Ariadne levantara-se e foi para o jardim onde havia algumas cadeiras, mesas e banquinhos de concreto onde os hóspedes podiam sentar-se e aproveitar o ambiente. Sentou-se perto de uma árvore e observou os outros ao seu redor. Casais abraçados, conversando, comendo juntos, jogando e até mesmo dormindo. Independente do que estavam fazendo, podia-se perceber o cheiro do amor no ar. Exceto por um casal próximo a entrada para o hotel, eles estavam discutindo. O homem segurou a mulher pelo braço, mas esta se soltou, falando algo, e saiu de perto dele indo em direção a arquiteta. Ariadne a reconhecia da noite de apresentação, chamava-se... Leila.

Leila sentou-se ao lado de Ariadne chorando.

— Desculpe – a arquiteta falou um tempo depois – Mas você é Leila?

— Sim – Leila enxugou os olhos.

— Eu não pude deixar de notar – Ariadne falava com cautela – Que você e seu marido estavam brigando. Eu não sei qual o motivo, mas não fique assim.

Leila olhou para ela sorrindo.

— Eu sei que não devo chorar, mas não consigo conter meu ciúme – ela olhou para o chão – Juro que tento! Mas ele trabalha com tantas mulheres e elas o adoram, ele é encantador – falou com orgulho – Fico com medo de perdê-lo e às vezes me descontrolo.

— Eu sinto muito – Ariadne não sabia o que dizer – Não deve ser uma situação muito agradável.

A outra assentiu enxugando os olhos mais uma vez.

— Você não deve passar por isso, hein? – Ariadne a olhou assustada – Você não é Ariadne? Noiva do... Artur? Vocês trabalham juntos, não é mesmo? – Ariadne concordou – Então deve ser mais difícil sentir ciúme dele.

Ariadne sorriu por falta de uma reação melhor. Não sentia ciúme do Artur, isso era verdade. Mas não era bem por trabalharem juntos – se bem que ela era a única garota da equipe. Não havia como explicar sua situação, então preferiu não se pronunciar.

— Aliás, cadê ele? – Leila perguntou olhando para os lados – Eu vi você há alguns minutos no Saguão, pensei que estivesse esperando-o.

— Er... Ele está no quarto.

— Vocês brigaram também?

— Não. Na verdade, é bem mais complicado que isso.

— Então me explique!

Será que podia confiar nela? Ariadne estava há seis dias no hotel e não conversara com quase ninguém. As conversas eram banais, apenas cumprimentos e comentários sobre o tempo, a comida. Mas agora ela tinha a chance de conversar de verdade com alguém, e precisava falar.

— Bem... – não sabia por onde começar – Resumidamente, eu o vi sem roupa.

— E o que há de mais nisso? – Leila levantou uma sobrancelha confusa – Não vá me dizer que vocês nunca... – ela estava incrédula agora – É a primeira vez que o viu assim?

Ariadne balançou a cabeça confirmando. Estava arrependida por ter falado para ela, não parou para pensar no quanto isso soaria estranho.

— Agora que aconteceu, aposto como se sente diferente – Leila concluiu – E aposto também como a relação entre vocês se tornou insuficiente para você. Quer algo a mais. Mais intimidade.

A arquiteta apenas baixou a cabeça, fazendo a outra rir. Leila estava certa, Ariadne sabia; apesar de não ser bem como sua colega pensava que era. Sim, a relação de "amizade" entre eles não era mais satisfatória. Ela queria algo mais do que conversar com ele sobre os desenhos que fazia. Queria que fossem mais íntimos.

— Eu não sei o que fazer – Ariadne falou mais para si do que para Leila.

— Tome uma atitude, garota – a colega olhava para ela séria – Mostre a mulher determinada que existe em você. Acredite, os homens gostam quando tomamos atitudes de vez em quando.

Elas ficaram conversando sobre outros assuntos até a hora do almoço, quando Leila levantou-se e foi procurar o marido – tinha que se desculpar pelo ciúme bobo de mais cedo. Ariadne criou coragem e levantou-se indo para o quarto. Fingiria que nada tinha acontecido e se Artur tentasse falar sobre aquilo ela não deixaria. Até o final do dia pensaria se seguiria ou não o conselho que recebera: tomar uma atitude.

Quando estava chegando ao quarto, o pointman abriu a porta e saiu. Foi inevitável o constrangimento, mas ela respirou fundo e se acalmou.

— Ariadne, eu sinto muito por hoje mais cedo. Eu...

— Não, Artur. Vamos fingir que nada aconteceu.

É quando os olhos se caçam

Em meio à multidão

Eles desceram para o almoço e tentaram agir normalmente, como antes. Mal sabiam que isso era impossível. Ariadne tentou manter uma conversa descontraída com ele até a hora do passeio deles no lago – marcado para depois do almoço.

— Vamos fazer um jogo, Art?

— Que jogo?

— Um jogo de confissões – ela decidiu seguir o conselho de Leila – Você faz uma confissão, depois eu, depois você de novo e assim por diante. Pode ser qualquer coisa.

— Tudo bem! – ele ainda não entendera muito bem para quê esse jogo – Você começa!

— Hum. – ela pensou, teria que começar com algo bobo – Eu nunca tirei uma nota abaixo da média em toda a minha vida escolar.

— Eu me formei em direito, mas nunca exerci a profissão.

— Já trabalhei meio período em uma boate – ela sorriu – Para conseguir dinheiro para a formatura do Ensino Médio.

— Trabalhei um tempo numa delegacia. Eu era policial.

— Eu gosto muito de ler, de verdade.

— Gosto de ler biografias.

— Meu prato favorito é sushi – ela acrescentou – Sou fã da culinária oriental, da nipônica em especial.

— Gosto de comida italiana.

— Hoje foi a primeira vez que vi um homem nu – ela jogou a isca – Pessoalmente.

Ele não acreditou no que ouviu. Ela estava falando sobre o que acontecera com a naturalidade de quem fala sobre um filme em cartaz no cinema.

— Hum – pego de surpresa pelo que ela falou, Artur precisou pensar sobre a próxima coisa a dizer – A minha primeira noite com uma mulher foi depois dos 20 anos.

Caiu na rede, é peixe. Ariadne sorriu por dentro, ela sempre gostou de peixe (não é a toa que come sushi aos montes).

— Porque eu não estou surpresa?! – ela ironizou com um sorriso – Pelo menos você já dormiu com uma mulher, eu nunca dormi com um homem.

— Eu não me relaciono com uma mulher há três anos.

— Relaciona-se?

— É – ele sacudiu a cabeça – A última vez que beijei uma mulher foi há três anos. Deu pra entender?

— Não! – ele tomou um susto quando ela disse isso – E eu não conto? Você me beijou há uns seis meses atrás!

Ela estava jogando todas as iscas que tinha de uma vez só. Não sabia se teria outra oportunidade como esta.

Artur estava perplexo.

— Mas aquilo foi um sonho – o que ele poderia dizer?

— Ou um pesadelo – ela piscou um olho – Eu nunca tive um namorado.

— Não vou ficar surpreso se disser que sonhava em ser freira – sorriu – Eu não tenho família. Meus pais morreram e não tenho irmãos.

— Sinto muito!

Mas nessa hora um garçom chegou trazendo o almoço. Depois disso não tiveram mais tempo para continuar o jogo. Um funcionário apareceu para levá-los ao próximo programa. Caminharam até a entrada do que parecia ser um túnel do amor, semelhante àqueles dos parques.

— Queiram entrar, senhores – o funcionário falou apontando para um barquinho – Se repararem bem o barco possui pedais, então é só pedalarem pelo túnel até o cais do outro lado. Terá alguém esperando por vocês.

É quando a gente se esbarra

Andando em qualquer direção

Era quase como andar de bicicleta, exceto que o barco cansava mais. Entraram no túnel e este era decorado com corações, luzes vermelhas, esculturas de cupidos, flores e balões. Continuaram pedalando até ver o fim do túnel, imaginaram que ali encontrariam o cais. Quando saíram viram uma imensidão de água a frente. O lago do Realeza era digno de aplausos. Artur se perguntou de que tamanho seria o terreno do hotel, tal era o diâmetro do lago. Demoraram um bom tempo para chegarem ao cais. Estavam cansados com o esforço para mover o barquinho a pedaladas.

— Boa tarde! – uma senhora os recebeu – Gostaram do passeio? É lindo aqui. Venham, sentem-se.

Ela os conduziu a uma mesinha de madeira e cadeiras combinando e se retirou. Olhando ao redor, Ariadne viu que havia outros casais ali. A senhora que os recebeu voltou trazendo cocos gelados e um prato com petiscos. Ao que parecia, tentaram reproduzir uma praia ali. Não era nem de longe parecido, mas deveriam ser parabenizados pelo esforço. O chão em que pisavam era de areia e coqueiros tinham sido plantados ao redor daquela área.

Quando terminaram de comer, eles foram informados de que poderiam voltar ao hotel se quisessem. Mas de qualquer forma, teriam que voltar no barco, refazendo todo o trajeto inicial. Encaminharam-se preguiçosamente ao barco e chegaram ao hotel, exaustos. Não parecia, mas pedalar aquele barco cansava.

Ariadne entrou no quarto e se sentou na cama, estava tão enfastiada que nem conseguia pensar em tomar alguma atitude com relação ao pointman naquele momento. Inclinou o corpo para trás e deitou. Artur jogou-se ao seu lado na cama, esgotado. Ela sentiu um nervosismo ao perceber isso, mas foi vencida pelo sono e dormiu antes que conseguisse pensar em mais alguma coisa. Ele também adormeceu logo em seguida.

Enquanto dormia Ariadne rolou pela cama até se aconchegar em Artur, apoiando a cabeça sobre o peito dele. Este dormia tão profundamente que nem percebeu. Mais tarde, quando acordou e percebeu onde estava, espantou-se quase acordando a moça. Felizmente, esta só virou-se para o outro lado saindo de perto dele, ainda dormindo. Ele aproveitou-se disso para sair da cama e ir para a poltrona. Não custou a dormir.

Quando indiscretamente

A gente vai perdendo o chão,

Vai ficando bobo

Vai ficando bobo

Ariadne estava olhando para a lousa onde o professor acabara de escrever um dever para casa. Ele falava algo que ela não entendia, mas sabia que deveria tomar nota. Olhou para o lado e Eames sorriu para ela antes de voltar a anotar o que estava no quadro. Na carteira do outro lado, Yusuf dormia descaradamente. O que eles estavam fazendo ali com ela? Havia conversas paralelas em algum lugar da sala, ela podia escutar vozes falando. O professor chamou a atenção da turma batendo com os nós dos dedos no quadro, ela olhou para ele: era Artur. Ele continuava batendo, batendo e batendo.

A cena se desfez e ela abriu os olhos acordando. A batidas continuavam e as conversas vinham do lado de fora do quarto, alguém batia na porta. Estava muito sonolenta para conseguir se concentrar no que diziam.

— Pombinhos, acordem! – uma voz feminina desconhecida disse – Acordem e abram a porta para nós. Trouxemos o café da manhã.

— Este é o último dia de vocês aqui – outra voz, masculina – Acordem para aproveitar o lindo dia que está fazendo lá fora.

— Não tem jeito, eles não acordam – a primeira voz – Teremos que abrir a porta.

— Mas e se eles estiverem vestidos inapropriadamente? – uma terceira voz, quantas pessoas estavam ali?

— Tem uma ideia melhor? – a segunda voz – Me dê o molho de chave! – som de chaves – Agora é só descobrir qual destas chaves é a certa.

— Vá tentando todas! – barulho de chave na fechadura.

Quando se deu conta do que estava acontecendo, Ariadne arregalou os olhos, assustada. Tratou de tentar acordar Artur. Chamou baixinho por seu nome, tentou cutucá-lo com o braço, mas ele não estava próximo o suficiente para isso. Jogou uma almofada nele e obteve sucesso.

— O que foi? – ele acordou desnorteado.

— Shh! – ela pôs o dedo indicador nos lábios e sussurrou – Fale baixo. Tem gente lá fora, vão entrar. Venha, venha para cama.

Ele demorou a entender, mas quando caiu à ficha saiu rapidamente da poltrona levando cobertor e almofadas para cama. Jogou tudo de qualquer jeito e deitou-se ao lado de Ariadne, tentando encontrar uma posição adequada.

— Tem que parecer que acabamos de acordar – ela deitou-se meio de lado e ele a abraçou, passando o braço por sua cintura – Artur, o que é isso?

— Desculpe, mas todo homem acorda assim. Desculpe! – ele se afastou um pouco dela, para diminuir o incômodo por causa do...

— E todos têm um brinquedinho desse tamanho? – ela perguntou irritada, dava pra sentir mesmo por sobre a calça jeans dele.

Artur tomou aquilo como um elogio e sussurrou, tocando a orelha dela com os lábios enquanto falava.

— Se quiser, nós podemos brincar mais tarde!

Ariadne arregalou os olhos, não acreditando no que ouviu, mas não teve tempo para responder. Três funcionários do hotel entraram empurrando um carrinho com uma bandeja com o café da manhã deles. Sopraram um apito e jogaram confete sobre eles.

— Acordem, vistam-se com roupas confortáveis. Têm todo o dia livre e à noite teremos uma surpresa para vocês – a mulher falou abrindo o guarda roupa e olhando para as roupas – Para a noite, vistam trajes finos.

— Andem, levantem-se! – e saíram.

Ariadne tentou levantar. Estava adorando ser abraçada por Artur, mas a situação não estava permitindo que pensasse coerentemente e a última coisa que queria fazer era cometer algum erro. Só tinha mais um dia para tomar as atitudes certas nos momentos certos. No entanto, Artur não a deixou levantar. Segurou-a firmemente pela cintura, mantendo seus corpos colados. Ela ofegou quando ele sussurrou, os lábios dele no seu pescoço:

— Pode deixar Pequena. Eu pego o café da manhã pra você.

Quem estava jogando, agora? Deveria ser ela a fazer essas cenas, deixá-lo sem graça, desconcertado, provocá-lo. Mas estava acontecendo justamente o contrário. Será que devia criar esperanças?

— Prontinho! – ele trouxe uma xícara e biscoitos para ela – Café na cama.

Ele estava na frente do guarda roupa escolhendo o que vestir, enquanto ela pensava rapidamente num jeito de virar o jogo. Teria que jogar o joguinho dele e aproveitar a primeira oportunidade que aparecesse para tomar uma atitude.

— Vai tomar banho, Art? – ela perguntou tomando um gole do chocolate quente, ele balançou a cabeça confirmando – Posso ir com você?

— Haha, claro querida! – ele piscou para ela antes de entrar no banheiro.

Ela colocou a xícara sobre a mesinha de cabeceira e foi até o banheiro. A porta não estava trancada por isso ela entrou. Artur tinha acabado de tirar a calça jeans quando ela entrou, ficando apenas de cueca. Virou-se assustado, parecia não esperar pela entrada dela. Ariadne não falou nada, apenas olhou para a cueca Box dele e passou a língua pelos lábios antes de se aproximar devagar. Segurou ambas as mãos dele e as levou até a própria cintura. Colocando, em seguida, os braços em volta do pescoço dele e acariciando-o com a ponta dos dedos.