Capítulo 2 – Encontros e esconderijos
Acordei com a minha mãe gritando no meu ouvido. Maneira mais gentil de assustar alguém impossível. Levantei cambaleando da cama e fui direto para o chuveiro tomar um banho bem gelado. Saí do banheiro com a toalha enrolada na cintura, me demorei um pouco mais na frente do espelho. O trabalho do chalé de Hefesto já tinha dado algum benefício. Meus braços e peitoral de nerd não eram mais tão subnutridos, podiam até ser chamados de fortes, ou musculosos.
Mas ainda não eram nada comparadas as montanhas escondidas dentro da pele de Douglas Baker.
Mais conhecido como Dough, o garoto era um monstro, quase dois metros de altura, bíceps, tríceps e não sei o que mais terminados em "ceps" gigantes, olhos azuis e cabelos castanho-escuros. Ah, e nada de cérebro. Nada mesmo. A coisa mais inteligente que eu já o ouvi dizer foi:
- Um pintinho nasceu sem uma pata, então colocou um palito de fosforo no lugar. E quando foi ciscar BOOM explodiu.
E a melhor parte sobre ele: Ele namora com Silena Beauregard.
Vesti a primeira roupa que achei no armário e peguei uma torrada enquanto passava pela cozinha. Desci pelo elevador e vi meus 2 melhores amigos, Micali Rousseau e Drew Manson, me esperando. Depois de alguns bocejos todos seguimos nosso caminho para a escola. Passamos perto de uma lanchonete, e Micali conseguiu achar um bolinho abandonado em uma mesa.
- Olhem! Um bolinho! – ela o admirou como se fosse ouro – Tão solitário...
- Você realmente vai comer uma coisa que você achou em cima de uma mesa vazia de uma lanchonete quase falida? – falou Drew –
- O que não mata engorda. – ela deu os ombros e pegou-o -
-Tecnicamente... O que engorda tem colesterol, e colesterol mata, então o que não mata... Mata. – disse Drew –
Micali olhou para o nada e largou o bolinho. – Obrigada Senhor Wikipédia ambulante. – ela ironizou – Acabou com o meu lanchinho.
- Eu pelo menos tenho nome de gente. – ele rebateu –
- Quem você está acusando de ter nome de animal? – a morena disse com o olhar assassino – Para sua informação, é francês.
Nem me preocupei em ouvir o resto da discursão, todo dia é a mesma coisa. Se eles não estão brigando por causa do preço dos hambúrgueres, é sobre qual filme deveríamos ver ou de quem é a culpa da guerra no Oriente Médio.
Chegamos ao colégio e os dois pareciam já ter se entendido. Depois que passamos pela porta de entrada cada um foi para um lado, já que nossos armários são muito distantes um do outro. Cheguei no meu e comecei a trocar as coisas da mochila pelos do armário, quando eu vi um monte de cabelos loiros no final do corredor.
Era ela, eu não sei como, mas eu tinha certeza. Entrei em pânico. Fechei o armário com um gesto repentino e com forca desnecessária. Andei/corri na direção contrária no corredor, tudo estava indo bem.
Até eu a ouvir chamando meu nome.
Passei pela primeira porta que eu vi. Era um armário de produtos de limpeza, pena que já estava sendo usado.
- Ei! – falou a garota morena – Chegamos aqui primeiro. – ela apontou para um garoto loiro de olhos arregalados –
- Pode ir saindo. – então o casal voltou a se beijar –
Não tive outra opção a não ser sair daquele lugar. Abri uma fresta da porta e olhei pela extensão do corredor, não a vi. Saí e comecei a andar normalmente, quase não tinha ninguém no corredor.
Doce ilusão.
- Oi Charlie. – uma voz doce falou atrás de mim. Virei-me. –
- Oi Silena. – dei um sorriso amarelo –
Um grupo de garotas a alguns metros cochichavam e soltavam risinhos. Pude reconhecer as melhores amigas de Silena. Ótimo, agora ela chamou as amigas para rirem de mim também. Senti o sangue nas minhas veias esquentarem.
- Tudo bem?
- Perfeito. – respondi com os olhos ainda nas amigas dela, elas pareceram notar alguma coisa e pararam de rir –
- Tenho que ir. – respondi, frio –
- Tchau. – sua voz se resumiu em um miado –
Saí andando e passei do lado das garotas risonhas. Encontrei Drew do lado da porta da sala de história.
- Demorou por quê?
Contei-lhe tudo, desde o dentista ao encontro no corredor.
- Cara, você é absurdo. Silena Beauregard está sendo legal com você e você fica imaginando coisas aí...
Acho que ele não entendeu bem a história, ou eu que não contei direito. De qualquer jeito, ele pelo menos me convenceu anão ficar com raiva dela. Não que fosse difícil, eu nunca consegui ficar com raiva de alguém por muito tempo mesmo.
A última aula do dia era educação física. Depois de Dough ter, sem motivo aparente, me acertado cruelmente todas as bolas de queimada que conseguiu, fui para o vestiário me trocar. Logo após sair do ginásio, uma mão segurou meu pulso. Reconheci os olhos azuis profundos e os impecáveis cabelos loiros.
- Oi Silena. – disse e me senti orgulhoso por não gaguejar –
- Oi. – ela abriu um sorriso perfeito – Eu queria saber se você poderia me ajudar em gramática.
- Ahn... OK. Er... Quando você quer começar?
Isso, gagueje idiota!
Essa foi a minha mente brigando comigo?
- Pode ser amanhã às seis horas?
- Claro.
- Então até lá.
- Até...
Ela se virou e começou a caminhar.
- Espera!
- Hum? – ela falou por cima do ombro –
- Por que eu?
- Bem... Eu fui à sala da professora com o Douglas hoje de manhã e ela te indicou.
-Ah. Ok.
- Tchau. - ela disse –
Nem consegui responder.
Ele sabia. Essa era a razão de violência excessiva na queimada.
Ferrei minha vida.
