido desta forma.
- É mesmo verdade mãe? – Hermione começou de novo a chorar. – Desejei tanto que o pai apenas tivesse dito isto tudo no calor do momento. Porque nunca me contaram?
- É verdade minha querida. Apesar de o teu pai estar realmente influenciado pelo momento, o que ele disse é verdade – disse Helen, dolorosamente – Todos estes anos te quisemos contar. Antes de Hogwarts eras demasiado pequena para entender e depois…..depois arranjámos todas as desculpas para o adiar…. na verdade já estavas tanto tempo longe de nós, a construir uma vida sem nós num mundo tão à parte, que tivemos terror que a verdade te afastasse de nós de uma vez por todas.
- Mas ele disse que não me quer mãe….ele disse que nunca fui filha dele e nunca vou ser!- soluçou Hermione.
- Por favor, não te zangues com o teu pai. Ele ama-te muito, só precisa de um tempo para digerir tudo o que aconteceu, tudo isto do feitiço de memória..ele tem se sentido tão manipulado desde que descobriu, que acabou por explodir, disse tudo sem pensar. E tu vais ser sempre nossa filha, nós criámos-te por isso és e sempre serás nossa filha no nosso coração.
- Como vou voltar para casa mãe? O pai não me quer lá. – Hermione limpou as lágrimas, mais uma vez.
- Eu falei com o Steve enquanto vínhamos para aqui. Ele não se importa que fiques com ele uns dias, e eu vou-te dar todo o dinheiro que tenho guardado, para que possas viver até a escola começar de novo, ou até arranjares um emprego. Até lá, vais ver que o teu pai vai reconsiderar. Ele ama-te muito Hermione, só precisa de se acalmar. – A mãe abraçou-a com força mais uma vez, e pegou na mala de viagem que tinha trazido com ela – Toma minha querida, tens aqui algumas roupas que trouxe à pressa. Tens aqui também, nesta caixinha, a única coisa que trazias contigo no dia que te deixaram à nossa porta. Já ta devia ter dado há muito tempo. Perdoa-me minha querida.
Hermione pegou lentamente na caixa. O que quer que lá estivesse dentro, ia marcar o inicio da descoberta de quem ela realmente era. Dali não havia retorno. Depois de abrir aquela caixa, toda a verdade de ter sido deixada à porta dos seus pais quando era apenas um recém-nascido se tornaria a realidade da sua vida, e comandaria toda a sua existência a partir dai.
Retirou a tampa. Lá dentro, encontrava-se uma pulseira de bébé. E enfiada nela, estava um pendente: Uma linda rosa, esculpida em ouro.
