Chá com o demônio

Se eu dissesse que meu coração está batendo alto

Se pudéssemos fugir da multidão de alguma maneira

Se eu dissesse que quero o seu corpo agora

Você gostaria menos de mim?

Pois você parece o paraíso

E preciso de férias essa noite

Então, se eu disser que quero seu corpo agora

Você gostaria menos de mim?

Hold It Against Me – Britney Spears

O dia mal tinha começado e Bella Swan já estava de pé. Sim, o dia mal tinha começado. Isso queria dizer que o sol tinha acabado de sair por entre os enormes montes verdes como Jéssica fugindo da aula de francês, entediante e nada discreto.

Um bocejo involuntário saiu dos lábios pintados da morena que tentou disfarçar com a mão. Já bastava ter que aturar Carmen — que nem era tão rainha assim —, agora ela tinha que aturar Charlotte, a avó materna de Adam.

— Esses meninos de hoje, acordam com o barulho do jantar sendo servido! — resmungou a velha quando a empregada colocava chá em sua xícara. Bella fingiu não perceber que a indireta era para ela, então virou o rosto em direção ao sol. Ainda bem que estava de óculos escuros, assim a velha não conseguia ver seus olhos quase fechados. — Mas não é seu caso, não é Isabella?

Bella limitou-se a sorrir balançando o leque que tinha ganhado de natal do Lorde Baelish de Estocolmo. Um natal bastante agradável, ela pensou que ia ser um desastre. Na primeira oportunidade que teve para falar, Bella perguntou se a Síndrome de Estocolmo tinha algo a ver com lugar e Carmen riu as suas custas. Pelo menos o Lorde a cumprimentou com um sorriso e a chamou de americana esperta.

— Não tivemos tempo para conversarmos a sós, Isabella. Quando meu neto contou-me que tinha conhecido uma garota eu não pensei que seria uma garota como você.

— Vou tomar isso como elogio, Vossa Alteza — Bella sorriu empurrando mais chá pela sua garganta. O que ela queria era tomar um café bem quente para acordar.

— Oh, querida, chame-me de senhora Bourbon. Só estamos as duas aqui — Charlotte olhou ao redor da vegetação rasteira do enorme quintal do castelo Real. Ela parecia ignorar os múltiplos empregados que serviam ali.

— Será um prazer, Sra. Bourbon — Eu só quero dormir!

— Eu gosto de você, Isabella. Não fique tão feliz, criatura americana. Eu disse que gosto de você, não que eu vou trançar seu cabelo enquanto comemos pipoca. De qualquer maneira, meu neto Adam sempre foi propício a pegar garotas abaixo do padrão social. Você deve saber o que eu estou falando, sim? Essas garotinhas filhas de deputados, prefeitos, presidente... — Charlotte balbuciava e Bella tentava manter um rosto gentil e aceitável. Eu quero dormir!

— Mais leite, madame? — perguntou a empregada. Bella apenas negou com um simples gesto pelos dedos. Se ela tomasse mais leite, provavelmente seria tolerante a lactose quando voltasse para casa. Quando mesmo? Isso, hoje à tarde.

— Meu neto sempre foi muito... Qual é a palavra certa na linguagem americana? — Charlotte não precisou pensar muito, seu mordomo cochichou ao seu ouvido. — Garanhão? Não! Parece que meu neto é algum cavalo a ser comparado!

O sol já não estava tão fresquinho e mesmo sendo inverno naquela época do ano, Bella estava sentindo a pele queimar. Ela poderia pedir que mudassem sua cadeira do lugar para onde a sombra do guarda-sol estava indo, mas isso ia fazê-la ficar mais perto da avó de Adam.

Passou as mãos pelo vestido branco de cetim com os braços cobertos de renda. Tinha ganhado de seu pai antes de viajar com Adam e quando o colocou se sentiu como a Kate Middleton. Foi nisso que pensou quando Charlotte a convidou para um café da manhã. Ela só não sabia que seria às 6 em ponto, senão não teria ficado conversando com Rose até tarde.

— Teve uma vez que tive que enrolar um Sultão porque Adam estava na cama com sua concubina favorita. E a moça estava grávida do seu primeiro filho homem! — Charlotte gargalhou com um leque azul pastel tampando sua boca. Bella fez o mesmo, só que a risada foi forçada. — O que eu estou querendo lhe dizer, Isabella, é que Adam é meu único neto. E se você foi aquela que lhe roubou o coração, então eu tenho um enorme agradecimento por isso.

— Bem, eu não sei o que falar... — Bella enrolou a língua, constrangida em frente aquela mulher.

— Espere pequena pomba, que eu não terminei ainda. — Charlotte tomou mais um gole de seu chá. Tinha falado demais, a garganta estava seca. — Eu andei pesquisando sobre os Swan e devo lhe falar que estou feliz pelos resultados. Nenhum escândalo com drogas ou algo do tipo. Seu pai é rico, e pelo trabalho honesto creio eu. E a senhora é considerada a próxima Hilary Clinton de acordo com a Vogue. E é por isso e outras razões, que eu dou a minha benção para esse casamento.

Bella não era tão insensível ao ponto de ficar tocada com as palavras de Charlotte. Afinal, ela era nascida do berço da realeza. Ontem mesmo, tinha ido de jatinho ter uma conversa com a Rainha da Inglaterra.

— Mas eu vou te falar uma coisa, Isabella — a velha olhou através de seus olhos cinza para a morena. — Se você sair um centímetro da linha, eu tenho outras cem garotas para apresentar ao meu neto. Quando você piscar, esse anel estará em outra mão — Charlotte levantou e Bella automaticamente levantou junto por educação. — Foi bom conversar com você, Isabella. Espero vê-la novamente de branco, essa cor cai bem com seus cabelos negros.

Bella viu a velha partir sem dizer uma palavra. Seu cérebro estava com um zunido estranho e só parou quando ela se permitiu pensar com coerência. Se ela estava com medo de Carmen, ela tinha mais medo de Charlotte. A velha avó da Adam era sua amiga, mas também poderia ser sua inimiga.

Sentiu-se constrangida ali em pé com tantos mordomos em sua volta. Sempre ficou cercada de empregados, mas ali era diferente. Eles pareciam escravos.

Deu meia volta e deixou seu chá quase intocável em cima da mesa. Não tinha comido nada, mas tinha perdido a fome. Caminhou a passos largos e pesados em direção ao castelo não se importando nem um pouco com os calos que já estavam se formando em seu pé. Um carrinho de golfe parou ao seu lado, mas Bella ignorou. Preferia ir a pé, mostrar para aquela velha que era uma mulher forte. Afinal, governar a Upper East Side não era nada fácil. Queria ver se ela pegasse alguma vadia como Tanya ou Jéssica! Pior, I.

Seu quarto estava vazio e cheirava a lavanda e chocolate. O sol passava pelas enormes janelas de vidro que davam para a varanda. Um dos melhores quartos que dava a vista para os montes congelados.

— Onde eu coloquei essa maldita bolsa?! — Procurava pelo closet sua bolsa Dior vermelha que tinha ganhado de um sócio do seu pai.

A última vez que eu mexi no aparelho foi...

— Cama! — gritou Bella correndo pelo quarto. Jogou-se no enorme colchão coberto do mais grosso edredom bege. Varreu os olhos pela cama feita e não encontrou o aparelho em lugar nenhum.

Já estava decidida a procurar de volta no closet quando viu o aparelho brilhando em cima do divã cinza. Os raios solares refletiam para todos os lados com a capinha brilhante dela.

Discou rapidamente o número de Alice. Só ela entendia o que realmente estava passando em sua cabeça.

Toques e mais toques e a maldita Alice não atendia. Bella já estava pronta para deixar uma mensagem, quando a voz de Alice surgiu no aparelho.

— Ela também é uma vadia! — gritou Bella. Levou um susto e olhou para a porta fechada. Suspirou de alívio ao saber que a tinha trancado.

— Quem? — perguntou Alice.

— A avó de Adam, Charlotte. Ela disse que se eu sair da linha, ela vai dar o anel para outra garota.

— Nada mais justo.

— Alice! Você tinha que estar do meu lado — bufou Bella.

— E eu estou, mas veja pelo lado dela, Bella. Ela carrega esse fardo de "família Real"... Ela não quer uma garota problemática entrando no seu modelo "perfeito".

— Eu não sou uma garota problemática! — defendeu-se Bella.

— E eu disse que você é, idiota? — Alice bufou do outro lado da linha. — E nem ela. Charlotte só está te avisando que não quer problema vindo de você.

Bella pensou um pouco no que Alice tinha dito. E isso fazia certo sentido. A Charlotte mesma disse que tinha gostado dela, com as próprias palavras. Talvez fosse um alerta e não uma ameaça? Bella tinha confundido as coisas e colocado um pouco de drama, como sempre fazia na UES. Mas ali não era a UES, e ninguém a obedecia.

— Você não era tão sábia assim — comentou Bella.

— Hey, você está dizendo que eu não pensava? — Alice riu demonstrando que estava brincando. — Você está certa, eu acho que é a influência de Jasper.

— Ele te faz bem, fico feliz com isso — sorriu, e tentou não lembrar de James.

— Sim, ele faz. Talvez ele mereça até um pouco de crédito com a rainha B?

— Não force a barra, querida — bufou Bella fazendo Alice gargalhar alto. Sentia falta da amiga. — E como está...

Bella não precisou terminar a frase, Alice sabia o que ela estava perguntando.

— Edward está bem, Bella. Passou o natal em casa como eu tinha te falado e provavelmente passará o ano-novo também. Brittany está indo lá quando pode e volta mais triste que da vez anterior. Diz ela que ele só está bebendo sozinho.

Sozinho. Bella não sabia que estava segurando o ar até soltá-lo. Então ele não estava com prostitutas como geralmente ficava.

— Bella, você está aí? — Alice falava sozinha enquanto Bella divagava.

— Hum? É só isso, obrigada Allie.

— De nada — Alice bocejou alto o bastante para Bella rir. — Acho que agora eu vou dormir.

— Eu te acordei? — perguntou Bella. Virou em direção à janela e teve que tampar os olhos com a palma da mão por causa dos reflexos.

— Acabei de sair de uma festa do papai — respondeu Alice e foi ai que Bella notou uma simples batida ao fundo. Estava assim tão distraída com seus problemas?

— Não sabia que seu pai era de passar a madrugada festejando.

— E não é, tanto que acabou cedo — riu Alice. — Bella, que horas são aí?

Bella revirou o quarto a procura de algum relógio, mas não encontrou nenhum.

— Talvez... Sete horas da manhã? Acho que sim.

— Bella, aqui ainda são duas horas. Bom dia para você e uma ótima noite para mim! Beijos — Alice se despediu com outro bocejo.

— Te amo, piranha.

Mal tinha falado e Alice encerrou a ligação. Bella tinha vezes que se esquecia dos fusos horários.

Levantou da cama e foi ate a porta. Colocou a cabeça para fora e chamou a copeira que passava com as toalhas recém-lavadas. Pediu para a moça mandar alguém para fazer suas malas. Quanto mais cedo saísse dali, mais cedo chegaria a Manhattan.

Quando a pequena moça chegou para fazer as malas, Bella estava no banho mexendo em suas redes sociais. Sentia tanta falta da Upper East Side!

Seu celular tremeu em sua mão e por pouco não caiu dentro da banheira de espumas. Quando abriu a mensagem para ler, soube que estava enganada. Uma coisa que ela não sentia falta, mas que inevitavelmente fazia parte da sua UES, era a maldita I.

Alice está mentindo – I

Quase que por um triz o celular não caiu na banheira de novo. Bella estava paralisada tentando assimilar a mensagem que tinha acabado de receber. Que droga! Já tinha umas semanas que tinha parado de receber mensagens de I e tinha pensando até que a vadia tinha cansado dela. Ou estivesse morta. Confessava que torcia pela segunda opção.

I estava mentindo, era isso!

Só acredito vendo – B

No fundo ela não queria mandar essa mensagem. Como diz o ditado: o que os olhos não veem o coração não sente. E era exatamente isso que I queria, fazer Bella sentir.

Não tão sozinho... – I

Uma foto vinha anexada na mensagem. O que Bella viu a deu embrulhos e por pouco não vomitou ali mesmo na banheira. Edward estava ajoelhado na cama com duas pernas femininas em volta de sua cintura. Tinha suas mãos no corpo da maldita mulher. A esquerda presa em volta da cintura e a direita em volta do pescoço. A ruiva parecia gostar com a boca aberta e Bella percebeu que a foto foi tirada exatamente no seu orgasmo.

Não era a imagem de um celular, era de uma câmera. Tinha o botão vermelho ao lado mostrando que estava gravando junto com a hora e a data. I tinha uma câmera no quarto de Edward? Talvez no dela também?

Seus olhos automaticamente varreram o teto do banheiro a procura de uma câmera também. Por fim levantou e se enrolou em seu roupão. Encontrou a empregada dando fim na sua ultima mala de sapatos.

— Chame o meu noivo, preciso ir embora urgentemente.


N/A: Leitoras, me perdoem! Eu pensei que tinha postado esse episódio já um tempão D:

OMG, estou muito distraída esses dias.

Queria pedir desculpas pela demora, mas não vou ficar prometendo capítulos mais rápidos. Estou estudando demais e acho uma salvação nas fanfics 3

Enfim, o combinado. Quem comenta ganha spoiler! ;)

Xoxo - B