Título: The Same Old Mistakes

Autora: Samantha Tiger Blackthorn

Beta: Ifurita

Casal: Aoi x Uruha

Tema Musical: Same Mistake – James Blunt

Classificação: NC-17

Gênero: Yaoi, Romance, Drama, Angust

Resumo: Temos o livre arbítrio, não temos? Nem sempre. De vez em quando, se persistimos muitas vezes no mesmo erro, o destino nos prega peças e a vida nos dá uma nova chance para cometermos novos erros, mesmo que não peçamos por ela.

Avisos: Essa é uma estória Yaoi, mostra o relacionamento entre dois homens, se não gosta não leia.

Disclaimer: Esses homens lindos e talentosos não me pertencem, o que é uma pena, apenas tomo a liberdade e o atrevimento de me divertir com eles.

Dedicatória: Para minha querida Amiga e Beta Lady Anúbis, um presente pelo seu aniversário, com todo meu amor. EU TE ADORO MINHA 'CABEÇA DURA' PREFERIDAAA! *grita* Foi escrita com carinho, e o meu único objetivo é agradar você. Espero que aprecie ao ler, tanto quanto adorei escrever.

FELIZ ANIVERSÁRIO! *atrasado*


The Same Old Mistakes

Seu alívio era que ela injetava os remédios pela entrada do soro, evitando assim novas picadas. Mal os dois amigos chegaram e o médico entrou, com a papeleta na mão.

- Bom dia, sou o doutor Mitsuo Tanaka, médico responsável pelo paciente.

2ª Parte

Depois do rápido bom dia sorridente, examinou-o rapidamente, tirando sua pressão, conferindo os batimentos cardíacos no seu pulso, seus reflexos, verificando o enorme galo em sua cabeça assim como os ferimentos mais leves, confirmando que estavam cicatrizando perfeitamente.

Aoi esticou o pescoço vendo que ele notava tudo silenciosamente naquela prancheta, com uma letra totalmente ilegível. Achava um desperdício de tempo tantas anotações mesmo, afinal, quem ia conseguir ler aqueles garranchos? Mas se manteve em silêncio, vendo-o finalmente parar de escrever e pousar o olhar em si.

- Muito bem, Shiroyama-san, me parece estar em perfeitas condições de terminar a sua recuperação em casa. A não ser pelo pequeno lapso em sua memória, o que é perfeitamente esperado em casos como o seu, está tudo normal...

- Mas ele vai se lembrar de tudo depois doutor Mitsuo? – Ruki indagou preocupado com a perda de memória do moreno.

- Ele vai se lembrar aos poucos, de quase tudo. Há coisas que não, mas a maior parte sim. A amnésia foi bem leve, ele esqueceu apenas as últimas vinte e quatro horas.

- E ele está bem, pode retornar à vida normal? – Desta vez foi Kai quem perguntou.

- Sim, com algumas restrições. Nos primeiros quatro dias, seria melhor que ele não voltasse ao trabalho, depois disso voltar ao ritmo progressivamente. No primeiro dia duas horas, nos outros dias acrescendo duas por dia, até que possa retomar o trabalho integralmente.

- Que maravilha! – Aoi disse baixo, aliviado de sair daquele lugar que lhe fazia mal. – Não vejo a hora de sair daqui e voltar para minha vida, voltar para a tranqüilidade da minha casa...

- Mais uma coisa... – O médico ressaltou. – Até a consulta de retorno, daqui a dez dias, ele não deve ficar sozinho. Será melhor se ficar hospedado na casa de um dos amigos ou de alguém da família...

- De jeito nenhum! – Foi a resposta do moreno sem nem mesmo refletir. – Eu vou para minha casa. Estou me sentindo muito bem, e o senhor acabou de dizer que estou em perfeitas condições.

- Aoi, seja razoável, é só uma precaução. – Kai argumentou. – É pela sua saúde, não custa nada acatar a recomendação do doutor Mitsuo.

- Mas eu estou bem! – Aoi resmungou, cruzando os braços emburrado. – Não preciso de babá, não sou mais criança há muito tempo.

- Ninguém disse isso, é só para você ter uma companhia, afinal foi um acidente bem sério, foi um milagre não ter havido maiores conseqüências. – O baterista insistiu. – Você pode ir lá pra casa, são só alguns dias. Eu gosto muito de receber visitas.

- Obrigado Kai, fico agradecido pelo seu oferecimento, mas eu prefiro ir para minha casa mesmo. Posso me virar muito bem sozinho.

O doutor ainda escrevia alguma coisa no seu relatório, depois olhou de um para o outro parecendo se divertir com aquela discussão boba. Olhou os outros três amigos que escutavam a discussão em silêncio, e ainda sorrindo assinou a papeleta na prancheta, entregando uma via ao loiro que se mantinha sentado ao lado da cama e que ficara praticamente o tempo todo durante aqueles dias como acompanhante do seu paciente.

- Bem, aconselho a não deixá-lo sozinho durante os próximos dez dias... – Reiterou, guardando a caneta no bolso do jaleco. – Estou dando alta a Shiroyama-san. Assim que o soro acabar, virá uma enfermeira retira-lo do braço e desligar o monitor cardíaco. – Sorriu para o moreno emburrado na cama, fazendo uma reverência e se despedindo. – Nos veremos daqui a dez dias, em meu consultório.

O médico saiu, deixado todos conversando calmamente, sendo acompanhado até a porta por Kai. Uruha levantou-se e foi até Reita, falando em voz baixa. A manhã passou lenta e tranqüila. Perto do meio dia a enfermeira veio, retirou o soro do braço de um moreno pálido e cheio de caretas, e o preparou para ir embora. Os amigos foram esperar por ele na recepção, enquanto Uruha foi ao estacionamento buscar o carro e o parou em frente à porta principal. O moreno não queria ficar nem um minuto a mais que o necessário ali, chegou sentado na cadeira, conduzido por um enfermeiro, levantando e se apoiando ligeiramente em Kai, caminhando até o carro onde o loiro o esperava com a porta do passageiro aberta.

oOo

Aoi abriu a porta do apartamento, sendo seguido por Uruha, que o cumulava de cuidados. A mão gentil em sua cintura, o guiando até o sofá, como se ele fosse frágil e fosse se quebrar em pequenos pedaços a qualquer momento. Essa proximidade toda estava mexendo com seus nervos. Ele estava em casa, em seu território seguro, e apesar do seu corpo estar debilitado e dolorido, ele se lembrava muito bem do quanto se sentia atraído por aquela beleza toda. Apesar de ter esquecido vinte e quatro horas inteiras, se lembrava muito bem do quanto o amava e desejava.

Olhou para seu rosto, para seus olhos ansiosos. Ele estava falando consigo, lhe oferecendo um lanche, um suco, um leite, qualquer coisa, por que ele não quisera almoçar antes de sair do hospital. Sorriu e fez que não com a cabeça, não tinha fome, a quantidade de soro que tomara nesses quase quatro dias o alimentara por uma semana, mas ele não se lembrava desse detalhe, e Aoi sabia que mais tarde ia ter que comer algo. Sua vontade naquela hora era apenas deitar, sentia uma moleza no corpo. A vinda do hospital até ali o havia cansado.

Ouviu a campainha tocar e Uruha foi atender. Sabia que eram os outros rapazes. Sabia que eles estavam muito preocupados consigo, em deixá-lo sozinho em casa, mas ele odiava incomodar as pessoas, dar trabalho, ficar dependente de alguém, por isso insistira em ficar em sua própria casa. Suspirou de olhos fechados, recostando confortavelmente, concentrado em seus pensamentos. Precisava só de mais um pouco de paciência, logo todos iriam para suas casas e ele finalmente ficaria sozinho consigo mesmo.

- E então Aoi, está se sentindo bem? – Kai perguntou, se acomodando ao seu lado no sofá, enquanto Reita sentou-se com Ruki na namoradeira.

- Claro, por que não estaria? – Aoi viu de relance Uruha passando pela sala e entrando pelo corredor que ia para os quartos.

- Você está um pouco pálido... – O baixista comentou e Kai assentiu com a cabeça, concordando com a observação de Reita.

- Acontece que ele não comeu nada antes de sair do hospital e não quer aceitar nada do que eu ofereci até agora... – Uruha saiu do corredor, parando ao lado da namoradeira e encostando-se nela, ficando de frente para Aoi, o encarando. – ...E está cansado. Ele pensa que eu não notei...

- Então é melhor nós irmos, e deixá-lo descansar... – Ruki levantou-se, puxando Reita com ele.

- Se precisar de algo estamos à disposição. – Kai também se levantou, pousando a mão no ombro do guitarrista mais velho.

Todos foram se encaminhando para a saída, sendo acompanhados por Uruha que falava baixo com eles, despedindo-se à porta. Fechou-a, suspirando e voltando até o sofá onde Aoi se mantinha recostado, de olhos fechados.

- Você não quer se deitar um pouco? – Sentou-se ao lado do moreno, ficando de frente para ele. – Está mesmo muito pálido, tem uma linha branca em volta dos seus lábios.

Esperou alguma resposta, que não veio. Sabia que ia precisar de paciência, mas essa não era uma de suas virtudes. Aoi não estava colaborando e parecia não ter nenhuma vontade de fazê-lo. Continuou a observá-lo, ali em silêncio, de olhos fechados, as mãos ao lado do corpo, pousadas sobre o tecido acetinado do sofá creme. A respiração estava compassada e calma, mas ele não estava dormindo, sabia muito bem disso, não ia se deixar enganar.

Olhou ao redor, vendo a sala toda, apenas alguns quadros na parede, algumas peças de arte japonesa sobre a mesinha de centro, de vidro e aço, e na estante do mesmo estilo. Na mesinha de canto, um abajur e um ikebana lindo, montado dentro de um aquário de vidro, exibindo uma grande orquídea lilás, com ramos de orquídeas minúsculas amarelas, fazendo um equilíbrio perfeito, enfeitavam a sala. Olhou novamente para o mais velho, que permanecia imóvel. Mordeu o lábio, decidindo-se como agir.

- Vamos Yuu, eu ajudo você a se acomodar. – Decidiu-se pelo modo direto e enérgico, tomando o pulso direito dele na mão, levantando-se e o puxando por ele, forçando-o a obedecer. – Depois que você se deitar eu vou fazer um suco, acho que de laranja com framboesa, vai te fazer bem.

- Você não desiste, não é? – Resmungou irritado.

- Não. – Respondeu laconicamente.

- O que eu preciso fazer pra você entender que eu não estou com vontade de comer e nem beber nada?

- Nada... Nem precisa tentar. – Continuou o puxando pelo corredor. – Daqui a dez dias, quando o doutor Mitsuo Tanaka nos disser que você está cem por cento e pode voltar à vida normal... – Foi entrando no quarto escurecido, as janelas fechadas e as cortinas cerradas. – ...Eu vou entender que você pode fazer o que e como quiser, e até me mandar pro inferno se desejar. – Afastou o travesseiro, pegando a calça de moletom e a camiseta dobradas e o empurrou para o banheiro, lhe dando a roupa nas mãos. – Mas por enquanto, pode tomar um banho ou se preferir só trocar a roupa e deitar para descansar.

Fechou a porta do banheiro sorrindo da expressão aturdida e indignada do moreno parado no meio do banheiro com a roupa nas mãos. Voltou à cama, satisfeito ao ouvir o som do chuveiro, e a arrumou, tirando a colcha, estendendo o edredom, arrumando dois travesseiros à cabeceira para que ele se encostasse. Colocou a poltrona do quarto mais perto da cama. Abriu a janela para circular o ar, mas manteve as cortinas fechadas para manter a privacidade e conter a luz do dia. Virou-se para a porta, achou que ele estava demorando e bateu na porta do banheiro.

- Está tudo bem aí Aoi? – Esperou uma resposta e não a ouvindo o ameaçou. – Se não me responder eu entro aí agora mesmo.

- Está tudo ótimo. Será que nem tomar um banho sossegado você me deixa? – A voz soou abafada e meio ofegante, assim que o barulho do chuveiro cessou. – Eu saio logo que terminar.

- Vou preparar o seu suco... – Respondeu sorrindo, ouvindo um longo suspiro vindo lá de dentro. – Volto já.

Em poucos minutos Uruha espremeu algumas laranjas, colocou no liquidificador com algumas framboesas congeladas e bateu com um pouco de açúcar. Encheu um copo alto para ele e outro para si, assim ele não podia reclamar de nada, estava tomando o mesmo que ele. Levou os dois copos, entrando no quarto no momento em que Aoi saía do banheiro, vestido e de cabelos umedecidos, colocando os copos na mesinha de cabeceira. Aguardou que ele se deitasse e ajeitou o edredom sobre ele.

- Eu não sou mais criancinha sabia? – Disse ironicamente.

- Mas está parecendo... Fazendo birra e ficando emburrado por qualquer coisa... Teimando e retrucando toda hora... – Estendeu o copo para ele, pegando o seu, e batendo os copos levemente fazendo um brinde. – À sua saúde e ao seu total restabelecimento.

- Desculpe... E obrigado. – Tomou um pequeno gole. – Me sinto irritado...

- Eu compreendo... – Riu. – Finalmente entendi o que minha mãe dizia quando eu era criança e adoecia... – Viu a interrogação na expressão dele e a respondeu. – Ela dizia que eu ficava insuportável! – Gargalhou ao ver a o rosto surpreso e indignado dele.

- Bem... Depois que eu tomar tudo... – Tomou mais alguns goles do suco. – Você pode ir sossegado.

- Claro... Depois de lavar os copos eu vou descansar um pouco. – Olhou nos olhos negros. – Se precisar é só chamar, estou no quarto ao lado...

- O que? – Arregalou os olhos, levantando a voz quase em pânico.

- Você não achou realmente que íamos aceitar que você ficasse aqui sozinho, não é? – Perguntou de modo inocente. – Já que você insistiu em não ir a lugar nenhum e ficar em casa... Então eu resolvi ficar aqui com você, e sem discussão. – Viu a boca abrir e fechar duas ou três vezes sem que dissesse nenhuma palavra. – E não adianta reclamar... Vou ser seu hóspede por dez dias e vou acompanhá-lo na consulta de retorno...

Terminou de beber o suco e aguardou que ele terminasse o dele. Tomou o copo para si e saiu do quarto, o deixando sozinho, digerindo a informação de que estariam juntos pelos próximos dias.

oOo

Aoi o viu sair pela porta do quarto, levando os copos. Ouviu os passos se afastando quase sem barulho por causa do carpete, e depois o som de vidro e água na cozinha, sinal de que ele estava lavando a louça usada. Mal podia acreditar que ele realmente estava fazendo isso. Conspirando com os outros rapazes e invadindo a sua casa e a sua vida sem lhe pedir licença. Ouviu a porta do quarto ao lado se abrir, os passos dele andando pelo quarto, imaginando que ele estava se despindo e colocando algo mais confortável.

Estava completamente aturdido e amedrontado com isso, afundou no colchão sob as cobertas, tentando desesperadamente focar seus pensamentos de que ele estava se preparando para poder descansar e dormir decentemente, depois de ter ficado noite e dia mal acomodado naquela poltrona ao lado de sua cama no hospital, em vigília por três noites e quase quatro dias. Fechou seus olhos e reclinou seu corpo nos travesseiros, a cabeça trabalhando freneticamente, tentando se convencer de que vai conseguir conviver com ele debaixo do mesmo teto sem enlouquecer, de que vai resistir à tentação de se declarar, de implorar que ele fique ao seu lado, de que aceite dividir a sua vida consigo.

Já tinha sido difícil se controlar até agora, morando separados, mesmo mantendo uma vida profissional diária, passando oito horas por dia no mesmo estúdio, seis dias da semana, quase o ano todo juntos. Como iria ser agora dividindo o mesmo espaço? Sabendo que ele estava no quarto ao lado? Que estavam sozinhos?

Aoi foi relaxando gradativamente na cama, seu corpo virou de lado se acomodando confortavelmente, uma das mãos entrando por baixo do travesseiro, a outra pousando sobre ele, em frente ao rosto. Suspirou profundamente deixando seu consciente adormecer, sua mente entrando devagar no mundo dos sonhos.

Viu-se na PS Company, na sala de ensaio do the GazettE. A sua guitarra em seu ombro e os amigos em suas posições, mas... Suas roupas, eram as mesmas do Live Decomposition Beauty, ele e Uruha vestidos de negro, o loiro estava fabuloso, as coxas maravilhosas de fora... Apenas um pedaço da pele branquinha à mostra, entre o tecido negro do shorts e os tecidos que cobriam sua perna, o dorso coberto por aquele blazer negro de mangas longas, adornado por apliques de metal, cujo pescoço e parte do tórax perfeito ficavam a mostra através da gola em "vê".

Notava as olhadas do loiro para si, e o jeito que ele se mexia e tocava a guitarra, e o modo como fechava os olhos e balançava o corpo tocando o solo. E então as últimas notas de Chizuru soaram, e Kai encerrou o ensaio. Guardou sua guitarra no estojo, olhando furtivamente para Uruha, os gestos languidos do guitarrista provocando sua libido. Suspirou, tirando o cabelo da face, sabendo que seu desejo era apenas um sonho, prendendo a franja atrás da orelha, quando ouviu a voz dele logo atrás de si. Arrepiou-se todo, voltando-se e dando com ele muito perto, o brilho nos olhos escuros o atraindo e então... Então cometeu uma loucura, uma loucura que foi a sua perdição...

Puxou-o pela cintura e o beijou, ardentemente. Não sabia como, mas de repente estavam junto ao sofá... Seus movimentos eram em câmera lenta, jogando o loiro sobre o estofado, e o prensando com seu corpo, o beijando de maneira faminta, ouvindo os gemidos curtos e necessitados, tanto quanto os seus próprios... E aquela sala não era mais o estúdio de ensaios... encontravam-se no apartamento do loiro, no quarto dele, as mãos de ambos buscando os corpos um do outro, febris, atrevidas, os beijos se espalhando pelo rosto, pescoço, peito, mamilos, entre sussurros e pedidos por mais... As palavras saíram sem que sentisse, os lábios quase colados à pele branca e acetinada, arrepiada pelos seus carinhos.

- Kou... Hummmm... Eu te amo... Te amo demais...

Num instante estavam agarrados na cama... E no outro estava sozinho sobre o colchão. Uruha na porta com a face angustiada, os dedos apertados uns nos outros, os nós brancos, os dentes apertando o lábio avermelhado pelos seus beijos... Tudo começou a se dissolver à volta deles... Foi ficando escuro e Uruha foi sumindo, desaparecendo diante de seus olhos desesperados, até... Até que só sobrou a si mesmo sobre a cama, abandonado no espaço... Um barulho alto e estridente cortou o ar, uma gritaria o atingiu, uma dor forte percorreu seu corpo e então acordou, com seu próprio grito de agonia, sentando-se na cama de repente, com seus olhos molhados e sua respiração arfante.

Alguns minutos se passaram e Kouyou entrou no quarto ainda amarrando a faixa da yukata, chegando perto de Aoi e tocando a testa e o pescoço suados, sentando-se na beirada da cama, preocupado.

- Ouvi um grito... Você está bem Yuu? Precisa de alguma coisa? Quer que eu lhe traga água? – Fazia uma pergunta atrás da outra, movido pela ansiedade.

- Estou bem, foi só um sonho, não me lembro direito do que... – Falou entre os ofegos, mentindo descaradamente, ainda com as imagens e os sons perturbadores em mente. – Lembro do final, um barulho estridente e gritos e que tudo ficou escuro.

- Mas você se lembra de alguma coisa do que sonhou? – Uruha empurrou-o de leve, o fazendo deitar-se novamente, podia imaginar sobre o que seria o final desse sonho.

- Não... Só muito barulho e gritos... – Disse relaxando um pouco sobre o travesseiro, sem olhar diretamente para ele com medo de que ele percebesse a sua mentira.

- Vou trazer um copo de água pra você e o remédio que o médico receitou para dormir.

- Kou... Não precisa...

- Vai tomar sim, os pesadelos só vão prejudicar você, deixá-lo exausto, precisa dormir bem para se recuperar melhor e mais rápido. – Saiu do quarto, voltando rapidamente com a água e o remédio, vendo a expressão de desagrado do moreno. – Toma Yuu, vai fazer bem, você não quer se recuperar logo e voltar para nossa vida normal?

Mesmo contrariado Aoi concordou, apoiou-se no cotovelo e tomou o remédio e a água que o loiro lhe trouxera, acomodando-se logo depois. Ainda sentia o desespero dentro de si quando Uruha disse boa noite e foi se levantando para voltar ao quarto ao lado do seu. Seu corpo reagiu instantaneamente, segurando o pulso do loiro com firmeza, o forçando a se sentar novamente.

- Hn... Por... Por favor, Kou... – Suspirou ansioso, esquecendo por um instante que não queria que ele percebesse o quanto o sonho o afetara. – Fi-fica mais um pouco...?

- Claro Yuu... – Cobriu a mão fechada em seu pulso com a sua, o confortando. – Fico o tempo que desejar. Feche os olhos, estou bem aqui e não vou a lugar nenhum.

Não precisou de muita espera, o calmante era forte e em poucos minutos o aperto dos dedos em seu punho foi diminuindo até que cedeu. Ficou por mais um tempo, apenas olhando o rosto adormecido, travando uma batalha dura consigo mesmo. Não sabia como se sentir sobre o fato de ele não se lembrar de nada daquela manhã, da discussão que tiveram, do sonoro não que lhe dissera. Se era bom ou ruim, se ficava feliz ou triste... O destino resolveu interferir em sua vida, se por um lado fizera o certo dizendo não mais uma vez, por outro estava errado ao negar o que sentia e a vida estava lhe dando uma nova chance... E se sentia tentado a agarrá-la. Será que talvez, apenas talvez, não podia dar a si uma chance? Uma só, uma única, para Aoi?

Sabia que Reita tinha razão... Aoi não era como Hideo, o pequeno canalha que destroçara seu coração, sabia que ele era um homem de caráter e jamais agiria como a sua primeira paixão do colegial. Seu moreno não era um conquistador barato, um cafajeste, um... Sorriu consigo mesmo. Seu... Era impressionante como sua mente lhe pregava essas peças, o pronome pessoal possessivo surgia em sua mente cada vez que o olhava. Sorriu novamente. Um sorriso triste por lembrar-se de sua ingenuidade há anos atrás, do gosto doce e amargo que a paixão deixara em sua boca.

Foi mágico... Foi doce... Doce por que sua primeira vez tinha sido com um garoto por quem estava apaixonado... E que tivera a decência de ser cuidadoso e delicado. Pelo menos isso... E amargo por que o mesmo garoto o jogara fora como se fosse um bagaço de uma fruta qualquer, naquela manhã logo depois da noite mais linda da sua vida... – O que você esperava? Flores, bombons e uma declaração de Amor Eterno? – Não, mas esperava consideração e carinho, no mínimo. As palavras e o riso de escárnio ecoavam em sua lembrança como se fossem reais, como se estivesse acontecendo naquele mesmo instante.

Por isso não podia ceder, não ainda, e não sabia se conseguiria um dia, as marcas eram muito fundas e por que... Por que não era questão de querer, desejar, e sim de poder fazê-lo. Por que algo dentro de si estava quebrado, há muito tempo. Enxugou a lágrima teimosa que escorria pela sua face, em meio àquelas lembranças dolorosas. Acariciou-lhe a face serena, os cílios, os lábios... Levantou-se e beijou-lhe a testa com carinho, o deixando profundamente adormecido, voltando para seu quarto. Não sabia se conseguiria dormir, mas precisava tentar. O dia seguinte seria cheio, Aoi não abriria mão de ir ao ensaio e não estava totalmente recuperado. Ele era muito teimoso, precisaria ser enérgico e firme, por isso tinha que estar descansado.

oOo

Uruha tocava do mesmo jeito de sempre, a única ressalva era que tinha os olhos grudados o tempo todo no moreno, tomando conta dele. Tinha sido difícil refrear a ansiedade dele, só tinham se passado cinco dias do último ensaio e o workaholic estava impaciente como se tivesse passado um mês. Por causa da mania de perfeccionismo dele, pelo segundo dia o ensaio tinha começado com quase uma hora de atraso. Baixou o olhar quando ele levantou o dele para si. Não queria que ele percebesse que o estava vigiando, não tão ostensivamente. A sua sorte é que todos estavam fazendo o mesmo que ele ali, cuidando de cada movimento e expressão que se passava com Aoi.

Uruha suspirou aliviado com o fim de mais uma música, preocupado por ver Aoi pálido ao fim de duas horas tocando. Em três horas desde que tinham chegado ali ele não se sentara ou parara quieto nem um minuto... Mas o alívio durou pouco quando o viu forçar Kai a concordar com mais uma música, a última para ele naquele dia, por que depois dessa Uruha o faria se sentar se não quisesse ser arrastado para casa, com passagem direta para a cama. Kai ordenou a música, as batidas da bateria, o dedilhado da guitarra, o som grave do baixo e os acordes de Chizuro começaram com seu solo, a música agitada debilitando o moreno ainda mais, podia ver pela palidez cada vez mais acentuada em sua tez que ele estava em seu limite.

- Agora chega Aoi! – Às últimas notas da música Uruha tirou a guitarra do ombro a deixando encostada ao amplificador e avançando para o guitarrista mais velho, preocupado demais para dar atenção à expressão irritada dele.

- Chega por quê? Eu estou muito bem. – Teimou o moreno, ignorando o suor frio que cobria seu rosto, a linha branca de cansaço em volta dos lábios carnudos denunciando seu real estado.

- Chega por que já tem mais de três horas que você está em pé trabalhando e não parou para descansar nem cinco minutos... – O loiro retrucou, mandando o bom senso para o inferno. – Ou você senta e acompanha o ensaio quietinho ali no sofá, ou eu te arrasto para casa agora mesmo!

- Quero só ver! – Alfinetou o moreno entre irritado e divertido com a atitude do mais novo. – Ninguém manda em mim ou me impede de fazer o que eu quero...

- Não é bem assim Yuu... – A voz ponderada de Kai interferiu na discussão. – Uruha pode até não dar conta de te impedir sozinho, mas a união faz a força e você não pode com a vontade de todos nós.

- Mas Kai, eu estou me sentindo bem, eu sei os meus limites!

- Geralmente você sabe, mas dessa vez é diferente. Você saiu do hospital antes de ontem, vai devagar, dê um tempo para você mesmo se recuperar. – Aoi notou que os outros dois, Reita e Ruki, assentiam concordando com o líder, e com o loiro invocado parado à sua frente, as pernas abertas e as mãos na cintura. – Além do mais... – Kai continuou o sermão. – São ordens médicas. Não é questão de querer, você não tem escolha...

Não é questão de querer... Eu não tenho escolha... Não tenho escolha... Escolha... Escolha...

As palavras ribombaram em seu cérebro... Subitamente Aoi ficou sem fôlego, não conseguia puxar a respiração, como se o ar tivesse se acabado ali dentro... Um frio passou por seu corpo, o coração parou por um instante com uma batida mais forte. Sentiu uma tontura virar a sala à sua volta, fazendo seu corpo cambalear, sendo amparado por Uruha que se adiantou em seu socorro o segurando pela cintura e o sustentando junto a ele.

Continua...


Muito Obrigada a todos que além de ler deixaram reviews: kami nee chan (Me sinto feliz que voce tenha gostado tanto e que se sinta ansiosa pela continuação. "Magnífica" foi um elogio que excedeu todas as minhas expectativas, e fez com que eu tivsse vontade de postar logo o segundo capítulo. Por causa das suas palavras, do seu review. Essa fic tem 3 partes, portanto ficará faltando só mais uma.)

Agradeço a todos que leram e por qualquer motivo não deixaram review, muito obrigada.