Capitulo X - Bênção ou maldição? - 1ª parte

Na gruta onde Syf vivia

- Anjo da Morte!!! Por favor apareça!! – Kanon estava com Nysa em seus braços gritando a plenos pulmões – Anjo da Morte, eu suplico, apareça e conceda-me um favor!!

Mais de um mês atrás

- Letha, volte. Não foi a minha intenção te ofender...

Letha corria o mais rápido que podia devido ao seu lastimável estado. Ferida, seu sangue escorria por seu corpo. Sentia-se cada vez mais fraca, mas não podia parar. O cavaleiro de Sagitário estava quase alcançando, e ela não pretendia escutar mais nenhuma comparação de seu rosto com o de Tyr. Ela teleporta-se para o lugar mais longe que pode imaginar.

- Maldição!! Ainda estou neste lugar infernal.

Quando ela viu que Aioros estava chegando próximo ao lugar onde havia conseguido chegar com seu teletransporte, jogou-se por trás de uns arbustos. Começou a chover fortemente. Aioros tinha deixado seu corpo jogado na lama. Sem poder impedir, o sangue de Letha caiu encima de uma carcaça de um coelho morto a algum tempo, revivendo-o instantaneamente. Aioros escutou sons vindos do arbusto e sentiu uma alegria tremenda ao imaginar que ela estaria ali, à poucos metros dele. Pretendia dizer tudo o que sentia por ela. Então se aproximou lentamente para que Letha não fugisse novamente. Espantou-se com a súbita fuga do coelho.

- Como eu sou idiota mesmo... ela jamais teria se teletransportado para um lugar tão próximo de onde não pretende pisar mais...

Aioros caminhou para sua cabana em passos tão lentos e desanimados que até uma tartaruga passaria a sua frente. Quanto a Letha, esta voltava para a gruta para cuidar de seus ferimentos e pegar a sua máscara. Não pretendia voltar ao Mundo Inferior revelando seu rosto a seus subalternos. Mal conseguiu fazer um curativo em seu ombro e caiu ao lado do que Aioros chamava de cama improvisada. E por lá ficou, em um sono que durou mais de um mês... Até escutar alguém chamar por seu nome incansavelmente...

Kanon deu seu ultimo grito chamando pelo Anjo da Morte, e já se preparava para procurá-la no Mundo Inferior quando escuta um murmúrio incompreensível para ele. Eis que Kanon enxerga o vulto dela em pé, com a escassa luz da caverna lhe envolvendo.

- Anjo da Morte! Imploro que reviva Nysa... por tudo o que lhe é mais sagrado, conceda-me este favor e eu retribuirei da forma que ordenar.

- Seu tempo neste mundo acabou... – Kanon estranhou o fato de Letha falar quase sem forças, embora ela estivesse tentando manter sua pose de Alteza das Trevas. – É de sua própria vontade cruzar os portões desse mundo...

- Você pode falar com a alma dela??! – Kanon se sentiu um idiota em fazer uma pergunta tão óbvia. Deixando este pensamento de lado, tentou convencer Letha a atender sua súplica. – Entendo que Nysa esteja desapontada comigo por que eu revelei as minhas atrocidades do passado... mas diga pra ela que eu mudei, e que realmente a amo mais do que a mim mesmo...

- Quer que ela volte a vida mesmo que isso possa lhe custar muito caro? Estaria disposto a cumprir com minha ordem para que seu pedido seja satisfeito, mesmo sabendo que ela jamais o perdoará pelo que fez no passado?

- Lhe dou a minha alma em troca da vida dela de volta... eu a amo muito, e não posso suportar saber que ela morreu e que eu continuo vivo. Prefiro ver ela viva me odiando do que a isso...

- Você não pode me oferecer algo que já me pertence, Cavaleiro de Gêmeos. – Kanon sentiu uma pontada em seu peito. Ele concluiu que esse era o preço por ser revivido pelo Anjo da Morte. As luzes da gruta se ascendem e ele pode ver a figura abatida de Letha, mesmo ela estando com a máscara dava para se perceber isso – Há duas formas de você me pagar esse favor, cavaleiro. O primeiro é a certeza de sua morte imediata e sem direito a julgamento com os juízes do Mundo Inferior. A segunda é mais arriscada, e nada agradável. Você pode morrer no processo, mas se por acaso sobreviver, é capaz da loucura tomar conta de seu ser... Escolha com cuidado, Kanon de Gêmeos.

Kanon coloca Nysa na cama sentando-se ao seu lado, olhando para o corpo de sua amada de um jeito que Letha ficou curiosa.

- Nysa, você pode não me perdoar, mas nunca duvide do amor que eu sinto por você. – deu um suave beijo nos lábios frios e sem vida que outrora esbanjava ternura.

- Desistiu do seu pedido?

- Nunca!! Posso nunca mais ficar ao seu lado, mas não deixarei que meu filho e Nysa sofram com esse afastamento entre eles... eu decido pela segunda opção.

Letha aproximasse dos dois lentamente. Faltava apenas dois passos para chegar quando sente uma fraqueza abater seu corpo. Ela cai nos braços de Kanon, e isso o fez assustar-se, não esperava por isso. O cavaleiro percebeu que ela respirava com uma certa dificuldade. Ele não pensou duas vezes, retirou sua máscara mesmo sob o protesto de Letha. Seus olhos vermelho-vinho estavam vidrados, atentos a qualquer coisa que pudesse contrariá-la. Para sua surpresa, ele tirou algumas mexas de cabelos que haviam caído em seu rosto, olhando para cada detalhe atentamente.

- O que você está vendo? – sua voz parecia estar mais fraca que antes.

- Que Aioros tinha toda razão do mundo para se apaixonar por você...

- Não pretende me comparar com aquele trai...

- Você é Letha, o Anjo da Morte do Mundo Inferior, e Agnar é outra pessoa... – Kanon a interrompeu prontamente. Sabendo o que ela pretendia dizer concluiu – ...eu entendo o que você passou todos esses anos, pois comigo foi da mesma forma. Sempre aparece alguém para me confundir com Saga...

O que Kanon disse ecoou repetidas vezes em sua mente. Aquelas palavras saíram de uma forma tão sinceras que abalou todas as convicções de Letha sobre este assunto. Um longo momento de silêncio reinou naquela gruta.

- Kanon, se você conseguir sobreviver ao meu pagamento completamente lúcido, irá agüentar ter seu amor rejeitado por Nysa?

- Se esse for o desejo dela, só cabe a mim aceitar sem contestar, e sofrer calado até o fim de minha vida... – Kanon falou tão melancólico que Letha percebeu que ele não falava de um sentimento que vem e vai como o vento, era algo duradouro. – Tem certeza que está em condições para atender a meu pedido, Letha?

O Anjo da Morte levanta-se retirando as ataduras de seu ombro deixando as gotas de sangue escorrerem por seus braços, indo de encontro ao corpo pálido e sem vida de Nysa. Kanon olhava para as duas, temeroso por seus destinos. Queria que Nysa voltasse a vida, mas não queria que isso pudesse custar a vida de Letha. Ele viu que aos poucos a coloração de sua amada ia tomando conta de todo seu corpo. Neste momento Aioros chega.

- Pare, Letha. Você já perdeu muito sangue, e se continuar assim, morrerá...

- Eu sou o Anjo da Morte do Mundo Inferior, a grande arma dos deuses para destruir os mortais...

- Você pode ser tudo isso, mas não é indestrutível como pensa... não percebe que a cada minuto que se passa está ficando mais fraca? Eu não quero que você...

- O que está acontecendo aqui? Onde estou?

- Nysa!! – Kanon dizia feliz da vida com seu retorno dos mortos. Ele queria abraçá-la e beijá-la, mas conteve-se. Aproximou-se de Letha ajoelhando-se perante ela – Como eu devo proceder para pagar a minha dívida, Anjo da Morte?

Nysa o olhou com uma profunda aflição ao lembrar-se de tudo o que havia escutado em seu repouso. Lembrou também da declaração que Kanon havia feito ao Anjo da Morte em relação ao seu puro amor. Ele não estava mentindo quando disse que pagaria qualquer preço para tê-la viva novamente, mesmo sabendo que ela não pretendia perdoá-lo. Letha fitou por um longo período os olhos de Nysa que implorava por clemência. Aioros segura a mão de Letha dizendo:

- Não faça nada com Kanon, Letha. Ele nunca soube que tinha uma família, e agora que ele está vivendo com eles... Por favor, não acabe com a felicidade d...

- Cale-se, Aioros... eu fiz uma dívida com o Anjo da Morte, e pretendo pagar mesmo que isso custe a minha vida...

- Sumam todos vocês!! Não quero mais esse pagamento... – Nysa a abraçou chorando e agradecendo pelo feito. Letha já estava quase caindo, mas conseguiu usar força o suficiente para afastá-la, e falou rosnado – Saiam agora...

Kanon estranhou essa reação de Letha, mas não pretendia ficar lá e enfurecer mais ainda do que ela já estava. Pegou Nysa pelo colo e a levou de lá. Aioros permaneceu ao lado de Letha, que já estava quase tombando. Ele a abraça.

- Beba meu sangue para recuperar suas forças...

- Afaste-se... se eu fizer isso acabarei tirando seu sangue até não restar mais nada...

- Estou disposto a pagar esse preço para não te ver morrer diante de mim.

- Te revivi uma vez, e se eu te matar consumindo seu sangue, você não terá direito a um julgamento no Mundo Inferior... afaste-se... a outra forma de me recuperar também é perigosa... drenarei toda sua energia, e você verá tudo o que não deve ver...e isso é pior do que você passou durante 13 anos no País dos Mortos...

Aioros não queria dar ouvido a Letha. Ele deduziu que a forma em que ela se referia seria algo como entrar em contato direto com sua pele. Se for desse jeito, então aproveitaria para fazer o que tinha a vontade de fazer a muito tempo. Ele a beija com toda ternura que um homem poderia verter na mulher que ama. No inicio ela queria afastá-lo, mas não tinha forças, e a cada segundo que se passava suas forças diminuíam, até ela ficar inconsciente. Foi nesse momento que Aioros começou a ver e sentir coisas que jamais imaginou ser possível. Seu corpo ardia como se houvesse feridas que eram molhadas pelo suor por toda extensão dele. Grilhões queimavam seus pulsos. As suas costas pareciam ser rasgadas a todo instante. Vozes chamando de traidora... Por muito e muito tempo Aioros sentiu tudo isso e muito mais.

Asgard

Agnar sentiu um incômodo pressentimento. Ele afastou-se imediatamente de Hilda que se preocupava em cumprimentar os convidados de seu casamento. Era realmente uma linda festa, com muitos convidados e isso tornava quase impossível encontrar um lugar calmo. Entrou na primeira porta que encontrou, sem querer saber a quem pertencia àqueles aposentos, nem quem poderia estar ali. Ele caiu no chão gritando de dor. Pelo menos com o barulho da festa ninguém escutou.

- Agnar!! Por Odin, o que sente?? – não obteve nenhuma resposta – Eu vou chamar o curandeiro...

- Por favor, não faça isso, Freiya!! – Agnar falava com uma certa dificuldade. Ele segura a mão dela e aperta um pouco ao sentir mais uma vez a dor que percorria todo seu corpo. "Isso está ficando perigoso até mesmo para mim... se ninguém fizer nada aquela pessoa morrerá" juntou forças pra dizer palavras confortantes para Freiya – Isso vai passar logo...

Como ele havia dito a sua agonia cessaram-se poucos minutos depois. Ele levanta-se do chão, e olha profundamente nos olhos de sua cunhada. Ficou preocupado com o estado emocional dela. No estado em que ela estava, não podia ter certas preocupações.

- Graças a Odin!! Parou de sentir aquela estranha agonia...

- Por que você estava aqui, sozinha e chorando?

- Eu... eu tenho que contar pra alguém ou vou acabar me enlouquecendo... estou escondendo algo, e é muito sério...

Santuário

- Aioria, Marin, vocês viram Kanon andando por aqui?

- Não vimos não... Saga, o que está acontecendo? Aioros foi a casa de Kanon para ver o que tinha acontecido, só que não voltou ainda...

- Isso por que ele está na gruta com o Anjo da Morte...

- Kanon, você não devia ter ido até lá, mesmo que fosse por um bom motivo... – Saga falava furioso, querendo até mesmo socá-lo pela falta de noção do perigo, no entanto sentiu-se aliviado por ver que seu irmão estava bem – Eu não quero perder a única pessoa que restou da nossa família...

Os dois voltam sua atenção para outra direção ao escutar o grito de Phebe. Parecia que estavam arrancando sua alma do corpo de tão desesperado que foi esse grito. Saga corre até ela para saber o que estava acontecendo. Ela fala com uma voz entrecortada pela respiração ofegante:

- Ai-Aioros está... correndo perigo...

Aioria pôs-se a correr em direção a gruta, mas freia seu impulso bruscamente ao ouvir que Marin pretendia ir com ele também. Ele se vira para Kanon dizendo:

- Kanon, tome conta delas... vamos lá, Saga...

- Eu preciso ir com vocês, precisaram da minha ajuda.

Saga pretendia impedir que Phebe fosse com eles, mas parou para analisar, e teve a certeza que ela realmente seria necessária. Tudo o que ele pedia aos deuses era que nada de mal acontecesse com ela. Ele sabia que Phebe e o Anjo da Morte não se davam bem.

Mundo Inferior

- Onde ela está, Sacerdote?

- Letha ainda não voltou, senhor... O que está acontecendo?

- Não tenho tempo para explicações. Onde ela poderia estar???

- Talvez no Santuário de Athena. Foi o ultimo lugar que eu fiquei sabendo de sua aparição.

Como um passe de mágica, o visitante sumiu da vista do Sacerdote, deixando-o com um ar carregado de preocupação por trás da máscara. Mas este só podia esperar e desejar que tudo desse certo.

Santuário de Athena

Aioros nem tinha mais forças pra continuar de pé, muito menos ainda se soltar daquele beijo mortal. Eis que surge uma figura com uma longa capa branca os separando. Ele a toma nos braços e a leva pra longe, sem ser notado por Saga, Aioria e Phebe que acabaram de chegar. O cavaleiro de leão ergue seu irmão do chão notando que havia algo estranho com ele. Embora quase sem vida em seus olhos, podia-se notar que ele estava angustiado. Lágrimas corriam solto em seu rosto. Ele balbuciava palavras desconexas.

- Como você se sente, Aioros?

- Afaste-se, Aioria. Aioros recebeu um grande choque com as imagens que viu... Tenho que agir rápido, antes que seja tarde demais...

Phebe pode perceber de longe o que tinha acontecido com o cavaleiro de Sagitário, depois do relato de Saga sobre o assunto. Foi a mesma coisa que aconteceu com Saga, só que desta vez foi mais intenso. Ela se aproxima de Aioros mesmo sob os protestos de seu amado, e começa a investigar a mente dele. "Toda a extensão de seu corpo ardia ainda, como se houvesse feridas em seu corpo e ao bater o suor ardia mais ainda. O rosto estava sendo arranhado por grandes unhas."

- Saga, devemos impedir que Phebe continue. Ela tirou a máscara e agora está arranhando seu próprio rosto...

Saga já estava tentando fazer Phebe romper o elo mental que estava tendo com Aioros, mas nem ele nem ninguém conseguia parar esse processo auto destrutivo da parte dela. O ex-cavaleiro de gêmeos já estava imaginando que algo assim poderia ocorrer com ela, pois não sabia quais eram os limites do poder de Phebe. Ela estava absorvendo todas as memórias que Aioros compartilhou com Letha, mas algo estava muito errado, não era pra ela fazer exatamente o que ela via nas imagens, era só pra senti-las em sua própria pele.

- Vou enviar o Satã Imperial pra impedir essa loucura...

- Não!!! Saga, se você usar muita força neste golpe, é capaz da mente de Phebe desaparecer de vez...

Continua...

Olá a todos! Espero que tenham gostado deste capítulo, afinal de contas demorei muito para poder postar e o mínimo que devo aos leitores é que tenha sido uma boa leitura. Bem... devo advertir que antes de ler o próximo capítulo (Bênção ou maldição? - 2ª parte), leia primeiro o 3º capítulo de "Um Anjo sem rosto". Este fanfic está interligado com o outro, assim como virá outro que também estará interligado com "Amor Entre a Vida e a Morte".

Beijos para todos e até o próximo capítulo.