Capítulo 2
Izayoi Taisho colhia verduras na horta que ela mesma havia plantado e da qual cuidava pessoalmente, quando viu uma figura pelo canto do olho.
— InuYasha! — exclamou, levantando a cabeça e vendo seu filho mais novo andando em sua direção. — Você me assustou. Só esperava você amanhã.
Tradicionalmente, o primeiro domingo de cada mês era o dia da reunião da família Taisho. Seu filho mais jovem sempre ia almoçar com os pais, outros parentes e agregados.
— Mamãe.
Ele abriu os braços e a abraçou com o seu um metro e noventa de altura e ombros largos, encobrindo totalmente o corpo pequeno da mãe.
— Você já almoçou? — perguntou, após o filho a deixar respirar. InuYasha vivia a abraçando, era muito carinhoso, como todos os Taisho. Izayoi era de uma família mais reservada. Por isso, achara o pai de seu filho tão atraente. Ele nem ligou para a timidez da mulher e a levou para a cama antes que ela pudesse dizer não. Casaram-se poucas semanas depois, com seu primeiro filho já a caminho.
— Não, mas não estou com fome — respondeu o filho de forma surpreendente.
Izayoi franziu a testa. Sem fome? Seu InuYasha... Ele era capaz de comer um cavalo mesmo à morte! Alguma coisa não estava certa ali.
— O que é que você tem, InuYasha? — perguntou, com seus olhos e voz de mãe preocupados.
— Não tenho nada, mamãe. Verdade. Tomei café muito tarde e comi muito. É só isso. Onde está o papai?
— Foi às corridas. Não às de cavalos. Ele foi as corridas de cães lá em Appin. Tio Koruni tem uns cães que vão correr hoje.
— Papai deveria comprar um ou dois cachorros para ele. Caminhar com eles seria bom para saúde. Livrar-se daquele pneu na cintura. Acho que ele anda comendo muito da sua massa.
— Está dizendo que o papa está gordo? — protestou Izayoi.
— Gordo exatamente, não. Bem alimentado.
Izayoi desconfiou de que InuYasha estivesse mudando deliberadamente de assunto. Conhecia seus filhos muito bem, mas conhecia InuYasha ainda melhor do que os outros. Ele nascera quando ela pensava que não teria mais filhotesJá eram oito filhos, um a cada ano, três meninos seguidos de cinco meninas. Depois de dar à luz a Megume, o médico lhe dissera para não ter mais filhos, pois seu corpo estava exausto. Então, com o consentimento do sensível padre de sua paróquia, passou a tomar anticoncepcionais e durante nove anos não teve a preocupação de engravidar.
A pílula não era perfeita e outra criança foi concebida. Mesmo preocupada, um aborto jamais foi considerado e felizmente Izayoi foi abençoada com uma gravidez sem problemas e um parto tranquilo. O fato de InuYasha ser um menino, depois de uma fila de cinco meninas, representou um bónus adicional.
Naturalmente, foi muito mimado por todos eles, especialmente pelas irmãs. Mesmo assim, apesar dos ataques que dava quando não conseguia o que queria, fora uma criança amável e se tornou um homem encantador. Todos da família o adoravam. Izayoi, apesar de não admitir abertamente, tinha um carinho especial por InuYasha, talvez por ser ele o caçula. Com a diferença de dez anos entre InuYasha e sua irmã mais nova, a mãe pôde dedicar bastante tempo ao último bebê. Ele a seguia por toda parte como um cachorrinho. Mãe e filho eram muito próximos.
InuYasha jamais conseguia enganá-la. Além da suspeita falta de apetite ela sabia que havia alguma coisa para afastá-lo das corridas numa tarde de sábado. Com sua intuição de mãe, sentiu que só poderia ser mulher. Possivelmente a tal da Kagome, de quem ele tanto falava. A mãe nunca tinha visto a parceira do pôquer de todas as noites de sexta-teira. Ela também era sócia do filho nas corridas. Izayoi notara um tom diferente na voz do filho, sempre que ele a mencionava.
E ele a mencionava demais.
Izayoi gostaria de perguntar sobre ela, mas desconfiava de que uma aproximação direta seria perda de tempo. Com trinta e quatro anos, seu filho mais jovem há muito passara da idade em que confidenciava seus assuntos particulares à mãe. O que era uma pena. Se ele a tivesse consultado antes de se unir a Kikyou, poderia ter evitado muito sofrimento. Kikyou fizera um trabalho bem-feito. Era inteligente e jamais falou nada contra os Taisho até o casamento. Mas depois, foi gradativamente afastando-se das reuniões familiares, dando desculpas cada vez mais esfarrapadas, até não dar mais nenhuma.
Felizmente, ela agora era passado.
Apesar de não concordar com o divórcio, Izayoi era realista. Alguns divórcios eram como tomar a pílula. Uma necessidade. A mãe não queria que InuYasha repetisse o engano, unindo-se a outra mulher inadequada.
— Jogou cartas ontem? — perguntou, enquanto arrancava umas folhas de hortelã da horta.
— Joguei — respondeu o filho, sem maiores esclarecimentos.
— Miroku está bem, não está?
Miroku era o único dos três amigos do pôquer que Izayoi conheceu, apesar de ter convidado o trio para várias festas nos últimos anos. A tal Kagome, como Kikyou, sempre dava desculpas para não comparecer. O outro homem, o árabe, também sempre declinava os convites, mas Izayoi compreendia suas recusas.
— Miroku está muito bem — respondeu o caçula. — Ele e a esposa vão ter um bebê daqui a seis meses, eu acho.
— Que bom para eles — replicou Izayoi, enquanto levantava-se, perguntando a si mesmo se a tristeza de InuYasha não era por causa daquela notícia. Ele sempre desejou ter filhos. A maioria dos homens youkais deseja. Fazia parte da cultura deles ter filhos que carregassem o sobrenome e filhas para paparicar.
Izayoi não tinha a menor dúvida de que InuYasha daria um pai maravilhoso. Ele era sensacional com todos os sobrinhos e sobrinhas. A mãe sentia pena do filho, quando via as crianças sempre em torno do tio InuYasha, nunca ocupado demais para brincar com elas. Deveria estar brincando com seus próprios filhos.
Se ela ao menos pudesse dizer isso.
Repentinamente, Izayoi decidiu que era velha demais para fazer uma aproximação tática indireta.
Quando vai deixar de ser bobo e casar-se novamente, InuYasha?
Ele riu.
— Por favor, não guarde nada, mamãe. Diga tudo o que está sentindo.
— Não pretendo desrespeitar você, InuYasha, mas alguém tem que dizer algo. Você tem trinta e quatro anos e está envelhecendo. Você precisa de uma esposa, uma que fique mais do que feliz por ficar em casa e ter os seus filhos. Um homem bonito como você e de sucesso, não deve ter dificuldade para encontrar uma jovem que lhe sirva. Se quiser, podemos pedir à minha família para procurar uma jovem youkai que seja uma boa moça.
Isso deveria ser o suficiente para motivá-lo a tomar uma atitude! InuYasha podia ter sangue youkai correndo nas veias, mas era muito hanyou em vários aspectos. Chamava sempre os pais de mamãe e papai, enquanto os irmãos e irmãs diziam mama e papa.
Naturalmente, casamentos arranjados eram como uma assombração para o caçula. Ele acreditava em casamento por amor e até certo ponto, Izayoi também.
O olhar de horror do filho foi bem satisfatório.
— Não comece com essa coisa antiga, mamãe. Quando e se eu me casar de novo, vai ser com a mulher de minha escolha. E será por amor.
— Foi o que você disse na primeira vez e veja no que deu!
— Nem toda mulher é igual a Kikyou, espero.
Ainda não consigo entender o que você viu naquela garota.
Ele riu.
— É porque você não é homem.
Izayoi sacudiu a cabeça. Então ele pensava que ela era velha demais para não se lembrar de sexo? Tinha somente setenta e três anos e não cento e três.
— Ela podia ter um rosto bonito e um corpo atraente, mas era vazia e egoísta — disse Izayoi com firmeza. — Você tinha que ser um tolo para não ver isso
— Homens apaixonados são tolos, mamãe — retrucou ele com um certo sarcasmo, imediatamente detectado por Izayoi.
Olhou para InuYasha, mas ele não prestava mais atenção nela. Estava longe, em outro mundo. Ela percebeu que o filho não estava pensando em Kikyou e sim em outra mulher. O coração de mãe ficou apertado quando ela entendeu que o filho, a luz de seus olhos, estava apaixonado por uma nova mulher.
Meu Deus! Implorou. Que não fosse a amiga do jogo de cartas! Apesar de nunca ter visto a moça, havia tirado conclusões sobre seu caráter, pelos muitos comentários de InuYasha. Para começar, era viúva. Uma viúva muito rica, cujo falecido marido era muito mais velho do que ela. Ex-manequim ela era também uma esperta mulher de negócios que dirigia uma agência de modelos na cidade. Para completar, tinha mais de trinta anos e era uma mulher sem filhos. Possivelmente não quis ter. A maioria das mulheres de carreira não queria filhos.
Em outras palavras, certamente não era uma nora para Izayoi Taisho.
— Amanhã eu não venho almoçar, mamãe — disse InuYasha abruptamente. — Tenho que ir a outro lugar.
— Aonde?
— O homem que treina nossos cavalos convidou todos os donos de animais para comemorar a chegada da primavera na casa dele e ficar no estado de espírito apropriado para as corridas da estação.
— Como uma festa — disse sua mãe.
— É. Acho que pode chamar assim. — concordou InuYasha.
InuYasha não pretendia comparecer. Nunca fora a essas reuniões no primeiro domingo do mês quando se dava o encontro mensal da sua família, que era muito mais importante para ele do que socializar-se com ricos e famosos ou ter algum aborrecimento com Kagome.
Mas a manhã seguinte seria diferente. Seria o dia D. O dia do Desespero.
— Entendo — disse sua mãe pensativa. — Miroku vai estar lá?
— Acredito que não. Não está mais tão interessado em cavalos como antes.
— É compreensível, InuYasha. Tem mais agora no que pensar já que a esposa espera um bebê. E o seu amigo árabe? Ele não é casado. Vai estar lá?
— Não. Você sabe que Ali raramente vai a reuniões desse tipo.
Então restava a viúva, Izayoi deduziu. A não ser que o tal treinador de cavalos tivesse uma jóquei loura trabalhando para ele.
InuYasha tinha uma predileção pelas louras, mas as que fossem altas e com curvas, não as magrinhas. O que deixava a pergunta de como seria essa Kagome.
Tinha que ser alta, como ex-modelo e loura, pois o filho estava atraído por ela. Talvez até tivesse seios grandes, como Kikyou. Já se foram os tempos em que as modelos precisavam tê-los achatados.
— E a sua amiga do jogo de cartas? — perguntou Izayoi sem resistir. — A moça Kagome, não é? Ela vai estar lá?
Ele sorriu, mas não um sorriso feliz. Estava mais para um sorriso resignado.
— Ah, sim. Claro que vai estar.
O que deu a Izayoi a resposta que ela procurava. InuYasha estava apaixonado por essa Kagome, mas a moça não lhe correspondia.
Agora Izayoi não sabia mais o que pensar ou sentir. Uma mulher que pudesse resistir a seu InuYasha, a aborrecia. Seu filho era irresistível na sua opinião, mas ao mesmo tempo, a última mulher com quem ela gostaria que ele se envolvesse, seria uma outra criatura como a oportunista da Kikyou.
Talvez fosse até bom que essa Kagome não ligasse para ele, mas francamente, ela devia ser cega e burra. InuYasha era um homem magnífico! Um homem que sobressaía entre os outros. Que espécie imbecil de mulher não o quereria na cama e no coração?
Izayoi colocou os galhos de hortelã que colhia, no bolso do avental e deu o braço para o filho.
— Venha, InuYasha. Tenho outra receita de massa para lhe mostrar. Uma novinha em folha — disse, puxando-o para a porta dos fundos e falando durante todo o caminho. Cobrindo-o com amor e carinho.
InuYasha permitiu-se, o mimo e o consolo. Sabia que na manhã seguinte estaria em guerra novamente. Sua decisão de comparecer à reunião, o fazia ver o quanto estava viciado na companhia da bruxa. Não conseguia passar um único fim de semana sem vê-la. Tê-la evitado nas corridas desta tarde não havia adiantado nada.
Encontrava-se em um estado deplorável. Mas o que poderia fazer? Como poderia mudar as coisas? Como poderia mudá-la?
Não podia. A única coisa que podia mudar era a si mesmo. Mas como? Esse era o problema. Como uma pessoa pode parar de desejar uma coisa na qual está viciada? Tentara o método longe dos olhos, longe do coração, mas não funcionara. Aparentar estar vacinado não era o caso, pois ainda não tivera o prazer de experimentar o que desejava. Poderia procurar um terapeuta, mas não acreditava que isso funcionaria com ele. A cena aparece rapidamente em sua mente:
" - Diga-me uma coisa, Sr. Taisho, o que essa senhora tem que o senhor gosta tanto?
- Vejamos, doutor - imaginava-se respondendo. - Primeiro são seus olhos. Eles são chocolates e brilham de desprezo cada vez que me olha. Depois, sua boca linda me enlouquece cada vez que se abre. Mas, o que me judia é seu corpo longo e esguio, que normalmente eu não acharia incrivelmente sensual, mas acho!"
Seria diagnosticado como um masoquista com um distúrbio obsessivo e compulsivo e depois, mandado para casa com uma receita enorme de antidepressivos. Faria terapia até a eternidade e pagaria uma conta que de tão alta não poderia ser escalada por alpinistas. Não, não iria procurar aconselhamento médico. Qual seria então a alternativa?
A resposta seria bastante simples se estivesse preparado para enfrentar a rejeição. Poderia convidar a viúva alegre para sair. Marcar um encontro.
Claro, que já a convidara antes. Muitas vezes. Mas sob a desculpa de um convite geral para uma das reuniões da mãe. Ela sempre recusara. Era bastante educada, mas o resultado era sempre o mesmo. Obviamente não desejava passar ainda mais tempo em sua companhia.
Convidá-la para sair a sós seria um verdadeiro ato de masoquismo. Mas que droga! O que tinha a perder?
No dia seguinte saltaria para dentro da jaula dos leões e colocaria a cabeça dentro da boca da leoa. O que aconteceria depois era imprevisível.
