Reconhecimento - O Primeiro encontro
A música era lenta e suave, mas ele sabia que a paciência dela estava se esgotando. Não podia evitar; estava certo de que iria perdê-la e seria em breve. A música acabou; sabia que ela iria querer sair da pista, mas não conseguia tirar os braços dela. Hesitou o bastante para que a próxima música começasse e a puxou para mais perto que antes.
- Você está querendo uma detenção? - ela perguntou irritada.
- Desde que continuemos nos movendo, ela não dirá uma palavra - ele respondeu, tentando convencer tanto a si quanto a ela.
- McGonagall está olhando, Harry. Ela disse a você mais de uma vez que não aprovava sua proximidade a mim.
- Não consigo evitar - ele parou de dançar e olhou fundo nos olhos dela, a voz embargando. - Eu... eu tenho um mau pressentimento e...
- E você acha que se mantiver uma mão em mim o tempo todo me manterá a salvo. - o aborrecimento ainda era evidente na voz dela.
- Gina...
- Sr. Potter - uma voz dura soou em sua orelha -, deixe a pista de dança imediatamente. - a professora McGonagall ordenou.
- Sim, professora. - ele disse desanimado.
- Vejo você na detenção amanhã de manhã, Sr. Potter.
Harry não estava a fim de dizer mais do que já tinha dito para provocar a Diretora da sua casa.
- Srta. Weasley, veja com isso que as coisas estão sob controle, ou irá acompanhar o Sr. Potter na detenção.
- Sim, professora - Gina disse, olhando furiosamente para Harry todo o tempo. Ela então saiu do abraço dele, e se dirigiu ao irmão e Hermione.
A professora continuou ralhando com Harry por alguns minutos antes de despachá-lo, lembrando a ele que iria vigiá-lo com olhos de águia pelo resto da noite. Ele foi até Gina, Rony e Hermione, que estavam conversando longe dos outros alunos. Viu o sorriso malicioso de Rony alargar-se quando se aproximou.
- Cerveja amanteigada, parceiro? - Rony riu, enquanto entregava uma garrafa a Harry. - Soube que tem detenção amanhã de manhã. Nossos últimos dias em Hogwarts, os NIEM's já terminaram, e você arruma uma detenção - bufou.
- Cala a boca, Rony. Não estou de bom humor.
- Ah! - ele riu. - Achei que estar de bom humor foi o que te deu essa detenção em primeiro lugar.
Ele não estava prestando a mínima atenção em Rony, ou em seus comentários; seus olhos estavam grudados em Gina enquanto ela ia em direção ao Saguão Principal. Harry rapidamente largou a garrafa e apressou-se em ir atrás dela, deixando Rony e suas insinuações maliciosas para trás.
- Gina, espera! - ele a chamou.
- Harry, por favor. Eu só preciso ir ao banheiro!
- Eu te acompanho. - ele se ofereceu.
- Pára com isso, Harry. Pára, está me sufocando!
Ele sabia que a dor estava estampada em seu rosto, e deteve-se prestes a pegar-lhe a mão.
- Sinto muito. - os olhos dela amoleceram, e ela tocou o braço dele. - Não foi minha intenção. É que ultimamente... Você se tornou minha sombra, e não posso agüentar isso. Se souber de algo que eu deveria saber, apenas me conte, caso contrário, terá de parar com isso.
- Gina, desculpa, eu...
- O quê? Você o quê? Não pode me dizer nada?
- Não é nada. Não sei de nada. - ele sabia que não devia mentir para ela, mas algo lhe dizia para não contar o que o estava perturbando. Ela não precisava saber sobre os seus sonhos. Se soubesse, sabia que ela faria algo, e não agüentaria se ela se ferisse.
- Eu vou ao banheiro. - ela disse friamente. - Não me siga.
Antes de sair, ela deve ter visto o sofrimento nos olhos dele. Deu um suspiro longo e caminhou de volta para ele. Pôs sua mão sobre a dele e disse:
- Eu volto logo. Prometo.
Então, pouco antes de virar-se e sair do saguão, ela se esticou e o beijou gentilmente nos lábios.
Ele sorriu às costas dela, mas então aquela sensação de aperto no estômago voltou com força total. Algo iria acontecer, algo ruim. Assim que ele a viu naquela noite, naquelas roupas, teve certeza - era a mesma roupa que ela usava nos sonhos, mas essa era a primeira vez que a via usando-as. Ela havia mencionado que sua amiga Kristen as tinha emprestado a ela, e isso fez com que ele se preocupasse mais ainda. Porque agora ele tinha certeza: a única outra vez que ele as tinha visto tinha sido nos sonhos, naquele sonho horrível. Ele voltou até onde Rony e Hermione estavam e contou os minutos até Gina voltar para ele.
Ele não ia entrar em pânico. Não podia procurar por ela; ela havia deixado claro que era para dar-lhe espaço. Mas ela já havia ido a mais de vinte minutos, e ele sabia que algo estava errado. Devia ter contado a ela sobre os sonhos, sabia disso, mas eram tão perturbadores... Não podia perdê-la; não deixaria que Voldemort a matasse. Se tivesse de ser a sombra dela pelo resto do ano, então seria. Muitas vezes se perguntou se ela já sabia dos sonhos. Talvez tivesse gritado durante as noites, e Rony tivesse contado a ela sobre isso.
Ela sabia de algo, isso era certo. Todas as pesquisas que estava fazendo na biblioteca não podiam ser para a escola. Nenhum dos sextanistas tinha grandes projetos como o que Gina estivera trabalhando por meses. No entanto, ela tinha Aritimancia, então havia uma possibilidade de que fosse um projeto para essa aula. Ele precisava perguntar a Hermione sobre isso.
Hermione estava perto dele, mas decidiu que era melhor não perguntar na frente de Rony. Ele e Rony tinham tido muitas discussões calorosas sobre a superproteção dele para com Gina. Parecia para Rony que era perfeitamente normal ele protegê-la, afinal, era seu irmão. Mas para Harry fazer o mesmo, bem, aquilo era inaceitável. Harry estava sendo controlador e outras palavras que ele não fazia questão de lembrar. Rony não conseguia ver que ele estava se preocupando, e não dominando? Olhou para o relógio novamente, e aquele pânico familiar cresceu em seu estômago. Meia hora havia se passado desde que Gina fora ao banheiro.
Gina, ele pensou. Ela tinha se tornado tão importante na vida dele. Estremeceu com a idéia de perdê-la. Sabia há bastante tempo que ela era a única para ele. A relação deles tinha começado lentamente, mas no fim, tinha sido melhor daquela maneira. Ele tinha aprendido quem era a verdadeira Gina Weasley, e ela, quem ele realmente era. A amizade deles era tão honesta, que fortaleceu o vínculo entre eles. A ponte de amizade a companheirismo parecia ter demorado a ser cruzada, mas uma vez que a cruzaram... ele não conseguia explicar. Alguns pensariam que eles teriam se tornado estranhos um com o outro, mas isso não acontecera. De fato, estarem juntos tinha sido como se duas partes quebradas tivessem se juntado outra vez. Amava a honestidade dela, a integridade, o jeito e a maneira incondicional com que ela o amava. Sabia que queria passar o resto da vida com ela; não havia dúvida sobre isso.
Tinha decidido em fevereiro que queria perguntar a ela, perguntar a ela se casaria com ele. Tinha tudo planejado. Iria perguntar no baile de formatura, e se as coisas não tivessem mudado, teria perguntado naquela noite. Mas então os sonhos, ou pesadelos, tinham começado, e ele precisava saber onde ela estava todo o tempo. Balançou a cabeça. Nem queria saber a resposta dela se tivesse perguntado naquela noite. Ela provavelmente cortaria sua cabeça e a entregaria num prato se ele pedisse sua mão. Mas algo em suas atitudes durante todo aquele tempo fez com que ele percebesse que ela sabia mais do que aparentava. Harry achava que Gina poderia estar escondendo tanto quanto ele esteve nos últimos meses. Mais uma vez deu uma olhada no pulso. Quarenta minutos. Isso não estava certo; algo estava realmente errado.
- Harry. - Hermione chamou, tirando-o de seus pensamentos. -, onde está Gina? Ela saiu há muito tempo.
- Ela foi ao banheiro.
- Mas isso foi há mais de meia hora. - Rony acrescentou nervoso.
- Eu sei, mas...
- O quê? - Hermione perguntou gentilmente.
- Eu disse que esperaria por ela. Eu tenho sido um pouco... Superprotetor ultimamente, e ela não gostou disso. - disse tristemente.
- Não se preocupe, Harry, eu vou procurá-la. Já volto - Hermione disse enquanto apertava o braço dele em um gesto de conforto.
- Ela finalmente mandou você sair do pé dela, não foi? - Rony sorriu.
- Escuta, não quero brigar com você. Você não entende...
- Não entendo porque você não diz a ninguém o que está acontecendo. Você grudou na Gina, e não foi apenas ela que não gostou disso, não estou muito feliz com isso também.
- Rony, eu não estou grudado, eu estou… - não terminou porque Hermione vinha apressada até eles.
- Ela não está lá, e acabei de encontrar Ash. Ela está aqui com Kevin Enthwhistle da Corvinal, e disse que estava ainda há pouco no banheiro. Gina não estava lá e ela não a vê desde que vocês dois estavam dançando.
O coração de Harry disparou e, de repente, ele não tinha idéia do que fazer. Devia ter demonstrado que não agüentaria muito em pé, pois a próxima coisa que viu, foi Rony o segurando e conduzindo-o até uma cadeira.
- O que está acontecendo? Eu quero saber, Harry. - Rony exigiu.
- Eu não sei. Sério. Temos que achá-la. Vou subir para a torre da Grifinória; talvez ela precisasse de mais distância de mim do que disse.
- Vamos com você, afinal, você não pode subir até os dormitórios femininos. - Hermione disse com razão.
Dentro de poucos minutos, Harry e Rony estavam na sala comunal esperando Hermione descer do dormitório de Gina. Harry queria ter subido ele mesmo, mas Hermione disse que ele estaria quebrando regras, e talvez Gina ainda estivesse chateada com ele. Seria melhor que ficasse na sala comunal. Ele não se importava muito com as regras, mas pensar em deixar Gina mais zangada ainda foi o que o deteve lá embaixo. Entrou em pânico novamente quando Hermione desceu correndo.
- Ela não está lá em cima. Ninguém no dormitório dela a viu.
O coração de Harry disparou novamente. Sentou-se e agarrou os cabelos. Precisava pensar, se acalmar, mas não sabia o que devia fazer primeiro.
- Pegue o mapa. - Rony disse.
- O quê? - sua mente estava em outro lugar.
- Pega a droga do mapa, Harry!
Momentos depois, Harry desceu correndo a escada com o Mapa do Maroto em sua mão.
- Ela não está aqui. - ele ofegou.
- Como? - Hermione pegou o mapa e começou a procurar o ponto de Gina.
Harry não queria perder tempo, precisava avisar a Dumbledore o mais rápido possível. Deixou Rony e Hermione examinando o mapa enquanto corria para o buraco do retrato.
Estava ofegando quando alcançou o hall de entrada. Em seus sete anos em Hogwarts jamais tinha ido da sala comunal até o hall de entrada tão rápido.
- Por que a pressa, Potter? Perdeu algo? - Draco Malfoy perguntou com sua voz arrastada e seu sorriso costumeiro.
Harry parou subitamente. Teve aquela sensação estranha de novo, a que o acompanhava em seus sonhos. Malfoy sabia de algo, Harry sentiu isso em seu íntimo. Malfoy sabia de algo sobre Gina.
- Por que está aqui, Malfoy? Por que não está no baile?
- Poderia perguntar o mesmo a você, não é, Potter? Mas estou certo de que sei sua resposta.
- E qual é? - Harry espetou.
- Ah, não sei, talvez um de seus cordeiros tenha se perdido no caminho - disse em tom prosaico.
Harry não pensou. Lançou-se sobre Draco, empurrando o sonserino contra a parede.
- Onde ela está, Malfoy? Se você encostou um dedo nela...
- Tira as mãos de mim, Potter! - Draco exigiu. - Não tirará informações de mim desse jeito.
Harry tirou as mãos do colarinho de Draco e afastou-se alguns centímetros.
- Onde ela está?
- A pergunta não seria "Como eu a encontro?", Potter?
- Malfoy...
- Sim? - ele estava sorrindo novamente.
Harry rangeu os dentes.
- Como eu a encontro?
- Pegue. - Draco disse, jogando um envelope para Harry.
Harry, desesperado, pegou o objeto antes que caísse no chão. De uma só vez, ele sentiu seu estomago afundar. Atada ao envelope, estava a tiara que Gina usava no cabelo aquela noite. Ele a reconheceu imediatamente, tinha comprado para ela na última visita a Hogsmeade.
- Onde conseguiu isso, Malfoy? - ele gritou.
- Ah, isso. Bem... Veja, Potter, encontrei sua namorada no corredor, ah, eu diria, há uma hora. E, bem, vamos dizer que essa pequena tiara me chamou a atenção, e eu tive que ver mais de perto.
Harry se lançou contra Draco novamente, mas estando perturbado como estava, não viu o outro pegando a varinha.
- Não se aproxime, Potter. Estive aprendendo grandes feitiços no ano passado, e eu gostaria muito de testá-los em você.
- Onde está Gina? - Harry perguntou.
- Ah, ela está em boas mãos. Bem - ele debochou. -, ela está nas mãos de alguém. - ele levantou a varinha e apontou para o coração de Harry quando este se moveu. - Eu disse para não se mexer, Potter.
Se não fosse por Gina, Harry teria atacado Draco e o quebrado inteiro, mas precisava de mais informações. Precisava que Draco dissesse onde Gina estava.
- Como sabia que eu viria aqui embaixo? - Harry perguntou desconfiado.
- Eu não sabia. - riu novamente. - Na verdade, eu estava indo ao corujal mandar essa carta para você. Mas você poupou meu trabalho. Vai estar adiantado, mas estou certo de que eles te darão um assento bem na frente para a matança.
- Do que está falando, Malfoy? - Harry se enfureceu.
- Direções, Potter - falou arrastado. -, estão no envelope.
Harry não conseguiu perguntar mais nada a Draco. Assim que terminou a última frase, o sonserino encostou a varinha num alfinete na lapela, murmurou algumas palavras que Harry não pôde escutar e, no momento seguinte, ele se fora. Harry ficou atordoado no saguão de entrada, olhou para o envelope em sua mão e a tiara na outra.
Precisava resgatar Gina, precisava alcançá-la logo. Sem pensar mais, ele pôs a tiara no bolso da sua capa e abriu o envelope. No instante em que tocou o papel que estava dentro, sentiu aquele puxão familiar em seu umbigo.
Harry caiu duramente no frio chão de madeira. O ar à sua volta estava abafado e tinha um cheiro de mofado. Não podia ver nada naquela escuridão, mas sabia que estava em uma espécie de masmorra. Parou por um momento, procurando escutar qualquer movimento que indicasse que não estava sozinho. Não ouviu nada, e arriscou ascender sua varinha. Olhando em volta ele pôde ver onde estava, em uma espécie de cela, uma masmorra, um pequeno buraco onde prisioneiros eram mantidos até morrerem.
Havia uma porta em uma das paredes, contudo, e estava entreaberta. Harry se lembrou das palavras de Malfoy. Os comensais que tinham levado Gina não estavam esperando-o tão cedo. Certamente eles planejaram trancar a porta para prendê-lo antes que chegasse.
Devagar e silenciosamente, Harry levantou-se, para o caso de ter algum guarda do lado de fora que pudesse ouvir seus movimentos e ir investigar. Esgueirando-se até a porta, não viu ninguém. Não havia nada além de uma longa passagem de pedra, iluminada pela luz fraca de uma tocha, e flanqueada por portas similares a que Harry estava próximo.
Olhou para os lados, imaginando que direção tomar, e desejando estar com sua capa; era a melhor maneira de passar despercebido pelos corredores. Claro que sua capa estava trancada no seu malão em seu quarto na Grifinória. Tinha deixado o dormitório esperando comparecer a um baile e não embarcar numa missão de resgate.
Continuou ouvindo, pesando suas opções. Algo dizia para que ele tomasse a direita, e uma sensação gelada invadiu seu estômago. Era o seu sonho. Ele sempre tomava a direita no sonho, e sempre achava Gina indo por aquele caminho. Só que no sonho ele chegava tarde demais...
Vozes escoaram de repente ao longo da passagem, fazendo com que ele recuasse novamente para a cela, enquanto desejava novamente sua capa. As vozes vinham da direita, a conversa era pontuada por passadas fortes de botas. Passaram em frente à cela de Harry e seguiram em frente, silenciando mais uma vez.
Agora ele tinha mais certeza sobre qual caminho precisava tomar. As vozes mencionaram que a prisioneira brigava mais do que eles esperavam, e que Flint precisava de ajuda. Os punhos de Harry se fecharam ao ouvir aquele nome, mas ao mesmo tempo ele sorriu quando imaginou o que uma Gina enfurecida faria a Flint se fosse deixada só com ele. Não era de se espantar que tivessem chamado reforços.
Harry seguiu na direção que as vozes tinham tomado, tendo cuidado em ficar atento caso alguém aparecesse. Ele andou por um bom tempo, até que uma luz à sua frente fez com que percebesse que atingira seu alvo. Ele acelerou o passo ao mesmo tempo em que se aproximou da parede, assim ele se mantinha escondido no escuro.
Ao fim da passagem estava um cômodo largo, a luz refletia nas lajes. Ele se espremeu nas sombras, espiando o cômodo, e lá ele a viu. Gina estava deitada no chão com os pulsos atados às costas, mas Harry viu que ela não tinha sido atada desde o início.
Alguns passos além dela, Harry pôde ver outra pessoa. Era Marcos Flint, tinha certeza, embora o antigo capitão de Quadribol da Sonserina estivesse muito difícil de reconhecer naquele momento. Havia um machucado enorme no rosto dele, e sangue escoava de uma ferida em seu lábio. Harry imaginou se ele não tinha perdido algum dente; parecia que Flint tinha sido chutado no rosto. Mas isso não era tudo. Ele estava curvado numa espécie de posição fetal, com as mãos entre as coxas, fazendo Harry concluir que ele tinha recebido pelo menos um chute abaixo do cinto também.
Um dos reforços estava pondo Gina de pé, mas ela tremeu e caiu mais uma vez. Agora Harry podia ver que as roupas dela estavam rasgadas e havia um corte aberto em uma de suas bochechas. Sua primeira reação foi a de entrar de supetão, estava chocado. Estava certo de que podia acertar o primeiro comensal antes mesmo de ele notar a sua presença. Contando com o elemento surpresa, poderia até acertar o segundo desgraçado sem problemas.
Ele se adiantou através do limiar da porta, mas foi imediatamente repelido por uma barreira. Foi jogado para trás na laje úmida, abalado com o que acabara de acontecer. Sacudindo-se, levantou-se e tentou de novo, obtendo um resultado semelhante. Harry não conseguia entender o que estava acontecendo. Não estava tendo problemas em ver o cômodo, mas havia alguma força invisível impedindo que ele entrasse.
Percebeu que tudo aquilo estava no sonho novamente, mas, pelo menos, agora ele entendia. Sempre que acordava do pesadelo, o coração disparado, brigava consigo mesmo pelo tempo que demorava para conseguir cair no sono novamente. Sempre estava paralisado no sonho, e sempre se questionava se não seria no fundo por covardia, algo que ele nunca tinha mostrado no passado, mas que sempre estivera lá espreitando, fazendo-o congelar quando suas ações fossem mais necessárias. Mas não era isso. Havia alguma influência externa ali.
Levantou-se novamente e tentou de novo, aproximando-se da entrada com mais cautela. Mas a força continuava no mesmo lugar, e ele foi repelido mais uma vez. Raiva e frustração tomaram conta dele. Como a tiraria dali se nem ao menos conseguia entrar no lugar? Como os outros tinham conseguido?
De qualquer maneira, Harry não teve tempo de avaliar tais mistérios. No instante seguinte, sua cicatriz explodiu em dor como já tinha ocorrido outras vezes. Ele se encolheu, caindo sobre os joelhos. Não podia mais ver dentro da sala - sua visão estava obstruída por faíscas brancas - mas ele não tinha duvida sobre quem acabara de entrar.
Voldemort estava ali.
Harry lutou contra a dor. Uma parte da sua mente ainda não havia sido dominada, a parte que lhe dizia que tinha de haver outra maneira de entrar naquela sala. Então se concentrou nisso, retomando o controle aos poucos. Tinha que fazer isso para que Gina tivesse alguma esperança de escapar, disse para si mesmo. Se concentrou naquele pensamento até que a dor sumisse.
Quando recobrou os sentidos, Voldemort estava se aproximando de Gina.
- Ah, se não é a graciosa Srta. Weasley. Você mudou bastante nos últimos cinco anos, não foi? Está crescida agora...
O engasgo de Gina foi ouvido até por Harry. Irritou-o que o Lorde das trevas tivesse feito soar como se ele e Gina fossem velhos e queridos amigos que não se viam há um tempo. Fez com que um arrepio repugnante rastejasse por sua espinha. O rosto de Gina estava fora da vista de Harry, mas ele imaginava a expressão de nojo que ela devia ter.
- É uma pena que não vá viver o suficiente para desfrutar sua vida adulta. - Ele pausou para sua gargalhada que ecoou pela câmara como um toque de morte.
- Mas o que é isso? - ele continuou quando controlou a risada. - Você não está feliz por me ver, minha querida? Por que será, quando eu e você temos tanta história juntos? - ele se aproximou de Gina, se abaixando o máximo que pôde, fazendo com que seus rostos ficassem o mais próximo possível. Seu corpo esquelético curvou-se ao meio, mas o ângulo não era natural, era serpentino, como se ele tivesse mais vértebras do que deveria ter.
- Por que está tão surpresa, querida? Não pode ter esquecido aquele pequeno episódio com meu diário tão facilmente, pode?
Para o completo horror de Harry, Voldemort se curvou mais e correu um longo e magérrimo dedo pela face de Gina. Ela se encolheu mais.
- Ah, entendo. Sim, deve ser isso. Não é que não se lembre. É que você não imaginou que esta minha encarnação saberia disso. Que esperta. Mas veja, você não parou para considerar o fato de que tenho servos que me contaram tudo sobre aquele pequeno incidente. Um deles estava residindo com o seu próprio irmão na ocasião.
Harry sabia que isso não era nenhuma surpresa para Gina; ele mesmo tinha-lhe contado toda a história. Mas a falta de reação dela mexeu com Voldemort.
- Ah, vejo que já sabe sobre Rabicho. Sim, ele estava bem situado para me contar o que tinha acontecido durante seu primeiro ano na escola.
- E Lúcio, sim, Lúcio foi muito esperto e muito estúpido com os procedimentos com meu diário. Esperto em tentar continuar o nobre trabalho de Slytherin e reviver minha memória, mas estúpido na sua escolha da vítima. Ele me contou, sabe. Contou-me tudo. Até me deu as sobras do diário para que eu mesmo visse.
Harry sentiu outro arrepio percorrer seu corpo. Nunca tinha parado para avaliar as conseqüências de devolver o diário de Tom Riddle a Lúcio Malfoy. Ele achou que tinha sido totalmente destruído pelo veneno do basilisco. Aparentemente estivera errado, e Gina estava prestes a pagar por seu erro. Sentiu-se enjoado.
- O diário, quando o vi - Voldemort continuou. -, estava quase totalmente destruído. O "eu" que deixei não estava mais lá, mas não importa. Eu pude ver as informações mais recentes. Soube o suficiente para entender.
O Lorde ainda estava se inclinando para Gina, seu rosto no dela. Harry não podia ver-lhe a expressão, apenas seu perfil, mas, por alguma razão, teve a impressão de que ela estava ficando esverdeada. Podia ter sido um efeito da chama tremeluzente, mas talvez não fosse.
Gina cuspiu no rosto do Lorde das trevas. Voldemort retomou sua postura ereta, cobrindo o cuspe com sua mão magra.
- Sim. - ele disse com raiva. - Está certo. Foi exatamente o que fez, e é onde o erro de Lúcio estava. Você me desafiou como ainda faz hoje. Ainda luta contra minhas tentativas de lhe controlar. Recusou-se a me servir, o que me conduziu à minha queda. Isso vai acabar em breve.
Ele parou para rir suavemente, o som parecia mais maligno naquela tranqüilidade.
- Ah, não, não posso permitir que viva sabendo o que é. Você é muito forte para continuar. Se você não fosse tão leal àquele Potter - ele falou o nome como uma maldição. -, seria diferente. Eu poderia usar alguém como você, alguém com seu poder. Podia dar-lhe mais. Mais do que sonhou em possuir. E você poderia mostrar a todos eles, não poderia? Você podia mostrar a ele que é mais que uma pequena fedelha ranhosa obcecada por ele.
Ele se inclinou até ela de novo.
- Mas eu sei. Sei que é bastante fiel para não aceitar minha oferta, então não vou nem me importar em fazê-la. Não, eu aprendi a lição uma vez em se tratando de você. Prefiro deixá-la morrer. Assim é muito, muito melhor. Por que assim você vai morrer, e ninguém saberá o quão forte é. Eles vão pensar e se lembrar de você como pobre e fraca. Eles já pensam em você como um nada por deixar que eu a possuísse. Acham que a única razão pela qual sobreviveu foi porque Potter chegou a tempo de salvá-la. Mas eles não sabem, não é? Eles não sabem que qualquer outro teria sucumbido completamente em pouco tempo.
O Lorde parou, respirando com dificuldade. Harry tentou imaginar como ela estava se sentindo, sabendo que uma entidade totalmente corrompida havia testemunhado seus segredos mais íntimos, assim como tinha visto sua alma e a possuído. Ele não conseguia. Simplesmente não conseguia imaginar, mas a sensação de náusea aumentou.
- Eles ainda a vêem como uma fraca, e não terá tempo de provar o contrário. E isso torna tudo muito emocionante. Mesmo sua morte, hoje, mostrará sua fraqueza a eles. Todos lembrarão de você como a pobre Gininha, tão facilmente enganada. O Lorde das Trevas a apanhou duas vezes. A primeira vez escapou por uma coincidência, mas na segunda vez não deu. E ninguém irá parar para pensar que eu quis matá-la por seu próprio mérito. Não, todos dirão que eu a usei como uma isca para atrair Potter para mim, - o que eu fiz, claro - mas dirão que a matei porque não era mais útil. Não ocorrerá a ninguém que eu poderia tê-la matado por qualquer mérito que possua.
- E acima de tudo, farei com que Potter saiba disso antes de despachá-lo.
Harry queria gritar para Gina que não era verdade, que ele já estava ali e que tinha escutado tudo. Além disso, que ele nunca achara que ela fosse fraca. Ele já sabia da sua força; só não estava ciente de quão intensa era. Não estava certo de que entenderia a extensão disso, mas aprendeu que era grande, que Gina era muito mais do que parecia. Ele passaria feliz o resto da vida aprendendo o resto.
Mas precisava achar uma maneira de tirá-los dali primeiro, e no momento as coisas pareciam realmente sérias.
Harry estava prestes a tentar ultrapassar a barreira mais uma vez, quando um movimento na sala chamou sua atenção. Gina tinha elevado o queixo em desafio.
- Vá em frente e me mate. - ela disse. Foi a primeira coisa que Harry ouviu ela falar desde que tinha sido levada, e não havia traço algum de medo na sua voz. - Vamos, faça. Eu o desafio. Porque se o fizer, eu juro que vou dedicar toda a eternidade perseguindo você. Você não pode morrer, não é? Não pode porque não está vivo de verdade. Espero que tenha encontrado os meios de se tornar realmente imortal, pois eu juro que vou tornar isso uma maldição eterna para você. Vou te seguir onde quer que vá. Meu espírito se prenderá ao seu, e eu lhe lembrei constantemente da única pessoa que você não pôde controlar. Seu fracasso irá lhe perseguir para sempre, pendurado em seu pescoço e acabando com você, multiplicando suas falhas até que as pessoas digam seu nome com desprezo e não com medo.
Harry se inclinou para escutá-la, nunca a tinha escutado falando com tanta autoridade. Ela se manteve, pequena e brilhante, embaixo da sombra de Voldemort, e não cedeu. Ao mesmo tempo, Harry sentiu mais medo por ela. Não havia chance de Voldemort deixá-la viva agora.
E então ele se questionou. O que fez ela soar tão certa sobre o próprio destino?
Mas Voldemort riu. Ele jogou a cabeça para trás e a gargalhada alta ecoou pelas pedras. Quando se acalmou, respondeu:
- Eu acho que não ouvia uma piada tão boa há bastante tempo! Mas não irá salvá-la, querida. Sinto muito. Vou perguntar uma coisa: Como planeja fazer isso?
Gina abriu a boca e recitou um encanto que Harry nunca ouvira, mas as palavras ficariam gravadas na memória dele.
- Pollentia Erinyum te obsidemus ad perpetuitatem.
A voz dela ecoou pelas pedras. Voldemort pareceu congelar por alguns instantes, e um tremor visível passou por ele como se tivesse sentido algo por conta do feitiço dela. Ainda mais, tinha sido sem varinha. Harry não conseguia entender o que estava acontecendo.
E parecia que Voldemort também não.
- O que fez? - perguntou. Gina olhou de novo para ele, mas se recusou a responder. - Diga-me agora, garota, o que acabou de fazer? - a voz dele ainda estava calma, mas cheia de veneno. Gina se manteve calada.
Voldemort levantou a varinha.
- Diga o que fez, ou irá se arrepender.
- Vá em frente e me mate. Veremos quem vai se arrepender.
- Ah não, querida. Estou guardando essa honra para quando tivermos a audiência. Mas asseguro que vou matá-la antes que a noite acabe. Vamos ver se um pouco de persuasão não faz com que fale. Eu vou ter tempo para gastar antes que Potter chegue aqui. Imperio!
Harry esperou, prendendo a respiração. Não fazia idéia se Gina já tinha experimentado a maldição imperius antes, muito menos se ela conseguia controlá-la. No início ela parecia tremer, sua boca se mexia como se ao mesmo tempo ela quisesse abri-la e fechá-la. Então ela ficou quieta. Minutos se passaram e Gina nada falou.
Os olhos de Voldemort se estreitaram.
- Acho que teremos que tentar outra forma de persuasão. Crucio!
Dessa vez Gina fez um som. Ela gritou. Harry achou que nunca esqueceria o som daquele grito. Sabia que o escutaria em seus pesadelos pelo resto da vida. Ele afundou no chão em dúvida entre enfiar os dedos nos ouvidos ou tentar invadir a sala. Mas sabia que não podia fazer aquilo. Não poderia arriscar ser visto agora. Se o fizesse, não haveria jeito de algum deles sair dali.
Voldemort ergueu a varinha por um momento. Gina estava deitada no chão, tremendo. Ele deu-lhe um momento para recobrar a respiração.
- Você não gostou muito disso, não é? - perguntou a ela. - Se não quiser que eu faça de novo, vai me dizer o que eu quero saber.
Gina não respondeu. Manteve-se calada no chão.
- Você percebe que muita exposição a essa maldição vai te tornar uma boba alegre, não sabe? Eu posso ter que esperar Potter chegar antes de matá-la, mas não precisará da sua mente para que eu consiga o que quero com ele.
Gina se recusou a falar.
- Muito bem, então. Como queira. Crucio!
Harry não fazia idéia de quanto tempo isso durou. Cada segundo era uma eternidade. Saber como a maldição Cruciatus funcionava tornava tudo pior. Tentou impedir-se de ouvir os lamentos de dor dela, mas não pôde.
De vez em quando Voldemort levantava a varinha e dava a ela a chance de falar, mas ela nunca o fazia. Logo os gritos começavam novamente. Harry lutou para não vomitar no chão. Gina era forte. Ele tinha que se mostrar igual a ela se quisesse tirá-los dali. Torcia para que ainda sobrasse algo dela para salvar.
Se não, ele poderia morrer matando quantos comensais pudesse como vingança.
Após o que pareceu uma eternidade, o silêncio tomou conta do lugar. Harry se preparou para os gritos começarem mais uma vez, mas eles não começaram. Minutos se passaram em silêncio. Ele olhou para a sala em pânico. Ela estava morta? Muitas maldições Cruciatus chegariam a matar? As memórias do seu sonho não podiam lhe dizer mais nada. Aquela era a parte em que ele sempre acordava suando frio.
A sala estava vazia, exceto pelo amontoado no chão que era Gina. Voldemort e seu bando, aparentemente, tinham ido embora arrastando Flint com eles. Harry socou a parede, frustrado. Aquela era a oportunidade perfeita de tirá-la de lá, e a força invisível o impedia de chegar até ela.
Mas teria de tentar. Deu um passo de tentativa em direção à barreira. Nada o jogou para trás. Outro e outro. Ele estava na sala. Correu até Gina.
- Gina, vamos, acorde. - ele pediu, ajoelhando-se e balançando ela gentilmente. Ele passou um braço por baixo do ombro dela, levantando metade dela do chão inundado e aproximou seu rosto do dela. Estava fria. Podia ver que ela tinha entrado numa briga, provavelmente com Flint, mas não havia nenhum sinal externo do verdadeiro momento de agonia que tinha passado.
- Vamos, Gina. Temos que sair daqui. Acorde, por favor! - ele a balançou um pouco mais. Estava se desesperando. Não sabia quanto tempo tinha.
Recolhendo Gina em seus braços, ele alcançou a varinha e removeu as cordas que prendiam os pulsos dela.
- Eu vou te levar de volta, Gina. Vou te levar de volta a Hogwarts. E jamais deixarei que alguém faça algo assim com você outra vez. - então pegou a pedra que sempre carregava consigo, apertou-a no punho e disse:
- Bumblebee.
