A flor
Existe
nesse mundo um jardim
Cheio
de flores, umas bonitas
Outras
feias, mas poucas lindas
Ele
cresce sem parar, não tem fim
Um
dia fui nele passear
Procurando
uma flor, a mais bela, para colher
E
em meu coração a guardar, cuidar e amar
Mas
nenhuma era boa o suficiente ao meu parecer
Até
que reparei num canto
Onde
só havia flores garbosas
Tão
nobres que se causavam espanto
De
ver num só lugar flores tão maravilhosas
Extasiada,
fui ao canto lindo as observar
Para
ver se alguma era tão digna assim do meu amar
Dentre
elas, achei duas belíssimas, as que mais se destacavam.
Juntas
conviviam, e juntas também disputavam
O
lugar de mais belas ambas queriam
Mas
matar-se ou engalfinhar-se não podiam
Por
isso, lutavam através das qualidades
Tentando
mostrar que cada qual era a maior beldade
Quando
viram que eu algo procurava
Mais
que nunca a dupla se empertigava!
Queriam
mais que tudo que uma das duas fosse a escolhida
Para
mostrar a outra que era a mais querida!
Uma
a outra eram opostas; uma clara outra escura
Uma,
a luz; outra, a escuridão; nenhuma deixando de ser pura
A
da direita era vermelha, com tons alaranjados
Fulvos,
belos e luminosos
Digna
de ser louvada pelo maior dos bardos
A
alma dela era como que feita de fogo
Superior
ao da natureza o jogo
Lá
estava ela, ígnea e resplandecente
Em
toda a sua superioridade ardente.
A
da esquerda era negra como a negra pérola
E
ao mesmo tempo com um brilho translúcido em sua corola
Que
a fazia reluzir e às outras ofuscar
Sua
negrura era tão profunda
Que
a luz em suas pétalas parece que afunda
E
é absorvida pelo negror, para nunca mais voltar.
Apesar
de tal escuridão esta flor inspirar
Tinha
uma beleza de não ter par
Não
inspirava terror, nem tinha ar sórdido
Era
de magnífico cunho e de esplendor mórbido.
Assim
mostravam-se as duas competidoras
Que
queriam do meu coração serem caçadoras
Uma
se empertigando para cima da outra
Para
ter mais chances de ser a vencedora
Olhei
para a esquerda; olhei para a direita
Qual
das duas eu deveria colher?
Se
ambas são igualmente belas e perfeitas
Qual
seria a melhor para em meu coração eu acolher?
Ambas
ficaram raivosas
Cansaram
de ficar ansiosas
Queriam
logo saber qual seria a escolhida
Mostraram
toda sua perfeição imperiosa
Para
provarem uma à outra quem era a preferida
Uma
pressionava-me dum lado; outra, do lado oposto
Queriam
a qualquer custo conquistar da minha alma o posto
Senti-me,
depois de tão pressionada
Dividida
e por tanta insistência atordoada
Qual
deveria levar, ó Dúvida cruel?
Mostre-me
a resposta, ó dama amarga como o fel!
A
Dúvida, então, condoeu-se de mim
E
mostrou-me o caminho certeiro, que desenrolou-se assim:
Notei,
no meio das duas flores e de outras magníficas
Uma
florzinha menor e escondida, o que justifica
Eu
não ter avistado ainda tal formosura
Era
aquela uma flor branquinha como a paz
De
singela e pura figura
Mas
em suas linhas finas e simples enxergava-se
A
mais completa perfeição
Maior
do que nota-se
Nas
outras duas; esta é digna de maior afeição
Sublime
e humilde a um tempo, esta flor não tem maldade
Portadora
da inocência cândida, porém sábia, o que
independe de idade
Com
o néctar mais doce e mais puro que o mel
Esta
flor indica às boas almas o caminho para o céu!
Larguei
imediatamente das outras flores e corri àquela
Ela
fitou-me, com sua expressão alva e bela
E
então vi que nesta flor havia bem mais do que aparentava seu
exterior
Sabia
que esta sobreviveria, mesmo se o destino com ela cruel fosse; este
traiçoeiro senhor!
A
todas as outras a tormenta abateria
Mas
esta com certeza, a menor e aparentemente frágil, resistiria
E
de ser magnífica e humilde não deixaria!
Perguntei
a ela se queria ser colhida, para morar em meu coração
Ela
respondeu que este lhe seria um maravilhoso quinhão!
As
duas antigas competidoras ficaram com ar abobado
Diante
de uma florzinha haviam se esmigalhado!
O
nome da florzinha é Frodo Bolseiro
Superior
ao da beleza o embusteiro
Pois
está muito acima de tais coisas efêmeras
Reflete
em sua alma a mais bela das inflorescências
A
inflorescência do Bem, que está acima de todo o resto
que sobra
Frodo
é o símbolo máximo desta obra
E
é por isso que não tem nenhum espinho
E
que adorna o mais belo caminho
E
o indica àqueles de boa comoção
Por
isso, eu a colhi; ela está bem abrigada
Em
meu ser, que a resguarda
Sempre
carregarei, feliz e contentada
Frodo
Bolseiro em meu coração.
