Disclaimer: Este é um fan work, feito totalmente sem fins lucrativos. Os direitos de Saint Seiya, Saint Seiya Episódio G e de todos os seus personagens pertencem à Toei Animation e Masami Kurumada. A exploração comercial do presente texto por qualquer pessoa não autorizada pelos detentores dos direitos é considerada violação legal.


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Yaoi (contém relacionamento amoroso entre homens).
Avaliação etária: M/NC-17 (situações adultas, sexo, consumo de álcool e substâncias legalmente questionáveis, violência estilizada)
Par citado: Aldebaran & Mu...e algumas outras coisinhas mais, dos mais variados tipos (et pour quoi pas?)


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"12"

Por: Deneb Rhode

15.

Evidências e inquéritos

Outra tarde em Rodorio, pacífica e normal na medida em que se conseguisse: tudo o mesmo de sempre, não fosse a maciça presença de agentes da Corregedoria do Santuário de Athena em tudo quanto era canto, interrogando pessoas no meio da rua e fuçando embaixo de pedras e folhas. Em meio a esse clima tenso, uma amazona de cabeleira verde mais tensa ainda, olhava ao redor, procurando qualquer sinal de vida de alguns subalternos desaparecidos.

—Enfim!

Localizou um deles na taverna de Ulisses, postado junto ao balcão: o sardento de cabelo desgrenhado zelosamente atulhava os braços com bandejas, lanches e copos cheios, equilibrando mal e mal o amontoado de travessas enquanto rolava algumas moedas para o balcão com a pontinha dos dedos.

—Aqui, Ulisses: acho que cobre tudo, veja se falta. Duas cervejas, bolinhos de queijo, sanduíche de mortadela, milk-shake, um iogurte bem batido com leite gelado...faltou um canudinho no iogurte, pega um para mim...mais café, caldo de mariscos, torta de frango, dois bifes...hum, eles vieram grelhados com cebola, eu precisava deles crus. Mas não tem problema, eu fico com esses também, depois...bom, não sei o que faço com eles, mas...Só me arranja os dois crus...Ah, e faltou uma água mineral e uma salada Caesar...tá, se não tem, pode ser a de tomate e alface mesmo...

—Nachi!—a mulher, em tom imperioso, chamou o rapaz: no sobressalto o milk-shake se esborrachou no balcão—Estou procurando você e os seus amigos desde hoje de manhã! Por onde vocês andavam?

—Ah, oi, olá, Comandante Shaina, mas que surpresa—e um trêmulo Nachi de Lobo tentava ajudar o barman Ulisses a enxugar o balcão, arriscando uma espécie de malabarismo com um guardanapo de papel e o cotovelo—que bom ver a senhora por aqui, tudo bem?

—Não enrole, eu vim por...mas...mas...—Shaina de Cobra olhou para a fabulosa pilha de comida, tão intrigante quanto precariamente equilibrada—mas que apetite absurdo é esse? Nem uma porca grávida come tudo isso de uma vez! Resolveu encarnar o lobo faminto?

—Isso aqui? Não, não é para mim. Eu mesmo só pedi uma salada e a água.

Ulisses acomodou o resto dos pedidos: bifes crus na mão disponível, canudinho espetado no iogurte, o prato de salada no ombro esquerdo, preso como se fosse um violino e um novo milk-shake roxo com chantili e cereja, equilibrado sobre a cabeça de Nachi por falta de algum espaço livre. Sem ter mais onde por o que quer que fosse, o barman resignou-se e entregou a garrafinha de água mineral para Shaina.

—Tá, mas então o que é isso?!

—Bom, senhora, é uma história um pouquinho comprida...Eu explico...mas se não se importar, por favor, vamos indo. Tenho que levar essas coisas lá para a praça.

Se virou, deu um passo. A xícara de café fumegante recusou-se a andar junto, preferiu escorregar da pilha, dar um rodopio diante do nariz de Lobo e se espatifar no chão em mil cacos. Ulisses deixou seu posto, examinou o novo estrago e foi em busca de uma vassoura. A Amazona continuava intrigada.

—Para...onde?!

Seguiu o Cavaleiro de Bronze perplexa, sem entender nada, enquanto bolinhos de queijo e folhas de salada ficavam pela rua. Chegaram a uma praça nos fundos da taverna, pouco maior que as outras: quase um parquinho arborizado com lagoa de marrecos e alguns balanços, rodeado por esparsas quadras e mesinhas de damas. Nachi atravessou a praça, desviou de crianças pulando amarelinha, derrubou espuma de iogurte no meio do carteado de dois senhores, enveredou por alguns canteiros tentando despistar a procissão de cães, gatos e gaivotas que levava atrás de si, disputando o espólio que ia caindo. Após ser parado três vezes pelas equipes da Corregedoria, em busca de atividade suspeita entre o sanduíche e a torta, deteve-se em frente a uma cerca que separava uma humilde pista de terra do resto do lugar.

—Cancha de bocha?

Lobo abriu o portão. Antes que desse um passo na calçadinha que ladeava a pista foi recebido calorosamente por uma bola encardida, em impacto direto na sua testa. Enquanto a Amazona de Cobra salvava o milk-shake de um tombo monumental, uma voz simpática lhes dava as cordiais saudações:

—NÃO PISA NA MINHA CANCHA, MOLEQUE!

E outras complementavam as boas-vindas, muito interessadas nos visitantes:

—Meio palmo...Meio palmo...Meio palmo...

—Não, que meio palmo o que, Prokopio, foi bem mais, deu um e oitenta, um e noventa... Hum, saiu muito fora, essa bola você matou, Agamenon.

—Eu acho que valeu. Foi igual o lance do torneio de Macherado, lembram? Quando o Galanous ganhou do Sallas; então o Sallas tinha apostado um cabrito e...

—Isso foi em 1947. Ou 48...Será que a regra não mudou?

Nachi, milagrosamente em pé e firme com as bandejas apesar do galo na testa, buscava se reaprumar enquanto sufocava um ganido de dor. Um quarteto de velhinhos de boina media com instrumentos a distância da bola encardida para as outras dentro da cancha; nesse meio tempo, Shaina, furiosa, tinha um diálogo peculiar com outro idoso: o autor do disparo quase fatal; irritadiço, mal-humorado e querendo briga .

—Ei, que ideia foi essa, está querendo assassinar alguém?! Por que jogou essa bola?

—Eu não quero saber de viola não! Tou falando para não pisar na minha cancha!

—Ninguém pisou na sua cancha, não está vendo?! Estamos aqui do lado de fora! E eu não falei viola, eu falei bola, bo-la! Essa sua bola que quase arrebenta a cabeça do meu subordinado, que é que o senhor está pensando...

—Viola, cartola, não muda de assunto! E você, rapaz da cara de lata, tire você também esse seu pé grande e fedido da minha cancha, está me ouvindo?

—NÃO SOU RAPAZ E EU NÃO ESTOU NA SUA CANCHA! E PÉ GRANDE FEDIDO É A...

—NACHI, QUER PARAR COM ESSA BOBAGEM E VIR LOGO PARA CÁ?!

A voz que interrompeu a discussão saiu de um banco de pedra, lá no fundo da área cercada. Era roufenha, nasal e cheia de urgência, como se tivesse dor. Lobo, bamboleando, seguiu para seu lado, Shaina o acompanhou de longe, trocando olhadas feias e um punho desaforado com o ancião, que lhe esticava os dedos em insulto.

Finalmente ao lado do banco, Lobo se pôs a servir os lanches para um grupo faminto e apressado. Um dos presentes esticou a mão, agarrou um tomate na salada e o pôs sobre um de dois olhos muito roxos.

—Que droga, isso não é bife! Cadê o bife, você trouxe?

—Ele trouxe mais do que isso, Ichi. Comandante Shaina, boa tarde...

—A COMANDANTE, AQUI!?

Das quatro figuras acomodadas no banco, três se levantaram, uma em solene gesto respeitoso, outra toda torta em meio às dobras do que parecia uma burqa improvisada com lençóis velhos e a última na firme intenção de sair correndo. Shaina deteve o pretenso fugitivo, o jogando em cima do assento.

—Aonde pensa que vai, seu mentecapto?!

—Eu?...Não, eh, desculpe, foi só a emoção...E eu não reconheci a senhora, desculpe, eu não vi, desculpe, caso é que não estou enxergando muito bem, desculpe, desculpe mesmo e, ah, peço mil desculpas e...

—Tá, tá, entendi, Ichi...e estou vendo que você não está vendo! A propósito...

E escrutinou o grupinho, percebendo que alguma coisa à toa lhes havia sucedido.

—MAS QUE DIABOS...?!

A cena era inusitada, para se dizer o mínimo. Além de Nachi de Lobo, que massageava o recém-brotado galo na testa com uma cara de tristeza, as outras pessoas ali não pareciam em situação muito melhor . Ao lado da criatura de burqa, Ichi de Hydra, com montes de gazes enfiadas em sangrantes narinas e tão repleto de escoriações quanto se houvesse sido jogado de um trem rodava os dedos nervosamente. Ban de Leão Menor, azedo e gasto tentava dar milk-shake para Geki de Urso—o único que não se levantou diante da chefe. Urso permanecia atontado, muito distante, guardando alguma espécie de pano vermelho nas mãos enquanto sorria pateta, baba a escorrer do canto da boca.

—Aqui, urso maluco, toma o leite...Toma, abre essa boca, olha pra cá!

—Leite...hihihihihi! Lei-teeeeeee!

E corava, esfregando o paninho vermelho no rosto

— Lei-te roxoooo ...leiteeee...de tourooooooooooooooooo!

Desatava a rir, jogando o corpanzil em cima de Ban, que o afastava aos safanões. Na ponta do assento a burqa voltava ao repouso, ajeitando o canudinho e servindo-se cabisbaixa do copo de iogurte. Perplexa em meio ao cenário singular, a Amazona de Cobra sacudiu a cabeça, pensando no que fazer. Deu um suspiro fundo, caçou átomos de paciência no vento, solicitou atenção para a plateia e tomou a palavra, cavando um tom forçado de civilidade:

—Meninos...eu fui chamada na Corregedoria hoje cedo, com ordens expressas de levar alguns de vocês para inquérito. Direto com o Comandante Milo. Parece que alguns de vocês andaram fazendo ...bobagenzinhas por aí. Vocês: oficiais da honrada e prestigiosa Companhia 16-Gama. Minha tropa. Meus subordinados diretos, MINHA RESPONSABILIDADE. Então procuro um dia inteiro para acha-los e finalmente os encontro, nos fundos de uma cancha de bocha em Rodorio e nesse estado...hum...curioso.

O grupo se encolheu , meio envergonhado, Ichi e Nachi ensaiaram desculpas, a burqa gemeu algo, Ban parecia sem ânimo para contestar. Geki olhava para o milk-shake e só ria, arranhando as bochechas. Shaina ergueu a mão, pedindo uns instantes a mais de silêncio e prosseguiu.

—O meu dever como jurada Amazona de Prata, e portanto, subordinada do Comandante Milo, seria o de levar não uns, mas TODOS VOCÊS agora mesmo para a Corregedoria. Porque recebi ordens expressas para isso e vejo que vocês, meus rapazes, sempre tão unidos, tem muito a explicar. Porém...

Tomou fôlego

—...considerando que vocês são MINHA TROPA, e em vista do estado em que se encontram, decidi abrir uma exceção. Desta vez eu não vou leva-los para o Milo.

Alívio! Ichi esboçou um sorriso, Nachi arregalou os olhos, Ban ergueu a sobrancelha. A burqa esticava o pescoço e Geki havia rolado do banco: continuava rindo, lambuzando dedos e o nariz com milk-shake.

—PORQUE EU MESMA VOU INTERROGÁ-LOS, AQUI E AGORA! MANADA DE ASNOS, O QUE FOI QUE APRONTARAM DESTA VEZ?!

Constrangido silêncio, subordinados encolhidos, trêmulos, se entreolhando nervosos. Shaina, encrespada de fúria se voltou para Nachi de Lobo, o encarando por detrás da máscara.

—Então, saco de pulgas: você se propôs a explicar, agora explique! Pode ir falando!

Nachi, intimidado, tentou enxugar a testa: apalpou o galo, cheio de dor. No banco, Ichi e o monte de panos agitavam as mãos, frenéticos, aflitos, como se quisessem silenciar o pressionado Cavaleiro de Lobo. O rapaz desgrenhado olhou para os colegas e para a Amazona de Prata, sem saber o que fazer.

—Bom, Comandante Shaina...Eu...eu...eu não sei por onde começar. Na verdade eu não sei muita coisa, já que eu estava lá no Santuário, e eles não. Quer dizer, ontem, eles estavam, mas alguns não estavam. Eles até haviam marcado comigo para almoçar ontem, mas...É que...Bom, eu podia falar de antes talvez, aí todos estavam...mas... é que é uma história muito comprida...difícil de explicar e...

Shaina armou a mão em garra, as unhas compridas apontadas para o rosto de Lobo, mirando firme em seus olhos.

—Simplesmente fale, não enrole! O que é que aconteceu?

Nachi recuou, muito pálido e engolindo em seco, voz reduzida a um guincho de rato:

—Eh, o que aconteceu?...Quando exatamente e com quem?

—Antes, agora, fale de uma vez o que aconteceu com esses idiotas! Tem que ter alguma explicação para esse urso abobalhado, esse trapo ambulante e para os ferimentos desse careca! E eu sei que você sabe, pode ir falando! Desembucha agora, ou não vai para o Milo, vai é direto para Uranos!

Lobo já não tinha cores, já não tinha voz e já não tinha chão, via o mundo rodar e usava o finzinho de sua resistência para tirar o nariz do alcance da garra da Amazona, fritando de um Cosmos hostil, iracunda. Segurava como nem conseguia o prato de salada e os próprios joelhos, tomou ar, abriu a boca para falar alguma coisa. E então...

—PAREM!

O grito, vindo do portão da área da cancha fez Shaina desarmar as unhas, surpresa. O banco inteiro se virou para a entrada, tão sincronizado quanto uma linha de coristas. Geki de Urso ria, esparramado no chão, se esfregando quase lubricamente em restos do milk-shake. O prato de salada se espatifou ao mesmo tempo em que Lobo desabava numa síncope.

Entrando afobada no terreninho da cancha de bocha enquanto se desviava de umas tantas bolas de metal, uma amazona ruiva veio correndo até o grupo, acompanhada de um senhor de óculos tão ruivo quanto ela mesma, de farta cabeleira arrumada num distinto rabo-de cavalo, muito alto, vestido com um largo traje branco dos pés à cabeça.

—Ainda deu tempo! Shaina, para! Esses meninos são inocentes, não tem nada pra dizer!

—E que novidade é essa agora, Marin?—A Amazona de Cobra olhou para o lado, ombros afundando de irritação ante a entrada da colega, Marin, Amazona de Águia—Como é que você sabe isso?

—Eu não sabia até alguns minutos atrás, quando este senhor veio ao Santuário perguntar de Jabu e Ichi. Aparentemente foi ele que os trouxe para cá, depois de acha-los perdidos na Baía da Caveira da Górgona. É ele que pode explicar!

O ruivo senhor se adiantou numa saudação hindi, muito polido, ajustando os óculos no nariz recurvo.

—Namaste...Adonis Padma Agoranopoulus, terapeuta aryuvédico e quiroprático, a seu serviço, minha honrada senhora. E, sim, é verdade, eu achei esses dois rapazes vagando na Baía da Caveira da Górgona tal e qual almas famintas, necessitando de iluminação.

Shaina ergueu uma sobrancelha por debaixo da máscara

—Almas famintas, é? Para mim estão mais para almas contundidas. E então, no que isso esclarece o que diabos eles estavam fazendo lá?

—Conserve sua serenidade, ó gentil xátria: lembre-se que melhor do que mil palavras vazias é apenas uma, que traga a paz. Não viva no passado, não sonhe com o futuro, concentre-se no momento presente. Ele nos trará a explicação.

E dava continuidade ao discurso, apontando para Ichi e para o amontoado de lençóis:

—Aqueles que são jovens estão na busca do aprimoramento do corpo, o que é correto, mesmo que o corpo seja ilusão: a saúde não vem do desejo da saúde, mas da vitória sobre esse desejo, permitindo que o verdadeiro caminho flua. Para tal, autocontrole e mansidão, acatar os bons conselhos e boas práticas: dominar-se a si próprio é uma vitória maior do que vencer a milhares em uma batalha. Viver apenas um dia ou ouvir um bom ensinamento é melhor do que viver um século sem conhecer tal ensinamento, e...

Não fossem pelas máscaras, daria para ver Shaina e Marin trocando um olhar mortalmente chateado.

—Onde você achou essa avis rara de pijama?

—No posto de sentinela sul, pegando informações com o guarda—Marin encolheu os ombros—E, é, ele é sim essa coisa prolixa, mas o que importa é a história que tem a dizer.

—E ele vai dizer alguma coisa antes que saia nossa aposentadoria por tempo de serviço?!—Shaina fungava, braços cruzados, azeda e pensativa—Pior é notar que essa lenga-lenga não me é estranha: já vi gente assim, só não lembro quem...Marin, você faça esse comedor de granola falar alguma coisa que tenha sentido!

Desanimada, mas procurando se manter gentil, Marin interrompeu o homem:

—Bom, meu senhor, tudo isso é realmente interessante, mas no momento precisávamos saber de coisas mais concretas. Indo um pouco mais...direto ao assunto de agora a pouco, se não for incômodo, pode ser?

O homem olhou-a com aquela superioridade implícita dos gurus:

—Detenha-se na contemplação, não questione, não julgue, apenas flua. Não há nada mais terrível do que o hábito da dúvida. Dúvida separa as pessoas. É um veneno que desintegra amizades e rompe relações agradáveis. É um espinho que irrita e dói, é uma espada que mata...

Com a paciência gasta, a Amazona de Cobra deu um passo à frente, de mão crispada, pronta para um massacre: já ia passando do ponto onde arrancar os cabelos—dela mesma e do homem—deixava de ser uma ideia para se tornar opção prática. Águia se pôs entre o homem e a colega, a agarrou pelos braços ao mesmo tempo em que tentava extrair informações.

—Muito bom, senhor Agoranopoulos, mas nós só queríamos saber sobre o que aconteceu com o Ichi e o...

E parou um instante, enumerando mentalmente os presentes. A conta não fechava.

—Shaina, mas cadê o Jabu?

—Deve ser o pano amassado—Cobra abaixou o punho, largou um instante a fúria, um tantinho perplexa—Mas agora que você disse...Cosmos à parte, esse pano não abriu a boca até agora, a não ser para beber leite. Não disse uma palavra, não teve nenhum surto, não respondeu, não falou bobagens nem xingou os outros...Definitivamente, não parece com ele.

E o senhor de branco a cortou, sorrindo plácido, se propondo a explicar, muito do seu jeito.

—Ah, mas o jovem está entre nós, apenas não na sua exata manifestação física de outrora! Ele fez o caminho natural onde tudo muda e tudo se transforma, passou pela transcendência que move o Universo, a transitoriedade...

Shaina não aguentava mais: explodiu, dando um salto e agarrando o homem pelos colarinhos.

—Está dizendo que o Jabu morreu?!

No banco, a coisa embrulhada em lençóis se mexeu, como se fizesse um gesto obsceno por debaixo da panaria. Os outros sentados a observavam. No chão, Geki roncava entre risadinhas abraçando e mordendo na bota de um Nachi completamente desmaiado.

O homem ruivo tossiu um pigarrinho:

—Não, mas claro que não! A morte é apenas uma ilusão e...

Mesmo sem um rosto visível, a Amazona de Cobra fez sua expressão mais colérica ser entendida, por mãos que espremiam o colarinho e na pose digna de um carcaju hidrófobo. O homem suspirou.

—Está bem, está bem...Sei que seu coração está nublado na dúvida sobre o jovem, mas não se aflija. Ele está logo aqui, como bem notaram, envolto em lençóis. Apenas realizou uma transcendência natural, uma vez que tudo acontece a seu tempo e tudo faz sentido na grande unidade...Tenha em mente que tudo muda e se transforma...e esse ciclo exige que nos adaptemos, aceitemos e moldemos nossos olhos, como a água...

Shaina largou o homem de branco falando sozinho, nem o escutava mais. Olhou novamente para o pano e para Marin. Águia correspondeu, silenciosamente, com um afirmativo aceno de cabeça. As duas Amazonas sem mais demora rodearam o ser no banco, agarraram cada uma as pontas dos lençóis e os arrancaram de um golpe só.

—MISERICÓRDIA!

Imagem distinta o suficiente para fazer um par de veteranas de combates ferozes recuarem num sobressalto, agarradas uma na outra. A máscara de Shaina despendeu-se de seu rosto: escorregou até a ponta do nariz, mostrando dois olhos verdes totalmente em choque. A Amazona ajeitou a peça meio torta, o suficiente para não passar vergonha: na verdade não conseguia pensar em muita coisa, a não ser na figura que se mostrava diante dela, em shorts e camiseta regata.

Sim, era Jabu, Cavaleiro de Unicórnio, disso não havia questão. Talvez com alguns detalhes menores em suave desacordo com o que elas lembravam. O Jabu que elas conheciam tinha sobrancelhas grossas, pele de um rosado banal e cabelo castanho rebelde, arrumado em suíças de gosto duvidoso. Sempre a mesma coisa, difícil acreditar que um dia mudasse. Até aquele instante, em que se apresentava numa versão realmente transcendental, com bochechas e lábios inflados, sobrancelhas quais colares de pérolas, com várias bolinhas brancas descrevendo arcos surreais, cabelo e barba removidos com cera, apenas um vanguardista topete rampante poupado bem no centro da cabeça, descolorido em branco e re-colorido e moldado em dreadlocks magenta e azuis, dispostos a intervalos regulares.

E um bronzeado profissional de respeito. Escuro. Muito escuro. Cor de café espresso, deixando apenas um par de círculos imaculadamente brancos em volta dos olhos, a curiosa imagem e semelhança de um panda ao revés. Como se não tivesse nada a dizer, a inquetante figura apenas olhou para as superiores, fungou e continuou a bebericar seu iogurte batido pelo canudinho.

Shaina aprumou-se em cima das canelas como pôde, em assombrado silêncio. Rodeou o tão modificado Unicórnio, cutucou sua cabeça como quem cutuca um pacote suspeito de bomba. Um dreadlock se soltou, caindo a seus pés, enrolado como uma brilhante cobrinha rosa. Jabu não protestou, nem largou o canudinho. A Amazona olhou-o nos olhos, e finalmente interpelou-o, em tom velado.

—Me diga, Jabu...o que aconteceu?

Unicórnio olhou para a cara da superior, tirou o canudinho da boca, mexeu os lábios inflados como um balão, fez uma careta. Não disse nada. Shaina agarrou-o pelos braços, exasperada.

—Eu disse pra me dizer o que aconteceu, por que você não fala? Fale, em nome de Athena!

O encarava em quase desespero quando o homem ruivo aproximou-se do seu ouvido, falando mansamente.

—Claro, necessário falar: três coisas não podem se esconder por muito tempo, o Sol, a Lua e a verdade, então...

—Não você, ELE!—e sacudiu Jabu, derrubando mais alguns dreadlocks coloridos—Preciso que ele diga como essa desgraça aconteceu! Alguém tem que me explicar isso!

Virava a máscara para os Cavaleiros de Bronze, como se exigisse uma explicação. Ban suspirou, Ichi deu um engasgo, Geki ria abraçado no pé de Nachi, ainda fora do ar.

—Nem me pergunte, também não sei.

—E...eu não vi. Não vi nadinha!

—Quero maaais leiteeee...—o Urso babava.

— Bom, talvez eles não saibam, Shaina...—Marin tentava apaziguar a situação—Isso aconteceu com o Jabu. E...bom, ele pode estar em choque, pode estar...

—Ah, não, ele só não consegue abrir a boca. Isso é normal depois de arrancar o siso.

Com a informação, todo mundo olhou para o autor da última frase: o ruivo muito alto, de óculos sobre o nariz adunco, que ao se ver tão repentinamente escrutinado, apagou o sorriso e engoliu em seco.

—E...depois de fazer canal...e após enxerto de gengiva...redução de incisivos...facetamento com inox...injeções de colágeno labiais...tatuagem oral...piercing na língua...

Parecia nervoso, sem saber exatamente o que dizer e como dizer. As duas Amazonas o rodearam.

—Então o senhor realmente sabe de algo, sr. Agoranopoulus? Poderia nos dizer?

O homem abriu a boca, agora suava frio. Olhou de esguelha para o portão, ia catando palavras enquanto tentava achar uma rota de fuga.

—Então...sabemos que...que...como diz Buda...não acredite em algo...assim simplesmente porque ouviu. E...não acredite em algo simplesmente porque...,porque... esta escrito em seus livros ...E não acredite em algo só porque ...dizem...Precisa...de muita análise...e observação...e...

Tentou dar um passo para trás, Marin o deteve pelo ombro, gesto que pareceria amistoso, não fosse o clima tenso do momento. Shaina se esticou toda, pondo o rosto metálico bem de frente ao nariz do homem.

—Direto ao assunto, sr. Agoranopoulus, se não se importa.

—Bom...tudo é mutável e...

—Eu disse direto-ao-assunto!

Os Cavaleiros travaram a respiração. O homem sorriu sem graça, Marin deu-lhe um discreto aperto, o encorajando a falar. Outra bola encardida voou da cancha de bocha, colidindo com estrondo aos pés do grupo.

—Foi fora, Agamenon!

Sem escapatória, o alto sr. Agoranopoulus suspirou, murchando os ombros.

—Está bem, está bem. Admito, agi muito errado. Me esqueci do ensinamento que diz que uma mente não encontra a paz quando se permite levar pela cobiça. Os atos recaem sobre mim, bons ou maus eu deles herdarei. E desta vez fiz um grande mal.

E após uma pausa tão dramática quanto angustiada, revelou, abaixando a cabeça em rendição:

—Sim...é minha culpa tudo o que aconteceu. Se o jovem está assim, é pelo que eu fiz, movido pela cobiça!

Choque geral: no banco Leão Menor levantava a cabeça enquanto Ichi tentava arregalar os olhos inchados e Jabu franzia a testa, apontando silenciosamente para o indivíduo de branco. Shaina olhou para o homem, olhou para Jabu, gesticlou atônita.

—Você é o culpado?

—Sou.

—Culpado dele estar assim desse jeito.

—Sim: totalmente culpado. Eu confesso.

A Amazona de Cobra sacudiu a cabeça, tentando juntar as peças.

—Espera, estou tentando entender...O senhor falou em cobiça...Cobiça, certo? Então...suponho que... levou meu subordinado para a baía da Caveira da Górgona, assaltou o Jabu, pintou ele de marrom e azul e rosa e...arrancou, serrou e colou os dentes dele, ainda bateu no careca... Daí, satisfeito ainda se deu ao requinte de leva-los de volta ao Santuário, é isso?!

Agoranopoulus sacudiu as mãos, escandalizado:

—Ah, não, senhora, não mesmo! Sou um adepto da não-violência e já faz muito tempo que não me engajo em atos agressivos. Mesmo antes quando fazia isso era por causas maiores, nobres, pelo bem comum e pelo bom nome de Buda e Athena.

Marin o interrompeu:

—Um segundo...bom nome de Athena...então você é um Cavaleiro?!

—Ah, senhora, eu fui, não sou mais. E isso, acho, causou parte dessa confusão, já que na minha cobiça, mesmo desligado da corporação fiz mau uso dos serviços do Santuário. Usei irregularmente os favores de algumas boas amizades que eu ainda tenho. Eu queria oferecer meus préstimos profissionais a alguns membros da tropa, como disse, sou quiroprático, terapeuta aryuvédico e trabalho num salão de beleza modesto na Baía da Caveira da Górgona.

Tirou os óculos e os enxugou, ansioso e contrito na longa túnica indiana. Prosseguiu.

—Assim, há quatro dias atrás fui ao Santuário e pedi para um amigo do departamento de mensageiros enviar uma propaganda minha oferecendo o tratamento de 12 horas para os soldados e oficiais mais estressados, os que mais parecessem precisar de um dia relaxando. Eu escrevi o texto, mas o meu amigo mensageiro disse que estava muito longo e...tedioso, precisava cortar e mudar algumas palavras para se tornar mais... "impactante". Deixei por conta dele, afinal diz Buda que um bom amigo que nos aponta os erros e as imperfeições e reprova o mal, deve ser respeitado como se nos tivesse revelado o segredo de um oculto tesouro...

Jabu esbugalhou os olhos. Se levantou, fazendo um sinistro barulho de assovio, enquanto crispava as mãos como se quisesse estrangular alguém. Ichi o deteve, muito pálido debaixo dos hematomas, querendo ouvir a história até o fim.

—Mas quis o destino que, não sei porque, ninguém atendesse à minha mensagem. Bom, sei que o salão é localizado numa área restrita, mal vista...talvez isso. Então, sem clientes e cansado de esperar há quatro dias, decidi tirar a tarde de folga, indo meditar na praia. Eu jamais ira imaginar que o jovem oficial iria me procurar justamente naquele dia, quando só a dona do salão estava. E ela é ousada, muito...radical. Inclui odontologia nos serviços, gosta de modas excêntricas, artes corporais extremas, não tem medo de usá-las...

Shaina coçava a cabeça, um tanto desconcertada ante as informações. A história parecia ainda mais embaraçosa do que a possibilidade de um assalto de Cavaleiro de Bronze com tingimento, embora infinitamente mais plausível. Jabu seguia esperneando aos chiados enquanto Marin piscava os olhos debaixo da máscara umas mil vezes, atentando para detalhes que escapavam aos outros.

E não se aguentando mais, interpelou o homem, abruptamente:

—Espera, mas então você FOI um Cavaleiro?!

—Sim senhora, o Cavaleiro de Prata que atendia por Ágora de Lótus. Sou grego mas servia na base de Nova Dheli. Isso agora é apenas passado

—Sim, sim, mas explique, por que deixou a corporação?!

O ruivo baixou os olhos.

—Eu não deixei por vontade, fui demitido. Meu superior direto e mentor considerou meus serviços "tecnicamente deficientes" e após a deposição do Patriarca Usurpador me excluiu dos quadros de efetivo. Mas é como explicou o sábio mestre ao me dispensar, eu tinha que ir. Ele me disse que estava na hora de minha grande jornada espiritual de autoconhecimento...bem longe do Santuário...

—Seu superior e mestre? E quem era ele?!

—O venerável Shaka de Virgem, senhora.

Enquanto Shaina apenas dava um suspiro desgostoso, olhando para seus alquebrados subalternos, Marin largava o ombro do homem, fazendo intensas contas na ponta dos dedos, murmurando para si freneticamente. Enumerou um polegar, um indicador, olhou para o ex-Cavaleiro, olhou para os outros, coçou o queixo, olhou de novo para o homem de branco olhou em volta, levou as duas mãos à cabeça.

E finalizou com um soco no meio da mão, como se matasse na palma dela uma charada cabeluda. Equação resolvida. Tudo fazia sentido.

Até demais.

—O senhor está preso!

E sem mais palavras deu uma improvisada chave de braço no quiroprático, o jogando contra a grade.

—O que?!

Sobressalto geral. Ban deu um pulo, Jabu ainda chiava, querendo agarrar o ex-cavaleiro pelo pescoço, detido por um Hydra que quase conseguia abrir os olhos, tamanho o espanto. Shaina, confusa parecia não entender mais nada:

—Espera, Marin, mas o que você está fazendo?!

E Marin parecia sorrir radiante, mesmo com o rosto coberto pela máscara.

—Levando QUEM deveria estar prestando explicações para o Milo: o nosso amigo Ágora Agoranopoulus de Lótus aqui. Shaina, pense só: ele era oficial do Shaka, e foi humilhado, demitido por incompetência. Agora trabalha num salãozinho de cabeleireira na Baía da Caveira da Górgona. Esteve no Santuário há quatro dias...

E completou, enquanto improvisava uma algema para o homem com o próprio cinto.

—...que foi quando aconteceu o atentado com o Shaka.

A Amazona de Cobra travou, finalmente, juntando os termos.

—Esse homem deve ter problemas com o Shaka, pode ter sido o autor do atentado! É mais que suspeito! Então, se o levarmos para o Milo, nós, mais os rapazes vamos...

Águia afastou o ex-Cavaleiro amarrado da colega, sacudindo um gaiato dedo em negativa.

—Um segundinho: NÓS não. Me desculpe, minha amiga, mas esse é um caso que EU resolvi sozinha. Então EU levo o sr. Agoranopoulus para o Milo, licença.

Shaina engasgou, surpresa e indignada:

—Mas...Mas que história é essa?! Nós duas estamos aqui e prendemos ele! Eu estou aqui! Então, que papo é esse de que só você resolveu o caso? Isso não tem ética, é indecente, é um roubo, roubo de méritos, está roubando minha parte nisso!

Marin nem dava caso aos protestos da outra, ia alegremente tocando o prisioneiro de volta pelo caminho por onde veio, o usando de escudo contra as bolas arremessadas da cancha.

—Shaina, Shaina...você não teve parte nisso. Você não deduziu nada, nem com o suspeito debaixo do seu nariz. Eu que juntei os fatos. E pior ainda...

Apontou para Ichi e Jabu, disfarçando uma risadinha.

—Eles dois passaram o maior tempo na companhia desse senhor, e não tiveram a capacidade de perceber nada, nem de extrair qualquer informação útil. São oficiais da SUA Companhia, a mítica 16-Gama, sua responsabilidade... Deveriam...hum, estar pelo menos mais bem treinados nisso, não acha?

E sem mais palavras foi embora, cantarolando enquanto Agoranopoulus gemia de tantas boladas na cara.

Abandonada sob protestos, Shaina ainda tentou dar um passo. Foi interceptada por mais um grito de "TIRE O PÉ FEDORENTO DA MINHA CANCHA!" e outra bola de metal que por pouco não lhe acerta a máscara. Olhando Marin sumir ao longe com o detido, fumegando de raiva e frustração, voltou-se lentamente para os subordinados. Que não estavam muito diferentes de antes: um Ichi deolhos roxos segurando um esperneante Jabu cor-de-café, azul e rosa, um Ban entediado com a mão enfiada no rosto e um Geki rolando no chão, mordendo uma bota.

Ergueu o punho para berrar, estufou o peito...

—VOCÊS, SEUS...SEUS...

E sem um adjetivo que servisse, murchou, enquanto segurava a máscara, em plena exasperação.

—Eh...chefe...Nós...

Hydra não prosseguiu, interrompido por um meneio de cabeça da superior, que não largava a própria cara.

—Não...não fala nada...Olha...há muito tempo eu me esforço para fazer de mim uma boa oficial, e da minha Companhia, a 16-Gama de vocês, um exemplo...Eu sempre quis ser a número um em tudo, fazer a perfeição em tudo...

A voz parecia sair aos soluços. Jabu não esperneava mais, apenas olhava, os outros dois se encolhiam silenciosos, na dúvida entre ficar parados ou oferecer um lenço para a comandante.

—...e, sabem...eu consegui...tanto que a tropa é elogiada, é famosa. É a número um. Tudo nela funciona bem...MENOS VOCÊS CINCO...

Desconfortável silêncio, o três cavaleiros em pé baixaram as cabeças tristemente. A Amazona de Cobra, em gemidos prosseguiu.

—Mas hoje, olha...vocês me surpreenderam. Surpreenderam muito. Eu sempre achava que vocês não sabiam fazer nada direito. E hoje...sim, hoje, vocês me provaram que tem uma coisa...uma imensa coisa que vocês—só vocês, e nas situações grandes e pequenas, dia e noite— fazem melhor do que ninguém...

Os três esboçaram um sorrisinho amarelo. Shaina crispou as unhas, fazendo riscos na própria máscara.

—QUE É FAZER IDIOTICES EM TODAS AS CIRCUNSTÂNCIAS! VOCÊS SÃO NÚMERO UM EM ESTUPIDEZ!

Raios e fagulhas crepitaram por todo o corpo da Amazona como se ela fosse explodir, os cabelos verdes se armando como o pelo de um gato cheio de estática. A estranha figura de Jabu ergueu a mão tentando dizer algo, chiou mais um pouco, sem sucesso. Gesticulando em ira quase histérica, a superior o cortou, sacudindo as mãos enquanto se recompunha do ataque de nervos.

—Não, não, não, não vou conversar, eu não tenho mais nada para falar para vocês, nada para dizer para vocês! Ou melhor, tenho sim. Se querem um conselho, prestem atenção nisso: o nível de incompetência de vocês cinco já passou de limites seguros para a saúde humana. Já é uma doença, e uma doença bem grave, talvez até contagiosa! Algum tipo de peste! Então...

E vociferou com toda a fúria que ia contida desde cedo, de pescoço vermelho, veias saltadas:

—...Então...façam um favor para vocês mesmos e para o resto das pessoas: vão tratar essa coisa antes que se alastre! PROCUREM AJUDA PROFISSIONAL!

Saiu pisando duro, colérica, ante a saraivada inimiga de bolas de bocha.

Em silêncio no banco, os Cavaleiros de Bronze se entreolharam, desajeitados e sem ter muito o que falar. Mais um dreadlock abandonou a cabelça de Unicórnio, Hydra piscava os olhos muito inchados.

—Agoranopoulus..."homem alto A"...Isso...explica muita coisa, acho eu...E a Shaina acabou de limpar o chão com a gente. Vai sobrar castigo.

—Bom, merecemos o esporro...ou melhor, VOCÊS DOIS mereceram—Leão Menor fungou, agastado, olhando Hydra e Unicórnio—E mereciam ter ido para a Corregedoria no lugar desse guru massagista que não tem nada a ver com o nocaute do Shaka. Como é possível que ainda consigam piorar as coisas?!

—Mas, vocês sabem...eu acho que a Comandante está certa.

A voz que não era ouvida desde uns tantos minutos atrás chamou a atenção para baixo. Ainda esparramado no chão, mas de volta a si, Nachi de Lobo tentava tirar a bota das mãos de um adormecido e roncante Geki de Urso.

—A respeito de sermos um bando de incompetentes?

—Ah, eu não falava nisso, mas na coisa que ela disse por último: de procurarmos ajuda profissional.

Empurrou a cara de Geki com o pé, foi agarrado de novo. Largou a bota com o colega enquanto tentava se levantar, meio zonzo e descalço.

—Que história é essa, sarnento?

—Bom, tudo isso está bem complicado, e até agora não fomos a parte alguma com o tal problema do dia 12. Então, sim, parece que alguma ajuda profissional seria bem-vinda...E...eu acho que sei onde conseguir isso.

Os outros se entreolharam perplexos enquanto Urso mordia a bota.


Ms. Rhode Rambled Reports:Mais um capítulo de "12", e olhem, eu não voltei (ainda) a dormir com o Cthulu. Demorou, sim, admito que demorou, mas aqui cabe a desculpa de sempre: eu tinha mais o que fazer. E não pensem que isso foi pelo meu gosto: a vida real andou me tirando o couro. Eu andei tão ocupada que só neste ano consegui a proeza de não ir em nenhum dia da Festa de San Vito (para um ser bem dizer 50% italiano, calculem que isso é uma tragédia tão grande quanto ser proibido de cantar Peppino Di Capri no chuveiro ou falar com as mãos, traduzindo: O ARMAGEDDON).

Mas desta vez eu precisava mesmo publicar algo, não só por ser O dia 12—pra Jabu continuar se consumindo em nervos—como também pelos eventos de Saint Seiya Omega (a nova série de Saint Seiya, tão polêmica quanto mamilos online do Xbox One). Caso é, Omega acabou de trazer de volta dois dos mais queridos ratapulgos desta fic, Ban e Nachi! Que pareciam antes mortos, enterrados e jogados fora.

Sem armadura bacana—já que cederam as deles para os novinhos Souma e Haruto—os dois re-apareceram lindos, leves, quarentões e tão esculhambados quanto de hábito como professores dos Cavaleiros de Aço (o que prova que que Cavaleiros de Aço são e sempre vão ser...ah, bom...enfim...***sorriso amarelo***)

Ainda não faço ideia de como vão tocar adiante os personagens de ambos, e fico só esperando que respeitem o que se viu até aqui, de dois patetas bem-intencionados, um esforçado e mais conformado com os próprios limites e o outro um cabeça-de-vento com a impávida expressão do Buster Keaton e o legítimo espírito de um integrante do Jackass. Mas é impossível saber o futuro. Se um deles (ou ambos) resolverem virar casaca—como o Ichi chegou a fazer, sem que eu estranhasse—ou ainda se tornarem receptáculos divinos de orixás havaianos, ou morrerem, ou—supremo horror—desenvolverem real competência, vou achar triste, lamentável, uma pena (ou talvez nem tanto: vejam que o Geki virou de um maromba estrangulador de ursos num adorável e respeitado professor em Omega, e, sim, ele ainda me diverte, mesmo mais maduro. Enfim, depende de como as coisas andarem). Então, sim, aqui temos uma ficwriter feliz, mas roendo as unhas de apreensão, azeda com os torneios de golfe que vão atrasar episódios de Saint Seiya Omega, mas não interessada no destino do valoroso e brilhante Cavaleiro de Libra. E sim naquela que foi (e espero que ainda seja, de algum jeito) a fina flor da incompetência das tropas leais à Athena.

Podem chamar isso de amor, eu acho. Dá nervoso. Mas nem por isso o mundo acaba: haja o que houver, só está autorizado a fechar para balanço DEPOIS que essa fanfic acabar. Com ou sem os meus queridos ratapulgos em Omega: ao menos aqui, eles vão estar com certeza.

P.S: E para quem curtiu o visual do Jabu, ou tá a fim de copiar...bom, basta procurar na internet por Ganguro ou Yamanba. Com certeza Mona Krespia se inspirou nisso (só não aconselho a enfiar o pé na jaca de uma vez adotando as ideias criativas odontológicas junto).

Isto continua? É claro que continua! Sigam-me os bons!