— A senhora poderia nos dizer onde estamos indo? - Ariadne perguntou à guia.

— Estamos chegando senhorita!

Era madrugada do quinto dia e eles estavam subindo um pequeno morro há mais de dez minutos sem saber para onde iam. A guia apenas disse que eles não se arrependeriam. E era realmente verdade. Poucos minutos depois chegaram ao topo do morro, onde havia uma árvore com alguns galhos caídos e um balanço bonito para duas pessoas. A guia olhou para o relógio de pulso e deixou-os dizendo que voltaria em meia hora para pegá-los.

— E aproveitem o nascer do Sol!

Foi um início de manhã emocionante, era possível ver perfeitamente o sol nascendo daquele lugar. Sentados no balanço, apenas apreciaram aquele momento em total silêncio. E foi assim que a guia os encontrou quando foi pegá-los para voltarem ao hotel. Teriam o resto do dia de folga, a não ser à tarde, quando voltariam para ver o pôr do sol.

Ariadne estava terminando os desenhos e projetos. E nos últimos dias já tinha mostrado vários lugares para Artur já ir memorizando, ele por sua vez dava opiniões e aconselhava algumas modificações quando achava necessário. Os dois estavam muito mais próximos do que quando chegaram ao hotel e em dois dias estariam, finalmente, voltando para casa.

À tarde voltaram ao pé do mesmo morro que subiram pela manhã. A guia os esperava sentada ao pé de uma frondosa mangueira. Assim que os viu levantou-se e começou a subir, sem dizer uma palavra durante todo o caminho. Já acostumados com o caminho e sabendo o que os esperava lá em cima, eles subiram mais rapidamente. Chegando lá em cima a guia os abandonou de novo, dessa vez com uma observação.

— Vocês voltarão sozinhos. Creio que conseguem, não?

Eles balançaram a cabeça confirmando ao que ela virou-se e foi embora. Sentaram-se no mesmo banco e esperaram o cair da noite. Ariadne cruzou as pernas em cima do assento e eles observaram o sol descer centímetro por centímetro no horizonte até ter desaparecido completamente. Ficaram ainda por um tempo depois que os últimos raios de Sol sumiram. Quando havia somente a luz da Lua, eles voltaram ao hotel.

Ariadne deu um leve empurrão em Artur e começou a correr. Este demorou a entender que a colega estava brincando, mas quando caiu a ficha, ele saiu correndo atrás dela. Conseguiu segurar um braço dela, mas esta, na tentativa de fugir dele, desequilibrou-se e caiu – levando ele consigo. Os dois saíram rolando morro abaixo, até pararem com as roupas sujas e os cabelos cheios de grama. A arquiteta ria tanto que demorou a perceber que estava deitada sobre Artur, enquanto ele tinha as mãos em torno da cintura de Ariadne. Quando se deram conta disso, levantaram-se envergonhados e caminharam até o hotel um pouco distantes um do outro.

Foram para o quarto depois de jantarem pratos saborosos da culinária italiana e tomarem sucos naturais. Artur foi direto tomar um banho, enquanto Ariadne guardava seus desenhos. Estavam tão cansados que não fizeram mais nada naquele dia.

OooooO

Artur acordou na manhã seguinte sentindo seu corpo doer por conta do passeio do dia anterior. Ariadne estava na mesinha desenhando e nem reparou que ele acordara. Ficou admirando-a. Estava muito bonita, concentrada no seu trabalho. Uma mecha do cabelo caia a todo o momento sobre o rosto e ela a recolocava impaciente atrás da orelha; usava uma blusa com gola em formato de U e como estava inclinada sobre os papéis, era possível ver um pouco dos seios dela. Ele balançou a cabeça e se levantou, talvez tenha feito algum barulho, pois ela levantou a cabeça e olhou para ele sorrindo.

— Resolveu acordar, Art? – ela largou o lápis em cima da mesa – Vou pegar o café da manhã pra você.

E saiu antes que ele pudesse protestar. Aproveitando a ausência dela, Artur foi tomar um banho. Quando saiu da banheira reparou que se esquecera de levar a toalha. Abriu um pouquinho a porta do banheiro e olhou pelo quarto: nem sinal de Ariadne. Por isso saiu do banheiro despido e foi até o guarda roupa procurar por uma toalha.

— Artur, você gosta de... – Ariadne escolheu este momento para entrar no quarto com uma bandeja nas mãos.

Colocou a bandeja na mesa e olhou para ele, que até o momento estava de costas. Tomou um susto ao encarar o bumbum nu dele. E tomou um susto ainda maior quando, por reflexo, ele virou-se para encará-la. A moça olhou para o chão e balbuciou alguma coisa antes de sair do quarto, deixando o homem ainda encarando o lugar onde ela estava segundos antes.

Ariadne saiu do quarto ruborizada. Ela tinha visto Artur nu, sem... sem nenhuma peça de roupa. E o... o... Ela parou no saguão de entrada do Realeza, sentou-se numa poltrona e respirou profundamente. Ela nunca tinha passado por tal cena. E se sentia estranha, não sabia explicar. Quer dizer, ela sabia o que estava sentindo, só não entendia. Levantou-se e pegou um copo d'água no bebedouro. Tentou se acalmar, logo Artur desceria atrás dela e mesmo que não descesse eles teriam um programa juntos à tarde.

Para pra pensar

Porque eu já me toquei,

Eu te escolhi

Você me escolheu, eu sei.

Artur vestiu-se rapidamente, antes que mais alguma coisa acontecesse. Pensou em ir atrás de Ariadne, mas resolveu dar um tempo antes de precisar olhar na cara dela. Sentou-se para tomar o café da manhã pensando no que acabara de acontecer. Tinha sido muito constrangedor, mas de alguma forma... Ele deixou a cabeça pender para trás, sabendo o que isso significava. Uma dor de cabeça ameaçava aparecer enquanto ele tomava seu cappuccino.

Quando terminou de comer já não tinha mais desculpas para não ir atrás dela. Entretanto, teimoso, não foi. Ficou sentado no mesmo lugar, pensando. Nunca a vira antes de trabalharem juntos, não criaram vínculos de amizade, nem mantiveram contato após a última extração de ambos. Ele ainda participara rapidamente de outro trabalho antes de voltar para casa. Em nenhum momento pensara nela durante todo esse tempo. Na verdade, a única mulher em quem pensava era Érica. Ela fora sua noiva – de verdade – e uma mulher que marcou sua vida. Ele nem sempre foi assim: reservado, calado, sério, "chato". Mas a Érica mudou isso.

Antes de conhecê-la, ele era tímido e acanhado, mas bem humorado. Ela era extrovertida, espontânea, maluquinha. Produtora de eventos, ela tinha uma personalidade totalmente oposta à dele. E não só a personalidade, mas também a vida. Caseira, morava com os pais, levava os sobrinhos ao parque, passeava com o cachorro, passava as férias em praias ou sítios da família e amigos. Ele era um solteirão, morava sozinho e não tinha família. Nas raras vezes que tirava férias, preferia cidades históricas. Com tão pouco em comum, tinham tudo para nunca se conhecerem.

Mas o destino tratou de mudar isso. Conheceram-se no casamento de Cobb e Mal. E foi amor à primeira vista. Começaram a sair juntos, as diferenças entre ambos parecia não existir. O tempo voava quando estava com ela e um dia que não a via parecia um mês. Estava perdidamente apaixonado, como nunca estivera antes. Não demorou muito a ser apresentado aos pais delas, ir com frequência a casa dela, saírem juntos em pequenas viagens, dormirem juntos. Artur então a pediu em casamento; ficaram noivos e se casariam dois meses depois. Ele acreditava que encontrara o amor de sua vida, viveriam juntos para sempre, confiava cegamente nela. Até que...

Traição é algo quase inaceitável. Se você não é fiel em um relacionamento, se busca outra pessoa é porque não está satisfeito com a pessoa atual. Você busca no amante o que não tem no relacionamento oficial. Artur só nunca soube o que ele não deu à Érica. Ela tinha seu coração, seu amor, além dos seus pensamentos. Ele estava completamente entregue, por isso foi tão duro e difícil perceber, aceitar e superar a infidelidade dela. Não conseguiu esquecê-la e não pensou em nenhuma outra mulher durante muitos anos.

Tá escancarado

Vai negar pro coração

Que você tá com sintomas de paixão

Até cinco dias atrás.