Título: Wicked Game
Autora: Senhorita Mizuki
Categoria: Slash
Gênero: Romance
Classificação: Lemon
Personagens:
Harry Potter e Draco Malfoy
Avisos:
Spoilers do primeiro ao sexto livro, O Enigma do Príncipe.
Agradecimentos especiais a: sis Mudoh Belial, que permitiu ser alugada duas semanas por esta criatura que vos fala. Merece um altarzinho das betas! XD

Disclaimer: Harry Potter e personagens aqui representados não me pertencem, mas sim a autora J.K.Rowlings e a Warner Bros. Foi escrito de fã para fã, sem fins lucrativos.


Wicked Game

Por Senhorita Kaho Mizuki


Capítulo 13

Potter havia finalmente começado a entrar no espírito da coisa, Draco concluiu, o vendo acompanhado do grupo de Richard em um canto do salão. Haviam participado de algo como ser perseguidos por dragões em vassouras. De fato, era proibido trazer os animais mágicos sem a licença do Ministério – mas se tratavam da elite bruxa, aquela a qual tinha grande presença no próprio.

Parecia ter entrado em alguma espécie de competição com Richard. Era de alguma forma estranho ver Potter competir com outros que não ele. Mas o ex-corvinal adorava um jogo, e o outro estava sempre querendo provar ser o melhor. Típico, Draco pensou, rodando os olhos para cima, enquanto observava o grupo de longe, que parecia comentar justamente o evento da tarde.

Seus olhos descansaram na figura de Potter, que descrevia algo com gestos muito agitados. Afobado, como sempre. Ao menos ele havia aprendido a vir mais bem vestido – não que estivesse impecável, o que lhe parecia impossível com aquele cabelo que parecia nunca ver um pente e os óculos antiquados, mas as roupas definitivamente pareciam ter uma procedência melhor.

Sentiu-se um tanto desconfortável quando os olhos de Potter encontraram os seus. Disfarçou recostando-se a uma parede e cruzando os braços. Era divertido provocar o ex-arquiinimigo de escola, mas precisava tomar cuidado. Estava começando a ficar estimulado a fazê-lo toda vez que o via. Não era porque estava atraído pelo arrogante salvador dos bruxos; ainda que precisasse admitir que a guerra e o treino houvessem ajudado-o a construir uma forma mais agradável. Não importava, Potter ainda era o maldito cabeça rachada, e vê-lo desconfortável ou irritado ainda lhe dava um prazer indescritível.

Lançou um olhar entediado para Potter que andava até ele, com aquele sorriso irritante nos lábios. Previsivelmente ele serviu-se de um copo de firewhisky de um elfo doméstico em seu caminho antes de alcançá-lo. Cumprimentou-o com um imperceptível aceno de cabeça.

- Não é um tanto estranho, Malfoy, - começou Potter, com um ar petulante demais para ele – que quase nunca o vejamos acompanhado de sua bela noiva?

- Ela é francesa, não fala bem inglês. – respondeu seco – Sua família está na França, então ela prefere fazer companhia a minha mãe.

- A garota vive com vocês? – Potter perguntou perturbado, interrompendo o caminho do copo a sua boca – Ela não nota que você, bem... – disse embaraçado, voltando ao Potter que conhecia – faz essas coisas?

- Coisas? – repetiu sarcástico – Potter, algumas mulheres fingem não saber, ou apenas vêem o que querem.

- Não se sente culpado?

- Eu deveria? – Draco piscou os olhos, fingindo um ar de surpresa – Ou pode ser que está se sentindo culpado por fazer esse tipo de coisa comigo, Potty? – aproximou-se, acariciando a face do outro com seu hálito, ficando satisfeito ao vê-lo cerrar os olhos ligeiramente – Não sabe que isso faz as coisas mais irresistíveis?

- Achei que não tivesse classe o suficiente para você. – resmungou.

- Creio que estamos mudando um pouco isso, não? – ronronou próximo ao ouvido dele.

- Malfoy. – alertou-o, correndo os olhos verdes para os lados – As pessoas estão nos olhando e comentando, se não percebeu ainda.

O loiro afastou um pouco, apenas para correr os olhos ao redor discretamente, conferindo. Seu olhar encontrou Richard, que os olhava como se quisesse avançar sobre eles e separá-los a tapas. Estava visível no olhar duro e como os nós de seus dedos ficavam brancos ao segurar com força seu copo.

Sorriu deliciado. Estava indo muito bem até aquele momento. Apostando no instinto ciumento do ex-corvinal, que sabia, ou ao menos imaginava, quanta animosidade havia entre ele e Potter. Algumas vezes ódio podia se transformar em outras coisas e aquilo fazia Richard queimar.

Apenas mais um pouco e ele finalmente cederia seus desejos, e armaria uma armadilha a Potter, os planos de Lestrange estando em primeiro plano ou não.

- Ótimo. – disse.

Potter encarou-o indeciso, mas então balançou levemente a cabeça e sorveu toda a bebida num gole só. Aquele era um hábito definitivamente ruim – não que se importasse com o que fosse bom a Potter, mas não era um ambiente propício para se embebedar e fazer suas usuais besteiras.

Logo Richard se aproximava de ambos, como esperava. Não poderia deixá-los sozinhos por bons quinze minutos. Convidou-os a um jogo de pôquer, que declinou novamente. Não era muito fã daqueles jogos fortuitos de cartas. Sem surpresa, Potter os seguiu pegando outro copo cheio de bebida. Draco esfregou a têmpora. Alguém precisava corrigir aquele bastardo antes que algo péssimo acontecesse.

Deixado sozinho, Draco percorreu o salão, mantendo conversas aqui e ali com alguns bruxos mais idosos que lembrava terem negócios com seu pai antes da prisão. Alguns ainda o olhavam e o tratavam com certo receio. Mas aprendera a usar certa lábia e voz aveludada que seu pai costumava dispor nessas horas.

E era com bruxo participante de um Conselho Internacional que conversava, quando dois daqueles amigos de Richard apareceram, rindo.

- Malfoy, se mal lhe pergunte, mas você e Potter, por acaso, têm algum caso?

Draco gelou, olhando-os como se tivessem criado duas cabeças cada. Então pediu polidas desculpas ao bruxo, que o olhava de esguelha, e puxou os dois para uma janela exigindo explicações.

- Do que diabos estão falando?

- Sério, Malfoy. – começou um deles, ainda rindo – Você precisa ver isso!

- Potter está bêbado como um elfo entupido de cerveja amanteigada e ainda apostando com Richard.

Bem, até ali nenhuma novidade, era estúpido o bastante para apostar com Richard. Por acaso Potter havia dado com a língua nos dentes? Mas o que poderia ter entre eles para o cabeça rachada falar sem querer?

- Eu não vejo motivo para a pergunta de antes. – disse, erguendo uma sobrancelha clara, não entendendo.

- O ponto é o que eles estão apostando.

- Estão apostando você, Malfoy. – o outro disse, vendo-o ficar mais pálido – Há alguma coisa com vocês que não sabemos? Quer dizer, não que não tenhamos sus...

- Com licença. – disse rudemente.

Afastou-se dos dois, sentindo um embrulho no estômago e começando a suar. Atravessou o salão apressado, atraindo olhares por onde passava, pedindo sem polidez nenhuma que lhe dessem licença. Ele não seria idiota a ponto de...

Oh, mas ele era.

- Chegou bem a tempo, Draco! – Richard saudou-o – A tempo de me ver acabar com Potter.

- Em seus sonhos, Honeyman. – disse o ex-grifinório com convicção.

Draco havia acabado de chegar a uma sala menor, onde na mesa estavam apenas os dois, cartas, dois copos e uma garrafa de firewhisky entre eles. Os outros rapazes observavam divertidos o jogo, cochichando uns com os outros e muitos olhando Draco de esguelha.

Era raro Draco sentir-se embaraçado – ele sempre dava um jeito para sair por cima! Incrível que todas as vezes que sentira assim envolvia a presença de Harry Potter.

- Muito bem, podem parar com a palhaçada. – o loiro avisou, com um ar perturbado.

- Não estrague, está sendo divertido. – disse calmamente Richard.

- Concordo plenamente. – Harry pareceu confuso com que carta pegava da mão do desafiante.

- Não vão apostando as pessoas pelas costas delas!

- E isso quem diz é um sonserino convicto. Há! – rebateu Potter, concentrado.

Draco bufou, irritado também por perder sua compostura. Lançou olhares aborrecidos aos ocupantes da sala, que o olhavam debochados. Cruzou os braços e limitou-se a observar, vendo que era uma causa perdida. Ao menos podia tentar recolher o pouco que restara da sua reputação.

Com o que ele estava preocupado afinal?, pensou vendo Potter beber um copo de firewhisky atrás do outro e franzir o cenho para as cartas em sua mão, esfregando os olhos e entortando os óculos. Ele estava tão bêbado que mal enxergava e era um completo zero a esquerda em pôquer. Até mesmo Draco já o havia derrotado incontáveis vezes no carteado desde a festa de Natal...

Não havia com o que se preocupar – no dia seguinte aquele incidente seria uma piada que esqueceriam rapidamente. Provavelmente teria de fazer algum 'serviço' a Richard naquela noite. A perspectiva não o animava muito, mas já havia se conformado com seu papel.

Poderia apenas esperar que Potter caísse de cabeça na mesa desmaiado, antes que aquele jogo terminasse. O que, pela cara que fazia, poderia acontecer a qualquer momento.

Richard deu um sorriso malicioso e dispôs suas cartas na mesa. Murmúrios percorreram a sala. Como o esperado. Draco ergueu uma sobrancelha, nem um pouco surpreso.

- Você está liquidado, Potter. – disse triunfante – Eu tenho um full house.

- Droga. – resmungou Potter muito aborrecido, jogando suas cartas na mesa.

- Eu não acredito! – exclamou alguém na sala.

Nem ele. Olhou para as cartas que dispusera na mesa, sua mente devia estar confusa. Apesar de um jogo trouxa, Draco havia entendido e decorado certas coisas do jogo, com o tanto de vezes que Richard insistia para jogarem. Então não teve dúvida: o maldito conseguira um straight flush.

- O que? Que foi? – Potter piscou confuso.

- Você ganhou, idiota. – Draco disse entredentes.

- Eu ganhei? – o ex-grifinório virou-se para ele, com um sorriso estúpido.

- Foi sorte de iniciante. – Richard rosnou, deixando cair momentaneamente sua frieza polida – Quero uma revanche!

- Eu vou lhe mostrar o que foi sorte de iniciante! – Potter desafiou, apontando para o outro.

Draco olhou ambos com uma expressão alarmada. Os dois idiotas estavam bêbados e determinados a jogar sua reputação no lixo – não tinha onde enfiar a cara naquele momento. Com um movimento brusco foi até Potter e puxou seu braço, fazendo-o se erguer desajeitado.

- De jeito nenhum, você não vai. – disse firme.

- Draco, o que está fazendo? – Richard ergueu-se, aborrecido.

- Fazendo-o ir para casa. Do jeito que ele se encontra só vai dar dor de cabeça. – murmurou, sentindo-se pior ao ser visto carregando o maldito do ex-grifinório.

- E desde quando se importa com ele? – sussurrou e segurou seu outro braço, já que o outro estava ocupado em manter Potter em pé.

- Eu não me importo. – soltou rudemente seu braço – Por mim ele poderia capotar em cima da mesa e jogarem na sarjeta. Mas eu não gosto quando eu estou envolvido. – lançou-lhe um olhar gélido.

- Era só um jogo, Draco. – defendeu-se.

- Certo...

Draco empurrou-o para o lado e carregou um cambaleante Potter para fora da sala. O maldito era pesado, não mais o magrelo adolescente com quem costumava trocar farpas na escola. Olhou com receio para a festa que acontecia no salão, onde os bruxos se mantinham entretidos demais para notarem. Mas não seria por muito tempo.

Avistou um elfo doméstico e demandou que o levasse até a cozinha. Lá uma porção de elfos os cercou, irritantemente prestativos, oferecendo um copo d'água para Potter. Tudo que Draco queria era arrastar ele para fora do clube, sem ser vistos. Aceitou o copo d'água de um dos elfos, arrastando o outro rapaz para os jardins, o tempo todo resmungando e blasfemando com Potter, enquanto esse achava certa graça no que Draco dizia. A neve se acumulava na grama e na copa das árvores. Sentiu o vento gelado. Talvez o frio o acordasse da bebedeira.

Encostou-o a uma árvore e jogou a água no rosto dele. Potter sobressaltou-se e blasfemou, olhando feio.

- Não me olhe desse jeito, merece isso!

- Merlin... – murmurou, enxugando o rosto nas vestes e estremecendo ligeiramente.

- O que lhe disse sobre se embebedar nesse tipo de lugar? E o que foi aquilo, de me apostar com um desgraçado feito o Richard? Não que você não seja também...

- Cala a boca, Malfoy. Está me dando dor de cabeça. – olhou o loiro de esguelha.

- Mesmo? – guinchou, sorrindo sarcástico – É bom mesmo, porque é um panaca que só arruína minha vida, Potter! – aproximou-se de seu ouvido, gritando.

O moreno cerrou os olhos com força, para então olhá-lo nervoso em um aviso silencioso que Draco com prazer decidiu ignorar. O que não foi uma boa coisa, vendo-se no segundo seguinte prensado contra uma árvore. Segurou seu robe com um punho, enquanto erguia o outro. Seu corpo estremeceu em instinto, e o loiro deu um sorriso malicioso, provocando-o.

Então Potter baixou seu punho, surpreendendo-o quando pressionou o quadril contra o dele. Draco arregalou os olhos cinza, involuntariamente se sobressaltando e gemendo. Aquilo pareceu encorajá-lo a deslizar uma perna entre as suas, movendo-a contra sua ereção. Não poderia estar acontecendo! Potter só poderia estar tão bêbado que havia afetado seu juízo!

Draco levou suas mãos até os ombros do outro, a fim de empurrá-lo, mas o fez fracamente, soltando mais um gemido estrangulado ao senti-lo movimentar seus quadris contra os seus. Olhou irritado para o outro, encontrando uma expressão séria em seu rosto, os olhos verdes escurecidos detrás dos óculos. Estava ofegante e o olhava penetrante. Aquele era um Potter com o qual Draco nunca havia aprendido a lidar. Ele deveria estar provocando-o e deixando-o embaraçado e excitado, não o contrário.

Pensando nisso, Draco conseguiu forças para abrir a boca, prestes a rechaçá-lo. Ou era o que pretendia fazer, se o moreno não tivesse segurado seu queixo com firmeza e coberto sua boca com a dele. Sentiu o hálito de firewhisky antes que a língua serpenteasse para dentro da sua boca, acariciando e exigindo a sua.

Sentiu seus joelhos fraquejarem e agarrou o robe de Potter, sua mente anuviando com as sensações que a boca exigente lhe trazia. A mão do outro passou para a sua nuca, acariciando de leve seus cabelos e mantendo sua cabeça firme. Draco, contudo, já não fugiria, começando a corresponder o beijo com igual furor, como se o hálito o embriagasse também.

Cerrou os olhos e experimentou mexer seus quadris, ouvindo-o gemer longamente entre o beijo e apertá-lo mais contra a árvore. Ambos se moviam frenéticos, um contra o outro, na ânsia de se aliviarem, fazendo a neve cair das folhagens da árvore. Draco meramente notou a neve em seu cabelo, enquanto Potter segurava seu rosto com as duas mãos aprofundando o beijo. Sentiu a ereção dele dura através das calças. Sentiu a sua própria desconfortável e limitada pelo tecido da calça, esfregando-se mais contra a perna pressionada entre as suas.

Ofegou, soltando golfadas de vapor no ar gélido, quando ele encerrou o beijo para mordiscar e sugar seus lábios. Potter passou a depositar beijos pelo seu rosto, fazendo-o ferver apesar dos flocos frios que cobriam suas faces. Segurou a cabeça do moreno, que afundara o rosto em seu pescoço, puxando o robe para o lado, para ter acesso a pele pálida de seu ombro.

Sabendo que não agüentaria, Draco segurou a mão que ainda acariciava sua nuca, levando-a até tocar sua ereção através das calças. Potter hesitou por um momento, então o apertou, fazendo o loiro estremecer e gemer em resposta.

- Oh, por favor... – Draco murmurou, incoerente.

O outro continuou a acariciá-lo por algum tempo, antes de retirar a mão. Draco protestou debilmente, ainda mais quando sentiu uma lufada de ar atingi-lo, porque o outro havia afastado o corpo do seu.

- Então qualquer um serve para você, Malfoy? – disse num tom amargurado.

Aquela sentença foi um balde de água fria em Draco, fazendo-o abrir os olhos cinza de súbito. Percebeu o que acontecia ali, em pleno ar livre, com uma festa acontecendo havia poucos metros. Sentiu a fúria subir-lhe na garganta fazendo-o estremecer tanto por Potter tê-lo tocado daquela maneira quanto por ter deixado que o fizesse.

Empurrou-o, rude, lançando uma azaração ferreteante. O ex-grifinório recolheu a mão por instinto, sentindo a mão queimar e então uma marca de queimadura apareceu na palma. Olhou-o feroz para ele, parecendo sóbrio o bastante para Draco.

- Não há necessidade de agir feito um virgem ofendido, Malfoy! – rosnou – Você deixou bem claro que é bem o contrário disso! – terminou sarcástico, vendo-o trincar os dentes.

- Droga, Potter! Você é um bastardo maldito! – limpou os lábios avermelhados com uma expressão de nojo, vociferando a plenos pulmões com suas faces coradas – Volte sozinho para sua casa, e leve sua hipocrisia consigo!

E Draco virou-lhe as costas, ignorando os gritos do outro. Decidiu andar até o portão da propriedade, desejando que o clima esfriasse sua cabeça, que colocasse suas idéias no lugar.

O que diabos havia sido aquilo?


- Não jogo pôquer e nem ao menos sei das regras. Mas com a ajudinha de uma amiga, soube que straight flush ganha de uma seqüência de full house.


Capítulo 14

Richard apareceu em sua mansão logo pela manhã, interrompendo o café com sua mãe. Parecia muito agitado e aborrecido, mal disfarçando com a polidez com a qual cumprimentava Narcisa e Sylvie. Assim que Draco cerrou as portas da biblioteca, o rapaz foi curto e grosso.

- Muito bem, Draco. Eu acho que já tive o bastante.

- Não faço à mínima do que esteja falando. – disse calmamente, oferecendo-lhe alguma bebida.

- Eu creio que sabe até demais. – estreitou os olhos – O que vem sendo essa sua relação com Potter? Achei que o desprezasse!

- Oh, por favor. – respondeu com voz arrastada – Só estou fazendo o que lhe disse. Estou apenas trazendo Potter para mais perto, fazendo-o cair em nossas mãos. – olhou-o de esguelha – Enquanto você parece querer afastá-lo.

- Não sem motivos, Draco.

O loiro fez uma careta, andando até sua mesa. As demonstrações de ciúmes do outro o irritavam. Richard o tratava como uma propriedade – achava que o outro lhe devia reputação, que devia oferecer-se e obedecer quando bem quisesse. Ou pelo menos era isso o que Draco procurava fazê-lo acreditar. Um Malfoy nunca receberia ordens de alguém, não antes de conseguir tudo o que quisesse.

- Relaxe. Ele está justamente no ponto. – disse, sentando-se na mesa que pertencera a seu pai.

- O que quer dizer?

- Não quer dá-lo a Lestrange como prova de sua lealdade? Esta é a oportunidade.

- Achei que quisesse sua vingança antes que ele pudesse pôr as mãos em Potter. – sentou-se do outro lado da mesa, prestando atenção.

- Eu posso tê-la no mesmo momento, ando bastante generoso. – deu de ombros.

- Como se eu pudesse acreditar nisso. – resmungou – O que tem em mente?

- Podemos levá-lo direto a eles, nas Ilhas Hébridas da Escócia. – antes que o outro pudesse protestar continuou – Convidá-lo para acampar e perseguir os dragões daquelas montanhas. Espero que ele aceite, apesar do jogo de pôquer de ontem. – murmurou a última parte, erguendo uma sobrancelha clara.

- O maldito estava tão bêbado que nem sabia o que fazia, Draco. – deu uma risada debochada.

Você que pensa, silvou Draco em pensamento, recriminando-se por pensar novamente na noite anterior. Havia passado o resto dela revirando na cama, com insônia, sem poder pensar em mais nada que não fosse os lábios de Potter. O mais irritante foi ter simplesmente esquecido de tomar uma poção para dormir.

- Eu não sei... – começou Richard, interrompendo seu devaneio – Seria levá-lo muito perto de Lestrange e seus homens. Podemos nos arriscar assim? Ele ainda é o Harry Potter.

- Ele derrotou o lorde, mas está mais do que nunca relaxado e descuidado por isso. Nenhum auror se infiltra em um lugar como nossa sociedade, bebe como ele e se expõe ao ridículo.

- Vai ser difícil convencer Lestrange, ele não confia em você... – disse indeciso.

- Quer ou não o plano? – disse seco – Ficou animado quando o propus.

- Foi divertido pensar em brincar com Potter no início, mas não tenho tanta certeza agora.

- Pense em como será prazeroso ver Potter sozinho cercado e acuado por nossa gente. – deu um sorriso malicioso, que pareceu ter agradado o outro.

- Não nego que é tentador. – Richard sorriu, mordiscando o lábio – Então viajarei até as ilhas, para informar a Lestrange.

Draco acenou com a cabeça, vendo o outro erguer-se da cadeira e fez o mesmo. Viu o outro avançar sobre si, apoiando a mão em sua cintura e inclinando-se para um beijo. O loiro desviou-se de pronto, e seus lábios acabaram apenas encontrando uma bochecha pálida, fazendo-o se irritar.

- Esta é minha casa, minha mãe e Sylvie estão a poucos aposentos daqui. – esclareceu Draco.

- Droga, Draco! É essa atitude sua desde que isso começou que anda me deixando louco! – afastou-se, passando a mão pelo cabelo curto, nervoso.

- Não seja dramático, é apenas por um tempo.

- Eu espero que sim. – disse parecendo conter sua raiva – Espero que não tenha esquecido o que fiz por você, Draco.

Com um último olhar a Draco, Richard se dirigiu até a porta sem sua companhia. O loiro deixou-se cair na cadeira quando cerrou a porta, ficando sozinho. Fitou um ponto fixo a sua frente, estando a sós com seus pensamentos pela primeira vez desde que levantara da cama. Ele tinha outras coisas a se preocupar do que com o que Potter lhe fizera – o grifinóriozinho estava alterado e provavelmente queria revidar suas provocações. Não havia outra desculpa, havia? Ia ter sua revanche em breve, não devia se preocupar. Mas seu corpo parecia querer lembrar de cada detalhe da noite anterior, ao invés de lhe dar uma trégua.

Sobressaltou-se quando ouviu a porta se abrir, relaxando ao ver Snape entrando na biblioteca, mancando ligeiramente. Segurava um jornal e erguia uma negra sobrancelha para o rapaz.

- Vi Honeyman sair, parecia bastante perturbado.

- Oh, aposto que sim. – disse com uma carranca.

Contou-lhe sobre a conversa e certos fatos do dia anterior, ocultando algumas coisas envolvendo o ex-grifinório. Viu o professor torcer o nariz, apertar o jornal entre seus dedos.

- Insisto em dizer que pode lhe trazer problemas, Draco. Porque aceitou a missão de Shacklebolt? Tenho certeza que ele possui pessoas mais qualificadas para o trabalho.

- Não podia ignorar o fato de que Lestrange está vivo e por perto, podia? – disse exasperado – Não posso deixar de pensar na minha mãe com esse homem a solta. Se ela o vir... – interrompeu-se, incapaz de falar mais – Não quero imaginar o que pode acontecer.

Mas sua mente não parava de lhe prouver possibilidades assustadoras. O estado de sua mãe já era delicado com o que acontecera na guerra. O simples fato de ver Lestrange poderia desencadear reações que piorariam seu estado.

- Entendo a preocupação com sua mãe. – Snape disse em tom severo – Mas devo lhe lembrar que estou aqui e que a Ordem prometeu manter seu acordo.

- Eu espero que sim, porque estou arriscando meu pescoço. – disse nervoso, remexendo na correspondência empilhada.

- De qualquer forma, creio que isso seja do seu interesse. – e Snape jogou o jornal que segurava na mesa, apontando para um artigo.

Draco parou o que fazia no momento, olhando distraído para a notícia. Quando a foto animada lhe mostrou ele carregando um Potter muito bêbado, afundou na cadeira sentindo-se humilhado. O artigo falava sobre a freqüência com que o salvador do mundo bruxo andava aparecendo em estado de embriaguez nas notícias e a suposta amizade que havia feito com Malfoy.

Suposta amizade? Que absurdo tremendo!, era o que muita gente iria pensar. Sem falar que sua figura na foto lhe parecia decadente, cambaleado junto com Potter e com uma carranca que deformava seu aristocrático rosto.

- Merlin! – bufou – Aquele Creevey está tão obcecado assim para seguir Potter em tudo quanto é canto com sua câmera desde Hogwarts? – não que o flagra no vestiário da Grifinória não tivesse dado boas fotos.

- Creio que sim. Um rapazinho fortuito aquele, não? – e Snape pigarreou, como se disfarçasse que sabia de mais.

Esperava que o Profeta Diário não fosse um dos privilégios que o advogado deles conseguira para seu pai em Azkaban. Ou sua próxima visita de família não seria muito agradável.

oOo

Richard providenciara uma rápida viagem às Ilhas Hébridas assim que pode. Ainda estava extremamente nervoso com Draco, querendo cada vez mais ver Potter ser abatido. Ficaria mais que satisfeito em dar de bandeja o ex-grifinório a Lestrange.

Sozinho dessa vez, ele atravessou a floresta daquelas montanhas, que escondia um grupo de Comensais por meses. Tudo graças, também, a sua relação com pessoas importantes do mundo bruxo. Poderia não ser o sucessor de seu pai, mas usar o nome dele lhe abria muitas portas e evitava que lhe fizessem perguntas. A influência do pai ajudava a livrá-lo das confusões.

Lestrange lhe devia muito e teria sua recompensa ao fim. Far-lhe-ia mais feliz quando trouxesse Potter ao seu covil, mesmo que lhe perturbasse o fato da idéia vir de Draco, não dele.

Percorreu a mata com passadas largas, até que o som de farfalhar o fez parar de súbito e erguer a varinha. Uma figura igualmente encapuzada saiu de trás de um grosso tronco, tirando o capuz para revelar-lhe um sorriso de escaninho. Richard baixou a varinha apenas um pouco, estranhando o fato daquela pessoa não estar guardando a entrada da gruta.

- Nott? O que faz aqui?

- Pensei em lhe encontrar no meio do caminho, para lhe fazer companhia. – respondeu com uma voz calma.

- Que amável de sua parte. – disse sarcástico.

O outro apenas cerrou ligeiramente os olhos em resposta, indicando para que seguissem. Richard que estava com pressa em contar as novidades a Lestrange, se irritou com a vagareza dos passos do outro. Se ele notou, fez questão de ignorar.

- Então, como vai Malfoy? Fiquei surpreso ao saber que também estava envolvido.

- Malfoy é uma companhia constante. Como estivemos envolvidos com a causa anos atrás, não vi porque não deixá-lo a par dos acontecimentos. – olhou-o de esguelha.

- Mesmo? – Nott ergueu uma sobrancelha, falando no mesmo tom que seu passo lento – Ainda que ele esteja solto e haja boatos de que entregou muitas famílias?

- Estou no mesmo patamar que ele nesse caso. – parou, encarando-o – Estou sendo considerado um traidor?

- Não me leve a mal, o senhor está sendo muito útil. – disse, com um sorriso que não convenceria a mais tapada das criaturas – Mas sinto que é meu dever alertá-lo sobre Malfoy. Soube que ele ofereceu a cabeça de Potter como prova de sua lealdade.

- O que devemos fazer em breve. – confidenciou Richard, ficando irritado.

Nunca sentira vontade de confraternizar com Nott, aquela figura fantasmagórica que se esgueirava por aí e apenas servia para tarefas desprezíveis. Seu pai nunca lhe conseguira deixar em uma posição de destaque aos olhos do Lorde das Trevas enquanto este ainda vivia. Lestrange não fazia questão de notá-lo agora igualmente.

- Oh, é mesmo? Presumo que foi idéia de Malfoy. – concluiu, vendo a confirmação no rosto do outro.

- E o que você tem a ver com isso, Nott?

-Como eu disse, não me leve a mal. Mas me sinto na obrigação de alertá-lo sobre Malfoy, já que vejo que confia demais nessa pessoa, que não merece.

- O que quer dizer? – Richard avançou um passo, com o cenho franzido.

- Não posso acreditar que Malfoy, alguém que desprezou ser um Comensal tanto quanto eu esteja querendo voltar a essa mesma facção. – disse com uma expressão sombria – Ele fez tudo para não acabar como seu pai em Azkaban, se aliando a Ordem para salvar sua pele. Não porque achou que serviria melhor vivo, mas porque nunca acreditou na causa do lorde. Ele acreditou, um dia, em seus dias de escola, quando estava confortável em sua mansão com seu pai. – deu de ombros – Esse interesse tardio me deixa desconfiado, conhecendo Malfoy como eu conheço.

Richard observou a feição apática de Nott um tanto deformada por certa raiva contida. Remexeu-se desconfortável com a menção de que conhecia Draco melhor que ele.

- Supondo que eu acredite em você. – estreitou os olhos – O que sugere que eu faça?

- Oh, não vamos poupar Lestrange da cabeça de Potter – voltou a sorrir – Mas qualquer que seja o plano de Malfoy, vamos substituí-lo. Creio que está na hora de executar o plano original.

O ex-corvinal ergueu uma sobrancelha, mas nada disse, parecendo considerar. Aquilo o levaria acelerar certas coisas, poderia lhe dar uma dor de cabeça. Mas poderia ser feito. Voltou a caminhar, decidindo ouvir o resto do plano de Nott, concordando quando este lhe disse que lhe daria o crédito do plano.


- Segundo o livro "Animais fantásticos e onde habitam" da J.K.Rowling, no universo de Harry Potter há uma raça de dragões negros nessa região.
Continua...

Fevereiro/2007