Capítulo 2: A situação muda: surge Charlotte
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Respondendo aos reviews...
Pinky-chan: Sabe qual é o motivo de precisar ter bons conhecimentos em HagaRen? Daqui para frente, várias citações à série serão feitas. Vale dizer que ela é uma espécie de continuação, com toques de universo alternativo, e por isso não será 100 fiel ao anime. E, como não poderia deixar de ser, muito obrigado por perder seu tempo com uma autorazinha medíocre como eu!
Agora, sem mais delongas, à fic!
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"Ai, que dor de cabeça... onde é que eu estou?".
Jack abriu os olhos, completamente zonzo. O lugar estava escuro, e cheirava a remédio. Havia algo gelado sobre sua testa, e qualquer coisa em sua mão grudava, como uma pomada. Tentou se levantar, mas seu corpo todo dolorido o fez ficar onde estava. Olhou em volta. Parecia uma enfermaria comum, sem nada de extraordinário.
"Será que eu não consegui sair do lugar e o Martin me trouxe para cá?", ele não pôde deixar de pensar. Mas ele nunca havia visto aquele lugar, então como seria possível? E por que a sua cabeça doía tanto? Será que ele conseguiria? Será que não, e que aquilo era um devaneio? Ou, talvez, outro sonho como os que tivera anteriormente?
–Ei, cara, você já acordou? – de repente, surgida do nada, apareceu uma garota bem na sua frente – Você levou um tombo feio, como está?
–Bem, eu acho – balbuciou Jack – Quem é você? Onde eu estou?
–Meu nome é Charlotte Aerion – apresentou-se a garota – e, nesse momento, você está na enfermaria do quartel-general da Cidade do Leste.
–Como é que é? – ele disse, mas antes que ela respondesse ele esbarrou num copo que estava sobre o criado-mudo e o derrubou, fazendo-o se espatifar no chão – Ah, droga, desculpe!
–Não tem problema, eu cuido disso num instante! – ela disse, sorrindo, depois tirou um papel do bolso, desdobrou-o no chão e colocou sobre ele todos os cacos de vidros. Depois, com cuidado, tocou nas bordas do desenho e, com um brilho púrpura, o copo voltou a ficar inteiro.
Foi só nesse momento que Jack finalmente percebeu o que havia acontecido. Ele conseguira. Atravessara a porta, e aparentemente não estava lhe faltando nenhum pedaço. Querendo não parecer muito idiota, perguntou inocentemente:
–Você é uma alquimista?
–Sim, mas ainda não profissionalmente – respondeu Charlotte – Eu tenho estudado para me tornar uma alquimista federal, mas as provas são dificílimas. E você, também é?
–Não exatamente. Mas eu gosto de pesquisar, sabe? É um assunto muito interessante – e mudou de assunto bruscamente – O que houve comigo?
–Não sei ao certo. Só sei que o encontrei estatelado no meio da calçada ali em frente, e que você estava meio machucado. Ah, esqueci de perguntar! Qual é o seu nome?
–Jack... Jack Smith – respondeu o próprio – Como é que eu estou?
–Nada muito grave. Você não quebrou nada, mas está cheio de hematomas, como se tivesse rolado em cima de um monte de pedras. De onde veio?
–De bem longe daqui.
–Tem algum lugar para ficar?
–Não...
–Não se preocupe, há alguns quartos livres no alojamento daqui, duvido que não o deixem ficar até você se ajeitar – ela sorriu. "Caramba, gostei dela!", pensou Jack, contente com a sorte que tivera.
Sorte, sim, porque não é qualquer um que poderia encontrar uma pessoa tão simpática depois de passar cinco minutos acordado. Ela não era muito alta, nem muito magra, tinha uma estatura mediana. Os cabelos eram castanhos escuros, longos e ondulados, presos, e os olhos eram castanhos e amendoados. Usava uma saia preta na altura dos joelhos, sapatos pretos, longas meias brancas, uma camisa branca de mangas longas e uma gravata azul-escura. Pendurado no ombro, um paletó azul-escuro com um emblema que Jack deduziu ser do Quartel-General do Leste. Um típico uniforme escolar, pensou ele, até que bem parecido com o de Hogwarts. Mas, mesmo com aquela roupa toda sisuda e séria, seu sorriso era fácil e meigo, totalmente cativante.
–E quando vou poder sair daqui? – dissera o próprio, depois de alguns instantes perdido em devaneios.
–Hoje, se quiser, mas a enfermeira acha melhor você ficar mais algum tempo por aqui, em observação. Quer ir embora hoje?
–Se possível, sim. Não me leve a mal, mas eu odeio enfermarias. Quando eu estudava, podia ficar o ano inteiro com o braço quebrado, só por não querer nem passar perto da enfermeira!
–E onde você estudava?
Aquela pergunta o pegara de jeito. Como responderia que estudava na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts? É claro que ela o acharia um maluco, então inventou logo uma história:
–Era uma escola pequena, não me lembro o nome dela agora. Ficava num vilarejo a sul daqui.
Ela pareceu satisfeita com a resposta, por isso Jack não tocou mais no assunto. Logo depois, ela ofereceu um grande pedaço de torta de frutas, que ele comeu com avidez. Alquimia dava mesmo muita fome! Depois, com a ajuda de Charlotte, levantou-se, e assim que calçou os sapatos saiu da enfermaria. De lá, foram para um pequeno pátio ensolarado e, então, para algo que parecia ser um alojamento. O quarto não era grande, parecia feito sob medida para apenas uma pessoa, com uma cama, armário, criado-mudo, mesa e cadeira.
– Esse quarto está vazio – disse Charlotte, enquanto abria a porta – Falei com o diretor enquanto você dormia, e ele te deixou ficar por alguns dias, até que arrume um lugar para ficar. Não achei sua bagagem... sabe onde ela foi parar?
–Deve ter sido roubada no meio do caminho – respondeu Jack, torcendo para que ela acreditasse em sua história – Sei lá, enquanto eu estava caído alguém pode ter passado e levado.
–Também pensei nisso – disse ela, abrindo o armário – E, por isso, pedi que lhe dessem algumas roupas usadas, que recebemos como doação. Acho que lhe servem. Sua blusa está um trapo, então vai precisar trocá-la rápido
Ele sorriu e agradeceu, e ela saiu. Quando ouviu os passos dela se afastando, passou a chave na porta e tirou todas as roupas, ficando apenas de cueca e meias. Então, começou a verificar cada centímetro do seu corpo, para descobrir o que estava faltando. Nada. Teria perdido algum órgão interno? Ele sabia que, de algum modo, a Troca Equivalente havia acontecido. O que perdera?
Suspirando, resolveu pegar a varinha e usar um antigo feitiço que a enfermeira da escola havia lhe ensinado, para ver através de sua pele e olhar seus órgãos internos. Apontou-a diretamente para o estômago e murmurou:
–Leucocorpus! – mas nada aconteceu, nenhuma faísca, nenhum brilho. Nada. Tentou outra vez, e outra, e mais outra, até que, cansado e irritado, largou a varinha. Então, algo passou pela sua cabeça.
"E se... eu tiver perdido meus poderes ao atravessar a porta?". Fazia sentido. Era uma maneira de compensar o fato de tê-la atravessado – a troca equivalente – sem ter nenhum tipo de prejuízo físico. "Então, nesse caso... talvez eu possa fazer a alquimia sem quase desmaiar toda vez!"
Pensando nisso, pegou um papel e rabiscou um círculo de transmutação. Depois, quebrou a varinha ao meio e a colocou sobre o papel. Com as pontas dos dedos, tocou as linhas das bordas e, com a maior facilidade, os dois pedaços da varinha se uniram novamente, sem que ele nem sentisse.
Ele sorriu, satisfeito. Então, perdera a magia, mas, em troca, ganhara a alquimia! Era a realização de um sonho, finalmente toda a sua pesquisa chegava a um resultado concreto. Mas, então, pensou em Martin. Como seu irmão estaria se sentindo? Estaria preocupado? Talvez, estivesse até mesmo achando que ele, Jack, havia morrido naquela porta. Riu um pouco; ele sabia que Martin sempre fora superprotetor.
Depois que trocou de roupa, e guardou os pergaminhos e a varinha numa gaveta, resolveu dar uma olhada no quarto. Sobre a mesa, havia alguns livros, que tratavam da história e da geografia daquele país, que se chamava Amestris. Folheou-os rapidamente, tentando absorver um pouco de informação para não se passar por ignorante quando encontrasse outras pessoas. Se alguém descobrisse, não saberia o que fazer.
Quando estava escurecendo, Charlotte apareceu à porta outra vez, com o jantar. Ela sentou-se perto dele, e começou a conversar. Aquela parecia ser uma tendência natural da moça, puxar assunto com alguém que conhecia há tão pouco tempo e, mesmo assim, falar como se fossem amigos de infância. Ela falava da Cidade do Leste com uma fluência que chegava até a assustar o rapaz. Será que ela já havia percebido que havia alguma coisa errada? E, se percebesse, como se explicaria? Seus medos se confirmaram quando ela perguntou:
–Fale um pouquinho de você. De onde veio? Para onde está indo?
–Bem... – ele gaguejou, até achar uma desculpa que não parecesse tão tola – Sabe, eu planejava me juntar ao exército, sabe? Eu sempre quis ser um... um...
–Um cão do exército? É, eu sei, esse nome é terrível. – ela completou a frase, com um sorriso – Você não é o primeiro, mas pessoas com a sua cabeça estão cada vez mais raras. A maioria das pessoas não nos vê com bons olhos, acham que somos culpados por metade dos problemas do mundo. E, às vezes, nem dá para culpá-los, os militares já cometeram tantos erros...
–Como assim? – Jack havia lido algo a respeito nos manuscritos, mas nada com detalhes – Quer dizer, todo mundo comete erros, não é?
–Não com essa freqüência – respondeu ela, com um sorriso triste – De uns tempos para cá, tanta coisa tem dado errado conosco... A nossa turma de cadetes é a última esperança, se não fizermos alguma coisa a reputação do exército irá para o ralo. Sabe, cara, você deu sorte, começamos as aulas na semana passada, e se você conseguir convencer o diretor eles te admitem – depois, olhou para o relógio – Ah, droga, está tarde, preciso ir para o dormitório feminino. Até amanhã, tá?
Ela saiu, deixando-o só. Algum tempo depois, as luzes se apagaram, e deixaram o rapaz sozinho com seus pensamentos. O sono custou a chegar, e veio conturbado, com sonhos que incluíam brilhos intensos, gritos de pavor e uma aura de segredo e mistério. Mas a idéia de ter alguém que se importava e que ele poderia considerar como uma amiga de verdade era acalentadora. Se estava num mundo desconhecido, a idéia de não estar sozinho sempre o confortaria.
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Acordou bem cedo no outro dia, com o toque de uma sirene. Levantou-se rápido e vestiu-se, mas quando já estava calçando os sapatos ouviu Charlotte entrar pela porta como um furacão, dizendo rapidamente:
–Consegui uma entrevista para você com o diretor Snider, mas vai ter que correr!
–Espere aí, vai com calma! – cortou Jack na hora – Do que é que você está falando?
–Lembra que você me disse ontem que queria se juntar ao Exército? – explicou ela, com um enorme sorriso – Pois bem, eu mexi uns pauzinhos e consegui uma entrevista com o diretor da Academia. Então, você pode fazer um ano de curso, já que as provas de admissão serão durante o próximo verão. O que acha? É o suficiente para você fazer uma boa prova!
–Er... bem... que ótimo, não? – sinceramente, ele não esperava que sua pequena historinha fosse levada tão a sério, mas não poderia deixar isso transparecer – O que estamos esperando? Vamos!
Ainda meio aturdido, terminou de se calçar, e rapidamente os dois já caminhavam novamente em direção aos corredores das salas da Academia. Havia um grande movimento de alunos também naquela direção, de várias idades e aparências. O prédio da Academia propriamente dita era imenso, bem iluminado e funcionava como um relógio de corda, tamanha a organização que havia lá dentro.
–O importante aqui é recomendá-lo às pessoas certas – dizia Charlotte, enquanto cruzavam a enorme porta – O diretor é meu amigo, e aqui estudam os filhos de alguns dos mais influentes coronéis e tenentes de todo o Exército.
–Mas como eu vou pagar por tudo isso? – sussurrou Jack, exasperado com a bola de neve em que sua mentirinha havia tornado – Com uma coisa desse tamanho, os livros devem ser caríssimos!
–Ah, que nada, tudo isso é financiado pelo Estado, a gente não gasta nada aqui – respondeu a moça, rindo – Aqui você é pago para estudar, e recebe tudo: livros, uniforme, tratamento médico... Você deu sorte, começamos o ano há apenas uma semana, então acho que não vai ter problema nenhum em eles te aceitarem. Mas espero que você seja bom, porque vai ter que aprender em um mês o que nós vimos em três anos.
Eles passaram por uma parede com várias fotos, e, no topo, um letreiro, onde estava escrito Grandes nomes do Quartel General do Leste. A maioria das fotos parecia muito antiga, como se tivesse pelo menos setenta anos. Jack parou um pouco, como se visse algo familiar nelas.
–Esses são aqueles que fizeram alguma coisa realmente grande pelo Exército um dia – disse Charlotte, também contemplando as fotos – Vê aqueles dois no canto? São a primeira-tenente Riza Hawkeye e o coronel Roy Mustang, o Alquimista das Chamas. Foram eles que descobriram que o general era, na verdade, um homúnculo.
–Um o quê?
–Em que planeta você vive, hein? – disse ela, rindo – Basicamente, é um ser humano criado alquimicamente. Diz a lenda que eles têm poderes extraordinários, mas que não tem alma, e que nascem dos maiores pecados das pessoas.
–E aquele ali, o careca com a mechinha loira?
–Ah, esse é o Alex Louis Armstrong, o Alquimista dos Braços Poderosos – deu uma risadinha – Ele sempre foi meio babaca, mas já foi condecorado diversas vezes por bravura. Mas o meu favorito nessa parede é esse aqui – apontou para a foto de um rapaz de cabelos louros e olhos dourados, usando uma vistosa capa vermelha e com um sorriso malicioso nos lábios – Edward Elric, o Alquimista de Aço.
–Ele não é muito novo, não? – disse Jack, observando a foto com mais atenção – Aqui diz que ele morreu com dezesseis anos... Então ele é mais novo que você!
–Pois é, e é por isso que gosto tanto dele – confirmou ela – Ele se tornou alquimista federal com doze anos, por isso é uma lenda entre nós. Tá na cara que ele sempre foi um gênio, mas o que tinha de inteligente tinha de rebelde e malcriado. Ele era chamado de Alquimista de Aço porque não tinha um braço e uma perna e tinha colocado próteses de metal no lugar. E era um dos poucos que conseguia fazer alquimia sem um círculo de transmutação – o tom que ela usava para falar de Edward Elric era respeitoso, quase apaixonado – Nossa turma toda se inspira nele.
–Mas ele morreu muito jovem... o que aconteceu?
–Ninguém sabe. Na verdade nem sabemos se ele morreu. Um belo dia, sumiu do mapa e não apareceu nunca mais. Sinceramente, acho que ele ainda está vivo, escondido em algum canto por aí.
Os dois ficaram em silêncio, e Jack continuou estudando a foto do Alquimista de Aço. Havia algo familiar, alguma coisa que já havia visto antes, mas o quê? Decidiu não dar importância a isso e continuou vendo as fotos, até que ouviu uma voz atrás de si:
–Ora, ora, Charlotte, quem é o seu novo namorado?
–Ah, Sam, cala essa boca, ele não é o meu namorado – disse a própria, aborrecida, enquanto Jack sentia-se corar – Jack, me desculpe pela falta de modos desse imbecil, tá?
–Ah, não se preocupe – respondeu ele, esboçando um sorriso, e depois se dirigindo para Sam – Meu nome é Jack Smith, pretendo estudar aqui esse ano.
–Seja bem-vindo, cara – Sam devolveu o cumprimento – E me desculpe pela gracinha, é que eu não posso mesmo passar cinco minutos sem dizer alguma coisa desse tipo. Eu sou Samuel Mustang, mas todo mundo por aqui me chama de Sam.
–Ele é neto do Roy Mustang e de Riza Hawkeye, aqueles lá do topo da parede – explicou a garota – E, desde então, todas as gerações da família tem o mesmo emprego, mas a maior semelhança que ele tem com o avô é uma fixação inexplicável por garotas de minissaia.
Sam tinha mesmo o porte de um neto de coronel: alto e esbelto, cabelos pretos bem alinhados, olhos escuros e perspicazes, um sorriso meio sarcástico. Mas parecia ser uma pessoa agradável de se conviver, e isso bastava. Se desse sorte, poderiam conviver muito bem.
–Sam, pode me fazer um favor e avisar ao senhor Yustav que eu vou me atrasar um pouco? – disse Charlotte – Preciso levar o Jack aqui até o diretor.
–Ah, sem problema, Lotte, pode ir! – respondeu Sam, com um sorriso – Até mais! E boa sorte, cara, espero que você consiga estudar aqui!
Depois que Sam saiu, Charlotte passou a puxar Jack pelo braço até uma porta escura de madeira maciça, com a placa Escritório do diretor. Ela bateu, destemida, mas Jack estava ficando com medo. Quando disse que queria se juntar ao Exército, era só para que a garota parasse de fazer perguntas. E, se entrasse para a Academia, teria que ficar, e isso estava fora de questão. Antes de mais nada, ele precisava pensar no irmão, que deveria estar desesperado por sua causa.
Quando a porta se abriu, ele esperava encontrar um homem grande, careca e com um olhar malvado, mas o que viu, na verdade, foi um homem muito miúdo, pouco maior que o professor Flitwick, com cabelos brancos caprichosamente assentados com pente, usando óculos feitos para pessoas três vezes maiores que ele, e com uma elegante casaca azul cheia de condecorações.
–Ah, senhorita Aerion, pode entrar – disse ele, numa voz amável – Vejo que trouxe um amigo.
–É sobre isso que eu gostaria de falar com o senhor – disse ela, sem nenhum embaraço – Este é Jack Smith, ele me disse que gostaria muito de estudar aqui, e que, se for preciso, ele passa o ano todo estudando em período integral para repor os dois primeiros anos!
"Eu não disse isso!", ele pensou, lançando um olhar de profunda raiva para a garota.
–Bem, é muito difícil que, à essa altura do campeonato, você consiga acompanhar a turma – disse o diretor Snider – Mas como esse curso não é obrigatório para quem quer prestar o exame de admissão ao exército, acho que não haverá problema. Mas é melhor você procurar alcançar os seus colegas, e rápido. As provas já serão no fim desse ano letivo, e espero mesmo que a maioria da turma consiga passar.
–Isso quer dizer que... – disse Jack, inseguro.
–Quer dizer para você ir falar com a senhora Morgan para pegar um uniforme e um conjunto de livros, pois você já começa amanhã. Srta. Aerion, hoje, excepcionalmente, vou dispensá-la da aula para apresentar as instalações para o nosso novo aluno – completou o diretor, sorrindo – Mas não se engane, em um mês lhe aplicaremos um teste, para saber se você tem condições de acompanhar a turma. Se passar, efetivamos a sua matrícula, e aí sim você será um aluno de verdade.
–Obrigado, senhor! – Charlotte não cabia em si – Pode deixar, em um mês ele será o melhor aluno da sala, e eu mesma vou me encarregar disso!
Quando os dois saíram da sala, a garota pegou-o pelo pulso e, quase correndo, arrastou-o até a sala da senhora Morgan, uma velha baixinha e atarracada, quase careca, que se parecia muito com uma tartaruga centenária. Ela entregou ao rapaz uma enorme pilha de roupas e outra de livros, e também um crachá com seu nome e foto.
–Já faz algum tempo que ninguém tenta começar a escola no quarto ano – dizia a velhinha, enquanto empilhava os uniformes – Você é corajoso, rapaz, já que vai ter que se desdobrar em mil para acompanhar a turma. Boa sorte, você vai precisar!
O resto do dia foi dedicado à apresentação do prédio. Por dentro, ele parecia cem vezes maior do que visto de fora, mas depois de algum tempo andando já era possível chegar à sala sem se perder. Era parecido com Hogwarts: havia uma enfermaria, salas para todo tipo de uso, área para esportes, uma biblioteca imensa. Também havia um acesso direto ao prédio principal do Quartel General do Norte, o qual, de acordo com a própria Charlotte, "tinha uma biblioteca que fazia com que a da Academia parecesse uma coleção de gibis".
Quando terminaram de ver tudo, soou o sinal de intervalo. Eles se encontraram novamente com Sam, que, ao ver os uniformes nas mãos de Jack, deu um sorriso, e estava lhe desejando boa sorte, quando foram abordados por outra garota, mais alta que todos os outros, com cabelos violentamente vermelhos e curtos lhe caindo pelo rosto, olhos azuis penetrantes, um ar altivo e orgulhoso no rosto:
–Ah, então os boatos são verdadeiros e vamos ter um novato na classe – sorriu amavelmente – Muito prazer, meu nome é Anna Lothran – e a Charlotte – Você não perde tempo, hein? Mal o garoto aparece e você já procura uma desculpa para ficar de olho nele, né?
–Ah, cala a boca! – retrucou a outra, rindo – Na verdade ele está aqui desde ontem, ele estava meio machucado e eu o levei para a enfermaria, então nada mais justo que eu mesma o recomendasse.
Então, uma garota miúda chegou, sussurrou alguma coisa ao seu ouvido, e depois a acompanhou até sumir de vista no corredor. Os outros se encararam, sem entender nada. Então, para romper o silêncio, os três começaram a conversar amenidades, até que Lotte chegasse, com uma expressão estanha no rosto.
–O que houve? – disse Sam, preocupado – O que aquela garota queria?
–Não era nada – respondeu a garota, rispidamente – Agora, se me dão licença, preciso levar o Jack para o dormitório. Não me esperem, eu não vou jantar hoje.
O percurso até o alojamento foi feito em silêncio, e pelo resto do dia ela não voltou a aparecer. Jack aproveitou para dar uma olhada nos livros e, ao contrário do que o diretor e a sra. Morgan haviam falado, não parecia assim tão complicado, talvez porque ele sempre tinha sido um bom aluno que aprendia tudo muito fácil. Passou o dia inteiro estudando, o que tirou seu irmão da sua cabeça por algumas horas.
No dia seguinte, fora despertado novamente pela sirene, e imediatamente pôs-se de pé. Por sorte, sempre fora um rapaz organizado, e a idéia de voltar a estudar era muito boa. O uniforme lembrava muito o de Hogwarts, o que não queria dizer que, por causa disso, iria começar a gostar dele: a única coisa na escola que ele odiava era, em suas palavras, "o maldito uniforme e a maldita gravata". Mas os livros eram ótimos, muito interessantes, e falavam de tantas coisas totalmente novas para ele que não havia parado de lê-los por um instante. Sentia que se daria muito bem naquele lugar, e ficava feliz com essa certeza.
Já sabia o trajeto até a Academia de cor, e também não teve dificuldade para chegar até a sala, um local imenso, bem iluminado, com carteiras elevadas como as cadeiras de um cinema. Sam e Anna haviam guardado um lugar para ele e para Lotte nas carteiras da frente (convenientemente entre os dois primeiros), e quando eles se sentaram, o sinal tocou.
Nesse momento, entrou a professora, uma senhora altiva, de cabelos tão esticados que seriam capazes de fazer balas ricochetearem, e um olhar severo. "Ela lembra a prof. McGonnagal", ele não pôde deixar de pensar, "só falta poder se transformar num gato também.". Pouco depois, entraram os alunos retardatários, dando risadinhas.
A matéria daquela primeira aula era História. Essa sempre foi a matéria mais fraca de Jack (e, pensando melhor, de quem não seria, considerando que o professor era um fantasma?), mas mesmo assim ele anotava tudo o que ouvia. O que a professora falava fazia algum sentido, já que ele se lembrava de ter lido qualquer coisa parecida em seus novos livros. Ele terminou a aula com a sensação de que não seria tão difícil assim acompanhar o ritmo da sala.
As aulas seguintes – química, aritmética e gramática – também foram fáceis. Ele descobriu que havia muita coisa em comum com a magia e a ciência trouxa, como se tudo fosse parte de uma coisa só. A última aula do dia foi Educação Física. Essa foi a pior de todas, já que a matéria do dia era defesa pessoal. Mesmo que o professor pegasse leve, o rapaz acabou levando uma surra monumental, e no fim do dia seu corpo doía como se tivesse passado numa máquina de lavar roupas.
Quando a aula terminou, ele acompanhou Charlotte até a porta, mas quando passou pelo hall da fama do QG do leste, percebeu que havia uma foto que não estava lá antes, bem mais recente que todas as outras. Ela também era jovem, tinha cabelos castanho-claros em corte chanel, olhos castanho-esverdeados, traços suaves, um ar inteligente e perspicaz. Ela parecia tão familiar... Quando percebeu que Lotte evitava olhar a parede, então, percebeu quem era, e disse, cuidadosamente:
–A mulher dessa foto se parece muito com você, sabia?
–É porque ela é minha irmã – respondeu ela, rouca – Christine Aerion, a Alquimista de Prata. Foi assassinada por uma facção criminosa chamada Legião Negra.
–Sinto muito... – disse Jack, consternado – Então por isso você ficou daquele jeito ontem?
–É... eles me disseram que iriam colocar a foto dela aqui – ela disse, tentando sorrir, mas ele pôde ver uma lágrima escorrendo pelo seu rosto – Éramos muito unidas, sabe? E é muito difícil para mim, ela era minha única família e... e...
Ela não pôde continuar. Naquele momento, caiu num choro convulsivo e abraçou-o pelo pescoço. Embaraçado como nunca, ele tentou consolá-la, mas não sabia o que dizer. Seu irmão também era a sua família, e não queria nem pensar no que aconteceria se o perdesse. Por fim, ele a fez enxugar as lágrimas, com doçura e paciência.
Por fim, eles se separaram, no corredor que separava o dormitório masculino do feminino. Mas Jack não deixava de pensar no irmão. O que Martin estaria fazendo? Estaria preocupado com ele? Será que procurava um jeito de resgatá-lo, ou de ir atrás dele? Aquelas dúvidas o oprimiam, mas agora sabia que seria mais fácil pesquisar e descobrir uma maneira de voltar para casa. Até lá, porém, teria que ser esforçado e dedicado ao máximo.
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No próximo capítulo:
E aí, galera? Meu nome é Charlotte. Cara, é muito estranho esse garoto aparecer aqui do nada, contando umas historinhas meio esfarrapadas... Eu fiz que acreditei para ele não se intimidar, mas cedo ou tarde precisarei de respostas mais concretas. De qualquer forma, ele é super-legal, simpático, educado... Tem tudo para ser meu amigo aqui.
No próximo capítulo, vocês verão a primeira aula de alquimia do novato. Perigos imprevistos, peças que não se encaixam, sonhos confusos e muita, muita coisa nova acontecendo. Só queria saber como o Jack vai se virar com o que vai acontecer... Mas chega de pistas, a próxima parte se chama A Legião Negra ataca. Beijos a todos vocês!
