Ariadne precisou caminhar poucos quilômetros. Por sorte, o local onde se reuniam era próximo de onde ela morava. Entrou no quarto e se jogou na própria cama tentando não pensar nos próximos sete dias. Quando Eames veio procurá-la poucos dias antes, depois de meses sem ter notícias dele, ela não sabia que trabalho viria pela frente. Contudo, sua vontade de estar em campo novamente a fez aceitar antes mesmo de entender exatamente qualquer coisa que Eames lhe explicava. Ela captara poucos detalhes: extração múltipla, empresário rico, equipe pequena, mais de uma tarefa para cada pessoa. Quem se importava com o que tinha que fazer? Contanto que tivesse algo para fazer, por ela tudo bem.

Ela só não imaginava que passaria por isso. Noiva de Artur, uma semana num hotel com ele, dividir o mesmo quarto, fingir estar apaixonada. A última parte era a pior de todas, ela nunca se apaixonara de verdade por ninguém, tivera alguns casos, mas nada sério a ponto de classificar como paixão. E logo Artur? Ela ainda corava ao lembrar-se do rápido beijo que trocaram no trabalho Fischer. Teria que passar por uma cena tão constrangedora de novo? Queira os céus que não.

Enquanto fazia a mala sua mente ainda viajava. Artur era um homem atraente, sim. Maduro, sério, elegante, tinha caráter e seu charme particular. Não seria ruim fingir que eram noivos, porém ela ainda não conseguia gostar totalmente da ideia. Ele era mais velho do que ela e mais experiente, mas isso não influencia em nada, esse noivado é apenas uma farsa então não terão que dormir juntos de verdade. Esse pensamento a deixou mais calma ao terminar a mala, minutos antes de ouvir uma buzina – provavelmente a do carro de Artur.

OooooO

Artur dirigiu sem pressa até a própria casa. Não queria adiantar a chegada até o hotel. Ao contrário, quanto mais demorasse, melhor. Essa ideia não lhe agradara nada mesmo antes de o envolverem diretamente e sem consultar previamente sua opinião. Sempre fora péssimo com mulheres, sua personalidade reservada assustava-as. Tivera poucas namoradas em toda a vida e o relacionamento mais recente acabara há alguns anos.

Infelizmente não conseguiu demorar muito arrumando a mala. Mal estacionara o carro e já estava de volta com uma mala de tamanho relevante em uma das mãos. Não precisaria levar muito, ele era o sonhador, o homem das ações, não precisaria escrever muito ou desenhar – como a Ariadne. Ele parou a poucos segundos de ligar o carro, ao pensar na colega. A moça e ele eram agora noivos de mentirinha e, na medida do possível, esperavam que eles se comportassem como tais. Este trabalho exigiria dele mais do que imaginavam, seria preciso quebrar barreiras às quais Artur não sabia se estava pronto. Sua vontade era de largar o trabalho imediatamente, se não necessitasse de dinheiro para comprar uma casa, era isso que faria.

Ligou o carro, deu a ré e saiu para a rua. Sua noiva já deveria estar esperando-o. Ela era uma ótima pessoa. Ariadne acabara de terminar a faculdade, estava na flor da idade. Ele lembrava-se de quando terminara o ensino superior, se sentiu livre e realizado. No final das contas, não seguiu a carreira que escolhera na adolescência. Mas fazia algo que gostava, atualmente. Ainda sentia-se realizado, mesmo com certas cobranças da vida – arrumar uma esposa, ter filhos, construir família. Desde que seus pais morreram, pouco depois de se formar, ele vivia sozinho no mundo e isso nunca o incomodara até agora. Mas não teve mais tempo para pensar nisso, pois chegava à frente da casa de Ariadne. Buzinou, avisando que chegara e a esperou.

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O caminho até o hotel foi feito numa atmosfera tensa. Sem muitas conversas, sem risos, sem olhares. Se antes eles não eram muito próximos, Ariadne duvidava que se tornassem em sete dias. Mas ela não iria deixar isso atrapalhar seu trabalho. Ela se esforçaria e Artur iria colaborar, querendo ele ou não. Chegando ao hotel um manobrista levou o carro até a garagem enquanto eles se encaminhavam para a recepção. Artur mostrou o cartão à recepcionista que chamou outro funcionário para levá-los até o quarto.

— Aqui é o quarto. Deixem as malas e venham comigo – e completou diante as expressões confusas de Ariadne e Artur – Antes de tudo vocês precisam passar por uma cerimônia de "iniciação" onde serão apresentados aos outros casais. Depois podem voltar ao quarto se desejarem, já estará preparado para recebê-los aconchegantemente.

A cerimônia era como o primeiro dia de aula no maternal. Você dizia seu nome e uma característica marcante e cada uma das pessoas fazia o mesmo. Depois, o casal recém-chegado contava um pouco de sua história. Não é preciso dizer que Ariadne foi quem falou quase tudo, Artur se sentia extremamente nervoso para conseguir falar algo sem se atrapalhar ou estragar o disfarce deles. "Trabalhamos juntos há um ano, somos namorados há seis meses e faz pouco tempo que ele me pediu em noivado. Resolvemos tirar um tempo juntos antes de marcar a data do casamento" – Ariadne sorriu dando a história de amor deles por encerrada.

Terminada a sessão de tortura, eles puderam voltar ao quarto – felizmente, para Artur. Os outros casais insistiram que eles ficassem para uma festinha que aconteceria na piscina, mas eles deram a desculpa de que vinham do trabalho e estavam cansados. Segundo o rapaz que os levara mais cedo até o quarto, este estaria arrumado de forma relaxante para que eles desfrutassem de uma ótima noite. Quando chegaram ao quarto tiveram uma tremenda surpresa. Não foi de todo mentira o que o funcionário do Realeza dissera, mas não estava nem de longe parecido com o que Artur esperava.

— Não creio!

Ariadne por outro lado estava achando tudo muito engraçado. Gargalhava tanto que mal conseguia respirar. Caminhou até a cama e pegou uma das pétalas de rosas que a cobriam.

— Eles capricharam, não é mesmo Môzinho?! – e riu da cara de Artur – Ah, vamos... Ficar carrancudo não fará essas pétalas todas sumir.

Ele fechou a porta e permitiu-se relaxar um pouco, mas não conseguia achar graça daquela situação como Ariadne fazia – caída num sofá perto da janela.

— Certo, vamos desfazer as malas – ela levantou se encaminhando para sua mala – Quem terminar primeiro pode ir logo tomando banho.

Ariadne, que levara muitos papéis para desenho e blocos de anotações, demorou mais para arrumar todas as suas coisas, portanto Artur foi o primeiro a entrar no banheiro. Quando ela terminava de guardar suas roupas, ele saiu do banho vestindo uma camisa regata e shorts de dormir. A moça levantou uma sobrancelha, vasculhando a mente em busca de um momento em que o tivesse visto em roupas tão íntimas e descontraídas – concluiu que isso nunca acontecera, porém não comentou nada.

Artur arrumou alguns edredons e travesseiros no sofá e deitou-se. Pegou alguns papéis com informações sobre os alvos e começou a ler. Tentava não pensar que dormiria no mesmo quarto que uma garota bonita e atraente que estava naquele momento saindo do banho. Ariadne caminhou até a cama vestindo roupas mínimas de dormir e sentindo-se totalmente exposta. Perguntava-se por que não colocara o pijama horrível que ganhara da sua mãe, pelo menos escondia mais o seu corpo.

— Artur, você mal cabe neste sofá. Acho que eu deveria dormir aí.

— Desculpe, mas eu sou um cavalheiro. Não posso concordar com isso – e sorriu ao colocar de lado os papéis que lia e se preparar para dormir.

Ariadne deitou-se na cama, sentindo-se um pouco culpada por estar dormindo naquela imensa cama de casal enquanto seu companheiro se apertava no minúsculo móvel perto da janela. Sentiu também frio e por um rápido instante desejou estar abraçada com alguém para aquecer-se. Mas esta sensação durou pouco tempo, pois logo caiu num sono tranquilo.