Capítulo 3: A Legião Negra ataca
Naquela mesma semana, Jack teve a sua primeira aula de Alquimia pura. Ela não foi realizada na sala, e sim em um grande galpão externo, de chão de concreto velho com vários pedaços soltando, vários quadrados pretos, cada um com uma pilha de gizes, para que os círculos fossem desenhados. Havia um único espaço desocupado, em frente à mesa do professor, o qual Jack se viu obrigado a ocupar.
Depois que todos os alunos entraram, entrou também a professora, uma mulher alta e esbelta, com o porte de uma modelo, com longos cabelos negros presos num rabo-de-cavalo alto e olhos castanhos levemente dourados. Todos os alunos emudeceram, e assim que entrou ela disse:
–Hoje nós vamos iniciar as ligas metálicas alquímicas. A alquimia é uma maneira de produzir ligas puras, leves e resistentes como as normais jamais seriam. Vocês devem ser capazes de realizar transmutações complexas, sempre respeitando a Lei da Troca Equivalente – e, de repente, lançando um olhar profundo a Jack – Mas vejo que temos um novo aluno aqui, não é, sr. Smith? Por que não pega um giz aqui na mesa e desenha um círculo, para demonstrar sua alquimia para a classe?
O estômago dele despencou, e foi com passos trêmulos e vacilantes como os de uma gelatina com pernas que ele pegou o giz e desenhou um círculo à sua frente. Depois, jogou água sobre o círculo e bateu as mãos sobre ele. O brilho branco que percorreu as linhas irradiou-se por todo o galpão, e quando terminou a transmutação não havia mais nenhuma rachadura: todo o concreto estava liso como novo.
–Hum, bem interessante, rapaz – disse a professora – Você tem potencial, mas parece que não treina há algum tempo. Isso é algo que poderemos corrigir logo – e, depois, para a classe – Hoje iremos forjar um bloco de cloródio, um dos metais mais usados em alquimia. Como vocês devem saber, ele não existe na natureza, e só pode ser obtido por esse método. Abram seus livros na página 15 e sigam as instruções.
As instruções eram muito complexas. Havia pelo menos uma dúzia de materiais, e suas proporções deveriam ser respeitadas rigorosamente. O círculo também era diferente de todos os que já havia visto, com símbolos e curvas estranhos. Mas, mesmo que aparentemente não compreendesse, sentia que aquilo tudo fazia todo o sentido. Olhou para trás, e viu que Charlotte tinha uma enorme facilidade para lidar com aqueles cálculos todos. Realmente, ela era o máximo.
Depois de meia hora, a professora mandou que todos parassem de adicionar ingredientes. Quando todos já haviam acabado, a professora, sem dizer uma palavra, ajoelhou-se sobre o próprio círculo e bateu as mãos nas linhas das bordas. Um brilho verde subiu do círculo, e em questão de segundos todos os materiais haviam dado lugar a um bloco de metal esverdeado, que parecia ser mais ou menos do tamanho de um caixa de fósforos grande. Os alunos a imitaram, mas a maioria não conseguiu nem juntar todos os ingredientes num bloco só. Jack, porém, conseguiu, assim como Charlotte. Depois que terminou, ele sentia-se exausto, mas ao ver o reflexo verde à sua frente depois da transmutação sentiu-se mais feliz que nunca.
–Hum... não está ruim, para a primeira tentativa – disse a professora, quando percebeu que todos haviam terminado (ou desistido) – Vejo que houve pessoas que conseguiram um bloco de cloródio, outras que chegaram bem perto. Continuem tentando, e na próxima aula quero que tragam os resultados para que eu os avalie. Agora podem ir. Ah, sr. Smith, por favor, fique um pouco, quero falar com você.
Quando todos saíram, Jack sentou-se em frente à professora, que disse:
–Acho que não fomos apresentados – estendeu-lhe a mão – Sou Ivy Tarkil, e acho que vou ser sua professora de alquimia pelo resto do ano. Vi que você tem um grande potencial para um rapaz tão jovem, o que é raro em alguém da sua idade.
–Obrigado, professora – ele respondeu, lisonjeado – Mas eu sou só um cara curioso, e me interesso por esse tipo de assunto. Mas pretendo passar no exame para alquimista federal, se possível – era óbvio que aquela era a mentira mais descarada possível, porque ele pretendia voltar para Londres o mais cedo que conseguisse – Quem sabe um dia não vou para o hall da fama? É uma chance...
–Pois é, alguns dos que estão lá passaram por esses bancos – respondeu a sra. Tarkil – Christine Aerion é um deles, ela foi uma das minhas melhores alunas. A propósito, acho que você é amigo de Charlotte Aerion, a irmã dela, não é? – ele confirmou – Também uma excelente aluna, com um bom futuro. Espero que você absorva algo dela enquanto estiverem juntos, certo? – deu uma piscadinha – Pode ir, rapaz, mas se puder dê uma passada na biblioteca do QG e olhe esses livros – empurrou-lhe um papel – Até a nossa próxima aula, e espero que você se dedique bastante.
Ele se despediu e saiu, correndo em direção à biblioteca do Quartel, que era realmente imensa. Havia uma seção inteira dedicada apenas à alquimia, com livros que pareciam ter séculos de idade. Folheou alguns, fascinado. Haviam vários símbolos e fórmulas estranhíssimas, círculos complexos, transmutações que pareciam inimagináveis, mas em todas havia o mesmo aviso de que, se a Lei da Troca Equivalente não fosse cumprida, danos sérios poderiam ocorrer. Porém, em nenhuma delas havia a simples menção à porta, ou a qualquer coisa que a valesse.
De repente, sentiu uma mão sobre seu ombro, e ouviu uma voz austera às suas costas:
–Ora, ora, ora, vejo que a profª Tarkil mandou mais um de seus talentosos pupilos até aqui, não é?
–O quê? – disse Jack, virando-se assustado – Quem... quem é o senhor?
Quando se virou, viu que quem falava era um homem muito alto e forte, com cabelos fartos, curtos e acinzentados e olhos azuis escondidos atrás de óculos. Havia também uma cicatriz que atravessava uma das maçãs do rosto desde a base do olho até o queixo. Ele parecia tão familiar...
–Ah, você deve ser o aluno novo, não é? – disse o homem, amavelmente – Eu sou o marechal Cyriant, e vim para a Cidade do Leste a negócios. Os professores tem me falado muito de você, sr. Smith, que você é um aluno dedicado e que tem um talento natural para a alquimia – e, em tom de confidência – Sabe, eu sempre quis ser um alquimista, mas nunca tive muito jeito.
–Bem, senhor, eu me esforço – respondeu o rapaz, sem tirar os olhos do marechal. Havia algo estranho nele, algo familiar, mas não pôde dizer o que era – Pretendo ser um bom militar e um bom alquimista, entende? E tenho bons amigos, como a Charlotte, o Sam, a Anna...
–Oh, sim, eu os conheço, realmente são bons alunos – retrucou o marechal, que parecia meio estranho depois que falou dos seus amigos – Bom, espero que você goste muito daqui, rapaz, estamos sempre de portas abertas para jovens esforçados e dedicados. Ainda vou ficar aqui por mais alguns dias, garanto que nos veremos outra vez.
–Assim espero – concordou o outro, não tão certo assim – Preciso ir, tenho lições para fazer ainda hoje. Mas foi um prazer conhecê-lo, senhor, até breve.
Jack saiu rápido, depois de registrar os livros que emprestara. Por que havia algo no marechal que o deixava desconfiado? Algo no olhar dele parecia tão familiar, e ao mesmo tempo tão estranho... Foi com esses pensamentos que se trancou em seu dormitório e atirou-se em sua cama, e começou a brincar com o pequeno bloco de cloródio em suas mãos. Pesava em torno de um quilo, e tinha uma engraçada cor verde-escura, bem brilhante e límpida. Também era bem pesado e duro como concreto.
De acordo com os livros, o cloródio era um metal raríssimo, que poderia ser obtido pela alquimia. Seus usos eram variadíssimos: medicina, mecânica, eletrônica e até como matéria-prima para outras ligas alquímicas. Resolveu repetir a transmutação para ver se não havia conseguido por sorte, e teve a confirmação de que era realmente bom quando fabricou outro bloco de cloródio com a maior facilidade.
"Isso sim é estranho", pensou ele, analisando os dois pedaços do metal à sua frente. "Eu faço isso há menos tempo do que todos aqui, então por que sou tão bom? Será que a porta tem algo a ver com isso? E se eu perguntasse alguma coisa para alguém, será que...? Ah, não, ou me achariam maluco ou me veriam como um perigo, é melhor eu ficar quieto".
De repente, ouviu socos na porta, e assim que abriu Sam entrou esbaforido, dizendo rápido:
–Você vai ter que me dizer como fez aquilo! – ele estava ofegante – É sério, eu preciso de uma nota boa com a Tarkil e, para isso, preciso aparecer com um bloco de cloródio pronto na próxima aula!
–Divirta-se – disse Jack, jogando um dos blocos na direção do amigo – Onde estão as garotas?
–Anna está numa aula de tiro e Lotte está na biblioteca – respondeu o outro – Vamos ter a tarde livre, o que acha de darmos uma volta pela cidade?
–Podemos fazer isso?
–Ora, é claro! Venha, vou te mostrar o lugar!
A cidade era mesmo um lugar muito interessante. O QG e a Academia ficavam bem no centro, e no mesmo quarteirão ficava a prefeitura. Em volta, havia uma infinidade de lojas, pessoas e veículos diferentes, e o movimento era tão grande que fazia Londres parecer uma cidade do interior. Sam ia apresentando as lojas uma a uma, e às vezes cumprimentava as pessoas que passavam. A variedade de tipos era realmente muito divertida.
–Nem se você andasse por aqui uma semana inteira ia conhecer tudo – dizia Sam – Mas o importante é conhecer o centro. Minha mãe mora por aqui, sabe? Ela tem uma loja de materiais para alquimia, a maior da cidade, que fica no mercado. Depois eu a apresento a você – e olhando diretamente a Jack – Mas, mudando de assunto, é verdade que você conversou com o Marechal?
–É, sim, por quê?
–Bem, eu sou filho do Coronel e mesmo assim só falei com ele pessoalmente duas ou três vezes. Você é um cara de sorte, sabe?
Então, os dois passaram em frente a uma banca de jornais. Um deles, o maior, trazia em garrafais letras vermelhas a manchete ATAQUE A ALUNOS DA ACADEMIA CENTRAL.
–Cara, o que é isso?! – exclamou Jack, pegando um dos jornais – Como assim?
–Me deixe ver isso aí! – respondeu Sam, lendo sobre o ombro do outro – Caramba, como é que eles conseguiram isso?! Ouve só: "Na manhã passada, um grupo de dez alunos da Academia do Quartel-General Central foram atacado dentro das próprias instalações da escola. Dois deles sofreram ferimentos graves na cabeça e nas costas, outros três tiveram braços quebrados e o restante, escoriações e hematomas. O grupo pesquisava o uso da alquimia na medicina e, segundo boatos e depoimentos de alunos que testemunharam o caso, o ataque pode ter sido provocado pela organização terrorista conhecida como a Legião Negra, conhecida por, no passado, ter feito várias vítimas dentro de todos os QGs do país, em especial alquimistas e estudantes de alquimia".
–E isso não é tudo! – emendou Jack, continuando a leitura – "Sabe-se que todos eles tinham alguma ligação de parentesco com outros militares que ocupavam altos postos pelo país. Por essa razão, a direção da Academia decidiu reforçar a segurança para os alunos, restringindo saídas e entradas e estabelecendo um toque de recolher num raio de um quilômetro ao redor do QG e, estuda-se, essa medida pode ser aplicada também às outras Academias de Amestris". Trocando em miúdos, se houver outro ataque, vão nos prender dentro da Academia!
Eles compraram o jornal, e voltaram rapidamente para o QG. Na hora do jantar, sentaram-se no refeitório junto com Anna e Charlotte e mostraram a notícia a elas. Ambas ficaram brancas como leite. Todos os alunos já estavam sabendo também, e logo uma inflamada discussão sobre esse assunto se formou ao redor da mesa deles.
–Eu tenho um tio que trabalha lá – disse uma garota baixinha, de cabelos pretos e lisos bem longos e presos em duas tranças e de olhos bem puxados – Ele viu tudo, e me disse que foram uns caras enormes, vestidos de pretos até a cabeça e armados com bastões. De acordo com ele, os caras sabiam exatamente em quem iam bater, e assim que os alunos apareceram eles surgiram como que das sombras! O resto da história todo mundo conhece.
–Pois é, e outras histórias mais cabeludas também estão aparecendo – disse outro garoto, parecido com a primeira – A que a Lin está contando foi praticamente a mesma que saiu no jornal. A descrição que esse cara deu dos agressores bate com a da Legião Negra...
–Quem é a Legião Negra? – Jack não resistiu e perguntou, sabendo que já ouvira esse nome antes. –Eles são uma organização terrorista – respondeu Charlotte, com um tom estranhamente amargo – Até uns nove ou dez anos atrás, saíam pondo medo e fazendo o que queriam pelas cidades do Leste, do Oeste e a Cidade Central. Até os próprios militares tinham medo deles, e nessa época vários alquimistas federais morreram, inclusive a minha irmã.
–Ah, me desculpe, Lotte, eu não queria tocar nesse assunto – emendou-se o rapaz – Mas e então, o que aconteceu depois?
–Não se sabe – respondeu a garota – Tudo o que se sabe é que depois de matar a Christine eles sumiram no mundo. Nunca conseguimos prender nenhum deles, e nem temos idéia de quem eram. A verdade é que a Legião Negra existe há mais ou menos oitenta anos, e surgiu um pouco depois do desaparecimento do Edward Elric. De tempos em tempos, eles reaparecem, saem fazendo bagunça e depois somem como se dissolvessem na terra.
–Aqui no jornal diz que eles atacaram filhos de outros militares com uma patente mais alta – manifestou-se Anna – O que quer dizer que tem bastante gente ameaçada aqui também. Pensem só, depois da Central, a Academia do Leste é a melhor escola do país, é lógico que o próximo alvo será aqui – olhou todos a sua volta – Ou seja, todos nós corremos risco também.
–Todos nós, Lothran? – disse outro garoto, zombeteiramente – Não somos todos filhos de militares.
–Pode ser, Althor, mas pense só – Anna não desistia, mas pareceu um tanto desconfortável depois da fala do rapaz – Em que lugar do país se desenvolve a maior pesquisa depois da Cidade Central? – e para todos – É aqui mesmo. Aqui se pesquisa desde medicina e alquimia até desenvolvimento de armas. É através dos alunos que esses caras estão tentando atingir o Exército.
–Mas por quê? O que exatamente eles estão querendo? – quem falava era Sam – Não vai adiantar aumentar a segurança apenas para os alunos, temos que descobrir do que a Legião está atrás.
–E assim protegê-lo, antes que seja roubado – completou Jack, lembrando-se de histórias que ouvira, em Hogwarts, sobre uma tal pedra filosofal e dos problemas que ela causara – Faz sentido.
–Tudo o que sei é que esse foi o primeiro, mas não vai ser o último ataque, podem escrever isso – retrucou Lin – Se a Anna estiver certa, a Academia do Leste será a próxima, e quem garante que dessa vez eles só vão dar uma surra? E se a ordem deles, depois, for "localizar e destruir"?
–Não vale a pena ficar pensando em bobagens – cortou Lotte – Nada vai nos acontecer, porque o diretor logo vai tomar uma providência para nos proteger.
–Ele vai nos prender nos alojamentos, isso sim – rebateu Anna – Toque de recolher, restrição de saídas... É claro que vai acontecer a mesma coisa aqui!
A discussão continuava animada, até que uma voz pelos alto-falantes anunciou o fim da hora do jantar. Quando eles saíram do refeitório, a mesma garota de olhos puxados chamou Jack, acompanhada pelo rapaz parecido com ela, possivelmente seu irmão. Já foi dizendo:
–Acho que ainda não fomos apresentados – ela apertou a mão dele – Sou Lin Wukong, e esse é o meu irmão Chow. Ouvimos o que você disse.
–Por que é que eu nunca vi vocês dois nas aulas? – perguntou Jack – Eu conheço todo mundo da turma do último ano, sabe, e nunca os vi.
–Isso é porque nós estamos no segundo ano do curso, ainda – respondeu Chow – Lin está estudando para ser médica, e eu para ser um cientista. Ficamos sabendo que você é um ótimo alquimista, sabe?
–As notícias correm por aqui, mesmo – disse o outro, sentindo as orelhas quentes.
–O que você queria? – quem disse foi Lin, rindo – Passamos a maior parte do tempo aqui dentro, nossa maior diversão é falar da vida dos outros, não é?
Riram mais e começaram a conversar animadamente. Lin e Chow vieram de Xing, um país no extremo leste de Amestris. Os dois eram filhos de uma família de pesquisadores que os mandou até Amestris para estudarem, e eles tinham a idéia de também se tornar alquimistas federais, se possível.
–É necessário ser versátil, sabe? – falou Chow, ao explicar o que os dois faziam em Amestris – Mais da metade dos alunos daqui quer ser um alquimista federal, usar um relógio legal e já entrar no exército como Major, mas eu já penso diferente. Em Xing, usamos a alquimia para pesquisas e medicina, e é assim que quero continuar. Se quisermos fazer isso, aqui é o lugar onde teremos mais apoio do governo. Sem falar que, se passarmos na prova, teremos acesso a todo o acervo do país.
–Em outras palavras, o sonho de vida do Chow é ficar sentado atrás de uma mesa – cortou Lin, rindo – Ele vive dizendo que não quer se envolver com batalhas e brigas por aí.
–Então como pretende continuar no exército? – agora quem ria era Jack – Lembre-se, se te convocarem, você terá que ir sem reclamar!
–Eu sei, mas prefiro não pensar nisso agora.
Por fim, eles chegaram os dormitórios e se separaram. Quando a luz se apagou e ele esborrachou-se sobre sua cama, pensamentos confusos brotavam de todos os cantos de sua mente. Por um lado, sentia-se feliz e realizado, fazendo algo de que gostava e com vários amigos à sua volta, mas por outro a saudade e a preocupação com o irmão o deprimiam. Na certa, Martin pensava que ele estava morto, ou coisa pior. Precisava encontrar uma maneira de voltar para Londres, para sua casa, o mais cedo possível.
Mas parecia haver algo naquela história que não batia. Charlotte parecia extremamente abalada ao ouvir sobre a Legião Negra. Tudo bem, eles haviam matado a sua irmã, mas ela parecia saber mais do que dissera. Anna também parecia esconder algo grave. Mas, depois pensou, se até mesmo ele próprio escondia coisas, como poderia julgar? Com esses pensamentos, dormiu profundamente, tendo sonhos confusos.
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Os dias passavam, e a prova de admissão de Jack se aproximava cada vez mais. Ele estudava como um louco, coma ajuda paciente de seus amigos, e isso ocupava todo o seu tempo livre. Nas poucas horas vagas, pesquisava uma maneira de voltar para Londres, sem que os outros percebessem. Os professores já o tinham em alta conta, e o ajudavam em tudo.
Mesmo assim, ele não tivera coragem de contar a ninguém que viera daquela porta. Na verdade, nem fazia idéia de quantas pessoas sabiam da existência da passagem entre Londres e Amestris. Será que outras pessoas haviam feito o mesmo que ele? Havia alguns poucos que fizeram o caminho inverso, e ele tinha razões para acreditar que aquele rapaz, Edward Elric, fora um dos que conseguiram.
O marechal permanecia no Quartel do Leste, e tinha um interesse particular por ele. Sempre que o encontrava na biblioteca, incentivava suas pesquisas, dizendo que era de rapazes dedicados e inteligentes como ele que o Exército precisava. Isso era um pouco estranho, já que havia vários outros estudantes pesquisando ao mesmo tempo e o marechal falava apenas com ele. Havia, também, algo muito familiar naquele rosto, algo que lembrava alguém próximo, um amigo.
Ele também ficara sabendo de ataques isolados por todo o país atribuídos à Legião Negra. A cada notícia que surgia, Charlotte ficava mais acabrunhada, e os outros alunos, mais assustados. Parecia apenas uma questão de tempo até o próximo acontecer na própria Academia.
Um dia, numa tarde particularmente quente, eles estavam no pátio, jogando conversa fora depois da aula. Conversavam animadamente, e não perceberam quando sombras moveram-se muito rápido ao redor deles.
–Viram alguma coisa? – a primeira a perceber foi Lin, que olhou em volta assustada. De repente, Anna também se virou, com sobressalto, e fez sinal para que todos se calassem. Imediatamente, todos ficaram de pé, em posição de ataque.
–O que foi? – sussurrou Chow às duas – O que vocês viram?
Mas não houve tempo para respostas. No décimo de segundo seguinte, vários vultos encapuzados surgiram de todos os lados. De costas um para o outro, os amigos se viram cercados por pelo menos quinze pessoas totalmente vestidas de negro. E já no outro instante, eles começaram a bater com os punhos, pés e bastões. Jack foi quem mais apanhou: por estar totalmente cercado e desarmado, além de não ser tão forte como os outros, não conseguia se esquivar. Charlotte e Lin faziam o que podiam para protegê-lo, enquanto, do outro lado, Anna, Chow e Sam tentavam expulsar os invasores.
–PEGUEM ELES! PEGUEM TODOS! NÃO OS DEIXEM FUGIR! – eles berravam sem parar, como se quisessem deixar claro que estavam lá para dar a eles uma lição que nunca esqueceriam.
Então, depois de alguns minutos longos e assustadores, Jack ouviu um grito feminino, e ao se virar viu Charlotte batendo as mãos no chão e fazendo surgir pontas no chão, que faziam os agressores se desequilibrarem. Aproveitando a deixa, Sam desenhou rapidamente um círculo na mão, com caneta esferográfica, e passou a atear fogo nas roupas de quem entrasse em seu alcance. Lin transmutava as pedras do chão em bolas com pontas e as atirava por todos os cantos. Jack, com esforço, conseguiu se levantar e acertar alguns, e Anna, quando viu que Chow estava cercado, saltou, chutou e acertou socos nos oponentes. Por fim, depois de uma luta feroz, os invasores correram de volta e pularam o muro.
–Devemos agradecer ao sr. Klunx – disse ela ofegante, caindo de joelhos sobre o chão – As aulas de defesa pessoal realmente foram úteis. Vocês estão bem?
–Na medida do possível, sim – respondeu Sam, levantando-se – É melhor irmos para a enfermaria e, de lá, falar com o diretor. Aqueles caras vieram aqui atrás de nós.
–Esse ataque segue o padrão dos outros – concordou Charlotte, sentada no chão, analisando o próprio joelho esfolado que vertia sangue sobre a meia – Um grupo relativamente numeroso de alunos, espancado por um grupo de invasores três vezes maior. Quase todos nós somos alquimistas, sem falar em quem tem algum parentesco com outros militares. E eles sabiam quem éramos e vieram justamente para nos pegar. Na certa, ficaram vigiando por dias.
Eles foram até a enfermaria, cada um num estado pior que o outro. A enfermeira, ao vê-los com hematomas, escoriações, roupas rasgadas, cabelos desalinhados, ficou horrorizada. Chow, que estava em pior estado, havia quebrado três dentes e destroncado a mão, e Jack quebrou uma costela. Os outros, apesar de muitas marcas e do corpo todo doendo, estavam mais ou menos inteiros, e por isso, logo depois dos curativos, foram correndo falar com o diretor.
–Isso é estranho – disse Chow, fraco, deitado e já enfaixado – A escola é imensa, e os filhos de praticamente todo o alto escalão do leste estudam aqui. Por que justamente nós?
–Pois é – respondeu Jack, um pouco tonto – Eu não sou filho de nenhum cara importante, estou aqui há menos de um mês. Você e a Lin tem um tio no QG Central, mas a patente dele não é muito alta, é? Acho que a Anna também não tem nenhum parente importante, então só sobram o Sam e a Lotte, mas a irmã dela já morreu...
–A verdade é que eles conseguiram furar a segurança daqui. E agora, pode ter certeza de que isso aqui vai virar uma prisão.
–Nem me fale... Ai, minha cabeça! Preciso levar as aulas de defesa pessoal mais a sério. Mas o pior de tudo é que a minha prova de admissão vai acontecer logo, e preciso estar inteiro até lá.
Minutos depois, o diretor apareceu, seguido do marechal e de variar outras pessoas. Sam, que tinha um enorme esparadrapo na testa, estava ao lado de um homem praticamente idêntico a ele, com os cabelos um pouco grisalhos, e Anna, com a mão enfaixada, estava na porta, longe de todos. Nem Charlotte nem Lin estavam lá. Assim que entraram, o diretor já foi dizendo:
–Era só o que nos faltava! Um ataque aos nossos alunos! – exasperado, ele parecia duas vezes mais alto – E somente uma organização como a Legião Negra poderia ter furado a segurança daqui.
–Não sejamos precipitados, Ludwig – observou o marechal, amavelmente – Talvez sejam só alguns desordeiros que estão se aproveitando da fama da Legião.
–Não é tão simples assim, senhor! – interrompeu Chow – Eles sabiam quem éramos, todos nós.
–Mesmo assim, vocês não precisam se preocupar. Todos nós tomaremos as providências necessárias para que isso não se repita – dessa vez quem se manifestava era o homem ao lado de Sam – A segurança daqui será reforçada, para que coisas como essa não voltem a acontecer.
–Existe algum suspeito, senhor? – perguntou Jack, a cabeça ainda doendo.
–Estamos apurando o caso ainda, meu rapaz – respondeu o diretor – Garantimos que em breve pegaremos o responsável por esses ataques todos – mas Jack nunca ouviu as últimas palavras, pois acabou caindo num sono profundo. Acordou horas depois, com Charlotte à sua cabeceira, Lin sentada ao lado e Anna ao pé da cama.
Tentou se levantar, mas o corpo doía retumbantemente. Olhou para o lado e viu Chow profundamente adormecido, com Lin massageando os cabelos do irmão. Sam estava de pé, perto da porta. Todos tinham olhares graves e sérios, e ele pôde ver que Lotte tinha alguns papéis nas mãos.
–Gente, o que foi que houve? – deu um sorriso fraco – É sério, estou bem, não precisam ficar olhando com essa cara de enterro pra mim!
–Sam, pode fechar a porta, por favor? – Lotte evitou olhar diretamente para Jack, enquanto o outro passava a chave no trinco – Fique vigiando, não quero que a enfermeira nos interrompa.
–O que aconteceu? – o comportamento estranho de seus amigos começou a assustar o rapaz – Vocês estão tão estranhos...
Nesse momento, Lotte abriu com cuidado os papéis que segurava, e colocou-os sobre o colo de Jack. Ele, ao ver do que se tratava, sentiu a cor sumir do rosto, enquanto percebia os olhares acusadores dos outros sobre si. Aqueles eram os pergaminhos, junto com sua varinha e uma foto dele com o irmão, tirada no dia de sua formatura em Hogwarts, que sempre trazia com ele.
–É melhor você começar a explicar tudo isso aqui direitinho, senhor Jack Smith – murmurou Charlotte, os olhos estreitos e ameaçadores – E sem mentiras, dessa vez, ou vai se arrepender.
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No próximo capítulo:
ANNA: Como é que ele pôde fazer isso conosco?
LIN: Você tem razão, ruiva, eu adoraria arrancar a verdade dele.
SAM: Ah, qual é, meninas, deixem o cara se explicar. Garanto que ele teve seus motivos. Acho que, no lugar dele, nem eu mesmo confiaria em vocês.
CHOW: O que é que você está insinuando, hein?
SAM: Nada não, nada... (gota)
CHARLOTTE: Parem de falar abobrinhas, vocês todos. É por isso que ninguém leva as cenas dos próximos capítulos a sério. Ele está errado, sim, mas agora é a hora de sua defesa. Deixem ele falar. No próximo capítulo, explicações, discussões e início do tão esperado teste de ingresso na Academia. Quero ver todos vocês aqui para ler Segredos revelados. Até lá!
JACK: (acorda) O que é que tá havendo aqui, hein?
SAM: Não acredito que você dormiu o epílogo inteiro!
JACK: Ahn... e o que eu perdi?
CHARLOTTE: Você já vai descobrir...
