Disclaimer: Este é um fan work, feito totalmente sem fins lucrativos. Os direitos de Saint Seiya, Saint Seiya Episódio G e de todos os seus personagens pertencem à Toei Animation e Masami Kurumada. A exploração comercial do presente texto por qualquer pessoa não autorizada pelos detentores dos direitos é considerada violação legal.


Informação para o leitor:
Yaoi (contém relacionamento amoroso entre homens).
Avaliação etária: M/NC-17 (situações adultas, sexo, consumo de álcool e substâncias legalmente questionáveis, violência estilizada)
Par citado: Aldebaran & Mu...e algumas outras coisinhas mais, dos mais variados tipos (et pour quoi pas?)


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"12"

Por: Deneb Rhode

8.

Investigação: teoria e prática aplicada

O dia seguinte transcorreu sem grandes coisas: a rotina do Santuário parecia dentro de sua mais absoluta normalidade, com os mesmos assuntos e problemas de sempre. Aldebaran e Mu cuidando de seus muitos afazeres, agora na Casa de Áries, Nachi encaminhando papéis timbrados e vias azuis, os oficiais menores cumprindo seus turnos de patrulha, Shaina berrando com os recrutas, Geki cumprindo punição matinal enterrado até o pescoço no canteiro de azaléias. E, claro, algo que já estava se tornando comum nos últimos dias: a Deusa vagando feito um zumbi por entre as alamedas, cabelos em desalinho e olhos inchados de tanto chorar. Uma coisa triste de se ver, mas que parecia levantar poucas paixões:

—É TPM. Logo passa.

Assim, nada de se surpreender que o assunto que mais conseguia excitar a imaginação do público fosse justamente o grupo alegre, que no fim do dia irrompeu na prosaica taverna em Rodorio:

—Ulisses, cerveja!

E a figurinha no meio de todos, de cabelos escrupulosamente verdes, armadura rosa impecável, bastante tímida e rubra, erguendo o dedo:

—Ahn...para mim um leite com banana. É que...

—Não, nada disso—e o colega o agarrou pelo ombro, levando-o para uma mesa—Shun, você é um homem crescido, não precisa dessas coisas de criança. Hoje você está com a gente, lembra?

Shun olhou para os outros, ainda sem entender muita coisa.

—Mas, sabe...é que eu não bebo enquanto estou em serviço, e...

—Isto não é serviço, é uma happy hour! Considere como uma folga do serviço.

O Cavaleiro de Andrômeda franziu a testa. Não havia sido dispensado pela Deusa , estava cuidando justamente dos preparativos de uma reunião de Estado Maior, quando foi abduzido pelo quarteto festivo, arrastado para o bar literalmente à despeito de sua vontade.

—Por que vocês estão fazendo isso?

—Porque nós gostamos de você!!

Shun ia argumentar. Acabou desistindo: os sorrisos amplos, travados e amarelos pareciam combinar demais com os olhos roxos e escoriações dos presentes. Ficou envergonhado, ainda mais quando lembrou do que Ichi passou na véspera. O mesmo cavaleiro de Hydra que agora lhe oferecia uma cadeira, na melhor mesa do bar.

—Você é nosso amigo!!!

Não havia nada a dizer, por mais esquisito que tudo aquilo parecesse. Achou melhor sentar. Matutou um pouco, ia ficar uma meia hora apenas, tempo o suficiente para não fazer uma desfeita. Ulisses veio com as bebidas: antes que pudesse pegar seu leite com banana, teve uma garrafa de cerveja de Guadalajara embrechada em suas mãos:

—Saúde!

O grupo eufórico propunha um brinde; muito sem graça o Cavaleiro de Andrômeda ia acompanhando o gesto. Mas, atento, parou na metade, antes que os outros pudessem beber:

—Esperem, o Nachi não vai brindar com a gente?

De todos, Nachi de Lobo havia ficado sem uma bebida. Ichi havia pegado sua garrafa e a entregou para Shun, enquanto Jabu se encarregava de enxotar Ulisses de volta para o balcão antes que pudesse entregar o leite com banana para alguém. O Cavaleiro sardento, desajeitado, coçava a cabeça:

—Ah, mas não precisa, você...

Shun entregou-lhe a garrafa, prestimoso.

—Que é isso, fique com ela. Eu agradeço a atenção, mas acredite, não quero causar desconforto a ninguém. Eu sei que você queria cerveja, então, pode ficar. Está geladinha.

—Mas e você, não vai beber nada?!—Geki de Urso parecia atônito.

Shun abriu um sorriso amável.

—Claro que vou. Um leite com banana.

O quarteto sorriu mais amarelo ainda, se esforçando para não deixar transparecer o choque. Jabu cochichava algo para Ichi:

—E agora?

Ichi sussurrou de volta:

—Plano "B". Deixa comigo.

E deteve o Cavaleiro de Andrômeda na cadeira, antes que se levantasse:

—Espere aí, você é o nosso convidado. Deixe que eu vou ao balcão e pego um para você.

—Não precisa, eu...

—PRECISA SIM!!!—Geki , Nachi e Jabu agarraram Shun pelos braços, forçando-o a permanecer sentado.

Shun engoliu em seco. Olhou bem na fisionomia dos companheiros: pareciam acometidos do riso sardônico e dos delírios febris do tétano. Algo receoso, fez a única pergunta que lhe ocorreu naquela hora bizarra:

—Vocês...estão passando bem?

No balcão, Ichi aproveitava o intervalo de tempo enquanto Ulisses batia mais um leite com banana, e fazia contato com um outro cavaleiro, troncudo e de cabeça grande, debruçado sobre uma cerveja: Ban, de Leão Menor.

—E aí, fez tudo o que eu pedi?

O outro rosnou baixinho, de mau humor:

—Fiz, mas é a última vez. Se me pegarem numa dessas estou ferrado, e não vou ser legal: levo vocês junto comigo, sem piedade! Aqui está sua encomenda.

Entregou um embrulho de jornais para Ichi. O Cavaleiro de Hydra abriu um canto, revelando uma garrafinha cheia de um líquido verde.

—É o caseiro?

—Sim, aquele que o Comandante Shaka faz, o tal de "Nirvana": tirei da reserva dele. Um coice de mula, desses que não passa em alfândega. Esconde essa porcaria, deu o que fazer para pegar! Tive que ir ao despacho dele enquanto o homem não estava, passar um açúcar na secretária, cantar aquela mocréia nariguda e vesga...você não faz idéia do sacrifício!

Ichi observou o colega, ainda cheio de marcas de batom no pescoço e orelha.

—Bom, eu faço idéia...quer dizer, acho que faço. Mas e o resto, você providenciou?

—Essa foi a parte mais fácil. Depois de...bom, enquanto a feiosa cochilava no divã, eu dei um jeito lá nos papéis da Casa de Virgem. Foi só imitar a assinatura do Shaka e usar o carimbo, depois eu mesmo encaminhei as ordens.

Hydra estava surpreso: Ban era mais eficiente do que parecia.

—Se livrou deles? Não quero os "defensores de Andrômeda" aqui, querendo arrancar minha cabeça.

—Pode ir tranqüilo, se é só desses dois que você falou hoje, não vai ter problema.

—June Maluca?

—Enviei em missão de reconhecimento nas ilhas. Volta só amanhã

—Pato Pirado?

—Foi investigar o manicômio de Tessália, em busca de atividades suspeitas. Com um pouco de sorte, recolhem ele por lá mesmo.

—Então, tudo garantido?

—O que você me pediu pra fazer, eu fiz. Se é só isso, está garantido sim. Mas lembre-se: é o Andrômeda.

Ichi deu de ombros:

—E daí?

Ban suspirou, chateado:

—E daí que mexer com ele é mexer com fogo, lacraia! Sempre sai alguma coisa errada. É melhor se cobrir...

Ichi deu uma risadinha, Ulisses veio, trazendo o leite com banana. Na mesa, Shun olhava para o balcão, esperando a bebida. Nachi e Geki trataram de desviar sua vista:

—E aí, o que nos conta de novidade? Trabalhar tão próximo à Deusa deve ser uma coisa e tanto, não?

—Bom...é...é só um trabalho, e... é legal, a Athena é minha amiga e...

—É bom tratar ela assim com toda essa intimidade, não é mesmo?

—...Mas...Mas todo mundo chama ela de Athena! Vocês tem certeza de que estão bem?!

Os cavaleiros deram uma sonora gargalhada, abraçando e sacudindo o Cavaleiro de Andrômeda. Jabu aproveitou o momento feliz e discretamente fez um gesto irritado para Ichi, pedindo pressa. Hydra abriu a garrafa do licor verde, o cheiro forte de alcaçuz, especiarias e álcool puríssimo subiu imediatamente para suas narinas, quase o fazendo espirrar.

—Caramba! Esse justifica a fama!

Deitou fora uns bons dedos do leite batido, abrindo espaço no copo. Esvaziou a garrafinha sobre a bebida, que de branca passou para um curioso tom de safira leitosa. Ban arregalou os olhos:

—Ei, isso é dose para elefante! Quer matar o moleque ?!

—Não esquente: ele é Cavaleiro, ele agüenta.

E foi incontinente para a mesa, onde era aguardado pelos colegas; os três já desesperados, sem ter mais assunto para inventar perguntas e com cãibras na mandíbula de tanto forçar os sorrisos. O plano começava a ganhar forma, mesmo com alguns tropeços quase fatais: Shun estranhou muito a bebida, tão verde e particularmente cheirosa. Pensou até em mandá-la de volta, Ichi o impediu, dizendo que o verde era por causa de frutas picadas.

—Mas eu pedi leite com banana puro e...

—A banana acabou, só tinha...ahn...amora azul...e...maçã verde! Ah, Shun, aceita esse, vai, nós queremos brindar!

O Cavaleiro de Andrômeda tinha um imenso ponto fraco: sua quase infinita misericórdia e eterna gentileza. Assim, diante de amigos tão ansiosos, trêmulos e suando frio, mesmo naquela situação esquisita, achou melhor não criar problemas. Mediu mentalmente os riscos, olhou ao redor, o bar de Ulisses estava cheio. "São meus amigos, conheço já faz tempo... até onde eu sei, são inofensivos. E não deve ser algo ruim, se fosse, não iam querer fazer em público". Com pena dos quatro, ergueu o copo, desejou "saúde" e bebeu um bom gole do leite esverdeado. Fazendo uma careta, logo a seguir:

—Acho que as frutas estavam passadas.

O grupo aplaudiu em festa, numa alegria barulhenta, quase histérica. Shun suspirou, imaginando "Em que fria fui me meter desta vez". Ia discretamente pousando o copo na mesa, Unicórnio propôs outro brinde:

—Ao Shun, que aceitou beber com a gente!!!

Mais um brinde, mais um gole. Definitivamente a bebida não tinha gosto de frutas, parecia mais especiarias ou algo assim. As caras de Ichi, Geki , Nachi e Jabu começaram a parecer muito engraçadas, tão aflitas por beber e tão necessitadas de sua companhia. Por educação, segurou o riso.

—E mais um brinde por...ahn...uhn...—Nachi emperrou, com a garrafa de cerveja mexicana erguida. Ichi chutou sua canela.

—Ai! Peraí!

Shun não agüentou, começou a dar um risinho abafado, que logo se transformou numa gostosa gargalhada. Se conteve, notando a gafe.

—Desculpem, eu...

—MAIS UM BRINDE, PELA ALEGRIA!—e Ichi ergueu a garrafa, acompanhado por todos. Andrômeda desta vez foi junto, sorrindo solto.

—Muito bom, pela alegria!!!

Os quatro não escondiam o alívio: observavam o convidado que parecia ir relaxando, ficando mais à vontade. Ichi fez um discreto sinal de "positivo" para Ban, Leão Menor fez que ignorou. Jabu cochichava:

— Esse "Nirvana" é uma beleza!...E aí, vamos começar?

—Calma, ele não bebeu quase nada...vamos dar mais corda...

E ergueram mais um brinde:

—À amizade!!!!

—Saúde!!!!!!!!!!!!!!!!

E outro:

—Ao...companheirismo!

—Saúde!!!

E mais outro

—Ao...Ao...Ao Ulisses!

Shun apenas ria, gargalhava, aumentando os goles do leite à cada brinde. Parecia ter apanhado gosto pela bebida, já nem se importando com a cor esquisita e o cheiro de ervas estranhas. Ao contrário, estava bem contente:

—Eu...eu vou pedir mais um desses para o Ulisses, isso está uma delícia! Isso aí, ao Ulisses, um brinde, não, dois brindes para o Ulisses!!! Ao Ulisses e ao leite verdinho!!!

Estava no ponto. Os outros se acercaram, com o mesmo ar simpático do início. Ichi, com jeito, puxou conversa com o alegre Cavaleiro de Andrômeda.

—E aí, Shun, está curtindo?

O rapaz esfregou as bochechas, bastante coradas, enquanto ria sem parar:

—Se estou? Cara, isso é o máximo, eu não sabia que uma "happy hour" era tão legal! Isso é muito bom, muito bom demais!

Jabu tentou perguntar alguma coisa, Shun não lhe deu espaço:

—Aliás, à sério, eu tenho que pedir desculpas. Porque quando vocês me trouxeram para cá, eu pensei que vocês queriam aprontar alguma comigo, sei lá...Eu olhei essa bebida e pensei: "deve ser alguma coisa de ruim". Mas eu pensei também "não, veneno não é: porque eu conheço esses caras. Eles são muito burros, mutilados da cabeça, é verdade! Mas não tão burros a esse ponto, o bar tá cheio..."

Geki fez uma cara indignada, ia protestar. Nachi o segurou. Shun nem dava por fé, continuava divertido, falando sem parar.

—Vocês nem sabem o favor que estão me fazendo...Eu tinha que arrumar tudo, uma reunião chata pra aquele bicho-grilo do Alto Comando, aquela coisa loira que diz que é Buda, como é que se chamava aquele cara?...Seka...Chica...Ah, sei lá! Reunião de Estado-Maior, o nome é bonitão...mas é uma perda de tempo, a Saorizinha Peitolina nem presta atenção, ainda mais agora...

—Saorizinha Peitolina?! Isso lá são modos??—Desta vez era Jabu que se indignava, vendo o jeito nada respeitoso pelo qual Shun se referia à encarnação da Deusa Athena. Se levantou da cadeira, pronto para esbofetear o Cavaleiro de Andrômeda. Ichi o cutucou, trazendo-o de volta ao juízo: não era hora de passar-lhe uma descompostura; o melhor é que fossem em frente, perguntando o que precisassem. Unicórnio engoliu a raiva, e tentou ser gentil.

—Ahn...tá bem...mas você falou na Saorizinha Peitol...Digo, na Athena, Deusa Athena...Então, Shun, eu tenho reparado que ela tem estado meio...aborrecida. Por que...

—É que Reunião de Estado Maior é um saco, vai por mim!!! A Peitolina também não gosta, mas não é culpa dela não: reunião tem que ter, isso aqui é o exército. E exército sem reunião não é exército, a gente tem que arrumar alguma coisa pra enrolar o tempo, pra fazer de conta que a gente trabalha. Mas coitadinha, não é culpa dela...ela fica perdida, ela nunca lidou com essas coisas, era só shopping, cabeleireiro, colégio na Suíça, aula de piano, festinha do chá com as bonecas...Aí, chega aqui, é isso...Ela não sabe riscar um "O" com um copo, fazer o que...A Peitolina é minha amiga, amiga do peito, ou melhor, ela é amiga dos peitos...Hahahahahaha, "dos peitos", "dois peitos", sacaram?

Jabu se irritou de novo, Ichi o segurou mais uma vez, lembrou-o do que tinham que fazer. Shun ria e cantava, os outros freqüentadores do bar começavam a prestar atenção. Nachi se encolheu, quase enfiando o nariz na garrafa de cerveja, muito pálido. Geki decidiu ir direto ao assunto:

—Mas ô baixinho, fala aí o que está acontecendo com a Deusa. Não a reunião, outra coisa...Esse negócio dela estar surtada.

—A coisa do dia 12!—Jabu atalhou—Que é que vai acontecer no dia 12?

—Dia 12?

—É, dia 12! O que é?

Shun parou um pouco, segurou o queixo, com ar de austeridade.

—É verdade...dia 12...Coisa muito séria...

—Sim, isso mesmo. Mas o que é?

Andrômeda baixou a cabeça

—Ah...não sei se devo falar. Muito triste...

E se fechou, com ar deprimido. Temeroso pelo inesperado silêncio, Ichi abraçou Shun, tentando confortá-lo.

—Olha, não fique assim, tome mais um gole do leitinho, que passa...

—É, tem razão...Você é feio que dói, mas é um amigão, lacraia.

Bebeu mais uns goles do leite, deixou a cabeça pender para trás, olhando o teto manchado de goteiras.

—Ai, que lindo...eu nunca notei que tinha um arco-íris pintado aqui. Tão lindinho...verde...vermelho...azuuuul...Huahuahuahuahuahua, é legal falar azuuuuuuuuuulllll...

No balcão, encolhido, Leão Menor observava, já temeroso dos resultados: Shun estava passando as fronteiras do simples transe, audaciosamente indo onde nenhuma mente humana jamais esteve. Mais um pouco não iria responder coisa com coisa. Suspirou, encolheu os ombros, afundou-se de novo na cerveja, Ulisses olhou com estranhamento sua feição tensa.

—Não é nada, Ulisses, só um pouco de dor...dor na consciência. Me lembre de nunca mais fazer nada de idiota na vida, nem em nome de Athena nem de ninguém.

O interrogatório seguia na mesa. De ânimo renovado, o Cavaleiro de Andrômeda respondia a tudo espontaneamente. Mais que espontaneamente, até:

—O que, Athena nervosa? Ah, é, a Peitolina tem seus dias de nervosa, mas nem tá perto do nervoso que é o Milo Poodle, da Corregedoria. Já repararam que ele parece demais com um poodle? Ele já ganhou até uma fita azul numa exposição de cachorro, mas tiraram dele porque ele mordeu o juiz! Hahahahahaha! Mas eu sei, eu sei, não tem armadura da constelação do Poodle, então fica Escorpião mesmo. O homem é um neurótico, um estressado, também, faz o maior tempo que ele não trepa, no mínimo desde que o tal Professor Picolé do Hyoga bateu as botas, já faz tempo mesmo, acho que nem sabe mais como se faz. Escorpião, pois é, deve ter escorpião é na cueca dele, escorpião e umas teias de aranha. Gente como ele não relaxa nunca, ele, a encalhadona da Shaina...Sabiam que ela tem buço? É, eu vi, eu vi, ela tem, é maior bigoduda debaixo da máscara...

—Mas Shun, não é disso que eu queria saber! Eu queria saber o que anda deixando a Athena nervosa...

—Isso aí! Nervoso. Nervoso é uma neura mesmo. Essa gente nervosa devia deixar de ser nervosa, que isso dá nos nervos! Devia tudo ir tomar um chá lá com o Seka...Chica...o loirão, bicho grilo. Ele vive tomando uns chazinhos, eu sei o que é, é de cogumelo do demônio, o cara diz que fala com Deus, então fala mesmo, é isso aí, maior viagem. Meu irmão disse que já tomou chá com ele, e viu o sol dentro duma barrica. Meu irmão vive lá na casa dele, o bicho-grilo gosta muito do meu maninho...E o meu irmão gosta dele também, eu sei, ele sempre gostou de loiras gostosinhas de pernas compridas...

Os outros presentes, no bar, já começavam a formar uma roda, alguns estarrecidos, outros com ar de riso. O burburinho era geral. A situação estava saindo do controle.

—Shun, mas...mas o que eu queria...

—Claro, né, não sei se isso do meu mano com o cara lá é gostar só pra curtir uma onda de vez em quando, ou gostar gostar de verdade, tipo o Mu e o Aldebaran, que são casados e tem até filho. Fico só pensando como foi que os dois fizeram aquele filho, é adotivo nada, tem as pintas na testa da mãe e é meio parrudinho como o pai, aquilo é filho biológico. Ah, esse menino, o Kiki, eu adoro ele! Mas não sei como nasceu, vai ver os lemus...lesmus...Ah, os Mus, esses bichos vai ver são hema...herma...aquele negócio dos que tem parafuso e porca numa coisa só, vocês me entendem, que nem benjamim de eletricidade, sei lá, ele não é gente mesmo. Ou vai ver o Mu é mulher...mas tem a voz grossa e faltam os peitos, fica estranho mulher sem peito. A Shunrei, namorada do Shiryu não tem peito, é por isso que ele sempre dá uma desculpa que vai salvar o mundo e larga a coitada na maior seca...O Seiya que se deu bem, ele é o maior goiaba, mas dá um cato na Peitolina...Sou amigo dela, ela me conta tudinho...

—Shun, pelos deuses!!!

Cada vez juntava mais gente ao redor, já se organizavam em torcida, uns aplaudiam, outros davam gritos de incentivo, o próprio Ulisses abandonou seu posto, correndo para a roda de gente de caneta e caderno em punho. Jabu parecia desesperado, chamou os amigos num canto tentando achar algum jeito de sair daquela situação:

—E agora? O tal do "Nirvana" botou o garoto em órbita, ele não me responde nada! E toda essa gente, o que vamos fazer?!?

—O jeito é tirar ele daqui, e esperar o barato passar um pouco, daí quem sabe...Mas vamos logo, antes que a coisa piore!

Agarraram o rapaz chapado pelos braços, Geki ainda tentou falar com ele.

—Shun, amigo, vem com a gente, vamos para um lugar mais tranquilo...

—Não fala assim no meu ouvido não que eu apaixono, ursinho! Você é um sem-vergonha, imagina só, me cantando, eu que sou um moço sério e comprometido. Eu ainda vou casar, igual o Mu e o Aldebaran! Só não vou querer ter filho, deve doer pra cacete...E o dia que eu casar, quero que a June seja a madrinha...Cadê a June, ela não veio?

—A June?!—engasgou Ichi—Ela está...em missão...

—E o Hyoga?

—Ah...também está em missão...

—E O QUE É QUE A JUNE ESTÁ FAZENDO DE "MISSÃO" COM O HYOGA?!?! É BOM ELA IR TIRANDO A MÃO, QUE ESSE PATO JÁ TEM DONO!!!

As correntes da armadura reagiram, se lançando ao chão e caracoleando ameaçadoramente, liberando fagulhas de eletricidade. Nem assim os presentes arredavam pé, fascinados com o espetáculo gratuito proporcionado pelo Cavaleiro de Andrômeda. Nachi, em desespero, agarrou o copo de leite sobre a mesa, saltou as correntes e fez Shun beber o resto.

—Calma, calma...Aqui, toma leitinho que vai ficar tudo bem...

Jabu olhou a cena, apavorado, os últimos goles da bebida desceram pela goela do amigo, o fazendo dar uma risadinha abafada, meio borbulhante. Nachi abraçou-o forte contra o peito, o corpo de Shun amoleceu nos braços do Lobo: parecia ter desmaiado finalmente. O Cavaleiro suspirou, em alívio:

—Acabou...

Hydra estava irritado:

—Acabou mesmo, sua anta! Agora ele não vai falar mais nada até amanhã, e quando voltar a si vai estar morto de vergonha! O plano foi para o espaço!

—Mas ao menos demos um basta nesse vexame todo. Foi o que deu para fazer. Bom, vamos tirar ele daqui.

Nachi tentou andar, sentiu o Cavaleiro de Andrômeda inexplicavelmente pesado, como se estivesse grudado no chão. Não conseguia se mexer. Olhou para baixo e viu um amontoado de correntes prendendo seus pés. No seu ouvido, colado a seu pescoço, ouviu uma risada meio mole, bafejada com alcaçuz...

—Hmmm, lobinho cheiroso, gostoooso...

Foi subindo a vista, apreensivo, e divisou ali um par de olhos verdes meio tontos, mas com um brilho quase indecente, o encarando de modo faminto:

—Sabe que esse seu calorzinho...tá me deixando no maior fogo?

E Andrômeda estreitou o contato, literalmente prensando as pernas de Nachi entre as suas, esfregando de modo acintoso o quadril no do outro. Mais que suficiente para o Lobo sentir que ele não estava brincando:

—Ah! Mas...o que é isso?!?!

A platéia se agitou, Nachi estava vermelho, Shun parecia não se incomodar, e já agarrava as nádegas do outro Cavaleiro de Bronze, sem a menor vergonha.

—E você é bem bonitinho, né? E é...tão carnudo, tão firme...Tudo é firme e carnudo aí embaixo dessa armadura, não é, lobinho gostoso?

Os outros cavaleiros tentaram intervir, as correntes rodearam Shun, como se quisessem defendê-lo. Nachi o empurrava sem sucesso, numa vã tentativa de se soltar:

—Shun, Shun, peraí, eu...Eu não sou o Hyoga, me larga!

—Eu sei que não é—Andrômeda não parava, lambia o pescoço de Nachi, já ia desafivelando o cinto e o peitoral da armadura de Lobo, na frente de todo mundo—O Hyoga está por aí, brincando de "missionário" com a June. Eu gosto dele de gostar de verdade, mas ele não presta; imagina que está me traindo com a madrinha do nosso casamento. Safado! Uhnnn, sabia que eu notei agora que você não tem sobrancelhas?

—Eu o que?!?!!

—Que legal, você então é igual ao Mu...então acho que pode ter filho numa boa! Maneiro!!!

E escorregou as mãos para o meio das coxas de Nachi, apalpando com gosto. O Cavaleiro de Lobo deu um pulo, no desespero de se soltar tropeçou na corrente e foi de nariz no chão. A torcida deu um "uh!" de espanto. Shun cambaleou para frente, com um ar de desapontamento:

—Ah, por que me largou? Não me ama mais?

Nachi implorava, tentando se levantar:

—Shun, pára!!! Tá todo mundo olhando!!!

Mais uma vez o rapaz tentou agarrar o outro, Nachi, mesmo caído, fazia de tudo para se esquivar. Um vento que começava a ficar intenso ribombava dentro do salão, estremecendo as janelas: o poder de Tempestade Nebulosa de Andrômeda ia se soltando, junto com a contrariedade. Os presentes se encolheram debaixo das mesas; com medo do pior, Ulisses se entrincheirou atrás do balcão, armado de caçarola. As duas correntes se levantaram à semelhança de duas serpentes venenosas, fazendo mira no Cavaleiro de Lobo:

—Você é ruim feito o Hyoga, me seduziu, me passou na cara e agora diz que não me quer mais! Lobo Mau!

E o Lobo tremia, já se vendo estraçalhado pelo vendaval e pelo par de correntes:

—Não é isso não, Shun eu...eu...mas é que...sabe, né..será que você não podia...é tipo sei lá, se acalmar?! Você não está normal...acho que...acho que você bebeu demais!

—Eu vim aqui pra me divertir! E vou me divertir!!! Você não é meu irmão pra mandar em mim!!!VOCÊ NÃO É MEU IRMÃO!!!!

E o vidro de uma das janelas estourou, a clientela do bar já estava os gritos; os que podiam iam fugindo pela porta, em alvoroço. Jabu, Ichi e Geki tentavam alcançar o companheiro estatelado, sem conseguir passar pelas correntes. Nachi, aterrorizado, berrava:

—EU NÃO SOU SEU IRMÃO, EU SOU SEU AMIGO!!!

O vento cessou. Shun parecia ter dado alguma importância:

—É...meu amigo??

—É...eu sou...

O cavaleiro de Andrômeda se endireitou, tentando fazer a pose mais austera que conseguia, mesmo balançando como um caniço:

—Então se é meu amigo, vai curtir comigo, que amigos vão juntos até o fim! Eu estou curtindo muito, isso está muito legal!

E foi subindo na mesa, ante os olhares atônitos dos freqüentadores do bar, ainda escondidos e trêmulos:

—Eu não bebi demais. Leite com fruta nunca fez ninguém beber demais, faz bem pra saúde, dá força e energia! E é o maior barato! Eu tenho muita saúde, eu vou mostrar...

Oscilando ao sabor da música de rádio que tocava no ambiente, girando em torno dos próprios pés, Shun levou as mãos ao corpo, soltando as peças da armadura, uma a uma. Arremessou os protetores dos braços na cara de Nachi, soltou o cinto, desarrochou peitoral e costas, que logo foram parar no assoalho. Os cavaleiros tentavam em aflição interrompê-lo, mas nem conseguiam se aproximar dele: as correntes mantinham sua tarefa de proteção, deixando o jovem livre para se desnudar à vontade. As pessoas começavam a sair dos esconderijos, arregaladas: e não seguraram um grito de exaltação quando Andrômeda, num golpe forte livrou-se das malhas protetoras, rasgando-as nas coxas.

—Isso aí!!!Tira tudo!!!Tira tudo!!!

Sem alternativa, Jabu decidiu combater fogo com fogo: e se pôs a concentrar Cosmos. Estava determinado a obliterar Shun antes que se livrasse das últimas peças. Ensaiou seu melhor gesto, se pôs em posição de luta, viu as correntes se erguerem, ameaçadoras, prontas para investir contra seu rosto. Geki e Ichi tentaram detê-lo, Nachi não sabia se ajudava os outros ou recolhia as peças da armadura. O povo, sem dar importância, gritava sem parar, incentivando a performance do stripper improvisado:

—A sunga! Tira a sunga aí!!!

E no mesmo instante em que Shun puxou o elástico da sunga, Jabu disparou seu ataque: a corrente de ponta circular reagiu, atingindo-o pesadamente no queixo. Unicórnio caía para trás, esquecido pela audiência que ovacionava o espetáculo em inflamado fascínio; Geki e Hydra foram em socorro do colega. Da noite abandonada que ia se desdobrando lá fora, inocentemente entrava no recinto uma figura alta e bronzeada, vestida em traje salwar laranja, prosaicas sandálias de corda e mochila de brim surradíssima, visual categórico de um egresso à pé do Festival de Woodstock:

—Oi, gente! Tudo bem?

A voz fez a platéia gelar, virando-se para trás num mudo sobressalto de horror. Atônito, estático na porta da taverna, o moço deixou os óculos redondos à lá John Lennon caírem da cara, exibindo a cicatriz na testa e arregalando estupefato o par de olhos cinzentos:

—Shun?!?!!

De cima da mesa, vestindo só botas e manoplas, o Cavaleiro de Andrômeda abriu um sorriso, e deu uns passinhos tontos na direção da entrada do bar, sem saber onde pisava direito:

—Ikki, maninhooooooo!...

O povo abriu espaço, Ikki apenas pôs-se à frente, ligeiro: ainda a tempo de escorar o corpo nu do irmão mais novo, que desabava de cima da mesa.

—Eu senti muito...sua falta...irmãozão...

Shun aninhou-se como um filhotinho nos braços de Ikki, pegando no sono quase que imediatamente. O recém-chegado Cavaleiro de Fênix examinou o ar, o bafo do pequenino ainda rodeando seu nariz. Rosnou, sinistro:

—...Nirvana...!

E distribuiu seu olhar mais ameaçador a todos os presentes no bar, vociferando em alto e bom som:

—QUEM FOI QUE FEZ ISSO AQUI COM ELE?!?

Resposta quase unânime: uma multidão de dedos, perfeitamente sincronizados numa espontânea "chorus line" apontou para os Cavaleiros de Bronze, enquanto eles mesmos procuravam Ban de Leão Menor, que havia se evaporado do balcão. Ikki olhou-os de cima a baixo, enquanto Shun arrotava em seu ombro:

—Bom, e aí? Vocês tem algo a dizer?

Nachi, visivelmente lívido, deixou cair um dos pedaços da armadura de Andrômeda. Ichi sorriu, amarelo:

—Uh...serve..."desculpe"?

O Cavaleiro de Fênix apenas ergueu uma sobrancelha, cerrou um punho e foi tranqüilamente na direção dos outros quatro. Os fregueses do bar, em um gesto de respeito e prudência foram saindo, quietos, sem olhar para trás. Ulisses voltou para seu balcão, se escondendo sob a máquina de espresso, caçarola no colo, ouvidos tapados com os dedos. Começou a assobiar um pouco, desafinado, uma melodiazinha de ninar criança. Era muito oportuna. Acalmava os nervos, trazia a paz e era boa para encobrir os ruídos de coisas se quebrando, louça estilhaçando-se, corpos arremessados, dentes arrancados a soco, ossos triturados e gritos de dor e agonia.

Saiu de lá instantes mais tarde, quando Ikki deixou o recinto: sem camisa, com o irmão adormecido no colo, devidamente embrulhado no seu salwar. O barman pegou uma vassoura e uma pá: ia fechar mais cedo naquele dia, precisava de tempo para arrumar toda a bagunça e contabilizar os prejuízos. Embaixo dos pedaços de mesas e cacos de vidro, um Nachi perfeitamente cego, de dois olhos roxos, atestava:

—Acho que não deu certo...

E a voz de Jabu, torcida, abafada, saída do meio de uma pilha de cadeiras quebradas lhe resmungava de volta:

—Juuura?...Eu nem tinha percebido, olha só...

Geki cuspia alguns dentes, Ichi contava escoriações e tentava se levantar, se apoiando em algum trecho de corpo que não estivesse doendo. Por fim, tateou no chão um objeto metálico, frio, alongado; algo que havia caído de dentro da armadura de Andrômeda e que logo reconheceu:

—É isso!

Os outros olharam para ele curiosos. Hydra parecia feliz, apesar dos hematomas e nariz sangrando. Erguia na mão o objeto—nada mais que uma chave de cobre, grande e bastante velha. A chave do quarto de despejo do Palácio Principal.

—Ainda temos esperança, gente! Sei de uma coisa que pode nos ajudar a resolver esse mistério do dia 12, é essa é só ir e pegar. Então, quem vai comigo?

Nachi e Geki se largaram no chão do bar, num suspiro de profundo desânimo, enquanto Jabu empurrava as cadeiras de cima do rosto pedindo para ouvir mais.Ulisses continuava assobiando, enquanto varria sossegadamente restos de madeira, cacos e estilhaços.


Ms. Rhode's Rambled Reports: Episodiozinho viajandão e retrô: são coisas do tempo do guaraná com rolha o absinto caseiro, a Seka—fumada e chapadíssima musa loira dos filmes pornô da década de 80—o festival de Woodstock, chá de cogumelos, salwar (sumiu das vitrines desde que as roupas indianas caíram de moda), óculos do John Lennon, o sentido mais "divertido" da palavra "missionário" (aqui se fala mais "papai-e-mamãe") e Star Trek—que eu adoro, mas sou mais o Spock que o Kirk.

Na maioria, coisinhas ilegais, imorais ou que engordam: finalmente acho que estou justificando o disclaimer que eu pus no começo da fic. Avisei que não é texto para crianças. Bom, é verdade que até agora só tivemos um pouco de nudez, agarra-agarra amistoso, consumo de substâncias alucinógenas, delírios com M-Preg (culpem o Shun, eu não tenho nada com isso!), vouyerismo, violência, capitalismo selvagem, desperdício de melancias e uma mordida de rato nas partes íntimas. Ou seja, nada muito sério. Continuo me comportando como uma senhora de respeito: por exemplo, não teve nada com limão (Deneb aparta a cabeça da trajetória de uma lata de Schweppes Citrus voando em sua direção. Acaba sendo atingida por outra, de Soda Limonada Antartica). Tudo bem, providencio isso mais para frente, tenham paciência!

De resto, não muito o que falar, embora eu mesma esteja surpresa com o Ulisses, em sua primeira participação sonora em todas as minhas fics. Meu bebê disse sua primeira palavra, olha que fofo! Ou, bem...quase isso.

Isto continua? É claro que continua! Sigam-me os bons!!