Disclaimer: Este é um fan work, feito totalmente sem fins lucrativos. Os direitos de Saint Seiya, Saint Seiya Episódio G e de todos os seus personagens pertencem à Toei Animation e Masami Kurumada. A exploração comercial do presente texto por qualquer pessoa não autorizada pelos detentores dos direitos é considerada violação legal.
Informação para o leitor:
Yaoi (contém relacionamento amoroso entre homens).
Avaliação etária: M/NC-17 (situações adultas, sexo, consumo de álcool e substâncias legalmente questionáveis, violência estilizada)
Par citado: Aldebaran & Mu...e algumas outras coisinhas mais, dos mais variados tipos (et pour quoi pas?)
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"12"
Por: Deneb Rhode
10.
O Terror e o Pânico
Refeitório 2, manhã bem cedo, naquelas horas embaçadas onde nem o sol acordou. Com as bandejas do grude ordinário do desjejum, praças e oficiais iam tropeçando uns nos outros, no começo de mais um dia de funções. Acomodado em uma das mesas compridas, Nachi de Lobo perdia a colher na tigela de mingau; ao seu lado, Ban de Leão Menor calmamente tomava sua xícara de leite com café enquanto detinha os olhos atentamente num jornalzinho.
— Algo de bom no "Constelações" hoje? Pensei que esse banheiro de cachorro só saía de vez em quando no sábado.
Ichi de Hydra se aproximou, cumprimentou a dupla e foi sentando ao lado de Nachi, o colega sorriu amarelo, dedos lambuzados, ainda entretido em resgatar o talher do fundo da goma pardacenta. Ban observou Hydra de cima a baixo, atento por uns instantes, sobrancelha erguida, contando mentalmente os arranhões e hematomas na careca do interlocutor.
—Saiu hoje. Edição extra.
—Deve ser mais um evento pra comemorar mudança de fase da Lua ou aniversário de alguém lá de cima...é só isso que aparece nesse troço—Jabu de Unicórnio uniu-se ao grupo, sentando ao lado de Ban, cara tão ralada quanto a de Ichi, olhos ainda pesados de sono, aos bocejos—Normalmente só compensa ver os quadrinhos, eu nem gasto mais meu dinheiro nisso.
—É, está certo—Leão Menor continuava folheando o jornal, circunspecto—Não costuma ter nada que preste nos artigos...mas hoje...heh, fala sério!
Unicórnio ia revirando o mingau sonolentamente, olhava sem interesse para a logomarca mal-feita do "Constelações em Revista", meio-tablóide fuleiro de periodicidade duvidosa, que se autoproclamava orgulhosamente "o informativo oficial do Santuário de Atena". Escorregou a mirada pelas letras impressas a chumbo sem se dar ao trabalho de juntá-las, mexeu a gororoba um pouco mais. Só quando deu de cara com a foto, estampada capitalmente na primeira página, que foi notar de um tranco as razões para se imprimir o jornaleco tão fora de data, e com tanto estardalhaço.
—COMO???
Acordou na hora, largou a colher atolada no desjejum enquanto saltava em cima do colega, grudando-lhe a espádua como um papagaio. Ichi e Nachi o observavam perplexos enquanto Ban reclamava, tentando espantar o outro Cavaleiro dos ombros:
—Dá um tempo! Toma, pega logo! Se quer ler, lê duma vez, mas sai de cima de mim!
As mãos trêmulas agarraram o pasquim, enquanto os olhos se arregalavam ainda mais, viajando nervosos entre a imagem do Cavaleiro de Ouro desfalecido e o texto da manchete, um êxito impagável do jornalismo de caserna:
TRAGÉDIA: SHAKA DE VIRGEM TOMBA ENTRE ÁRVORES GÊMEAS!
"O Conselheiro-Mor do Santuário foi encontrado nos fundos da Casa de Touro, inconsciente e ferido na cabeça. Tido como possível reencarnação de Buda, estava caído entre dois abacateiros, numa enigmática reencenação improvisada da morte de Sakyamuni. A Corregedoria procura o autor do brutal atentado."
Ichi levantou-se da mesa, pegou o jornal das mãos do amigo catatônico. Espanto inevitável.
—Mas...mas...mas isso agora...!!!
Jabu nem se mexia, o rosto bloqueado numa expressão de transtorno, a pálpebra saltando sozinha. Hydra abriu o jornal, foi lendo a matéria, cada vez mais abismado a cada linha.
"Shaka de Virgem foi levado pela manhã à Enfermaria do Santuário, onde os médicos de plantão avaliaram seu estado. Conforme declarou a enfermeira-assistente, Sra. Euphrasia Tatopoulis, a saúde do Conselheiro-Mor ainda inspira cuidados: 'Olha, poderia ter sido pior, mas que ele levou uma bela cacetada no meio da moringa, isso levou. Vai precisar de algum tempo até que ele consiga recitar mantras sem confundi-los com as músicas da Noviça Rebelde'. De acordo com laudo emitido pelos médicos, Shaka foi vitimado por um golpe bastante severo: indícios sugerem um impacto equivalente a 250 quilos, caindo de uma altura de quatro metros. 'É a mesma coisa que o peso de umas três ou quatro pessoas. Ou como se um urso grande tivesse subido no abacateiro e despencado na cabeça dele', completou Tatopoulis."
—Três pessoas...Um...urso no abacateiro...Urso grande...Essa não...
Ban encarou os dois colegas, expressão de fastio, tolerância gasta de prévia.
—É. Eu tenho até medo de perguntar o que é que vocês loucos andaram fazendo ontem de noite...E a propósito, por onde anda o "urso que caiu do abacateiro"? Estou querendo saber como fica nossa aposta.
Ichi não respondeu, continuou lendo.
"A arma usada na agressão, um galho de 1m25 de comprimento, estimados 20 quilos e com abacates ainda verdes, foi encontrada na cena do crime e encaminhada ao departamento de Perícia da Corregedoria. 'Só poderemos afirmar alguma coisa após um exame detalhado do objeto', afirmou a Amazona de Prata Marin de Águia, que coordenou a equipe de investigação no local. Marin, entretanto, não nega que é grande a possibilidade desse agressor ter poderes notáveis: 'Seja quem for, estava aqui dentro e conseguiu acertar com muita força ninguém menos que Shaka de Virgem. Isso é muito preocupante. Todos sabemos o quanto Shaka é poderoso, é difícil até imaginar qualquer um dos Cavaleiros daqui conseguindo fazer isso, mesmo os do Alto Comando.'"
Baixou o jornal, queixo caído, vistas esborrachadas, quase dois pires de chá lhe dominando a face. Nachi de Lobo, ainda lambendo os dedos melados de mingau ajudou Hydra a se sentar. Leão Menor ria, a cada sinal de desespero dos amigos.
—Não vejam a coisa pelo lado ruim. Pensem: quantas pessoas já derrubaram o Shaka até hoje? Isso é um feito notável! Talvez até conte como currículo: vocês deviam pensar nisso...
Jabu saiu do transe, enfurecido:
—Muito, muito engraçado! Agora, não se esqueça que você também tem parte nisso: estamos juntos nesse barco, sabia??? Ou vai dizer que você não participou do plano, nem pegou o "Nirvana"??
—Ah, vamos com calma aí!—Ban respondeu com secura, olhando meio ressabiado em volta—Até onde eu sei, quem estava de posse de seja lá o que for de irregular, era sempre vocês e não eu. Como arrumaram essas coisas é outro assunto, e, de verdade, não é bom discutir isso aqui no meio de tanta gente. Ichi, por favor continue lendo.
Hydra tossiu um pigarro, seguiu em frente com a notícia:
"Um outro enigma também levantado pela reportagem foi o motivo pelo qual o Cavaleiro de Ouro de Virgem estava de manhã em um local tão incomum quanto o pomar nos fundos da Casa de Touro, e bem embaixo de uma das janelas da ala residencial. Até agora não foram emitidos comunicados oficiais esclarecendo esse fato. Questionado a respeito ao chegar na Enfermaria, o oficial-imediato da Casa de Virgem, Cavaleiro de Bronze Ikki de Fênix alegou pressa e se negou a falar mais detalhadamente com os jornalistas. Mas fez uma declaração taxativa antes de entrar: 'Primeiro o que aconteceu com meu irmão e agora isso com o Shaka: eu joguei pedra na Estátua de Athena, só pode! Mas uma coisa juro para vocês: se eu pegar quem fez essa, garanto: terá uma morte lenta, dolorosa e com os mais criativos requintes de crueldade que eu conseguir imaginar.' "
Unicórnio empalideceu. Ban apenas olhou para o lado, com um proposital ar de desentendido. Nachi engoliu em seco, tateando com os dedos melados ao redor do olho esquerdo, sobre um gordo inchaço roxo, bem visível.
—Bom...você acha que ele está falando sério?
Hydra, com cara de transtorno, balançou a cabeça em fúnebre sinal de aprovação. Enxugou um pouco do suor gelado da testa com o guardanapo, e retomou a leitura.
"Localizado mais tarde por nossos repórteres, o Cavaleiro responsável pela casa onde aconteceu o incidente, Aldebaran de Touro, disse que a presença do Conselheiro-Mor no pomar não se tratava de um fato isolado: 'Ele costumava fazer isso constantemente: ficava vagando por lá, no meio das árvores mais raras, as que ficam perto da janela do meu quarto. Quando o encontrei pela primeira vez fazendo isso, disse que estava apenas colhendo abacates, que eram difíceis de encontrar na Grécia, e por aí vai. Eu preferi não argumentar, mesmo vendo que ele não estava com abacate nenhum, gaguejava e tinha o rosto bastante vermelho. Aquilo: sobre certas coisas, até por uma questão de civilidade é melhor não discutir. Mas, sério, ando pensando em comprar cortinas mais grossas.' Outro Cavaleiro de Ouro presente na casa durante a noite do crime, Mu de Áries, também não se revelou surpreso: 'Acho que isso dá uma idéia de por que o nosso digníssimo Conselheiro-Mor é uma pessoa sempre tão bem informada'. E concluiu, em tom bastante irritado 'Francamente, se esse galho não tivesse caído nele, eu ainda iria acabar perdendo a paciência e jogando um eu mesmo! Privacidade deveria ser algo sagrado!' "
—Só faltava essa—Ichi largou o jornal, um sorriso gaiato estampado na cara, tirando um pouco do ar de desconcerto—mas será que o Shaka também estava aproveitando o peep show da janela do Aldebaran? Bom, não vamos detonar: até eu que não sou chegado nessas coisas estava achando curioso. Sem maldade aí: eu disse "curioso", nada mais.
—Curioso, não: intrigante—Jabu cortou—Ele talvez estivesse investigando alguma coisa a respeito da conspiração. A gente viu que tem algo lá.
—Ah, tinha: um bocado de energia noturna por parte de dois dos nossos chefes: vamos falar sério, que disposição! E isso no fim de um dia de matar: faça idéia como é normalmente, sem vistoria em Star Hill, sem hora extra de forja e por aí vai.
—Tá interessado demais, lacraia, acho que você gostou—Leão Menor se largou a rir, enquanto Ichi praguejava, com uma cara azeda—Mas, agora: isso quer dizer então que vocês viram muito bem o que acontecia no quarto da chefia, não foi?
Jabu se apressou a responder, severo:
—E eles estão armando algo, pode ter certeza! Eu disse que temos que tomar uma providência e é sério, eu ouvi que...
—Tudo bem, essa parte dá pra pular: eu quero saber da outra parte, a que realmente interessa de fato: e aí, pelo jeito dava pra ver bem o que acontecia lá dentro, na cama dos dois, não?
Ban fixou os olhos na cara dos companheiros. Unicórnio e Hydra se entreolharam, meio vexados:
—Uh...que dava, dava.
—E conforme o lacraia disse...rolando a maior diversão lá com os "modernos". Estou certo?
—Bom...pareciam estar aproveitando, e bastante.
—Não era nenhuma outra coisa não, vocês tem certeza?
Jabu tamborilou os dedos na mesa, olhando para Nachi, que ainda tentava pescar a colher no mingau.
—Bom, fora a conspiração...é, o resto não era outra coisa, nada que desse pra confundir com migalha dentro da roupa. Estavam...bom, acho que não preciso entrar em detalhes, né??
Ban abriu um sorriso, quase cruel:
—Era só o que eu precisava saber. Bom, agora é só achar o Coala de Abacateiro e cobrar o que o lesado me deve. Cinqüentinha dá pra se divertir bem: se não rolar escala vou tirar a noite em Atenas hoje. Mas cadê o safado? Ficou com medo e fugiu?
—Bom, fugir não fugiu não, eu acho—e Nachi, concentrado, finalmente conseguiu tirar a colher do fundo do prato de mingau—Mas acordou muito cedo, quer dizer, acho que nem dormiu. Ficava dizendo uma coisa estranha de "mas não era, não era". Bom, o caso é que saiu antes do toque de alvorada e...
Não terminou a frase: uma amazona esbaforida entrou subitamente no refeitório, sacudindo os braços, pedindo atenção imediata:
—Pessoal, vocês não sabem da última: está rolando convocação urgente do Alto Comando!! Todo mundo, até os interinos, o Nikol do Protocolo, todo mundo está indo pra sala da Deusa! Parece que fedeu de vez o lance do nocaute do Shaka!!!
Soldados e oficiais arregalaram os olhos, surpresos:
—Mas como assim? Que é que está havendo??
—Estou vindo agora da Sala da Guarda, e peguei o Milo, da Corregedoria no caminho. Não falei com ele, mas ouvi algo que ia falando com um dos interinos de casa, que "ia pedir estado de alerta máximo até resolverem o caso do atentado". Ele disse isso mesmo: "alerta máximo", com todas as letras!!
Impacto geral:
—Peraí, alerta máximo? Mas e nossas folgas?!
A mulher ergueu os ombros, gesticulando nervosamente, ainda tão nervosa quanto chegou:
—Alerta máximo é alerta máximo: vão cancelar tudo! Nem de fim-de-semana, nem licença-prêmio, nem bônus de serviço, nem chopinho em Rodorio no fim da tarde, nem coisa nenhuma! Gente, estou correndo pra lá agora mesmo, eu quero só ver como acaba essa coisa!
A tropa no refeitório se agitou em rebuliço, largando pratos de mingau e copos, num burburinho nervoso, troar do descontentamento em meio ao choque. Entre frases de "Meus quinze dias na praia não!" e "Se eu descobrir quem derrubou galho de abacate no Shaka, juro que mato!" homens e mulheres foram saindo correndo pela porta, tomando o rumo da escadaria do Alto Comando, quase em um estouro de botas e couraças. Na mesa do desjejum, ainda sentados, Ichi e Jabu encaravam Ban, que os fuzilava com os olhos:
—Armaram uma boa desta vez, hein?
—Ah, tenha dó! Foi um acidente! E também agora não é hora de pensar em folga!
—Bom, gente, sem pânico—e Nachi continuava tentando pescar a colher no fundo do mingau, afundada de novo no baque da notícia—Verdade...o Milo vai pedir pra cancelar licenças, eu sei como ele é...mas ainda tem o resto do Alto Comando, tem a Deusa...quem sabe não cancelam? Esperança, né?
—Esperança eu tenho agora só de receber minha grana—Leão Menor rosnava, irritado—Com folga ou sem folga o urso safado perdeu, vai ter que pagar! Cadê ele?!
Como que atendendo ao chamado de Ban eis que entra no refeitório vazio um radiante Geki de Urso, muito calmo, exibindo no rosto um sorriso de quem acertou na loteria. Cantarolando uma melodiazinha improvisada, sinal claro de que se sentia um felizardo:
—Eu ga-nhei e você per-deu!...Eu ga-nhei e você per-deu!...
Se aproximou da mesa, com o andar seguro de quem é o dono da situação. Ignorou as saudações e perguntas dos colegas, ainda empatados com o atraso e a boa disposição do companheiro: foi direto à frente de Leão Menor e cutucou-lhe o nariz:
—Eu ga-nhei e você per-deu!
Ban nem se abalou: fechou a cara e estendeu a mão num gesto bem claro.
—Nem vem com história, que eles já me contaram tudo! Vai pagando meus cinqüenta aí!
Geki continuava cutucando o nariz de Leão Menor, cantarolando:
—Meu a-mi-go, você não entendeu: eu ga-nhei e você per-deu!
Os Cavaleiros de Bronze trocaram um olhar perplexo, Lobo chupava o dedo, sem piscar, Jabu pôs a mão na testa, desolado. Ichi se levantou, pegando Urso pelo ombro, tentando fazê-lo sentar:
—Olha, Geki, eu até compreendo que o que você viu ontem foi um choque muito pesado, que suas convicções e talvez sua mente estejam profundamente abaladas...Eu entendo isso, sei que você passou por algo muito forte...mas agora... bom, vamos ser realistas...Eu sei que é duro, mas...
—Mas não aconteceu nada, lacraia—E Geki continuava sorrindo gaiatamente, apontando para si próprio e para Ban—Eu ga-nhei. E ele per-deu!
Ichi olhou de lado para Nachi, sem soltar os ombros do colega eufórico. Sacudiu a cabeça como se estivesse diante de um aparelho irremediavelmente quebrado. Ban, em aborrecimento visível, continuava a demanda:
—É conversa, esse cara só está querendo me enrolar. Só que eu não perdi coisa nenhuma, você sabe muito bem! Você estava com esses dois ontem, caiu na cabeça do Shaka como um urso maduro e com isso melou minha folga! E, sim, você viu o Aldebaran transando com o Mu ontem, não pode negar! Aposta é aposta, agora paga de uma vez!
Geki sacudiu o dedo, em negativa:
—Não tão cedo, Garfield! Aí é que é: eu sei que eu vi Aldebaran transando com Mu, sim, claro que vi, até aí você acertou. Mas nossa aposta não foi essa, você esqueceu? Apostamos especificamente sobre "a orientação sexual do nosso caro Comandante"...
—Eu sei muito bem o que eu apostei com você! E o Aldebaran estava lá, metendo ferro no Mu! Agora, esperto, como é que você vai me dizer que ele não é gay??
Todos olharam para Geki, interrogativos. Urso deu uma risadinha e sentenciou, com firmeza transbordante:
—E eu digo: tenho argumentos para isso. Posso afirmar com segurança: ele não é gay.
Silêncio. Unicórnio ergueu uma sobrancelha, Lobo gesticulou em resposta, sinal de quem não entende nada enquanto tentava limpar-se no guardanapo. Ban continuava com a mesma cara de poucos amigos, mão espalmada, mexendo os dedos:
—Mesmo? E quis são esses "argumentos" que você tem?
—Argumentos definitivos, meus amigos. E com os quais...eu ga-nhei, e você, Felino Nanico De Cabeça Grande, per-deu! Afinal, meus caros Jabu e Ichi: o que foi que nós vimos lá, naquele quarto?
Ichi fez uma cara de aborrecimento:
—Não precisamos dizer de novo, precisamos?
—Bom, certo, não precisa. Mas, pergunta: quem estava fazendo o que ali?
—Mas como quem estava fazendo o que?! Os dois estavam fazendo sexo, copulando, trepando, fornicando alegremente! Precisamos entrar em detalhes nisso??
—Mas claro: os detalhes importam—e Urso caminhava ao redor deles, segurando o queixo em pose sagaz, imagem digna dos ilustres detetives de filmes de mistério—Afinal, isso faz toda a diferença. Caro Jabu, eu lhe pergunto: quem estava pegando quem?
O Cavaleiro de Unicórnio ficou vermelho como um pimentão:
—Err...eu estava prestando mais atenção no que eles diziam...O caso da conspiração e...
—Quem estava pegando quem, Jabu? Não fuja do assunto: você estava comigo e viu.
—Ah—e Unicórnio engasgou—Bom, ok, tá bem: Aldebaran. Era ele que estava...aham...por cima e...
—Exatamente!...
Leão Menor interrompeu, azedo:
—Ah, não! Nem me vem com essa de "quem está por cima não é viado", que não cola! Macho catando macho, em cima ou embaixo não faz diferença: ainda é homem com homem! E desde que eu me conheça por gente, homem com homem, não importa a ordem é gay, viado, boiola! AGORA DEIXE DE PALHAÇADA E PAGUE LOGO DE UMA VEZ!!!
—Calma, que estresse!—e Geki sorria, inabalado—Eu concordo plenamente com você: embora eu ache que...bom, estar "em baixo" seja realmente o cúmulo da viadagem, "em cima" também não muda o fato de que é viadagem. E sim: homem pegando homem é viadagem, não importa como.
Mais silêncio. Desta vez Lobo que pediu a palavra, timidamente, coçando a cabeça:
—Deixa eu ver se eu entendi: homem pegando homem é gay, certo? E...bom, aí não importa a ordem: se em cima ou em baixo, é gay tudo igual...
—Certo!
—Mas aí...você viu o Aldebaran, que é homem, fazendo sexo com o Mu...que também é homem...Com o Aldebaran em cima e o Mu logicamente embaixo...mas isso não é gay. Ai...eu não entendi.
Geki olhou para os colegas, com o ar jubiloso de quem resolve um grande mistério:
—Isso mesmo! Mas há uma falha na sua teoria, caro Lobo: Você disse: "Aldebaran, que é homem, fazendo sexo com o Mu...que também é homem". E aí é que está...
E lascou, de peito estufado:
—...acontece que o Mu não é um homem!
Todos arregalaram os olhos, Hydra segurou a cara atordoado, Jabu sacudiu a mão, de boca aberta, sem saber o que dizer. Apenas Ban não se abalou: continuava firme no propósito de receber seu dinheiro:
—Nem vem que essa de alienígena não cola!
—E quem falou em alienígena? Eu acho que o Mu é gente como nós. Mas veja: estou falando pra você: o Aldebaran não é gay. Ele estava fazendo sexo sim, com o Mu sim, e sim, o Mu é um ser humano. E disso se deduz...
—Que você bateu a cabeça com muita força?
—Não, Ichi. Se deduz que O MU É UMA MULHER!
Alvoroço: não tanto pela revelação em si, mas pelo teor patente de absurdidade. Ichi sacudia o moicano, totalmente bestificado:
—Ah, mas você bateu sim a cabeça com muita força! De onde você tirou tamanha idéia maluca???
—Não tem nada de maluco, é a pura verdade! Eu notei isso ontem, quando olhei para as pernas dele! São lisinhas, coxas macias, longas e ao mesmo tempo suculentas, branquinhas, dava vontade de agarrar...
Ban se irritava de vez:
—Tá, você achou as pernas dele um tesão. Isso não prova que ele é uma mulher, isso prova que você é meio gay!
Geki nem se estressou: parecia febril, extasiado com a própria teoria:
—Não, meu amigo: aquilo eram pernas de mulher, de uma mulher bem interessante por sinal. Vejam, faz todo o sentido: o Mu, ou melhor, "a" Mu não tem nada de homem. Não tem sinal de barba ou algo do tipo: tem sim aquele rostinho delicado, pele sedosa, cílios longos, cabelos macios, olhos verdes brilhantes, o corpinho esguio com a cintura fina, quadris redondos e...
—E um gogó maior que o meu, voz grossa e nenhum peito! Como eu disse, isso não prova que ele é uma mulher, e sim que você é gay! Totalmente gay!
—Nada a ver isso—e Urso continuava sua defesa de tese—Afinal, veja bem: ela é esbelta como uma modelo de passarela. Todos sabemos que modelos de passarela, magrinhas acabam tendo gogó, é normal. Voz grossa também: nem toda garota fala fino, algumas engrossam o tom até para parecerem mais sensuais. E quanto aos peitos, não é a primeira mulher sem peitos que se vê por aí: ora, como o Shun nos disse, a namorada do chinês também não tem peito, e é mulher assim mesmo. Logo...
Leão Menor atalhou, roxo de fúria:
—TUDO BEM, MAS E O DETALHE MIMOSO NO MEIO DAS PERNAS DELE, NÃO CONTA???
Geki sorriu, rosto de perfeita vitória. Se dirigiu aos outros dois colegas de poleiro:
—Então: vocês viram algum "detalhe no meio das pernas" de Mu? Como era: podem dar uma descrição?
Ichi e Jabu ficaram rubros de pura vergonha:
—Ei, qualé?!
—Tinha ou não tinha "detalhe"? Vamos, só falar.
Os dois Cavaleiros de Bronze se prepararam para dizer um sem número de palavrões, mas embatucaram no meio do caminho. Pareciam ter atentado para algum evento até então desconhecido para eles. Meditativos procuravam revirar coisas na memória, encontrar a ponta de um fio de meada perdido ali. Após uns bons instantes de reflexão, vexados, pareciam não ter chegado a lugar algum:
—Bom, eu lembro pouco... Tinha o véu da cortina na frente, ainda mais que...bom, eu não estava pensando nisso, eu tinha sim que ver algo da conspiração e...
—Hum...eu não sou de ficar olhando essas coisas. Bom, se o assunto é "partes"...tinham as do Aldebaran...mas do Mu não lembro não: ele estava de costas, tinha o robe...e depois, na hora "H" , a posição não deixava ver nada, e tinha tanto cabelo...
Urso caminhou na direção de Leão Menor, olhando-o firmemente nos olhos.
—E eu também não vi nada. Resumindo, meu caro Ban: ninguém viu esses detalhes. Ninguém. O que me leva a crer...que não tem detalhe nenhum. Sim, o que nós vimos lá foi um homem macho, com tudo de macho e comportamento 100 macho fazendo sexo com uma mulher belíssima, o que é algo que dá pra esperar de um macho como ele. Ou seja...
Aproximou-se de vez do colega, e deu-lhe mais um cutucão no nariz:
—...não-é-gay! Eu-ga-nhei!
Ban estapeou-lhe a mão:
—Isso é a coisa mais idiota que eu já ouvi na vida! O Mu uma mulher? Ah, tenha dó! Você apenas não quer pagar meu dinheiro, mas vai me entregar ele sim ou lhe arrebento o focinho!
Nachi segurou Geki delicadamente pelo braço, tentando apaziguar as coisas:
—Pois é, a gente entende sua teoria, claro...mas há de convir que é uma idéia esquisita. A gente sempre ouviu falar que o Mu era homem...ainda mais que ele nem usa máscara...Se fosse mulher, o uniforme exige a máscara, não?
O Cavaleiro de Urso fez uma expressão grave, e pôs a mão no ombro de Jabu, falando em tom austero:
—Eis aí. É uma mulher se passando por homem, algo misterioso e que, sim, pode fazer parte de algum plano mal-intencionado. Afinal, por que uma mulher faria aquilo? Mulheres, afinal tem tantos direitos quanto homens para avançar na carreira, vejam a Shaina, que manda em nós todos. Não acho que ser mulher a prejudicasse em algo para se tornar Cavaleiro, ou melhor, Amazona, seja de Prata, Ouro ou o que seja. Isso tudo...combina com sua teoria da conspiração. Estão escondendo algo!
Unicórnio estava sem palavras: esperava sabidamente que alguém lhe desse crédito nas investigações sobre um possível complô. Mas a forma como estava acontecendo parecia algo totalmente surrealista. Geki continuava o discurso, enérgico:
—E escondendo mal, diga-se de passagem: para mim está óbvio que é uma mulher, ainda mais que tem filho e tudo. O Cadete Pestinha, movido à doces! Como o Shun falou: um garoto "parrudinho como o pai e com as marcas na testa da mãe"! Pura herança genética!!!
—Geki, mas eu pensei que as marcas do Mu fossem tatuadas. Como que uma criança iria herdar isso?...
Lobo continuava puxando o colega pelo braço, na vã esperança que algo lhe devolvesse a razão. Ignorado, como sempre. Urso desvencilhou-se sem olhar para ele, mais preocupado em expor a mais recente nuance descoberta na crise. Apontou resoluto para Ban, ainda de cara feia e mão estendida.
—Mas isso vai ter fim, ah se vai! E vai acabar hoje mesmo, assim como nossa aposta, ô gato vira-latas cabeçudo. Eu vi a movimentação lá fora, parece que alguma coisa provocou uma convocação geral do Alto Comando, não?
— "Alguma coisa" leia-se a bordoada que você deu no Conselheiro-Mor e que ainda vai custar nossas folgas! Está todo mundo em polvorosa!
—Excelente!! Isso quer dizer que a guarda patrulheira deve estar mais preocupada com o que acontece na sede, e mais que tudo: nosso caro comandante e—sim— a "esposinha" dele também foram para a reunião!
Ban continuava rosnando:
—Não sei o que tem de bom nisso!
—Mas eu sei o que tem de bom! As Casas do Alto Comando estão descobertas! É a ocasião ideal para alguém invadir e procurar evidências, tanto das armações que eles estão maquinando contra a Deusa quanto da real condição do "Cavaleiro" de Áries, ou melhor: dessa Amazona sem máscara e que esconde a identidade!
O rosto de Jabu se iluminou:
—Mas é verdade! Geki está maluco, mas essa idéia faz sentido. Podemos entrar sem sermos notados! E o momento é ótimo, afinal não tem ninguém prestando atenção, todo mundo foi ver se o Milo vai cancelar as licenças. Temos a chance de olhar o quanto quisermos, em todos os cantos enquanto eles não voltam!
Ichi e Nachi coçaram as cabeças: era afinal um plano viável. Mas não escondiam uma pontinha de receio a franzir-lhes a testa: as expressões de Geki e Jabu, numa euforia quase digna de internação em camisa-de-força de algum modo chegavam a lhes assustar sutilmente. Unicórnio voltava ao combate: havia recuperado o ânimo demolido na leitura do jornal.
—Vamos logo, não temos tempo a perder! Muito bem, Sarnento: qual é a rotina dos patrões de manhã? Sei que eles não ficam na mesma casa, vão alternando. Onde você acha que podemos achar mais coisas?
Lobo pensou, por alguns instantes:
—Hum...difícil dizer. Normalmente eles vêm para a casa do dia após o café da manhã. Trazem a papelada ou mandam alguém trazer: dona Astásia, eu, o pessoal do setor de Arquivística...Mas hoje, aconteceu isso tão cedo. Ontem eles passaram a noite na Casa de Touro, e eu pensaria em achar mais coisas em Touro mesmo, já que as folgas da Astásia e da Arquivística também estão em jogo: deve estar todo mundo lá na sede, cercando a sala da reunião. E eu, bom...eu estou aqui, né? Acho que não deu tempo de ninguém levar os papéis.
—Ótimo, já sabemos para onde ir!
Urso interrompeu, sorriso afiado de esperteza:
—Espere, Jabu: mas e se aproveitarmos a chance para investigarmos as duas casas? Você e o Lacraia vão para a Casa de Touro olhar esses papéis... e eu, o Sarnento e o Cabeção vamos para Áries: afinal é lá que deve ter algo sobre a verdadeira identidade da...
—"O Cabeção" não vai: já falei para não me meterem nas suas trapalhadas!—Ban atalhou, dando de ombros enquanto ia saindo do refeitório—Eu vou lá para cima, afinal minha folga em Bali também está na unha do Milo. Mas que fique certo: hoje sem falta você vai ter que me pagar, urso caloteiro! Ou vai sobrar para você!
Geki lhe mostrou a língua, puxando o olho em claro deboche:
—Pode falar à vontade, cabeça de abóbora! Vai, fala o que você quiser! De noite, lá no Ulisses é que vamos ver quem vai mesmo ter que pagar quem! Vai preparando as MINHAS cinqüenta pratas...porque é hoje que eu desmascaro essa Amazona de Áries!!!
Ms. Rhode's Rambled Reports: "12" está de volta, para a alegria do pessoal que acompanha a fic: os eternos cinco no fundo da sala, mais meu gato que dorme sempre na frente do monitor. Todos esperaram ansiosamente durante esses meses, e agora, prometo, vou tocar a fic em frente com mais constância (isto é, se minha saúde física e mental deixar).
E, como sempre, "12" vai gerando polêmica (abençoada pretensão a minha!): desta vez a pergunta que não quer calar é "afinal, existem abacates em Atenas?" Bom, a resposta para isso é: sim! Embora não sejam árvores locais, os abacateiros se dão bem no clima quente da Grécia, frutificam, soltam brotos e nem chegam a ter grandes problemas de adaptação. Ainda, a maioria dos abacateiros da Grécia veio importada, mas algumas empresas (de frutas e jardinagem) já produzem mudas nascidas e criadas lá mesmo.
Capítulo dedicado a ótima Enfermeira-chan, presente de aniversário ligeiramente atrasado para ela. Não deu para preparar tudo à tempo, mas o que vale é a intenção. Espero que tenha ficado um capítulo legal e que você se divirta bastante, Enfermeira!
Isto continua? É claro que continua! Sigam-me os bons!!
