Capitulo X- Bênção ou maldição? -parte 2

Em um lugar um tanto distante do Santuário

O homem que havia resgatado Letha do Santuário olhava para seu rosto procurando algo que pudesse responder as suas dúvidas. O que ela ainda estaria fazendo ali, no santuário de Athena? E por que aquele mortal a estava beijando? Eis que ele vê que seus olhos abriram lentamente.

- Mais uma vez você chegou em boa hora, Hypnus...

- Pode não se lembrar do que eu disse a muito tempo atrás, mas afirmarei novamente, minha senhora... Estou sempre a sua disposição.

Ela pode sentir que essas palavras eram muito profundas... como se ele estivesse falando de algo que se passou a mais tempo do que o tempo que eles se conheciam realmente. Quando ela se dá conta de que estava em seus braços e sem a sua máscara, tenta desesperadamente se soltar e esconder seu rosto.

- Alteza, sabe que eu nunca comparei você a Tyr. Não precisa se preocupar com isso... Temos algo que exige mais da sua atenção. – ela teve que aceitar permanecer em seus braços e escutar atentamente o que ele tinha para dizer – Alguns deuses despertaram, Minha Senhora, e ainda não sei se eles desconfiam que você está de volta...

- Hypnos, era exatamente isso o que eu queria... Um deles deve me contar a verdade sobre meu passado. – o deus arregalou os olhos assustado com esse súbito desejo de saber sobre algo que estava esquecido.

- Por que quer saber disso, senhora?

- Antes de ser aprisionada no Muro das Lamentações eu não compreendia o que Tyr queria dizer com "eu odeio você", nem questionava quando Hades deixava os crimes daquele traidor impune, enquanto que comigo, ele mandava castigar-me toda vez que eu pretendia dar um fim ao traidor. Nunca tive essas coisas que os mortais dizem ser sentimentos... Mas com o tempo em que estive aqui, aprendi muitas coisas, e isso criou muitas dúvidas, dúvidas as quais eu exijo que me esclareça...Qual é meu verdadeiro nome e por que me encontro nesta situação?

- Letha... você deve ser sempre chamada assim daqui pra frente. O seu verdadeiro nome foi esquecido por todos nós para que nenhum mortal ouse mencionar ele novamente... Esqueça esse nome, é algo que só trará o seu sofrimento de volta... – Hypnos olhou bem fundo em seus olhos, e percebeu que ela não parecia mais aquele animal selvagem a quem ele conheceu a mais de duzentos anos atrás – Eu estive sempre ao seu lado, e não quero que seja punida novamente... – suas palavras soaram um tanto melancólicas. Ele entrega a máscara a ela que coloca em seu rosto e então tenta mudar de assunto – O que importa agora é que você tem que recuperar suas forças e...

- Se me dissessem que viram Thanatos com uma mortal em seus braços, eu até acreditaria, mas se me dissessem que haviam visto você com uma mortal, eu jamais acreditaria... Principalmente uma mortal que é uma defensora de Athena, Hypnos...

- Você?? O que faz aqui?? – Hypnos imediatamente utiliza seus poderes para fazer Letha dormir e a deixa delicadamente encima de uma rocha. Aproxima-se do recém-chegado com um olhar inquisidor, perguntando a si mesmo se ele havia escutado toda a conversa entre eles...

- Apenas uma volta pelo mundo dos mortais. Logo, logo ele deixará de existir... Nada mudou depois de tanto tempo. Irei retornar ao Olimpo. Quer me acompanhar?

Hypnos lança um ultimo olhar pra Letha que adormecera profundamente, e pensa "Letha, eu queria poder te ajudar em qualquer que seja a sua decisão, mas não posso... Espero que um dia você possa me entender e que possamos voltar a viver como antes. Cuide-se, Minha Senhora". Os dois partem deixando Letha pra trás.

De volta ao santuário

- E o que você propõe que eu deva fazer, Leão?

Aioria estava tão angustiado quanto Saga. Nenhum dos dois sabiam o que deviam fazer, mas também não podia continuar com os braços cruzados, deixando que as coisas continuassem como estava. Eis que eles escutam um murmúrio vindo de Aioros:

- O nome dela é... – o cavaleiro não consegue terminar a frase pois um punho o acertara com tremenda força, que seu corpo jazia no chão sem um único suspiro.

- Por que você fez isso, Phebe? Você poderia ter matado ele...

- Não me confunda com aquela mortal idiota. Chora por causa de um mortal que gosta de um ser das trevas. – ela olha pra Saga e continua – Podendo ter o mundo junto daquele que foi o meu melhor amante. Hahahahaha

- Phebe? O que deu em você?

- Essa é a deusa Afrodite, Aioria. – Saga se vira para ela a encarando com um grande ódio. Seu rosto já havia voltado ao normal, sem nenhuma cicatriz, mas aquela ali não era mais a sua amada e sim um ser ao qual ele abominava por ser umas das causadoras de sua desgraça – Afrodite, por que você fez isso com Aioros?

- Não se preocupe com seu rival, Saga. Eu apenas retirei uma parte da lembrança dele... Vocês deveriam me agradecer por isso. Para o bem não só dele como o de vocês também, aconselho que não o deixe procurar pelo Anjo da Morte novamente.

- Você nunca faria algo que não fosse para tirar proveito. Diga-nos, o que está tramando, Afrodite?

- Agora que eu descobri algumas coisas sobre o Anjo da Morte será mais fácil acabar com ela... Tudo o que preciso agora é trazer Ares...

Saga a agarrou pelos ombros e sacudiu com força. Mas esta só fazia rir da situação. Ele estava prestes a dar-lhe uma bofetada, mas ela diz algo:

- Pare, Saga!! Isso não fará Afrodite contar o que sabe. Ela fez tudo isso para te irritar.

- Meu amor!! Você está bem? Aquela maldita me fez perder a cabeça ao pensar que você não poderia voltar mais.

- Tudo bem agora... para mim e para Aioros. – enquanto Phebe recebia o beijo de seu amado sua mente vagava longe "Afrodite apagou o verdadeiro nome de Letha da minha mente também... então ela teme o Anjo da Morte mais do que eu imaginava. Por que seria?"

Phebe abraça Saga com um pequeno temor em seu intimo. Se a própria deusa tinha medo de Letha, coisa boa não era, e talvez o seu amado estivesse em perigo. Saga ao perceber seu estado a conduz para longe dali onde poderia reconfortá-la, deixando Aioria cuidando de seu irmão.

Mundo inferior, horas depois

- Para atravessar o rio, terá que pagar.

A pessoa nada diz, e Caronte resolve deixar a figura encapuzada entrar no barco para cobrar o pagamento mais tarde. Até a metade da travessia foram em silencio, até que Caronte resolve cobrar:

- Está na hora de pagar, passageiro. Se não pagar, terei que te deixar aqui mesmo. – a pessoa nada diz, e Caronte continua – Desde que Hades-sama se foi, e o Anjo da Morte assumiu seu lugar, não há mais respeito as leis deste lugar... Primeiro sempre aparece um rapaz arrogante que vem e vai sem dar explicações a nenhum Espectro, apenas fala com o Sacerdote... O Anjo da Morte não tem mais aparecido diante dos Espectros, e quando perguntamos ao Sacerdote, ele alega que ela esta meditando.

- Quem é essa pessoa que sempre adentra o reino de Hades, lacaio? Responda logo!!

- Como é? Com quem você pensa que está falando?? Derrubarei-te agora mesmo para deixar de ser insolente!!

O passageiro retira seu capuz e mostra sua mão. O Espectro ao ver a cicatriz na palma da mão, reconhece logo quem era e ajoelhasse imediatamente implorando por perdão.

- Cale-se, verme rastejante. Quero manter meu retorno sob sigilo. E se eu souber que mais alguém teve conhecimento da minha volta, pode preparar sua alma, pois ela deixará de existir para sempre.

- S-sim senhora... – ele levantasse e continua remando – Em relação a esse estranho nada sei... Mas algo anda meio estranho neste reino. Alguns Espectros estão com uma vigília ferrenha, e sempre cochichando pelos cantos.

Santuário

Depois de Aioria levar seu irmão para sua casa, Kanon decidiu levar Nysa de volta pra sua cabana. Ambos percorreram todo o caminho sem dizer nem uma palavra. Ao chegar na cabana, encontram Ítalo semi-adormecido, com os braços encima da cama. Quando ele olha para ver quem adentrava a cabana, levantou-se surpreso. Seu rosto indicava que esteve chorando por todo esse tempo. Aproximou-se de sua mãe para saber se ela era mesmo de carne e osso. Quando constatou que não estava tendo uma miragem abraçou-a com força rindo como a muito tempo não fazia. Kanon foi ao local onde deixava a urna de sua armadura, pegando-a e colocando nas costas. Lança um ultimo olhar para os dois que mais amava nesta vida e preparou-se para partir, mas seu filho o detém:

- Aonde vai, papai? –Kanon nem olha pra ele para não mostrar as lagrimas de seu rosto. Baixou a cabeça e disse em voz baixa:

- Respeitarei a decisão de sua mãe...

Nysa sentiu uma imensa tristeza, mas não podia e não queria voltar atrás com sua palavra. Ela também baixou a cabeça, demonstrando que Kanon estava certo em afastar-se deles. O rapaz segura o braço de Kanon e o puxa até que ele ficasse frente a frente com Nysa:

- Vocês devem conversar antes de tomar conclusões que se arrependerão mais tarde. Nada se resolve com cabeça quente... você me ensinou isso, pai...

O rapaz deixa os dois a sós. Nem Kanon nem Nysa tinham coragem de se encararem. O silencio que se fazia presente estava deixando ambos angustiados. Kanon toma coragem para abrir a boca:

- Nysa... eu queria poder voltar atrás, e poder consertar tudo o que eu fiz de errado... eu queria ter acompanhado sua gravidez, e cuidado de nosso filho... mas isso é impossível... agora, mais do que nunca sei que não pretende me perdoar, e por isso deixarei essa cabana para você morar com nosso filho... Tenho certeza que meu irmão não deixará vocês desamparados...

- Pra onde... pra onde você vai?

- Voltar para o Mundo Inferior, e servir ao Anjo da Morte para pagar a minha dívida...

- Você não pode fazer isso... não é justo... ela disse que não queria mais que você pagasse essa dívida...

- Ela só disse isso porque Aioros estava lá...

- Por que ela se preocuparia com a presença de uma simples pessoa se ela é um ser sem coração?

- Porque Aioros lhe ensinou algo que ela nunca imaginou existir... Ele a ama, e ela também sente o mesmo por ele... é uma pena que eles jamais poderão ficar juntos. Ele um cavaleiro de Athena e ela um peão de seu senhor, Hades. Ambos se amam, mas vivem em mundos opostos, destinados a nunca poderem assumir esse amor... Não era nem para ficar aqui, analisando a vida dos outros... minha situação não é muito diferente da deles...

Kanon afasta-se dela indo em direção a porta da cabana. Nysa o observa saindo sem fazer nada por alguns instantes. Quando ela percebeu que ele realmente pretendia partir do Santuário, sente uma forte tristeza abater-se em seu ser. Ela corre até a porta dizendo:

- Kanon... espere... se foi mesmo isso, o Anjo da Morte não desejava que a gente se afastasse... então por que partir assim?

- Porque sem você a minha vida se tornará vazia outra vez, Nysa...

- Então fique comigo... conosco...

Kanon parou de andar. Ficou lá, parado e pensando se ela estaria dizendo isso apenas para que ele não fosse ao Mundo Inferior por ser um péssimo lugar, ou se ainda restasse pelo menos um pequeno sentimento ainda vivo entre eles. Ele vira-se para Nysa olhando bem em seus olhos para saber o que ela sentia.

- Estaria disposta a me perdoar pelas coisas que eu fiz no passado?

Como ela hesitou a responder, Kanon deduziu que Nysa não sentia mais nada por ele, e que só estava dizendo aquilo por sentir pena dele, pois ela não queria que Kanon sofresse-se no Mundo Inferior. O cavaleiro de gêmeos dá as costas para ela, pronto para deixar o santuário porém, a mão delicada de Nysa o segurava no braço. Ele voltou-se para ver o que ela queria, dando de encontro com um par de olhos azuis claros:

- Eu sei que você é uma boa pessoa... trouxe-me de volta a vida, mesmo que isso fosse custar a sua vida. – ela parou de falar para tentar segurar suas lagrimas. – Você sempre pensou que eu não te amasse. Isso não é verdade... eu sabia que você era Kanon, aquele que me tirou das mãos de meu pai, e salvou-me do incêndio...

- Não pode ser... aquela menina se chamava Agnes...

- Esse era meu nome antes daquilo acontecer... tive medo que alguém do santuário me encontrasse para punir-me por um crime que eu não cometi. Por isso eu troquei meu nome por Nysa...

Kanon ficou sem ação. Seria por isso que a amiga dela havia colocado esse nome em sua filha morta? Nysa podia ter contado sua historia para a amiga, e ela lembrou-se desse nome... Nada disso importava mais. Agora ele sabia que Nysa realmente amava-o. Kanon a ergue nos braços levando-a para sua cabana, depositando ela encima da cama. Retira a urna de suas costas, e logo começa a fazer o mesmo com suas roupas. Nysa estava sentada na cama, observando o seu amado dando um pequeno show de strip-tease. Ela abre os braços mostrando que desejava sua presença imediata naquele leito. Não teve que esperar muito. Kanon subiu na cama beijando-a com ternura, enquanto suas hábeis mãos tiravam seu vestido. Nysa sentia cada músculo das costas de seu amado com as mãos no momento em que Kanon percorria seu pescoço com os lábios. Seus corpos sentiam um leve choque com aquele contato intimo, mas era uma sensação bastante agradável para ambos. A noite para aqueles dois estava sendo única... nunca se amaram tanto como nesse dia...

No dia seguinte, Kanon acorda percebendo que não tinha sido um sonho. Ainda havia vestígios em seus corpos da noite anterior pra provar isso. Ela estava deitada de bruços encima de seu tórax, com seus cabelos cobrindo seu rosto, mas Kanon não precisava ver seu rosto para saber que ela estava feliz como ele. Cauteloso, ele afasta Nysa que mesmo dormindo, o puxava pra perto de seu corpo. Kanon deu um leve sorriso, feliz em saber que eles nunca mais iriam se separar. Fez mais uma tentativa, e dessa vez havia conseguido sair da cama sem acordá-la. Ele coloca um travesseiro próximo a ela que o abraçou. Depois de tudo isso, Kanon tomou um banho se arrumou e foi ao templo do Grande Mestre. O salão estava vazio, então ele foi diretamente ao quarto principal do templo, entrando sem nenhuma cerimônia. Isso pegou Saga desprevenido, apenas vestido com um calção, encima da cama, e com Phebe ainda dormindo ao seu lado.

- Nunca ouviu falar que se deve bater na porta antes de entrar, não é?

- Eu sei que deveria fazer isso, mas eu tenho que contar algo que descobri ontem... sobre o Anjo da Mor...

- Na frente de Phebe não, por favor... ela anda abalada com tudo isso que tem acontecido...

Saga vestiu manto, e chamou Kanon para o salão principal. O Grande Mestre sabia que coisa boa não era, e não queria deixar sua amada mais preocupada do que já estava. Principalmente depois do que ele viu Phebe passar.

- No momento que Letha estava revivendo Nysa, Aioros apareceu dizendo que ela havia perdido muito sangue, e como ela utiliza seu sangue pra reviver uma pessoa isso a deixou mais fraca do que já estava.

- Então era isso que deixou a deusa Afrodite feliz... O Anjo da Morte pode morrer...

- E não é só isso... o preço para cada pessoa revivida pelo sangue daquele ser é... sua alma.

Saga ficou com uma expressão abatida ao ouvir as ultimas palavras de seu irmão. No fundo, no fundo, ele já tinha pensado nessa possibilidade, mas não o abalara tanto quanto ter certeza disso. Seus pensamentos foram interrompidos quando Phebe chega no salão. Saga tenta disfarçar pegando alguns papeis encima de uma mesinha entregando a Kanon enquanto dizia:

- Aqui estão os documentos que Kamus solicitou... não demore muito a entregar isso a ele.

- Bom dia, Kanon... não sabia que viria tão cedo ao templo principal. E como está Nysa?

- Nós estamos bem... ela resolveu me perdoar... – ele se lembrou do ocorrido da noite anterior – Peço desculpas em nome dela por ter te chamado de...

- Eu não ligo pra isso, já fui chamada de coisas piores... Já que tudo voltou ao curso normal, devemos voltar com os treinos.

Ela beija Saga rapidamente, e espera por Kanon para que eles descessem à escadaria juntos. Os dois saíram do salão, deixando pra trás uma pessoa com o semblante preocupado com o futuro. Na escadaria eles se encontram com Shura e Aioria. Cumprimentam-se rapidamente e seguem seu caminho.

Aioria e Shura faz uma reverencia respeitosa ao Grande Mestre, e esperam por alguma ordem viesse por parte dele. Isso demorou um pouco, pois Saga estava ainda absorto em seus pensamentos:

- Já mandei providenciar duas casas para Marin e Shina num vilarejo próximo do santuário... Com todos esses problemas envolvendo o Anjo da Morte acredito que o santuário tenha se tornado um lugar perigoso para mulheres nas condições delas...

- Então o Anjo da Morte pretende nos atacar mais cedo ou mais tarde...

- Não sei se pretende fazer isso, Shura... todos os dias eu penso nas ultimas palavras que ela disse entes de voltarmos pro santuário...

- Hoje mesmo levarei Marin pra esse vilarejo... não quero por em risco a vida dela e do meu filho que está pra nascer.

Continua...