Capítulo 3
InuYasha acabara de sair da garagem e não havia passado mais do que uma quadra antes de sentir frio por ter a capota do carro abaixada. O dia não era um daqueles típicos de primavera, estava diferentedo anteriorque fora quente e agradável.
Confiar na previsão do tempo da noite anterior era tão ingênuo quanto pensar que Kagome fosse aceitar o seu convite.
Ainda não conseguia acreditar que estava fazendo aquilo! Era puro masoquismo, mas nem todos os conselhos do mundo iriam fazê-lo mudar de ideia. Sempre fora perseverante. Desistia quando ficava irrevogavelmente claro que não conseguiria o que queria, como acontecera com sua carreira teatral. Só então abandonava o objetivo, colocando suas energias em alguma coisa que não fosse impossível. Portanto, até que Kagome não o olhasse diretamente nos olhos e dissesse que de maneira nenhuma sairia com ele, teria uma pequena esperança de que atingiria aquela meta praticamente inalcançável. Chegou a tentar se convencer durante o breve trajeto até Randwick, que tinha uma chance razoável de se sair bem na empreitada.
Afinal de contas, a viúva alegre não tinha um companheiro permanente. Se tivesse, ele a acompanharia nas corridas às vezes, pelo menos. No entanto ela sempre ia sozinha. Além disso, exceto mas raras ocasiões em que ela viajava para o exterior a negócios, sempre jogava pôquer nas noites de sexta-feira. Qual mulher envolvida com algum homem seria tão constante?
Não que InuYasha imaginasse por um momento sequer que Kagome levasse uma vida de monja. Claro que devia ter amigos homens depois de viúva. Amantes, em outras palavras, afinal de contas, já tinham se passado mais de cinco anos. Tempo demais para que uma mulher como ela ficasse sozinha todas as noites.
Por algum motivo, possivelmente autoproteção, InuYasha não havia pensado muito nos homens com quem Kagome pudesse ter dormido. Repentinamente, esse assunto passou a ser a única coisa em sua cabeça. Depois de pensar sobre todos os tipos de cenário, desde casos secretos com homens casados até romances de uma noite e nada mais com divorciados que temiam um envolvimento maior, decidiu que ela provavelmente preferia ter encontros estritamente sexuais com homens do padrão descartável. Escolheria a dedo entre os jovens modelos contratados por sua agência.
InuYasha conseguia facilmente ver Kagome nesse tipo de relacionamento. Ela devia querer sempre comandar, sempre estar por cima.
Pensar nela por cima dele o fez ter sensações que não experimentava de forma tão repentina e violenta desde a adolescência. Ele estremeceu. Tentou ajeitar aquele volume dentro da calça, a fim de diminuir o desconforto, mas nada adiantou. Nada resolveria o problema, à exceção do corpo inteiro de Kagome.
InuYasha entrou na rua Randwick onde estavam a casa e os estábulos de Bankotsu e jurou que faria Kagome sair com ele e ir para a cama com ele nem que tivesse que vender a alma ao diabo para isso!
A visão da BMW azul dela estacionada no meio-fio, bem em frente à entrada principal da casa de Bankotsu, provocou uma súbita queda de confiança. Ela já estava lá, esperando para fazer com que ele bancasse o bobo mais uma vez. Não havia mais saída a não ser fugir. Mas InuYasha não era um covarde.
Por uma fração de segundo, a rua cheia de carros estacionados quase lhe deu uma desculpa para dar meia-volta e ir embora e esquecer sua missão insana. Do nada, surgiu uma vaga entre um Jaguar prateado e uma Mercedes azul. Os criadores que frequentavam a casa de Bankotsu não eram mesmo pobretões. Resignado, InuYasha estacionou com habilidade a Ferrari na vaga apertada e desligou o motor.
Depois de olhar no relógio, viu que já eram quase treze horas. Saiu do carro, bateu a porta e ligou o alarme. Lembrou-se de checar a aparência no espelho retrovisor, arrumando os cabelos com os dedos e franziu a testa quando viu a sombra que tinha no rosto. Nunca barbeava-se nos fins de semana, o que Kagome já comentara. Não quisera dar a impressão que enfeitara-se especialmente para ela. No entanto, já que planejava convidá-la para sair, isto é, fazer sexo no final da noite, a preocupação em não estar barbeado agora parecia bastante estúpida. Totalmente... Completamente... Estúpida! O que significava que continuava o mesmo. Sempre que Kagome era o tema em questão, seu cérebro dava lugar a uma abóbora.
Por outro lado, um coração fraco não conquistava nada. Nunca, InuYasha se forçou a pensar. Muito menos a mão de uma linda dama. Não que pretendesse casar com a viúva alegre. Não era tão louco assim! Tudo o que desejava eram algumas noites na cama dela. Depois das quais, tinha certeza que a obsessão sexual e perversa dos últimos cinco anos, desapareceria.
Ele não a amava. Ora, claro que não! De maneira nenhuma! Por que deveria amar? Ela não era melhor do que Kikyou. Era só mais uma madame mercenária, de nariz empinado e coração gelado. Especialista em fazer os homens de bobo. Neste caso, ele.
Com esse simpático pensamento na cabeça e com as mãos nos bolsos da calça preta, caminhou relutantemente pela rua, olhando para a BMW de Kagome. Ela devia ter sido a primeira a chegar para conseguir vaga tão boa. InuYasha ficou parado por um instante diante do portão da propriedade de Bankotsu, examinando sem expressão alguma no rosto a casa de dois andares, bastante elegante, do treinador. Tentava fazer o cérebro funcionar. Todos os proprietários de cavalos já teriam visitado seus animais. Estariam todos dentro de casa, tomando champanhe e comendo caviar. Todos, exceto... Kagome.
Certamente, ela ainda estaria nos estábulos cuidando da compra mais cara da sociedade. Um potro negro de três anos, que eles tinham adquirido de Ali e que havia se contundido seriamente no primeiro treino.
Apesar de InuYasha ter surpreendentemente, pouca intimidade com Kagome, sabia como ela se sentia a respeito dos cavalos. Ela os adorava. Adorava ficar perto deles. Nas poucas ocasiões em que ele fora a um domingo de Bankotsu, fora difícil afastar Kagome dos estábulos.
— Não venho aqui para comer — lançara ela uma vez, quando ele a chamara para entrar e almoçar. — Venho para visitar meus cavalos.
InuYasha sorriu com ironia quando se lembrou daquele dia. Ela ainda não teria entrado. Estava certo disso. O que era um alívio. A possibilidade de propor algo ao objeto de seus desejos em particular era infinitamente melhor do que em uma sala cheia de gente onde todos poderiam ouvir a gargalhada dela. Assim, sua humilhação não seria pública.
Tomando fôlego, na esperança de acalmar-se, tomou o rumo do pátio lateral que levava aos estábulos nos fundos da propriedade. No final do pátio havia um portão sempre guardado por um segurança. O de hoje, chamava-se Jed, um sujeito grandalhão e forte, que conhecia todos os proprietários de cavalos de Bankotsu só de olhar.
— Boa tarde, Sr. Taisho — disse Jed, abrindo o portão. — O senhor chegou um pouco atrasado. Todos os outros já foram almoçar.
O coração de InuYasha se comprimiu. Ele pensou que Jed poderia não ter certeza absoluta do que dizia, do lugar onde se encontrava. O complexo de estábulos de Bankotsu tinha a forma de um quadrado com um pátio no centro. Cada lado do quadrado abrigava seis baias com o espaço para a alimentação dos animais no fim das fileiras. Os quartos dos empregados ficavam no andar superior.
Jed tinha uma boa visão do lugar, mas não podia enxergar dentro dos estábulos onde Kagome sempre ficava. Ela não se cansava de acariciar seus cavalos na porta dos estábulos. Se o cavalo fosse dócil, ela se aproximava e chegava a entrar.
— Não se preocupe, Jed — respondeu InuYasha. — Hoje não vim para comer. Até já.
O pátio estava deserto, somente com um empregado limpava os últimos dejetos dos animais. Provas de que eles foram exibidos para os donos.
— Trabalhando duro, Neil — disse InuYasha aproximando-se.
O rapaz levantou os olhos com surpresa e alegria no rosto.
— Olá, Sr. Taisho — respondeu Neil, se livrando do lixo rapidamente, para que o querido visitante pudesse passar, sem sujar o traje escuro, que parecia ser caro. Se havia um proprietário de quem Neil gostava quase tanto quanto da Sra. Higurashi, este era o Sr. Taisho. Em primeiro lugar, porque sempre se lembrava do nome dele, caso raro entre aqueles metidos. Ninguém desconfiaria que era um astro famoso da televisão, pelo jeito como agia. Era muito simpático e gentil. É claro que não como a Sra. Higurashi, uma verdadeira dama e generosa também. Toda vez que algum de seus cavalos ganhava um prémio em dinheiro, ela dava um bónus para todos os funcionários.
E não era por causa do dinheiro que todos ali gostavam dela. Era pela maneira como tratava os cavalos. Ela se preocupava mesmo com eles. Até o patrão gostava da Sra. Higurashi. Dava para perceber porque ele conversava com ela. E o patrão não gostava de perder tempo com bate-papo.
— Veio ver seu potro, não é? — perguntou Neil. — A Sra. Higurashi ainda está lá dentro com ele. Acho que ela dormiria naquela baia se o patrão deixasse.
InuYasha decidiu naquele instante que, se existisse essa história de reencarnação, ele desejaria voltar como um dos cavalos de corrida de Kagome.
— Em que baia está o Pretinho? — InuYasha perguntou. Pretinho era o apelido de Fogo de Ébano.
— Número dezoito. A última daquela fileira. Sei que não sou eu quem sabe das coisas, mas se ele correr tão bem quanto está prometendo, os senhores terão um vencedor, com certeza.
— Esperamos que sim, Neil. Mas muita coisa pode acontecer entre uma boa performance em um treino e o disco de chegada.
— É... Isso é verdade. Mas é o que acontece com as corridas de cavalo, não é? É tudo um jogo. É como a vida.
Vários cavalos que debruçavam a cabeça para fora das baias, relincharam para InuYasha no caminho. Fogo de Ébano, não. À primeira vista, a número dezoito parecia vazia, mas os olhos dele se acostumaram à penumbra no interior da baia. O proprietário conseguiu identificar seu potro preto. O animal estava sobre um leito de palha e tinha o flanco acariciado, tratado como se fosse uma criança muito amada.
— Você é um menino tão lindo — sussurrava Kagome, a acariciá-lo de modo ritmado. Seu braço esquerdo abraçava o pescoço do cavalo e sua cabeça repousava sobre a crina espessa e negra. - Bankotsu disse que você está bem, quase pronto para a primeira corrida. E disse ainda que vai vencer. Eu falei para ele que você poderia ficar um pouco nervoso, que não deveríamos esperar demais de voce tão cedo. Ele me respondeu que você não possui um pingo de nervosismo e ainda me disse que você é um cavalo de corrida nato. Um campeão em potencial. Como eu gostaria que você fosse só meu, querido. Apesar de que acho um terço melhor que nada.
InuYasha não sabia se deveria sentir ciúmes do cavalo ou de Bankotsu. Parecia que ele contara muito mais coisas a Kagome do que para ele ou para qualquer outra pessoa, para dizer a verdade. Seria o relacionamento de Kagome com Bankotsu mais do que um entre treinador e proprietária?
Inesperadamente, a BMW de Kagome estacionada de frente para a porta principal da casa de Bankotsu ganhou um significado perigoso. Talvez não tenha sido a primeira a chegar hoje. Talvez seu carro tenha estado lá a noite inteira...
InuYasha conteve a angústia e tentou examinar a ideia terrível de uma maneira mais racional e sem pânico. Jamais percebera algum sinal de intimidade entre eles. Nunca viu olhares suspeitos ou toques disfarçados. Contudo, se fossem amantes, a quantidade anormal de convesas que evidentemente tinham sobre Fogo de Ébano ganharia uma explicação. Mesmo o mais taciturno dos homens se animava para uma conversinha, quando recostado sobre travesseiros.
Imaginar que Kagome poderia dividir a cama com o bonito, de feições bem marcadas, treinador de cavalos, foi como uma apunhalada no coração dele. Apertou os punhos, enterrando as unhas nas palmas das mãos. Amantes hipotéticos, os quais ele antes temia eram muito diferentes do que o jogo feito ali, ao vivo. Se o que InuYasha desconfiava fosse verdade, se explicava o porquê de ela nunca levar um namorado às corridas. Ele ja estaria lá!
Fixou os olhos no modo como ela acariciava e mimava o cavalo, mas seu cérebro não via mais Fogo de Ébano como o felizardo. Era Bankotsu Jackman, nu e excitado, que estava entre os braços dela.
Um tremor violento correu pela espinha de InuYasha.
De repente, o potro sacudiu a cabeça na direção dele, como se desse boas-vindas ao novo visitante. Kagome moveu os olhos no sentido para o qual o animal se virara e os arregalou quando viu quem os visitava.
Por alguns instantes, a compostura parecia tê-la abandonado. Seus gestos mostravam agitação. Ela se dirigia apressadamente para a porta do estábulo, com o cavalo em seus calcanhares.
— Mas o que você está fazendo aqui? — perguntou aborrecida, enquanto abria a metade inferior da porta e saía da baia. Fechou rapidamente a entrada, antes que o potro a seguisse. — Geralmente, não tem um almoço em família no primeiro domingo do mês?
O tom que ela empregou para falar "família" dava a impressão que ele era da Máfia em vez de filho de um comerciante honesto e trabalhador.
— Olá para você, também. — replicou InuYasha, impressionado com a própria frieza interna, apesar do ciúme e da fúria que cresciam dentro dele. — O problema, querida Kagome é que não pude suportar nem mais um dia sem uma dose da sua encantadora companhia — acrescentou num tom de brincadeira, que mascarava a sinceridade de suas palavras.
Ela o ignorou totalmente. Concentrou-se em colocar a tranca de volta na porta, antes de levantar seus olhos verdes e frios para ele.
— Nesse caso, por que não esteve nas corridas de ontem?
InuYasha sorriu.
— Quer dizer que percebeu que eu não estava lá. Fico lisonjeado.
— Não fique. Tive uma tarde muito agradável. Apostei em vários vencedores.
— Se é assim, por que está tão azeda hoje? Sente-se sempre assim quando está perto de mim?
InuYasha notava que sua língua parecia fugir, escapar dele, assim como as esperanças de que Kagome aceitasse o convite para um programa.
Não que ele fosse convidá-la agora. Não antes de descobrir o que se passava entre ela e Jackman. Nenhum homem gostava de bancar o idiota, nem mesmo um homem tão desesperado quanto ele.
Olhava de cima a baixo o objeto do seu desespero, tentando não demorar na calça apertada e bege que realçava cada centímetro das pernas longas e esguias. A camiseta branca, igualmente apertada, mostrava mais busto do que ele pensava que ela tivesse. Ou então, ela usava um sutiã forrado de espuma.
Não, não era enchimento, se deu conta em um segundo exame. Nem sutiã havia! O fino algodão branco revelava o contorno de seus mamilos duros e grandes, como balas de revólver.
Talvez estivessem desse jeito pelo frio. O dia ainda não esquentara. Ou talvez por terem passado toda a noite na cama com Bankotsu.
Seu estômago encolheu dolorosamente, quando lhe veio a imagem do outro sugando aqueles mamilos. Não suportava mais. Tinha que sair dali agora mesmo, antes que fizesse ou dissesse alguma coisa da qual poderia se arrepender.
No entanto, não conseguia mover-se.
— Se importaria se eu fizer uma pergunta pessoal? — falou, lutando para não demonstrar o que sentia.
— Deixaria de fazê-la se eu me importasse? — disse ela.
— Não.
— Foi o que pensei.
— Você e Bankotsu são amantes? — exigiu uma resposta com os olhos fixos nos dela.
Não havia dúvidas sobre a expressão de choque em seu rosto. Suas sobrancelhas delicadas arquearam-se mais ainda, seus olhos piscaram e seus lábios, vermelhos de batom, abrira-se ligeiramente.
A recuperação contudo, foi rápida. Restabeleceu em seu rosto, o autocontrole habitual e a expressão de superioridade. Novamente o ignorou por alguns momentos e se abaixou para pegar a jaqueta de couro e a bolsa que ele não havia notado no chão, perto da porta do estábulo. O movimento lançou para a frente uma cortina espessa de cabelos macios e castanhos, que esconderam o rosto dela. Quando se endireitou, os cabelos voltaram para o lugar, o que demonstrava a habilidade do cabeleireiro. Levantando ligeiramente o queixo, ela o encarou de maneira firme e fria.
— Por que pergunta? Alguém lhe disse alguma coisa sobre nós?
— Não, mas a escutei conversando com o Pretinho agora mesmo e você pareceu muito íntima do Bankotsu. Vamos ser claros. É dificílimo arrancar duas palavras dele, mas pelo que vi, ele contou bastante coisa sobre o progresso do cavalo.
— E você chegou à brilhante conclusão de que ele me contou tudo na cama.
— Contou?
— Acho que isso não é da sua conta — disse ela friamente, e se virou para acariciar a cabeça de Pretinho mais uma vez.
— Eu quero que seja da minha conta — replicou ele.
— Por quê? — perguntou ela com indiferença, sem se dar ao trabalho de olhar para ele. — Em que isso o afeta?
— Não gosto que você durma com Bankotsu — trovejou ele.
Dessa vez, ela parou de acariciar o cavalo e olhou para ele com uma expressão curiosa.
— Mas por quê?
O que poderia dizer? Não gosto que você durma com nenhum homem. Quero você na minha cama e só nela. Ela riria na sua cara. Seu orgulho não suportaria tanta humilhação.
— Ele é o treinador dos nossos cavalos. — esquivou-se ele — Não gosto da ideia de você receber com exclusividade informações que deveriam ser compartilhadas entre todos os sócios.
Ela respondeu com uma gargalhada debochada.
— Típico. Eu devia saber que o motivo só podia ser uma coisa dessas. Para sua informação, não estou dormindo com Bankotsu. Se você tivesse um mínimo de cérebro ou algum poder de observação, saberia que ele e Lisa estão perdidamente apaixonados. Ela está até morando com ele. O único motivo de Bankotsu falar mais comigo do que com você é porque ele sabe que eu gosto de verdade dos meus cavalos. Não estou nas corridas simplesmente por causa do status ou para fazer amizades. Satifeito agora?
Quando ela ia se afastar, ele agarrou seu braço. Ela se enrijeceu e lançou um olhar que teria congelado qualquer homem mais fraco. InuYasha a segurou ainda com mais força.
— Por que você me odeia tanto? — perguntou ele. — O que eu fiz para você?
Ela mirou a mão que apertava seu braço, até ele soltá-la. Aí, ela estremeceu.
InuYasha teve a certeza de que ela jamais sairia com ele, quanto mais ir para a cama. Não por vontade própria. A mulher sentia aversão por ele, por algum motivo ignorado.
Foi a descoberta mais sofrida da sua vida, pior ainda do que quando ficara sabendo que Kikyou era uma mercenária. Muito pior do que qualquer coisa que ele pudesse imaginar. Agora, era ele quem tremia, não de maneira visível e sim internamente. Bem lá no fundo.
— Você não quer que eu responda a essas perguntas — falou ela, irritada. — É melhor que não queira. Acredite em mim.
— Quero sim — devolveu ele. — Acredite você, em mim.
Seus olhos castanhos se tornaram ainda mais frios, se é que isso era possível.
— Pois muito bem, vou lhe dizer. O motivo de eu detestá-lo tanto é que você representa tudo o que eu desprezo no sexo masculino. Você é egoísta, autocentrado e tremendamente superficial. Diz que deseja ter uma vida iluminada, mas escolhe sempre as sombras. Faz julgamentos rápidos sobre as pessoas sem se dar ao trabalho de ir além das aparências. Quando penso em como você quase acabou com o casamento de Miroku...
Seu lábio superior franziu-se de desprezo e InuYasha se intimidou. Muito bem, ele cometera o terrível engano de acusar Sango de ser da mesma laia de Kikyou, uma alpinista social sem coração. As evidências pareciam tão claras na época.
— Tudo porque você não consegue ver além da sua própria experiência matrimonial patética — continuou Kagome. — Como eu disse, egoísta e superficial. É claro que a maioria dos homens bonitos possuem essa mesma capa. Você imagina que é irresistível só porque nasceu com um corpo bonito e é muito atraente. Pensa que eu não sei que o seu arrogante nariz italiano levanta de surpresa porque eu não desmaio cada vez que você entra na sala? Ou que fica verdadeiramente aborrecido porque jogo pôquer melhor do que você? Eu poderia ter mais respeito por você, InuYasha Taisho, se pelo menos uma vez tivesse mostrado um pingo de sensibilidade. Não, você insiste em continuar exibindo o seu tipo playboy superficial, agindo como um menino mimado quando as coisas não são como você quer!
A voz dela se elevara ligeiramente e InuYasha, ao olhar em volta, se sentiu aliviado por ver que Neil não se encontrava mais à vista.
— Mais patético ainda — prosseguiu Kagome, apesar do embaraço de InuYasha. — Você vai de uma vigarista loura para outra só pelo fato de não ter conseguido o que Miroku conseguiu. Cresça, InuYasha. Construa uma vida e arranje uma garota decente como esposa. Tenha a família que você vive afirmando que deseja. Aí, talvez eu possa gostar de você. Não, talvez não — acrescentou, tripudiando — Gostar é uma coisa que jamais poderei, mas pelo menos terei algum respeito por você.
O discurso estava terminado. E InuYasha, também.
Seu caráter nunca fora arrasado tão brutalmente em toda a sua vida. Nem mesmo Kikyou, em seus momentos mais venenosos, conseguira fazer com que ele se sentisse tão inútil.
Poderia ter revidado, supôs. Poderia ter retalhado o passado de Kagome que não era dos mais perfeitos. Contudo, de alguma forma, pensou que aquilo se viraria contra ele também. Só Deus sabe por quê. Ninguém o convenceria de que ela se casara com aquele velho idiota por amor. Mesmo assim, dinheiro talvez não tivesse sido o motivo. A convicção de que ela era uma mercenária poderia ser outro dos tais julgamentos apressados.
— Eu o preveni — declarou ela, abruptamente.
Ele permanecia parado ali, silencioso e chocado.
— Não me faça sentir culpa por dizer a verdade. Não ouse dizer isso! Eu sei também que você não liga a mínima para o que eu penso. Homens como você não se preocupam com ninguém a não ser com voces mesmos. - Com um movimento repentino e raivoso, ela atirou seus cabelos para trás, passou por ele e se afastou.
Bem, pelo menos ela acha que eu sou bonito, - InuYasha pensou amargamente enquanto observava a partida dela. Ficou claro que ela me repele mais por minha falta de caráter do que por meu corpo musculoso ou o arrogante nariz italiano. Já era alguma coisa, não?
— É, InuYasha... É isso aí — murmurou ele tristemente.
Colocando as mãos nos bolsos da calça. Afastou-se também. Atravessou o pátio que, graças a Deus, encontrava-se deserto, disse um até logo desolado para Jed no portão e foi diretamente para o carro. Para casa.
oOooOoOO
Aaah, gente, tô adorando as reviews!! mas não estarei respondendo elas agora, pretendo escrever todos os cap e responder ao final...
Vou atualizar sempre o mais rápido possível, mas não deixem de comentar em cada um deles, ok?
bjinhoss
