Beta: Claudia Ackles.

O movimento das águas era calmo.

Sentado no píer e encarando o mar a sua frente, bebeu mais um gole de sua cerveja. Sua cabeça já estava dando voltas. Sentia como se tivesse acabado de sair de uma montanha russa. Fechou os olhos e sentiu a brisa fria da noite tocá-lo, confortá-lo.

Devaneios, lembranças e frio.

Nunca tinha se sentindo tão sozinho. Não queria sentir o que sentia há mais de anos... Por que doía, por que o dilacerava olhar para o outro lado da cama e ver que estava sozinho. Que apenas o seu perfume impregnava no travesseiro. Ver que tinha perdido tudo, deixado escapar por entre seus dedos a sua única âncora de felicidade.

Entre vários pensamentos, acabou se deixando levar ao dia em que percebeu que estava tudo acabado.

Dois Anos atrás...

A primeira coisa que passou pela sua cabeça, foi vomitar urgentemente.

Rapidamente e com passos cambaleantes se dirigiu ao banheiro, levantou a tampa do vaso sanitário e colocou tudo pra fora. Depois de alguns minutos, deu a descarga e escovou os dentes. Olhou-se no espelho e não se reconheceu por um breve momento, estava péssimo.

Suspirou ao escutar o conhecido som da campainha e buscando forças de onde não sabia ter, abriu a porta e viu Misha com um pequeno sorriso nos lábios.

- Entra. – Se afastou deixando a porta aberta, sentando-se novamente no sofá pondo sua cabeça entre as mãos. Sua cabeça parecia que a qualquer momento entraria em erupção.

- Meu deus, você está péssimo! – Misha disse, se aproximando do outro recebendo apenas um muxoxo como resposta. – O que foi que houve com você?

- Dá pra você falar mais baixo? – Perguntou irritado.

- Não.

Jensen lhe direcionou um olhar cortante, o que fez Misha rir.

- Tudo bem, desculpe. Mas, então vamos ao começo. O que houve? – O moreno se preocupou ao ver um suspiro um tanto sofrido de Jensen, que engoliu em seco.

- Eu não sei, eu... Bebi ontem à noite e apaguei completamente.

- Como assim apagou? Você não ia visitar o Jared? Conversar com ele?

- E eu ia. Só que... Eu estava chateado, e resolvi beber um pouco. Mas, acabei passando da conta e não estava em condições de ir vê-lo. Por que você está aqui tão cedo?

Jensen que olhava para um canto qualquer, virou-se para o amigo que ficou calado, olhando para um ponto fixo em si mesmo.

- O que foi?

- O que é isso no seu pescoço? – Misha perguntou olhando de perto, e sua expressão se tornou incrédula ao reconhecer que era uma marca de batom no pescoço do loiro. – Você está com uma marca de batom Jensen! O que você fez ontem à noite?

Jensen ficou encarando o outro, e esperando ele tirar a expressão séria do rosto e rir da própria piada. Mas percebeu que não era brincadeira. Passou o dedo pelo local apontado e então arregalou os olhos ao constatar que era verdade.

- Que diabos...? – Jensen se levantou assustado, não ligando para a pontada forte na sua cabeça.

- Eu é que deveria dizer isso, Jensen! Você não se deu conta que está cheirando a perfume de mulher? – Misha disse exaltado, começando a ficar irritado e extremamente sem paciência com o melhor amigo. E isso, acontecia poucas vezes. Misha era a paciência em pessoa, quase não perdia a cabeça.

Jensen então pareceu cair em si. Sua mente se permitiu viajar até horas atrás. Uma pessoa veio visitá-lo e então, se viu sendo prensado no sofá e sentiu um cheiro nauseante, o mesmo perfume que estava nele agora. E então, por entre os flashs se lembrou de ter visto uma mecha vermelha.

Misha pareceu entender, e por fim concluiu.

- Foi a Danneel não foi? - A raiva se instalou no mais velho, ao ver Jensen fechar os olhos e sentar no sofá, com uma expressão perdida. – Mas que merda, Jensen!

- Eu não sei como isso aconteceu, só sei que em um momento eu estava bebendo sozinho e em outro ela estava em cima de mim e falando coisas sem sentido. Eu tentei afastar ela, mas eu bebi muito ontem, mal conseguia ver alguma coisa na minha frente. – Jensen respondeu, sentindo como se isso já não fosse o problema principal.

Viu Misha andar de um lado para o outro na sua frente, com uma expressão fechada sem olhar para ele.

- Você não acredita em mim não é? Não acredita de ser tudo uma armação?

- Sabe o que é pior? Eu acredito! Eu acredito que tenha sido isso, por que essa é a única resposta plausível pra esse absurdo! – Se fosse possível, Jensen quase podia ver uma veia saltando na testa do outro. – Mas que vadia!

- E eu acho que isso não é tudo...

Jensen respirou fundo ao buscar algo mais importante da noite passada e soltou um gemido de dor, buscando se acalmar.

- Eu pensei em ter ouvido alguém entrar aqui no meu apartamento, ontem. – Jensen esperou algum comentário do outro, mas apenas viu confusão nos olhos azuis de Misha. – Quando Danneel estava aqui, eu escutei a fechadura abrir e...

- Espera. – Misha se aproximou devagar de Ackles e então pareceu compreender. – A única pessoa que tem a chave daqui além de você, é o Jared. Puta que pariu Jensen!

Jensen se sentiu a pior pessoa da face da terra naquele momento. Queria sumir, desaparecer. Escutou calado tudo o que o amigo dizia, que exclamava sem sequer se importar com a expressão de dor dele. Por que ele merecia. Por que acabou indo para o caminho errado, e cometeu um deslize. Mesmo que não quisesse que nada daquilo tivesse acontecido, acabou magoando a pessoa que o trouxe de volta.

O aperto em seu peito se intensificou mais ainda, e fechou os olhos tentando buscar uma solução para a situação em que se encontrava, mas apenas veio o desespero e por mais que tentasse tirar a cena de Jared indo embora, ela vinha a tona em sua mente o fazendo sentir medo.

Depois de um longo tempo, Misha já estava ofegante de tanto falar e sem ideias do que dizer, mas do que propriamente disse. Xingou, falou coisas sem sentindo mas pela sua consciência teve a certeza que machucou Jensen, por mais que estivesse certo em repreendê-lo.

Desde o começo, sempre pôs na cabeça que não iria se meter nos problemas que envolvia Jensen e Jared. Mas, sempre seria aquele amigo conselheiro e que oferecia uma boa conversa a hora que fosse, não importasse o momento. Jensen era um amigo, um irmão e Misha agia realmente como um irmão mais velho, que puxava a orelha do outro quando este pedia seus conselhos. Claro que Jensen fazia o mesmo quando a situação era ao inverso.

Mas, Jensen não foi esperto o bastante e não afastou aquele ''problema ruivo'' como chamava Danneel. E agora, infelizmente observava Jensen com a expressão mais desolada que viu em todos esses anos de amizade e não sabia o que fazer para ajudá-lo. Nem ele mesmo sabia se a relação do melhor amigo e de Jared teria solução.

Respirou fundo, ao ver que desta vez. tinha falhado em estar perto o suficiente de Jensen e tê-lo feito abrir os olhos para a verdade, encarado tudo como sempre fazia. O silêncio parecia pesado e pode ver que os ombros de Jensen pesavam uma tonelada. Sentou-se ao seu lado esperando algum movimento ou até mesmo contrariá-lo de tudo o que disse, mas não veio nada.

Por reflexo, viu uma lágrima cair na calça jeans de Jensen.

- Tome uma ducha, e depois vá até lá. Não entregue os pontos antes do tempo.

Viu Jensen então sumir no corredor, indo para o quarto e escutou o som da tranca da porta. Pensou seriamente na possibilidade de ainda estar dormindo, mas percebeu que estava acordado o suficiente para ver o seu amigo levar uma queda brusca.

J2

Jensen estacionou o carro em frente à casa de Jared e caminhou até a porta. Pode ver de relance o carro do outro na garagem o que o deixou com mais receio se o que fazia era uma boa ideia. Andou a passos largos e hesitou por um instante, antes de balançar a cabeça e bater na porta. Franziu o cenho, ao não receber resposta. Pegou seu celular no bolso da calça e ligou para o número do moreno, mas só caía na caixa postal.

- Jared? Jared você está aí?

Até que por fim, havia entendido. Jared não queria vê-lo. Não podia deixar isso acontecer, não podia deixar tudo terminar desse jeito. Sentiu sua garganta apertar, e não percebeu que sua voz saiu trêmula.

- Por favor, Jay... Eu sei que você está aí... Jared!

Encostou sua testa na porta e deixou as lágrimas escorrerem livremente por seu rosto, até que então se deu por vencido se afastando lentamente. Quando estava quase chegando em seu carro, Jensen olhou rapidamente para trás em uma perdida esperança que Jared estivesse escorado no batente da porta, com a sua camisa xadrez e seu sorriso contagiante. Mas, nada disso aconteceu.

Fechou a porta do carro, e então ouviu seu celular tocar. Não precisou adivinhar quem ligava.

- Alô.

- E Então? – A voz de Misha era receosa.

- Acabou. Estou indo pra casa. – Jensen respondeu, sua voz privada de emoção, ouviu o outro suspirar pesadamente.

- Tire o dia de folga, Jensen. Qualquer coisa me ligue ok?

- Até mais.

Relutante, ligou o carro e deu a partida.

J2

Dias atuais...

Olhou para a garrafa vazia e então, olhou novamente para o mar. Suas águas calmas refletiam a luz da lua, os barcos a uma longa distancia faziam parte da paisagem. Passou o fim de tarde, observando e deixando-se levar pela sensação de paz que o lugar dava.

Mesmo assim, seu coração pesava toneladas. Jared tinha desaparecido e não fazia ideia de onde ele poderia estar.

Tanto tempo havia passado, e não sabia como ele estava. Se estava bem, se estava feliz, triste. O esquecido por fim, com outra pessoa.

Jensen não tinha esquecido. De nada, de nenhum detalhe.

Não tinha esquecido de como o peito de Jared subia e descia lentamente, sua respiração calma enquanto dormia aconchegado a ele. Como Jared apesar de ter seu restaurante, e ter muitos clientes e até mesmo ser contratado para grandes eventos na cidade, ficava ansioso por uma aprovação quando ele mesmo degustava os novos pratos italianos que este o fazia. Não esqueceu da primeira vez deles... Não esqueceu de quando juntos, contaram a família que estavam finalmente juntos. Não esqueceu de como Jared parecia extremamente nervoso quando derramou cappuccino em sua camisa, quando o viu em uma avenida no centro da cidade de Vancouver.

Não se esqueceu do primeiro Eu te amo que Jared disse a ele.

Todos os dias, as lembranças se passavam como um filme o fazendo ter um sorriso. Por mais triste que fosse. E as cenas das brigas, das chateações e desentendimentos o fazia refletir em como podia ter sido diferente nesses momentos.

Danneel sumiu há dois anos. Não o procurou mais, e nem sequer deu notícia. Não que se preocupasse com isso, afinal ela fez a sua vida se tornar um inferno. Se a visse pessoalmente, teria certeza de que não se controlaria o suficiente, e não teriam apenas uma conversa civilizada.

Meses depois, em uma revista viu em uma das primeiras páginas, a ruiva em um vestido de gala abraçada a um homem vestido formalmente. Um inglês famoso, ator muito reconhecido na Inglaterra.

Anunciando o noivado. Que ironia.

As coisas voltaram quase a ser como antes. Continuou fazendo o tratamento com o Dr. Beaver e tinha feito grandes melhoras. Apenas havia sido chamado atenção, em todas as consultas, pela quantidade de álcool que ele estava consumindo e a falta de caminhadas e exercícios. Jensen se sentia como um adolescente e apenas encolhia os ombros dando sua palavra de que iria se cuidar, mas logo voltava a sua antiga rotina.

Trabalhar, voltar para o seu apartamento, sair às vezes para casa de Misha e Mark, quando estes o convidavam para algum jantar com uns amigos destes.

Quando contou a sua família sobre ele e Jared, ficaram extremamente surpresos e desapontados. Donna tinha a expressão triste ao ver o filho indiferente em seus gestos, mas seus olhos verdes não a enganava. Jensen estava arrasado, acabado. E isso a entristecia, assim como o resto da família. Mackenzie, principalmente.

Não teve mais contato com a família de Jared, apesar de muitas vezes olhar em sua agenda e ligar para Sharon ou Megan. Mas, pelo contato ainda mantido pelas famílias Ackles e Padalecki, Jared estava bem.

Viu a primeira estrela despontar no céu, e decidiu voltar. Voltar para seu apartamento, para a sua rotina e para a sua atual vida.

- Hey. – Um leve sussurro se fez presente.

- Oi amor.

- Eu te amo. – Respondeu, apreciando as sardas no rosto do namorado.

- Eu sei.

Viu os olhos azuis esverdeados o olharem com intensidade, seu queixo em seu peito. Estavam deitados no tapete felpudo na sala de estar da casa de Jared. Uma garrafa de vinho, e algumas cerejas e então pararam ali. Confortáveis, nos braços um do outro. Fez um carinho no pescoço do moreno que se aproximou e o beijou. Abraçou-o puxando para cima de si, colando o corpo nu do outro com o seu. Para então, recomeçarem tudo outra vez.

- Eu também te amo.

Continua...


Olá Leitores!

Mais uma vez agradecendo aos comentários lindos de vocês e espero que continuem acompanhando esta história. Obrigada pelo carinho e a paciência de esperarem pela atualização!

Beijos para vocês e para a beta!