Disclaimer: Este é um fan work, feito totalmente sem fins lucrativos. Os direitos de Saint Seiya, Saint Seiya Episódio G e de todos os seus personagens pertencem à Toei Animation e Masami Kurumada. A exploração comercial do presente texto por qualquer pessoa não autorizada pelos detentores dos direitos é considerada violação legal.


Informação para o leitor:

Yaoi (contém relacionamento amoroso entre homens).

Avaliação etária: M/NC-17 (situações adultas, sexo, consumo de álcool e substâncias legalmente questionáveis, violência estilizada)

Par citado: Aldebaran & Mu...e algumas outras coisinhas mais, dos mais variados tipos (et pour quoi pas?)


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"12"

Por: Deneb Rhode

11.

Camuflagem: técnicas avançadas e básicas

—Você fica aqui, guardando a porta. Enquanto isso eu olho o resto.

—Mas...

—Pare de criar caso, Sarnento—Geki de Urso ralhava, escondido atrás de uma coluna, enquanto, apressado tentava ajustar as ombreiras do traje cheio de fungos do Mestre—Eu que vou olhar, eu quero olhar! Tem muita coisa escondida aqui nesta casa, e eu vou descobrir...Droga, isso não entra!

Sem paciência, dispensou as peças: atochou-as irritado na mão de Nachi de Lobo, que ainda tentava argumentar.

—Aí é que é...Então, pra olhar lá dentro, é bem mais fácil eu olhar. Sabe, é que não pega bem alguém de fora invadir casa do Alto Comando, ainda mais logo agora com esse problema de ontem. Fico pensando o que o Milo ia fazer se pegasse alguém fuçando...Mas eu já trabalho aqui, sou da casa, então eu podia...

Não continuou: um monte de tecido preto mofado acertou-o bem no nariz, conforme Geki se embrulhava com a longa capa.

—Pois é: você trabalha aqui, há MESES, do ladinho da madame que se diz Cavaleiro e do homem dela, e em nenhum momento percebeu que tinha pelota nesse grude...Ah, faça-me o favor! Você não consegue achar nem sua colher dentro de um prato de mingau!

Nachi coçou a cabeça, sem jeito, enquanto o outro ajustava o elmo.

—Mas é que...bom, eu só pensei que eu ia chamar menos a atenção. Meu Cosmos já é conhecido daqui, se alguém percebesse que eu estava dentro, não ia estranhar...

—Deixe de besteiras!—Urso cortou, nervos gastos com a teimosia do colega—Esta capa serve exatamente para isso: esconder o Cosmos de quem usa! Funcionou ontem: nem o Shaka nem os outros dois acharam a gente. Não vão me achar, a menos que olhem cara a cara para mim...

Finalmente paramentado, sem o volume de latas sobressalentes, com capa e elmo postos direto sobre a subtúnica da armadura de Urso, Geki era uma versão sem ombreiras, maior e mais roída de traças do último Patriarca. Solene, deitou as mãos no ombro do outro, requerendo austero.

—...e é aí que você entra: se quer ser útil, faça algo de útil. Você vai avisar se vem alguém para o meu lado. Trate de ficar de olho na porta principal, e veja se não entra ninguém. Se aparecer qualquer pessoa, qualquer uma que seja, é só dar um assobio. Aí eu dou um jeito de me esconder rápido.

—Eu? Ficar aqui na frente? Mas espera, acontece que...

Urso não queria mais conversa: mandou Lobo ficar quieto enquanto saía com cuidado detrás da coluna, verificando a cada passo se alguém mais estava por lá. Sem testemunhas, livre para por o plano em execução, foi até a porta da Casa de Áries e girou a maçaneta. Entrou, apressado e silencioso, dando uma última recomendação ao colega:

—Olho aí! E se aparecer alguém, lembre-se: assobie!

Nachi ainda quis falar alguma coisa: ganhou como resposta a imensa porta de madeira de lei fechando na sua cara. Sem mais o que fazer, sentou-se nos degraus do alto da escadaria da frente, olhando em volta com ar resignado. Ouvia os passos do outro sumindo aos poucos, aos tropeços, quase rolando pelo hall de entrada.

Andar com a capa e com o elmo não era algo fácil, e Geki logo notou isso: os panos compridos demais para qualquer um enrolavam em seus pés, e o capacete estreito não só bloqueava parte importante do campo de visão como também apertava dolorosamente suas bochechas. Para piorar, as asinhas no alto da peça teimavam em se enroscar em tudo o que achavam pela frente, como se tivessem atração magnética por tapeçarias, samambaias, adornos e cortinas. Mais de uma vez pensou em arrancar o disfarce e prosseguir a busca só com a subtúnica e nada mais. A idéia de alguém da Corregedoria o descobrindo pelo Cosmos, e a lembrança do que Nachi dizia sobre "o que o Milo ia fazer se pegasse alguém fuçando" o incentivavam a pensar melhor. Queria continuar a busca, mas sem ter que dar explicações em interrogatório para nenhum superior mal-humorado: preferia agüentar a cara espremida e o cheiro de mofo, ia com eles até o fim.

O interior da Casa de Áries parecia mais modesto e discreto que o da Casa de Touro: havia poucos objetos nos cômodos, no mais prateleiras e tapeçarias de seda nas paredes, alguns móveis entalhados no estilo do antigo Tibete, jarros de cobre, tapetes de lã, plantas em vasos de pedra. Grandes espaços vazios no mármore branco do chão e paredes eram lá e cá interrompidos por marcas de argamassa, dando a impressão de reformas recentes. Urso, após andar pelo largo corredor, deu de cara com a sala de trabalho, onde o Cavaleiro de Ouro emitia seus despachos: mesa ampla com duas cadeiras, caixas de documentos, blocos de papel, caneteiros, porta-retratos, divã de madeira simples, arquivos, luminárias. Tudo normal, como em qualquer escritório comum.

Decidiu revirar as gavetas em busca de papéis comprometedores. Após olhar pastas e pastas com atas de reuniões, ordens de serviço para reparo de armaduras, notas fiscais de massa corrida, ofícios variados, folhas carimbadas e a carimbar, finalmente achou algo mais interessante: uma cadernetinha ruça, com a letra garranchosa do comandante anotando na etiqueta da capa: "Gastos Pessoais- Junho".

Geki deu um sorriso prensado, de satisfação e ansiedade. Se os tais gastos eram mesmo de Mu, e de ordem pessoal, deveria achar ali algo mais revelador, evidências reais sobre o que faziam os chefes além do horário de expediente. Abriu-a, foi folheando, correndo olhos ligeiros sobre as anotações.

"Despesas-Dia 4 de Junho

Onde: compras em Kolonaki, Atenas, fim da tarde

Motivo: Dia 12 vem aí feliz! E, desta vez preciso de roupas ocidentais (tenho poucas)

O que comprei:

Blazer- 900

Sapatos sociais- 450

Um par de tênis- 300

Meias- 80

Camisas- 280

Calças- 400

Jeans- 350

Roupa íntima- 290

Total- 2090 (!)

Quase tudo guardado e com etiquetas, pelo menos até o dia (exceto sapatos e tênis).

Lembrete importante: evitar ir de novo com Aldebaran para Kolonaki! Ao menos até o próximo soldo. É muito divertido e romântico, mas ele é um péssimo conselheiro no que se refere a gastos: juro que pelo menos a roupa íntima não precisava ser de alguma griffe italiana caríssima da Rua Anagnostopoulou. E eu, na verdade, não fazia questão de uma peça vermelha com detalhes em dourado. Foi ele que me convenceu a levar: disse que eu ia ficar sexy vestindo, fez alguns elogios aos meus quadris e...bom, na conversa dele, me empolguei. Desta vez, meio que acabei indo à falência.

Lembrar também: não tem jeito, vou ter que voltar em Kolonaki. O tênis que eu comprei na Tsakalof não serviu, preciso trocar. Na hora pareceu que ficou bom, mas descobri que machuca no calcanhar depois de algum tempo."

Uma pista valiosa, ao menos era o que parecia.Urso se sentiu como se houvesse descoberto a América. Olhou para o retrato em cima da mesa, posto em uma entalhada moldurinha: os dois Cavaleiros de Ouro abraçados ternamente, com um espetacular cenário de montanhas ao fundo; Aldebaran usando o instante para depositar um beijo carinhoso nos cabelos lavanda do parceiro. Típica foto de casal feliz. Geki ergueu a sobrancelha dentro do elmo, expressão de astúcia, fixo no sorriso prazenteiro de Mu registrado na imagem.

—Roupa íntima vermelha, chique, sexy, guardada e com etiqueta para a tal ocasião especial...É, dona Amazona, já sei o que procurar!

Saiu do escritório, ainda tropeçando na capa comprida. Foi pelo corredor, abrindo porta por porta até achar um quarto grande, com cama baixa e larga, mesinha de chá, sutil fragrância de lavanda emanando de almofadas e lençóis de cores vivas, bordados com motivos orientais: o quarto do Cavaleiro de Áries, com certeza.. Sem demora começou a vasculhar ao redor, abrindo baús e armários, em busca da confirmação de suas suspeitas.

Achou as roupas num closet grande, penduradas ordeiramente. Era verdade que o graduado não tinha muita vestimenta ocidental: o mais que se achava eram túnicas de seda, calças de algodão, robes com abotoaduras metálicas, sapatos de pele. Tudo muito tibetano e incomum, resultado direto dos anos em que Mu viveu no Himalaia, afastado bem dizer de tudo e todos: menos do menininho ruivo que criava e de seu devotado Aldebaran—lendária a obstinação de Touro a estar sempre ao seu lado, não fazendo caso de distância ou empecilhos. "Faz sentido: Aldebaran não ia largar a esposinha e o filho lá longe, sem ninguém. Mais que isso, lá era o esconderijo perfeito, podiam tocar a vida e ninguém ia descobrir que Mu é mulher! Esperto ele!"

Geki tentava raciocinar, buscando nas roupas exóticas alguma boa justificativa para suas suspeitas. Achou que os cintos de penduricalhos eram sim coisa bem de mulher, mas tinha dificuldades avaliando o resto. Coçava a cabeça, tentando entender qual era o uso de uma espécie de quimono de lã, tão comprido e estampado, que seria até bem feminino não fosse a grossura pesada de sua malha, quase tão espessa quanto um tapete. "De fato, não parece roupa de homem...e nem com roupa de mulher. Não parece com nada que dê para gente normal usar na rua". Examinava peça por peça, circunspecto, sem entender direito para que servia um "lençol laranja triangular" posto num cabide ou como se usavam as pesadas botas negras de montaria dispostas na estante do lado: era impossível diferenciar o pé direito do esquerdo.

Entre ruminações, se perdeu observando algumas vestes azuis mais diáfanas: conforme manejava o tecido muito fino, as imagens da noite anterior foram se aglutinando a seus pensamentos, carregando junto com elas a foto vista há pouco no escritório. Surgia-lhe na mente a silhueta de Áries envolvida na malha translúcida, banhada pelo sol daquelas montanhas: curvas marcadas na gaze, coxas longas e macias se desnudando ao vento, um ombro sob a perfumada cabeleira de ametistas se descobrindo sem querer...

—...é mulher...sim...e uma mulher linda...

Puxou o cabide para si, em ato quase instintivo. O traje arrastou para fora algumas sacolinhas de butique, estampadas com logomarcas de griffes italianas, todo o jeito de coisa comprada há poucos dias. Urso voltou do sonho por um instante e lembrou o que procurava:

—As provas!

E na sua mente, na mesma hora se desfez a imagem de Mu em etéreas vestes azuis sobre a montanha, cedendo lugar a outra mais intensa: a mesma figura sinuosa, provocativa, lançada na cama de almofadas cor de vinho em oferecimento luxurioso, boca úmida, olhar faminto de desejo. Com nada além dos cabelos longos e minúscula lingerie vermelha-e-ouro caríssima a disfarçar-lhe a nudez. Urso sentiu a cabeça rodar, a capa do Mestre parecia-lhe agora bem mais quente do que antes. Trêmulo, ante a glória da descoberta de um complô histórico no Santuário de Athena, mas principalmente ante dúzias de idéias bem menos castas, revirou com fervor os pacotes, buscando a evidência.

Achou-a no fundo da sacola menor, dourado brilhando sobre vermelho, tão macia ao toque quanto uma pluma frágil. A segurou entre os dedos, puxou-a para fora com a gentileza do noivo que despe uma virgem. Olhou-a ainda fechada na palma da mão: era muito pequena, mimosa, flexível, uma jóia do design de modas, nascida e idealizada para o prazer, cada costura e trama exalando volúpia. De olhos arregalados, Urso aproximou-a do rosto: sentiu um perfume indescritível de especiarias do oriente, a minúscula peça carmesim insinuava-se qual um doce raro incitando a gula, como se quisesse ser saboreada dos elásticos até o forro.

Geki salivava, o seu coração havia disparado de vez. Trêmulo, foi abrindo a roupa com cuidado, lapidando com os olhos à cada dobra desfeita a imagem de quadris esculturais e longas pernas de marfim ornamentadas com a malha apetitosa do tecido nobre. Por fim, a desenrolou toda, atentando para as cavas profundas, a textura sedosa, o nome da griffe bordado em ouro na cintura...

...e aquele curioso reforço em "Y" invertido na frente, que se expandia numa bolsinha meio frouxa, típica de peças que guardam zelosamente as partes mais reservadas de uma anatomia. Claro, desde que o usuário seja homem.

—O...que?!

Cueca.

Urso sacudiu a cabeça com força, como se quisesse endireitar lá dentro o registro torto de algo visto errado. Olhou a roupa de novo, perplexo: não era engano, estavam lá o pano vermelho macio, as letras em dourado, as cavas provocativas, até o aroma sensual de casa de chá...tudo certo, tudo perfeito, não fosse aquele estranho detalhe na frente. Era cueca, sem a menor dúvida. Por um segundo imaginou se não seria de Aldebaran: "O chefe afinal sempre gostou de coisas mais finas, quem sabe". Mas não conseguia pensar como um objeto tão minúsculo iria entrar nas pernas do superior, grossas como toras de sequóia. Experimentou puxar o elástico, ver até onde ia. Nem em sonho.

Inquieto, continuou testando o pano, remoendo possibilidades. "Talvez eu esteja errado, e seja uma calcinha com costuras diferentes, vai saber...". Pôs as duas mãos dentro da roupa e a estendeu forçando para fora, bem diante do rosto: exame para ver se aquela sobra na frente não era só um excesso bobo de tecido, dos que desaparece quando a roupa se ajusta no corpo. Não era: a dianteira continuava murcha; espaço vago em evidência, como se esperasse óbvio por algo mais substancial que o recheasse. O Cavaleiro de Bronze tentou organizar as idéias, apelando para o que conhecia de moda, um quase nada, só de ouvir falar "Bom...se não me engano, disseram na tevê que hoje em dia também fabricam cueca pra mulher, deve ser isso...Mas se é de mulher, para que é que serve essa bolsinha na frente? Pra que..."

Tão absorto estava que mal deu atenção ao baque surdo de algo caindo nos tapetes do quarto. Virou-se lento, mãos puxando e encolhendo a cueca de luxo, gesto ruminativo de quem precisa pensar. Olhou displicente para trás, por instantes não entendeu o que fazia ali um aspirador de pó tombado, ladeado por uma senhora hirta, túnica de serviçal, olhos em esbugalho e dedo em riste, tremendo feito vara verde.

—Ah...Ahh...Ah...!

Naquele segundo, que pareceu congelado no tempo, Geki juntou os termos dessa nova equação: aspirador de pó, mais serviçal apavorada, mais sua presença indevida na Casa de Áries, mais camuflagem: roupas de um ex-chefe supremo insano, que deveria estar morto. Igual: catástrofe, havia sido descoberto! Num choque, girou saltando nos próprios calcanhares, sem palavras que lhe fossem úteis. Guardou alarmado a roupinha de baixo nas vestes e apontou para a recém-aparecida:

—AH!

O suficiente para a mulher sair de sua postura recatada de congelamento e disparar à toda velocidade pela porta do quarto, ganhando o corredor principal num frenesi de histeria, movido à pânico.

—AAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHH!!

Urso não sabia o que fazer. Largou a investigação de lado e saiu atrás da serviçal, como podia: não conseguia correr com tanto pano, mal enxergava o caminho e pisava a toda hora na própria barra, quase caindo de nariz.. Não a alcançou: ao som dos gritos da senhora, um esbaforido Nachi de Lobo vinha em sentido oposto pelo corredor, sacudindo as mãos em aflição:

—O que aconteceu?

—Eu é que devia perguntar isso, seu saco de pulgas inútil!—Geki estava furioso, tom de voz de quem está pronto para fazer uma desgraça—Eu não mandei você vigiar essa maldita porta?!

—Eu vigiei, vigiei sim—Lobo estava trêmulo, suando em bicas—Mas eu avisei, que não era uma boa idéia eu ficar na frente da casa: eu sou ordenança, a faxineira achou que eu tinha aberto o despacho dos chefes e foi entrando, eu não pude fazer nada pra impedir...

A mulher seguia gritando pela casa. O Cavaleiro de Urso segurou o elmo, colérico, gesto de quem está com a cabeça prestes a explodir.

—Pedaço de asno! Eu não disse que era para você assobiar se viesse alguém? EU NÃO DISSE PARA ASSOBIAR, SEU PATETA??

Nachi parecia constrangido:

—Ah, sim, é sim, você disse. E eu tentei, juro que eu tentei...

—Tentou como, se eu não ouvi nada??

Lobo engoliu em seco, rodando os dedos nervosamente:

—Então, você não lembra? Todos esses anos, sabe, eu bem que me esforcei, mas...

E levantou os olhos, num embaraço:

—...eu não sei assobiar. Eh, eu sei, é meio ridículo, e bem que os moleques sempre me atormentavam com isso quando eu era criança...E eu tento sempre...mas eu nunca aprendi...

Geki sentiu o sangue ferver, na mesma hora viu o mundo ficar vermelho, bem mais vermelho que a cueca que levava escondida na roupa. Num gesto quase instintivo, ergueu os braços e se propôs a exercitar sua técnica de combate—o temido "Abraço do Urso", capaz de partir árvores num único aperto—no delgado pescocinho do seu interlocutor. Se jogou para frente com toda a fúria. Lobo apenas arregalou os olhos, desviou ligeiro por sob os braços envoltos no manto e plantou-lhe um generoso empurrão nas costas. Aproveitando o movimento para fazer o colega ir para frente e ainda mais longe, lançado sem cerimônias numa portinha entreaberta. Sob o som de latas caindo, momentaneamente abafando a gritaria da serviçal, Nachi se endireitou, tentou dissimular enquanto era alcançado por um grupo de homens fortes e armados, em trajes rústicos, que vinha pelo corredor.

—Ei, que é que está havendo? Tem uma mulher gritando, aconteceu algo sério! O senhor viu alguma coisa?

Nachi deu de ombros, nervoso:

—Eu não vi nada, também estou investigando! Ela foi lá pra adiante, para o lado do hall de entrada. Vocês guardas deviam ir lá ver o que foi!

—Mas e essa barulhada que está vindo do depósito, que é isso?!

—Ah, isso não é nada, só umas coisas que eu pus aí, eu ajeitei mal e elas caíram—Nachi desconversou enquanto chutava a porta, fechando-a nos dedos de Geki que tentava se levantar—Mas não tem tempo para pensar nisso, vão, vão lá, ajudem a moça!

Os homens saíram correndo, na direção dos gritos. Nachi encostou-se na parede. Geki saiu da portinha do depósito, iracundo, sacudindo a mão prensada e arrastando na capa ainda mais cheia de rasgões que antes, diversas ferramentas de pedreiro, coberto de cal e cimento.

—Que idéia foi essa?!

—Shhh, fale baixo!—Nachi recomendou, gesticulando, enquanto apressado tentava levar o amigo pelo braço, para longe de lá—Você tem que sair, a casa está cheia de gente! Se lhe pegarem aqui, e ainda vestido desse jeito, vão lhe mandar para Uranos!

—Mas que história é essa de casa cheia de gente?! Você me falou só da faxineira!

—É, e depois dela, vendo a porta aberta vieram as arrumadeiras, lavadeiras, mais os pedreiros, encanadores, serralheiros, marceneiros e o pessoal de limpeza de jardins. Sabe como é, a Casa de Áries ficou fechada muito tempo, precisava de reformas. Deve ter umas quarenta pessoas por aí, para não falar nos guardas da segurança e no pessoal da tropa: já tem gente que viu o despacho aberto e...

A voz que gritava se calou de repente, após um baque seco. Uma outra voz, imperiosa e estridente se fez ouvir no corredor:

—Nachi, cadê você? NACHI?

Urso tentava espanar a poeira das roupas, quando foi surpreendido mais uma vez: Lobo aplicou-lhe um rápido e fulminante golpe de judô, reduzindo-o a um amontoado de panos sujos de cal lançados ao chão. Nachi apressou-se em sentar por cima do embrulho, forçando para o colega não se mover. No corredor, as passadas impacientes de um par de botas altas de metal ecoaram, logo revelando a imagem loira e mascarada de uma Amazona de Bronze.

—Nachi, qualé? Eu estou lá esperando você cuidar dos meus papéis e você em troca me solta uma mulher doida em cima! Tá de brincadeira?!

Geki tentou se mexer, Nachi o acertou com um discreto chute de calcanhar, bem no queixo. Lobo sorria, totalmente sem graça.

—Desculpa, June, não foi por querer. É que a faxineira viu uma aranha cabeluda e...

Indignado, o Cavaleiro de Urso fez automática menção de protestar. Ergueu-se um pouco para dizer que "Aranha cabeluda é a mãe!", ganhou uma cotovelada no fígado e voltou a ficar quieto.

—...e ela entrou em pânico, eu tentei ajudar. Aliás, o que aconteceu com ela, você viu?

June de Camaleão pôs as mãos na cintura, aborrecida.

—Claro que eu vi, por que você acha que eu vim atrás de você? A louca veio me agarrando, falando umas bobagens de que viu o Patriarca roubando cuecas, estava fora de si! Eu mandei ela ficar quieta, mas aí, como ela não parava, não teve jeito: dei-lhe um croque e só assim ela fechou a boca. Tá lá, esticada na sala do seu chefe: acho bom você tirar ela de lá antes que o Mu encontre e...Mas que monte de porcaria é esse que você sentou em cima?

Lobo engasgava:

—Isso aqui? Ah, não é nada...

A Amazona se aproximou, dedo no queixo, gesto de curiosidade.

—Meio grande para um "nada", não é não?

E plantou um chute de bico de bota, num lugar onde o arregalado Lobo calculou, estava um dos rins do amigo sob camuflagem.

—Eu disse que não é nada, então, não é nada!—trêmulo, sentou-se com força na cabeça de Urso, lhe abafando um vagido de dor—Só entulho, June, sabe como é, a casa está reformando...Aí juntaram o entulho e botaram essa lona em cima.

A Amazona de Camaleão sacudiu a cabeça, desaprovando:

—Mas que leva de frouxos que seu chefe contratou, olha só pra isso! Pedreiro tem que fazer um serviço limpo: tinham mais é que levar essa bagulhada pra fora, não amontoar tudo no meio do corredor! Vem, me ajuda a tirar, vamos fazer nós mesmos...

Já ia agarrando umas partes do manto, quase descobrindo o que tinha embaixo. Lobo se desesperou: pulou do assento feito uma criatura faminta que dá o bote Em um golpe seco arrancou a capa embolorada das mãos da moça. No processo, aterrissou com tudo, joelhos e cotovelos sobre as costelas de Geki. Teve a impressão de ouvir algo estalando.

—Não pode!—quase berrou—N-não pode mexer, é que...que...esse entulho...o chefe vai querer ver o entulho...E o chefe não está...

—Seu chefe vai querer ver o entulho? Mas para que?!

—Reciclagem!—Lobo se sentou ligeiro, outra vez em cima do monte, impedindo Urso de gritar; ao mesmo tempo em que espremia sob o corpo todas as pontas livres da capa, para que June não mexesse mais—Reciclagem, é ordem da casa, o chefe quer ver se dá para aproveitar algum...resto de mármore, ou algum pedaço de metal...Sabe como é, ele é artesão, ele aproveita mármore e metal...

A Amazona parou por uns instantes, intrigada..

—Mármore e metal? Mas parece que não tem nada disso aí.

Pôs o pé em cima da capa e deu umas belas pisadas, com bastante força.

—Pelo barulho, a única coisa que tem é lixo mesmo. Olha só, parece mole...

Nachi transpirava, apavorado, a mão segurava com força a cara do.amigo, comprimindo nela a máscara do Mestre.

—É que tem também um...um...um...tapete de urso. Bem rasgadinho, todo furado, deve estar amaciando o entulho...Mas olha, é melhor a gente não mexer: o chefe disse que quer ver pessoalmente, e eu não desobedeço...

June havia subido em cima do monte, dando chutes aqui e ali, testando a consistência do pacote com o salto das botas.

—Seu chefe é esquisito, mas tudo bem. Se ele quer... Mas não deve ter quase nada de útil aí embaixo.

E deu um pisão mais forte bem perto da mão de Lobo. Acertando finalmente algo duro, arrancando um estalido metálico e quase perdendo o equilíbrio.

—Opa!

Nachi se encolheu todo, olhos vidrados em pavor. June se ajeitou como pôde, descendo ágil do monte de tecido.

—Bom, pra não dizer que não tem nada, parece que achei um balde velho bem onde está sua mão. Mas deve estar enferrujado, meu salto afundou, quase entalou num buraco... Seu chefe tem certeza que isso serve para alguma coisa?

—...matéria...prima...ele...recicla...

O Cavaleiro de Bronze não levantava mais a cabeça. Rodava o dedo próximo ao buraco aberto pelo salto metálico da Amazona, imaginando com horror o que devia ter acertado. Sentia borboletas revolteando no estômago, ante a simples idéia de olhar debaixo do pano. Estava confuso: tentava ajudar Geki, mas, na verdade, tinha esforço maior em dar um comando mental para amarrar as próprias pernas e reprimir a vontade de sair correndo dali.

June pensou por alguns instantes. Pegou Nachi pelo braço, o obrigando a se levantar.

—É, o jeito é largar o lixo onde está. Mas tem uma coisa que a gente ainda pode fazer para ajudar.

Dito isso, sacou o chicote grosso que usava como arma, e deu uma rápida salva de vergastadas fortes, bem em cima do embrulho de tecido negro. O achatando para um terço da altura.

—Deixar uma pilha de bugigangas tão grande no meio de um corredor é perigoso, vamos abaixar isso um pouco. Seu chefe não vai se importar: todo mundo que lida com metal sabe que amassam as latas quando elas vão para o ferro-velho, é comum. E agora vem comigo, que a gente já perdeu tempo demais com entulho: você ia encaminhar os papéis de revisão da minha escala.

—Mas eu...

—Sem "mas", você está aqui para que?—June o agarrou pela mão: foi saindo, puxando-o sem delicadezas como quem arrasta um cabrito—E a serviçal, ainda tem que tirar ela da sala do Comandante: daqui a pouco ele volta e quero ver só o que vai dizer se achar...

Sem palavras, Lobo não pôde mais que olhar para trás de relance, feições de angústia extrema. Ver a trouxa agora esmagada de pano escuro que jazia inerte. Cobrir o rosto na hora em que a patrulha de guardas musculosos e armados passou de volta: com energia e decisão, pisar forte da urgência em investigar, uma dúzia e meia de botas tamanho 41 marchando em cima da montoeira.

—Um-dois-um-dois! Mais rápido, pode ter algo na ala Oeste! Vamos!!

O tropel de botas foi sumindo, conforme os guardas iam para a ala Oeste. Até deixar no corredor um silêncio pleno: quietude cortada apenas por uma ou outra nuvem de cal flutuando no ar. Vagarosa, uma mão cheia de esfolados saiu do pano, seguida por uma cabeça com elmo vermelho bastante amassado, marcas de pisadura, máscara solta, meio caída revelando um olho muito roxo.

—Sarnento do inferno, você me paga!

Tentou se levantar, com dificuldades. Ouviu no ar mais passos, jogou-se de novo no chão. Agüentou no lombo o transitar vivo de pedreiros, jardineiros e empregadas. Teve que improvisar: foi rastejando lentamente a cada intervalo de passos, enquanto não vinha ninguém. Dissimulou até achar abrigo perto de uma coluna: aboletou-se lá, examinando machucados e a própria situação.

O plano tinha ido por água abaixo, isso era certo. Com a Casa de Áries cheia de gente, não podia mais investigar nada. Ao menos ainda tinha consigo uma evidência: a peça íntima vermelha, "um sinal claro que...que..." Exausto e frustrado, não quis pensar no assunto: olhou para a capa, arrebentada em rasgões longos nas costas, lugares onde o chicote de June acertou. Disfarce em frangalhos, por pouco não tinha sido visto. Embaixo dele, mais sinais do infortúnio: a subtúnica escura igualmente esfarrapada, que lhe deixava quase de nádegas à mostra, e as marcas doloridas no corpo; salto alto, açoite e botas.

Irritou-se com a triste figura que compunha, decidiu tomar uma providência. Ajeitou a capa, girando-a ao redor do pescoço. Passou o lado rasgado para frente, e o com outro, inteiro cobriu a retaguarda. Cerrou o punho, admitindo que estava em desvantagem: se empenhou, decidido, em bolar um plano urgente para fugir.

Observou o corredor judiciosamente: estava muito longe do hall de entrada. Isso não era de todo ruim: a maior concentração de gente indo e vindo estava naquele lado; se tentasse sair por onde entrou, certamente seria descoberto. Era melhor ir para os fundos da casa, buscar um acesso de serviço que lhe garantisse escapatória. Aguardou cheio de nervosismo por alguma brecha no movimento de passantes, respirou fundo e foi saltando ligeiro para trás de um vaso, movimento arriscado, folhas de antúrio que não davam conta de escondê-lo. Rapidamente alcançou outra coluna, embolado nos trapos, coração disparando a cada som de botas que ecoava do piso de mármore.

Finalmente chegou em uma porta, abriu-a com cuidado. Estava com sorte: não tinha ninguém lá. O quartinho parecia um depósito poeirento de ferramentas velhas, com peças quebradas de armadura fazendo uma montoeira num canto, alguns martelos e formões cascudos de ferrugem, teias de aranha, uma prateleirazinha cheia de estranhos produtos em garrafas, com rótulos escritos à mão em tibetano, impossíveis de ler. No meio da sala, quase estranho ante ao cenário de abandono, um moderno carrinho de lavanderia branco estava estacionado, como se alguém o tivesse escondido ali de propósito.

E o melhor de tudo: vinda bem lá do alto, quase no teto, a luz fraca de uma vidraça encardida. Não era grande nem larga, muito mais um vitrô como os de lavabo, quadrado, que mal deixava passar o ar: mas naquela hora pareceu a coisa perfeita, salvação, quase a Porta de Brandenburgo aberta sem o Muro de Berlim na frente.

Animado, Geki tentou alcançar a janela: ainda muito no alto para seu tamanho, não que isso fosse empecilho. Arrumou o carrinho de lavanderia no canto da parede, subiu em cima da tampa de aço e começou a forçar a esquadria cheia de ferrugem, tentando abrir. Totalmente emperrada como se não se movesse há uns mil anos, não cedia nem um milímetro. Urso insistia, humor nas últimas, cacos de óxidos e poeira caindo nos olhos, nariz ardendo, aranhas brincando de pique-esconde sob a capa do Patriarca. Tentava ordenar calma para si próprio, repetir em silêncio o mantra instantâneo que dizia para não quebrar o vidro: "isso faz barulho, chama os guardas, vão me pegar...Calma, cedo ou tarde essa porcaria abre".

Se dependesse da janelinha, abria tarde. Ou nunca: parecia não adiantar forçar de lado nenhum, era de se duvidar que em algum dia tivesse se movido desde a construção do Santuário de Athena. Cansado de puxar e empurrar a esquadria sem qualquer resultado útil, o Cavaleiro de Bronze já ia perdendo a paciência, ensaiando alguma concentração de Cosmos para espatifar o vidro. Quando vozes, bem na porta da sala o detiveram.

—Tem certeza que vai ficar tudo bem? Eu acho que a gente devia estar na escola, vai que descobrem...Eu nunca matei aula...

—Sossega, tá tudo bem. A professora foi lá ver a reunião na Sala da Deusa, não volta tão cedo...E a gente não pode matar aula se a professora não está, né?

A maçaneta foi girando, Urso, desesperado, largou a janela, num salto. Não podia ser visto, precisava de um esconderijo com urgência. Sem pensar duas vezes abriu o carrinho de lavanderia e se escondeu junto ao que tinha lá dentro: o bodum acre de sabe-se lá, que parecia uns trezentos pares de meias sujas lhe virava o estômago. Fechou a tampa, se arranjou no meio da porcariada, conseguiu ajeitar nariz e olho numa frestinha. Viu a porta se abrir, divisou uma figura conhecida entrando, trazendo uma menina de vestido branco pela mão.

—Tá, Kiki, eu sei...mas isso me parece tão errado. E aqui é a oficina do seu mestre, ele vai ficar bravo com a gente...

—Não é não, Ropie: aqui é só quarto de bagunça. De útil, o Mu só guarda uns potes de coisas, o resto é lixo. Vem, agora põe isso.

Kiki, de novo entravando sua vida: agora acompanhado de uma coleguinha de escola, típica garotinha ateniense, com cabelo acastanhado preso num rabinho e olhos azuis enormes. Ia muito encabulada.enquanto olhava máscaras de Amazona que o ruivinho tirava de uma mochila.

—Onde você arrumou isso?! Parece a máscara da Comandante Shaina!

—E é a máscara da Shaina—o moleque parecia se divertir—Ela tem outras, deixou essa aqui ontem para o Mu ajeitar .

—Ah, agora sim eu estou com medo! Vamos embora!

A menina ia fugindo porta afora, e por um segundo Geki teve a esperança que Kiki a acompanhasse. Mas o garoto a segurou pelo braço.

—Espera! Ropie, não precisa ficar com medo, não vai acontecer nada. A Shaina nem vai saber, isso é só um minutinho.

—Eu não gosto dessas máscaras, eu nem quero ser Amazona! Dá arrepio mexer nisso! Ainda mais máscara da Comandante Shaina, ela é muito brava...Quando eu crescer quero ser paisagista do Santuário, lidar com flores, ficar bem longe de guerra...

Não fosse ter que agüentar o chulé quase insuportável dentro do carrinho, Geki até olharia a cena com interesse: ali estava o pivete de cabelo vermelho tentando elaborar seus melhores argumentos para convencer uma menininha graciosa a ficar com ele num quarto de despejo e por a máscara de sua chefe. Marotagem até inocente, brincadeira infantil sem conseqüências, talvez um namorico bobo de criança.

—Eu sei que você não quer ser Amazona, a máscara não é pra isso. Mas eu queria mostrar aquela coisa muito legal pra você, aquela que eu falei outro dia. Você queria fazer isso comigo, não queria?

A menininha ficou vermelha, rodando a ponta do pé no mármore, como se confessasse uma grande travessura.

—Eu...é, eu queria sim...Mas não sei se é bom...É que você falou tanto, desde aquele dia...Sabe...aquele dia...

—Então: o Mu e o Aldebaran estavam fazendo isso lá no fundo da casa, e eu vi tudo. E é muito legal. Eu já vi eles fazendo mais vezes, quando eu morava em Jamiel. É divertido!

A menina ficou mais vermelha ainda, grudou olhos no chão enquanto enxugava as mãozinhas suadas no vestido. Kiki parecia ansioso, como se implorasse: não largava o braço dela, queria sua atenção. A pequena engasgava.

—Lá em Jamiel...bom, os Comandantes podiam fazer o que quisessem. E você via, eu sei...mas eles são Comandantes...e tem gente na casa agora...e pior, eu acho que se o vizinho ver a gente fazendo, vai reclamar...

—Ah, é só fechar bem a porta. E aqui também não tem vizinho, então ninguém reclama! Vai, Ropie, põe a máscara, vai ser legal.

E, num gesto delicado, como se colhesse um botão de flor que pende, ergueu o rosto da garotinha, ainda rubro como uma pétala. Falou com voz doce:

—Você confia em mim, não confia?

Geki arregalou o olho, intrigadíssimo. Ver Kiki se desmanchando assim em cortesias não era comum. E se aquela menina era de fato alguém que o cabeça-de-fogo gostava, uma namoradinha ou algo parecido...o que exatamente ele estava propondo? Fazê-la usar a máscara da Shaina para que? Na mesma hora sua mente voltou àquele anoitecer em que viu a Comandante vestida apenas com o artefato e uma toalha mal lhe cobrindo as intimidades, o fatídico instante no qual registrou uma foto dela. Justamente sob ordens do lemurianozinho ruivo.

Processou mentalmente uma foto de Shaina mascarada e seminua acertando um direto na sua cara com essa novidade de um Kiki galante e insistente, pedindo para uma menina encabulada por a máscara da Amazona de Cobra: para juntos "fazerem algo divertido". Que o menino diz que viu Aldebaran e Mu fazendo no fundo da casa. Nervoso, acabou não chegando a um resultado: encavalou os dados em erro fatal antes de concluir algo; a mente sofria interferência severa das imagens do dia anterior, os dois Cavaleiros de Ouro no mais físico dos idílios, imagens do mesmo dia, tecido fofinho da peça íntima vermelha ainda lhe perturbando, imagens de sua cabeça: Mu vestido com aquele quase nada em carmim e ouro, cabelos soltos, gesto provocativo, atiçando para brincar na cama larga.

—Eu tenho medo...e essa máscara...

—Não tenha medo, eu também vou usar máscara.

A maior das surpresas: Kiki sacou da mochila outra máscara de Amazona, e sem qualquer constrangimento foi ajeitando-a no próprio rosto. Geki conhecia a dona dessa outra máscara: ninguém menos que Marin de Águia, oficial respeitável e austeríssima, de cabelos tão ruivos quanto os do menino. Kiki, naquela hora era como uma cópia em tamanho reduzido da Amazona de Prata, e continuava falando com amabilidade, quebrando com palavras açucaradas a resistência da garota de olhos azuis.

—Agora, põe a máscara...Vai ser muito divertido...

E ela, com voz sumidiça, finalmente cedeu, deixando que as mãos do lemurianozinho ajustassem a máscara de Shaina em seu rosto.

—Tá bem...vamos...fazer isso...

Geki engoliu em seco: se já não conseguia imaginar claramente o que Kiki queria com aquela menina, agora sim estava totalmente confuso, com ele e ela fantasiados de mulheres guerreiras. Apreensivo, sem tirar o olho da fresta, viu a porta se fechar, devolvendo o quarto à antiga penumbra. Kiki tomou a mão da menina, que respirava forte, muito nervosa. Com um gesto telecinético apanhou um frasco rosado na prateleira e com outro puxou o carrinho de lavanderia bem para perto dele e da acompanhante.

—N-não...não vai...sei lá...me machucar, né?

—Machucar? Não, que bobagem...Você está muito nervosa, relaxe...Vou fazer tudo certinho...

Abriu o frasco. O coração de Geki pulou assustado: o garoto falava sério, ia fazer o seja lá que ia fazer, e bem naquela hora. Esperou sem ao menos piscar.

E Kiki fez.

Num gesto rápido, jogou o frasco aberto dentro do carrinho de lavanderia.

—Muro de Cristal!

O que se viu e ouviu naquela hora foi um espetáculo único: um estampido surdo, meio abafado pela tampa do carrinho que voou para o alto, qual uma lata de atum vazia que esconde um petardo de festa. E uma explosão brilhante, que jogou fagulhas de luz multicoloridas no quarto inteiro, como uma chuva de estrelas. Kiki abraçava a garota, que debaixo da máscara de Shaina via tudo, maravilhada.

—É...lindo!! É uma chuva de estrelinhas!!

—Viu, eu não disse que era legal? E ninguém se machucou: eu ando treinando o Muro de Cristal, golpe de defesa do Mu, estou ficando bom nisso!

A garota segurou uma estrelinha na palma da mão, a olhou com fascínio até ela apagar.

—Você me protegeu, obrigada mesmo. Mas parece que isso que cai não é fogo, não queima nem dói...

—Ah, só dói na hora da reação química, que é muito forte: aí explode tudo, o carrinho voou. Mas depois é legal, não faz quase mais nada de ruim.

—É verdade. Mas, Kiki, eu não entendi o negócio da máscara ainda. Posso tirar, né?

Kiki a impediu:

—Não, não tira não! Eu falei que isso não faz quase nada de ruim, e não faz mesmo...mas tem uma coisa que ele faz.

—O...o que?

—É que a reação química libera um gás muito ardido. O Aldebaran me disse que é cloroben...clorobenzil..ah, sei lá, é gás lacrimogêneo desses que usam na polícia. É por isso que ele e o Mu fazem isso no fundo da casa, que é para o gás sumir mais rápido, ao ar livre. Então a máscara da Shaina é para o gás não encostar no seu olho, ou ia ficar ardendo pra valer. Eu sabia que Máscara de Amazona protege muito bem contra gases venenosos.

Assustada, a menina tirou a mão do ornamento.

—Uh, obrigada por me avisar!...Mas, foi muito legal, gostei, foi lindo...Quem diria que um produto para reciclar lixo fosse fazer algo tão bacana?

—Hahaha, nós lemurianos temos truques. E não é um produto qualquer: é um derretedor de subtúnicas. Serve para dissolver as subtúnicas de armadura que não prestam mais: era isso que tinha no carrinho. Depois é só pegar o pozinho que resta com uma vassoura e...

O menino estava todo prosa, aproveitando para fazer tipo de expert, um pequeno e sabido Ferreiro Divino. A garota, num riso, o atalhou.

—Tá legal. Mas Kiki, vamos conversar mais na escola: eu agora quero mesmo voltar. A gente tem que sair logo pra devolver as máscaras antes que alguém veja. E a professora é brava, se descobrir que a gente matou aula vai dar castigo.

—Ah, Ropie, isso não é matar aula...Ela nem tava dando aula, vai...

Deixaram o quarto, desta vez com a menina à frente e um Kiki meio cabisbaixo a seguindo, fechando a porta antes de sair. Outra vez ninguém por perto: nada além de uma quantidade indecorosa da fumaça picante a rodear o carrinho, emborcado com a tampa torta. Do meio do "fog" químico, um braço cheio de hematomas se insinuou para fora, de novo tentando se apoiar no chão.

E a porta do quarto se escancarou mais uma vez, a voz grossa de um dos guardas se fazendo ouvir.

—Eu ouvi uma explosão, o que...Agh, que diabos! Chama alguém da faxina aqui, o menino do chefe andou aprontando de novo! Meus olhos tão queimando, que droga!

Espirrando e tossindo, o guarda sai. Mais uns instantes e a porta volta a se abrir: duas faxineiras vestindo máscaras contra gases aparecem. Com diligência erguem o carrinho do chão, pondo-o outra vez sobre as rodas meio amassadas. E vão tranqüilamente o empurrando pelo corredor.

—Caramba, que pesado! Deve estar cheio!

—Muita roupa de combate para derreter, Comandante Mu vai ter trabalho. Mas está pesado mesmo: parece até maca de necrotério. Com um cara grande em cima.

—Que papo mais fúnebre, eu, hein? Ainda mais com essa coisa de atentado ontem...

—Mas é verdade, filha: tá tão pesado quanto. Será que não tem gente aí dentro?

A outra balança a cabeça, em firme negativa.

—Eu é que não vou abrir. Vai que ainda tem gás e espalha tudo, aí piora. E se tiver gente aí, não é da nossa conta: nós somos da faxina, não da guarda. Não temos nada com isso.

—É, tem razão...Vamos levar essa coisa para fora e esquecer.

Meio sacudindo enquanto andava, com as rodas tortas, o carrinho foi levado até o lado de fora, para o corredor de manutenção atrás da Casa de Áries. E só aí, finalmente, um engasgado Cavaleiro de Urso pôde sair num pulo do seu improvisado esconderijo.

—Eu...mato! EU MATO AQUELE FILHOTE DE CAPETA, EU MATOOO!!

Uma imagem singular, quase artística. Quem visse diria que Geki era uma homenagem de carne, osso, lágrimas e tosse convulsa aos quadros de Goya. O rosto era uma perfeita naturaza-morta agropastoril: olhos inchados e vermelhos como tomates maduros, nariz igual a um pimentão, língua esticada, que lembrava uma folha de acelga roxa, buscando algum ar.

O resto, praticamente desnudo como a famosa Maja. Realmente o fluido de derreter subtúnicas era muito eficaz: não apenas havia dissolvido as peças usadas que recheavam o carrinho, como também sua própria roupa. A subtúnica de Urso foi embora totalmente, largando-o apenas com os trapos que um dia foram a capa de Saga, o Usurpador. Após a faiscante experiência química, o Cavaleiro de Bronze estava bem dizer com tudo à mostra.

Notou que a cueca vermelha que ainda trazia consigo, talvez por não ser parte de subtúnica havia resistido com bravura ao corrosivo. Ainda esfregando os olhos, tratou de pensar: tinha que sair dali e estava usando agora só frangalhos da roupa de Patriarca, rasgados e explodidos demais para esconder alguma coisa. Não podia andar no pátio com isso, era o mesmo que andar nu. Cogitou por um segundo vestir a pecinha: seu cérebro literalmente o esbofeteou, trazendo-o de volta ao seu juízo normal. "Eu não vou vestir essa coisa, sei que é uma cueca, mas...é uma cueca de mulher, tenho certeza! Eu sou é macho!!".

Juntando os pedaços do orgulho, não tão ferido quanto seu corpo, ajeitou o melhor que deu os farrapos negros, cobrindo o estritamente necessário. Olhou ao redor, viu que ninguém saía da casa, aprumou-se nobremente e foi embora marchando, com o nariz empinado.

Para voltar segundos mais tarde em desabalada carreira, se jogando esbaforido atrás de uma lata de lixo, apavorado até a alma.

—E-eles voltaram!!

O que menos podia acontecer estava acontecendo: Mu e Aldebaran retornavam a casa, inesperadamente vindo pelo caminho dos fundos. Geki se encolheu o mais que pôde atrás do lixo: se fosse visto por dois Cavaleiros de Ouro ali, e naquele curioso estado, meio nu e meio fantasiado de Patriarca, não só botava toda a investigação à perder como também ia certamente parar na pior cela de Uranos, isso se escapasse de uma execução. Trêmulo, juntava os pedaços rasgados de capa o mais que conseguia sobre o próprio corpo, esperando que mesmo tão despedaçada, ainda servisse para esconder algum Cosmos.

O som das pesadas botas de metal se aproximou. As duas figuras em dourado surgiram, de mãos dadas e sorrisos, como se não estivessem percebendo coisa alguma de estranho.

—Eu já falei que você me surpreende, Alde? Eu juro, eu não saberia lidar com aquele surto histérico do Milo tão bem quanto você.

—É força do hábito, acostumei com ele. E eu disse que ia fazer qualquer coisa para impedir aquele Alerta Máximo, não disse? Não ia ser um Escorpião furioso que ia estragar nossos planos para dia 12...

Outra vez, os misteriosos planos para dia 12: e Geki se via dividido na tentação de esticar o pescoço e escutar ou fugir de algum jeito para bem longe dos dois. Ao menos uma coisa de bom: a capa, mesmo naquele pobre estado, ainda funcionava. Nenhum deles parecia sequer ter notado algum Cosmos atrás da lixeira.

—Você arriscou bastante desta vez—e Mu recostou-se na pilastra do fundo, enlaçando a cintura do outro com os braços—Provocar o Milo e fazer uma aposta formal, sobre quem apanha o invasor terrorista primeiro foi bem ousado. Essa nem dava para imaginar que desse certo: e o incrível é que ele aceitou.

Aldebaran roçou os lábios na fronte do Cavaleiro de Áries, carinhosamente.

—Ah, era fácil. Só atacar o ponto fraco: mexer com o orgulho dele, que morde a isca. Milos são criaturas tão manipuláveis...

—Assim mesmo foi loucura—Áries sussurrava-lhe ao pé do ouvido; detrás da lixeira Geki tentava escutar— Aldebaran, você pôs seu cargo na aposta! É que a Deusa não gostou dos termos, disse que era absurdo e ia pensar em outra coisa, mas...bom, e se desse tudo errado? Se ela aceitasse na hora a idéia de "quem perder entrega a Armadura" e o Milo pegasse o invasor antes de você?

O mestiço de índio sorriu, gaiato.

—Bom, eu ia ter que me contentar com um emprego de serviçal, em algum lugar por aí. Se alguém me contratasse, é claro...

Não terminou a frase: foi calado por um beijo faminto, intenso, de um Mu literalmente pendurado em seu pescoço. Geki engoliu em seco, apertando a cuequinha vermelha entre os dedos.

—Casa de Áries, serviço em tempo integral, sem folgas—e o lemuriano abandonou a boca do companheiro por um instante, cravando os olhos nos dele de um modo quase obsceno; enquanto lhe corria dedos sobre a nuca e deslizava uma coxa marotamente entre as suas, num movimento provocativo. Urso suava frio, vendo o cavaleiro de Touro arfar.

—Para serviço de...construção e manutenção, seria? Ou...consultoria de estilo...cozinheiro?...Somellier talvez...

—Escravo sexual.

Atacou-lhe os lábios de novo, ainda com mais fúria, correspondido no mesmo tom por um par de mãos vigorosas lhe agarrando ancas e nádegas. Geki sentiu o mundo rodar, baba escorrer do canto da boca, a garganta que ainda ardia ficava repentinamente seca.

Num impulso de desespero, socou a própria cara na tentativa de voltar a si: não era hora de desgarrar as idéias olhando os Comandantes ensaiando aquele fogoso pas-de-deux; tinha antes de mais nada que dar o fora dali. Não via mais a oportunidade de sair pelo corredor dos fundos, com os chefes plantados de amassos; igualmente não via modo de fugir voltando pela saída da Casa de Áries: cheia de gente o mais provável é que fosse apanhado no ato.

Salvou-o uma portinha cinzenta, baixinha, inexpressiva, meio afastada: rastejou feito um lagarto até ela, testou-a com a ponta do dedo. A viu abrir para fora, sem um ruído. Agradeceu a todas as galáxias pela chance de se esconder de novo, literalmente escorreu por ela feito uma poça d'água. Tão silencioso quanto entrou, tratou de fechar a porta atrás de si.

E suspirou de alívio: por ora, estava salvo! Ali era outro quartinho de despejo da Casa de Áries, um pouco mais vazio que o primeiro, lugar para onde aparentemente levavam móveis sem uso. Não tinha muita coisa além de um divã comprido e largo onde se empilhavam montes embolorados de cortinas, uns gaveteiros com verniz descascando, cadeiras roídas de cupim, além de um largo espelho ainda em boa moldura, manchado de ferrugem no alto.

Seja lá como fosse, um abrigo. Podia ficar lá dentro até os dois Cavaleiros de Ouro decidirem largar de esfregação a céu aberto e voltar ao serviço: aí, outra vez teria uma chance de se esgueirar para fora. Examinou as cortinas, pensando se não seriam úteis para lhe esconder as vergonhas: cheiravam mofo e estavam furadas de traça em vários lugares, mas ainda pareciam bem melhores que a o velho manto negro de ocultar Cosmos. Bastava rasgar um pedaço bom do pano camurçado e usar de improviso como traje até conseguir voltar para o alojamento. "Melhor que andar por aí sem nada ou com essa capa maluca".

Ia ter que esperar: e estava exausto, chicoteado, pisado, explodido, ardido de gás. Se acostou sobre o divã, procurou relaxar: dar uma trégua aos ossos feridos. Talvez pudesse até dormir um pouco: bastava se cobrir bem com as cortinas. Assim mesmo que alguém entrasse, jamais iria suspeitar que tinha gente ali. Se enrolou bastante, como se ele mesmo fosse apenas um amontoado de pano qualquer, no improvisado ninho se achou seguro e aquecido. Bocejou, começou a se deixar levar por um sono macio, gostoso que se insinuava devagar.

Acordou em sobressalto, com uma pancada forte na porta, como se alguma coisa tivesse arremetido pesadamente contra ela.

—AAAHHH!...ASSIM!...

—Diabinho!...Mas você está um fogo só hoje...

—Eu estou...nervoso...Muito...nervoso...Essa...essa coisa toda de reunião, alerta, aposta, essa maluquice toda...Preciso extravasar de algum jeito...Me ajude a extravasar!!

—Claro que ajudo!...Seu desejo é uma ordem...

A porta se abriu num baque. Já com peças das armaduras soltas, cabelos em revoada, Mu e Aldebaran entraram no quartinho, mais agarrados que antes. Geki congelou, quase sem respirar: por um furo da cortina observava com um misto de pavor e estranha curiosidade o espetáculo de Touro desnudando Áries, removendo armadura e subtúnica quase de um golpe só, expondo a figura muito branca do outro enquanto a cobria de beijos.

—Isso!! Faz...Faz logo!! Vem, meu caboclo, não temos muito...tempo...AAAHHH!

A onda de cabelo lavanda se esparramou sobre o divã, o peso caiu sobre o Urso escondido, de uma vez. Mu estava deitado sobre ele, despido da cintura para cima, tremendo de ansiedade enquanto Aldebaran lhe torturava um mamilo, dentes e língua o fazendo gemer.

—Então vamos aproveitar esse tempo, como se deve—O Cavaleiro de Touro largou sua presa um instante, ostentava no rosto um sorriso quase cruel. Encarou Mu com intensa lascívia: e o olhar de Geki, escondido no pano cruzou-se entre eles, totalmente rendido de susto. Viu a mão poderosa do Comandante deslizar na outra pele, sentiu nádegas muito firmes se espremendo contra seus quadris, separadas apenas por umas rasas dobras de pano. Sufocou um gemido na garganta. Mordia os próprios lábios com força, Via Aldebaran ocultar os dedos, invadindo a peça baixa da subtúnica de Áries, mão indo se guardar lá dentro numa brincadeira que fazia o corpo esguio se contorcer.

Aquilo era uma tortura, da pior e melhor espécie. Parecia um sonho estar com aquela entidade branca e diáfana jogada sobre seu próprio tronco, meneando ancas furiosamente, se esfregando sem qualquer pudor ou noção em suas carnes escondidas. Mas sabia que de uma hora para outra o sonho podia virar pesadelo: o achassem lá embaixo e acabava tudo, farra, prazer, plano, até sua esperança em ver um dia de amanhã. Sabendo disso, evitava se mexer, se acomodava entre o agito dos outros de algum modo no qual a própria vontade, totalmente desperta, não o condenasse. Fechava coxas o mais que podia, retinha a excitação com desespero, suava em bicas, a consciência não passava imune à situação: aos poucos ia esquecendo dor e hematoma, perdido em sensações bem mais inflamadas. Estava confuso, rogando que aquilo acabasse logo, desejando na verdade que não terminasse nunca.

—Me deixe cuidar dessa sua ansiedade, diabinho...

A cabeleira negra de Aldebaran se espalhou sobre o peito marfíneo, acompanhou com a vista a cabeça do mestiço de índio fazer o trajeto de descida sobre o ventre de Mu com beijos e mordidas até chegar bem abaixo, achar destino entre pernas. Notava que ocultos sob o mar de cabelos, lábios tomavam o lugar das mãos no entreter da companhia, tecendo algum gesto que não conseguia entender direito, um estranho ir e vir, bastante intenso. Seja lá o que fosse, agradava: Mu parecia ter se despojado de todo e qualquer limite. Ia gemendo alto, voz solta, gritava algumas palavras em tibetano, agitava os quadris ainda com mais força.

—AAAH! NGE DGA' WPO!

Encharcado no próprio suor, quase asfixiado, Geki deixava a mente viajar. Por caminhos que jamais imaginou estava agora com Mu, aquela criatura angelical e diabólica ao mesmo tempo, literalmente perdida em seus braços. Via pelos furos da cortina o rosto de serafim arder da mais carnal luxúria, inalava o perfume de alfazema e o cheiro do desejo tão próximos do seu rosto. Ali, no divã, provava da fúria voluptuosa com a qual o ser magnífico se entregava ao amante. E tinha que ficar quieto, parado, fazer de conta que não estava lá. Aproveitava-se sem querer do evento, se expunha a um risco de vida incalculável e era recompensado com aquela estranha massagem sensual.

Não conseguia deixar de sentir inveja de Aldebaran, vendo o gigante usufruir como queria do néctar que com certeza brotava daquela flor exótica. Preso na cortina, desejava loucamente aquela perfeita divindade: era uma ametista mágica saída de outra dimensão, estava ali talvez a própria Rainha das Fadas. "É linda...a mulher mais linda do Santuário", repetia mentalmente, seu corpo quase convulsionando no jogo de atritos, dedos imprudentes querendo tomar parte, ganhar um contato que não fosse coberto por malhas. Tentou arriscar por a mão para fora, estava atrapalhado nas dobras quando a voz macia implorou, rouca de vontade:

Nge...nge glang d'mar ...vai...me pega de uma vez...Entra em mim, entra...

O mestiço de índio afastou um pouco do próprio cabelo liberando o rosto, sorrindo maroto.

—Entrar em você, agora? Ah, mas por que eu faria isso?

Mais um agitar forte em cima do divã: Mu endireitou-se um pouco, ainda resfolegando: no movimento as partes mais delicadas do Urso foram bruscamente oprimidas. Um monte de cabelo lilás verteu em cima dos buracos que o Cavaleiro de Bronze usava para espiar, turvando a visão, não deixando a mirada alcançar toda a frente.

—Você não vai parar e me deixar desse jeito, né?!

Aldebaran, ainda entre as pernas de Mu, deu uma risadinha com aquela calma de quem joga xadrez, movimento intencional, idéia premeditada.

—Parar? Claro que não...mas ignorar um monumento como esse que está aqui na minha frente me parece um tremendo desperdício. Então...

Largou o outro corpo, se pôs em pé. Soltou as couraças que ainda usava, rapidamente despiu-se, expondo um torso fenomenal de estátua de bronze, músculos delineados em escultura, imagem perfeita, varonil, absolutamente poderosa. Aproveitou-se da elasticidade da subtúnica para descobrir as coxas morenas em extrema provocação; junto a elas, livrou o próprio sexo: tão impressionante em dimensões e firmeza quanto todo o resto do homem, idéia de um mármore da cor da terra, sólido, gigante, assertivo, repleto de veios. Conservando apenas as botas, guiou as mãos de Áries até sua própria cintura, deixando-as correr à vontade sobre nádegas azeitonadas.

—...pensei em algo mais interessante. Que você acha?

A mão tentada agarrou daquela carne com desejo, fazendo marcas. Chia o sussurro de Mu, quase rosnado.

—...ah, caboclo...não me provoque desse jeito...Você sabe que eu não resisto...

—E quem está dizendo para você resistir?

Geki mal teve tempo de pensar: o ariel de cabelos lavanda puxou o gigante contra si; ambos desabaram sobre o divã, se enroscando aos beijos, febrilmente, rolando em cima da cortina e esmagando sem dó o que estivesse por baixo. As pernas do móvel rangeram com a sobrecarga, o Cavaleiro de Bronze, preso num sanduíche de corpos nus e madeirame esganou um vagido.

Emparedado, servindo de colchão para os superiores, botava a prudência de lado em nome de um fio de ar nos pulmões, tentava espernear, sem sucesso. Quase roxo, conseguiu finalmente um pouco de oxigênio. Notou que o peso repentinamente se aliviava, voltava a ter conforto, ainda que continuasse muito prensado.

Aspirou fundo: o nariz se encheu de uma fragrância luxuosa e selvagem. Urso se acomodou discretamente, e ia sentindo o calor do físico que o abraçava com energia, impressão bastante sedutora, aliciante. Meneios de um corpo inteiro que desta vez ia lhe acariciando por completo, tocava-o licenciosamente sem saber, suspiros profundos com hálito bom, frescor misturado com excitação que entrava pelas brechas do tecido.

Sentia-se indo à loucura, esbraseado. Alcançou novamente o buraco com o olho, precisava ver o que Mu estava fazendo naquela hora, o que era aquilo que o deixava quase fora de si. E viu que Áries na verdade não fazia nada: apenas se ajeitava em pé ao lado do divã, agora de frente, bem visível, sem nenhum detalhe oculto.

Longa cabeleira ametista revolta, um par de olhos verdes faiscantes, úmidos lábios de romã, pele de alabastro, pernas esguias, coxas apetitosas, maciez de pluma, elegância de uma sílfide. E,claro, à frente de tudo um membro duro, rubro, intumescido, ereto, masculino, vigoroso em dimensões e atitude, nada modesto, exigindo ação.

Geki estacou, bloqueado entre a perplexidade e às idéias em turbulento conflito. A noite anterior sobre a árvore, a cueca vermelha com aroma de especiarias, os delírios libertinos, as sensações de poucos instantes atrás, o mistério de dia 12, até as cinqüenta pratas da aposta com Leão Menor e as conversas no botequim, tudo parecia desabar de uma vez só em sua cabeça, como um edifício em implosão. Zonzo, abandonou sem piscar o corpo branco e foi ver o que realmente lhe estava em cima: músculos bronzeados, longa cabeleira de ébano, pele morena cintilando com suor, torso hercúleo perdido em suspiros, botas douradas de metal que lhe amarravam as pernas no lugar. Debruçado sobre as cortinas que cobriam o divã, envolvendo seu torso e flancos sem perceber, dando-se de ancas como oferenda ao outro, pedindo acintosamente para ser consumido.

—Vem logo...não temos muito tempo...

Urso não respirou. Não fechou o olho. Só viu Mu fazer jus ao próprio titulo, investindo rijo como um legítimo aríete contra o outro corpo maior, arrancando um espasmo e um grito visceral.

—AAAH!! MAIS!!

E no espasmo, o físico de Aldebaran se apertou contra seu corpo embrulhado na cortina, imóvel. Sensação dos braços musculosos lhe agarrando com vontade, as coxas de aço lhe exercendo pressão, tórax moreno sobre o seu, gemidos de delírio ecoando em voz grave, aroma de relva fresca e desejo lhe atropelando o juízo.

E uma impressão quente, carnuda, pulsante o apanhando de surpresa, invadindo o esconderijo a cada arremetida mais intensa dos corpos em união. Entrava cada vez mais fundo, com insolência, pouco abaixo de seus quadris. Sentiu uma ponta de afligimento: com a mente turva, lembrou-se dos buracos na cortina e no manto do Patriarca. Não conseguiu pensar mais nada que fizesse sentido: apenas no desespero tentava estrangular o próprio sexo, mantê-lo quieto o quanto pudesse. Sentiu o órgão vigoroso alojando-se entre suas coxas prensadas, roçando sua carne nos lugares mais sensíveis, arrepiando-o de um modo enlouquecedor.

Até o deságüe final entre gritos de êxtase, molhado de suor e humores lúbricos, bem em cima de sua pele. Os dois amantes se largaram sobre ele em prazeirosa exaustão, inconscientes tanto quanto antes a respeito de onde repousavam.

—Você não presta, caboclo: agora eu estou um trapo...—Mu ofegava, satisfeito, acariciando o dorso suado do parceiro—Como é que eu vou voltar para o serviço neste estado? Minhas pernas estão moles...

—Não reclame não, a idéia de voltarmos pelos fundos da casa foi sua—Aldebaran ria, enquanto buscava restaurar o fôlego—Você tinha algumas coisas pensadas desde antes, que eu lhe conheço bem...Mas eu ajudo...quer dizer, se eu conseguir parar em pé...Me deu uma surra hoje, diabinho...

—Você que provocou, seu meio-índio maluco. E sabe que eu adoro isso...

Ficaram ali no divã, aninhados, trocando beijos preguiçosos enquanto retomavam energia. Depois de uns bons instantes, com calma e disposições refeitas, finalmente se levantaram, vestindo tranqüilamente as armaduras e ajeitando os cabelos. Enquanto ajudava Mu a colocar a ombreira, Aldebaran observava pensativo, examinando o lugar onde fizeram amor.

—Essas cortinas não eram para consertar, eram?

Mu olhou a panaria sobre o divã, sem dar maior importância.

—Não, acho que é só lixo. Mas por que?

O mestiço de índio corou um pouco, ligeiramente vexado.

—É que...bom, você sabe...na hora eu acabei meio que...me encaixando nelas e...hum, com certeza agora estão manchadas. Bem manchadas.

Mu ergueu os pontos da testa, arregalado:

—Encaixando...Uh, imagino. Mas você não se machucou? Quer dizer, isso é um pano grosso, você podia ter se esfolado...

—Ah, nada, eu estou bem. Aliás , que tecido macio esse, não? Olhando assim nem parece, mas...bom, foi uma experiência bem confortável pra falar a verdade...Surpreendente, parecia até uma pele lisa...

Aldebaran tomou um canto da fazenda bolorenta, a examinando entre os dedos, quase descobrindo o que havia embaixo. O Cavaleiro de Áries o abraçou carinhoso, achando graça.

—Ei, menos interesse aí: não estou a fim de ser trocado por uma cortina velha!

—Sem essa: a cortina é suave mas muito mofada para meu gosto. E faz umas bolotas, acho que não é boa nem para pano de colchão. Fique tranqüilo que ela não faz meu tipo: prefiro bem mais um lemuriano macio cheirando a lavanda.

Divertido, o gigante moreno esqueceu o tecido e beijou o companheiro nos lábios outra vez. Já com os paramentos em ordem, abraçados, foram se dirigindo à saída. Aldebaran ainda deu um último olhar para a cortina toda amarrotada sobre o divã, bastante pensativo.

—Estranho, Mu...mas naquela hora eu senti uma coisa meio fora do comum, sabe? Era algo como...não sei dizer. Talvez um Cosmos diferente perto de nós ...

—Cosmos diferente? Ué, e eu não senti nada disso. Tem certeza?

O Cavaleiro de Touro deu de ombros.

—Hum, sei lá. Parecia um Cosmos. Mas era bem fraquinho, como se estivesse coberto por...uma lona grossa ou algo assim. Não deu para prestar muita atenção, você sabe, eu estava bem ocupado.

Mu sacudiu a cabeça:

—É, perceber Cosmos ou seja lá o que for nessas horas não dá certo, acho que foi só impressão sua. Mas vem, caboclo, vamos voltar ao trabalho. A essas alturas já devem estar dando por nossa falta...

E a salinha de porta cinzenta, baixinha e inexpressiva ficou vazia de novo. Sem ocultar um ardente encontro numa brecha de serviço, era tão somente mais um quarto de despejo, guardando um pouco de mobília velha: alguns gaveteiros descascados, cadeiras roídas de cupim, um espelho grande, com moldura boa e nódoa de ferrugem no alto . E claro, o divã comprido e largo, bem velho, onde se amontoavam cortinas repletas de mofo e buracos de traça.

Único lugar de onde se ouvia algum som, estrangulado no meio do pano. Quase um uivo de fantasma, não se sabia dizer se alegre ou triste. Um murmúrio que se desmanchava sozinho: parecia indo, ou talvez voltando de outro mundo.

—Aaaa...auggghhh...


Ms. Rhode Rambled Reports: Cancelem a pizza e a roda de chope! Quem achava que "12" tinha ido para o limbo das fics descontinuadas para sempre, se enganou: ela voltou, e com um capítulo de 25 páginas de Word, maior que muita fic inteira que existe por aí. E volta com, nova paginação—não olhem para mim, isso é coisa do hoster!—e temperada com um pouquinho de pimenta—ou melhor seria dizer clorobenzilidenemalononitril, para os íntimos "CS", "arde-olho" ou "mela-piquete"—e mais um tico de limão (portanto, nada de jogarem as garrafas pet de dois litros de H2OH!).

Pouca coisa mais a acrescentar desta vez além da presença da menina Ropie: para quem não entendeu quem era, se trata de um apelidinho carinhoso para a "Europe", garotinha que aparece dando uma flor para Aldebaran no anime da Saga de Hades—e cujo nome original não era esse nem, pra falar a verdade, nenhum...mas isso é detalhe. Mais uma vez nas obras do fandom ela aparece fazendo dueto com o Kiki: e o par é bacaninha, ingênuo e muito pouco explorado. Vi até agora Kiki e "Europe" numa fic muito boa da sempre ótima Aquarius Chann, recomendo muito esse texto (e gostaria de ver mais coisas assim).

E, sim: a semelhança da citada cueca com "personagens" reais não é mera coincidência. Ela, na verdade existe mesmo, quase igual ao que apareceu no texto: faz parte do catálogo de 2006 da Emporio Armani, tem sim as letras em dourado na cintura e agora, dois anos mais tarde, é um item difícil de achar. Só o cheiro de especiarias é que foi posto como "licença poética": o modelo aromatizado com ginseng era outro da mesma Emporio Armani. Mas achei que o cheirinho combinava.

Ah, pra finalizar, não duvidem:

Isto continua? É claro que continua! Sigam-me os bons!!