Disclaimer: Este é um fan work, feito totalmente sem fins lucrativos . Os direitos de Saint Seiya, Saint Seiya Episódio G e de todos os seus personagens pertencem a Toei Animation e Masami Kurumada. A exploração comercial do presente texto por qualquer pessoa não autorizada pelos detentores dos direitos é considerada violação legal
Informação para o leitor:
Yaoi (contém relacionamento amoroso entre homens).
Avaliação etária: M/NC-17 (situações adultas, sexo, consumo de álcool e substâncias legalmente questionáveis, violência estilizada)
Par citado: Aldebaran & Mu...e algumas outras coisinhas mais, dos mais variados tipos (et pour quoi pas?)
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"12"
Por: Deneb Rhode
9.
Rumor, Conspiração & Espreita
—Fez um serviço de mestre, seu idiota!—rosnava Jabu de Unicórnio para o colega ao lado—Mestre do Santuário! Conseguiu espalhar o pânico mais rápido do que um enxame de abelhas assassinas! Agora complicou tudo!
—Não complicou ainda não!—o outro respondeu, de humor estragado, tirando as pontas do cabelo moicano de cima do nariz—A prova disso é que chegamos aqui: pegamos o manto e o capacete, demos um jeito de escapar, estamos de olho. Ninguém vai nos ver mais! Ou o que você queria, uma fórmula de invisibilidade?
—Você devia ter pensado nisso antes de sair correndo fantasiado pelas alamedas do Palácio!
Unicórnio estava azedo, e o desconforto da posição não ajudava em nada: empoleirado em um galho de árvore perigosamente torto, sob o mormaço de uma noite particularmente abafada, feito em embrulho no pano negro, pesado, cheirando a mofo. Pior que isso apenas se faltasse espaço.
—Vocês dois: silêncio! E encolham os traseiros que aqui está apertado!
Jabu e Ichi de Hydra resmungaram, se acomodando sob o tecido. O galho sacudiu um pouco, rangendo. O companheiro junto aos dois se enrolava um pouco mais na capa, tentando esconder os joelhos agigantados.
—Pare de puxar! Tem que cobrir nós três, ô espaçoso!
—Então: não está me cobrindo direito. Podem achar meu Cosmos e...
—Ah, cale a boca! Aliás, Ichi que história foi essa de trazer o Geki com você?
Hydra suspirou. Não havia sido idéia dele trazer Geki de Urso, alto demais e largo demais para se ajeitar decentemente sob o manto, ainda que sozinho. Mas não teve escolha: o outro Cavaleiro havia grudado nele como um percevejo, logo após a rendição dos turnos da guarda.
—Idéia nenhuma: isso aí veio sozinho!
Geki deu de ombros, irritado:
—Você é que está para mais, lacraia! Eu tenho coisa importante para fazer aqui, tem muito em jogo!...Ei, quietos! Olha lá!
Fizeram silêncio, concentraram as atenções. Do alto da árvore, divisavam tranqüilamente a janela ampla de uma das casas do Alto Comando e seu interior, um quarto de dormir luxuoso e elegante. De uma porta à esquerda, Mu, o Cavaleiro de Áries entrou, vestido em um robe acetinado, enxugando as pontas do cabelo com uma toalha. O Cavaleiro de Urso parecia ligeiramente atônito:
—Ah é...o Mu...Que está fazendo aí?
Ichi o olhou, com ar de desprezo:
—Ele MORA aí, caso você não tenha notado.
—Não, não mora: essa é a Casa de Touro! Ou nós estamos olhando a casa errada; não era para olhar a Casa de Áries, mas a de Touro e o Mu é Cavaleiro de Áries e...
Jabu deu-lhe uma cotovelada no rim, exigindo silêncio. No quarto, Mu se aninhava na cama, com um pote de ungüento e uma pasta gorda de ofícios. Com ar de cansaço, examinava os papéis atentamente, ao mesmo tempo em que passava o ungüento na ponta do nariz e nos braços, muito vermelhos.
— Olheiras de fadiga, rosto e braços queimados...Ele está com uma cara meio ruim, não acham?
—Bom, isso se explica: passou a tarde inteirinha na oficina, martelando armaduras com a cara na fornalha. Não saiu nem para comer: o sarnento que levou o jantar pra ele. Nunca teve tanto serviço aqui desde que voltou do Tibete.
—E serviço por nada, suponho!—Jabu fuzilou Ichi com os olhos—Apenas por que a tropa entrou em histeria coletiva depois do "Mestre" ter sido visto por aí correndo no pátio! Lacraia, você é mesmo um "gênio"!
Ichi não fez caso:
—Isso é problema dele, não nosso. Estamos aqui por outra coisa. E você também não está aqui só para ver se o Mu anda feliz e bem-disposto, não?
—Quietos, escutem!
Interrompidos pelo Cavaleiro de Urso, os outros dois voltaram a atenção para a janela. Mu conversava com uma voz, que surgia de fora do quarto:
—Pega um marca-texto para mim?
—Pego. Amarelo, verde ou rosa?
—Ahn...os três.
Geki olhou, atento e concentrado, olhos brilhando, como se tivesse realizado uma grande descoberta:
—Tem mais gente aí! Eu sabia!
Os outros dois fizeram de conta que não o escutaram, sem conseguir esconder as feições de aborrecimento. Da porta maior do quarto, Aldebaran, Cavaleiro de Touro, apareceu trazendo algumas canetas. Mu deu um sorriso gentil:
—Obrigado, Alde. Assim eu adianto um pouco essa bagunça.
Aldebaran sentou-se ao seu lado, afagando-lhe os cabelos ainda úmidos:
—Sem problemas. Mas, olha, acho melhor você largar isso por hoje, já é muito tarde.
—Eu sei, por mim eu largava—o lemuriano foi abrindo as canetas, pondo marcas nos papéis—Só que desta vez não dá nem para pensar em deixar serviço acumulado. E do jeito que estão as coisas...podemos esperar uma outra pilha de ofícios maior que essa, amanhã logo cedo.
—Verdade, e tudo bem dizer de uma hora para outra—Aldebaran suspirou—Por conta de uma coisa boba, um trote, vai todo mundo subindo pelas paredes! É como a gente já dizia: bom-senso aqui não serve para nada.
Na árvore, Geki fazia um ar pensativo:
—Curioso isso...Sim, Eu esperava que o Aldebaran estivesse aí. Mas o Mu...o que está fazendo na Casa de Touro?
Ichi respondeu, de má vontade:
—Você aceita como resposta: "eles são um casal gay e o Mu está aí apenas porque os dois dormem juntos todas as noites?"
—Qualé, lacraia! Não tem nada disso!!!
—Ok, e se eu disser que eles estão aí para fazer contato com os homens-beterraba alienígenas de Plutão, indicando para eles qual o melhor jeito de invadir a Terra e assumir o controle da Via Láctea?
Geki fez silêncio, encarando feio o Cavaleiro de Hydra. Então desviou os olhos para baixo e rosnou, secamente:
—Hum...isso encaixa com a teoria de conspiração do Jabu. Pode ser.
Virou a cara, fazendo que se concentrava na espreita. No quarto, Mu continuava lendo os ofícios.
—Nem me fale em bom-senso, virou artigo fora de mercado...Olha só essa: "solicitação do 16º. Alojamento de Recrutas para a compra de material de construção, pás e escoras destinadas à construção de um túnel de fuga, ligando o Santuário até..."o que? Herce...
—Ahn...—o Cavaleiro de Touro examinou o papel—Herceg Novi. Fica no Montenegro, se não me engano.
—Montenegro?! Ficaram loucos de vez?!?
Aldebaran se espreguiçou, levantando da cama:
—Ignore. Amanhã logo cedo vou pedir formação da tropa, falar bem a sério com os recrutas. Essa maluquice tem que parar...Esse foi o único túnel?
Mu baixou os olhos, num suspiro desanimado:
—Mas que nada: até agora, cinco. Um deles, o pessoal do armazém de rações já havia começado a cavar. Tão engraçado ouvi-los falando: "Mas Comandante Mu, temos que nos proteger...É só um túnel até o Monastiráki, nada de mais..." Só que abriram um buraco enorme bem no depósito de víveres frescos do setor Delta: tudo ficou cheio de entulho. Precisamos tirar peixe e carne de lá às pressas, antes que estragassem ainda mais. E, claro, eu tive que ajudar a consertar a parede, a tropa sozinha não conseguia...
Na árvore, Jabu resmungava:
—É, isso explica porque o peixe do almoço estava com um gosto insuportável obra de construção!
Geki parecia satisfeito, enquanto rabiscava algo numa caderneta.
—Sim...tudo está indo bem.
—Não para meu estômago—Unicórnio continuava protestando—Sabe o que é comer atum ao molho de tijolo?
—Ele acha que está indo bem para o bolso dele, só pode ser—Ichi ralhava, com tédio—Acho que esse idiota apostou com alguém que o Aldebaran não é gay. Acertei, Geki?
Urso fechou a cara, num ar indignado e furioso:
—Você não tem mais nada para fazer do que me perguntar isso?!
—Apostou ou não apostou?
Geki bufou, inchou, ergueu o punho, como se quisesse derrubar Ichi da árvore à socos. Hydra não se intimidou, olhava-o com um sorriso cínico. O Urso, vermelho de raiva, guardou a mão sobre a caderneta, desviando o olhar para a janela:
—50 pratas, com o Ban...mas só apostei porque tenho certeza, olhe você mesmo!
Ichi começou a rir, Jabu pediu silêncio novamente: a conversa no quarto prosseguia. Mu continuava examinando os documentos enquanto Aldebaran tirava do armário uma toalha e algumas roupas.
—E isso acontece porque este é o Exército de Athena, a força-tarefa divina, capaz de romper estrelas com os punhos e que deveria proteger a humanidade nas crises mais extremas. É, imagine se não fosse...ainda tem xampu no banheiro?
—Desculpe, Alde, eu usei quase tudo. Acho melhor você levar um novo. Meu cabelo estava só fuligem, deu o que fazer pra limpar...
O brasileiro sorriu, enquanto pegava um frasco de xampu no armário:
—Ah, tudo bem. Aliás, sobre fuligem, entulho e afins, você soube do incidente que aconteceu na base de Kastória?
Mu pensou um pouco:
—Fiquei sabendo, mas não entendi nada. Uma história maluca, sem pé nem cabeça. Não comentaram de vítimas, mas...que conversa era aquela de "quarentena de área"?
—Era isso mesmo, por incrível que pareça—Aldebaran disse, saindo para o banho—Fui até lá de tarde, assim que terminei a escalada de inspeção do observatório de Star Hill. O problema todo foi por conta do que aconteceu aqui no Santuário: como notícia ruim corre, e boato corre mais rápido ainda, a tropa de Kastória ficou sabendo da aparição do Mestre no Palácio Principal. E decidiu tomar "providências sérias".
—Não me diga: mais um túnel?
—Não—e Touro, fora das vistas, abriu o chuveiro—Um bunker. Não queriam abandonar o posto, e pra garantir que iam ter como ficar na base numa situação de crise, resolveram fazer um abrigo seguro nas montanhas ao lado. Só que resolveram cavar com pressa, usaram máquinas, explosivos, Cosmos, exageraram na profundidade...bom, se alguém duvidava da existência de reservas de urânio 235 de alta potência nas montanhas de Kastória, pode mudar de idéia: eles acharam. Nem deu para falar de perto com os soldados: temos uma tropa que brilha no escuro, pura radioatividade. Fora a contaminação nuclear do ambiente, coisa para uns dois meses, talvez mais...
O Cavaleiro de Áries segurou as marcas rituais da testa.
—Túneis, bunkers, minas de urânio...Mas isso é que eu chamo de um exército inteiro indo para o buraco! Ninguém merece!
—E não é só o exército: nossos planos também vão estar indo para o buraco se isso continuar piorando.
Jabu ergueu a cabeça, atento: estavam falando de planos! Antes que Ichi e Geki pudessem fazer algum comentário, agarrou-lhes as bocas, enquanto ia escutando. Mu parecia contrafeito:
—Ah, não, de jeito nenhum! Eles não podem falhar, são importantes para nós!
—Mas pode acontecer. A menos que esse clima tenso se acalme nos próximos seis dias, estaremos com problemas...É, ao invés do que a gente queria, vai ser consertar armaduras na forja e requisições de novos túneis pra você...e supervisões em bases esburacadas, marchas para lugares absurdos e berrar com soldados para mim. Igual a hoje. Maravilhoso.
—E pensar em tudo o que a gente fez pra que as coisas dessem certo—a voz do lemuriano era pura frustração—arrumar as pessoas certas, as coisas certas, ver os lugares mais adequados para fazer tudo, ajeitar escalas, consultar previsões...
Jabu analisava, bastante interessado:
—Isso mesmo, agora estão dando com a língua nos dentes. Parece coisa grande! Andaram apelando para oráculos!
—Olha, Jabu, eu não sei não...
Hydra não terminou a frase: Unicórnio novamente o interrompeu, exigindo silêncio. No quarto, Mu se largava sobre a cama, aborrecido, as mãos na fronte enquanto o robe se entreabria, descortinando um bom trecho de coxas esbeltas, muito brancas:
—...até tratamos de nos livrar da Companhia 16-Gama, pra que ninguém atrapalhasse, e agora isso acontece...Não estamos com sorte.
Ichi arregalou os olhos:
—É Jabu, você estava certo...Foram eles que arrumaram de dispensar a tropa!
—Isso eu já sabia, das anotações do Nachi—Unicórnio seguia atento, desenhava nos lábios um sorriso de vitória—mas agora, ouvindo da boca do Mu, soa como uma confissão de crime perfeita...O que você acha, Geki?
Geki não respondeu: parecia ter sido fulminado por um raio.
—Geki?
Urso finalmente recobrou a voz, balbuciando, vistas esbugalhadas:
—Perfeita...perfeita sim...A coxa é perfeita...
Os outros dois o encararam, perplexos.
—Coxa?!
—Eu disse o que? Ah, não, eu dizia confissão! É, o Comandante Mu tem um belo par de confissões, digo, ele fez confissões! Ah, não me olhem assim!
Se encolheu, aborrecido, murmurando "É o calor, só o calor, mofo maldito...50 pratas, não vou perder, tenho certeza!" Ichi e Jabu seguiram com a espreita, arrebitando as orelhas para o que o Cavaleiro de Touro falava, sob a ducha:
—Bom, não vamos nos dar por vencidos: o caso é sério, mas ainda tem jeito. Encaremos pelo lado positivo: já ajeitamos muita coisa, e o que importa agora é não deixar a situação fugir do controle. Se conseguirmos manter a Corregedoria nos trilhos, e segurarmos essa onda de pânico que seja por uns dias, acredito que vamos ter chance.
—E aí você falou num problema grande—Mu respondeu, pensativo, sem dar atenção para as coxas descobertas—A Corregedoria. Milo andou feito um louco hoje, caçando informações e levando gente para interrogatório. Não acho que vá afrouxar a garra nos próximos dias. E se não afrouxar...adeus dia 12!
O ponto onde Jabu queria que chegassem: dia 12. Unicórnio se esticou todo, o galho rangeu novamente, Hydra o segurou pelo braço antes que perdesse o equilíbrio. Aldebaran continuava:
—Menos pessimismo, diabinho! Milo é um problema que dá pra contornar: não vai ser a primeira vez que a gente lida com ele, e nem a última. Ele é previsível: grita, esperneia, faz barulho, mas vive pelas regras. Não vai fazer o que quer que seja sem um argumento muito sério nas mãos. E essa crise não é séria, ele não vai conseguir nada.
—Por enquanto—Mu suspirou, se virando na cama enquanto um ombro macio fugia do robe—Eu tenho receio que de bobagem em bobagem alguém ainda consiga fazer uma calamidade. Já dizia meu mestre Shion: "Nunca subestime a burrice alheia".
—Concordo. E é por isso que temos que manter nossos olhos bem abertos. E pulso bem firme nesses dias. Nem que a gente tenha que pegar um pouco mais pesado com a tropa, dar umas repreensões mais duras, até castigar se estiverem exagerando nas burradas. Um pouco de "tolerância zero" de vez em quando não chega a fazer mal pra ninguém.
Mu riu.
—Vai acabar arranhando a sua imagem de comandante gentil e bonzinho: lembre-se que a tropa lhe considera como um pai.
—Bom, um pai que se preze não deixa os filhos por aí, fazendo qualquer besteira. Tenho o dever de criá-los, educá-los, e fazê-los amadurecer como pessoas responsáveis. Eles vão me agradecer mais tarde, pode ter certeza. E, mais importante: temos que pensar nos nossos interesses. Essa loucura toda já nos atrapalhou demais.
Fechou o chuveiro, um ruído de trilho logo indicou a porta do box se abrindo. O Cavaleiro de Áries se espreguiçou sobre os lençóis, deixando o robe escorregar ainda mais de cima do ombro, um bom lance de costas vindo à mostra por entre o cabelo de ametista. Geki, na árvore, engoliu em seco. Jabu aguçou ainda mais o ouvido, sem a interferência do som do banho. Mu largou os ofícios um instante, os olhos verdes do lemuriano acintosamente cravados no torso de bronze que entrava, de toalha ao ombro, músculos vigorosos ainda reluzindo de umidade.
—Eu não quero que nada interfira desta vez. Mesmo com essa crise de agora, não vamos deixar nossos planos fazer água. Nem que os deuses entrem no nosso caminho.
Unicórnio arregalou os olhos, cutucando Hydra e Urso:
—Ele disse isso mesmo?! "Nem que os deuses entrem no nosso caminho"?!?
—Acho que disse—Hydra pensava—Mas vai saber o que quis dizer com isso...Pode ser só jeito de falar.
—Jeito de falar muito suspeito! E que deuses são esses que poderiam interferir?
O brasileiro ajeitava a longa cabeleira negra com os dedos, jogando para trás os fios úmidos, ainda pesados. Áries sorria, acompanhando os movimentos do outro Cavaleiro sem desviar a vista, encantado com a toalha que brincava sobre a pele morena, ora sobre o tórax, ora sobre a nuca, criando displicentemente um jogo de esconder e mostrar.
—Nem a nossa Deusa? Olha que ela tem andado bem...alterada...
—Não se preocupe com Athena, eu já dei um jeito nela. Está tudo acertado: no dia 12, vai ter uma surpresa da qual não vai se esquecer tão cedo. E nós vamos poder cuidar dos nossos assuntos, bem mais importantes.
Jabu quase caiu do galho, abismado do fundo da alma, a voz estrangulada num guincho.
—VOCÊS VIRAM O QUE ELE DISSE?? ELE...ELE...
Hydra segurou-o pelo traje, fechando-lhe a boca, nervoso:
—Fique quieto, não é hora de gritar! Esqueceu que essa capa não é à prova de som??
Unicórnio tentava se recompor, ainda muito agitado:
—Eu sabia, ele agora confessou! Ele...Aldebaran deu um jeito em Athena, tirou ela do caminho, ele acabou de falar isso!! Isso é a prova, a conspiração existe! Nós temos que fazer alguma coisa!
Ichi tentava fazer o colega ficar quieto, sem muito sucesso. Geki deu um soluço de espanto, palavras engasgadas, travadas no fundo da garganta. Os outros dois, nervosamente, voltaram os olhos para a janela. No quarto Mu, de costas para os vigias empoleirados, se ajoelhava sobre o largo colchão, deixando o robe largar-se de vez, desabando até as ancas. Estendia a mão para o Cavaleiro de Touro:
—Você sabe mesmo escolher prioridades, Alde.
Aldebaran sentou-se na cama, enlaçou a cintura delgada do lemuriano com os braços. Mu tirou-lhe a toalha dos ombros, foi enxugando delicadamente as mechas úmidas de cabelo negro que pendiam sobre a fronte do brasileiro. O moreno o encarou, com um sorriso:
—Sou bom nisso, diabinho.
Deixou os lábios roçarem gentis sobre o rosto de Áries, a exalação arrepiando a pele de marfim. Deu-se abrigo na curva do pescoço, fez brotar um suspiro numa mordida delicada, longa, cheia de vontade. Na árvore, um Geki de Urso muito nervoso parecia querer sair dali o quanto antes.
—Olha, a gente já viu tudo o que tinha que ver aqui, vamos embora...
—Que pressa é essa, Zé Colméia?—e Ichi o deteve, sem conseguir esconder um sorriso gaiato—Vai ir embora assim, sem a capa pra esconder você?
—É por isso que estou dizendo para todos nós irmos embora! Já vimos tudo, eles já confessaram, nós...
—Ainda pode ter coisa importante lá, eles podem falar mais!—Jabu segurou Geki pelo ombro—É muito cedo para a gente sair!
—E ainda nem começou a parte boa, vai por mim, Geki!
Urso não sabia se olhava ou escondia o rosto, estava vermelho, o coração aos pinotes. No quarto, Aldebaran brincava com os relevos do corpo de Mu, uma das mãos a percorrer-lhe a silhueta enquanto a outra encontrava o pote de ungüento, abandonado sobre os lençóis:
—Hum...o que é isso?
—Um...hidratante—o Cavaleiro de Áries ofegava, a consciência visivelmente turva em desejo, braços enroscados no outro, o robe quase se desprendendo da cintura—Eu estava usando...para refrescar...Meu rosto...ardia...
Touro ergueu a sobrancelha, com um sorriso lascivo.
—É bom para coisas que ardem? Interessante, vamos ver isso...
Serviu-se de uma bela quantidade de creme e deslizou a mão por entre as coxas do lemuriano, fazendo-o gemer alto, agitando os quadris em frenesi e se agarrando com ímpeto aos seus ombros musculosos.
—Aaah...Nge glang...d'mar!...
O rosto de Geki empalideceu, a boca aberta num espasmo, meio caminho da incredulidade e do choque. Ichi ria baixinho enquanto Jabu observava, no esforço de extrair algo comprometedor do diálogo de alcova:
—Ingue...o que? O que ele disse???
E a brincadeira continuava para dentro da janela, Touro mais uma vez enchendo os dedos de ungüento, afastando a malha lustrosa do robe do companheiro enquanto lhe sorvia avidamente os lábios. Beijo entrecortado de arfares e sentenças desconexas, ao mesmo tempo em que expunha livre, por meros segundos, a carne imaculada de glúteos tenros, apetitosos.
—Parece que não funcionou muito bem, diabinho...acho que continua ardendo...Se eu tentar outro lugar, quem sabe...
E escorregou a palma por detrás das nádegas do amante, tateando ao meio enquanto o cetim de seda voltava a seu posto, largado sobre mãos e ancas. Momento de ironia acortinada em que Áries gritava, em puro desvario lúbrico implorando por mais:
—Nge glang pho...NGE GLANG D'MAR!...AAHHH...Nga la go...nga la...spyad ah...lus 'brel zhu...
—La yö, nge dpa 'wo mdzes...nge ro tsa ngar mo...
—Essa agora!—Jabu resmungava, as idéias rigidamente mais ocupadas com planos de sabotagem do que com a cena lasciva à sua frente—Os dois estão falando coisas que eu não entendo, que droga! Eu devia ter trazido um gravador!
—Pra que?—Ichi continuava se divertindo, mal segurava o riso—A não ser que você tenha muito interesse em descobrir como é que se morde a fronha em tibetano...
Geki, desnorteado, não agüentou o comentário. Trêmulo, quase em pânico, se virou para os outros dois colegas, erguendo a voz:
—NÃO...NÃO É NADA DO QUE ESTÃO PENSANDO! NÃO É...N-NÃO É NADA DISSO...!
Jabu lhe deu outra cotovelada forte, exigindo silêncio. Hydra provocava:
—Não é nada do que, homem? Só porque você está vendo suas cinqüenta pratas voando pela janela dos Comandantes enquanto eles se divertem um pouquinho? Relaxe, dinheiro não é tudo na vida, são só bens materiais...
—Mas não é só pelo dinheiro, é que eu...quer dizer, nós...quer dizer, vocês...isso aí não é nada, eu vi!...Você também viu, os dois viram, não viram? Foi só uma coisa...uma coisa normal, não tem nada acontecendo!
—Ah, eu vi sim, tudo normal...Essas coisas acontecem desde que o mundo é mundo, fornicação entre machos é coisa de rotina...
—Os dois façam o favor de calar a boca que eu quero escutar??
Ninguém deu ouvidos à Jabu. Geki estava quase roxo, sacudindo as mãos e tentando juntar respostas aos trancos, parecia que ia explodir. Ichi continuava abafando as próprias gargalhadas.
—Não inventa, tem que ter uma explicação para tudo isso, eu sei que não é...não é o que parece...que não é uma coisa dessas!!! Tá certo, o Mu a gente sabe que é esquisito, eu concordo, não boto fé mesmo...mas o Aldebaran é homem, é machão, eu sei que é, não tem bicha assim que nem ele, tá na cara que...
—Ah, é, muito macho, um perfeito caminhoneiro, total. Só está fazendo a parte dele, engatou uma primeira e daí fez uma ligação direta no Mu, nada de mais. E você, não fique assim tão espantado: se só de ver uma reles mão no câmbio alheio você quase desmaia...imagino a sua cara na hora que um deles resolver meter a chave no contato e engatar uma ré, acho que você morre...
Urso perdeu as estribeiras, fulo da vida já brandia um dedo no rosto de Ichi, encobrindo a vista de Jabu com o antebraço.
—Escuta, você para com isso, lacraia dos infernos! Já disse que não tem que levar na maldade! Tudo o que você vê você pensa que é sacanagem?!!
Hydra devolveu seu melhor sorriso sarcástico, e um olhar venenosamente gelado:
—Tudo não. Só o que é sacanagem.
O galho da árvore chacoalhava, Geki tentava agarrar o pescoço de Ichi, Jabu era sufocado pelo dilúvio de panos negros que se jogava em sua cara, sem ordem.
— Fofoqueiro é o diabo, vê uma coisa e já vai inventando outra em cima, isso é negócio de mulher! Mulherzinha!! O veado aqui é você! Só pode ser pra estar assim tão interessado!
—Ô, qualé? Sem estresse, urso-sem-óculos, você só viu umas coisinhas...Eu nem lhe falei ainda que a Grande Abóbora não existe, não precisa ficar nervoso...
—Vou calar essa sua boca podre! Eu já disse que não é nada, e nem vem com essa que eu vi, porque eu não vi nada!! Não tem nada lá! Eu-não-vi-nada!
—Calem a boca vocês dois!! Vão nos escutar!!
Unicórnio, com a paciência arruinada, soltou os braços da capa e agarrou raivoso os outros Cavaleiros de Bronze pelos cabelos, sacudindo com força. Ichi, com uma cara de dor e troça, apenas apontou a janela:
—Ai, Jabu, duvido muito: os da chefia parecem bem ocupados pra escutar seja lá o que for. Olha lá...
No quarto, os cabelos ainda úmidos em lavanda e negro se esparramavam selvagemente nos lençóis, acompanhando o bailar de corpos nus sobre o leito. Mu de Áries gemia sem cerimônias, olhos perdidos em nuvens, sorriso rendido de puro êxtase. Coxas abertas, joelhos erguidos alto, cingindo com braços e pernas o físico musculoso de Aldebaran, que o invadia livre, enérgico, voraz. Suor a se derramar da pele enquanto se davam prazer, as vozes roucas misturadas num ofegar ansioso.
—...ah...nge yang dag 'grogs...ahh...aaahhhh...nge dga'wpo...aaahhh...
—...isso, fala...fala mais, meu diabinho...meu amor...nge dpa 'wo...nge dga'wpo...
Aquilo passou do limite: Geki travou, lívido, de olhos esbugalhados, boca escancarada num fremir incontrolável. De um salto pôs-se em pé sobre o galho, quase tirando a coberta dos amigos, fazendo a madeira dar estalos. E soltou a voz num berro, de uma vez:
—NÃO É POSSÍVEL!!!
—Hã? O que?
E a madeira estalou de vez, levando abaixo folhas, flores, casulos de borboletas, um ninho de pintassilgos abandonado, excrementos de doninha, um louva-deus, dois besouros de chifre, três Cavaleiros de Bronze debaixo de uma capa mofada, ornada por um elmo vermelho com asas de morcego. Quatro metros até o chão, sem escalas. Pouso dolorido, que seria bem pior não fosse o amparo meio encaroçado de uma coisa mais tenra que o solo, logo embaixo de todos, amortecendo a queda.
—AH!
Momento que passou aparentemente em branco, pelo menos aos habitantes do quarto: seguiram o que estavam fazendo sem interromper, ocupados unicamente nos exercícios da pronúncia de idiomas bem raros e das junções carnais bem dispostas. Estatelados na grama, os intrusos ainda podiam ouvir uma ou outra palavra que fugia pela janela aberta.
—...mang 'wa!...mang 'wa ah!...MANG 'WAA!...
—...ah...diabinho!...La yö...
Cheio de gravetos e zonzo da queda, Unicórnio tentava atinar as idéias:
—Entendi direito? Eles querem um...mangá?! Enquanto transam?!
Hydra e Urso nem responderam: um muito atarefado, tirando folhas de dentro da boca e o outro estático, em trauma profundo, rezando em sussurros o mantra cíclico de "não é possível... eu não vi isso... não é possível..." Apenas uma outra voz, moribunda, deu retorno; sufocada em meio aos panos, bolor e galhos partidos:
—Paaa...
Os três Cavaleiros de Bronze se entreolharam:
—"Paa"..?! Mas o que...?
Sob o capacete, amassado e lançado ao chão de qualquer jeito, o som se repetiu, em tom ainda mais agonizante:
—...paa...a...aaa...
Intrigados, tatearam o manto. Encontraram, pisada sob a madeira uma bolota anormalmente carnuda, encorpadura de bicho no que deveria ser só grama. Bicho grande, comprido, de crina dourada que saía pela beira da capa, mais longa que a de um cavalo, mais sedosa que um gato de madame. A origem do som esquisito.
—...pa...a...
Ichi ergueu o manto, deu uma espiadela. Preferiu voltar o tecido onde estava, arregalando os olhos em assombro, muito branco:
—Ai, não!
Jabu nem quis conversa, apenas tomou-lhe o elmo e a ponta da capa das mãos, puxou tudo de uma vez para saber o que tinha em baixo. Descobriu a imagem perturbadora do homem loiro, distinto, alto e magro, com um galo enorme na testa, sangue do nariz manchando a túnica, olhos em azul celeste se revirando nas órbitas, sem prumo e sem rumo:
—Paa...tri...aaaarcaaa...
Os olhos finalmente pararam, desconjuntados, o restinho de firmeza do corpo amoleceu. Os três Cavaleiros de Bronze estacaram, fôlego preso ante a mais terrível revelação que poderiam ter naquela hora:
—Shaka de Virgem?!!?? Mas que ele estava fazendo aqui?!!??!
Com os corações disparados, se enrolaram no manto e deram três pulos atrás, numa sincronia que jamais conseguiam, nem sob os berros de Shaina nos exercícios de ordem unida. A figura inerte do loiro os encarava, rosto virado para eles, olhos sem vida, baba escorrendo no queixo largado mole, em algo que lembrava muito sorriso de quem descansou em paz.
—Ele não está...Está?...
No quarto, os sons e palavras incompreensíveis aumentavam de intensidade, próximos de um encerramento de apoteose na farra dos sentidos. Os dois Cavaleiros de Ouro iam logo se desocupar, ter tempo de esticar os ossos, relaxar, podiam sair da cama para tomar uma boa ducha juntos...ou talvez ir até a janela...Olhar a noite estrelada pela janela...
...achar o corpo estendido no chão.
—VAMOS DAR O FORA DAQUI!!!
Ms. Rhode's Rambled Reports: Baixem as armas, até que enfim teve limão! Um limãozinho discreto, até não muito puxado no ácido, limãozinho doce mas indiscutivelmente limão. Mais que suficiente pro público ficar contente, não é mesmo? (voa mais uma lata de Sprite no palco, com os dizeres escritos: "Mais limão, esse foi só amostra!")
E, provando que sou uma ficwriter generosa, e que não sou de querer mal meu público (mesmo levando latas de Schweppes Citrus na cabeça a cada capítulo), eis agora...
O Pequeno Glossário Deneb Rhode de frases Tibetano-Português!!!
Sim, porque eu usei muita frase em tibetano nesse capítulo, e é justo que eu não mantenha meus leitores à deriva, boiando mais que banana-boat na Praia do Arpoador. Essas frases são resultado direto de meus conhecimentos do nobre e distinto idioma falado nas montanhas do Himalaia (os quais, devo dizer, precisam de aperfeiçoamentos. E ainda são muito...setorizados, digamos assim. Mas já deu pra quebrar um galho)
As traduções são aproximadas, para o bem da manutenção do sentido.
—Aaah...Nge glang...d'mar!...
(—Aaah...Meu touro... garanhão!...)
—Nge glang pho...NGE GLANG D'MAR!...AAHHH...Nga la go yö...nga la go...spyad ah...lus 'brel zhu...
(—Meu touro...MEU GARANHÃO!...AAAHHH!...Eu preciso...Eu quero...aproveita, me pega...transa comigo...)
— La yö, nge dpa 'wo mdzes...nge ro tsa ngar mo...
(—Sim, meu diabinho bonito...meu doce desejo...)
"dpa 'wo" é diabinho. Mas não um diabinho "genérico". Explico no fim do glossário.
— ah...nge yang dag 'grogs...ahh...aaahhhh...nge dga'wpo...aaahhh...
(—...ah...meu amor, meu companheiro...ahh...aaahhhh...meu amor...aaahhh...)
"nge yang dag 'grogs" é uma expressão meio intraduzível. Quer dizer "meu amor" ou "minha companhia perfeita". Mas se refere a um amor ou companhia perfeita de natureza BEM SEXUAL MESMO.
—(...) nge dpa 'wo...nge dga 'wpo...
(—... meu diabinho meu amor...)
de novo, não é um diabinho qualquer: é um dpa 'wo. Eu explico depois.
—...mang 'wa!...mang 'wa ah!...MANG 'WAA!...
(—...mais!...mais!... MAAIS!...)
—(...) La yö...
(—... Sim...)
Bom, isso aí. Antes que alguém reclame de "mas em que raio de bordel você aprendeu tibetano?" eu já avisei: meus conhecimentos são limitados, bastante específicos e setorizados (podem rir que eu deixo). E ainda estou aprendendo: procurei por as frases do modo mais correto que pude, mas ainda assim, não estão totalmente vacinadas contra erros e besteiras.
Então faço o apelo: se você fala tibetano fluentemente, leu esta fic com atenção e achou algum erro, por favor me avise que eu conserto (sei que as chances de que eu encontre alguém assim neste mundo são menores que as do Itapipoca de vencer a copa da UEFA, mas esperança é a última que morre)
Pra finalizar a notinha que prometi sobre dpa 'wo: como eu disse, não é um diabinho qualquer, dos que sai por aí de chifrinhos e tridente, fazendo diabruras. Mas um diabinho específico de lendas tibetanas: os chamados "Dançarinos Celestiais" (que em outros países ganham o nome de "daka"). São criaturas mágicas famosas por sua sabedoria—inspiram e guiam os humanos—representadas por jovens rapazes de uma beleza rara (e, segundo o que eu pude notar, muito andrógina), corpos esguios e flexíveis, cabelos flutuantes muitas vezes de cores incomuns, que aparecem do nada e bailam suspensos no ar.
A aparência é bonitinha—e lembra demais um certo lemuriano que conhecemos—mas cuidado: os dpa 'wo tem poderes que podem ser bastante destrutivos. Os machos até são menos perigosos, e mais "do bem": a palavra, "dpa 'wo" originalmente se refere a "herói", "salvador", alguém que ajuda. Mas as fêmeas (chamadas de mkha 'gro ma, ou "dakini", e consideradas as mais poderosas da espécie) costumam ser bastante ameaçadoras: são famosas por causar loucura e acidentes, e usam singelas coroas e colares de ossos humanos. Fofo, não?
E antes que eu me esqueça: fiz uma menção ao Monastiráki no texto. É um mercado de pulgas de Atenas, muito famoso e freqüentado por turistas. Como eu prometi, não vou mesmo largar os leitores no escuro, aqui se escreve, aqui se explica!
Fanfic também é cultura. (e, ai, dessa vez deu para ficar pregada! Que texto longo!)
Isto continua? É claro que continua! Sigam-me os bons!!
